O coração de Jesus é o de um pedinte. É mais uma advertência que uma oferta. Jesus não foi o único homem que existiu que foi capaz de oferecer a própria vida. Cada soldado anônimo antes o fizera e continuaram fazendo depois. Anônimos, transfigurados pela abstração de uma tribo, pelo medo de viver sem nem uma razão. Jesus foi o primeiro indivíduo de que se tem notícia na historia que entendeu ser alguém por indução cósmica, porque ele não conheceu antes quem houvesse simplesmente se recusado a continuar a história dos outros nem os mitos de ninguém, nem tradição nenhuma. Ele fundou a primeira religião individualista. Tudo o que importa está contido num coração do qual ele pode abrir mão, como da vida, se necessário. Um coração enrolado em espinhos. E quem queira tocá-lo será fatalmente ferido com o próprio sangue. Jesus tinha a convicção de que poderia habitar o coração de cada qual que o amasse. É o transplante mais bem sucedido da história, felizmente. Mas, em face da pessoa, não poderia ter sido diferente. Eu não sou católico nem bom cristão, mas espero sinceramente que continue sendo assim. Que não lhe inventem um coração artificial nem o substituam por algo assim.
O sagrado coração
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Darwin DayDarwin Day
Tenho certeza que a leitura de “Down House” pode ser um tanto frustrante para pessoas que buscam nele algo inédito ou muito relevante para a história da ciência ou as ciências biológicas. Tudo que há ali sobre isso é bem sabido e difundido nas excelentes biografias de Darwin que há nas livrarias. Eu diria que os momentos em que essas coisas aparecem no livro me serviram de “escoras” para contar o que me despertou, de fato, interesse narrativo: a breve vida do seu filho Charles Waring que ele reportou logo da morte do bebê num memorial que, penso eu, é um documento de tanta relevância histórica quanto os seus textos e artigos sobre ciências naturais.
O bebê Charles Waring, ou Charlie, como era chamado em casa, provavelmente nasceu com a síndrome de Down e morreu no mesmo dia em que a teoria da seleção natural foi revelada ao mundo, no salão principal da Biblioteca Linneana, em Londres. Esses tempos perguntei às “inteligências artificiais”, e DeepSeek e ChatGpt foram categóricos: o décimo filho de Darwin e Emma nasceu com a síndrome de Down. Não é que eu confie cegamente nessas coisas, mas acho que elas “leram” bastante para ter tanta certeza assim nisso.
Meu livro é uma ficção histórica contada a partir do mordomo da casa, Joseph Parslow, um narrador comedido e emocionado, efetivamente envolvido com a vida da família e que, além de mordomo, foi o principal auxiliar de Darwin na introdução dos visitantes de Down House nos estudos do naturalista.
Parslow foi tão importante na vida de Darwin e tão reconhecido pela família, que, no funeral que o levou à abadia de Westminster, integrou a primeira fila dos acompanhantes, ao lado de membros da Royal Society, da nobreza britânica e representantes da própria realeza. Darwin não escolheu onde seria sepultado, o documentos referem que preferia o adro da capela de St. Mary, mas assim a Coroa decidiu. Emma principalmente fez questão do acompanhamento do mordomo, deixando nas galerias gente como Herbert Spencer, de quem Darwin gostava de manter certa distância.
Spencer foi o autor da deturpação que deu origem ao darwinismo social e suas derivações mais absurdas e inaceitáveis. A “sobrevivência do mais apto” em lugar da “adaptação”. A “seleção natural” aplicada ao mundo social sem qualquer nuance e consideração. Mas essa é uma discussão que extrapola e muito ao âmbito do meu livro, embora me interesse muito em seus desdobramentos. Até o fim da vida, Darwin manteve o espírito investigativo e em torno do ano de 1873 (15 anos após a morte do bebê) trocou correspondências com o Dr. John Langdon Down, médico que descreveu pela primeira vez a síndrome que depois levou seu nome. Nas cartas, o Dr. Down explicava a Darwin características do “mongolismo” sem entender sua etiologia de fundo genético, mas garantia-lhe que aquele não era um fato da “reversão”, pois ocorria em todas as etnias.
Esta não é a história do livro, mas é uma história muito interessante, pois Darwin havia notado e registrado os atrasos do filho no memorial. Mas o mais importante lá não me parece ser isso, e sim o encanto e os temores para com o bebê. Imaginar estes sentimentos íntimos e esboçá-los sem dar certeza de nada foi a intenção do meu livro.
* * *
Algumas vezes, jornalistas e pessoas da ciência me pediram para dizer coisas absurdas em razão de ter escrito o livro.
“Nos dê um resumo rápido sobre a seleção natural…”
“Por que Darwin não se refere a Mendel no seu trabalho?”
Lamentavelmente, minha pesquisa não chegou a tanto. Cheguei mesmo, não escondo isso, a negligenciar fatos que para os biólogos são indispensáveis na compreensão da sua teoria.
Não. Meu livro é de âmbito doméstico. Privado. Um que os biógrafos não viram nem nunca verão. Só um intruso como eu me camuflaria sob a pele do mordomo para narrar coisas assim. A minha sorte é que o mordomo Joseph Parslow era um sujeito de uma nobreza invejável. Nobreza de espírito, aliás, a única que importa.
* * *
Hoje no mudo inteiro é celebrado o Darwin Day em memória ao nascimento de Charles. Com algum atraso, acho que vamos mesmo fazer a live para falar do livro. Estou só esperando que minha interlocutora tenha condições.
