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O paradoxo da incomunicabilidade em rede

“Como podemos nos entender (…), se nas palavras que digo coloco o sentido e o valor das coisas como se encontram dentro de mim; enquanto quem as escuta inevitavelmente as assume com o sentido e o valor que têm para si, do mundo que tem dentro de si?”

Luigi Pirandello – Seis Personagens À Procura de Um Autor (1921)

Talvez por um distanciamento ainda muito tênue, tudo o que tem se dito (e se diz muito, o tempo inteiro) a respeito da comunicação após o advento das redes sociais é bem menos relevante do que as ciências sociais e a filosofia disseram sobre comunicação de um modo geral antes desse grande divisor de águas que fundou como se uma nova internet dentro da internet. Aqui estou dizendo das modernas redes sociais, das redes comerciais como Twitter, Facebook, Instagram e não as redes de conhecimento e inteligência social tal como começaram a pipocar no mundo inteiro em torno da década de 80, apogeu do Telnet, do Alternex e quando os primeiros navegadores da incipiente world wide web penavam para carregar as primeiras imagens e fotografias de um meio até então restrito exclusivamente aos textos e aos infindáveis comandos exigidos pela sintaxe pré-Macintosh.

Então, embora presentemente diga-se muito a respeito de coisas como identidade, sociedade de massas e conectividade, uma visita rápida aos trabalhos de Jean Baudrillard, de Pierre Lévy e até mesmo dos seminais Erving Goffman e Marshal McLuhan pode ser muito reveladora sobre fenômenos que na aparência são recentes, mas que, na verdade, podem apenas estar representando a continuidade dos sistemas de comunicação que vêm se estruturando ao longo de todo o séc. XX, desembocando na profusão da concomitância de tudo, na massificação digital de um modo geral, como esta com a qual lidamos agora.

Desde a popularização dos computadores pessoais ou, desde mais cedo, da proliferação desembestada de dispositivos portáteis, soube-se que o mundo como era conhecido antes nunca mais seria o mesmo. O mesmo já havia acontecido com outros marcos comunicativos anteriores, como o advento da televisão, do rádio, dos jornais, da imprensa de Gutenberg e assim por diante. E embora esse pareça ser apenas mais um lugar-comum, o pingo de verdade que há em dizer que o mundo nunca é o mesmo é sempre ao mesmo tempo alentador e assustador. Alentador porque a mudança e a novidade sempre podem se encontrar na perspectiva positiva da esperança. Mas assustador porque temos nos acostumado a pensar o futuro como se condenados a distopias nas quais o humano costuma estar fora de controle do próprio humano e a tecnologia, divinizada, determinando ao seu bel prazer a nossa sorte enquanto espécie. A literatura de ficção, o cinema e mais recentemente os seriados veiculados em streaming media aí estão para não me deixar mentir.

Ocorre que, sem o surgimento das redes sociais, a internet não seria muito mais do que um citoplasma impreciso cujos elementos internos mal se comunicariam ou então o fariam de forma bastante precária e ocasional. Faltava injetar-se no interior dessa célula algum elemento de aderência, pois a instantaneidade por si só não caracteriza um potencial comunicativo, mas apenas um estado de pré-disposição. Pois a escalada das redes sociais no ambiente internet ocorreu, como se sabe, de forma galopante e incorporou com a mesma velocidade com que se expandiu essa função aderente, passando-se rapidamente dos obscuros fóruns e listas de e-mail até o escancaramento total do Facebook, incluindo aí outras plataformas de maior ou menor durabilidade, muitas hoje extintas ou decrépitas, como o Orkut, por exemplo.

E o mundo realmente parece ter mudado bastante a partir do apogeu do Facebook entre as redes, embora seu fundador, Mark Zuckerberg, costume exagerar bastante nos poderes que sua trademark tem per se. Recentemente, num manifesto (ou textão de Facebook), ele chegou a cogitar que sua iniciativa comercial poderia incidir decisivamente para resolverem-se problemas com que historicamente a humanidade tem se debatido, tais como a paz global, a fome, a pobreza, o progresso científico, ou seja, praticamente tudo o que importa, revigorando a já um tanto combalida ideia mcluhaniana de aldeia global.  Para ele, o valor da rede de sua propriedade já teria alterado inclusive seu próprio status inicial: não se trataria mais de uma mera rede sustentada por anúncios, mas de uma comunidade global, supranacional, colaborativa, solidária e altruísta. Bem como uma imagem distorcida, mas autobenevolente, o mundo como o conhecemos estaria, segundo Zuckerberg, rumando para uma nova etapa na qual o trivial “like” (ou melhor: 4,5 bilhões like/dia) propulsionaria o que há de melhor na natureza humana em prol das melhores intenções e realizações. Isso sem falar na ajudinha providenciada pelos robots e algoritmos a serviço da inteligência artificial e, por que não dizer? Até mesmo do seu conteúdo patrocinado e colaboradores…

