Publicado na edição 1.361 (jul./ago 2015) do Suplemento Literário MG, este artigo aborda o trabalho de Sergio Faraco como tradutor dos principais ficcionistas uruguaios do séc. XX. Para quem queira conhecer um pouco mais sobre o que o Faraco fez ao trazer do lado de lá da fronteira com los orientales ficcionistas como Mario Arregui, Juan José Morosoli, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano e tantos outros. E o que possivelmente esse contato fez com ele próprio.
A fronteira desfeita por Sergio Faraco
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Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 1º de setembro de 2018.
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A nova biografia de Fernando PessoaA nova biografia de Fernando Pessoa
Bem no final de 2022, num dezembro tomado de assalto pelo noticiário político e pela turbulenta sucessão presidencial brasileira, foi quando finalmente chegou às livrarias nacionais a esperada biografia de Fernando Pessoa que o jornalista Richard Zenith levou mais de uma década para concluir desde que começou a trabalhar no espólio do poeta. O resultado não podia ser menor do que as mais de mil páginas que a Companhia das Letras publicou aqui numa edição vertida do inglês pelo tradutor Pedro Maia Soares. Em maio do mesmo ano, uma versão pela Quetzal foi publicada em Portugal e a versão original em inglês, Pessoa: a biography, saiu em julho de 2021 nos EUA e na Inglaterra, pela Liveright.
Apesar de que a obra pessoana tenha sido vastissimamente estudada desde a segunda metade do séc. XX, inclusive por estudiosos brasileiros, o trabalho de Zenith é efetivamente considerado a segunda grande biografia do poeta notabilizado pela obra monumental e pela forma de organizar o seu trabalho em heterônimos. Na edição portuguesa, o livro, aliás, é iniciado por uma dramatis personae pessoana na qual Zenith “biografa” parte dos heterônimos criados pelo poeta (na brasileira, foi transformada em anexo). Contudo sabe-se que o número de alteregos de Pessoa continua sendo impreciso, dado que para muitos deles mal chegou a esboçar um texto, apenas o registro de um nome, mas é certo que passam de uma centena e surgiram em seu universo mental precocemente, antes dos seis anos de idade. Antes da publicação de Zenith, a mais extensa biografia publicada de Pessoa continuava sendo a realizada pelo seu contemporâneo João Gaspar Simões, em 1950, Vida e obra de Fernando Pessoa: história duma geração.
Embora no Brasil a sua obra tenha obtido projeção e leitores a partir de 1960, quando a Nova Aguilar publicou sua Obra poética organizada e anotada pela pesquisadora Maria Aliete Galhoz, é certo que o nome de Pessoa transitava de contrabando entre os modernistas brasileiros de viagem à Europa, muito provavelmente por meio das edições de Orpheu e de Presença, revistas nas quais Pessoa fez desfilar seus principais heterônimos entre os demais modernistas portugueses. Contatos efetivos com os brasileiros não são muito conhecidos, além do fato dele mesmo ter emigrado o seu heterônimo Ricardo Reis para o Brasil, em 1919, e cuja data de falecimento imprecisa serviu de mote para a escrita de O ano da morte de Ricardo Reis, romance em que José Saramago resolve por situá-la em torno de 1936, na iminência do nazi-fascismo europeu. Mas, para que se situe melhor esse reconhecimento, é suficiente o relato do quase-encontro dele com a poeta brasileira Cecília Meireles, em 1934. Cecília era casada com um antigo conhecido de Pessoa, o português Fernando Correia Dias, e marcaram um encontro de gentilezas a que ele acabou falhando. Para compensar a falta injustificada, mais tarde deixou no hotel onde a brasileira se hospedava uma edição autografada de Mensagem, seu único livro publicado em vida. Outra referência aos brasileiros na biografia é uma menção a Ronald de Carvalho, poeta que se integrou bastante ao grupo reunido na Orpheu, especialmente Mário de Sá-Carneiro, e uma declaração de Carlos Drummond de Andrade no ano de centenário de nascimento de Pessoa, em 1985, na qual afirma que Pessoa é um poeta “frio, apenas toca nosso lado intelectual”, e diz preferir Camões a ele.
