E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Sem categoria Desentendimentos porto-alegrenses

Desentendimentos porto-alegrenses

Não sei se com todo o mundo é assim, mas eu vivo com a cidade onde vivo uma espécie de relação parental. Não é como habitasse um logradouro, mas um cômodo da sua casa. Ou como se ela fosse um corpo gigante e eu vivesse em um de seus órgãos, porque, afinal, respiro dentro dela, as suas umidades, e quando abro as portas e janelas da minha casa dou de cara invariavelmente com as sujidades que a noite deposita no que seriam, talvez alucinadamente, as suas veias e artérias.

Como relação parental, temos bons e maus momentos, eu e a cidade. Nunca compusemos a imagem idealizada da família margarina e, felizmente, tampouco chegamos à disfuncionalidade tolstoiana. Tentamos manter um respeito insubmisso, talvez herança que eu traga da minha educação fronteiriça.

Se me revolto, a ela eu reservo o mesmíssimo direito. E ela me fustiga, me fustigou duramente nesse maio último, e a todos que estamos aqui. Sim, porque não foi a natureza mortífera em revolta que nos sacrificou, eu acho, mas a própria cidade que imaginamos algo maior do que ela efetivamente era, como a imagem distorcida que um filho tem de um pai ou de uma mãe.

Essa desproporção, essa distorção que em mim cria o mesmo sentimento de um adolescente que não se conforma em “parecer”, em “fingir” para o que “os outros poderão pensar”, mas que, sem saber ou poder dar um desfecho para a revolta que se estabelece, acaba incorrendo num sofrimento administrado a duras penas. Não sempre amargo, isso não, mas com muitos silenciamentos, para que não se rompam as suturas de soluções tão precárias como as que lhe sabemos ter provido. Com alguma desatenção também..

Como um corpo humano, a cidade também sangra. E, nesse transbordo violento, desconhece qualquer limite. Avança com a mesma força contra os museus, shoppings centers, livrarias, edifícios e os mais humildes endereços. É a sua inclemência cega que nos apavora, como se ela acordasse numa manhã como uma espécie de touro louco solto na praça.

Mesmo nesses dias, vejo com os olhos marejados o esforço daqueles que independentemente de qualquer coisa, digo, qualquer coisa mesmo, prestam socorro a quem quer que seja, digo a quem quer que seja mesmo. São pessoas agregadoras, cujo esforço é digno reconhecer e agradecer, sem olhar a nada além do que apenas isso. Talvez sejam os braços mais fortes da cidade, ou talvez nem tenham esse poder se comparados a outros, mas nessa calamidade revelaram-se assim. Ou se forem os filhos melhor nutridos da cidade, pode ser que sim (não tenho nem farei esse levantamento), nesse caso é justo que sejam os primeiros a arregaçar as mangas, não haveria de ser os combalidos, os alagados. Seja como for, é bom para a cidade que possam fazer e façam.

No ano passado, não, não foi no ano passado, foi neste ano, ali em vésperas da entrega do Prêmio Açorianos (parece que já fazem milênios), e estive ao ponto de ter de pensar em um fala de agradecimento caso ganhasse aquele prêmio tão porto-alegrense, me ocorreu uma imagem ao mesmo tempo familiar (e complicada), de que a premiação me servisse de uma certidão de nascimento tardia. Uma adoção, nesse caso. Não foi o caso, não aconteceu e então não precisei declarar em público o meu estado de filiação para com a cidade. Mas nem por isso vivo a sensação do “enjeitado”, não mesmo. Estou aqui por opção e gosto de manter comigo os ditados interioranos, no seu pragmatismo, com os quais eu fui criado. Nada disso de “virar o cocho” ou “cuspir no prato” me agrada. Todavia a falta do documento comprobatório me devolve, às vezes, em secreto, a ambição juvenil de abandoná-la para sempre. E eis que de um momento de caos completo, a velha cidade, não exatamente a que eu conheci na adolescência real ou a de agora, parece que ouço-a suplicar silenciosamente, como costumam fazer os velhos e orgulhosos gaúchos…

Quem não está aqui, por certo não pode ouvi-la bem nem imagino que poderiam entendê-la, mas eu, não sei por que razão, julgo que posso. E que preciso prestar-lhe pelo menos atenção. O seu canto ainda é fraco, morrente, está já nos que não estão mais aqui (não estão?), nos lugares que sobrevivem às construções que a tentam falsificar, como as de um antigo calçamento ou nas vielas do Centro abandonado por áreas mais nobres.

