Por que “ser diferente é normal”

diferente
Capa do livro “Tudo Bem Ser Diferente”, de Todd Parr

Por Lucio Carvalho *

Na última semana, uma notícia veiculada primeiramente no Jornal Nacional e depois no Jornal do Almoço trouxe luz a uma questão que, pelo menos de forma aparente, ainda não foi plenamente assimilada pela sociedade gaúcha: a de que as diferenças entre as pessoas não as hierarquizam sob nenhum aspecto. A manipulação dessa distinção entre o normal e o diferente já foi, na História, razão para que segmentos inteiros fossem segregados, perseguidos e até mesmo exterminados, como recente exposição inaugurada na Alemanha demonstrou, ao veicular as práticas nazistas em relação às pessoas com deficiência nos campos de extermínio da II Guerra Mundial. Na atualidade, é visível e gritante o tamanho absurdo da segregação quando tomamos conhecimento de que uma criança de um ano e meio de idade deixa de ser recebida por um estabelecimento de ensino em razão da sua peculiaridade enquanto ser humano. Foi o que aconteceu com a pequena Clara, que nasceu com a síndrome de Down e que teve sua matrícula recusada sob a alegação de uma possível falta de preparo e de condições pedagógicas adequadas por uma grande e tradicional escola de Porto Alegre.

Não bastasse isso, a notícia foi veiculada justamente na semana em que se comemora o Dia Internacional da Síndrome de Down. Por todo o país, dezenas de eventos reunindo autoridades, cientistas, educadores, políticos e as próprias famílias, naquela que é a maior programação individual por país de acordo com a Down Syndrome International, demonstram o quanto ainda a sociedade de um modo geral e especificamente a gaúcha necessita refletir em relação aos preconceitos, ao comportamento social, ao respeito e observação às leis e tratados internacionais que abordam as pessoas com deficiência de um modo geral, no sentido de avançar na garantia de seus direitos e na promoção de condições dignas de vida a todos os cidadãos.

O que aconteceu com a pequena Clara, infelizmente, não é nenhuma novidade. Tampouco é novidade que nem todas as iniciativas de inclusão de crianças com deficiência na rede regular de ensino, em classes comuns, são totalmente bem-sucedidas. Isso se deve ao simples fato de que o componente humano e as relações sociais não obedecem a fórmulas de sucesso replicáveis automaticamente. É exatamente na capacidade de percepção dos contextos de aprendizagem e de uma intervenção que respeite as individualidades de todos, desde muito cedo, que reside a vantagem da inclusão. Não só os colegas das crianças com deficiência aprendem a conviver desde cedo com a alteridade e os valores da diversidade e da democracia, como a sociedade se prepara numa perspectiva humanizada para valores infelizmente em decadência, como o respeito, a tolerância e a solidariedade.

* Membro do Comitê de Comunicação da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down

Tempos, entretempos e hiatos

Palavras manuscritas abraçam uma mulher.

A sociedade está sentada sobre a mesma burocracia na qual o Estado se edifica. Pelo menos na forma pela qual o estado brasileiro está atualmente edificado, talvez com origem no legado de Getúlio Vargas e deste pelo positivismo gaúcho, onde ao povo cabia acatar a ordem correta das coisas – normalmente imaginada e determinada pela mente de um governo centralista e autoritário. Mas a historiografia comprova que mesmo os piores regimes sofreram oposição civil. Não há o que justifique o comodismo da sociedade brasileira senão por um pacto tácito com uma forma de estado magnânimo que concede benesses a grupos heterogêneos ao mesmo tempo que concentra as decisões políticas. De tempos em tempos, todavia, isso não parece tão tácito assim.

Muitos acreditam sinceramente ou pelo menos fazem crer que as únicas oportunidades que a sociedade tem de construir alternativas são os períodos eleitorais. Justamente nos períodos em que o discurso político decai ao degrau mais baixo do convencimento retórico e é equacionado por fórmulas obtidas em pesquisas de opinião. Quando muitas vezes é impossível discernir entre qualquer vestígio ideológico, porque a maquiagem televisiva embota todas as faces como a clowns. Quando as necessidades sociais transformam-se em demagogia e não há interlocução nem troca social, mas outro tipo de troca travada nos bastidores políticos e que serão marcas indeléveis dos governos, através das redes de pequena (e às vezes nem tão pequena) corrupção a que se denominam comumente por “alianças”, “acordos”, “negociações”. Termos que poderiam ser substituídos por outros bem piores sem que se alterasse o seu sentido e efeito.

