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Tudo como dantes

abrantes

Sei que há pais e mães que festejam como vitória “inclusiva” sobre a segregação/exclusão/eixo-do-mal/tudo-que-há-de-ruim as escolas que de modo oficial ou extraoficial “instalam” junto a(o) aluno(a) um monitor/professor assistente/professor auxiliar/professor exclusivo/ou outra terminologia (eu diria eufemismo) qualquer. Eu não consigo. Nem que me autoinjetasse drogas de pseudo-inclusão e self-deception na veia eu conseguiria. Acho que já vim vacinado de outras encarnações contra esse tipo de enganação. Não sei se um dia não terei que assinar também sobre essa linha, mas, se o fizer, será como vencido, jamais como vencedor.

Acho sinceramente que isso é uma patifaria geral. Patifaria das escolas, das famílias, dos gestores, educadores, autoridades, estudiosos, ideologizadores de um modo geral e quem mais aparecer para tentar convencer a clientela que isso é o que há de melhor que se pode fazer em termos de “educação inclusiva”. Penso o contrário. Penso que é o pior. E se isso vai se tornando a prática por excelência é preciso admitir que estamos num barco à deriva no qual, como em tudo, quem pode mais safa-se melhor. Ou seja, tudo como dantes (talvez melhor seria dizer tudo como sempre) no castelo de Abrantes.

Já espero alguém saltar na minha jugular virtual e me cobrar soluções. Injusto! Eu ainda estou averiguando os problemas! E de uma maneira especialmente cruel: vivendo-os. E desde que nem governo algum nem ONG alguma nem coisa nenhuma consegue me dar informações qualitativas sobre o que está acontecendo realmente, verdadeiramente, factualmente com os alunos “de inclusão”, eu penso que a proliferação dessa alternativa do profissional anexado não é nada mais nada menos do que o mais claro diagnóstico possível, ou seja, de que a educação inclusiva, de fato, ela é real e está por aí (se alguém tiver endereços confiáveis na minha cidade favor divulgar!), mas as escolas inclusivas são estruturas arquitetônicas da ficção, seja ela acadêmica ou política.

Dirão alguns eufóricos: “quanto pessimismo”. Claro, para pessoas acostumadas ao proselitismo e a discurseira habituée, o mínimo de realismo soa apavorante, ainda mais se o seu orçamento familiar permite trafegar sociedade afora a bordo de uma bela bolha. Assim é moleza. Assim qualquer um. Assim, deveria ser para todos. #soquenao

Devo esperar muito para que me enfileirem os bons exemplos? Os premiados, agraciados, documentados, encerados e alisados como bichinho de pet shop? Por favor.. Não se cansem com minhas reclamações, afinal vivemos no melhor dos mundos possíveis. Pátria educadora. Não sei que outra panaceia mais.

Sei que é preciso superar as dificuldades e concordo com isso. Dizem-me (alguns alucinados) que políticos estão aí para ajudar. Mas só o que vejo são ministros de alto quilate incapazes de berrar (e isso seria o mínimo) contra cortes orçamentários na educação pública. Eu acho que políticos estão aí para outro verbo e ação. Ou o plural disso, mas eu só queria ter também essa boa-fé. No puedo. Como dijo Martin Fierro: mas sabe el diablo por viejo que por diablo.

Agora superar as dificuldades como faria um Shazan, sem diagnóstico algum, apenas com números de matrículas, com a corrupção roendo as verbas do FUNDEB, com a inoperância do judiciário em agir a não ser quando em favor de suas benesses e um senso de coletividade e espírito civil cindido entre “coxinhas” e “petralhas” e sei lá o que mais, como num fla-flu ou num gre-nal, é muito mais do que auto-engano e boa vontade. Beira o masoquismo. E masoquismo está, felizmente, bem para lá do meu limite de tolerância.

Alguém deve estar festejando a este momento as vitórias inclusivas do Brasil. Não deve ser alguém que está incluido nas escolas públicas que fecham vexatoriamente salas de recursos e oferecem (oferta irrecusável!) uma educação de sexto mundo aos cidadãos. Todos eles bem excluidinhos da silva, sob o teto e a mão protetora de um estado combalido e vampirizado por uma elite econômica de quinta categoria que tem a seu serviço uma escória chamada classe politica. Como Junot em Abrantes.

Aquele sorriso torto

taxi

“Esse seu é calminho, hein? O nosso, quando tinha esse tamanho, dava medo.”

