E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Crítica O radinho da Simone: espalhado Brasil adentro

O radinho da Simone: espalhado Brasil adentro

Assim como há música que são como calçadas, espalhadas Brasil adentro, onde se encontra de tudo – e isso é uma benção de poucos lugares – há músicas que parecem que encontramos nas ruas, como um vizinho antigo, uma fachada intacta ou lugares que mudaram, aqueles que nos últimos tempos puderam mudar pra melhor.

Assim é o radinho da Simone, que encontrei quase sem querer pipocando de lá pra cá, nessa chapa quente que é a internet. A Simone de quem falo é a Simone Guimarães, a cantora que tem a voz do Brasil de dentro por dentro de si e que, quando bota isso pra fora, faz a gente sair procurando onde está o Brasil dentro de nós. E ela nos diz (sem mesmo saber) que ele está onde esteve sempre esteve, lá, ali, aqui, um pouco aos nossos pés, um pouco oculto e inacessível, mas ainda assim inteiramente nosso.

No radinho da Simone há coisas gravadas há bastante tempo, desde os tempos miraculosos de Piracema até os trabalhos mais recentes, não menos miraculosos, de Casa de Oceano ou Flor de Pão, registrados pela Biscoito Fino. Há também coisas pra descobrir: letras antigas de um Cacaso, canções plantadas no leito de um rio, na borda de uma janela em flor ou noutras jóias e pepitas desse pequeno grande tesouro esperando ser descoberto…

Sempre resta uma dúvida ao escutar a Simone: é preciso decidir rapidamente se as suas escolhas foram feitas pensando em sua voz ou se sua voz é que foi forjada por suas escolhas. Como a resposta não está escrita em lugar nenhum, o jeito é botar o radinho pra tocar mais uma vez. E tentar decidir jamais.
Com licença, por obséquio, que eu preciso ouvir esse radinho aqui um pouco mais.

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IHU on-line

Das muitas escoriações eleitorais do Brasil recente é do senso comum que resta um público fatigado da política. O inacreditável percentual de abstenções na eleição de 2018 (20,3%) é por si só autoexplicativo da dificuldade das alianças políticas engendradas pelo presidencialismo de coalizão em manter o eleitorado agregado principalmente a partir de 2013 e da ruptura do pacto popular com o petismo. Apesar disso, a curiosidade política é incessante, tanto quanto são as análises realizadas – mesmo a contrapelo de um estado de ânimo civil deprimido como o do Brasil da pandemia do Covid-19 – e respectivas publicações.

A fim de entender o Brasil e sua história política recente e procurar responder a uma questão chave (Como teve lugar isso que nos aconteceu?), o professor de literatura brasileira em Tulane, Nova Orleans, Idelber Avelar, vale-se de uma fresta pouco ou nada explorada na análise política para debater ao lado de muitos jornalistas, cientistas políticos, sociólogos e tantos outros interessados no percurso da democracia brasileira que vêm publicando ultimamente. Seu mais recente livro, Eles em nósretórica e antagonismo político no Brasil do século XXI (Record, 2021), se, por um lado, fundamenta-se teoricamente na análise de discurso e nos estudos linguísticos, por outro, pode muito bem ser lido como uma crônica de viagem temporal por meio da qual se pode rever a inflamável trajetória brasileira do início do século até os primeiros anos do governo Bolsonaro.

No livro, encontram-se os momentos cruciais da vida política nacional recente levados à reflexão com um debate aprofundado e extensa contraposição bibliográfica. Não poderia ser diferente para um autor que deseja não apenas reportar os acontecimentos e analisá-los, mas confrontá-los em relação aos diversos atores sociais envolvidos no debate público, sejam eles os militantes da base petista e seus intelectuais orgânicos, com o seu discurso mais ou menos afinado, ou a desorganização caótica característica do bolsonarismo. No entanto, apesar de valer-se do arcabouço usualmente empregado na análise literária, não é de ficção que trata Eles em nós, mas de um documento sobre um país real, de pessoas reais e que, por isso mesmo, exigem uma compreensão menos simplória que as abordagens consagradas nas polarizações eleitorais. Portanto não é apenas de categorias políticas que trata Idelber, mas da cidadania, sua relações imediatas, reais ou virtuais e da forma com essa população vem sendo desgastada no encontro das disputas em torno ao poder político no Brasil.

