Incrédulo

Sei que muitos que me conhecem me tomam por cético (como se isso fosse algo essencialmente ruim e não apenas um método tortuoso de pensamento que somente me dificulta as coisas), mas, na verdade, sou apenas incrédulo. Não sou nem um pouco cético quanto às pessoas desenvolverem e aplicarem suas melhores capacidades, apenas sou incrédulo quanto a que boa parte destas mesmas pessoas deseje isso efetivamente, portanto basta que me seja demonstrado o contrário e eu mudo de ideia sem dificuldade alguma.

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A urna – 2A urna – 2

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Era ódio: já não é. Agora já não existe
mais esta febre da carne viva.
Para quando eu vier a morrer não resista
sombra de orgulho, nem raiva altiva.

Antes eu era todo um tormento,
contradição, luta, mentira;
esticava meu olhar turbulento
no arco da ira.

Em forças desajustadas me dividia
e hoje conto apenas com uma energia
suprema, que alimenta o gesto eterno:

um amor pensativo e doloroso.
Por ele sou como um lago silencioso
entre imensas montanhas. O inverno…

O sagrado coraçãoO sagrado coração

O coração de Jesus é o de um pedinte. É mais uma advertência que uma oferta. Jesus não foi o único homem que existiu que foi capaz de oferecer a própria vida. Cada soldado anônimo antes o fizera e continuaram fazendo depois. Anônimos, transfigurados pela abstração de uma tribo, pelo medo de viver sem nem uma razão. Jesus foi o primeiro indivíduo de que se tem notícia na historia que entendeu ser alguém por indução cósmica, porque ele não conheceu antes quem houvesse simplesmente se recusado a continuar a história dos outros nem os mitos de ninguém, nem tradição nenhuma. Ele fundou a primeira religião individualista. Tudo o que importa está contido num coração do qual ele pode abrir mão, como da vida, se necessário. Um coração enrolado em espinhos. E quem queira tocá-lo será fatalmente ferido com o próprio sangue. Jesus tinha a convicção de que poderia habitar o coração de cada qual que o amasse. É o transplante mais bem sucedido da história, felizmente. Mas, em face da pessoa, não poderia ter sido diferente. Eu não sou católico nem bom cristão, mas espero sinceramente que continue sendo assim. Que não lhe inventem um coração artificial nem o substituam por algo assim.

O ódioO ódio

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Brilhando por inteiro ao sinuoso
passo vai o tigre, suave como um verso,
e a ferocidade lustra qual terso
topázio o olho seco e vigoroso.

Estirando o músculo em desuso
dos flancos, lânguido e perverso,
encosta-se lentamente no disperso
outono das folhagens. O repouso…

O repouso na selva silenciosa.
A fronte plana dorme entre as finas garras
e o olhar fixo, sem gáudio,

espia, enquanto abafa com a nervosa
cauda todas as outras feras,
como em esgueira… Este é o meu ódio.