Esses momentos posteriores às eleições, que seriam os mais oportunos para a sociedade construir e fortalecer junto aos governos espaços públicos capazes de promo ver efetivas transformações sociais, tornam-se um desperdício de tempo para todos, com exceção daqueles que beneficiam-se das engrenagens burocráticas destinadas a gerar alguma burocracia e nenhuma intervenção na vida comum das pessoas, quando não entraves ao exercício de sua cidadania. Essa mentalidade e cultura política são tão frutíferas no Brasil recente que nem princípios elementares do estado de direito, com a independência dos poderes, são considerados. Ao invés da independência, a inter-dependência. No lugar da fiscalização mútua, as cada vez mais frequentes trocas de favores.

Muitos fenômenos (que muitos preferem chamar de factóides) políticos contemporâneos trazem a marca dessa construção política e, como Sartre queria dizer em Eléctions, piège à cons, enxotam a realidade em troca de uma cômoda e fantasiosa cenografia onde burocratas de toda a espécie podem parecer que estão fazendo algo de efetivo. Essa dramaturgia, que tem tudo para ser cômica, acaba por revelar-se em seu sentido trágico, justamente por substituir o estado em suas funções vitais. Assim é que a privatização dos espaços e políticas públicas parecem ter uma cor melhor que a realidade, principalmente porque é dada a conhecer nas telas de TV, onde o cinza das cidades é decorativo e a miséria está sempre a caminho do que poderia ser um ideal de cidadania, onde há trabalho para os milhares de desempregados gerados pelas crises econômicas e pela própria estrutura produtiva, educação para quem não tem sequer escola e saúde para os que agonizam diariamente enquanto esperam sua vez no atendimento médico.

Ainda assim a sociedade parece aguardar por que o estado resolva lembrar que sua existência tem a destinação de servir-lhe e proteger-lhe, acima de tudo. O controle social público e as experiências locais de democracia participativa já demonstraram que, permanecendo à espera, a população tem muito pouco a ganhar e a fazer no jogo político atual. Passarão novas eleições e caso a sociedade deixe de tomar para si a tarefa de desburocratizar as engrenagens do Estado e de democratizar os espaços públicos, pouca coisa no cenário precisará ser modificada, ainda que sua maior urgência seja pulverizar em definitivo a imagem de que a sociedade é ninguém, se é possível encontrá-la na face de cada um, a quem os governos destinam cada vez menor atenção e respeito.

A demissão da cidadania

O fenômeno não é recente, mas o silêncio estrondoso da rede filantrópica estabelecida em torno da onda da responsabilidade social diante dos efeitos da crise econômica atual é sepulcral. A sem-cerimônia com que as empresas despojam trabalhadores de seus empregos e ao mesmo tempo promovem ações sociais de fim-de-semana é algo estarrecedor, se não fosse em parte previsível. A agenda social do terceiro setor não pode parar, mesmo que sem objeto, pois ela é o lastro onde se pode desenvolver o discurso de que a uns cabe dar e a outros entrar na fila para receber. Este é um terreno sem disputa e quem está sem emprego também aí está sem lugar.

O enfraquecimento da representação popular e dos espaços de interlocução pública interessam muito a essa visão compartimentada da sociedade que coloca lado a lado a cidadania e a exclusão social, como um fundo mútuo de atenção a quem se nega a presença do Estado mas todavia o capitaliza através de redes empreendedoras que alimentam-se de um ciclo econômico soturno, onde o que se oferece as pessoas é um perpétuo vir-a-ser.

Nessa perspectiva, algum dia o excluído virá a ser um cidadão. Em algum momento o desempregado virá a ser patrão. E assim exime-se o modelo sócio-econômico de oferecer diginidade e respeito ao trabalhador. O problema da responsabilidade social é que ela não responde a quem não está incluído no sistema de produção. Quem lhe responde, em última análise, é a sociedade penal, que num primeiro momento lhe confisca o direito à educação, seguido das oportunidades de trabalho e, por fim, da própria liberdade.

