5 canções de Nick Drake

Nicholas Rodney Drake (19 de junho de 1948 – 25 de novembro de 1974) foi um cantor e compositor inglês conhecido por suas canções baseadas em violão . Ele não encontrou um grande público durante sua vida, mas seu trabalho gradualmente alcançou maior notoriedade e reconhecimento. Drake estudou na Universidade de Cambridge e lançou seu primeiro álbum, Five Leaves Left , em 1969. Depois, gravou mais dois álbuns – Bryter Layter (1971) e Pink Moon (1972). Nenhum dos dois vendeu mais de 5.000 cópias no lançamento inicial. Não há imagens de vídeo conhecidas do Drake adulto; ele só foi capturado em fotos estáticas e em filmagens caseiras de sua infância. Drake tratava-se de deprssão, o que é refletido em suas letras. Após a conclusão de seu terceiro álbum, Pink Moon de 1972 , ele se retirou das apresentações ao vivo e das gravações, retirando-se para a casa de seus pais na zona rural de Warwickshire . Em 25 de novembro de 1974, Drake morreu de overdose de um antidepressivo prescrito, aos 26 anos. Se sua morte foi um acidente ou suicídio não foi resolvido (com informações da Wikipedia).

Um lugar para ficar

Quando eu era jovem, ainda mais do que agora
Nunca vi a verdade pendurada na porta
E agora estou mais velho, vejo isso em meu rosto
E agora preciso levantar, limpar este lugar

Eu era fresco, mais que os montes
Onde as flores crescem e o sol ainda brilha
Agora estou mais escuro que o mar mais profundo
Então apenas me aceite, me dê um lugar para ficar

E eu era forte, forte como o sol
E pensei que o veria quando o dia acabasse
Agora estou mais fraco que o azul mais pálido
Oh, tão fraco nessa espera por você

A place to be

When I was young, younger than before
I never saw the truth hanging from the door
And now I’m older, see it face to face
And now I’m older, gotta get up, clean the place

And I was green, greener than the hill
Where flowers grow and the sun shone still
Now I’m darker than the deepest sea
Just hand me down, give me a place to be

And I was strong, strong in the sun
I thought I’d see when day was done
Now I’m weaker than the palest blue
Oh, so weak in this need for you


Roupas de areia

Quem te vestiu com estas roupas de areia?
Quem te levou para tão longe da minha terra?
Quem disse que minhas palavras estavam erradas?
E quem dirá que fiquei muito tempo?

Roupas de areia cobriram seu rosto
Mudaram você, tomando o meu lugar
Então vá em frente, siga até o mar
Algo levou você tão longe de mim.

Voltaram a valer a pena as cores do céu?
Para ver a terra, usa os olhos pintados?
Para olhar através das vidraças sombreadas?
Ver as manchas da grama no inverno?

Agora você pode voltar para o lugar que partiu?
Tente queimar o seu novo nome
Ou com colheres de prata e luz colorida
Você cultuará as luas, nas noites de inverno?

Roupas de areia cobriram seu rosto
Mudaram você, tomando o meu lugar
Então vá em frente, siga até o mar
Algo levou você tão longe de mim.

Clothes of sand

Who has dressed you in strange clothes of sand?
Who has taken you far from my land?
Who has said that my sayings were wrong?
And who will say that I stayed much too long?

Clothes of sand have covered your face
Given you meaning, taken my place
Some make your way on down to sea
Something has taken you so far from me

Does it now seem worth all the color of skies?
To see the earth through painted eyes
To look through panes of shaded glass
See the stains of winter’s grass

Can you now return to from where you came?
Try to burn your changing name
Or with silver spoons and colored light
Will you worship moons in winter’s night?

Clothes of sand have covered your face
Given you meaning taken my place
So make your way on down to the sea
Something has taken you so far from me


O cão de olhos negros

Um cão de olhos negros, ele chamou na minha porta
O cão de olhos negros, ele pediu por mais
Um cão de olhos negros, ele sabia meu nome
Um cão de olhos negros, ele sabia meu nome

Um cão de olhos negros

Eu estou ficando velho e quero ir pra casa
Eu estou ficando velho e não quero saber
Eu estou ficando velho e quero ir pra casa

Um cão de olhos negros chamou na minha porta
Um cão de olhos negros me pediu por mais

Black eyed dog

Black eyed dog he called at my door
The black eyed dog he called for more
A black eyed dog he knew my name
A black eyed dog he knew my name
A black eyed dog
A black eyed dog
I’m growing old and I wanna go home, I’m growing old and I dont wanna know
I’m growing old and I wanna go home
Black eyed dog he called at my door
The black eyed dog he called for more