A forma pela qual Idelber obtém esse raio amplo de observação baseia-se em primeiro lugar em sua vontade em extrapolar da ciência política convencional. Ao beber da fonte dos estudos antropológicos e econômicos, mas também por considerar o substrato comunicativo da internet como teia de negociações simbólicas, potencializa-se em seu livro a expressão dos fenômenos culturais que perpassam as decisões eleitorais e políticas ao mesmo tempo que incide nesse caldo o olhar de quem discerne sem compromisso ideológico; pelo contrário, o seu é um olhar que se preocupa com o exame coerente e lógico dos eventos sem abrir mão de estabelecer relações entre os campos. Também seu horizonte se amplifica exponencialmente por verificar o Brasil até onde ele é menos visível e compreendido, como no interior onde se desenvolve tanto o drama ambiental e indígena quanto se dá a expansão do agronegócio, ou seja, há uma preocupação em abordar o Brasil e sua inteireza e complexidades.

No entanto é por ver mais na política do que mera dança de cadeiras e por fugir a uma recriação historicista da ocupação dos espaços públicos que Eles em nós rompe um bocado a tradição de análises lineares de cunho mais acadêmico sem, contudo, deixar de dialogar com elas. Da mesma forma, Idelber não deixa de ilustrá-lo com a leitura jornalística, de recheá-lo com declarações de políticos ou confrontá-lo a outras opiniões. Além disso, sua atenção aos embates ilocutórios das redes sociais e leituras efetuadas até mesmo em grupos do WhatsApp garante-lhe uma apreciação menos categórica da que costumam obter os estudos mais especulativos. É como um caráter informativo subjacente ao texto que guarda em muitos momentos o estilo de crônica que emprega nas análises que ele mesmo mantém nas redes sociais, espaços nos quais realiza intensa troca com seus leitores (/idelber.avelar) e (@iavelar).

Essa característica de um texto acessível, todavia, não diminui em nada da profundidade e do impacto de suas observações. Pelo contrário, o reconhecimento de categorias políticas expressas no mundo objetivo conforme as pessoas lidam cotidianamente confere ao seu texto um elemento de intenso realismo, pois ele não parte tanto de especulações teóricas quanto de fatos reportados que qualquer leitor pode imediatamente reconhecer. Quem quer que tenha testemunhado ou participado dos eventos políticos de 2013, por exemplo, poderá rever finalmente com algum distanciamento aqueles momentos que detrataram a confiança popular na gestão petista e cujo eventos foram versados livremente por intérpretes políticos atordoados. Também logo mais, na crise energética e ambiental, nos eventos preparativos à Copa do Mundo, na evolução do fenômeno lavajatista e culminando na campanha eleitoral de 2018 quando, colapsados pela realidade, deixou o Brasil levar-se ao governo de quem melhor soube encampar as forças antagônicas e o reverb das massas insatisfeitas. Em vista do caráter nebuloso causal e da dificuldade hermenêutica generalizada, é bem possível que muitos leitores perceberão que faltava quem procurasse desvelar o ornitorrinco brasileiro com o auxílio de figuras de linguagem, procedimentos retóricos e um tanto de lógica, ainda que isso pareça o mais estranho de tudo.

Da emergência da era das narrativas, é natural que emergisse, portanto, uma leitura habituada a desvelar os recursos retóricos e a safar-se da virulência argumentativa que vai se colando ao real como camadas sobrepostas. A dificuldade que representa desbastar os muitos encobrimentos semânticos e os jogos de interesse que estão sempre no centro da disputa política não é tarefa de simples execução, muito pelo contrário. O esforço visível de Idelber consiste em estar ao tempo e ao centro da intempérie dos fatos e das sobreinterpretações criadas a todo o tempo pelos múltiplos interessados, em tautologias e aproximações que se multiplicam numa razão infernal como a disponível na internet, meio de expressão das opiniões e laboratório de testes por excelência das ideias políticas na contemporaneidade. Daí que a crítica literária e especialidades linguísticas ofereçam uma lente das mais interessantes para se observar o mundo político e fugir à “cacofonia” de livros sobre o Brasil atual e o endosso costumeiro que se faz ao modo com que se vinha fazendo e compreendendo política, de acordo com ele um sintoma intelectual da própria crise.