Embora sua obra fosse muito conhecida dos brasileiros e contasse com diversas publicações segmentadas, a partir de 1985 entrou em domínio público e ocorreu por aqui uma verdadeira explosão pessoana. No entanto, logo uma alteração na legislação da União Europeia sobre direitos autorais adiou o processo, que foi retomado em 1993, com o surgimento de inúmeras edições nuas (sem notas ou comentários) de sua poesia e prosa conhecidas. Por longos anos, a poesia de Pessoa e seus heterônimos foi das mais vendidas no Brasil, e seu(s) nome(s), tão ou mais populares que muitos poetas brasileiros. Na mesma medida, aqui e em muitos lugares do mundo foram sendo criados núcleos de estudo de sua obra em diversas universidades, disseminando para além do mundo lusófono os “estudos pessoanos”, confirmando-se já o interesse universal em sua literatura.
De imediato, o que se pode garantir em relação à biografia de Zenith é que ela não se faz interessante apenas por um maior conhecimento de sua vida, mas porque Zenith é um grande conhecedor de sua poética. Uma das grandes felicidades do seu trabalho consiste em nunca despersonalizar o poeta entre seus heterônimos. Zenith busca sobretudo garantir a integridade intelectual do poeta e jogar luzes em sua direção valendo-se inclusive de elementos autobiográficos que Pessoa teria lançado em sua produção literária. Pois então se pode saber que o poeta da Autopsicografia, o assumido “fingidor”, muitas e muitas vezes apresentou, mesmo que de forma distorcida, elementos de sua vida mais corriqueira na sua poesia. Se ele obteve uma dicção sublime em função de elementos às vezes frugais, passagens e situações que de fato viveu ou presenciou, certo que isso mais atesta a sua genialidade criativa.
O premiado trabalho de Zenith (foi finalista do Pulitzer em 2022), no entanto, não vem passando imune a críticas. Por investigar com certa exaustão indícios e questões envolvendo a sexualidade do poeta, tem recebido críticas inclusive da parente mais próxima de Pessoa que é ainda viva. Aos 96 anos de idade, a também escritora e poeta Manuela Nogueira leu e classificou como fantasiosas algumas das dúvidas suscitadas na biografia. Também confirma que a imagem de um Pessoa “macambúzio”, de acordo com ela, não procede e afirma que o tio, embora muito desorganizado, produzia num ritmo que não desejava interromper em razão de nenhuma relação interpessoal, mas que era bem humorado e brincalhão.
A imagem de um poeta sombrio é, aliás, também muito questionada por Zenith. Muito presentes na biografia de João Gaspar Simões, de 1950, que elevou enormemente o interesse em torno do poeta com o seu trabalho biográfico, as características psicológicas (e psicopatológicas) do poeta são centrais na busca de Simões, mas notoriamente permeadas por um excessivo psicologismo desde os estudos do também contemporâneo Adolfo Casais Monteiro. Em muitas situações, Zenith explora outras facetas e informações a respeito do poeta de que certamente Simões não dispunha em 1950. O que se vislumbra é um indivíduo interessado na vida política do seu país e do mundo e que, com maior ou menor sorte, procurou manter boas relações e um círculo de amigos composto pela intelectualidade da época, além de ter também boas relações familiares. Com isso esclarecido, o leitor tem garantido poder voltar sossegado à busca por compreender o sentido mais profundo daquilo que Pessoa guardou a sete chaves durante a vida na sua famosa arca: a obra literária. E, ao passo de sua leitura, a tarefa vai se configurando como uma grande jornada de reconhecimento na qual vida e obra têm, por uma característica sui generis e pessoana, praticamente o mesmo peso e relevância.
A jornada proposta por Zenith, cabe dizer, é muito facilitada pela sua escrita leve e jornalística. Há uma visada simpática sobre o poeta, que se alfabetizou sozinho aos quatro anos de idade, num claro indicativo de altas habilidades. Quando se sabe, por exemplo, da sua dificuldade em manter o foco na conclusão dos inumeráveis projetos iniciados que pipocam em sua mente, ele diz não saber “evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associacões”, seria simples associá-lo ao que hoje se conhece como o transtorno de déficit de atenção. Não é por falta de características psíquicas, como se vê, que se dificulta a tarefa de compreendê-lo, mas pela sua abundância. E quando o biógrafo destina um capítulo inteiro do seu livro para demonstrar o esforço espiritual e intelectual de Pessoa em atingir um alto grau de alta exigência estética e psíquica, o que acaba muitas vezes sacrificando a sua estima e deprimindo-o, acaba por conferir ao poeta o que às vezes perdemos ao conhecê-lo: a dimensão de gozo e sofrimento de seu espírito criativo.
