Poesia Nêmesis

Nêmesis

Volto ao livro que o mar me devolveu
do ventre escuro daquele monstro raro —

as páginas rotas vieram foi de um inferno
das profundezas azuis, do mais interno,

borradas, desfeitas, inolentes, sem cor.
Ao espelho, o monstro parece inocente.

A pele rasgada era dura como as ostras.
Ele? Cheio d’água, vísceras à mostra..

Ninguém me caça, diz. Ninguém me pesca..
Estar sozinho e quieto é o que ele busca.

Rente ao dorso uma vez só dormiu uma sereia,
mas de encanto quebrado — morta baleia.

Andou por todos os mares, foi o que disseram.
No porto, os marinheiros nunca souberam.

Coxo, arrasta-se na rampa para o acerto final
com outro monstro ainda maior, nêmesis letal

que o afundará em funduras e fissuras. Lá,
o livro morrerá com suas páginas destorcidas:

o fausto de sempre, até emergir noutro, expondo
a tantos queiram o seu fatídico tesouro.

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Carvalho queimando, novembroCarvalho queimando, novembro

Joyce Carol Oates (1938-)
trad. do inglês

Ontem, encontramos o céu
todo repartido em fileiras. Ar,
quase insuficiente.
Vimos o tronco de um velho carvalho, do tamanho

de um homem, queimando sem incendiar
à beira de uma clareira – galhos estilhaçados,
raízes esmagadas e expostas.
Até as formigas saúvas fugiram

com o cheiro do antigo sofrimento
vindo à público, e as velhas esperanças reveladas –
tudo no passado! – agora sem copa, sem folhas,
um toco derrubado sobre a terra

e a alma apenas choraminga, esfumaça,
e se propaga lentamente, sem graça,
num céu indiferente que ninguém pintará,
ou fotografará, ou verá –
exceto nós: ontem.

Nesta noite, neste mundoNesta noite, neste mundo

Alejandra Pizarnik (1936-1972)
trad. do espanhol

nesta noite, neste mundo
as palavras do sonho de infância de quem morreu
nunca são o que alguém deseja dizer
a língua materna esteriliza
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado por sua própria língua
que é o órgão da recriação
do reconhecimento
porém não o da ressurreição
nem o da negação
do meu horizonte de maldades e seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio –
apenas que o silêncio não existe

não
as palavras
não criam o amor
criam a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

nesta noite, neste mundo
é extraordinário o silêncio desta noite
o que acontece com a alma é que não se vê
o que acontece com a mente é que não se vê
o que passa com o espírito é que não se vê

de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
são recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura –
os corredores escuros
percorri a todos
oh! fica um pouco mais entre nós

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem ergue uma faca na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh! fica um pouco mais entre nós!

os resquícios das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
o que fizeste do dom do sexo?
oh! meus mortos
eu os engoli, me engasguei
não posso mais dominar

palavras abafam-se
tudo desliza
até a negra liquefação

e o cão da maldade
nesta noite, neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

eu digo
sabendo que não se trata disso
nunca se trata disso
oh! ajuda-me a escrever o poema mais prescindível
o que não sirva nem para
ser imprestável
ajuda-me a escrever palavras
nesta noite, neste mundo