Crônicas Sobreviventes

Sobreviventes

Em fins da década de 70, Caio Fernando Abreu escreveu o necrológio do que havia de movimento hippie no Brasil de então. É um poema que está publicado no livro “Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu”, da Ed. Record, e chama-se “OS SOBREVIVENTES”.

Este tipo humano, exatamente assim, já meio fora de tempo e um pouco perdido, eu ainda conheci na minha infância. Pelo menos no interior do RS havia quem procurasse essa indumentária, essa caracterização hippie clássica: cabelos longos, batas indianas, sandálias de couro e um olhar ao mesmo tempo de resistência e estranhamento. Os anos 80 já batiam à porta e a redemocratização brasileira idem. Alguns viviam em modos realmente alternativos, sobrevivendo do artesanato e até de venda de poesia mimeografada. Lembro disso muito bem. Havia, ao lado de muita gente fantasiada, sobreviventes de verdade.

Nessa mesma época prosperava também outro visual comum entre as pessoas mais ou menos da mesma faixa etária. Era o visual do movimento estudantil, politizado. O cabelo não era longo, motivos peruanos e/ou indianos não eram habituais, não usavam drogas e até condenavam-nas por suposto apelo à alienação. A camisa dentro das calças, a cabeça dentro de livros de formação e os ícones, ao invés dos ídolos do rock como Janis ou Lennon, concentravam-se mais em figuras revolucionárias: Che, Lenin, Trotski, etc.

Jovens demais para terem participado da resistência à ditadura ou da luta armada e de certo modo como os hippies de então, encarnavam uma fantasia político-espiritual: tomar o poder, mudar o mundo. Não puderam. Os anos 80 foram implacáveis, crise sem fim, inflação monstruosa, TV a cores e música pop, cultura pop, política pop.

Os 90 continuaram na mesma batida e neles foi protagonizada a grande virada política de então, nas mãos do tucano Fernando Henrique Cardoso: a primeira reforma administrativa desde os anos 60, lei das organizações, novo modelo de assistência, saúde, privatizações e a destruição definitiva do sonho de Anisio Teixeira: universalização da educação. As prioridades voltaram-se ao mercado e sua relação patológica com o Estado brasileiro: esta mesma doença da qual padecemos hoje e nos custa bilhões sem fim.

Depois veio esta história recente, a de agora, em muito levada a efeito por aquela mesma geração dos anos 80, da redemocratização, do movimento estudantil mas já sem barra pesada, sem clandestinidade, que, assim como aqueles sobreviventes hippies, parece insistir em vender o incenso da sua “luta” ideológica sem perceber (ou se fazer notar) que sua imagem ficou fatalmente anexada ao dinheiro na cueca, ao aperto de mão com Maluf e a uma iconografia dramática, feita por sessentões barrigudos como aqueles de então, financiados por esse dinheiro aí, dessa matéria prima manuseada por Odebrecht e outros milagres brasileiros.

Caio Fernando Abreu virou meme e ninguém ainda escreveu sobre esses sobreviventes, nem quem lhes tente herdar a sucessão. A história virou vapor nas redes sociais e nos falta, como Caio fez com os hippies, quem nos esclareça sobre isso. Mas não falta quem recicle a pantomima.

É meio triste e não sei onde isso vai dar, mas agora só consigo sentir saudade dos primeiros sobreviventes.

__________________

OS SOBREVIVENTES
Caio Fernando Abreu

Os sobreviventes
às vezes ainda aparecem
em busca de papo
ou qualquer coisa assim.

Ainda trazem os cabelos compridos
duas ou três pulseirinhas
alguns panos coloridos
ou um incenso nas mãos.

Só os olhos mudaram.
Aquela loucura das pupilas
aterrizou, virou espanto
de ter virado espanto.

Pois um sobrevivente
nunca imaginou que pudesse um dia
virar sobrevivente de um tempo
e de si mesmo. Mas virou.

Pelas tardes, de repente,
os sobreviventes ainda aparecem
procurando nos meus olhos
o que nos olhos deles já não existe.

Mas nada encontram.
Faz tempo, rasguei as fantasias
pendurei os colares nas paredes
mandei o pano indiano pra lavanderia.

Nos reconhecemos assim
esbarrando pela noite ou pelas tardes
feito zumbis de almas para sempre perdidas
no sonho que se foi. E que não volta.

O ofício agora é navegar sozinho.
Sem razão, sem porto, sem destino,
sem irmão nem mapa. Sobre-vivendo
à nossa própria morte. E isso é tudo.