Sábado de sol

O sol de sábado veio cedo nessa manhã
Num céu tão claro e azul
O sol de sábado veio sem avisar
Então ninguém sabia o que fazer
O sol de sábado trouxe pessoas e rostos
Que não pareciam em seus melhores dias
Mas quando me lembro daquelas pessoas e lugares
Eles eram realmente muito bons no que faziam
Do jeito deles
Hoje o sol de sábado não veio me ver

Pense em histórias com razão de ser
E rimas circulando em sua mente
E pense nas pessoas em seu próprio tempo
Voltando de novo e de novo
E de novo
E de novo
Mas o sol de sábado virou a chuva do domingo

Saturday Sun

Saturday sun came early one morning
In a sky so clear and blue
Saturday sun came without warning
So no-one knew what to do
Saturday sun brought people and faces
That didn’t seem much in their day
But when I remembered those people and places
They were really too good in their way
In their way
In their way
Saturday sun won’t come and see me today

Think about stories with reason and rhyme
Circling through your brain
And think about people in their season and time
Returning again and again
And again
And again
but Saturday sun has turned to Sunday’s rain


O homem do rio

Betty veio por sua conta
Disse que tinha algo para dizer
Sobre as coisas hoje
E as folhas no chão.

Disse que não soube das novidades,
Não teve tempo para escolher
Uma maneira de perder,
Mas ela acredita.

Eu vou ver o homem do rio
E lhe direi tudo o que posso
Sobre os planos
Para a primavera.

Se ele me disser tudo o que sabe
Sobre como o seu rio flui
E como toda a noite ele se mostra
Quando é verão.

Ela disse que hoje rezou
Para o céu soprar para longe
Ou talvez deixar –
Ela não tinha certeza.

E quando pensou na chuva de verão
Chamando por ela mais uma vez
A dor passou
E ficou um pouco mais.

Eu vou até o homem do rio
E contar a ele tudo o que posso
Sobre a proibição
De me sentir livre.

Se ele contar tudo o que sabe
Sobre o modo como o rio flui
Eu não irei supor
Ser para mim.

Oh, como eles vêm e vão.

Riverman

Betty came by on her way
Said she had a word to say
About things today
And fallen leaves.

Said she hadn’t heard the news
Hadn’t had the time to choose
A way to lose
But she believes.

Going to see the river man
Going to tell him all I can
About the plan
For lilac time.

If he tells me all he knows
About the way his river flows
And all night shows
In summertime.

Betty said she prayed today
For the sky to blow away
Or maybe stay
She wasn’t sure.

For when she thought of summer rain
Calling for her mind again
She lost the pain
And stayed for more.

Going to see the river man
Going to tell him all I can
About the ban
On feeling free.

If he tells me all he knows
About the way his river flows
I don’t suppose
It’s meant for me.

Oh, how they come and go
Oh, how they come and go.

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EpílogoEpílogo

Não são muitos a essa hora na rua, ainda mais que maio já exulta um frio que emerge das superfícies, por tudo… Brota das gretas e das rachaduras da tinta uma espécie de suor. Os tijolos suam do tanto que fazem em suportar as vidas em seu interior. Aqui onde estou não há ninguém, mas alguém ainda mantém um fogo aceso. Sinto o ardido da lenha verde queimando e exalando o perfume de uma lareira ou um fogão a lenha aceso já por um desses velhos madrugadores. Mas, na rua, ninguém. A cerração é uma nuvem que desistiu de voar, a mãe disse um dia, e a essa hora há como uma fusão das duas neblinas, a da noite e a do dia. O Fernando não está aqui como disse que estaria e em lugar nem um me parece haver alguém conhecido a quem possa mostrar o recorte de jornal que trago no bolso traseiro da calça jeans. Uma folha do Correio do Sul dobrada em oito ou doze partes, uma imagem borrada ali dentro, a face imberbe de um Alexandre como eu o conheci. Não pode ser a mesma pessoa, eu penso. E por isso preciso tirar a limpo essa informação com alguém. Morreu mesmo? Mas isso é verdade? Quando foi? Alguém foi a esse velório? Era ele mesmo? E se ele botou alguém no lugar dele? Um cupincha que se prestasse… E se ele fez isso para fugir ao Uruguai, Bolívia, o raio que o parta? Quem é que numa hora dessas pode andar por essa maldita cidade e me dar certeza? “Morreu, sim”, quem vai me dizer? Viu a certidão de óbito? Doente de quê? Morto por quem? Pensa bem, tu estás falando do Alexandre e ele tem tantas vidas como um gato, um gato vadio que ninguém segura ou aprisiona. O Alexandre, eu quero dizer, é ladino e felino, o filho-da-mãe, e só vocês mesmo, que são burros, acreditam nas lorotas dele. Eu sei bem que ele está solto a essa hora. Aonde? Que sei eu? Na zona, num boteco fuleiro, na cama do prefeito, o Alexandre ele pode estar onde ele bem entender e é por isso que eu vim aqui, que de outro modo não viria. Não tenho interesse nesse lugar depois da morte do pai e de que consegui finalmente levar a mãe comigo. Vim porque me deram a certeza de que era verdade, mas eu não acredito em ninguém que ainda viva aqui. Este lugar sempre foi um poço de mentiras, meias verdades, um precipício de ilusões dementes. Ali adiante, onde morei, a mesma casa. Se olho ao sul, só o vento de sempre, anavalhando o que encontra pela frente. Pela noite, ruínas de memórias revestem a cidade que parece a mesma, mas não há mais ninguém aqui se ele morreu. É um lugar propício onde morrer de tanta paz, de tanto tédio, de tanto nada para fazer. Eu vim buscar quem me confirme da morte desse traste humano e nem o Fernando, que gostava de mim, consegue estar ainda aqui, ele que resistiu mais que todos nós. Escorado nessa mesma parede, ele fumava lentamente e olhava adiante como se pudesse tocar outro destino com os olhos. E raspava as palmas das mãos como se fosse dizer algo surpreendente, mas só se queixava do frio. “Que frio é esse?”, indagava num discurso pró-forma, sem esperar resposta, sem esperar nada. Ao lado dele, não me intimidava o Alexandre, porque nesse caso ele é quem se intimidava. Nem ao menos o Fernando aqui, claro que não… Ninguém que parecesse conhecido, somente a figura de um Alexandre pálido no bolso das calças. E nem ele poderia me salvar mais de estar aqui, porque nunca me deixaria escapar, pegar a estrada de volta e fugir. Espero que venha de uma vez o dia antes que a noite me deixe também sem alma.