A questão de embutir no futuro do seu empreendimento o caráter de uma utopia solidária, além de um marketing poderoso, é provável que cumpra também a função de dar a entender que os males do mundo tal como ele é poderão mesmo resolver-se assim: de forma remota e impessoal. É uma ideia que vem muito a calhar com pessoas cada vez mais apartadas dos espaços públicos e confinadas em espaços privados. Mas é a respeito desse caráter impessoal que o Facebook se mostra extrememente eficiente em aparentemente contorná-lo e colaborar em “humanizar” seus usuários, pois através das suas específicas subredes (para não usar o surrado termo “bolhas”) de confirmação, estimula-se pelo menos de forma verbal a convergência de ideias, de intenções e até de ideologias, mesmo que elas venham a converter-se rapidamente em objetos de consumo nas suas diversas formas e fenômenos “compartilháveis”: sejam simples memes, longos textos de fontes influenciadoras ou outros subprodutos.

De um modo um pouco diferente da distopia de Aldous Huxley, o admirável mundo novo da informação das redes sociais é uma ficção que não nos aperta muito os calos, muito pelo contrário, chega a ser prazeroso, pelo menos para aqueles que conseguem manter-se a salvo da crescente onda de dependência tecnológica, fenômeno que fez proliferar mundo afora as até há pouco inimagináveis rehabs digitais. Ocorre que, após as redes sociais, o virtual tornou-se por excelência o mundo da representação, como se um pano de fundo no qual cada um é livre para montá-lo com as peças e links que lhe estão disponíveis e de acordo com a sua preferência.

É de ficção ou de uma série embaralhada de muitas ficções que, portanto, é feito o mundo virtual. Ao contrário de engajamentos reais onde bens ou moedas são trocados, a dinâmica preponderante no ramo das redes comerciais é essencialmente declarativa (e será para sempre gratuita). E é até irônico que, no jargão do Facebook, “engajamento” signifique tão somente o produto de likes, shares e visualizações de determinado conteúdo. Por outro lado, não existe qualquer meio de certificação sobre a qualidade do empenho de um pensamento ou de um gesto de seus usuários, quaisquer que sejam eles. Assim como a intenção de confirmação, o livre falsear está franqueado e, para ampará-lo, uma poderosa indústria noticiosa (onde se incluem fake news e agentes comunicativos de segunda e terceira ordens) fornece o combustível permanente de hiperinformação, sem falar nos grandes vórtices de formulação: formadores de opinião e fontes assentadas na credibilidade, como a mídia tradicional, indústria de entretenimento e agentes institucionais.

Trata-se de um embaralhamento difícil de mensurar e do qual emergem narrativas tão múltiplas e assimétricas como inequiparáveis, realizadas ao bel prazer de qualquer pessoa. E assim, galgando-se o meio virtual através da sucessiva e infinita proliferação de informações, percebe-se às vezes muito claramente o ruído imenso que é gerado através da reverberação continuada do entrechoque das ideias e também do prolongamento da propagação de ideias idênticas, mesmo se formuladas de diferentes maneiras, reformuladas ou remixadas.

Da confluência do ruído proveniente deste intenso êxtase comunicativo (bem como Jean Baudrillard previu em meados dos anos 80, em As Estratégias Fatais) é um tanto quanto inevitável que se evidenciem sinais de exaustão do próprio modelo, porque nele não é registrado o tempo da escuta e o da leitura (que não são percebidos na interlocução), mas apenas o da expressão deliberada e, em sua ausência, um grande vazio de percepção e de sentido. É que aí está o ônus da comunicação escrita: uma precariedade de formato, de ilocução e de formas de avaliação e comparação, travadas pelas formas comunicativas do meio. Formas nas quais nunca é dado aos interlocutores avaliar a integralidade do efeito das trocas intersubjetivas. Isso porque, em última análise, é de subjetividades que se está a falar, pelo menos enquanto não se considerar o aporte e intervenções diretas de mecanismos de inteligência artificial.

