Arquivo da categoria: Artigos

Educação especial, uma miragem no Plano Nacional de Educação?

oasis

A semana que começa deve recolocar no cenário político, através da expectativa pela votação na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado Federal do PNE (Plano Nacional de Educação), uma situação recorrente no que diz respeito ao financiamento da oferta de educação especial no Brasil. Trata-se da polêmica Meta 4, que organiza o plano sobre a distribuição de verbas do FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação).

A polêmica, que envolveu entidades filantrópicas associadas ao modelo de escolarização especial e movimentos em defesa da educação inclusiva irrestrita, resume-se para este caso na disputa em torno a presença ou não da expressão “preferencialmente na rede regular de ensino”, o que garantiria – ou não – a continuidade do financiamento público da escolarização no ensino especial, contrariando orientação do direito constitucional vigente, principalmente após a adoção da CPCD (Convenção sobre Os Direitos da Pessoa com Deficiência) que orienta os países a adotar sistemas inclusivos em todos os níveis, com a educação especial servindo de modalidade complementar e transversal.

Mas afinal, o que significa dizer “preferencialmente”? Preferencialmente quando? Preferencialmente por quê? Talvez aí esteja o erro fundamental, a miopia verdadeira. Não se trata de simplesmente suprimir o “preferencialmente”, mas de explicar em detalhe as condições para que um aluno não possa frequentar a escola regular. O cruel de manter o “preferencialmente” assim, como um termo vago, é que a culpa, no caso, recai sempre sobre o elo fraco da corrente, ou seja, o cidadão: o aluno e sua família, e se obtêm vilões e heróis automaticamente.

O que o executivo deveria assumir, mas prefere deixar em suspenso, é que muitas vezes não tem como ofertar uma educação com dignidade. Não digo que se precise ver com os próprios olhos a situação de muitas escolas, fotografias já são suficientes. Relatos são de fazer c(h)orar. E não é porque lhe falte recursos, mas na perspectiva do pacto social vigente, ele (o governo) prefere simplesmente lavar as mãos e manter a roubalheira que se faz com os recursos públicos. Inclusive os do FUNDEB, que sabidamente são foco de intensa corrupção.

Suprimir o “preferencialmente” para agradar a quem não está na escola pública sem enfrentar o problema em si mesmo, que é a oferta de uma educação pública de qualidade para todos, não é nem miopia, é uma política minuciosamente equivocada que envolve sistemáticos desrespeitos, a começar pelo salário dos professores, passando por escolas esfrangalhadas, salas de aula lotadas, serviços especializados sobrecarregados (porque os problemas educacionais atingem a muito mais pessoas que as pessoas com deficiência), carência de equipamentos e, principalmente, o direito – este sim inalienável – dos alunos em ter na escola pública uma educação que não seja meramente aquela que nos envergonha quando a UNESCO e outros organismos multilaterais vêm olhar de perto, já que a tal “sociedade” prefere olhar bem de longe os próprios problemas, ou tratá-los como se fossem alheios.

Então eu penso que o preferencialmente deveria ser mais bem detalhado e que se o usasse simplesmente quando o Estado não tivesse nada melhor para substituir as escolas especiais e que, nesse ínterim, o Ministério Público se ocupasse em punir e exigir do executivo até que ele se mostrasse em condições de oferecer o que suas leis constitucionais ordenam, e o Judiciário prendesse os políticos e gestores comprometidos exclusivamente com sua vida eleitoral e sua corrupção ordinária, e a cadeia os mantivesse presos lá, a fim de evitar danos sociais repetitivos.

O que eu quero dizer é que há bem mais que um termo impreciso atrapalhando a inclusão de alunos com deficiência na escola regular pública. Preferencialmente, a sociedade deveria entrar em consenso sobre essas coisas mais do que por uma terminologia formal. Eu fico me perguntando é se é digno tratar dos interesses públicos tão restritamente ou se não estamos fazendo disso um tipo de miragem com a qual nos compadecemos do centro do oásis da nossa vida privada.

Já disse em outra oportunidade e volto a dizer: se enfrentar o “preferencial” no campo político é duro, talvez seja mais oportuno criar debates de outra ordem. Penso que a construção dos indicadores de qualidade previstos no item 13 da Meta (definir, no segundo ano de vigência deste PNE, indicadores de qualidade, política de avaliação e supervisão para o funcionamento de instituições públicas e privadas que prestam atendimento a alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação) já está mais do que atrasada no âmbito da sociedade civil, até para que se possam contrabalançar os apelos assistenciais com dados mais concretos que a simples contabilização de matrículas.

Do ponto de vista estratégico, mesmo com o aporte legal da CPCD, o debate está sustentado pelos argumentos – e pela realidade – de sempre, onde se sabe bem como as coisas terminam, principalmente quando os atores que a decidem são preferencialmente os atores políticos, através de suas emendas à legislação e bastidores costumeiros. Se a sociedade e seus representantes se ocupassem da qualidade da educação pública e dos direitos dos outros com a mesma intensidade que defendem os próprios direitos, esse “preferencialmente” não significaria absolutamente nada. Além disso, as pessoas, que deveriam ter o direito a sempre deixar seus filhos na escola com toda a tranquilidade do mundo, também não precisariam se preocupar com isso. Nada mais justo, nada mais complicado que isso…

Confissões manifestantes

manifestante

Sempre estive curioso pelo oculto. O oculto do próprio real, cumpre dizer, não o oculto do ocultismo. Não que eu menospreze o que não é sabido nem nominado, mas tenho dificuldade patente em apreender a linguagem das brujas (que las hay hay?). O oculto que é meramente desconhecido por ignorância, tenho curiosidade por ele. Fico aflito só em imaginar que a gravidade ou a relatividade existam independentemente da compreensão que temos dela. Assim como a economia monetária, a política internacional e muitas correntes filosóficas que ignoro por completo e, ainda assim, estão determinando minha vida. Nossas vidas.

Recentemente nada tem me intrigado mais que saber para onde foi o imenso sentimento de indignação que percorreu o país de norte a sul há cerca de dois meses. Acabou? Foi para casa? Para o shopping? Tomou Rivotril? Voltou a dormir? Ou, pior dos piores, não era nada disso, teria sido apenas um mal entendido? Uma invasão de um sentimento absolutamente virtual no real? Uma mera confusão provocada pelo choque de memes da internet, palavras de ordem aleatórias e uma dose de insatisfação popular?

Há poucos dias atrás consegui uma pista interessantíssima por onde começar a pensar no assunto. Um amigo, adesista de última hora aos protestos, me revelou o que segue. Seu depoimento é banal e ao mesmo tempo fundamental, mais ou menos na mesma medida.

Ele me diz que nunca na vida protestou por coisa nenhuma. De origem humilde, esforçou-se bastante para chegar a universidade e formar-se. Mas conseguiu. Durante praticamente toda a vida valeu-se do transporte coletivo, nunca teve facilidades, mesmo quando a família precisou morar em uma área conflagrada da cidade. Escapou de “algumas” e hoje vive com a mãe, a mulher e o filho em um bairro mais tranquilo. Trabalha, paga seus impostos, tem o nome limpo no SERASA e joga um futebol no fim de semana, com os colegas de trabalho. Ele se diz bem feliz da sua vida, o que o faz, sobretudo, um amigo agradável.

Quando os protestos começaram, aqui em Porto Alegre, não pensou em aderir, não sentia que tivesse um porquê para ir às ruas, uma necessidade expressa. Nunca tinha visto aquilo na vida, porque cresceu no hiato entre a redemocratização e a era Lula, mas vendo que entre as pessoas cada vez mais havia pessoas como ele próprio, resolveu ir à rua também. Por um desejo de identificação, apenas. Não levava cartaz nenhum nas mãos, apenas os olhos abertos e a voz para o coro daqueles que cantavam e gritavam por melhores condições de vida. Havia coisas que os outros gritavam que ele não gritou e pulinhos que os outros deram que ele não pulou. Estava ali a sério e pela vontade de sentir-se participante de alguma coisa. Não depredou coisa nenhuma e acompanhou as marchas inclusive nos dias mais frios do inverno. Mesmo assim conheceu a ardência do gás lacrimogêneo e correu da polícia, que bobo ele não é nem nunca foi.

Tudo normal até aí, mas ele relata também que, pensando com um pouco de distanciamento, não se sentia lá muito à vontade nos protestos. Disse que não sabia se podia confiar em quem estava ao seu lado ou não, ali não eram todos iguais, nem bandeira de partido havia, fora os sujeitos com aquela máscara sorridente e ameaçadora. Ônus da vida na metrópole, o anonimato e a desconfiança mútua estão inscritos como se no DNA de seus habitantes. Ainda mais em aglomerações. Também ele disse que não se sentia digno o suficiente para reclamar da vida, porque nunca na vida o tinha feito. Se a vida é de viver, o que ele fazia era vivê-la. Com seus prazeres e dissabores. Tudo muito claro e certo.

O que me espanta no seu depoimento é que ele revela o que deveria ser óbvio, mas não o é, que é o simples fato de que as pessoas não se sentem à vontade em um protesto. Claro, isso se você não está na vanguarda, com muita vontade de queimar um contêiner de lixo ou bater de frente com a policia militar, mas simplesmente acompanhando as pessoas. Ele diz que sentia um dever cívico de estar ali, porque não gosta do esquema político, nem dos partidos e nem das pessoas que fazem a política, mas que era um dever que, se pudesse, abriria mão. Na sua concepção de democracia, protestar é um gesto excepcional. O natural é levar a vida, com seus cotidianamentes.