Please, Please, Please, Let Me Get What I WantPlease, Please, Please, Let Me Get What I Want

Muito raramente dou licença para coisas que não escrevi, mas preciso fazer isso hoje. Porque eu não lembrava mais de como é bom ouvir alguém cantar como Morrissey.

Good times for a change
See, the luck I’ve had
Can make a good man
Turn bad

So please please please
Let me, let me, let me
Let me get what I want
This time

Haven’t had a dream in a long time
See, the life I’ve had
Can make a good man bad

So for once in my life
Let me get what I want
Lord knows, it would be the first time
Lord knows, it would be the first time

Um inédito Aureliano de Figueiredo PintoUm inédito Aureliano de Figueiredo Pinto

Artigo publicado na 10ª ed. da Revista Sepé

Possivelmente não exista na poesia rio-grandense livro tão inédito quanto foi Itinerário – poemas de cada instante (1998), de Aureliano de Figueiredo Pinto.

Aureliano não apenas não o publicou em vida como tratou de garantir que o caderno de manuscritos não fosse conhecido até que ele mesmo e sua esposa não vivessem mais. Mesmo assim, ainda levou cerca de 40 anos mais (Aureliano morreu em 1959) para que o filho entregasse os originais para publicação, aos cuidados do Prof. Carlos Jorge Appel, da editora Movimento.

Na página frontal do manuscrito, uma misteriosa dedicatória rasurada indicando a quem o livro seria dedicado, mas cujo conhecimento parece ter ficado mesmo restrito à família. 

Se a informação perdeu-se ou se desvaneceu no tempo, o mesmo não se pode dizer dos poemas do livro. Ainda assim, ao contrário dos outros livros de Aureliano, até hoje Itinerários não teve público para uma segunda edição. Isso talvez se explique um pouco pela temática rural dos outros livros que, no Rio Grande do Sul, até há bem pouco significava a garantia de um bom público leitor. Os versos de Romances de Estância e Querência (1959) e do póstumo Armorial de Estância (1963) foram popularizados por diversos cantores e folcloristas, especialmente nas gravações de Noel Guarany, em 1978, no bojo do movimento nativista, fortemente inspirado, aliás, em sua poética.

Romances de Estância e Querência foi o único dos livros que Aureliano chegou a ver editado; saiu pela Globo e o filho levou até São Paulo, onde ele buscava recursos e tratamento, os primeiros exemplares para que o pai conhecesse. Memórias do Coronel Falcão é póstumo (teria sido escrito no final da década de 30) e foi publicado em 1973. Acabou sendo reunido aos demais romances realistas de 30 publicados à época em que foram escritos, como Sem Rumo de Cyro Martins, Xarqueada de Pedro Wayne e Fronteira agreste, de Ivan Pedro de Martins.