Dado que qualquer convencimento extremado pode muito rapidamente transformar-se em aborrecimento continuado e as estratégias de persuasão, principalmente aquelas dirigidas aos conteúdos comportamentais e políticos, converterem-se em policiamento do outro embutido de propósitos colonizadores, a intenção comunicativa apenas cumpre seu objetivo na medida em que os interlocutores compartilhem, além do mesmo repertório, a mesma perspectiva, compreensão e significantes. Em caso contrário, o que prospera é o efeito adverso do conflito e o consequente dissenso. Além disso, é preciso considerar que os indivíduos conformam seus repertórios a partir de necessidades e interesses muito particulares, evitando-se quaisquer outras perspectivas e proposições que possam contradizer a identidade ideológica do indivíduo e dos acertos coletivos que ele tem para com sua rede de contatos. Nesse ponto é interessante notar o quanto as redes sociais comercias são pouco transparentes, pois se não se pode saber nada a respeito do que um indivíduo “não curte” ou “discorda”, pode-se conhecer, por outro lado, todo o seu histórico assertivo. Há, portanto, um sem número de informações negativas não computadas nem registradas, mas evidentemente percebidas na “comunidade”.

Tomando-se, por exemplo, o mais fragoroso dos debates do mundo virtual, o debate político, é notável a pouca permeabilidade de opiniões e a intensa evasão de informações que se pratica e exprime, principalmente ao deliberar-se por enunciar um ponto de vista sempre empedernido, pétreo mesmo, o qual pouco se dá a dialogar, embora sempre muito a confirmar. Segundo o professor George Loewenstein, especialista em consumo e comportamento da Universidade Carnegie Mellon (EUA), a opção “seletiva” não significaria outra coisa que um processo de garantia do bem estar, pois seria bem mais natural e seguro manter-se a salvo dentro de uma zona de conforto do que arriscar-se aos debates. Daí a deliberadamente evitar-se informações contraditórias é um passo dos menores e que requer pouco ou nenhum esforço; basta, como ele diz, “evadir-se”. O que interessa observar em seu estudo é que, nessa dinâmica de comportamento, o encapsulamento das redes acaba por competir no esvaziamento do potencial comunicativo e numa dinâmica comunicativa viciada que pode inclusive tornar as pessoas menos capazes de conviver com ideias e opiniões diferentes.

Bem, apenas por isso, todo o arrazoado de Zuckerberg, bem como as ideias de muitos teóricos que desejariam ver nas redes o substrato e a trama de uma nova política, mais transparente e acessível, fica bastante comprometido. Manuel Castells, sociólogo espanhol que esteve muitas vezes no Brasil divulgando suas ideias a respeito da sociedade em rede e autor de uma dezena de livros sobre o assunto, já disse algumas vezes acreditar que a sociabilidade humana se encontra a salvo por causa da internet. Segundo ele, a dinâmica comunicativa da internet contribuiria inclusive para diminuir efeitos nocivos da vida contemporânea, como o stress e a depressão.

Por outro lado (aqui no afã de preservar-se a opinião discordante), o historiador israelense Yuval Nohal Harari, autor dos sucessos de vendas Sapiens – Uma História da Humanidade e Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã , traz um opinião bastante diferente. Entre as muitas especulações que Harari faz em seu mais recente livro, ele que não possui sequer uma conta no Facebook, considera que a idolatria da informação pode vir a ser a dinamite fatal do humanismo, principalmente na substituição do humano pelas tecnologias de inteligência artificial e por uma nova reconfiguração da natureza humana, do saber e das relações. Para ele, a internet ser inteiramente benéfica não é outra coisa que a ficção preferencial do tempo atual, assim como outras ficções já serviram a propósitos específicos na história da humanidade. O que mais chama a atenção nas suas ponderações é, de outro modo, o esfarelamento da noção de livre arbítrio e o quanto a tecnologia poderia cumprir o papel de arregimentar as pessoas através de seus inúmeros dispositivos, ludibriando os sentidos e alterando e modificando inclusive as consciências.