À vontade mesmo ele diz que estaria no shopping, fazendo compras, no estádio torcendo pelo seu time, na sala de casa assistindo TV com a família ou navegando no aquário das redes sociais. À vontade ele diz que está quando vai ao supermercado e não falta dinheiro para pagar as compras. Quando deixa os filhos na escola e eles ficam ao encargo de professores interessados em sua educação. Quando precisa de médicos e basta pegar o telefone e marcar uma consulta. Porque isso foi tornando-se cada vez mais improvável de obter assim, com essa tranquilidade, ele pensou que era hora de unir-se ao coro dos descontentes, mesmo que mais tarde eles fossem resumidos socialmente em minorias absolutas, como os Anonymous ou os Black Blocs. Não ele. Ele era a maioria, mas agora ele sumiu também. E junto a sua indignação anterior, agora também acompanhado por certa decepção. A decepção do dissenso. A decepção do “não sei se vale a pena fazer alguma coisa”.

O que ele queria é o que o transporte público fosse outro, a educação e a saúde também. Essas coisas que se chamam direitos sociais. E que os serviços pelos quais ele paga também fossem outros. Nada disso, ele não havia saído a rua para depor os governantes, mas para reclamar que eles governassem. Para que as coisas funcionassem do mesmo modo que sua vida funcionava, com hora marcada, tributo pago, dever cumprido.

Mas será que, por não aparecer às claras, a insatisfação deixa simplesmente de existir? Onde a guardamos, quando a ocultamos e depositamos (uns mais, outros menos) alguma fé nas jogadas políticas que visam amortecer o sentimento público de revolta e a impaciência civil?

A impressão que fica é a de que, enquanto não pagarmos para nos revoltarmos, deve-se tolerar tudo, como se há tolerado através dos tempos. Seria o caso, talvez, de estabelecer o ticket-protesto, porque parece que há um convencimento de que a única lógica da qual se pode integrar socialmente nestes tempos é a lógica do consumidor. É pagar ou não ter.

Porque tenho filhos pequenos, me vi compelido lá pelas tantas a conhecer um pouco sobre desenvolvimento infantil. O psicólogo suíço Jean Piaget foi o autor que pensou a teoria da permanência do objeto, pela qual se explica um marco específico de desenvolvimento no qual a criança é capaz de entrever a presença de um objeto mesmo ele estando oculto. É a famosa brincadeira do “achou”, que tantas gargalhadas rendem aos infantes e seus pais. Pois bem, não sei se as outras pessoas sentem-se assim também, mas eu mantenho (talvez de forma infantil) a expectativa de que a população saia do encobrimento e volte a manifestar-se, nem que seja por abstrações incondenáveis, como “dignidade”, “direitos”, etc.

Talvez ainda mais certo fosse subir alguns degraus da escala do desenvolvimento e apelar logo para o poder dos verdadeiros ocultistas, videntes, cartomantes, etc. Já que grande parte dos cientistas e analistas falhou em prever os fatos do “inverno brasileiro” e superstimou seus efeitos, a chance de entender onde nós guardamos o pinguinho de civilidade demonstrado dias atrás voltou a estar lá fora, no oculto, já que nossa “revolta interior” parece aquietar-se facilmente com doses regulares de sossego e consumo. O resultado dessa pasmaceira é conhecido, é a manutenção da insatisfação geral em oculto. É receber em conta-gotas o que deveria ser água corrente. E se isso era para ser apenas uma brincadeira de crianças, sinto muito, então já perdeu a graça. Melhor deixar o véu cair e ver cara a cara quem é quem.

Educação inclusiva: circunstância ou projeto?

Estou entre aquelas pessoas que prefeririam que a educação fosse uma ciência exata e seus problemas pudessem ser resolvidos através de uma fórmula, de uma equação. Acontece que a educação é tão dependente de outras circunstâncias que qualquer tentativa de abordá-la unilateralmente acaba por ir fatalmente de encontro a situações tão díspares quanto diversas, como se num redemoinho de particularidades. Por uma situação muito pessoal, há mais ou menos sete anos acompanho e participo de alguns debates sobre uma faceta que vem ganhando cada vez maior destaque no que diz respeito à educação. Estou falando da assim chamada “educação inclusiva”.

Assim como a educação em seu sentido mais amplo, a educação inclusiva também está sujeita a particularidades de toda a ordem e também não são poucos nem desconhecidos aqueles que gostariam de aplicar uma fórmula e dar por encerrada a questão, que efetivamente diz respeito a pessoas com interesses tão distintos quanto a própria “diversidade” das pessoas, para usar um termo do jargão do tema, mesmo que isso seja evidentemente impossível. Exatamente em função dessa diversidade de interesses, há pelo menos sete anos tenho assistido (e às vezes participado) a uma luta de gladiadores entre os defensores da inclusão de alunos com deficiência em escolas regulares e aqueles que consideram que sejam as escolas especiais, as que concentram exclusivamente alunos com deficiência, as que melhor prestariam o serviço educacional.

O embate é recorrente e principalmente motivado por questões que envolvem o formalismo legal, o debate sobre direitos sociais e também a destinação final de investimentos públicos. Então, a cada vez que uma peça nesse tabuleiro é movida, os envolvidos e os interessados apresentam suas armas e vão a luta. O resultado mais visível demonstra que o assunto continua tratado mais no âmbito político do que efetivamente no educacional. De qualquer forma, há bem pouca renovação na temática, sendo que o possível fechamento das escolas especiais sempre está no centro do confronto, seja por decorrência de resoluções do MEC, projetos de lei no legislativo ou, mais recentemente, da aprovação do PNE – Plano Nacional de Educação.

Assim como a disputa é recorrente, o mesmo pode ser dito dos argumentos utilizados e também das intenções em jogo. À exceção do executivo, que eventualmente retrocede de suas próprias iniciativas, trata-se de um “jogo” no qual as cartas não costumam mudar de mãos. Embora fosse desejável que o sistema educacional acompanhasse o desejo social e implementasse políticas de acordo com esse desejo, a política de um modo geral e, mais especificamente a educacional, parece ter seus próprios desígnios, inclusive a despeito de dispositivos constitucionais irrefutáveis, como a Lei de Diretrizes e Bases, a Constituição Federal e os tratados internacionais adotados como emendas constitucionais, caso da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, fato que já não é mais ignorado por ninguém.

Diante disso, parece que nem há o que debater. Seria o caso de obedecer e fazer cumprir o marco legal e pronto. O que ocorre é que a sociedade não se move exclusivamente pela conformação das leis, mas também por outros interesses e circunstâncias. E é óbvio que, enquanto houver pessoas interessadas em manter seus filhos em escolas especiais, haverá quem lute por mantê-las e representar politicamente estas famílias. Tudo isso, diga-se de passagem, faz parte de outro jogo, o assim denominado “jogo democrático”. Mas é exatamente nesse ponto que uma questão se faz relevante, ou seja, afinal por que mesmo existem famílias que relutam em enviar seus filhos com deficiência às escolas regulares?

Excluindo-se qualquer maniqueísmo infantil e hipocrisia política, trata-se de um problema sério. Sério e simples. Simples e inefetivo. Não é preciso ser gênio para perceber que não há família que não deseje para seus filhos um ensino de qualidade. Também não é preciso ser gênio para saber qual qualidade de ensino é oferecida aos cidadãos na rede púbica de ensino. Excluam-se aqui as pessoas que podem e estão pagando caro para garantir a tal “qualidade” para seus filhos no ensino privado, que constitui um universo à parte, as demais veem-se entre a cruz e a espada, o que só não é perceptível para quem não deseja perceber.

A despeito dos investimentos reais que o executivo vem fazendo, mesmo que muitas vezes em evidente oposição a outras esferas do mesmo poder executivo (como nos casos de políticas municipais contrárias às políticas federais), estão ao alcance de quaisquer pessoas dados informando o grau de precariedade que atinge o ensino público de um modo geral. Então, se há um impasse em questão, este é o impasse por excelência, até mesmo porque a principal fonte de investimento na educação especial na perspectiva inclusiva são as verbas do FUNDEB que, recentemente, têm sido objeto de desvios investigados pela Controladoria Geral da União (ver aqui) e outros órgãos da administração e poderes. Trata-se de um impasse real que exige medidas e respostas concretas, porque terá repercussão direta justamente no ponto crítico do debate, a busca por uma educação de qualidade, desejo de pais de alunos com e sem deficiência.

Dito em outras palavras, a disputa deverá subsistir enquanto as melhores escolas públicas inclusivas continuarem atendendo as famílias com menor qualidade que as piores escolas especiais. E isso segundo o critério das próprias famílias, que efetivamente é o único que importa, muito embora seja dito muitas vezes a estas que elas não sabem decidir, que o Estado ou as instituições é que sabem, etc. Some-se ainda o fato de que o tema muitas vezes se encontra sob os cuidados dos mesmos “zeladores” – ou políticos – responsáveis por desviar os recursos públicos, o que sabidamente não é também novidade nenhuma no Brasil.