Quando ando ali, ela me esclarece (não eu) que é inacreditável que sobreviva mais do que foi feito em 1935 do que o realizado ontem. Ou ainda antes. Essa memória que nos sonambuliza, como se apenas em sonhos nos fosse permitido transitá-la na forma que merecia, sem penduricalhos horríveis que foram pendurando em sua face, “rótula das cuias”, um shopping ao lado do outro, uma estatuária medonhenta, nem falo dos ex-cinemas.. Uma desfiguração que a cidade aceita porque incapaz de reagir, nos seus 252 anos. Uma idosa com mais parentesco em Montevideo ou Buenos Aires do que em Abu Dhabi, embora os arquitetos que agora se dão ao trabalho de imaginá-la não percebam a sua incompleição com o faraônico. Ela, uma senhora modesta por necessidade, nem sempre se dá muito bem com as novas gerações de gente que nasce ou vem dar aqui.

Se às vezes me revolto contra a cidade, eu espero que ela entenda como uma prova de um amor, mesmo que um amor às avessas. É um desgaste de 30 anos de relação. Acho que até um pouco mais que isso dura já essa “união”. Às vezes, sinto vontade de sumir desse mapa que a água tomou sem mais cerimônias. E sinto também a culpa por esse desejo. Brigamos sem nos ferir demasiadamente. Não suportaríamos. E nesses bancos geminados, jogados ao esquecimento, (por que o que parece esquecido e jogado por aí sempre nos comunica mais que o anunciado com pompa, alguém pode me explicar?), sei que voltarei a me entender com a cidade, ainda que os termos com que faremos não estejam plenamente claros.

Em breve, a inundação se tornará lenda. E o inverno, espero, não há de ser tão rigoroso. Saio com um casaco que agora me estorva as mãos, afinal, é outono.. As meias dos pés estão suadas de caminhar. Convém que eu não demore muito mais e volte para casa antes que anoiteça.


𝗜𝗺𝗮𝗴𝗲𝗺: bancos originais do Auditório Araújo Vianna (1927), atualmente no Parque da Redenção. A foto é minha, de 2024 ou 2023..

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Depois de uns meses nas mãos do pessoal da editora Fi, ficou pronta a edição do livreto que deverá muito provavelmente constituir o máximo da minha vida acadêmica. O trabalho é resultado do curso de especialização em Literatura Brasileira que cursei na UFRGS no ano passado e, como nasceu bem robusto para o que se propunha, acabou propiciando-se a edição em livro (acesse por aqui).

Com as doses de generosidade dos professores que o orientaram e examinaram, ele cresceu ainda um pouco mais após a conclusão do curso a ponto de parar em pé como um livreto, opúsculo, seja lá como se chame uma publicação assim, de mais ou menos 80 páginas. Eu digo que será o máximo porque não me passa me dedicar novamente ao estudo sistemático, mas ficar com o diletantismo mesmo, que é mais do meu feitio e proporção.

Em linhas muito gerais, o trabalho pretendia verificar a forma pela qual os romancistas gaúchos do séc. XX lidaram com as condições materiais da vida rural na região da Campanha gaúcha. Se contribuíram para a formação de um imaginário mais realista (ou ufanista) e o que entregaram ao campo literário recente.

O ensaio recupera um pouco a história literária do séc. XIX para logo encontrar os marcos representados no trabalho de Simões Lopes Neto, Alcides Maya, a geração de 30 (Ivan Pedro de Martins, Cyro Martins, Pedro Wayne) e os posteriores Aureliano de Figueiredo Pinto, Érico Veríssimo e Barbosa Lessa.