A editora Dialogar colocou nesta semana o livro em preço promocional.
Peça ao seu livreiro preferido ou visite em
https://www.dialogar.net.br/product-page/down-house-1858
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CompadresCompadres
Seu Venâncio dos Angicos não era louco, mas um dia endoideceu.
Primeiro ele salgou os canteiros de folhosas. Depois, decepou um a um os tomateiros. Além ainda, arrancou batatas e cenouras e amputou os brotos de uva. E todo o restante das ervas de chá e até mesmo as de ornamento ele atorou na gadanha e na enxada, até virar tudo uma coisa só. Depois ateou fogo naquilo e sentou-se quase ao lado, até deixar-se incendiar ele mesmo junto às plantações que cavou sem a ajuda de ninguém num campinho emprestado por um compadre que um dia, de raiva das belezas que ele tinha, disse sem mais nem menos que ele lhe devia.
Devia o quê? Devia gratidão (mas ele tinha), devia a parte de comer do homem e seus filhos (que ele dava), devia ser menos avaro (ele não era), devia dever alguma coisa porque o outro embestou que ele devia.
Depois de tanto tempo de amizade, como um vizinho podia pensar isso do outro? Logo em Santa Bárbara, lugar que nem os passarinhos disputavam a água dos empoçados?
O seu Venâncio entristeceu-se. Murchou por dentro e lhe parecia loucura o viço das plantas se o seu único valor verdadeiro fora empenhado nas dúvidas descabidas do amigo. Achou que não era bem a discrepância do seu espírito e dos seus cultivados. Numa loucura, decidiu acabar com tudo, com a razão do desarrazoado sofrimento. Assim voltaria a ter o respeito dos outros e o seu amor próprio, mesmo zerado, poderia voltar a cultivar outra vez.
Mas o que parece ter acontecido foi ele ter visto o amigo observando-o de longe, quieto, impassível como um tronco de angico. Ele pegando fogo e o homem no seu pitar. Da visão não arredou mais pé e até aproximou-se mais, com as roupas chamuscadas incendiando a pele e ele duro, sem dar um grito, foi pouco a pouco consumindo-se no fogaréu.
Quem me contou? Não a mãe, que ela nunca me diria o que foi da morte do meu pai Venâncio, essa desgraça. Eu descobri sozinho. Juntei cacos de história de um e de outro até entender tudo.
Depois o compadre também endoideceu. Matar a fonte do seu sustento? Ele, um sem vontade de nada? Um descansado? Dois dias depois, sem saber o que fazer para cuidar do que não suportava ver o outro fazer tão bem, enfiou um cartucho contra o peito escondido num mato. Seu filho é o João Benedito, que quase foi meu colega, mas era maior que eu. Estudou tudo que pode e logo se sumiu daqui. A mãe ficou sozinha na casa, sem outro destino.
Às vezes, vez por semana, eu vou até lá levar tomates, pães e ovos que a minha mãe envia à viúva. Parece que nunca se falaram mais depois daquela estultice, mas ajudam-se como podem. Não é muito eu levar as coisas lá, mas, às vezes, sento um pouco onde o pai morreu e sozinho penso sempre que teria dado pra apagar o fogo..
Quando foi que fiquei sabendo? Não sei dizer, mas acho que desde ali entendi como se mantinha a mesma cara por fora e envelhecia por dentro.
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Mantiqueira rangeMantiqueira range
Essa mania que tinha o Tom Jobim de batizar em inglês os nomes de suas músicas me induziu por anos a uma sucessão de erros que não faz muito descobri incorrer.
O primeiro dos erros era atribuir a ele (e não ao seu filho Paulo) a composição “Mantiqueira Range”, gravada em 1973, no seu “Matita Perê”.
Eu lia “Mantiqueira range” obviamente como tradução de “Serra da Mantiqueira”. Segundo erro. É “range” de ranger mesmo. Está na letra que eu também desconhecia, de autoria de Ronaldo Bastos e com o artigo “A” antes de “Mantiqueira range”, para não deixar dúvidas.
Outro. Sempre achei que era uma composição inteiramente instrumental como as que Tom gravou nos seus discos orquestrais. Não era. Erro três.
Há uns dias eu lia que a serra da Mantiqueira é uma cadeia montanhosa que é apenas parte superior de uma entidade geológica subterrânea, a Província Mantiqueira, um dos escudos da Plataforma Sulamericana (o outro é o Cráton do São Francisco), que une (no subsolo) o Rio da Prata à Bahia, passando pelo Rio Grande do Sul, aprofundando-se no Paraná e ressurgindo São Paulo acima, onde a serra se mostra mais evidente.
Quando na letra Ronaldo Bastos diz que “vi a Mantiqueira falar” é ao rangido tectônico a que ele se refere e que todos os seres acusam (galo cantou/gado berrou/). Mas também da geografia, dos pequenos movimentos de dentes que a serra emana e que os animais escutam melhor que o homem ruidoso.
Musicalmente, “A Mantiqueira range” é praticamente toda uma linha de contrabaixo que modula sem muitas variações, tons abaixo, até ranger com um tremor gravíssimo. Uma pequena peça da joalheira que sabiamente Tom tomou do filho Paulo. Pedra bruta do subsolo, de muito abaixo da serra da Mantiqueira.


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