Isso não significa dizer que não haja, por outro lado, escolas especiais – até porque há muitas mantidas pelo próprio poder público – em terrível situação e precariedade. Ou ainda que haja filantrópicas isentas de problemas de gestão, etc. Embora tal argumento também esteja na ponta da língua daqueles que usam como artefato de guerra o mesmo maniqueísmo infantil já mencionado, basta conhecer-se a realidade para perceber-se que o tema é mais sério e exige muito mais do que costuma interessar às disputas políticas. Exige interesse pela educação, mas justamente em um país que direitos como educação, saúde, etc. estão menos a serviço das pessoas e mais à disposição de uma política de baixíssimo calibre, mesmo que os eventos solenes demonstrem outra realidade e a corrupção quase nunca seja movida por ninharias.

Assim como muitas vezes os piores exemplos educacionais sejam invocados como fonte de argumentação, por outro é evidente que há excelentes experiências e ideias a respeito da educação como um todo e também sobre educação especial ou educação inclusiva, até mesmo no combalido ensino público. Ressalte-se que, em sua maioria, trata-se de iniciativas locais e comunitárias, como o Projeto Âncora, o CPCD do educador popular Tião Rocha e tantas outras iniciativas que, talvez por um desejo social conflituoso, pouquíssimas vezes conseguem materializar-se em escala.

Fica, portanto, a educação inclusiva sujeita a mesma intempérie que corrói a educação pública e transforma a necessidade social pela educação de qualidade em uma equação sofrível na qual o elemento menos considerado é justamente o de que mais dela necessita. Se a equação por uma educação de qualidade para todos passa por tantas circunstâncias e particularidades, a sociedade tem demonstrado claramente que quer mais que uma promessa de melhor atendimento aqui ou acolá.

Ela quer – e andou mostrando isso claramente nas ruas recentemente – mais que um direito nominal e um acesso precário aos serviços públicos, mais que compromissos formais e promessas vazias, ela quer simplesmente uma realidade decente para viver. Que isso também é circunstancial é bem sabido. Mas será que ao invés de “mudar para melhor” a educação, nesse protótipo permanente de truque frustrado, não seria mais adequado começar a mudar elas, as circunstâncias?

Os tigres brancos de Bengala

tigres

Entendo o suficiente de genética para não opinar quase nada, ou pouco mais que isso. Bem pouco, na verdade. O tanto que aprendi nas aulas de Biologia, nos tempos de escola, serviu para entender (parcamente) o mecanismo de transmissão hereditária de genes dominantes e recessivos, determinação sexual e.. nada mais que isso, confesso. Era o exigido para os fins pretendidos, ou seja, o vestibular. Sem entrar no mérito dos méritos dessa metodologia de ensino/aprendizagem, lembro até do esquema de marcação para X e Y, prova de que decorar pode gravar mesmo alguma coisa em nossa memória, mesmo sem entendermos exatamente o quê ou o porquê. Depois que meu filho nasceu, entretanto, por curiosidade aprendi um pouco (bem pouco também, na verdade) mais. Ele nasceu com a síndrome de Down. Já contei um pouco sobre isso aqui, neste link.

Diante do anúncio massivo de que finalmente cientistas lograram “desligar”, “silenciar”, “inativar”, “parar”, “corrigir”, “neutralizar” ou “desativar” a cópia extra do cromossomo 21, responsável pela síndrome de Down, finalmente percebi que não estou só na minha ignorância genética. Ou então o que justificaria o emprego de termos da eletrotécnica para explicar o funcionamento genômico? Que dizer então da acústica? Da inércia, para ser ainda mais específico? Mesmo que a ideia seja a elucidação dos mistérios intrincados da ciência genética, é – no mínimo – lamentável o uso inapropriado da linguagem que se emprega ao “traduzir” a ciência para o público leigo. À exceção, é claro, de que se pretenda gerar ainda mais desinformação, o que seria ainda mais lamentável, mas pessoalmente não creio nisso, nessa última hipótese. Isso deve acontecer por uma necessidade de tradução, mesmo que do português para o português. E o que dizer então da manchete usada pela revista Veja que, na mais recente edição (p. 73), anunciou nada menos que uma “esperança contra o Down”, em caixa alta e balizado por médicos geneticistas?

Agora, por um instante apenas, estou tentando pensar em estudantes pré-vestibulandos diante da profusão de matérias jornalísticas sobre o assunto, e me assusto um pouco. Que deduções há para extrair desse tipo de premissas? Que lógica comanda estudos dessa natureza? Que ética ou bioética está proposta na formulação desse tipo de iniciativa científica? Que benefícios imediatos e futuros estão efetivamente em questão? Há mais pessoas, além de mim, preocupadas com isso?

As matérias jornalísticas, quando escapam de cópias de outras matérias semelhantes (talvez daí a profusão de verbos “sinônimos”), deveriam deixar claro, antes de mais nada, que não servem por si próprias para explicar muita coisa além do próprio fato e, pelo menos, poderiam procurar remeter o leitor, através de um simples link, às fontes originais, conforme artigo publicado na Nature. Quanto a adentrar em outras questões, como as acima propostas, talvez o melhor a fazer seja evitar mesmo, dada a carência de investigações que há no campo da bioética, bem menos desenvolvida que a genética, como se vê pela proliferação de títulos e de pesquisas científicas nas respectivas áreas do conhecimento.

2

Não é de surpreender, também, que mesmo o estudo original empregue o termo “silenciar” para o efeito que se quer. Mesmo que metaforicamente, “silenciar” um gene que se expressa mais do que deveria é, além de algo facilmente compreensível, bastante semelhante ao que acontece na vida real, esta que se pode observar com os sentidos e não com microscópios ou cobaias. A ciência, entretanto, não se presta muito bem a metáforas, mas talvez a exatidões, a não ser que seja compreendida ela mesma como uma metáfora muito peculiar a respeito das formas que dispomos para corrigir e compreender uma vida e um planeta que insistem em permanecer misteriosos, a despeito do avanço inexorável de tudo.

De certo modo, a síndrome de Down não deixa mesmo de ser como uma das formas pelas quais a natureza tem de nos mostrar que a expressão da vida (e dos genes) não se dá de maneira uniforme, mas diversa ou até mesmo “exagerada”. Silenciar o cromossomo responsável pela expressão da síndrome, portanto, seria o mesmo que silenciar a síndrome? Para os efeitos finais da pesquisa liderada pela Dra. Jeanne Lawrence, é preciso dizer que sim, definitivamente sim. Depois de disponibilizada toda a técnica necessária, não haveria mais razão de nascer na face do planeta uma pessoa sequer com traços fenotípicos da síndrome de Down, à exceção de pais que o desejassem ardentemente, e é difícil saber se os próprios filhos – nesse caso – os perdoariam** ou se, do ponto de vista da ética e da bioética isso fosse “mais” admissível ou mesmo formalmente legal.

Além disso, aquele que foi um debate que se arrastou por anos na comunidade de síndrome de Down, se a síndrome seria ou não uma doença – o que levou abaixo muitas vezes o pouco bom senso que há nas pessoas envolvidas emocionalmente com a situação – restaria resolvido. Trata-se mesmo de uma doença, tendo-se em vista a disponibilidade de uma cura final e definitiva. Já para os efeitos imediatos da mesma pesquisa, é de considerar avanços concretos a obter-se através da engenharia genética, como a diminuição de casos de problemas cardíacos, alteração prevalente na síndrome, ou mesmo a reversão ou redução do déficit cognitivo subjacente, pela manipulação individual dos genes. Mesmo neste caso, parece também tratar-se de “curar” os sintomas da síndrome. Usando a metáfora do disjuntor, seria como desligar aos poucos o cromossomo “exagerado”, ao invés de desligá-lo de vez, como seria no caso inicial.

3

Assim como Ícaro que subiu demais em direção ao sol e teve as asas descoladas pelo calor, a ciência parece também precisar viver esse tipo de dilema. Em muitas outras situações, basta examinar o desenvolvimento dos usos da energia atômica ou dos alimentos transgênicos, provou-se que a ciência não é por si só garantia de benemerência ou pelo menos “saúde”. Ajustar um equilíbrio “navegável” depende, portanto, menos dela do que seria desejável. Há aí interesses poderosos como os da indústria farmacêutica, por exemplo, e os próprios anseios de uma individualidade acossada cada vez mais por uma ideia de bem viver na qual poucas coisas não são incômodas ou, quando possível, descartáveis. Vive-se, e digo isso de uma maneira bastante simplória, em uma espécie de prolongamento terminal da adolescência. Não é à toa que um garoto genial criou um sistema de comunicação inteiro baseado na ideia de “curtir” uma ideia e de compartilhá-la, como um “vírus” do bem. É nesse cenário, e em outros ainda mais precários, que a ciência coloca seus “achados”. Viremo-nos com isso.

Das tantas coisas que interessam saber e conhecer melhor a respeito do assunto, certo é que dificilmente se terá acesso a elas vasculhando as fontes de notícias usuais, jornais, revistas, websites… Também não é certo que se possa perceber melhor o cenário adentrando-se na literatura científica. Não sem um intérprete ao lado. Ou navegando nas infindáveis discussões e depoimentos de familiares e das próprias pessoas com síndrome de Down que circulam em grupos de discussão e redes sociais. Isso é impossível, de fato, porque estamos diante do imponderável. Porque estamos diante de uma possibilidade. De um abstract, não mais que isso.