Quando publicado na década de 90, não se imaginava que o médico e intelectual discreto que Aureliano foi tivesse produzido versos daquele qualidade lírica e intensidade erótica. Primeiro, seria de pensar que, caso houvesse material inédito, seriam poemas que continuassem a temática dos seus dois outros livros anteriores, com motivos rurais. Segundo, a guinada lírica um tanto quebra em pedaços o estereótipo de que um poeta que tenha se celebrizado pela “cor local” não possa alcançar os temais universais, como o amor, o erotismo, reflexões existenciais quanto à vida e finitude humanas.

Como em vida Aureliano não esteve em busca de publicação ou reconhecimento e sua obra seja praticamente toda póstuma, a crítica literária o alcançou tardia e parcamente. Basta dizer que as duas mais extensas apreciações publicadas ainda são as mesmas dos anos 80, quando o falecido escritor Luiz Sérgio Metz realizou e publicou para a coleção Esses Gaúchos, da editora Tchê um livreto dedicado a ele, em 1986, e a professora Helena Tornquist produziu para a coleção Letras Rio-Grandenses, do Instituto Estadual do Livro, um caderno especial, em 1989. Ambos os trabalhos têm o mesmo titulo: Aureliano de Figueiredo Pinto.

Apesar disso, nos também já anosos volumes da história literária do Rio Grande do Sul seu nome comparece muito mais associado à poesia regionalista. A despeito de ter uma “realização grande”, conforme o assinalado por Luís Augusto Fischer, os poemas líricos de Itinerário não contam nos mais difundidos livros de história literária com uma apreciação correspondente, bastando que se o situe entre o simbolismo ainda muito praticado no Rio Grande do Sul dos anos 30 e as inovações formais modernistas que ele aproveitou mais, curiosamente, na poesia de inspiração rural.

Como Itinerário vem a público no final da década de 90 e tais trabalhos são praticamente da mesma época, essa parte de sua obra permanece mal reportada. No tocante à sua lírica, Aureliano se arroja em conteúdo ao mesmo tempo que se contém nas formas mais tradicionais da poesia simbolista e neo-parnasiana. Um dos mais extensos artigos produzidos a respeito da literatura de Aureliano, publicado em 1974 pelo Prof. Guilhermino Cesar, por exemplo, ignora a existência dos poemas de Itinerário. No artigo, Guilhermino reconhece o caráter reservado do poeta e lamenta que não tivesse até então se registrado em sua obra “uma descida mais vertical à paixão do homem”.

Os versos a seguir demonstram bem que o poeta, afinal, cumpriu o desejo de Guilhermino, porém de forma inédita, sem que o mesmo pudesse sabê-lo:

XI

A água que eu bebo tem o gosto do teu beijo;
a manhã lembra a luz pagã do teu sorriso.
Sugere a névoa o vago olhar, longe, impreciso,
de quando aplacas, fina e langue, o teu desejo.

A asa que passa, no céu alto, em vôo andejo,
lembra o teu gesto arisco em sutil sobreaviso.
E, na árvore alta e fina, e na flor do paraíso, :
tendo-te toda em mim, sempre em tudo te vejo.

Bruna e pálida, alta e trêmula, os cabelos
cheios da escuridão das noites em que amamos!
— Sinto-te no meu sangue em tumultos e apelos.

Em tua leve silhueta o mundo se resume.
E quando, sem encontrar-nos, nos buscamos,
ruge em minha alma em sombra a alma do teu perfume.

Em que pese sua aparição apagadiça, a obra de Aureliano vem sendo estudada mais ou menos diretamente. Em sua maior parte, seu nome é citado co-lateralmente em trabalhos que problematizam o romance de 30. Por ele referir-se mesmo em sua lírica a elementos de sua vivência em remissivas geográficas (como ao “vento pampeiro”) parte dos poucos trabalhos dedicados a ele notam em sua lírica póstuma a marca indelével do regionalismo, como uma chaga fosse, como se isso anulasse o alcance universal de sua visada lírica, a meu ver uma apreciação contaminada de preconceitos.

Embora nos anos em que estudou Medicina em Porto Alegre tenha tido um convívio próximo aos escritores que viveram o fervor modernista rio-grandense, nos cafés do centro e em torno da Livraria do Globo, Aureliano logo que pode retornou à Tupanciretã e lá estabeleceu-se como clínico-geral, interrompendo as publicações que fez por meio de periódicos como a Revista Kodak, que circulou entre os anos de 1912-1920.

Paradigma de um autor verdadeiramente reservado, Aureliano de Figueiredo Pinto por muito pouco não passou completamente despercebido pelas gerações suas posteriores. No caso, ele teve um dos filhos que se preocupou em não deixá-lo cair no oblívio completo e a sorte de um editor preocupado em recuperar e conservar a memória literária do Rio Grande do Sul sem qualquer preconceito temático, linguístico ou de procedência.