Qualquer leitor de Pessoa, mesmo o mais preliminar, logo ao defrontar-se com sua poesia percebe estar diante de um precipício intelectual. É uma experiência muito dissonante de qualquer outra poesia que se possa conhecer. De acordo com Leyla Perrone, uma de suas principais estudiosas no Brasil, a obra de Pessoa impõe um antecedente que todos os poetas de língua portuguesa devem enfrentar na perspectiva de continuar a usar a mesma língua. Depois dele, o sentimentalismo e a facilidade retórica “aparecem como erros imperdoáveis”, e isso é algo que se intui e compreende mesmo à sua leitura direta. O que a biografia de Zenith tem a oferecer para compreensão de Pessoa, no caso, é a confirmação de que esse universo – o mundo “pessoano” – foi, incrivelmente, tarefa de um homem só. E que, a despeito de viver os seus últimos anos de vida num pequeno apartamento da Coelho da Rocha, em Lisboa, ao morrer, de acordo com Miguel Torga, “Portugal viu passar num caixão sem ao menos perguntar quem era”. Nada disso conseguiu impedi-lo de ter engendrado uma das obras poéticas mais impressionantes e complexas de todo o mundo no séc. XX.
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Bauman póstumoBauman póstumo
Pode-se dizer que Retrotopia é o epílogo da bibliografia de Zygmunt Bauman. Ao que tudo indica, o último livro do sociólogo falecido em janeiro último será publicado no Brasil até o final deste ano. Segundo a Zahar, detentora dos direitos de publicação de Bauman no Brasil, há outros livros ainda anteriores na lista, como O retorno do pêndulo, que está saindo agora e reúne quatro ensaios derivados de sua correspondência com o psicanalista argentino Gustavo Dessal e que confluem para uma aproximação do seu conceito de modernidade líquida com as teorias psicanalíticas, especialmente a de matriz freudiana.
O encontro do leitor brasileiro com Retrotopia, portanto, fica brevemente adiado, a não ser que ele corra para as edições e livrarias estrangeiras. Mas por que ele faria isso se, ao menos aparentemente, os livros de Bauman parecem reaplicar suas teses sobre “a liquidez” indefinidamente? É simples. Retrotopia não é um livro que repete a ideia de modernidade líquida, tema que popularizou definitivamente Bauman por aqui, mas que aborda desta vez os impasses do futuro, mas um futuro que, nas suas palavras, foi “quitado pela História” e que sucumbiu ao imediato do tempo contínuo, isso a despeito das tentativas desastrosas de recuperar ou malversar o passado e suas condições já extintas.
Mais ou menos ao mesmo tempo da publicação de Retrotopia, Bauman integrou ainda o livro O grande retrocesso: um debate internacional sobre as grandes questões do nosso tempo, também ainda inédito no Brasil. Não se trata de um livro inteiramente seu, mas um conjunto de ensaios em que diversos autores, entre os quais Nancy Fraser, Arjun Appadurai, Donatella della Porta, Bruno Latour e Slavoj Zizek propõem-se a debater questões candentes da contemporaneidade, tais como os descaminhos das democracias liberais e a crescente onda de populismo, xenofobia e autoritarismo. Em seu ensaio, Bauman preconiza cautela para com possíveis tempos árduos para a democracia e repletos de incerteza, já que situados no interregno entre dois tempos: o de concretização da crise econômica global e o de um estado de ignorância generalizada acerca das condições de sua manutenção ou resolução, ainda por vir. Não são inquietações de todo distintas das que se poderão conhecer melhor em Retrotopia.