É uma mirada meio ocêanica, panorâmica, mas cujo objetivo é também procurar problematizar a forma pela qual o meio literário deu prosseguimento a essa tradição e o impasse que quanto a ela recaiu após o fenômeno tradicionalista, a expansão modernizadora via meios de comunicação e o recalque temático ao conteúdo histórico. O livro não é lá tão grande, mas rendeu bastante trabalho.

Para quem se interessa pela temática ou tem curiosidade em saber mais, a editora Fi realiza um trabalho de acesso aberto de edição de trabalhos acadêmicos, ou seja, a versão digital do livro não tem custo e pode ser obtida livremente por download. Quem desejar, também pode encomendar no próprio site da editora exemplares impressos. Eu vou fazer alguns poucos para mim e para alguns amigos, mas não terei para venda. Quem considerar necessário, pode valer-se dos serviços on-demand da editora.

Charruas e minuanos em BagéCharruas e minuanos em Bagé

Lá em Bagé, minha cidade natal, todos aprendem cedo que o lugar onde o Minuano sopra mais forte é na frente do Charrua.

O Charrua em questão é o hotel que por duas décadas foi o mais sofisticado da cidade, empreendimento do grupo Ypiranga que foi vendido em meados da década de 80 para um empresário local que grafou o seu próprio nome no hotel e retirou da fachada o cavaleiro indígena que o simbolizava e se podia ver à distância.

Já Minuano é o nome do vento que sopra de sudoeste, normalmente acompanhando as massas polares e é o vento mais frio que sopra em território brasileiro. Logo após a entrada de uma frente fria, o Minuano enregelante sopra forte sob as colunas do hotel, vindo de Aceguá, e há que ter força nas pernas para manter-se em pé ao cruzar por ali.

Fora essas duas menções, que eu me lembre, Bagé não guarda nenhuma referência histórica pública dos povos originários, nem um topônimo e nem nome de rua. Sequer o nome da cidade foi perdoado, assim como a memória de um certo curandeiro que teria por lá vivido à época dos primeiros acampamentos, e que até motivo de chacota se tornou na intelectualidade rio-grandense dos anos 50.

Ibajé teria sido o seu nome e, por essa razão, o nome da cidade guardava a grafia dos vocábulos indígenas, com a letra “J”. Ao longo do tempo, instituiu-se o Bagé com “G”, desfigurou-se a lenda e se chegou ao ponto de derivar o nome a um remoto vilarejo português, desvinculando-se de suas possíveis conotações indígenas.

Dos povos originários, a cidade vizinha do forte de Santa Tecla e da redução de Santo André dos Guenoas hoje não conta mais nem com a estampa na fachada do hotel. No município, vive hoje um assentamento kaingang que passa por muitas dificuldades, necessitando nesse inverno de alimentos, agasalhos e cobertores.

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Nem imagino quem lembraria de um antigo best-seller dos anos 70: “O maior vendedor do mundo”. Nunca li, mas também nunca esqueci da capa com o título e o nome do autor, um certo Og Mandino ornada com louros, como um César romano. Não sei nem de que trata o livro, mas tenho certeza de que sou a sua antítese. Sou realmente o pior vendedor do mundo. Não tenho ilusões de melhorar isso e não sei como, aliás, pessoa como eu se atreve ainda a fazer coisas que possam ser vendidas, como livros.

Todavia, dito isso, mesmo assim.. contando com a inestimável ajuda do Cláudio B. Carlos e do Angel Cabeza, da Saraquá edições, hoje partiram pra gráfica os originais de uma pequena tiragem de um romance que comecei a escrever há uns anos e finalmente neste ano dei por concluído, depois de várias releituras e revisões. Filhote com 6 anos de idade já.

