Ibajé e Sepé

Existe uma estrofe no “Lunar de Sepé”, poema recompilado por João Simões de Lopes Neto presente desde a primeira edição de “Lendas do Sul”, que eu acho muito curiosa. A passagem envolve uma referência ao momento em que Sepé vai ao extremo sul da estância de São Miguel, imediações da controversa redução de San Andres de los Guenoas, onde teria vivido (ou ainda viveria) um certo cacique Ibajé.

Os versos dizem o seguinte:

“Era a lomba da defesa,
Nas coxilhas de Ibagé,
Cacique muito matreiro
Que nunca mudou de fé;
Cavalo deu a ninguém…
E a ninguém deixou de a pé…”

A essa altura dos acontecimentos de sua breve vida, na posição de alferes, Sepé já tinha conhecimento das mobilizações militares que culminariam primeiro em sua morte e a seguir no massacre de Caiboaté. Lusos e hispânicos dividiam palmo a palmo a nova demarcação que desejavam para a “terra de ninguém” e Sepé foi até lá para ter uma conversa com os ditos demarcadores, da qual teria derivado a famosa declaração que a ele se atribui: esta terra tem dono.

Os relatos desta conversa existem mesmo, apesar de controversos e nebulosos. Estão nos diários da expedição de Gomes Freire, numa anotação de um capitão luso. Também existe a lomba a que se refere Simões. É uma longa região da planura que se escora no escudo rio-grandense, formação geológica que modifica o aspecto geográfico da região pampeana, dobrando seus campos desde Aceguá até além da região de Caçapava do Sul, quase no centro do estado.

Os indígenas valiam-se dessas dobras geológicas (canhadas) para surpreender seus inimigos, pelo menos aqueles incautos que desconheciam sua perícia guerrilheira. Não me parece ser o caso do cacique Ibagé, nativo e conhecedor desses lugares. Sepé era perito nessas táticas de emboscada e, não tivesse o seu cavalo posto a mão numa cova de tatu, não teria sido lanceado da forma que foi. Nicolau Nenguiru, que assumiu a liderança e revanche dos tapes não tinha esse cuidado tático e acabou levando o exército guarani ao doloroso massacre dos indígenas missioneiros, numa batalha em campo aberto.

Mas o meu caso aqui não é o bem conhecido destino de Sepé e das missões jesuíticas. Eu fico curioso é com o “matreiro cacique” que teria dado nome à minha cidade natal.

Simões nos diz que o cacique era um infiel (um charrua ou minuano que “nunca mudou de fé”), que provavelmente vivia nos matos em torno do arroio que também leva seu nome (matreiro tem esse significado na região, de quem se esconde nos matos) e que, todavia, não se pode entender qual a atitude teve para com estes ou aqueles.

Cavalo deu a ninguém… / E a ninguém deixou de a pé…

Mas o que significa isso? Primeiro, é claro, que o dito cacique não ajudou a ninguém, não tendo emprestado um cavalo sequer. Segundo, sugere que o chefe indígena teria mesmo é ceifado a vida de muita gente. Mas de quem?

As opções são poucas.

1) teria colaborado com os tapes e matado adversários ibéricos

2) seria aliado dos portugueses e teria matado os guaranis (segundo uma lenda, tendo inclusive participado da morte de Sepé)

3) o indivíduo nunca existiu além da lenda (é o que dizem os historiadores lusitanistas, baseados nas anotações do topógrafo José Saldanha, reiteradas por investigadores de gabinete, como o bajeense Félix Contreira Rodrigues, Aurélio Porto, Mansueto Bernardi e tantos outros. Mansueto (o todo-poderoso da Revista do Globo), num artigo jocoso publicado no Correio do Povo nos anos finais da década de 50, sugere que, “enquanto não se apresente certidão, fé de ofício e atestado de residência, o cacique não passará de um vago e desengonçado lobisomem”.