Das hipérboles e exageros dos muitos discursos com que se vem moldando a imagem da população, do gerenciamento político dos antagonismos partidários e coalizões até a ruptura e emergência do bolsonarismo como redenção antagônica, da quebra do “equilíbrio oximorônico” e da dificuldade dialética de equacionar-se um entedimento comum, do esvaziamento argumentativo e o “lexicocídio” daí resultante, da desorganização narrativa à dessensibilização lexical dos nomes em seus enunciados ao giro retórico da radicalização bolsonarista, Idelber realiza em seu livro o mapeamento discursivo de um país que por duas décadas passou a transmigrar livremente no tempo (sem nunca ser o país do futuro e sem jamais abandonar os ranços do passado), ancorando-se agora no mais oblíquo embaraço.

Por fim, cabe lembrar que seu objetivo era entender “como teve lugar isso que nos aconteceu” e não “por culpa de quem isso nos aconteceu”, como é praxe no tribunal continuado das redes sociais. Se cada assunto abordado no livro é o bastante para refletir longamente, por outro lado a prosa do professor de literatura garante uma fruição nada opaca e bem humorada sempre que possível. Aos leitores acostumados a receber afagos teórico-ideológicos nas próprias convicções, é uma oportunidade de confrontarem-se consigo mesmos no que costuma ser mais habitual na literatura de ficção: a suspensão voluntária da descrença. Pode requerer algum esforço no começo, mas, no decorrer do livro, ficará cada vez mais claro que a argumentação é suficientemente forte para sustentar-se em pé e prender e surpreender o leitor imbuído de curiosidade honesta.

Liberdade e opressão em Simone WeilLiberdade e opressão em Simone Weil

Revista Amálgama

Em julho de 2020, a editora Âyiné fez jorrar para o público brasileiro um tanto mais da obra da filósofa francesa Simone Weil (1909-1943). Por meio da tradução de Pedro Fonseca, um dos sócios da editora nascida veneziana e já naturalizada brasileira, veio a público o trabalho que Simone terminou de redigir quando contava com apenas 25 anos de idade, em 1934, Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social (Âyiné, 2020). É um opúsculo que impressiona desde a primeira página (leia no Estado da Arte a reprodução do trecho inicial do livro) tanto por constituir uma crítica contundente (e precoce) em relação à experiência revolucionária russa de 1917 quanto mais por situá-la e situar-se ainda mais em favor daqueles que, de acordo com ela, continuaram submetidos à tirania produtiva que a revolução de outubro em nem um momento cessou ou fez modificar a relação de opressão exercida dali em diante pelo regime bolchevique por intermédio do Estado.

Trata-se de uma cronologia bibliográfica que aos poucos se vai montando, apesar de que apenas nos melhores sonhos dos seus leitores imagine-se vertida ao português uma obra que em sua edição critica é composta por sete tomos, dezesseis volumes e cerca de sete mil páginas, de acordo com o projeto editorial da Gallimard para as suas Ouvres Completes. O público brasileiro, acostumado à oferta em conta-gotas de trabalhos esparsos e coletâneas de Simone, ganha agora a possibilidade de conhecer esta que, de acordo com ela própria, seria sua “primeira grande obra”, e que ela redigiu pouco antes de partir para as linhas de montagem da Renault na qualidade de operária.

Alguns anos antes, em 2018, a Âyiné já havia publicado de Simone o ensaio/manifesto Pela supressão dos partidos políticos (Âyiné, 2018). Escrito logo após a ocupação nazista e sob o impacto do colapso político francês de 1940, o texto foi um dos reunidos por Albert Camus para a coleção Espoir para a Gallimard em 1948, sob o título geral Écrits historiques et politiques. Camus, aliás, reconheceu desde o primeiro momento em Simone a consistência do seu pensamento político, principalmente a partir da sua leitura de L’Enracinement (O Enraizamento, em edição esgotada e publicada no Brasil pela EDUSC – Editora da Universidade Sagrado Coração, em 2001).