Da releitura, surgiu a vontade de rebatizar a história. Rebatizar com o título que primeiro pensei para ela e que, numa edição limitada preliminar foi preterido por outro, um certo “Trapézio” que circulou timidamente entre alguns leitores e pessoas que aceitaram recebê-lo por delicadeza mesmo.

Família e amigos agora me advertem que o titulo – agora definitivo – poderia trazer uma expressão “datada” e/ou regional demais. Eu concordo com isso, mas acontece que o livro é realmente datado nos atropelados anos 80 e guarda muito da vida disponível naqueles tempos. Pelo menos é o que eu espero que ele transmita. Então – sem traumas – este é mesmo o único título que ele deveria sempre ter tido: um livro que, apesar disso, é bem livre de sotaques e gírias, salvo aquelas que se incorporaram ao modo de falar dos gaúchos da capital e do interior.

A história não mudou muito, à exceção de alguns ajustes temporais e esclarecimentos, mas o livro ficou mesmo muito melhor agora. Depois de ter passado pelas competentes mãos do pessoal da Saraquá e de completar-se com o tratamento visual igualmente inestimável do meu amigo Vinícius da Silva, eu diria que ficou como sempre deveria ter sido. Um livro que extrapola um pouco a dimensão do texto por sinestésico e pelas camadas de tempo pelas quais viaja.

Editora sediada em Cachoeira do Sul, a Saraquá e o Claudio sempre me impressionaram muito com a qualidade das suas edições e eu posso dizer com tranquilidade que não haveria melhor casa para o “FNT”. Além disso, me agrada muito ser coerente com a ideia de valorizar o trabalho hercúleo de quem produz e edita literatura desde o interior brasileiro. Então, o que eu sinto é um tanto de orgulho e respeito por que o romance “renasça” agora definitivamente nessa casa.

Mas bem, como eu disse, a tiragem é realmente pequena e eu penso em esgotá-la ao fim desse processo, quer dizer, não pretendo fazer estoques e ficar vendendo nas redes. Dessa forma, todos os livros que não forem resgatados desse “sequestro” eu pretendo destinar a divulgadores literários e bibliotecas, vencido o prazo do aceitável. E também assumo o compromisso de oferecer a todos que compraram o antigo “Trapézio” um exemplar sem custo dessa edição rebatizada, basta que entrem em contato comigo. No mais, vou procurar comercializá-lo com a ajuda de algumas livrarias tb, algo que agora que começo a ver. E a divulgá-lo mais tb.

Nesse tempo, também poderá ser comprado comigo e criei um site com essa finalidade, além de mostrar assim um tanto do livro. Entre outras coisas, como o texto da orelha que explica a escolha do título, ali também estará a playlist da “contracapa” com os discos e músicas mencionados ao longo do livro que, como qualquer história dos 80, só pode ser mesmo muito musical.

Aqui o endereço do site:
https://ficanatua.com/

Importante dizer também que não se trata de uma pré-venda sem prazo nem horizonte. O livro já está na gráfica e quem comprar até o final do mês eu estou fazendo um valor que é quase de custo + frete. Mais próximo ao fim do mês ou no comecinho de outubro eu já começo a enviá-los, com a minha caligrafia paleográfica.

Eu ainda não entendi direito como vai ser a Feira do Livro neste ano, se apenas as associadas à Câmara do Livro terão espaço para lançamentos. Eu vou tentar agendar lá também, nem que seja pra tirar foto de máscara com quem se interessar em me rever (ou ver pela primeira vez em carne e osso). Se não der, paciência. Virão outras feiras e, a depender, novos livros. A live é outra questão em aberto. Agora, parece que sem live não houve lançamento. Então estou pensando, sim, mais seriamente, agora que arranjei quem colabore com a função toda. Mas a ver. Quando e se confirmar, aviso e prometo uma conversa anárquica, como são as boas conversas.

Enquanto uns vendem terrenos no mar, garrafas cheias de ar até a boca e promessas vagas, eu acho que vou indo bem. Aprendendo ainda. Penso que talvez o velho Og Mandino não me reprovasse completamente..