Um aspecto que prejudica até mesmo a pesquisa historiográfica recente é que ela se vê muitas vezes na situação de valer-se de um conhecimento fixado no começo do séc. XX, tempo no qual foram forjadas interpretações no mínimo complicadas a respeito dos povos indígenas e permedas também por uma espécie de ficção historicista, em páginas muitas vezes abertamente racistas e desumanizantes. Seja como for, foram os primeiros sistematizadores do conhecimento de que hoje dispomos – e que continua sendo escasso, mas felizmete agora atravessado por outras epistemologias.

Sem dúvida, Simões Lopes Neto viveu mais próximo do tempo da tradição oral do que nós vivemos do folclore inventado por ele e a partir dele. O nosso distanciamento é total, apenas quase podemos lidar com o que os outros disseram e escreveram. Isso é bom, por um lado, porque nos obriga a rever os fios desse tramado histórico e examinar a qualidade desses alinhavos. Mas é ruim, porque quebra a nossa imanência com a raiz indígena.

Na literatura, os vestígios desse contato surgem de forma tão extemporânea que se inscrevem sempre numa posição marginal. O indígena não ocupa o centro nem é reconhecido como origem. Seja Sepé ou Ibajé, sua existência aparece invariavelmente em relação ao outro: numa eliminação e no registro de uma negação. Trata-se de uma expropriação de sua memória, de sua evocação e também de seu espírito. Sua identidade, assim, não é afirmada por si mesma, mas constituída por atribuição externa e por uma espécie de descriação simultânea.

A negação de Ibajé é a mesma que se cria quanto a Sepé e se reproduz na mesma querela historiográfica. Inclusive geograficamente, no nome duas cidades. A cidade de Bagé se descaracteriza dos povos que a habitavam originalmente, os guenoa-minuanos. E o município de São Sepé, fundado em 1876 já com esse nome, tem sua designação desvinculada de José Tiaraju, colocando-se uma interposição com uma suposta localidade chamada “San Sepe”.

Este é o mundo político, no qual a literatura pouco intervém. No literário, pelas mãos de Simões Lopes Neto, que diz ter recebido a lenda de uma mestiça (artifício ancestral) felizmente Sepé volta a ser um santo popular do povo missioneiro e de todo o povo gaúcho. E Ibajé, sim, é mais um índio matreiro e minuano cuja história real se perdeu ao mesmo tempo que se fundiu ao vento que leva o seu nome.

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Quem sabe aonde o tempo vai?

No céu noturno, todos os pássaros vão embora
Mas como eles sabem que é hora de partir?
Antes do fogo do inverno, ainda estarei sonhando
Mas eu nunca penso no tempo

E, afinal, quem sabe para onde vai o tempo?
Quem sabe onde o tempo vai?

A praia está triste e deserta, seus amigos incertos partiram
Ah, mas então você sabia que era hora de eles irem
Mas eu ainda estarei aqui, não penso em sair
Eu nunca nem conto o tempo

Pois quem sabe para onde vai o tempo?
Quem sabe onde o tempo vai?

Eu não estou sozinha enquanto o meu amor está próximo
Eu sei que vai ser assim até a hora de partir
Então vêm as tempestades de inverno
E depois os pássaros na primavera outra vez
Mas eu não tenho medo do tempo

Pois quem sabe como o meu amor cresce?
E quem sabe para onde vai o tempo?

Who Knows Where The Time Goes

Across the evening sky, all the birds are leaving
But how can they know it’s time for them to go?
Before the winter fire, I will still be dreaming
I have no thought of time

For who knows where the time goes?
Who knows where the time goes?

Sad, deserted shore, your fickle friends are leaving
Ah, but then you know it’s time for them to go
But I will still be here, I have no thought of leaving
I do not count the time

For who knows where the time goes?
Who knows where the time goes?

