E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Crítica Pasolini e o nonsense da poesia

Pasolini e o nonsense da poesia

poemas

Em tempos de livrarias virtuais que oferecem ininterruptamente o paraíso e o inferno ao mero alcance do dedo, contar com uma livraria real a poucos quarteirões de casa deveria ser um descanso para os olhos, não fosse “o lugar” um primor na escolha dos títulos à venda. Eu diria que é uma perfeita otimização do espaço, contrastando a relação qualitativa normalmente ocupada pelas grandes empresas do ramo.

Pois foi ali mesmo que, numa dessas visitas ocasionais, vi pela primeira vez a edição bilíngue dos poemas de Pier Paolo Pasolini, em italiano e português, organizada por Alfonso Bernardinelli e Maurício Santana Dias em 2015 para a Cosac Naify. O livro, ali entremeado a outras excelentes escolhas em uma das poucas prateleiras de poesia que dão gosto em vasculhar (normalmente são seções maltratadas nas hiperlivrarias), aqui em Porto Alegre, ganhou-me ao primeiro olhar. É que justamente abri as páginas em um trecho do poema “Gerarchia”/”Hierarquia”, em que Pasolini escreve sobre o Brasil e, como o próprio título diz, suas costumeiras hierarquias. O poema não está datado, mas tudo indica que tenha sido escrito no começo dos anos 70. Diz o seguinte:

(…) È cosi per puro caso che un brasiliano è fascista e un alto sovversivo,
colui che cava gli occhi
può essere scambiato con colui a cui gli occhi sono cavati. (…)

***

(…) É assim por pur puro acaso que um brasileiro é fascista e outro subversivo;
aquele que arranca os olhos
pode ser confundido com aquele cujos olhos são arrancados. (…)

Obra do olhar estrangeiro ou da sensibilidade do poeta, é uma sensação incomodamente familiar, isso quase quarenta anos depois do seu falecimento. Folheando um pouco mais, é rápida a percepção de que as similaridades não param por aí. Isso porque a poética de Pasolini está permeada do seu olhar (talvez no caso dele fosse melhor dizer do seu “ser/estar”) para a sociedade e para a política, sobretudo a italiana, obviamente, e suas relações explosivas. Nos anos 70, Pasolini já não escandalizava a opinião pública do seu país pela sua crueza cinematográfica, mas por tornar-se um pensador visceral, capaz de sobressair-se da mera denúncia política, isso porque sua própria vida estava empenhada na subversão. E isto lhe aconteceu até mesmo para com a esquerda italiana e o PCI (Partido Comunista Italiano), do qual aproximou-se em torno de 1950.

A um tempo em que o engajamento político dava lugar a uma poesia de outra tonalidade, mais amena e transcendente, como em Eugenio Montale e Salvatore Quasimodo, seu trabalho poético mantinha-se à luz do espírito crítico e, talvez tendo paralelo adequado apenas entre alguns poetas norte-americanos do período, como os da geração beat, recusava-se a dobrar a espinha inclusive aos ditames ideológicos e aos próprios comunistas, principalmente entre os movimentos de juventude, questionando-lhes o caráter permanentemente.

Não foi por isso, entretanto, que em 1970 Pasolini foi expulso do PCI, mas sob a acusação de supostamente “seduzir” menores. Para ele, homossexual que não ocultava-se e que já tinha a inimizade dos religiosos, manter-se em pé já não era mais uma opção e até a data de seu obscuro assassinato, em 1975, Pasolini continuou publicando critica, prosa, politica e também poesia. “La nuova gioventu”, com versos como “Bisogna condannare/severamente chi/creda nei buona sentimenti/e nell’innocensa – É preciso condenar/severamente quem/crê nos bons sentimentos/e na inocência”, é do ano de sua morte. O poema é um dos que constam na coletânea editada agora pela Cosac Naify.

O livro, além de reunir poemas escritos durante toda a vida de Pasolini, traz a introdução do crítico e também ensaísta Alfonso Berardinelli, traduzido por Maria Betânia Amoroso, que também escreve o epílogo. Ela, estudiosa de sua poesia e uma das principais difusoras do seu trabalho, desde a época em que seus filmes eram proibidos no Brasil e seus poemas conhecidos apenas parcialmente, distende uma linha temporal sobre o reconhecimento do trabalho dele  no Brasil. O livro ainda inclui um apanhado da bibliografia das traduções brasileiras, da crítica sobre sua obra literária e cinematográfica, bem como de suas próprias publicações como ficcionista, dramaturgo, roteirista, ensaísta, tradutor, critico e poeta. E também, claro, sua filmografia.