E, além disso, de um temor que nos afeta como se fosse por dentro da pele, digo isso de nós pais e mães, porque não temos em nossa casa um exemplar da síndrome de Down ou uma amostra científica, mas uma pessoa que aprendemos a amar muitas vezes da forma mais dolorosa que há, a da descoberta da imperfeição e a da incerteza. E por mais que seja preferível viver uma vida livre de imperfeições e incertezas, nós não as econtramos tanto quanto quem nos vê de longe. Isso significa dizer que não é porque damos aval para que melhorem as condições de vida dos nossos filhos que aceitaremos que os digam indesejáveis para o convívio humano. Isso significa dizer que não somos assim por uma opção, mas por uma necessidade, por uma simples fatalidade.

Nós sabemos, assim como outros pais de crianças com deficiência, que a vida é mesmo fatal. Que, para estar simplesmente entre os demais, precisamos muitas vezes ser pais e mães exagerados (nos desculpem por isso) e inflexíveis (nos entendam por isso). E se a ciência, poderosa como nunca, pode nos colocar nesse tipo de situação, ela mesma deve consultar seus volumes de ética e nos ajudar a propor soluções que não vulgarizem nossa dignidade ou aos nossos filhos por serem como são. Se a síndrome de Down é mesmo uma doença, ela também não é um crime. Não há criminosos aqui, nem pessoas sedentas por salvação. Há pessoas como outras quaisquer, nada mais que isso. E se, como aquele Ícaro, formos logo mais encarcerados em um tipo de labirinto, nada mais justo que não nos lancemos de uma vez ao mar, mas que possamos insistir o quanto quisermos em outros caminhos. Todos eles. Que os testemos e refutemos. Tantos quantos forem necessários.

Não bastasse isso, já há alguns anos paira sobre a comunidade síndrome de Down o fantasma da extinção. Trata-se também de um produto da tecnologia e da ciência, realizado a partir de exames de rastreamento cromossômico não invasivos que permitem a detecção precoce de fetos “ligados”, para ficar na mesma metáfora. Em países os quais o aborto não é criminalizado, sobretudo alguns escandinavos, as taxas de natalidade vêm caindo a uma razão abissal, coisa de 90% ou mais. Como compete numa decisão pessoal – mesmo que em muitos países haja uma política de rastreamento clara apontando no sentido do favorecimento da interrupção das gestações – pouco há a categorizar sobre o assunto, seja a partir da religião, da ética ou da ciência. Esta última, neste caso, logrou transferir ao senso pessoal a responsabilidade por isso, embora em muitos casos o Estado pretenda intrometer-se, como se vê, e a religião catequizar, como é seu feitio.

Conheço muitos pais que temem que, em um breve futuro, seus filhos sejam tão raros e incomuns quanto os tigres de Bengala, os brancos, que são mais minoria ainda e que, por conta disso, o preconceito, o estranhamento e a rejeição aumentem ainda mais. Caso não seja possível imaginar, nesse mesmo momento uma pessoa com síndrome de Down com dificuldades de comunicação pode estar sendo asfixiada pela polícia, ou barrada num parque de diversões, tendo sua matrícula na escola rejeitada, sendo obrigada a viver em tipos pós-modernos de guetos, esterilizada contra sua própria vontade, violentadas sem capacidade de reação, preteridas nas oportunidades de trabalho… que mais? É preciso mais que isso, afinal de contas? Ainda assim, a humanidade tem provado em inúmeras outras situações a capacidade de coexistência, de respeito mútuo ou, pelo menos, de tolerância com as diferenças, na impossibilidade da sua assimilação definitiva. Por isso peço – por mim, pelos outros pais e mães de pessoas com síndrome de Down e por elas próprias – que não nos façam como os tigres brancos de bengala. E isso que parece nosso rugido, considerem que seja apenas o nosso frêmito diante de tudo o que vivemos e ainda iremos viver.

** Na Espanha, há poucos anos, a justiça decidiu por indenizar vitaliciamente uma família pelo fato do filho ter nascido indevidamente com a síndrome de Down. Ver neste link. Também interessa conhecer, nesse sentido, o caso Perruche, decisão judicial em torno do direito às pessoas com deficiência em “não nascer”, aqui em reportagem da BBC.

A testemunha aprendiz

Duas crianças jogam bola

Inclusive

Por necessidade de conhecer outros pais de crianças com deficiência intelectual, como eu, frequento há pelo menos cinco anos vários grupos de discussão na internet. No começo, frequentava mais os grupos via e-mail, onde já não vou tanto. Atualmente o que parece inevitável: os grupos formados via redes sociais. E há aos montes. Uns mais específicos, outros mais genéricos. Uns mais participativos, outros mais elitistas. Há para todos os gostos, enfim. Nesses grupos conheci e também deixei de reconhecer muita gente. Penso que isso é natural e, mais que isso, inevitável. O tempo vai criando filtros e consolidando amizades, sábio que ele é. Em um desses grupos conheci (primeiro virtualmente, depois ao vivo e em cores) o Alexandre, nome fictício, que me contou a história a seguir e com quem vivi parte dela, perguntando o que eu penso a respeito. Conto a história primeiro, digo o que penso ao fim.

Diz o Alexandre que o filho tem personalidade. Muita. Tanta que já anda, por conta disso, causando-lhe alguma dor de cabeça. Ele tem oito anos de idade e vai à escola com colegas da mesma idade. Seu grande medo é que ele possa ir até lá para, entre outras coisas, fazer o que a maioria faz: brincar e implicar uns com os outros. Seu grande medo é que ele possa estar fazendo – com pouca ou nenhuma noção de que o esteja – uma espécie de “bullying” primaríssimo com o filho de um outro pai, um menino ruivo. Ele diz que o seu filho tem síndrome de Down e também precisa aprender a conviver com as diferenças.

Como a maioria das crianças, ele é um pouco egocêntrico. Pensa que o mundo gira em torno de si. É como um sol copernicano. E, como tal, brilha, mas o fantasma do “bullying” estaria manchando sua imagem semi-santificada. Na escola, todos se perguntam: como pode? O Alexandre se pergunta: como não pode? Como não poderia, se não há quase nenhum ruivo na escola onde ele estuda? Penso em lhe dizer que se acalme, que isso não caracteriza nem de longe um tipo de preconceito racial, ou qualquer tipo de preconceito, mas deixo que vá até o fim.

O filho do Alexandre veio de mudança de uma outra escola para aquela. Lá, como na atual, o filho do Alexandre era o único com síndrome de Down, mas igualmente paparicado. E o safado, diz o pai, gosta disso, não que tire algum proveito material da situação. Mas afetivo, ah.. isso já é outra história. O Alexandre diz que “o cara” gosta de estar no centro. Que é um ator nato. E agora, como se vê, não quer competição na diferença. Quer ser exclusivo. O mais especial. O mais incomum entre os incomuns. Não sabe ele em que arapuca está se metendo. Como bom pai, o Alexandre diz que irá tirar seu chão. Ele não sabe, mas o Alexandre é o seu malvado favorito.

O Alexandre diz que a implicância (melhor que bullying, não?) dele nada tem a ver com a cor do cabelo do colega. A questão seria meramente atenção. Sua tarefa, portanto, é árdua: é podar seu egocentrismo na raiz, fazer-lhe perceber que a igualdade vale mais que a sacralização da diferença, isso no ponto de vista da sua família. E que ser tratado com base na diferença impõe muitas vezes um abismo intransponível e, paradoxalmente, bastante confortável. Por sorte dele, tem duas irmãs mais velhas com as quais exercita (às vezes fisicamente) as artes democráticas. É um “espetáculo”, diz o Alexandre.

Ele me conta que migraram da escola pública para a privada em busca da famosa “qualidade”. E também porque a economia doméstica melhorou a ponto de permitir 3 mensalidades, onde não havia nenhuma. E a maldita acomodação do ensino público já andava por comprometer etapas importantes na aprendizagem das filhas maiores, sem que espernear adiantasse de algo. O jeito, segundo ele, foi fazer as trouxas, apertar o cinto e migrar. Diz ele que a família torce para não mudar tão cedo novamente, mas assim como as escolas têm mania em avaliar nossos filhos, o Alexandre e a esposa adquiriram o gosto de avaliá-las também, e diariamente. Por enquanto tudo vai bem, as engrenagens movidas a dinheiro privado funcionam mesmo melhor que aquelas movidas a verbas públicas e ele relata que o interesse na educação de um “especial” tem sido autêntico na nova escola. Ali, ninguém – exceto os alunos – parece estar de brincadeira. Não lhe digo, mas o Alexandre é um sujeito de sorte.

Ainda assim, ele diz que vive uma situação sui generis. Diz que nunca imaginou que o “objeto” por excelência da educação inclusiva poderia transformar-se não mais que de repente em um potencial agente da exclusão e do preconceito. Penso com meus botões: ora, se este é o comportamento mediano da sociedade e convivemos às vezes até mesmo fraternalmente com o racismo, com a homofobia e com o preconceito de classe, então por que se preocupar? Não bastaria simplesmente “deixar rolar”? Essas coisas não se resolveriam, afinal de contas, “ao natural”? Seria o filho do meu amigo o primeiro “down” preconceituoso (ele há de me desculpar se imaginasse o peso do adjetivo) do planeta? Mesmo em se tratando de “anjos”, sinceramente eu duvido muito e, pela expressão do Alexandre, parece que ele também.

