Dia: 6 de junho de 2026

NêmesisNêmesis

Volto ao livro que o mar me devolveu
do ventre escuro daquele monstro raro —

as páginas rotas vieram foi de um inferno
das profundezas azuis, do mais interno,

borradas, desfeitas, inolentes, sem cor.
Ao espelho, o monstro se parece a um inocente.

A pele rasgada era dura como as ostras.
Ele? Cheio d’água, vísceras à mostra..

Ninguém me caça, diz. Ninguém me pesca..
Estar sozinho e quieto é o que ele busca.

Rente ao dorso uma vez só dormiu uma sereia,
mas de encanto quebrado — morta baleia.

Andou por todos os mares, foi o que disseram.
No porto, os marinheiros nunca souberam.

Coxo, arrasta-se na rampa para o acerto final
com outro monstro ainda maior, nêmesis letal

que o afundará em funduras e fissuras. Lá,
o livro morrerá com suas páginas destorcidas.

O fausto de sempre. Até emergir em outro, expondo
a tantos queiram o seu fatídico tesouro.