Se a poesia de Pasolini é muitas vezes contestada sobre sua qualidade, pelo seu caráter nitidamente mais político do que lírico, este não é um problema exclusivo dele e também não é um problema do que ele escreveu em versos, mas apenas do que conseguiu ler-se e depreender-se do seu trabalho literário, inclusive o poético. Pasolini, talvez um intelectual de um tipo incomum no Brasil, que não impôs limites em seu trabalho intelectual e sua vida privada, viveu seu tempo transfigurando também em poética a crítica política do fascismo, do provincianismo, da moralidade católica e de sua particular visão de mundo claramente marxista e impregnada do contato com a pobreza do pós guerra. Para ele próprio, a escolha de seus motivos poéticos dava-se como se por uma coação do real, da qual ele não podia nem queria livrar-se.

Por muito tempo taxado de panfletário, depois de quarenta anos de sua morte, finalmente o Brasil ganha uma coletânea capaz de propiciar uma leitura abrangente de sua obra poética, justo no mesmo ano em que chega aos cinemas brasileiros o filme biográfico que o também italiano Abel Ferrara lhe dedicou, Pasolini, em que o ator Willem Dafoe o interpretou magnificamente, para quem desejar conhecer mais de sua biografia.

Goste-se mais ou menos, encontrar edições bilingues de poesia, e apresentadas com zelo apurado é uma boa experiênica ao estar de visita em uma livraria de verdade. Se alguém, depois de ler os seus versos e reconhecer muitas semelhanças com o Brasil contemporâneo em sua poética, ainda assim desejar defenestrá-lo ao estigma da poesia panfletária poderia muito bem em contrapartida indicar onde, na poesia brasileira, encontra-se um poeta que não defina-se senão como alguém nos píncaros da inspiração, mas no nonsense de escrever, como ele mesmo diz em entrevista celebrizada no YouTube. Nonsense para mim, portanto, continua sendo ter de esfregar e esfregar os olhos nessa busca ou, ainda pior, precisar encontrar quem nos interpretou, brasileiros de hoje, tão bem assim quanto Pier Paolo há décadas atrás.

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Que o Rio Grande do Sul é lugar de pouca lenda ninguém desconhece. Tira-se o boitatá, o negrinho do pastoreio e Sepé, ou seja, Simões Lopes Neto, sobra praticamente nada. A pobreza imaginativa é acachapante e o excesso de realismo é a regra.

Visando suprir essa lacuna é que o Paulo Damin deve ter escrito “A lenda do corpo e da cabeça”. Será que foi? Eu acho que foi isso. Ele deve ter pensado: “vou bagunçar isso aqui de uma vez” e se lançou ao teclado.

Bom, não sei se foi mesmo assim ou se ele fez um uso prévio de psicoativos (ou graspa), mas que há no texto indícios de alteração de consciência, isso há. Estou por ser desmentido, mas fica o registro dessa dúvida.

Não é uma história normal, de gente normal, essa que agora virou livro e antes, por outra espécie de insanidade, os editores da Parêntese haviam publicado como um folhetim. Como é que eles se animaram? Eu fico pensando onde é que eles estavam com a cabeça.. Será que foram ameaçados de decapitação e se renderam? Fica o registro de mais essa dúvida.

A escrita mediante psicoativos (ou graspa), como é sabido, faz o autor ficar meio hiperconfiante. A adrenalina brota dos olhos e ele vai, naquele surto, se recompensando das loucuras que vão saindo da sua mente aos borbotões por outras loucuras ainda mais loucas. De minha parte, eu fico só imaginando as expressões faciais do autor ao escrever barbaridades que nem me animo a reproduzir aqui.

Todavia, se não foi do uso de drogas, decerto tudo aquilo ali provém de alguma técnica bretoniania. Um descompromisso total com a realidade no qual vai se contando a história de um corpo decapitado cuja condição, demente in extremis, não impediu que continuasse uma aventura com ares medievais. Isso o corpo. E a cabeça remanescente, imagem depositária da razão, ainda é mais lisérgica que o corpo e tem conversas animadas com os cursos d’água (isso mesmo), que também falam pelos cotovelos (?!).

Ao encontro de caçadores, bruxas, rios que conversam, sombras despegadas do corpo, cabeças navegantes e um bandoleiro com mais de uma centena de anos, o leitor logo percebe que está lendo um texto desinteressado (modo educado de dizer louco). Aqui o Paulo não traz uma fábula moralizante ou uma metáfora poética rebuscada, parece apenas ter-se deixado levar pelo prazer ancestral de contar uma história no tom mais coloquial, ainda que sem muito pé nem cabeça..

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Conheci tardiamente a autora gaúcha Ana Mariano. Se tivesse conhecido antes, já a teria lido. Ao fechar a última página do seu Atado de ervas (e ao abrir a primeira de Pra amanhecer ontem) foi muito difícil evitar a sensação de tempo perdido em outras leituras e autores. Se isso parece um elogio, então é porque consegui me expressar com clareza: é disso mesmo que se trata.