No momento, ele diz que estudam medidas concretas. Andam em busca de livros infantis que enfatizem igualdade e diferença, sem o imbróglio sociológico correspondente. Simples assim não tem no mercado. A diferença provoca um discurso estanque, onde todos os diferentes estão isolados uns dos outros. Não se trata de um respeito formal, mas da necessidade de um convívio real, mais igualitário e harmônico. Cansado pela busca nas letras, o Alexandre diz que foi aos filmes e destes aos desenhos animados. Ao mundo idealizado dos personagens de um Discovery Kids Channel, no qual se aboliram todos os maus sentimentos do mundo. Não é tudo bonito quando idealizado? O Alexandre diz que dá até vontade de morar ali, mas a “criancice” logo cede terreno à realidade concreta e às medidas necessárias, ao mundo do pragmatismo. Lamentavelmente, penso calado.

O Alexandre diz que estão pensando em conversar com os pais do menino supostamente “bulimizado”. Em seu lugar, gostaria que fizessem isso, confessa. Afinal, o mais óbvio é imaginar que o exemplo vem dos mais velhos, ou seja, que sua família inteira age dessa forma, belicosamente. Só de imaginar isso, eu tremo. No fundo, ele quer lhe dizer que tenta explicar ao filho o absurdo que está cometendo, mas é difícil para ele explicar a pais que não têm filhos com deficiência intelectual como faz para explicar as coisas. Ele faz isso brincando com bonequinhos, que é uma forma concreta de mostrar-lhe as coisas. Eu digo que também faço, mas que acho que não deve dizer isso ao pai do menino, o ruivo. Talvez seja melhor pensar noutra coisa. Algo mais formal, de repente. Combino com o Alexandre de ir com ele à escola, para ajudá-lo a ganhar coragem. Vamos lá.

Chegamos enfim à escola, o murmurinho é imenso, como só pode ser. A tarde ensaia um daqueles dias azulados de inverno nos quais até as nuvens se intimidam. Ali está o pai do garoto, simpático como ele só e, na altura de seus joelhos, o filho. Ele tem uma bola nas mãos. Bolas, como se sabe, são como imãs para meninos. Logo o filho do Alexandre foge do seu controle (qual filho um dia não foge?) e vai correndo até o outro menino. Ele o pega pela mão e leva até a quadra de esportes, onde as crianças brincam antes do início das aulas. As mochilas são jogadas no chão e a correria se faz. Por um momento, a cena de um livro se desenha diante dos nossos olhos. Paralisado, vejo o Alexandre aproximar-se do pai e dizer-lhe que não vai mais acontecer a chateação do outro dia. Não impunemente. Ele sorri sem tirar os olhos do jogo e responde: é claro que vai. Eles estão aqui para aprender. E nós também.

Eu penso que e registro aqui, conforme prometi no início, não poderia haver acordo melhor. Ficaram combinados assim, sou testemunha (e aprendiz).

A fonte somos nós

Mapa das manifestações

Sem dúvida, no fundo de nós existem exigências e protestos. Mas, não sendo
ratificadas pelos outros, aniquilam-se, deixam-nos com sentimento de frustração e
com hematomas na alma”.
Jean Paul Sartre – Eleições, armadilhas para otários

Talvez até mais do que propriamente gente na rua, as duas últimas semanas trouxeram de roldão junto a si múltiplas inundações. A de informação, sem dúvida, é a maior delas, mas não ficamos por aí, derrocamos até mesmo diante de nós mesmos e nossas convicções anteriores. E isso aconteceu diante de uma frase em um cartaz, da imagem do povo na rua, da declaração de um político e até mesmo de uma inundação dentro de si mesmo, quando ouvimos – lá de dentro – alguém muito semelhante a nós mesmos dizer o que devemos fazer, o que procurar pensar, a quem ou o quê se referir e, principalmente, a quem se dirigir. Nesse último aspecto, parece não restar dúvida que as redes sociais foram de extrema relevância, convertendo-se numa espécie de pólis das palavras e das ideias enquanto que as ruas ou nos receberam ou invadiram a nossa própria revelia. Há frestas nas portas das nossas ideias e percepções que estão dando vazão a muito gás, de um ou outro tipo, de dentro para fora ou então de fora para dentro.

Mas o que aconteceu para que ficássemos assim? Depois desses dias parece até mais fácil encontrar respostas, o problema (ou seria a solução?) é que estamos nos habituando finalmente a responder perguntas com outras perguntas. É uma sublevação intelectual que muitos se permitem fazer a si mesmos e outros tantos parecem convencidos de fazer com os demais. É como ir à feira discutir o preço do peixe. Ou no Facebook discutir qualquer coisa. A rede enreda mesmo e às vezes uma simples frase degringola toda uma linha de pensamento. São ruínas virtuais, muros pichados de hashtags confusas e bombas de efeito moral à direita e à esquerda. E como é que vamos sair disso? Pois calma, recém estamos entrando. Qual a pressa, afinal?

Durante os últimos dias, atire a primeira pedra quem não sucumbiu ao torrent de leituras. À beira do esgotamento, por um instante deixei de pensar na forma de argumentos. Fui invadido por frases. Logo eu, que sou prolixo por natureza. E em seguida as frases me serviram de arapucas que passei aplicar aos demais. Acho que assim é que se inventou a lógica, nem quero saber quando foi. As frases me atravessaram os pensamentos. Levantaram lembranças e experiências insepultas. Tramaram guerras contra a insolvência coletiva, onde encontram forma e espelho. As frases meteram fora as velhas metáforas e foram buscar no anonimato da adolescência dos outros – os que estão diante do choque – outras palavras. E enfim renasceram, dentre o imenso brainstorming coletivo que “a crise” gerou.

Por falar nela, quero pensar que “a crise” já não é mais de um indivíduo contra a sociedade ou contra um estado de coisas. A crise se dá do indivíduo para si mesmo. E ai de quem procurar referências oficiais no estado de coisas. Qual o jornal certo para ler? Qual a revista? Blog? Twitter para seguir? Onde se informar no mar de contrafogos? A busca, entretanto, não é vã. Não se trata da dispersão policial, mas da dispersão da autoridade, do círculo de sabedores. Prova disso pode-se encontrar na Revista Época, que depois das ruas já conflagradas, reuniu 10 especialistas/universitários para explicar o que estava acontecendo, quando nunca se soube se eles mesmos previram que tudo isso pudesse acontecer.

Isso não aconteceria se Jean Baudrillard estivesse dando aulas por aqui ou se tivéssemos prestado atenção quando ele disse que já faz muito tempo que não estamos mais no drama da alienação, mas no êxtase da comunicação. Aqueles que ficaram em seus anos de formação envoltos com os próprios botões perderam a vez para quem acordou junto com o povo ou conhece desde sempre seus passos. A bússola teórica desmagnetizou-se de repente. É hora do povo correr. Todo ele. Mas antes de correr para assistir o povo correndo fartamente na TV e, fatalmente, nas manifestações, seria bem legal ver o que o funk periférico de MC Garden diz (e como diz) a respeito não do “corre”, mas da “pernada”.

2

Fala-se por toda a parte uma série de coisas que podem ser medidas pela metalinguagem. Entender o “inverno brasileiro” a partir de um referencial enciclopédico ou da voluptuosa mídia, portanto, é uma cilada. Mas quem é o titereiro, afinal? Quem é a fonte de tudo?

Tenho uma informação secreta: a fonte somos nós, conforme diz nossa própria Constituição, tão cheia de abstrações republicanas aterradoras como “o poder emana do povo”, “soberania”, “cidadania”, “dignidade”…

Na contramaré das análises, o povo continua nas ruas. Ele também está viciado em frases e protestos pessoais. A culpa só pode ser da internet, que recanalizou os fluxos de informação inexoravelmente. Quantas coisas interessantes o povo diz nos cartazes, assim como na rede, desempertigados! Confesso: isso me contaminou, e muito. É quase uma possessão, como se de repente tivéssemos lembrado que podíamos pensar sem recorrer a ninguém, mas ao próprio passado, a um tipo de estrutura do self que só mesmo esse imenso suspiro social – como definiu Bauman – poderia repercutir socialmente. E isso só é possível mesmo por causa do diálogo – que dispomos cada vez mais por meios virtuais, já que as ruas estão lotadas de carros (como parece ser o desejo do governo e da Petrobrás) e as cidades tomadas por interesses comerciais, assim como pelo vandalismo gerado através da violência social.

Mas será que queremos, de fato, outras cidades? Outras configurações ético-urbano-ambientais ou apenas aguardamos as soluções mercadológicas que nos reduzem a eternos consumidores e reprodutores de lixo? Para onde nos levarão os ônibus com passe-livre? Ao passado, no qual uma arquitetura faraônica ergueu monumentos exclusivos dos milionários nos últimos anos? Às favelas, cuja mobilidade se dá através de encanamentos e engarrafamentos? Ou à acrópole do futuro, imagem da utopia, planificada na realidade e na justiça desejada pela pólis?

Enquanto as respostas para essas questões estiverem nas mãos de instituições como a FIFA, é provável que não precisemos sequer esgarçar a imaginação. O óbvio está aí. Tente pesquisar a hashtag #forafifa para perceber o que estou falando. Ou então consulte os excelentes gráficos do Fabio Malini no LABIC, que revelam a dinâmica dos hubs e alicerces da informação conectada. Evite o PIG e o contra-PIG para esse efeito, contudo.