O mais interessante de todo o debate em torno dos potenciais da tecnologia e da comunicação tem residido, talvez, é mesmo na disposição mais subjetiva e intrínseca do ser humano. Estejam certas ou equivocadas as suposições de todos os interessados no assunto (é bem possível que não estejam inteiramente certas nem inteiramente equivocadas), o fundamento essencial é o indivíduo e a sua capacidade de interagir e incidir em relação à informação e a outros seres humanos, para além do mundo material ou do virtual. Se as redes comerciais serão mesmo utilizadas para um ainda maior confinamento de ideias e pessoas, além da elaboração de um arsenal infinito de big data com finalidade imprecisa ou, por outro lado, poderá ser o substrato ideal para que se propiciem soluções para os males que a humanidade enfrenta e ainda enfrentará, cria-se um paradoxo dos mais cruciais: o de que as pessoas acabem tornando-se apenas umas o espetáculo das outras e não mais o seu objeto de interesse efetivo e de ação, interditados pelo distanciamento intersubjetivo.

Por outro lado, de posse da certeza de que a efetividade da comunicação se dá bem mais pela vontade das pessoas, pela prontidão de seu aparato perceptivo e por suas capacidades emissivas e interpretativas do que exatamente por uma disponibilidade dos meios, é bastante possível que os problemas comunicativos de hoje sejam muito semelhantes aos de nossos antepassados. E se é possível que se possa mesmo, como alguns temem, virmos a rumar a qualquer momento a uma espécie de colapso comunicativo, isso deverá ocorrer bem menos em função do choque de opiniões do que por uma tendência natural do ser humano em simplesmente não dar o braço a torcer, principalmente em face de prejuízos morais ou ideológicos.

Caso um meio, seja ele analógico ou digital, tenha sido tramado para favorecer valores individuais e aspectos, digamos, mais egotistas do ser (o que seria uma timeline se não esse repositório de autorreferências?), da união de vários indivíduos em torno dessa forma comunicativa inadvertidamente pode advir justamente uma comunidade de seres autocentrados e, paradoxalmente, pouco comunicativos. Como em uma rede ou em qualquer contexto coletivo não está em ninguém individualmente dosar a oferta de informações, o único que resta possível é admitir-se que o ato de comunicar pode ter sido e ainda vir a ser muito facilitado pela tecnologia e seus recursos, mas a comunicação em si mesma ainda depende de mútuo entendimento e o mínimo de consideração pelas diferenças culturais dos envolvidos.

Prova um pouco que essa tendência é muito anterior às redes sociais o registro dessa dificuldade comunicativa ao longo da história. Se filósofos e cientistas sociais eventualmente debruçaram-se direta ou indiretamente sobre estas questões, escritores também o fizeram, mesmo que sob formas literárias. Entre tantos na história da literatura, o próprio autor da epígrafe desse texto, o italiano Luigi Pirandello, já notara no começo do séc. XX que, bem como a comunicação e a incomunicabilidade, o individualismo e a bisbilhotice também são essencialmente humanos.

As redes sociais comerciais, enfim, também estão aí para que cada um possa confirmar isso (ou não) e evitar que especulações como essas pareçam mentira deslavada ou franco delírio. Isso pelo menos até que outro modelo de rede tome o lugar das atuais (e isso fatalmente deverá acontecer uma hora dessas). Um requisito interessante, neste caso, talvez fosse o de qualificar o próprio engajamento comunicativo e afetivo, pois da aprendizagem das redes o que mais se tem podido depreender são informações deturpadas, engajamento precário, um certo culto à indiferença e um pendor mal disfarçado à evasão de informações. De qualquer forma, é bem interessante pensar que, sendo isso tudo apenas uma radiografia do comportamento humano contemporâneo, talvez ainda haja muito a ser feito em prol da comunicabilidade e das próprias pessoas que não apenas mais e mais mediação tecnológica.

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O ano era 1985 e o folclorista e historiador Barbosa Lessa refletia e registrava no seu fundamental “Nativismo: um fenômeno social gaúcho” que o nascimento do cancioneiro riograndense fora extremo e dificultoso, havia nascido “por paus e por pedras”. Afirmava, inclusive, que este teria sido o maior problema na consolidação do primeiro movimento tradicionalista: a constatação de um acervo musical muito pobre no Rio Grande do Sul. Desde aí, viram-se o folclorista e seus companheiros na situação de recolher o pouco disponível e de ele mesmo contribuir com o cancioneiro local, compondo letra e música da toada Negrinho do Pastoreio e outras melodias que mais tarde foram compiladas e difundidas no Brasil especialmente pela cantora e apresentadora Inezita Barroso, em seus discos e coleções de música “de raiz”.