Sampa. 23 de julho de 1979.

Deixe uma resposta

Posts semelhantes

Michael Jordan, poetaMichael Jordan, poeta

de quando Michael largou a poesia e se tornou um gênio

Há quem maldiga o seu algoritmo por muito pouco. Não eu.

Eu tenho descoberto com ele coisas bem interessantes, como, por exemplo, que o maior jogador de basquete de todos os tempos também tentou a carreira de poeta. Ainda que tenha sido um poema só, e ao que tudo indica dedicado à sua mamãe, ele tinha tudo para se tornar também um gigante dos versos.

É isso mesmo! Quem me revelou isso foi um vídeo do Reels (aqueles vídeos aparentemente aleatórios que cronometram milimetricamente a atenção dos indivíduos para lhe dar e mais mais do mesmo, como se fossemos hamsters).

É por onde o algoritmo parece descobrir o ponto fraco do freguês, a sua droga favorita, a sua perversão secreta, a sua obsessão patológica e passa a lhe oferecer mais e mais daquilo para que ali ele fique o máximo de tempo possível, seja assistindo a vídeos de gatinhos fofos ou coisas que às demais pessoas não importa nem convém saber.

Os vídeos do Reels são, não mal comparando, a cracolândia das redes sociais.

Depois de um tempo variando a oferta de conteúdo, finalmente o algoritmo descobriu que, no meu passado, eu fui um jogador de basquete. Primeiro amador, depois ainda amador e finalmente ex-amador. Essa foi toda a minha carreira.

Mas descobriu o algoritmo que eu ainda hoje posso passar horas sem fim assistindo principalmente às jogadas dos meus diletos gênios da bola ao cesto.

Os gênios são muitos, em todos os tempos, mas divindade, como todos sabem, há uma apenas. Atende pela nome de Michael Jeffrey Jordan, o imortalizado número 23 do Chicago Bulls. Michael Jordan (MJ), o jogador poeta. Sim, talvez o autor de um poema só, escrito na High School, como saber? Mas que importa? Não se pode ter preconceito com detalhes secundários como esses. A poesia é um caminho aberto a todos que se atrevam a trilhá-lo.

Mas desde que eu vi aquilo, entendi subliminarmente que ele, além do basquete, sempre esteve envolvido numa, como eu quero demonstrar, poética.. Exagero? Provarei que não. Pelo menos me deixem blasfemar com liberdade..

Na verdade, nem é preciso que eu prove muito. Os vídeos de Michael estão aí e são auto explicativos. Basta que se perceba a sua atitude em relação ao objetivo do jogo e cada investida sua contra a cesta adversária para que se entenda a intensa catarse a que ele se sempre se entregou ao jogar.

No basquete, como todos que já o praticaram reconhecem, o objetivo da vitória final é secundário, detalhe decorrente de muitas outras coisas. O que importa é que a bola caia no cesto. Quantas tentativas num jogo profissional isso acontece para que o objetivo se cumpra? Centenas, milhares.. Mas cada uma das tentativas é um esforço total, isso em MJ é mais que evidente. E o incrível nele é que sempre o fez de inúmeras maneiras diferentes. Não é uma jogada especializada apenas, um lance de 3 pontos infalível, mas uma versatilidade aliada ao foco que o fez obter o que obteve: ser ainda hoje considerado o “goat”. O bode. O greatest of all times..

Na verdade, o que acontece no basquete são milhares de pequenos jogos dentro de um grande jogo. Há os arremessos de longa distância, média, infiltrações, enterradas.. Para cada uma dessas modalidade de encestamento, diversas possibilidades específicas: reversão, antecipação, explosão, etc etc etc.

Além disso, o jogo em quadra, os movimentos, a levitação, a percepção espacial e de oportunidades. Tudo isso praticado com uma necessidade de solução imediata, de pronto, irrefletida. MJ foi um mestre exímio em tudo isso. É como fosse um Musashi das quadras, um Bach, um Mozart, um Shakespeare, um Machado da bola em gomos.

Mas o que nele há de diferente dos outros jogadores?, indagaria um neófito no melhor de todos os esportes.. O Lebron James não é tão jogador quanto ele? Kobe Bryant não foi? Magic Johnson? Oscar Schmidt, o “mão santa”? A Hortênsia?

Esse é o tipo de heresia que não se pergunta jamais a um basqueteiro..