Análises sobram. Reflexões. Suspiros. A fartar. Penso que, basicamente, há duas formas de encarar os fatos: ou fato a fato, ou globalmente. Nesse último caso, poucos cientistas políticos foram tão claros em sua observação quanto a jornalista Eliane Brum que, no site de Época, cotejou o incotejável. Não falo da política por ela mesma, mas de seus efeitos sobre a vida das pessoas. No primeiro, penso no professor Juremir Machado da Silva que, no Correio do Povo, diariamente escrutina o inescrutinável: as mazelas que “o poder” atravanca e engrena na sociedade.

São apenas dicas, claro. E se são gaúchos, como eu, isso é mera coincidência, embora seja um alívio contar com sua presença entre nós, nesse tempo que, pelo menos no tocante à informação, prescinde-se de fronteiras geográficas. Claro que há outras análises especialmente competentes. No Amálgama, está o artigo de André Egg, em minha opinião o primeiro legível sobre “o assunto”, isso por sua honestidade. Até então, o gás nos encobria muito fortemente.

Falei em geografia e é com isso que pretendo cessar. Desconsidere-se a brincadeira do parágrafo anterior e peço que tentem lembrar as cidades que foram tocadas por esse momento tão peculiar, o chamado “movimento”. As imagens me mostraram gente no Acre, no Maranhão, no Pará, no Rio Grande do Sul, etc. São Paulo e Rio de Janeiro nem se fale. Todo o país, enfim. Trata-se de um momento de silêncio. Quem vive de observar é que está sendo observado. A Anistia Internacional montou um mapa (impossível de achar agora no torrent) com as manifestações. Era mais ou menos como uma panela de pipoca. É a imagem que guardei.

Onde chegamos é uma pergunta covarde nesse momento. Será melhor lembrar de onde estávamos. Do que estávamos edificando. Se continuaremos estes edifícios, os reais e os simbólicos também. O que pensamos em continuar fazendo e se continuaremos vivendo como números da urbe ou finalmente como habitantes da pólis. Se tocaremos, com esse movimento, a vida do seringueiro do Acre, do ribeirinho do Amazonas, do índio do Xingu, dos tipos regionais sobreviventes à massificação cultural e do povo resistente à idiotização educacional e institucional. Se faremos da tela do computador uma janela ou um espelho. Se continuaremos na tentativa perpétua de reconexão ao tempo histórico que nos foi furtado pela promessa de um futuro perpetuamente adiado ou, como (sentenciou?) Sartre, o primeiro inspirador desse texto, permaneceremos não na nuvem de tags, mas na tormenta do mútuo desconhecimento.

Os tais

O cerco de Bagé, em 1893.
O cerco de Bagé, em 1893.

Nos últimos dias tenho pensado muito nos meus conterrâneos gaúchos. Melhor, em seus ancestrais. Penso que não é digno – se houver um plano além – que eles possam ver seus descendentes borrados de medo. Dizendo que não aguentam mais a baderna, que durou não mais que 4 dias em duas semanas e rendeu até agora algum dano e prejuízo material endereçado quase que exclusivamente ao Estado e a algumas instituições financeiras, tirando-se outros deslizes lamentáveis, mas não insuportáveis, vamos com calma… Estou falando daquelas pessoas que, defendendo interesses que nãos os seus próprios, encararam coisas tremendas no passado, como a degola criolla, cargas de cavalaria, ditadores científicos como Julio de Castilhos, imperialistas aristocratas como Silveira Martins e uma série interminável de caudilhos e revoltas locais. Sem falar na dureza de ter de atravessar o Oceano Atlântico para dar com isso daqui.

Essas coisas não aconteceram num prazo menor do que meses a fio, anos a fio, através das gerações em muitos casos. Isso para a riqueza de alguns poucos e a desgraça de muitos.

Essas coisas aconteceram em 1835, 1893, 1923 e 1930. Nesse meio tempo, uma guerra mundial e, desde lá, outra guerra mundial e um golpe de estado. E também um episódio chamado a “legalidade”, um foco de resistência isolado ao golpe contra o presidente João Goulart, liderado pelo ex-governador Leonel Brizola.

Esses antepassados suportaram receber notícias por chasque (um tipo de mensageiro a cavalo), rádio e por jornais dominados sempre por grupos nitidamente econômico-políticos: trata-se de uma característica bem antiga do que hoje denominamos grande mídia, ou PIG. Havia também algumas pessoas que, respeitosamente, passaram a debochar do poder. O mais célebre foi o Sr. Apparicio Torelly, o famoso Barão de Itararé, mas parece que ele não foi o único. O barão morou em muitos lugares e, aparentemente, sempre meio “fora da casinha”, para usar um termo local. Foi ele que organizou uma passeata com rolhas à boca, na época em que era chamado de anarquista e em que as pessoas sabiam reconhecer o ridículo do irreverente. Mais sábio e mais velho, dedicou-se à astronomia. Os assuntos terrenos haviam exaurido sua energia.

Esses antepassados, assim como os antepassados de todos os povos que privaram-se de coisas mais sérias que tolices e vaidades pessoais, devem neste momento estar corando por nós. Sim, corando. Não confundir com orando. Nós estamos hoje abdicando do poder pela ordem, cerceando uns aos outros, duvidando uns das intenções dos outros, parece até que há gás lacrimogêneo entre nós, mesmo quando não estamos nas ruas. Embora não faltem candidatos, será mesmo que precisamos de novos caudilhos? Uma renovação “nos quadros” partidários, pelo menos? Não basta que o povo se apresente como tal e desenrole suas queixas?

Nem vou tentar o absurdo de pensar em respostas numa hora dessas. “Os verdadeiros patriotas fazem perguntas”, escreveu o astrônomo norte-americano Carl Sagan certa vez. Ele, mesmo sendo um cético, não era cético porque tinha respostas prontas para tudo, apenas se recusava a abrir mão da dúvida. Para quem acha que o ceticismo é fácil, tente por um momento duvidar de si mesmo, contrabalançar suas crenças e seus interesses individuais. Olhar para o cosmos talvez possa ser difícil para a maioria, mas quem sabe pelo menos o cruzeiro do sul possa nos fazer lembrar de que lado do hemisfério estamos, apesar de farejarmos insistentemente uma vida escandinava. Estamos ao sul do hemisfério e, no caso dos gaúchos, ao sul do Brasil. Tivemos nosso momento na história do Brasil com Getúlio e com Jango, mas ao invés de lamentarmos não tê-lo tanto hoje, talvez fosse importante olharmos mais e melhor para os próprios problemas, para o próprio povo, os tais gaúchos.

Se parece que o termo exorta ao centauro dos pampas ou ao depenado gaúcho a pé, semi-extintos pelo capitalismo galopante (que desgraça usar esses adjetivos), vejam só que gente estranha é essa que está enfrentando o inverno que chega na rua. Lá em Pelotas, Rio Grande, Santa Maria, Bagé, Alvorada, Erechim, Caxias do Sul, etc etc etc. Olhando bem, até que eles lembram mesmo um pouco aqueles que levaram a efeito um orgulho do qual dizemos nunca abrir mão. Pois então!!

Passe livre para grandes expectativas

Saimos do facebook

Tente contar nos dedos o número 21. Os 20 dedos dos seres humanos não são sequer suficientes para chegar a esse total. Vinte e um anos é mais que a maioridade penal. É tempo suficiente – em tempos de adolescência precoce – para a gestação de duas gerações de brasileiros, considerando as meninas que, aos 12, estão tendo seus primeiros filhos. Vinte e um anos é o hiato que separa a semana passada do ano em que se deflagrou no país aquilo que se chamou de movimento Fora-Collor, um dos últimos momentos nos quais a população, por um estrito interesse civil, tomou as ruas das principais cidades brasileiras.

É muito provável que boa parte dos adolescentes que foram às ruas na última semana em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e cerca de outras quinze cidades, tendo como principal bordão o aumento das tarifas do transporte coletivo, sequer tenham nascido antes de 1992, quando os adolescentes de então pintaram o rosto de verde-amarelo e ganharam as avenidas pedindo o impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello. Não é de se imaginar, portanto, que se trata de pessoas que tenham aprendido a lição dos mais velhos, assim como aqueles por certo não aprenderam com os manifestantes do movimento Diretas-Já, que ocorrera dez anos antes, em 1983, no que seria, para os manifestantes de agora, algo tão remoto quanto a Revolta da Chibata ou o golpe militar de 1964, assim como o respectivo movimento estudantil dos anos de chumbo.

Mesmo que se pretendesse, seria bastante difícil encontrar na história recente do Brasil respaldo para mobilizações populares como as que ocorreram na última semana. Por vinte e um anos, parece que o Brasil experimentou e se deliciou com a pax economica, sob a alternância dos governos de PSDB e PT. Não por acaso, as grandes reuniões populares no período se deram única e exclusivamente nos grandes comícios, principalmente aqueles liderados pelo então candidato Luis Inácio Lula da Silva. Catalisando a expectativa por um governo identificado com os movimentos sociais populares, parecia que pouco mais havia a se desejar socialmente. Bastava que o candidato da proposta “alternativa” chegasse legítima e democraticamente ao poder e então a população poderia desfrutar tranquilamente da nação e fruir de seus direitos, sem qualquer necessidade de protesto. O tom parece fabular, mas os fatos são tão reais que renderam ao candidato, antes o intragável “sapo barbudo”, a própria reeleição e, mais tarde, a eleição de seu sucessor, no caso a Presidente Dilma Rousseff.