Passadas várias décadas desde o livro e mais ainda desde o momento seminal do movimento tradicionalista, não é arriscado dizer que o acervo musical de “extração folclórica” no Rio Grande do Sul tornou-se neste período nada menos que descomunal. Barbosa Lessa, em 1985, falava a respeito do momento excepcional que o nativismo vivia, com o sucesso popular dos festivais musicais, especialmente a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana. Além disso, a propagação do movimento cetegista havia se tornado um fenômeno nacional e até internacional, com a instalação de mais 800 centros tradicionalistas nos mais diversos pontos do país e do mundo. Ao fim do mesmo livro, o folclorista ainda assim afirmava não possuir distanciamento suficiente para avaliar a influência do movimento nem os caminhos que se seguiriam no que viria a ser, para ele, uma “nova fase” do gauchismo.

Um diagnóstico do que ocorreu nesse lapso, de fato, ou pelo menos uma avaliação crítica, não parece ter sido discutida e difundida. Embora o assunto tenha sido e seja ainda bastante pesquisado, e sob os mais variados vieses, o ciclo comercial de exibição, gravação e transmissão parece ter se imposto como um fenômeno cultural autosuficiente, isto é, em condições de sustentar a cadeia econômica erguida em torno da massiva produção autoral do nativismo. O complexo é ainda imenso: são dezenas de festivais musicais espalhados pelo interior e centenas de edições acumuladas ao longo dos anos. Em cada edição, dezenas de composições inscritas, ou seja, uma profusão exponencial de criatividade e influências.

No entanto, provavelmente a “nova fase” do gauchismo antevista por Barbosa Lessa tenha mesmo é derivado para a massificação comercial. E se perdido um tanto da produção de projeção folclórica arduamente laborada e que foi, de acordo com um dos fundadores do movimento tradicionalista, “garibada” de um repertório muito elementar, motivos rústicos e uma linguagem eivada por espanholismos e expressões e termos típicos e passadistas. É natural, pois Lessa também adverte em seu livro que tanto ele quanto Paixão Côrtes foram buscar na experiência dos grêmios gaúchos de João Simões Lopes Neto e Cezimbra Jacques inspiração para a conformação do seu edifício folclórico. Além disso, a projeção do folclorismo platino, seus motivos, estilos, danças e músicas colaboraram numa aproximação inevitável, tendo-se em vista que apoiadas na vida provinciana e no gauchismo como um fenômeno sem fronteiras.

Enquanto o folclorismo riograndense engatinhava, por assim dizer, o argentino já se encontrava consolidado numa estrutura institucional e comercial que encontrou nas ambições nacionalistas o fermento ideal para o seu crescimento. Especialmente pelo trabalho do folclorista Juan Alfonso Carrizo, o conhecimento da cultura local argentina havia frutificado em espetáculos, gravações e publicações que resgatavam para a Buenos Aires metropolitana a cultura espontânea das províncias. O seu trabalho de décadas havia favorecido a primeira onda folclórica no Rio da Prata, em torno da década de 50, com a evidência maior de Atahualpa Yupanqui, o principal coletor, intérprete e autor de projeção folclórica nesse momento — embora os primeiros registros de exibições folclóricas em Buenos Aires datem das primeiras décadas do séc. XX.

Nesse mesmo período, em solo rio-grandense, o modernista Augusto Meyer finalizava a primeira edição do seu “Guia do Folclore Gaúcho”. A sugestão do livro partira do seu amigo Mário de Andrade, escritor e pesquisador musical do folclore nacional, e consistia na consolidação do possível. Em seu prefácio, Meyer dizia que um livro como o dele deveria trazer mais folhas em branco do que texto. E afirmou sem pejo que, por falta de fontes, muitas vezes colaborou intensamente na criação final dos objetos fixados. Pelo seu exemplo e pela mesma dificuldade encontrada pelos primeiros tradicionalistas, o que se pode deduzir é que estes vazios foram compensados por uma resolução muito forte na fixação do imaginário e identidade cultural do Rio Grande do Sul ao tempo que o mundo se recompunha da Segunda Guerra Mundial e a UNESCO fôra criada no sentido de fomentar políticas em prol da diversidade cultural e da valorização dos povos. No Rio Grande do Sul, também a figura do historiador e folclorista Dante de Laytano teve um papel fundamental no estímulo ao grupo formado no colégio Júlio de Castilhos e liderado por Paixão Côrtes e Barbosa Lessa.