Obra derradeira e, de acordo com ela, sua “segunda grande obra”, O Enraizamento (cujo título completo em português seria O Enraizamento. Prelúdio a uma declaração aos deveres relativos ao ser humano) teve o texto interrompido pela morte de Simone, em 1943. No entanto, desde sua publicação póstuma, em 1949, logrou a consideração de filósofos que confirmaram a impressão de Camus quanto à consistência teórica da sua percepção ética e política e clareza de princípios, tais como como Hannah Arendt, Giorgio Agambem, Michel Serres, Maurice Blanchot, Georges Bataille e Emmanuel Levinas.

Porém o interesse por sua obra não tem se limitado, desde então, ao mundo dos estudos formais. Se for certo que a recepção de seu trabalho possa ter repercutido mais em função da intensidade do seu desfecho biográfico e suas inclinações místico-religiosas do que por ter deitado influências em seguidores acadêmicos, por outro lado é possível entendê-la como uma pensadora não autolimitada, mas definitiva em si mesma. Talvez por essa razão seu nome seja frequentemente lembrado em momentos de crise política e moral.

Deste modo foi que provavelmente descobriram-na os norte-americanos embrenhados nos conflitos dos anos 60 do séc. XX, por influência de Susan Sontag; de maneira semelhante, redescobrem-na hoje, em meio à era Trump, por intermédio da recriação proposta por Patti Smith em Devoção (Companhia das Letras, 2018); e, talvez do mesmo modo, a editora Âyiné tenha pensado no Brasil contemporâneo ao lançar por aqui um trabalho de forte crítica ao mundo politico como em Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social.

Não deixa de ser curioso que é na autora que aos 25 anos já havia compreendido as limitações da ordem politica e viu as utopias revolucionárias bordarem-se do sangue de inocentes e procurou ver e viver na própria pele a experiência da opressão pelo trabalho – ao mesmo tempo que recusava qualquer entusiasmo partidário e a frivolidade burguesa – que se busque alguma forma de inspiração ou, que seja, consolo. Há mesmo na filosofia de Simone Weil o sentido de devastação histórica que é muito presente nos artistas que viveram a vertigem do entre guerras e a ascensão do horror nazista. É equivocado pensar que, todavia, trate-se de uma pensadora de fragmentos levada ao sabor da história ou da loucura, como insinuaram personalidades que travaram contato com ela, tais como De Gaulle, que a denominou por “louca”, e Leon Trotsky, que a definiu como uma “revolucionária melancólica” e “anarquista barata”. Ainda assim, não é menos sintomático de um século em chagas que tenham sido poetas como T. S. Eliot, W. H. Auden, Czeslaw Milosz, Seamus Heaney e Flannery O’Connor a perceber a potência do pensamento de Simone e a redimir sua memória.

Eliot, que prefaciou a primeira edição em inglês de O Enraizamento, em 1952, recomendou àqueles que buscam conhecer o trabalho de Simone para que não evitem seus paradoxos, mas que busquem compreendê-los tanto no que se referem às questões religiosas ou políticas, e que procurem ao máximo evitar a refração moral e o simples antagonismo intelectual na sua leitura. Para o poeta de The Waste Land, “she appears as a stern critic of both Right and Left; at the same time more truly a lover of order and hierarchy than most of those who call themselves Conservative, and more truly a lover of the people than most of those who call themselves Socialist / ela surge como crítica severa tanto da direita quanto da esquerda; ao mesmo tempo mais verdadeiramente uma amante da ordem e da hierarquia do que a maioria daqueles que se autodenominam conservadores e, mais verdadeiramente, amantes das pessoas do que a maioria daqueles que se autodenominam socialistas”.

Essa percepção totalizante da visão de mundo e do trabalho de Simone que, de acordo com uma de suas principais estudiosas no Brasil, Maria Clara Bingemer, está presente nela desde suas inclinações infantis e juvenis, transparece na consistência e contundência com que formula sua crítica desde os rascunhos que resultaram nestas Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social.