A identificação com a qual os protestos da última semana guardam com os movimentos políticos tradicionais, portanto, são bastante tênues. Basta ver que os protestos não incorporam demandas históricas dos movimentos sociais populares, como a reforma agrária, para citar apenas um dos mais relevantes, ou reivindicações semelhantes na América do Sul, como no Chile, onde os estudantes pedem por educação pública de qualidade. Além disso, não se encontram nos protestos, por exemplo, bandeiras do Movimento Sem Terra, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto ou de centrais sindicais. As de partidos políticos são bem poucas, à exceção do PSOL e do PSTU que, como se sabe, fazem oposição ao governo federal e à grande maioria dos governos regionais e locais. Talvez não haja mesmo nenhum tipo de reconhecimento por parte destes movimentos tradicionais com o movimento atual e, muito provavelmente, tal reconhecimento sequer seja pretendido. Ao invés do rosto de lavradores ou de trabalhadores cansados, há rostos muitos jovens e, não invariavelmente, de pessoas que portam a máscara do V, personagem principal do filme V – de Vingança e símbolo do grupo de ativismo hacker Anonymous.

Coincidentemente, na mesma semana passou pelo Brasil o sociólogo espanhol Manuel Castells, que conferenciou em São Paulo e Porto Alegre sobre o tema “Redes de indignação e esperança – movimentos sociais na era da internet”, homônimo do livro que lançará em setembro no Brasil, dentro do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. Em Porto Alegre, Castells falou sobre os pontos em comum entre os movimentos que ganharam corpo a partir do uso massivo da comunicação horizontal das redes sociais e da importância das imagens – principalmente as de repressão aos protestos – como elemento de motivação e indignação civil. Segundo ele, “as imagens indignantes divulgadas pela internet foram as detonadoras de todos esses movimentos”. Em relação à violência, Castells foi categórico ao afirmar que o uso de violência nos protestos acaba por selar seu próprio fim, nem tanto por legitimar o uso de maior repressão mas, principalmente, por abolir a autorreflexão, que considera o espírito renovador dos movimentos.

Uma das tantas imagens que circularam nas redes sociais no fim de semana mostrando um jovem carregando um cartaz onde se pode ler a frase “Saímos do Facebook” é possivelmente uma das mais emblemáticas dos eventos. Até mais do que as imagens que registraram a violência da policia militar paulista contra jornalistas, a fotografia diz muito a respeito do sentimento da novíssima geração de manifestantes. Trata-se de uma geração sobretaxada de adjetivos pouco elogiosos. São os “alienados da internet”, os “indignados de sofá” que, seguindo o exemplo de jovens que, como eles, tomaram as ruas em diversos lugares do mundo por outras razões que não o custo da passagem de ônibus, saíram pelo menos de casa, que ao Facebook provavelmente continuam conectados nos seus smartphones. Mas a imagem indubitavelmente responde a uma provocação patente, ou talvez até mais que isso, a um tipo peculiar de menosprezo que os mais velhos costumam ter para com os adolescentes. Talvez se trate de amargura pura e simples, o fato é que o comportamento impõe um distanciamento destes em relação aos mais jovens, como se lhes fosse repetida a mimetizada frase “não me representa”. De fato, seus representantes estão mesmo em outro lugar, ocupando não as ruas, mas os cargos políticos, escolhidos através dos tradicionais esquemas representativos que os manifestantes de agora parecem menosprezar.

Turbulenta pela própria natureza, a adolescência é tanto o quadro da desproteção do indivíduo diante do mundo quanto a imagem de sua afirmação. Se os adolescentes estão massivamente na internet e redes sociais, pode-se ver agora que se trata mais do que avatares, que têm também um corpo físico. O processo de sua individuação social leva-os da anomia à identidade, assim como à responsabilização civil e penal. O fato de muitos estarem ali mascarados revela o quanto se encontram “anonimizados”, e sua existência real situada em um limiar ainda mais sutil que o de um perfil no Facebook ou no Twitter, sem que alguém os esteja representando ou conferindo-lhes um discurso. O movimento civil é um pequeno passo além dos limites da casa paterna, mas é um passo sem volta. Mais do que um protesto específico pela redução do valor das passagens, como bem mostra o vídeo “20 centavos“, trata-se de um saldo negativo de expectativas sociais acumuladas que nem o “milagre econômico” da era Lula, significado pela ideologia e pela expansão do consumismo, conseguiu conter e que regurgitou por conta própria, evidenciando uma insatisfação social amortecida.

No momento, a sociedade observa as manifestações ainda atônita com a energia agregada nos sucessivos protestos. Como num tipo de espasmo, muitos ainda se encontram no processo de absorver o impacto dessa possibilidade há pouco sequer imaginada, a de que pessoas aparentemente desconectadas umas das outras poderiam unir-se na velocidade de um clique em torno de um sentimento de indignação. Se há pretensões revolucionárias no processo de pensamento subjacente aos movimentos ou se será encontrado algum eco em outros setores insatisfeitos, isso é algo que ainda não se pode saber. Se as formas tradicionais de representação política perderam completamente o sentido no espaço de uma semana e passou-se a viver a realidade de um movimento autoexplicativo, horizontal e planificado então talvez seja oportuno lembrar aos novéis manifestantes que a história dos movimentos populares no Brasil tem bem mais de uma semana de vida e que os demais atores políticos esperam logo poder conhecer suas propostas (em Porto Alegre, Castells comentou que, em Nova York, o Occupy chegou a sistematizar mais de 300 propostas) e contar com sua solidariedade (que o digam os sem-terra, os professores, os desalojados da Copa, os indígenas, etc.). A não ser que se trate de um movimento autolimitado, muitas pessoas já esperam pela sequência dos fatos e que seus resultados finais possam ser mais reais que um ou dois memes. Se as perspectivas de participação popular para os protestos são excelentes e parecem a cada dia pipocar por novas cidades, as expectativas sociais não poderiam ser menores.

O freak show deve continuar?

Poucas evidências podem se equiparar às causas do riso para demonstrar quem somos realmente, na ausência de outros discursos mais poderosos. Não fosse a habilidade que temos de nos desvencilhar de evidências comprometedoras, talvez nos preocupássemos um pouco mais em entender melhor e quem sabe até mesmo corrigir o próprio comportamento, mas isso não interessa à lógica de manada que parece reger a sociedade contemporânea. Fosse diferente, não seria possível a sobrevivência do freak show no gênero comédia, vide o trailer de “O Mato sem Cachorro“, ainda em pós-produção.

Mas, afinal, o que temos mesmo a ver com isso? Aparentemente nada, até já falamos sobre isso no parágrafo acima. Nosso grande compromisso parece ter curtíssimo alcance, como chegar ao fim do dia tendo sobrevivido e garantir alguns momentos de descontração, seja em frente à TV ou outras telas, que há infinitas e das mais diversas dimensões. O que é justíssimo, diga-se de passagem. É a dose de circo devida ao dia ou noite que se atravessa em busca do “pão”. Trata-se, a bem da verdade, de um mercado vastíssimo no qual cabem desde telenovelas, jornalismo sanguinolento, propagação da fé, esportes até a assim chamada sétima arte, o cinema e seus subgêneros. Encontrar aí a presença de atores anões com o mero objetivo de fazer rir seria lamentável, se não fosse deprimente. Pois lá estão os anões – como encantados em um gênero fabular do qual parecem não conseguir escapar. E mais para lá, do outro lado da tela, os espectadores, entre atônitos e gargalhantes, como se pode ver em um recente esquete do festejado Porta dos Fundos.

A ideia é antiga, remonta às cortes europeias e à fundamental função de entreter a realeza, quase sempre imersa no tédio. Embora não se trate mais da realeza, o tédio parece ser o mesmo. Nada como o “grotesco” dos outros para nos fazer lembrar de quão somos “perfeitos”. O consumo do que julgamos ser a desgraça alheia é um fértil terreno para o cultivo do preconceito e para o distanciamento confortável. Os séculos passam e não damos amostra de evoluir, pelo menos nesse aspecto. Além do nanismo, as deficiências físicas de um modo geral parecem surtir esse mesmo efeito, muito embora desde a época do apogeu dos circos dos horrores sua presença circense – e no entretenimento de um modo geral – felizmente vem diminuindo ou sendo retratada por outro viés. O nanismo, entretanto, não tem a mesma sorte. O vínculo ao estereótipo é tremendo e mostra com alguma clareza que o desconforto diante do corpo diferente é ainda muito presente, mesmo que isso pareça ultrapassado ou indesejável para a sociedade da era pós-democrática. Afinal, parece que a noção de civilização da qual dispomos não tem muita relação com isso, mas com outros indicadores mais palpáveis, como a capacidade de consumo, qualidade da educação, etc.

Certo mesmo é que, enquanto houver atores anões dispostos a emprestar sua figura como elemento cômico, o show deve continuar. Que há pessoas que não se importam com isso e que há anões que não se preocupam com isso parece não haver dúvida. Mas há relatos diferentes também, de pessoas como Amanda Sobucki, que dão conta da insistência em ser ridicularizada e tratada publicamente como um ser bizarro, e isso cotidianamente. Interessante notar que ela aponta que o tratamento é especialmente “concedido” por pessoas jovens, adolescentes. Ao menos em tese, parece tratar-se justamente de uma parcela da população muito interessada na individualidade, em “ser como se é” e outros bordões que emocionam e parecem conduzir as ideias do público juvenil. Quando se trata dos outros, entretanto, a fórmula parece perder o efeito e o encanto. O que se revela, sob o contraste devido, é que todo o esforço em prol do respeito à diferença ou vem sendo menosprezado nos anos escolares ou outros valores culturais têm obtido maior trânsito entre crianças e adolescentes, como os oferecidos pelo mercado do entretenimento.