Mas se o primeiro momento da investida tradicionalista foi árduo e o terreno encontrado árido, a frutificação do nativismo, e em especial no que diz respeito à música como produto cultural, logo se tornou imensa. Se a princípio tanto Lessa quanto Paixão Côrtes controlavam as influências uruguaias e argentinas, pujantes, em torno da virada do milênio o movimento abstraiu de qualquer controle interno, influenciando-se por outras ondas culturais. Lessa, que morreu em 2002, certamente não opinou na decisão do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), de 2006, em vetar a participação da emergente “Tchê Music” nos espaços cetegistas. Em suas prerrogativas normativas, o MTG procurava conter o contato intercutural nacional e a manutenção de uma tradição intocada, sendo que em sua própria origem o movimento havia se inspirado em influências extra-nacionais.

Como é de se imaginar, os influxos culturais não podem ser parados por decreto e, mais recetemente, o que vem se flagrando em muitos festivais nativistas é a presença de uma sonoridade e elementos da música “sertaneja” em sua versão contemporânea. Além da sonoridade e entoação, destaca-se até por contraste uma sensibilidade diferenciada daquela consagrada ao gaúcho e o estereótipo da masculinidade altiva e etc. Para além da curiosidade, o que resta é um estranhamento que implica indiretamente na alteração da linguagem, dos costumes e, por estranho que pareça, da própria “tradição”.

Por certo quem viaje ao interior, planalto, fronteira ou a serra do Rio Grande do Sul há de encontrar variações culturais e dialetais importantes. A região do pampa rio-grandense, por ser a mais característica e identificada com o ethos gauchista, supostamente estaria mais “a salvo” dessa influência, no entanto a proliferação do cultivo da soja em detrimento da produção pecuária parece que vem alterando a cultura em redor. Esta é a opinião do escritor José Francisco Botelho, hoje radicado em Bagé, na fronteira com o Uruguai. De acordo com ele, trata-se de uma observação empírica, com base na experiência da realidade. A observação é coerente com o que se reflete, pelo visto, na produção musical nativista. Fato é que as negociações culturais em torno do vocabulário e práticas de vida sem dúvida se alteram em função das necessidades presentes de trabalho e demais elementos da vida cotidiana. Talvez isto signifique que o mesmo impasse na variabilidade da expressão cultural se encontre expresso nas práticas econômicas. A influência econômica sobre a cultura, como se sabe, nunca pode ser completamente desprezada.

Nesse contexto, se refletisse sobre o assunto, uma pessoa incauta indagaria inocentemente: mas pode o folclore pode mudar? Está ameaçado o legado de Barbosa Lessa, Paixão Côrtes, Dante de Laytano e talvez até mesmo o de Augusto Meyer? Pode estar, é claro. Se um repertório folclórico é dado por pessoas que o sistematizem da voz popular, o que for sistematizado hoje logo a seguir o integrará ou substituirá. Esta é a natureza mutável e espontânea do folclore, a concepção popular da vida e do mundo (não apenas uma coleção pitoresca), conforme o anotado por Antonio Gramsci no seus anos de cárcere. Se determinado repertório deixa de atender às necessidades expressivas de uma comunidade, naturalmente ele será substituído. Afinal de contas, ele mesmo nascera de uma mutação histórica ou se encontrava em estado líquido, volátil.

Como se sabe, a busca por reter a história costuma ser um esforço inútil, e mesmo que não identificado com um furor conservador a René Guenón, o tradicionalismo cultural do Rio Grande do Sul permanece na mesma encruzilhada que Barbosa Lessa viu em 1985. Curiosamente, agora mais desafiado pelo próprio Brasil do que pela cultura dos países vizinhos (voltar olhos e ouvidos ao produzido nos demais países latinos, aliás, poderia oxigenar em muito a produção local). Suas opções estão entre cristalizar-se numa resistência tresloucada à mudança ou em descaracterizar-se do arcabouço constituído a duras penas pelos seus fundadores, numa amostra de maleabilidade por ser comprovada. Poderia também, talvez isso seja possível, colar-se a uma noção mais dinâmica de cultura e colher do próprio povo as suas razões de ser, mantendo-se fiel ao escrúpulo de seus idealizadores. Não mal comparando, a opção está como que entre a prudência de apear do cavalo e a busca por refazer seu contrato com a população ou ser derrubado pela passagem do trator da história. Não é questão de apostar nisso ou naquilo, mas, que o desafio está posto, isto ele está. É um contato que já existe, resta ver qual será o impacto ao final do encontro.