Desde que iniciou seu trabalho como professora até sua morte, Simone Weil viveu intensamente o período mais intenso da história do séc. XX e justamente em seu epicentro. Simone esteve na Alemanha, lutou na Espanha, participou da resistência francesa, esteve em Londres, viajou aos Estados Unidos, à Itália e viveu a vida como uma experiência religiosa, de aprendizagem sensível. Além de encontrar-se com a vivência da experiência mística e da leitura precoce de muitas tradições (sejam orientais ou ocidentais), nunca deixou de pensar a filosofia política. Possivelmente, também por evitar alienar o seu pensamento ou ter seccionado o ser político do espiritual, tenha-lhe sido tão natural entregar-se ao pensamento teológico. Mesmo assim, até o último momento de sua vida, Simone manteve a critica política ao purismo religioso em face sua repulsa ainda maior à violência, jamais deixando de lado a consideração da Inquisição e das suas ideias sobre a força política (1) e seus usos moralmente cediços.

Neste momento crucial brasileiro, a publicação de seus textos políticos é muito bem vinda, uma vez que permitem e convidam a uma reflexão desembaraçada e desimpedida. Longe de qualquer comparatismo, é relevante perceber-se que o tempo de agora não pode parecer acelerar-se mais do que aquele que no espaço de menos de uma década levou o mundo de uma mera eleição ao colapso geopolítico mundial. Ao publicar os trabalhos de Simone Weil, a editora Âyiné lança a esperança de que possa continuá-lo, talvez, a seguir, com O Enraizamento. Uma obra que trata de reconstruir o mundo devastado pode colaborar e muito em que não se desperdicem esforços políticos e vidas humanas em vão.

(1) Assista no link a seguir a leitura dramática que Simona Giurgea, professora titular de inglês no University Theatre, Colgate University, fez de Ilíada ou o poema da força, ensaio no qual Simone Weil explora o trabalho de Homero para ilustrar a sua tese a respeito da força. O texto encontra-se publicado no Brasil nos livros Simone Weil: a força e fraqueza do amor, de Maria Clara Bingimer (Rocco, 2007) e Ilíada, de Homero, trad. de Trajano Vieira (Ed. 34, 2020).

Pasolini e o nonsense da poesiaPasolini e o nonsense da poesia

poemas

Em tempos de livrarias virtuais que oferecem ininterruptamente o paraíso e o inferno ao mero alcance do dedo, contar com uma livraria real a poucos quarteirões de casa deveria ser um descanso para os olhos, não fosse “o lugar” um primor na escolha dos títulos à venda. Eu diria que é uma perfeita otimização do espaço, contrastando a relação qualitativa normalmente ocupada pelas grandes empresas do ramo.

Pois foi ali mesmo que, numa dessas visitas ocasionais, vi pela primeira vez a edição bilíngue dos poemas de Pier Paolo Pasolini, em italiano e português, organizada por Alfonso Bernardinelli e Maurício Santana Dias em 2015 para a Cosac Naify. O livro, ali entremeado a outras excelentes escolhas em uma das poucas prateleiras de poesia que dão gosto em vasculhar (normalmente são seções maltratadas nas hiperlivrarias), aqui em Porto Alegre, ganhou-me ao primeiro olhar. É que justamente abri as páginas em um trecho do poema “Gerarchia”/”Hierarquia”, em que Pasolini escreve sobre o Brasil e, como o próprio título diz, suas costumeiras hierarquias. O poema não está datado, mas tudo indica que tenha sido escrito no começo dos anos 70. Diz o seguinte:

(…) È cosi per puro caso che un brasiliano è fascista e un alto sovversivo,
colui che cava gli occhi
può essere scambiato con colui a cui gli occhi sono cavati. (…)

***

(…) É assim por pur puro acaso que um brasileiro é fascista e outro subversivo;
aquele que arranca os olhos
pode ser confundido com aquele cujos olhos são arrancados. (…)

Obra do olhar estrangeiro ou da sensibilidade do poeta, é uma sensação incomodamente familiar, isso quase quarenta anos depois do seu falecimento. Folheando um pouco mais, é rápida a percepção de que as similaridades não param por aí. Isso porque a poética de Pasolini está permeada do seu olhar (talvez no caso dele fosse melhor dizer do seu “ser/estar”) para a sociedade e para a política, sobretudo a italiana, obviamente, e suas relações explosivas. Nos anos 70, Pasolini já não escandalizava a opinião pública do seu país pela sua crueza cinematográfica, mas por tornar-se um pensador visceral, capaz de sobressair-se da mera denúncia política, isso porque sua própria vida estava empenhada na subversão. E isto lhe aconteceu até mesmo para com a esquerda italiana e o PCI (Partido Comunista Italiano), do qual aproximou-se em torno de 1950.