Tendo em vista que cada vez mais apenas os discursos diretos parecem surtir efeito – vide o sucesso de campanhas em vídeo -, talvez falte simplesmente esclarecer que não há graça alguma em rir de anões (mesmo que alguns possam querer exatamente isso e isso seja seu ganha-pão) ou de pessoas com deficiência física. Que esse tipo de é humor é um humor “fim de linha”, que não há nada mais bizarro que procurar fazer rir explorando-se as diferenças corporais, ou as diferenças de um modo geral. Sob o pretexto de que a indústria do entretenimento “oferece” aquilo que o público quer ver, invariavelmente o mercado é inocentado nesse processo, apesar de que seja evidente que é ele próprio quem oferece ao público o que quer que seja visto. O que isso diz a respeito da forma como vivemos está colado em nós, já é indisfarçável. Rir e dar crédito a valores morais não é uma fatalidade, é uma escolha. Não é uma roupa que se possa simplesmente trocar peça a peça. Que o show continue ainda vá lá, mas que ao menos perca a graça que lhe conferimos.

O fim do rap é o funk?

gluteos

Na mesma semana em que a funkeira e dançarina Valesca Popozuda chegou às manchetes dos jornais por outra razão que não seu volume glúteo, um outro fato repercutiu fartamente internet afora (ou seria adentro?) a respeito das musicalidades que vêm das periferias brasileiras. Trata-se da aparição do líder do pioneiro grupo de rap Racionais MC’s, Mano Brown, em um clipe de um gênero aparentemente divergente daquele a que estão acostumados os fãs de suas rimas. Enquanto Brown aparece sem dizer uma só palavra no funk composto pelo MC Pablo do Capão, “Tanto faz, tanto fez“, e Valesca torna-se silenciosamente tema de estudo antropológico na Universidade Federal Fluminense, o estrondo se faz, como sempre acontece quando as fronteiras do “admissível” são ultrapassadas, fidelidades corrompidas e papeis são transgredidos. A amplificação do estrondo não poderia ser maior tendo a periferia como cenário e, como som de fundo, o funk e seu batidão.

Como é sabido, no movimento histórico o rap foi quem sucedeu ao funk, e não vice-versa. Aportado no Brasil em meados da década de 80, o rap custou bastante a mixar-se aos ritmos brasileiros. Ainda hoje, a grande maioria dos grupos e cantores prefere manter a estética e motivos daqueles precursores do gênero, da vertente norte-americana. O gangsta rap foi, desde sempre, um forte veículo de denúncia social e, de longe, o modelo preferencial daqueles que se estabeleceram por aqui. Entre estes, poucos grupos, como os Racionais MC’s, incorporaram tão fortemente o modelo que teve, nos EUA, o Public Enemy como principal expositor. O registro desse momento no Brasil chama-se Sobrevivendo no Inferno, um disco que vendeu mais de um milhão de cópias sem que, à época, uma linha sequer o abordasse na mídia. Hoje, é impossível não reconhecer que se trata de um trabalho com lugar garantido na história da música brasileira. Talvez ainda mais radical, no sentido botânico da palavra, possa encontrar-se apenas o grupo Facção Central, que desde os primórdios do rap dividiu com os Racionais a preferência dos fãs do rap paulista, ou seja, do gênero por excelência.

Momento sempre marcante das apresentações do quarteto da zona sul paulista, Brown nunca furtou-se a discursar diretamente para o público, prolongando ainda mais as noites de rap em pregações prolixas e multiversas. Naquilo que a psicanalista Maria Rita Kehl definiu como a “frátria órfã“, a identificação do público com o discurso não poderia assumir, sob a mesma ótica, outra forma que a de uma relação parental. Daí a reedição da orfandade que se verifica largamente, agora, entre os fãs de rap, após a divulgação do famigerado clipe funkeiro.

Mas será que o rap nacional chegou ao fim, desta vez para valer e justamente nas mãos do gênero coirmão, e através de um de seus principais ícones?

É muito provável que não, porque muito antes da aparição de Brown no clipe e do apogeu de vendas e popularidade do funk carioca, alguns compositores extravasaram os próprios limites do gênero e ajudaram a desfazer o arco da sobrancelha da expressão taciturna e revoltada do rapper convencional. Não custa lembrar especialmente de Rappin Hood e Sabotage, cuja morte completa dez anos em 2013. Ambos flertaram com o samba e com a MPB em registros que ainda hoje fogem aos formatos standard do gênero. Mais recentemente, o rapper Criolo transfigurou a cena ganhando prêmios e flertando com muitos estilos musicais além do próprio samba, como o afro beat, o dub, o reggae e até mesmo com os calientes boleros.

Não é no campo da forma que, entretanto, a ruptura se dá, mas principalmente na discrepância que se estabelece entre um estilo musical recheado por muito discurso e a realidade como ela é. Se a estampa de Mano Brown não poderia ser mais polêmica, talvez lhe faltasse cruzar o abismo entre o “funk alienado” e o “rap engajado”, a fim de descolar-se pelo menos um pouco da imagem de herói da periferia e transparecer com suas predileções reais, doa isso a quem doer, pois até mesmo um ícone pode ter seu gosto pessoal sem precisar dar explicações a ninguém. A repercussão do caso, entretanto, parece não conduzir a essa interpretação. Para os fãs do rap engajado, Brown não poderia ter escolhido pior maneira de reaver sua simpatia pelo funk, o que é interpretado inclusive como “alta traição”. A dor, pelo que se vê, vem da percepção de que não foi o mercado ou a mídia que dobrou seus joelhos, mas a mensagem da futilidade e do machismo, ao qual aderiu por vontade própria, imagina-se que por poder suportar as críticas que nos últimos dias o miraram em cheio. Pelo jeito, para os fãs de rap não se trata de tanto faz, tanto fez…

Sensação semelhante deve ter percorrido o corpo da estudante Mariana Gomes, que precisou encarar a cara feia de muita gente e críticas enfezadas ao seu projeto de pesquisa, intitulado “My pussy é poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: identidade, feminismo e indústria cultural” (pdf). No caso dela, só mesmo o preconceito pode explicar a dificuldade em aceitar-se como objeto de investigação um fenômeno de massas como a representação de gênero, mesmo que através da expressividade das conhecidas mulheres-fruta e congêneres. Ou outro tipo de purismo sem razão de ser, haja vista que o funk e a cultura periférica já se encontram presentes na antropologia recente desde pelo menos a década de 90, tendo como marcos principais os trabalhos de Spensy Pimentel e Hermano Vianna. É duro crer que, em pleno 2013, fazer ciência sobre a Atlântida perdida possa ser menos perigoso e mais recomendável que adentrar um pouco mais na geografia urbana das cidades brasileiras e seu ethos. Viva-se com isso.

Talvez aqueles que desprezem o rap como forma musical não saibam, mas há purismo no rap também, e muito, como em qualquer outro estilo musical. Acontece que o rap, pelo menos o feito em terras brasileiras, é um tipo de expressão que extrapola um pouco o limite da criação musical, funcionando como um tipo de identidade coletiva extravasada e perfilada ideologicamente, no qual há valores importantes que são compartilhados pelos fãs. Tocar nesses valores, portanto, é algo que só pode ser entendido como uma espécie de profanação, principalmente porque boa parte do seu discurso denuncia não só a violência dos centros urbanos, mas os valores subjacentes a ela, como o consumismo e o machismo, por exemplo. A leitura do funk, por outro lado, é antagônica a do rap. Ela substitui valores morais por coisas e bens materiais e vale-se da ostentação econômica como forma de afirmação de identidades pessoais, em plena oposição à pregação da humildade e da “conduta”, constantes no rap.

Uma análise mais economicista diria que o rap é consequência de uma geração sem grandes perspectivas, marcada pelo marasmo econômico que dominou os anos oitenta enquanto que o funk diria mais respeito a uma trilha sonora de uma nova geração crescida sob a influência da expansão do consumo na era pós plano-real. O que de pior pode acontecer ao rap brasileiro não é uma crise de criatividade, é seu discurso tornar-se desnecessário e ser substituído por coisa nenhuma, ou pouco mais que isso. Há mais ou menos dez anos os Racionais MC’s anunciam o lançamento de um novo CD, enquanto seus integrantes dedicam-se individualmente a outros projetos. Nesse meio tempo, muita coisa surgiu e desapareceu no rap e no funk, assim como na cena musical em geral. É desse caldo de cultura que surgiram coisas complexas como as letras soletradas, por exemplo, por uma Valesca Popozuda. O espantoso mesmo é verificar que há gente que, diante disso, ainda acha que não vale à pena estudar os significados que há numa coisa dessas e em suas implicações humanas e culturais. É de considerar a hipótese de que os assuntos brasileiros despertem pouco interesse diante das emergências de Atlântida ou outros lugares e épocas, sempre mais sedutoras que as tramas e contratempos que se dão nesta terrae brasilis.