Sempre detestei, para falar de um livro ou autor, compará-los a outros. Penso que cada qual tem seu valor e demérito próprios e que a graça dos livros, pelo menos no que diz respeito aos leitores, reside justamente na diversidade de estilos, tendências, dicções, etc. Algumas vezes, porém, é muito difícil evitar comparar-se um autor com uma tradição, seus contemporâneos ou, principalmente, às tendências de determinada época. A despeito de tudo isso, minha impressão final ao concluir a leitura de Atado de ervas é de quem esteve por muitos momentos diante do inusitado. E de que as vantagens comparativas do romance acabaram quase sempre por superar suas desvantagens.

Leitores pouco afeitos à ficção escrita com narrador externo, onisciente, talvez se sintam um tanto deslocados ao dar com o livro. Como é sabido, em tempos recentes têm prosperado bem mais as narrativas em primeira pessoa, assim como a controversa autoficção. Há muitos destes livros que gosto bastante, mas confesso certa (na verdade uma bem significativa) saturação para com o estilo. Isto não se refere a nem um autor em específico, mas, no que me toca como leitor, preciso dizer que um livro como Atado de ervas funcionou, de fato, como um inesperado respiradouro.

Há fatores que poderia apontar para a sensação. O primeiro deles é o arejamento geográfico da trama: a paisagem ampla e inesgotável do pampa rio-grandense. A sensação, porém, não é só devida à paisagem pela paisagem, como numa finalidade em si mesma: deve-se bem mais à possibilidade de acompanhar-se a narrativa não sob o encurralamento da percepção de alguém em específico, mas de um universo mais amplo e multifacetado. Das personagens de Atado de ervas podem-se distinguir biografias, nexos afetivos e motivações psicológicas. Não se trata de uma coleção impessoal de nomes e isto por si só propicia ao leitor o escape da sensação de asfixia que muitas vezes acompanha as narrativas monocráticas. Este é bem o segundo fator de arejamento ao que me referia.

Na perspectiva de uma literatura predominantemente escrita por homens, Ana Mariano inculca na aspereza de trato da linguagem e da cultura do meio rural gaúcho uma intensidade poética não muito sensível nos autores locais, mesmo nos pontos máximos do romance histórico rio-grandense, como em Érico Veríssimo ou Luis Antonio de Assis Brasil. Isto, porém, não torna o romance nem mais fácil ou, por outro lado, mais suave. Muito pelo contrário: é uma dicção que humaniza o elemento histórico, destacando-lhe de qualquer aparência historicista ou didática. Também não custam sequer vinte páginas para perceber-se que Atado de ervas está completamente fora da detestável caixa conceitual “literatura feminina”. Se as personagens femininas são centrais ao romance, isto se deve a outra perspectiva: a de que os indivíduos diferenciam-se do cenário independentemente de qualquer característica e muito mais pela relevância de suas personalidades e em função da coerência narrativa.

Porque iniciei falando em vantagens e desvantagens (e para que não pareça elogio deslavado), evidentemente há momentos mais e menos intensos no romance, assim como personagens melhor desenhados que outros. À exceção óbvia, dos excepcionais, acho quase impossível encontrar-se um livro de ficção indefectível, constante, perfeitamente solfejado. Sempre há momentos de fraqueza, fadiga e também de alguma falha na autocrítica do autor. Tudo muito normal e humano, penso eu.

Pensando ainda melhor, admiro muito a capacidade dos escritores em contornar os maus momentos narrativos e transformá-los em peças integrantes de suas tramas. Não sei a razão, mas a mim isso (ou a atitude em salvar um personagem mediano da mediocridade, por exemplo) confere um maior realismo à ficção ou, pelo menos, maior proximidade com a vida real que, como se sabe, jamais é um enlevo permanente. É uma tarefa das mais complicadas e trabalhosas. Notar isso, portanto, não me remete a qualquer problema estrutural ou desvantagem, mas ao trabalho intenso que um romance requer.

Autoral sem deixar ser agradável e lírico sem deixar de ser reflexivo, Atado de ervas é um romance que atende unicamente por literatura. Permitindo antever uma poesia nem um pouco superficial, mas inerente às minúcias da vida das personagens, o romance evita a rudeza com que se costuma pintar a vida no meio rural e, ao mesmo tempo, providencia um sentido histórico, causal, às muitas amarrações que o romance dá entre pessoas e famílias que acompanham as mudanças históricas e políticas no Rio Grande do Sul entre as décadas de 30 e 60 do séc. XX.

Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2012, talvez devesse ter iniciado a ler e escrito sobre Pra amanhecer ontem, lançado no fim de 2017 pela L&PM, mas calhou de conhecer por primeiro seu romance de estreia. Ainda dissolvendo o efeito da leitura de um, deixo que aos poucos o enredo do outro vá imiscuindo-se em minha memória. Como se estivesse também de alguma forma amarrado, acho que vou também precisar de um “atado” de Miguelina para dar jeito nisso.