Lançado simultaneamente em diversos países e escrito no pré-Brexit e no pré-Trump, Retrotopia foi publicado exatos 500 anos após a primeira aparição de Utopia, de Thomas More. É de certo modo emblemático que a publicação registre um lapso tão grande de tempo e no qual as impressões daquele Hitlodeu, ao que parece, jamais se realizaram objetivamente no mundo ou em qualquer parte dele; a saber, um tempo pacífico, solidário e ecumênico.
Apesar do título, em Retrotopia não é promovido nenhum tipo de celebração do pessimismo ou de melancolia e tampouco Bauman pretende com ele reafirmar ou fazer o lançamento de uma nova utopia, assim como cogitar uma tentativa desesperada de retorno ao passado. Efetivamente, não. Para Bauman, é preciso aceitar que vivemos à deriva da História e, por isso mesmo, seria preciso ajustar noções rígidas a respeito do progresso, dos limites políticos entre os povos e, também, das esperanças para com o futuro.
Por isso, e provavelmente por ter sido escrito nos seus noventa anos de vida, é um livro preocupado com um futuro e, evidentemente, de um futuro o qual ele sabia de antemão que não testemunharia. Pois é bem este o tipo de pensamento e de preocupação que fez com que o sociólogo tenha se tornado dos pensadores mais acessíveis e comunicativos em tempos recentes, goste-se mais ou menos de suas ideias. Ou seja, suas preocupações encontram-se sem muita dificuldade com as preocupações do homem comum e daí é muito natural que se realize uma inevitável aproximação entre ele e o leitor comum, não necessariamente aquele acadêmico.
Retrotopia é também, definitivamente, um livro sobre a utopia e a história das ideias utópicas, apenas que projetado às avessas; quer dizer, é um livro que foi pensado após a relativa falência e extinção de alguns dos projetos utópicos que nortearam o mundo no transcorrer do século XX, como o socialismo e o liberalismo igualitário. Para chegar a tanto, Bauman está aqui bem mais ousado do que é comumente encontrado em seus trabalhos mais populares, aqueles em torno da ideia de “liquidez”, e percorre os séculos, desde Hobbes e More, sem nunca empregar um objetivo formal ou finalidade cabal à ideia de utopia.
Comparando-se à noção rawlsiana de utopia realista ou enfrentando-a desde a desconstrução de sua potência como em Derrida, o projeto de Bauman é, em teoria, bem mais simples e consiste em superar o bloqueio ao futuro e desmantelar a perspectiva de uma utopia perfeita, passando-se a uma dinâmica política de ajustes dentro do real e dentro do possível. Na prática, não é algo tão simples assim e, por isso mesmo, mantém-se ainda assim como utopia. Porém este não é um desejo que ele tem para consigo mesmo ou por alguma espécie de nostalgia, mas totalmente inclinado para o porvir.
Bauman, que viveu desde o período posterior à Segunda Guerra Mundial e sobreviveu à devastação que o nazismo realizou na Polônia, é dos raros cientistas sociais que conseguiram notabilizar-se para além do meio acadêmico. No Brasil, por exemplo, esteve muitas vezes e é muito fácil dele obter entrevistas nas quais se manifesta a respeito de temas contemporâneos, como a nova onda de migrações na Europa ou o impacto da hiperconectividade via redes sociais, entre outros. Isto tudo aliado aos seus muitos lançamentos bibliográficos por aqui, contribuiu para torná-lo bastante conhecido e popular.
Embora seu trabalho não possa ser considerado exatamente inovador em virtude de que dá prosseguimento a muitas análises marxistas clássicas, a questão de Bauman talvez seja mais seu foco e uma facilidade comunicativa e clareza argumentativa que, de outra sorte, costumam faltar a autores em tese mais complexos (às vezes a autores mais simples também). Este, porém, seja talvez seu maior mérito, pois conseguiu explorar esta sua capacidade em prol da discussão de ideias emergentes e de torná-las acessíveis às pessoas de um modo geral, não se restringindo ao público especializado. Para o bem ou para o mal, se não há grande ou inovadora contribuição sua ao pensamento ocidental, é certo que popularizar e atualizar preocupações como as que propôs ao longo dos últimos anos de sua vida é algo que está muito longe de causar danos ou enfaro, dada a sorte das preocupações e a disponibilidade dos pensadores pop de que dispomos no Brasil contemporâneo.
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