And I am not alone while my love is near me
I know it will be so until it’s time to go
So come the storms of winter and then the birds in spring again
I have no fear of time

For who knows how my love grows?
And who knows where the time goes?

Mantiqueira rangeMantiqueira range

Essa mania que tinha o Tom Jobim de batizar em inglês os nomes de suas músicas me induziu por anos a uma sucessão de erros que não faz muito descobri incorrer.

O primeiro dos erros era atribuir a ele (e não ao seu filho Paulo) a composição “Mantiqueira Range”, gravada em 1973, no seu “Matita Perê”.

Eu lia “Mantiqueira range” obviamente como tradução de “Serra da Mantiqueira”. Segundo erro. É “range” de ranger mesmo. Está na letra que eu também desconhecia, de autoria de Ronaldo Bastos e com o artigo “A” antes de “Mantiqueira range”, para não deixar dúvidas.

Outro. Sempre achei que era uma composição inteiramente instrumental como as que Tom gravou nos seus discos orquestrais. Não era. Erro três.

Há uns dias eu lia que a serra da Mantiqueira é uma cadeia montanhosa que é apenas parte superior de uma entidade geológica subterrânea, a Província Mantiqueira, um dos escudos da Plataforma Sulamericana (o outro é o Cráton do São Francisco), que une (no subsolo) o Rio da Prata à Bahia, passando pelo Rio Grande do Sul, aprofundando-se no Paraná e ressurgindo São Paulo acima, onde a serra se mostra mais evidente.

Quando na letra Ronaldo Bastos diz que “vi a Mantiqueira falar” é ao rangido tectônico a que ele se refere e que todos os seres acusam (galo cantou/gado berrou/). Mas também da geografia, dos pequenos movimentos de dentes que a serra emana e que os animais escutam melhor que o homem ruidoso.

Musicalmente, “A Mantiqueira range” é praticamente toda uma linha de contrabaixo que modula sem muitas variações, tons abaixo, até ranger com um tremor gravíssimo. Uma pequena peça da joalheira que sabiamente Tom tomou do filho Paulo. Pedra bruta do subsolo, de muito abaixo da serra da Mantiqueira.

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Eu sei que a minha falta de pressa quase exasperou os editores da Editora Dialogar, especialmente a Letícia Möller, por divulgar a chegada de “Down House” do parque gráfico. Bom, este é um livro que está nascendo há quase dez anos, então isso explica a minha falta de pressa. As pessoas que me julgam impaciente na verdade cometem uma grande injustiça. Eu tenho muita paciência e cautela com as coisas que me disponho a fazer.

Nestes dias que já estamos com o livro temos trabalhado bastante no sentido de viabilizar o seu lançamento e outras providências. Eu nem digo que eu tenho a boa sorte de ter uma editora tão compenetrada quanto ela, pois não é sorte, eu tinha certeza de que seria assim e fico muito feliz que agora, sim, temos data e local de lançamento deste livro que, como peça gráfica, é uma joia nas suas 180 páginas. Isso vale para a concepção, para o design maravilhoso bolado pela Cintia Belloc, para tudo.

Em relação ao texto e ao que o motivou eu convido a que visitem o site que preparamos para divulgar e também para comercializá-lo. Em breve, espero poder dar mais informações e tb tirar dúvidas dos leitores e curiosos. Até lá, estaremos trabalhando para que essa breve história possa chegar o mais longe possível.

Vou aproveitar a oportunidade e registrar meu profundo agradecimento à minha querida amiga Ana Claudia Brandão, que gentilmente leu e só depois escreveu a orelha do livro, como tem que ser..

O lançamento vai ser no dia 25/05, no Museu de Ciências e Tecnologia da PUC RS e haverá um debate prévio com os os professores José Roberto Goldim e Vivian Missaglia.

O livro já está à venda tanto no próprio site como no da editora. E não é pré-venda. Quem comprar, já recebe, sem demoras.

O site fica em https://downhouse.online