A questão, para o que interessa aqui, é que nele, MJ, há um senso de obtenção do efeito que é completo. Não há um acaso sequer. E mesmo no erro, o erro é menor, ele não é valorizado, perde o efeito, é como se não existisse em face da nova tentativa. Isso é o suprassumo da vontade criadora. E é aí que justamente reside o que chamo de “poética desportiva” deste hoje senhor sexagenário e multimilionário.

A bola tem de cair e ele vai empregar toda, completamente toda a sua energia para obter um, dois ou três pontos no épico que é cada jogo por inteiro. E isso a cada lance. É um desgaste de atenção descomunal, como sabe bem quem já tentou jogar basquete por mais de cinco minutos.

* * *

Apesar de que prefiro ver aqueles lances bem antigos em que Jordan simplesmente ultrapassa os adversários rumo a mais um dunk destruidor, tem um lance que é muito emblemático na sua carreira. Aconteceu num jogo contra o Los Angeles Lakers, na final do primeiro do seus títulos, quando suplantou outro gênio das quadras: Magic Johnson.

Numa infiltração em três passos (bandeja), nosso herói se depara com uma impossibilidade espacial, uma barreira imprevista, o que ocorre junto ao próprio esgotamento do seu movimento de três passos. Pois de algum reflexo cinético felino, ele simplesmente muda a trajetória no ar e faz com que a bola passe por um espaço humanamente impossível e que não se encontrava bloqueado pelos dois defensores. Mas a bola passa. Passa e cai. Dois pontos só e daí, diria uma pessoa abilolada pelo pragmatismo.. Uma obra-prima do esporte, diriam os fanáticos.

Michael Jordan – famous switch hands layup

Você provavelmente já viu um cesto de lixo de um escritor que faz justiça ao nome, isso antes do computador.. É o mesmo do que se dá na quadra de basquete. Muitas bolas fora até a obtenção do que realmente tem valor.

Isso independente das suas escolhas formais e estéticas — embora elas possam até garantir algum efeito extra no lance (mas jamais antecipar seu efeito). Isso sempre depende muito de quem joga, dessa habilidade, mas também, complementarmente, de quem assiste. É preciso fazê-lo, simplesmente. Just do it, como diz o lema dos tênis..

Pois assim precisa ser um poema. A bola tem que cair.

Nessa minha livre analogia, o poeta tem que fazer tudo, absolutamente tudo, para que a maldita bola caia. Isso de atirar para cima e talvez ela caia, com o perdão da metáfora, não é a mesma coisa. Não tem valor algum. É sorte. Acaso. Valem dois pontos no placar, mas não têm graça alguma..

A ação poética, nessa perspectiva comparativo-desportiva, é o emprego dessa energia, sem perda de tempo, eficiência ou atenção. O treino não vale. A brincadeira também não. Magic Johnson, um brincalhão, diziam que era muito mais competitivo que Michael Jordan.. As pessoas enganam muito.

A ação se dá quando o sujeito entra em quadra e faz tudo que pode fazer, com o maior empenho possível, até que pareça aos olhos dos outros uma trivialidade (que ele, no entanto, sabe perfeitamente o quanto lhe custou obter).

É o que fazia Michael Jordan ao jogar.

* * *

O poema juvenil de Michael Jordan é imprestável. Felizmente ele foi jogar basquete e não continuou naquelas chorumelas..

* * *

A má notícia aqui é que o algoritmo também descobriu que eu tenho fascínio em vídeos de répteis. Valei-me Freud, mas eu simplesmente gosto de observar a existência desses seres primevos. Se querem me interpretar, bom proveito, eu não me importo..

Mas eu tenho pensado há tempos também numa aproximação poética sobre os répteis.. Que que tem de mais?

* * *

Estou pensando nisso enquanto assisto às finais da NBA..

Que jogadores canhestros e desgraciosos…

* * *

Que os dragões os devorem vivos..

Seu Teixeirinha, o faz-tudoSeu Teixeirinha, o faz-tudo

teixeira

Hoje cedo recebi pelo interfone daqui de casa uma chamada de um senhor chamado Teixeirinha. Teixeirinha, no Rio Grande do Sul, ainda hoje é o maior ícone da música popular tradicionalista. Em vida, gravou cerca de trinta discos ou mais, participou de pelo menos dez filmes e incontáveis vezes suas músicas tocaram nas rádios daqui, principalmente as de onda média, de larga penetração nas cidades do interior do estado. É claro que não eram a mesma pessoa, porém, como eu não via o seu semblante, mas ouvia seu modo de falar em tudo interiorano, tive uma conversa estranha com o seu Teixeirinha. Não o fantasma do músico, mas este outro: sujeito aposentado que procurava serviços gerais para ajudar a “criar os neto”, conforme ele disse.