A um tempo em que o engajamento político dava lugar a uma poesia de outra tonalidade, mais amena e transcendente, como em Eugenio Montale e Salvatore Quasimodo, seu trabalho poético mantinha-se à luz do espírito crítico e, talvez tendo paralelo adequado apenas entre alguns poetas norte-americanos do período, como os da geração beat, recusava-se a dobrar a espinha inclusive aos ditames ideológicos e aos próprios comunistas, principalmente entre os movimentos de juventude, questionando-lhes o caráter permanentemente.

Não foi por isso, entretanto, que em 1970 Pasolini foi expulso do PCI, mas sob a acusação de supostamente “seduzir” menores. Para ele, homossexual que não ocultava-se e que já tinha a inimizade dos religiosos, manter-se em pé já não era mais uma opção e até a data de seu obscuro assassinato, em 1975, Pasolini continuou publicando critica, prosa, politica e também poesia. “La nuova gioventu”, com versos como “Bisogna condannare/severamente chi/creda nei buona sentimenti/e nell’innocensa – É preciso condenar/severamente quem/crê nos bons sentimentos/e na inocência”, é do ano de sua morte. O poema é um dos que constam na coletânea editada agora pela Cosac Naify.

O livro, além de reunir poemas escritos durante toda a vida de Pasolini, traz a introdução do crítico e também ensaísta Alfonso Berardinelli, traduzido por Maria Betânia Amoroso, que também escreve o epílogo. Ela, estudiosa de sua poesia e uma das principais difusoras do seu trabalho, desde a época em que seus filmes eram proibidos no Brasil e seus poemas conhecidos apenas parcialmente, distende uma linha temporal sobre o reconhecimento do trabalho dele  no Brasil. O livro ainda inclui um apanhado da bibliografia das traduções brasileiras, da crítica sobre sua obra literária e cinematográfica, bem como de suas próprias publicações como ficcionista, dramaturgo, roteirista, ensaísta, tradutor, critico e poeta. E também, claro, sua filmografia.

Se a poesia de Pasolini é muitas vezes contestada sobre sua qualidade, pelo seu caráter nitidamente mais político do que lírico, este não é um problema exclusivo dele e também não é um problema do que ele escreveu em versos, mas apenas do que conseguiu ler-se e depreender-se do seu trabalho literário, inclusive o poético. Pasolini, talvez um intelectual de um tipo incomum no Brasil, que não impôs limites em seu trabalho intelectual e sua vida privada, viveu seu tempo transfigurando também em poética a crítica política do fascismo, do provincianismo, da moralidade católica e de sua particular visão de mundo claramente marxista e impregnada do contato com a pobreza do pós guerra. Para ele próprio, a escolha de seus motivos poéticos dava-se como se por uma coação do real, da qual ele não podia nem queria livrar-se.

Por muito tempo taxado de panfletário, depois de quarenta anos de sua morte, finalmente o Brasil ganha uma coletânea capaz de propiciar uma leitura abrangente de sua obra poética, justo no mesmo ano em que chega aos cinemas brasileiros o filme biográfico que o também italiano Abel Ferrara lhe dedicou, Pasolini, em que o ator Willem Dafoe o interpretou magnificamente, para quem desejar conhecer mais de sua biografia.

Goste-se mais ou menos, encontrar edições bilingues de poesia, e apresentadas com zelo apurado é uma boa experiênica ao estar de visita em uma livraria de verdade. Se alguém, depois de ler os seus versos e reconhecer muitas semelhanças com o Brasil contemporâneo em sua poética, ainda assim desejar defenestrá-lo ao estigma da poesia panfletária poderia muito bem em contrapartida indicar onde, na poesia brasileira, encontra-se um poeta que não defina-se senão como alguém nos píncaros da inspiração, mas no nonsense de escrever, como ele mesmo diz em entrevista celebrizada no YouTube. Nonsense para mim, portanto, continua sendo ter de esfregar e esfregar os olhos nessa busca ou, ainda pior, precisar encontrar quem nos interpretou, brasileiros de hoje, tão bem assim quanto Pier Paolo há décadas atrás.