Desconsolado

No peito um coração desengrenado
badala erroneamente cada instante
e espaços desocupam-se pela vida.

Nesta moldura, o tempo se estreita,
nenhum encanto dura, e o espanto
de uma estação a outra é esquecido.

Há névoa nas palavras? Limpe-as…
Pureza em demasia? Não será em vão?
E se for apenas silêncio? O som?

Esta canção de pássaro, estranho
aviso insolente deformando o vento,
nela é que tudo se transporta.

A paisagem é de uma sorte aleatória.
O destino? Vive também em seu peito,
numa árvore que pode ser esbulhada.

O desapego despega-se, reapega-se
e imagens novas rasuram-se aos olhos
fazendo como faz um sol encoberto:

o que ali está, está além do alcance
de todos. Uma sabedoria indisponível,
um desconsolo tão grande, o de um poeta.

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Quando fores bem velhinhaQuando fores bem velhinha


William Butler Yeats
(13/06/1865 – 28/01/1939)

Quando fores bem velhinha, já grisalha e, exausta de sono,
Pestanejares junto ao fogo da lareira, toma este livro,
Lê com calma, e sonha com o olhar um pouco mais vivo,
Como o que tiveste outrora, sem as sombras do abandono;

Quantos, falsos ou verdadeiros, amaram a encantadora
E fugaz beleza da juventude, quando era simples e fácil,
Mas um homem só amou com efeito a peregrina em tua alma,
E amou em teu rosto as sombras que podes ver agora;

E, curvando-te em direção às chamas incandescentes,
Resmungas, tristonha, de qualquer amor distante
Que sobrepassou colinas, montanhas adiante,
Desaparecendo da mesma forma que as estrelas cadentes.

§

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

Amazona feridaAmazona ferida

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Com seu rosto sereno e inclinado que nunca
denunciaria a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu porte

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu gostaria de ter

Aprendido cedo suas lições e que você
Não me tivesse visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você me quer assim,
O terror branco ocultando meus olhos vazios,

O freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse minhas costas curvas e vazias o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Mas ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não permitiria

Que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.

Pelos meus cálculosPelos meus cálculos

Três minutos é o tempo que o ar resiste
dentro do corpo, de onde não há escape.
E tudo o que ele atinge, guarda ou conserva
se perde de uma só vez, num disparate.

Leva tempo para se entender algumas coisas,
uma vida às vezes nem é o suficiente
e o que se percebe nem sempre é tão claro,
mas tudo existe em medidas diferentes.

O tempo e suas horas, minutos, segundos.
A sua casa é uma espiral circundante
na qual todos podem inventar de tudo
até que tudo se torne redundante…

Aprendi isso por nada, olhando o céu
e, no chão, o rastro dos pés dos animais.
Meu calculismo é pensar por comparações
até que, por um excesso, fica demais.

Três minutos é muito tempo. Quanto leva
o boi, errando de vereda em vereda?
O bom animal nunca pensa que morreria
tocado pelo homem no cavalo, o que assovia.

Três minutos é muito pouco. Quanto dura
viver a vida em resumo? O que importa
se ganhaste apenas dinheiro? Apenas fama?
Ou vulto? Vale do quê, mesmo, a sabedoria?

Olhando ignorante os degraus da escada,
pensei no que daria por um minuto mais…
Daria tudo, é claro, e corri abaixo
salvando a mim mesmo de forma incidental.

Pelos meus cálculos, não tenho para muito,
e porque a vida não se retém em fotografia,
os pés não param e o olhar nunca repousa.
Nada desdenho, só mal reparo – eis minha escusa.