Essa noção de que as chagas sociais são remediáveis sem que se adote em efetivo um modelo minimamente honesto de produção e distribuição de riquezas é como um ovo órfão fora da chocadeira. É a clara desesperança que se pode encontrar na face de todos aqueles que esperam porque precisam e também porque não lhes resta outra alternativa. Para estes, a cidadania é um termo remoto, de significado impreciso, porque lhes falta a perspectiva de pertencer com dignidade no espaço público. Esse é o resultado a que chega uma sociedade que concentrou no potencial de consumo a expectativa de bem-estar social. Se por um tempo a dinâmica de filantropização da pobreza funcionou a contento e profissionalizou-se a ação social civil autônoma, esse “método” parece ter chegado a um esgotamento de credibilidade, até mesmo porque será muito difícil transformar em resultados socialmente palatáveis os efeitos do desemprego e da recessão, por exemplo.

Resta verificar através de quais argumentos a sociedade vai procurar assimilar não apenas a crise econômica atual, mas qualquer tentativa de reação a ela. Se será simples como obter crédito nas ruas das metrópoles, se serão sacrificados, como sempre, os trabalhadores, pelo arrocho de salários e pela cassação terminal de seus direitos através do estímulo a informalidade ou, enfim, por uma desejável determinação em enfrentar o modelo com propostas que envolvam a participação da sociedade e não apenas da criatividade de publicitários. Por uma questão de lógica, é perda de tempo qualquer tentativa de compatibilizar a “nova assistência social” com a total indiferença com que as pessoas engrossam as fileiras da exclusão social. Apesar de que a lógica já está ficando acostumada aos atentados que se praticam contra ela. E nós, infelizmente, também.

Um encontro com a deficiência social

Escultura em bronze de Kaspar Hauser na cidade de Ansbach, Alemanha.

Fui assaltado por um menino de 4 anos que ainda não sabe falar, mas já sabe assaltar. Não é por isso, contudo, que desfiarei um corolário de rabugices do tipo “a que ponto chegamos”, “o que mais falta acontecer?” ou o clássico “em que mundo estamos?”. Não farei isso porque esse é o tipo de constatação que só faz chover no molhado e não traz luz alguma a qualquer tentativa de compreensão dos fatos ou de análise, mas que comporta num desolamento passivo que acompanha desde sempre a miséria e que, entretanto, não chega a lhe desvelar nem alivia – sequer parcialmente – as suas chagas. Além do quê, isso diz muito pouco sobre o fato de que fui assaltado por um menino deficiente de 4 anos de idade, que ainda não sabe falar.

É possível esperar que esse mesmo menino venha a expressar-se através das palavras e perceber seus siginificados se precisou aprender a assaltar antes de aprender a pedir? Se recebeu ao invés da compreensão que deve existir no substrato de qualquer família a violência gerada pela necessidade extrema? Se talvez experimente a sensação de matar antes mesmo de entender a razão de estar vivo e pertencer a este mundo? Por si só, isso pode parecer ser terrível o bastante mas, mesmo esse terror, por petrificante que seja, obscurece o fato de que talvez, para esta criança, o tanto de habilidades comunicativas de que ela dispõe neste momento seja o suficiente para a complexidade da vida que pode ainda lhe restar a viver.

Mesmo sem figurar nas classificações da CID ou CIF, a deficiência social é um fenômeno cujo terreno fértil é a miséria e a falta de perspectiva, que geralmente lhe serve de adubo, principalmente em se tratando de países de extrema pobreza e desigualdade social, como o Brasil, e atinge discriminadamente os mais pobres entre os pobres, vitimizando-os duplamente: uma vez pela sua própria precariedade e a outra pela precariedade do mundo que a comporta e faz subsistir.

A face de crianças como esta que tentou me assaltar está invariavelmente nas fotos das campanhas humanitárias, nos vídeos que levam milhões de pessoas às lágrimas perto das festas de fim-de-ano mas que, no restante do tempo, não encontram com facilidade dois olhos que as olhem de frente e com mais dificuldade ainda uma sociedade que reconheça sua existência, aceite-as deficientes como são e, junto a elas, procurem imaginar uma outra vida possível. Essas crianças talvez tenham a sorte de um Kaspar Hauser que, como na figura do Professor Daumer, as recupere do ruído vertiginoso de suas emoções e da incomunicabilidade que as isola do mundo e, principalmente, de sua atenção e ação política.

