Volto ao livro que o mar me devolveu
do ventre escuro daquele monstro raro —
as páginas rotas vieram foi de um inferno
das profundezas azuis, do mais interno,
borradas, desfeitas, inolentes, sem cor.
Ao espelho, o monstro se parece a um inocente.
A pele rasgada era dura como as ostras.
Ele? Cheio d’água, vísceras à mostra..
Ninguém me caça, diz. Ninguém me pesca..
Estar sozinho e quieto é o que ele busca.
Rente ao dorso uma vez só dormiu uma sereia,
mas de encanto quebrado — morta baleia.
Andou por todos os mares, foi o que disseram.
No porto, os marinheiros nunca souberam.
Coxo, arrasta-se na rampa para o acerto final
com outro monstro ainda maior, nêmesis letal
que o afundará em funduras e fissuras. Lá,
o livro morrerá com suas páginas destorcidas.
O fausto de sempre. Até emergir em outro, expondo
a tantos queiram o seu fatídico tesouro.