O homem ia falando lá de baixo e eu, cá em cima, montava a fisionomia do outro Teixeirinha mentalmente. Imaginava um homem atarracado como o outro, já falecido. Cabelos escuros improváveis e bigode à gaúcha, como o da imagem do Teixeirinha que eu conservava em mente. À medida que a conversa progredia, entretanto, fui perdendo a imagem do cantor mitológico, mas restava um modo tão simples e direto de dizer as coisas que era como se eu estivesse falando com qualquer pessoa “de antigamente”. E a conversa, como tinha para ele um propósito, e eu, estando impedido de descer no momento, acabou transcorrendo daquela forma impessoal, separados nós por três andares do prédio e camadas e mais camadas de pisos e paredes que impediam que nos enxergássemos frontalmente.

O que ele queria é que eu anotasse o número do seu telefone e, na eventualidade de uma necessidade de qualquer serviço, como de encanador, eletricista, pedreiro, o que fosse, não hesitasse em lhe chamar. Aposentado ele estava agora, mas não tão tranquilamente quanto fosse digno para estar de pernas esticadas numa praia ou numa varanda, mas vagando pela Cidade Baixa, de Porto Alegre, em busca de serviços ocasionais (ou changas, no modo de dizer rural), para ajudar no sustento da família e na “criação dos neto”, com o perdão da repetição da sua fala.

Não sou o síndico do prédio onde moro, mas sou casado com a síndica. Ao contrário de outras composições políticas semelhantes, atuamos em comum acordo e jamais me ocorreu, por exemplo, sabotar sua gestão ou coisa equivalente. A pessoa prevenida inclusive jamais deveria incorrer numa parceria feita à sorrelfa, com pessoas que não se confiam. Se assim não pode ser na vida política, na vida pessoal é completamente inviável ser de outro modo.

Como a titular da pasta não estava em casa, atendi eu mesmo o que ele pedia. Guardei seus telefones e sugeri que me aguardasse um instante, que em minutos eu desceria até lá para falar com ele diretamente. Com o seu Teixeirinha. “Não se incomode”, ele falou, porque estava visitando os prédios todos do bairro e de cada um onde estivera antigamente a serviço ele lembrava-se do nome dos antigos moradores, inclusive do nosso, com quem teria “tratado serviço” há muitos anos atrás. Esta pessoa, já falecida, havia sido major do exército, pracinha da FEB na 2ª Guerra Mundial, e fôra síndico por muitos anos. Na nossa conversa, citar o seu nome funcionava como um atestado de idoneidade. Interiorano como sou, entendi assim a menção a este antigo vizinho que era vivo ainda quando viemos morar aqui. E, na lógica da conversa, era isso mesmo o que ele queria dizer, que não era um ninguém, mas era o seu Teixeirinha, conhecido deste, daquele e daquele outro. Alguém cuja credibilidade era dada quase por uma tradição. Seja como for, foi o suficiente para que eu acreditasse nele.

A conversa não foi longa, mas o bastante para que eu percebesse que a firmeza na voz do meu interlocutor seria exatamente a mesma do seu empenho em qualquer trabalho que fosse fazer. Há não muito tempo atrás eu havia tomado um calote de um sujeito bem jovem que veio fazer um serviço de encanamento aqui em casa e pensei que era uma lástima eu não ter desde antes o contato do seu Teixeirinha. Esse outro fez um serviço péssimo que tive eu mesmo de reparar, ainda que tivesse pago e não pouco pela sua execução. Paciência. Pagava em dobro para ele não pisar mais na minha casa.

Não tenho de imediato um serviço para oferecer ao seu Teixeirinha nem aqui em casa nem no condomínio, mas sou bem capaz de quebrar um cano ou estragar uma coisa qualquer de propósito a fim de chamá-lo. E nem tanto para me certificar de que não se trata de uma reencarnação do antigo cantor de música gauchesca, mas porque se isso fosse ajudá-lo a completar a aposentadoria miserável que pagam aos velhos no Brasil, já valeria a pena. Antes investir diretamente no seu Teixeirinha do que nesses gatunos que agora se resolveu chamar de “gestores”. E, mais a mais, apesar de que certamente fosse mais digno e justo que uma pessoa nessa idade estivesse sossegada, de tanto e tanta pilantra que se é obrigado a ver nas “mídias” e “redes sociais”, sempre é bom ver com os próprios olhos um índio velho desses que não se entrega assim “no más”.