Sem categoria A crise da representação rural na literatura rio-grandense

A crise da representação rural na literatura rio-grandense

Depois de uns meses nas mãos do pessoal da editora Fi, ficou pronta a edição do livreto que deverá muito provavelmente constituir o máximo da minha vida acadêmica. O trabalho é resultado do curso de especialização em Literatura Brasileira que cursei na UFRGS no ano passado e, como nasceu bem robusto para o que se propunha, acabou propiciando-se a edição em livro (acesse por aqui).

Com as doses de generosidade dos professores que o orientaram e examinaram, ele cresceu ainda um pouco mais após a conclusão do curso a ponto de parar em pé como um livreto, opúsculo, seja lá como se chame uma publicação assim, de mais ou menos 80 páginas. Eu digo que será o máximo porque não me passa me dedicar novamente ao estudo sistemático, mas ficar com o diletantismo mesmo, que é mais do meu feitio e proporção.

Em linhas muito gerais, o trabalho pretendia verificar a forma pela qual os romancistas gaúchos do séc. XX lidaram com as condições materiais da vida rural na região da Campanha gaúcha. Se contribuíram para a formação de um imaginário mais realista (ou ufanista) e o que entregaram ao campo literário recente.

O ensaio recupera um pouco a história literária do séc. XIX para logo encontrar os marcos representados no trabalho de Simões Lopes Neto, Alcides Maya, a geração de 30 (Ivan Pedro de Martins, Cyro Martins, Pedro Wayne) e os posteriores Aureliano de Figueiredo Pinto, Érico Veríssimo e Barbosa Lessa.

É uma mirada meio ocêanica, panorâmica, mas cujo objetivo é também procurar problematizar a forma pela qual o meio literário deu prosseguimento a essa tradição e o impasse que quanto a ela recaiu após o fenômeno tradicionalista, a expansão modernizadora via meios de comunicação e o recalque temático ao conteúdo histórico. O livro não é lá tão grande, mas rendeu bastante trabalho.

Para quem se interessa pela temática ou tem curiosidade em saber mais, a editora Fi realiza um trabalho de acesso aberto de edição de trabalhos acadêmicos, ou seja, a versão digital do livro não tem custo e pode ser obtida livremente por download. Quem desejar, também pode encomendar no próprio site da editora exemplares impressos. Eu vou fazer alguns poucos para mim e para alguns amigos, mas não terei para venda. Quem considerar necessário, pode valer-se dos serviços on-demand da editora.

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AnotaçãoAnotação

Porque escrevo a respeito dos outros, parece que posso entendê-los. Não é verdade isso. Tudo é apenas uma tentativa e tenho certeza que errei em interpretação muitas vezes. Escrever a respeito da poesia de alguém é altamente arriscado porque é um encontro entre duas vontades: o desejo expressivo e o receptivo.

Não é diferente de quando alguém liga o rádio para escutar uma música ou seleciona uma faixa de um músico que nunca escutou antes. A não ser entre os mais previsíveis, a poesia é como uma composição que não se tem ideia de como vai se desenvolver ou concluir. Talvez as formas fixas permitam que o leitor anteveja o impacto sensível de um soneto ou a cadência de um ritmo exato, mas a poesia que usa de versos livres é mais ou menos como o jazz – exige uma atenção ainda maior para que se a compreenda em sua harmonia e centralidade.

Eu sei muito bem que não são pareáveis, música e poesia, mas, em muitos aspectos, são sim. Qualquer pessoa que tente tocar um instrumento sabe o quão podem ser complicadas as soluções de uma harmonia, o quão pode ser estranho um motivo, o quão incompleta e parcial a expressão de uma ideia. Já na literatura, esta simultaneidade está definitivamente impedida.

Como acontece ao poeta de não saber o que fazer das palavras, ao saxofonista acontece algo parecido. Ele atravessa a harmonia, assopra sem tocar, a nota sai pela metade e completa a melodia inaudita, que só alguns podem escutar. Com a poesia dá-se mais ou menos o mesmo. É uma revelação feita pelo leitor. Melhor se completada por ele.

Por mais que um poeta diga, pincele, esculpa, burile, se ele diz tudo, o leitor se enfara, sente-se inútil, resta-lhe apenas a admiração sem êxtase. O êxtase é compartilhar dos silêncios, do entrevisto, do sugerido. É o arrebatamento que se compartilha instantaneamente. Nesse aspecto, o músico é muito mais feliz que o poeta, pois ele pode experimentar isso ao vivo. O poeta, não. É de um efeito retardado, a posteriori, que ele obtém o efeito estético. Daí que provavelmente a poesia sempre traga consigo uma melancolia (mesmo a mais feliz e coloquial), que é do poeta estar sozinho naquele instante, consigo mesmo e numa distância total para com quem quer que seja.

Por isso, o que se pede muitas vezes aos poetas é que deixem um mísero espaço ao leitor, para que este possa imaginar-se, consolar-se naquele mesmo desconsolo, esquecer-se nos vazios subitamente interrompidos.

É claro que há também poetas romancistas, prosaicos, como um Duke Ellington, Cole Porter, Beethoven, Mozart, Brahms.. Sinfônicos, grandiosos e épicos, claro que há, mas não são de deixar resíduos, compartilham pouco, temem mostrar um pouco da carne e, por essa razão, parecem madeira, gesso, ou etéreos demais.