Menino de rua recebendo “atenção” social no centro de São Paulo.

Tenho um filho de 2 anos de idade que nasceu com a síndrome de Down. Trata-se de uma intercorrência genética que traz consigo uma série de implicações, entre elas a condição de uma deficiência intelectual de natureza cientificamente ainda imprecisa mas, ao que tudo indica, seja muito determinada pelo conteúdo social oferecido à criança – da mesma forma que para todas as outras crianças. Meu filho de 2 anos de idade consegue, sem sombra de dúvida, expressar-se por palavras melhor que o meu pequeno assaltante de 4 anos, ainda que de forma rudimentar. Umas das razões para isso é que desde seu nascimento, além de procurarmos oferecer-lhe palavras, carinho e atenção, também lhe dedicamos um tipo de cuidado que é comumente denominado por “intervenção precoce” ou “estimulação precoce”. São terapias destinadas a potencializar capacidades comportamentais (incluem-se aí diversos tipos de especialidades terapêuticas) e cognitivas, numa explicação bastante simples. Também ele deve começar sua vida pré-escolar neste ano.

Muitas vezes sinto que há na sociedade a idéia de que um tipo de “intervenção precoce social” poderia dar conta do futuro de gerações que estão sendo destroçadas nas ruas, aos olhos de todos. Mas é importante lembrar que, em um ou em outro caso, é fundamental levar em conta uma lição de velhos marujos que ensinam a antever onde atracar o navio antes mesmo da partida. Por isso, uma intervenção precoce destinada a uma criança com deficiência ou a uma população de deficientes sociais, pensada nos termos de políticas públicas, deve sempre levar em conta que não deve ser tomada por resultados particulares e imediatos, mas por permanentes e efetivamente abrangentes.

É perturbante a idéia de que o mundo possa comportar a inclusão de pessoas com deficiência somática e, mais ainda, com deficiência social, de uma forma que sua problemática não esteja focada em si mesma, como “algo” a ser consertado. Essas pessoas não estão estragadas que mereçam conserto. Sua inclusão não deve ser uma inclusão particular, fantástica, com direito a capa de revista e foto no jornal, mas antes de tudo uma inclusão plena de todos os direitos que todos os cidadãos merecem ter, com respeito primeiramente aos valores fundamentais da pessoa humana. A sociedade não pode estar contente com propostas de inclusão social particulares, ad hoc, que não avancem a soleira da própria porta no âmbito familiar, educacional ou social em seu sentido mais amplo. A autonomia e a liberdade que pretendo para o meu filho, parafraseando Sartre, não pode ser uma condenação para os demais.

Àqueles que gostariam de saber o que aconteceu com o meu pequeno assaltante só resta dizer o que diz Kaspar Hauser, pelo menos pela mão de Werner Herzog: “Vocês não ouvem os assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos de silêncio?”

Uma história de bailarinas nesse Natal

Também publicado em:
http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=23862

Para Isabel e Rodrigo, meus filhos amados

Às vezes a emoção atropela. Hoje fomos assistir a apresentação de fim-de-ano da escola de dança da minha filha de 4 anos. Quanta coragem a sua em se mostrar num palco diante de centenas de pessoas.. Sua criancice não comporta o medo nem a timidez. Mais do que torcer para que não errasse um dos passos ensaiados, torci silenciosamente para que o futuro jamais pudesse a impregnar com medo ou vergonha. Mas isso, na vida, não acontece ao acaso. sapatilhas1Esse é o tipo de sentimento que, ou sedimentamos, ou pulverizamos diariamente, não é algo que se dê num passe de mágica e ou se realize exclusivamente através das melhores intenções. A emoção de que falo, entretanto, não se deve a presença de minha filha naquele palco, mas numa série de pensamentos que toda aquela apresentação me causou.

