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A flauta de Sepé

José Tyarayu.

O índio que bateu-se contra gauchos e portugueses, sendo mais tarde adotado por sua tradição.

Não suficientemente português. Não o bastante espanhol. Assassinado por ambos.

Não comunista que clamasse ser o “dono” das terras, mas independente.

O santo cuja graça mal se alcança, pois sequer compreende-se o que ele oferta.

O herói que morreu protegendo a vanguarda dos índios em fuga.

O vilão das tribos inimigas charruas, minuanos, arachanes, insubordinadas para sempre.

O índio e os violinos improváveis, e seus livros em grego e latim.

Chaga aberta do Ocidente na memória da América Latina. Uma de tantas.

O personagem padrinho daquele Pedro Missioneiro.

O tio de tantos piás. Seu ídolo e exemplo

José, cujo nome é tão comum quanto uma folha de sepé.

Intrépido e temerário, jogando o peito nu de encontro aos bacamartes.

E no escuro da noite, um gemido de flauta e o lunar tremeluzente, por entre as nuvens e o tempo.

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Depois de uns meses nas mãos do pessoal da editora Fi, ficou pronta a edição do livreto que deverá muito provavelmente constituir o máximo da minha vida acadêmica. O trabalho é resultado do curso de especialização em Literatura Brasileira que cursei na UFRGS no ano passado e, como nasceu bem robusto para o que se propunha, acabou propiciando-se a edição em livro (acesse por aqui).

Com as doses de generosidade dos professores que o orientaram e examinaram, ele cresceu ainda um pouco mais após a conclusão do curso a ponto de parar em pé como um livreto, opúsculo, seja lá como se chame uma publicação assim, de mais ou menos 80 páginas. Eu digo que será o máximo porque não me passa me dedicar novamente ao estudo sistemático, mas ficar com o diletantismo mesmo, que é mais do meu feitio e proporção.

Em linhas muito gerais, o trabalho pretendia verificar a forma pela qual os romancistas gaúchos do séc. XX lidaram com as condições materiais da vida rural na região da Campanha gaúcha. Se contribuíram para a formação de um imaginário mais realista (ou ufanista) e o que entregaram ao campo literário recente.

O ensaio recupera um pouco a história literária do séc. XIX para logo encontrar os marcos representados no trabalho de Simões Lopes Neto, Alcides Maya, a geração de 30 (Ivan Pedro de Martins, Cyro Martins, Pedro Wayne) e os posteriores Aureliano de Figueiredo Pinto, Érico Veríssimo e Barbosa Lessa.

É uma mirada meio ocêanica, panorâmica, mas cujo objetivo é também procurar problematizar a forma pela qual o meio literário deu prosseguimento a essa tradição e o impasse que quanto a ela recaiu após o fenômeno tradicionalista, a expansão modernizadora via meios de comunicação e o recalque temático ao conteúdo histórico. O livro não é lá tão grande, mas rendeu bastante trabalho.

Para quem se interessa pela temática ou tem curiosidade em saber mais, a editora Fi realiza um trabalho de acesso aberto de edição de trabalhos acadêmicos, ou seja, a versão digital do livro não tem custo e pode ser obtida livremente por download. Quem desejar, também pode encomendar no próprio site da editora exemplares impressos. Eu vou fazer alguns poucos para mim e para alguns amigos, mas não terei para venda. Quem considerar necessário, pode valer-se dos serviços on-demand da editora.

Santa Marta em TarascónSanta Marta em Tarascón

Hoje é dia de Santa Marta de Betânia, irmã de Lázaro e Maria Madalena, que ressuscitou um homem afogado como se fosse um deus e enfrentou com um frasco de água benta uma fera descrita como “um dragão metade animal, metade peixe, mais gordo que um boi, mais comprido que um cavalo, com dentes cortantes como espada e pontiagudos como cornos, munido de cada lado por dois escudos”, gerado pela “união do Leviatã com o Onachus”.

Essa santa prodigiosa teria sido a mártir que converteu os primeiros francos ao cristianismo, numa região também governada pelos romanos no século primeiro depois de Cristo, a quem ela hospedou.

O dragão de Tarrasque é uma besta medonha pela descrição que é feita nas lendas medievais. Ao invés de cuspir fogo como um dragão ordinário, ele inflama tudo com os seus excrementos que são como bolas de fogo que arremessa longíssimo. Vivia a fera num covil próximo à floresta escura onde hoje é a comuna de Tarascón, devorando todos aqueles que ousassem invadir a mata densa.

Marta jogou umas gotas de água benta no monstro e mostrou-lhe um crucifixo. Foi o bastante para o monstro deixar-se aprisionar pela cinta das vestes da santa e por ela foi levado ao vilarejo, onde foi espancado até a morte pelos aldeões.

Após este feito, a mirófora Marta, que teria sido também oradora admirável, foi ganhando a fé de todos ao redor e naquela terra de crendices ergueu uma basílica em homenagem à mãe de Jesus, a virgem Maria.

Desde a época medieval ocorre na região uma procissão a que se consagrou em 2008 o estatuto de Patrimônio Cultural da Humanidade. Na procissão, repete-se a chegada de Marta e o dragão carregado pelo cinto sendo atacado pela população. Na Espanha e na Bélgica, a procissão costuma acontecer junto à celebração de Corpus Christi.

Santa Marta é a padroeira dos cozinheiros e em algumas representações ela aparece enfrentando o dragão com uma concha de madeira ou colher de pau.

Existem muitas interpretações do encontro das duas criaturas, mas eu não vou tão longe. Melhor deixar essas coisas para quem estuda. O máximo que fiz foi escrever uns versos. Mas não para a santa, para a vilipendiada besta..

As aspas são da Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze.


Santa Marta em Tarascon
2017

Eu levo quem vem e vai
ao fundo de todas as águas.
Sou o último à passagem
entre a natureza e a cidade,
para matar-me não basta coragem.

É preciso ser como ela.
Vencer todos os medos,
ter o milagre aos dedos.
ferrões de todas as abelhas,
grilhões de tecido e seda.

A julgar por minha aparência,
o solaço da primavera
neste ano chegará mais tarde,
como um exército de covardes
trepida ante minha couraça.

Há muitos tipos de morte
que eu tenho a oferecer.
Depois de ser trucidado
ninguém haverá de invocar-me
como a Lázaro, o ressuscitado.

Abaixo do som das palavras,
a minha voz somente ameaça
os tolos, os fúteis e os vis.
As bestas eu deixo que passem
pois elas são seres sutis.

Engulo-os pelos pés e das mãos,
seus medos, anseios, fedores.
Não lhes basta o próprio espelho
pois poucos sobreviveriam
em face dos próprios horrores.

Qual o teu nome monstro?
Ela indagou olhando meus olhos.
Nenhum, eu disse, ou jamais
e ela de pronto entendeu
desfazer dos meus ancestrais.

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ela ergueu sua mão para o alto
e numa língua confusa
entornou o silêncio dos jarros
até retirar-me do lodo.

Iludiu-me com vinho e promessas,
levou-me a um redemoinho.
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e ela, falando baixinho, disse-me:
monstro, como és mansinho..

Leva-me, que a vida me farta
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Serei o exemplo perfeito
do que deve ser combatido;
e à morte levou-me indefeso.

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a sua salvadora. Santa Marta
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mas eu, de sua memória,
nem tanto…