Sua obra não é de silêncios e nem os comporta, mas do vazio estrondoso que deixam em seu lugar. O vazio do assombro e também da estupefação.

E há ainda os poetas palestrantes que pensam na sua metapoesia como essência de linguagem, num delírio narcisista. Na música, seriam como aqueles músicos a quem a banda dá uma palhinha e o sujeito nunca mais para de solar, convicto de que chegará aos céus sozinho. Não raro, por mais talentosos que sejam, acabam tragicamente chegando mesmo.. Exemplos formidáveis não faltam.

Sinto muita compaixão pelos poetas. Parecem(os) criaturas um pouco desesperadas, às vezes, mas é uma projeção indevida. No mais das vezes, bem como os saxofonistas, fazem um voo solo sem nem saber quando ou onde aterrissar. Pois é esse momento do voo, que ninguém vê e não é espetacular, que os poetas desejariam (em vão) compartilhar.

Necessidade de escreverNecessidade de escrever

Todo o mundo já ouviu alguma vez daquela pessoa que escreve “por necessidade” (já disseram isso a meu respeito, inclusive). O que se quer dizer com isso para mim é uma coisa meio insondável. De que necessidade estamos falando? Editorial? Comunicativa? Confessional? Financeira? Uma só necessidade? Duas? Muitas?

Não há como saber. Porém de alguma forma que também não compreendo completamente, me parece simples distinguir um texto literário escrito “por necessidade” daqueles escritos por outros impulsos. Não leva muito tempo. Na ficção, até ao final da segunda página isso se esclarece por conta própria. Na poesia, me parece que ainda no primeiro fôlego, custe isso um verso, uma estrofe ou o poema inteiro. Há poemas (raros) que se vê que foram escritos sem respirar. Ou pelo menos parece que se vê.

O instrumental é simples e totalmente intuitivo, já que as ferramentas disponíveis ao exame do escrito são sempre superficiais e os escritores são artificiosos ao extremo no sentido de criar jogos de espelhos nos quais tanto mostram-se como ocultam-se ou deliberadamente disfarçam-se. Às vezes, kafkianamente, fazem tudo isso ao mesmo tempo. De qualquer modo, parece haver para cada pessoa leitora uma chave para além das chaves. A chave mestra, a chave micha com que cada qual invade o literário para reconhecer o humano da criatura.

É um segredo para além do lacre. Não fosse isso viável ou desejável, desnecessária seria toda a atividade literária. Bastariam o texto dissertativo e o informativo, mas mesmo o mais lúcido texto analítico nos pesa como um rochedo – e o inacreditável para mim é que muitos escritores de literatura (e até de poesia) parecem também aspirar a essa condição, de que seu texto se consolide e seja o mais direto possível, indubitável, recitativo.

Isso me parece ser mais ou menos como a abolição do mistério da poesia: a escrita sem necessidade. É como se fosse uma arte tomada dos bagaços depois que o fruto morreu.

No frigir dos ovos, nem uma emoção estética se repete. Garantias? Nem uma. O que a alguém parece genial a outro parece apenas insuportável. E tematicamente há quem se comova mais com a poesia amorosa, outros com a ideia de Deus, com a natureza, a vida urbana, etc etc etc.

Mesmo assim, o que me parece é que a emoção estética individual seja mero prolongamento de expectativas prévias, coincidente com crenças, ideologias, etc. E que rejeitamos a diferença também numa atitude instintiva e irracional. Antipatia? A outra face da simpatia.

Mas em todas as entrevistas com escritores que já li, nunca encontrei uma em que fosse indagado à pessoa a razão pela qual ela faz o que faz. Parece implícita a necessidade, curiosamente expressa numa desnecessidade.

Mesmo assim, a única vantagem aparente, ou diferenciação, da arte produzida sob o império da necessidade é que ela entrega mais nitidamente do autor do que, por exemplo, um complexo de racionalizações. E se há uma curiosidade superior no ser humano é a de reconhecer no outro a sua semelhança. Há quem desista das pessoas nesse intento e dirija-se a Deus (ou a ninguém), mas, ao contrário da religião, que isola e serializa as pessoas, a literatura é um poderoso artifício de conexão. Basta ver o quanto e como se reúnem os escritores em torno aos seus interesses comuns. Também isso parece ser uma espécie de necessidade. Todos procuram mais ou menos declaradamente aqueles que compartilham seus códigos, valores, repertório, etc.

Mas a necessidade que move escritores é também objetiva, não apenas um desejo de transbordo expressivo. Tornar a pessoa e o self compreensíveis me parece ser uma grande força mobilizadora. Isso é que diz Hannah Arendt em ‘A condição humana’, entre muitas outras coisas. Ela, que dizia pensar melhor por escrito, prova talvez de que a elaboração verbal escrita seja mesmo um dos pontos mais altos da inteligência, pensava também que os sentimentos humanos não sejam narráveis. Essencialmente, ninguém pode compreender tudo o que há e se passa com o outro. Pode compartilhar. E pode também não compartilhar.

Essa talvez seja a razão pela qual escritores usem bastante as redes sociais. Como se pudessem encontrar eco nesse vale tomado de gente, já que o declínio da leitura em livros é meio que evidente (e até certo ponto uma experiência incomunicável). E até escrever – por alguma necessidade – coisas que pareçam desnecessárias e justamente a respeito da própria necessidade.