Na primeira coreografia apresentada naquele início de noite, que era um aquecimento coletivo, um grupo muito grande de dançarinos iniciava seus movimentos. Um grupo totalmente heterogêneo, sem um padrão de corpo mas em perfeita sincronia. Irmanavam-se ali os altos, baixos, gordos, magros, jovens, velhos e inclusive uma moça com síndrome de Down. Na sequência de movimentos, muitas vezes era ela quem vinha a ficar bem diante da platéia. E sua atuação era perfeita, natural. Ali, ela exalava sua liberdade de ação e movimento, desimpregnada daquele mesmo medo e daquela mesma vergonha dos quais eu falava há pouco. Também havia entre os dançarinos uma jovem com ataxia, como vim a saber mais tarde. Essa escola de dança nós a conhecemos na vizinhança, não a procuramos por ter um caráter inclusivo ou algo assim. Mas ficamos muito felizes ao conhecer os alunos com deficiência que também a frequentavam, em total igualdade de condições com os outros alunos. E a Isabel não nasceu com a síndrome de Down, quem nasceu foi o Rodrigo, então nossa única preocupação foi a de que ela pudesse experimentar a dança de um modo lúdico, infantil. Nessa escola, que é de dança e de adultos, jovens, velhos, altos e baixos, há espaço para que as crianças dancem assim: brincando.

Duvido muito que na porta dessa escola um dia tenha sido colocada uma faixa dizendo “aceitamos pessoas com deficiência” ou “escola inclusiva de dança”. Acredito que o mérito de que pessoas com deficiência tenham ali sido acolhidas venha da visão de que, para aquela escola, a condição da deficiência não elimina ou diminui o potencial de ninguém. Isso principalmente porque cada dançarino está num nível de desenvolvimento diferente de suas habilidades e potencial. Alguns farão coisas que outros apenas esboçarão um movimento, mas isso não será razão para que aqueles menos desenvolvidos não participem das coreografias ou ensaiem/atuem em separado. Não poucas vezes assisti os dançarinos com deficiência mostrarem maior desenvoltura do que muitos sem deficiência. Mas por isso não são heróis, são dançarinos e tem plena consciência do que estão fazendo ali. Não estão numa competição, mas numa celebração. E isto faz muita diferença.

Vivemos num mundo e num tempo nos quais, queiramos ou não, são privilegiados e exacerbados valores estranhos à solidariedade, à cooperação e mútua compreensão. A competição em detrimento da colaboração, a aparência em detrimento da realidade, a pressa em detrimento da calma, o particular em detrimento do todo. Esses valores estão cada vez mais profundamente enraizados na maneira como trabalhamos e consumimos, como estudamos e aprendemos, como nos relacionamos com as pessoas e até mesmo como formamos nossas famílias. Assim como na escola de dança que minha filha frequenta, não há no mundo uma placa dizendo “mundo inclusivo” ou “mundo livre de preconceitos”. Mas não nos é dado o direito de recusar pertencer a este mundo tal como ele é e também como queiramos que ele seja, através da nossa esperança e capacidade de imaginação.

Enquanto aquela moça dançava junto aos seus colegas, imaginava o quanto do seu esforço em estar ali devia-se exclusivamente a sua vontade pessoal. Também pensava na sua família, em seus amigos e em todos que não obstruíram o seu desejo com impedimentos triviais ou artifícios de má-vontade. E então foi que me atropelou a emoção. Não por causa dela ou de sua dança precisa, mas pelos outros. Os outros que dançavam com ela e também os outros que a assistiam, sem dúvida emocionados. Sua coragem em estar ali sobre o palco era, sem dúvida, resultado de sua determinação em obter seu lugar entre os demais, mas também porque não lhe impingiram o medo de descobrir a graça do próprio corpo nem vergonha pela alegria contida em seus gestos. Definitivamente não estou emocionado por ela. O que ela fez naquela noite foi resultado da sua pura competência: não merece lágrimas, mas aplauso. Mas estou emocionado pelos outros e por sua coragem em recusar esses valores que tem gerado tristeza e decepção às pessoas, desencontro ao invés de encontro. Pela sua família ao sonegar-lhe a possibilidade do arrependimento. Pela confiança de seus professores e colegas em serem apenas seus coadjuvantes.

Quando olho para a minha a pequena dançarina e para seu irmão que assiste absolutamente compenetrado a tudo que se passa, percebo com muita clareza que tenho minha parte no que são agora e em seus futuros. E que todos temos a nossa parte irrecusável de mudar o mundo exatamente ao nosso modo, na nossa medida. Seria uma injustiça atroz querer que uma pessoa só, somente uma pessoa, resumisse nossa inércia e tomasse a atitude que às vezes nos falta como sociedade. No passado tivemos muitos exemplos disso, e todos acabaram muito mal, com finais muito tristes.. Talvez por acaso, não pensei nisso ao começar a escrever, isso possa até parecer uma mensagem de Natal.. Não sei se era pra ser desde o início e eu não sabia mas, se era, eu gosto de ver que ela se deve a muitas pessoas e não apenas a um sentimento isolado. Talvez seja uma boa maneira de comemorar o Natal, não lembrando o sofrimento de um indivíduo, mas celebrando a participação de todos num mundo que pode ser verdadeiramente melhor.

Não haverá uma nova polis sem um novo ethos

“Na minha opinião, há boas razões para questionar, falar claro, projetar novas instituições e novas maneiras de pensar.”
“Ainda falta muito a ser feito. Ainda é hora de agir.”

Carl Sagan – Bilhões e bilhões: reflexões sobre vida e morte na virada do milênio.

Êxodos - Sebastião Salgado
Êxodos – Sebastião Salgado

Mudar o mundo foi o tema de uma geração. Por um desses equívocos da História, o sonho da geração de Lennon permaneceu uma utopia depois de muitas décadas de sua concepção. Sem entrar no mérito das razões que levaram ao “fim do sonho”, não seria exagero afirmar que as gerações que sucederam aquelas que protagonizaram o sonho do flower power herdaram bem mais o desalento de serem vencidas pelo sistema de produção e consumo que o legado de um mundo efetivamente modificado.

Não se trata de puramente menosprezar a revolução de costumes, mas o fato é que os desafios do século XXI ainda se parecem em muito com os do que acaba de findar. Isto principalmente porque o modo eleito pela civilização global em enfrentar estes desafios tem sido através de uma reedição indefinida dos valores liberais, a despeito da cada vez maior exclusão de grupos sociais inteiros e mesmo nações que têm vivido na periferia das decisões globais por décadas a fio, para não dizer séculos. As duas últimas décadas ficaram muito marcadas pelo que alguns historiadores resolveram denominar de “fim da história“. A queda do muro de Berlim e o fim de 99% das experiências do socialismo real se, por um lado, deveriam reforçar a esperança nas democracias, por outro trouxeram um grande vazio principalmente por soterrar qualquer possibilidade alternativa de organização econômica que não a capitalista.

Entretanto, ainda nos anos 90, começou a fortalecer-se uma mentalidade que antevia a necessidade de revisar os padrões de sustentabilidade planetária, sob pena de aprofundarem-se uma série de colapsos de grande efeito global: climático, alimentar, êxodo humano, etc. Ao mesmo tempo, a escala de consumo de bens e alimentos nunca chegara antes aos patamares de então. A produção automobilística triplicou ainda com base na queima de combustíveis fósseis e a indústria petroquímica gerou mais resíduos nos últimos quinze anos do que a humanidade inteira em quatro milênios. Se o ritmo desse crescimento (e, principalmente, a sua forma) for mantido, é possível que a imagem mais exata do futuro seja exatamente a de um sonho, mas esse também em vias de acabar-se.

Um dos mitos mais comuns da era tecnológica é acreditar-se que o fazer científico deveria ocupar-se de remediar os males criados pela humanidade. A reprodução dessa mentalidade poderia levar a crer que a responsabilização pelo estar-no-mundo é algo relativo, e que se a tradição informa que os problemas são depositados em herança, não haveria então muito a ser feito. Assim como a geração de 60 trouxe luz a questões como a emancipação da mulher, a luta pacifista e a gestação de uma nova compreensão do lugar do ser humano no planeta, por exemplo, o que seria possível apreender em termos de mentalidade de uma geração como a de agora, quando o individualismo parece prescindir da importância da existência (e do respeito ao) do outro nas relações humanas e sociais? É por isso que, se as dificuldades em mudar o mundo são maiores que o desejo para tal, talvez seja o momento de pensar em reformar a mentalidade de agora. Não haverá um novo mundo sem uma nova mentalidade. O mundo não é apenas uma representação da mentalidade de uma época, ele é a própria obra dessa mentalidade. Talvez os desafios de hoje não sejam tão gritantes e evidentes como foram os das geração de 60. É bem provável, aliás, que pareça até desnecessário tentar fazer qualquer coisa que seja. Agora, ao indivíduo é dado e retirado todo o poder. Haverá um sonho a legar ao futuro?

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Spot criado pelo Greenpeace: “Lembra como sua geração sonhou mudar o mundo?”