E assim começamos a conversar. No trânsito. Infernal, como todo e qualquer trânsito. Para ir ao centro de Porto Alegre há muito tempo desisti de ir dirigindo. O caos é tamanho que terceirizar o stress é uma medida necessária. Isso significa ir de transporte coletivo ou tomar um táxi.

Levei um susto porque demorei um pouquinho a entender o assunto da conversa. Com meu filho sentado ao meu lado, logo percebi que o assunto era ele. Não, não era ele. Era o irmão dele. Do taxista. Um “downzinho” como o “meu”.

Para quem não está familiarizado com o termo, “downzinho” é o coletivo/genérico empregado às crianças que nasceram com a síndrome de Down, principalmente entre familiares e pessoas próximas. Eu até confesso que mantive por muito tempo relutância em usar o termo. Mas, diante de outros usados mais ou menos abertamente e claramente depreciativos (ver lista ao final*), “downzinho” hoje eu considero carinhoso. Não me incomodo mais. Verdade que não.

Unido de repente a essa grande família sindrômica, despertei do choque inicial da conversa e aproveitei para indagar ao taxista sobre o downzinho “deles”. É uma curiosidade sem medida essa, como bem sabem todos os pais e mães. Porque mal tive tempo de perguntar seu nome, não vou usar nenhum nome aqui e tentar dissipar qualquer referência concreta o quanto antes. Essa é uma história real e não desejo nem por um instante expor a ninguém. Então pensei em pedir que ele contasse mais sobre o irmão, mas nem precisou. E ele então prosseguiu.

O downzinho “deles”, segundo me contou, era incontrolável. Mordia os colegas. Era medicado para conseguir dormir algumas poucas horas por noite. Foi expulso das escolas onde tentaram mantê-lo, quase sempre em virtude do comportamento agressivo. Mesmo na APAE foi difícil mantê-lo na infância.  Ele era considerado “ineducável”. Disseram-lhes que era autista também. Ou esquizofrênico. A jornada médica foi terrível, por anos a fio. A família gastou o que não tinha para procurar tratamentos. Mudaram do interior para a capital para tentar recomeçar a vida, levando pouco mais que a mala podia portar. Mas foi então que as coisas começaram a mudar, no mais improvável cenário que se pode imaginar.

Estamos quase chegando ao nosso destino. Estou levando meu filho ao oftalmologista, para revisar o grau dos óculos e pegar receita para fazer nova armação. É a terceira do ano. As outras duas foram perdidas. E sob muita reclamação. O taxista parou o carro e continuou contando. Não me atrevi a insinuar que era hora de descer, que estávamos quase atrasados. Seria verdade, se o dissesse. Mas queria ouvi-lo mais. E ele, por sua vez, queria falar mais também.

O “nosso downzinho”, disse ele, “teve de começar a trabalhar comigo. Vendíamos flores nos cruzamentos. Às vezes na rodoviária. Nos parques da cidade. Ele era um grande vendedor de flores. Bastava abrir o sorriso ‘meio torto’ que as mulheres, principalmente, se derretiam. E alguns homens também. Se houvesse um prêmio de vendedor de flores, ele mereceria um troféu, de tantas que vendeu.” Isso durou dois anos e esse dinheiro fez com que a família pudesse se estabelecer. Alugaram uma casa melhor e, embora ele não quisesse sair das ruas, voltou a estudar. A mãe não aguentava mais sofrer em saber que ele andava por aí, mesmo que sob a proteção do irmão. Não havia onde mais acender velas na casa. Isso que era uma casa de três cômodos.

“Na APAE de novo?”, eu perguntei.

Não foi na APAE, mas em outra escola especial, que o aceitou apesar da idade já mais avançada. Perguntei em que ano foi isso e ele falou que foi no começo dos anos noventa, mais ou menos na época do impeachment do presidente Collor. Calculei rápido e concluí que hoje ele deveria estar por volta dos quarenta anos.

“E a agressividade aquela, onde foi parar?”, precisei perguntar.

“Logo depois que começou a sair comigo, melhorou muito.” O que ele precisava era cansar, segundo o irmão. E conversar, mesmo que daquele jeito embaralhado. E andar mais solto. Quando voltou à escola, a mãe acompanhava ele todos os dias, mas logo não foi mais preciso. Começou a ter aulas de judô. E começou a tomar banho sozinho. A cuidar mais de si mesmo. Ele estava é apaixonado, mas não contava nada. E dali em diante não teve mais um dia na vida em que não estivesse “enrabichado” com alguém. A mãe e o pai não se intrometiam. E assim foi que ele voltou a trabalhar e nunca mais pareceu aquele capeta.

“E hoje, como ele está?”, foi quase minha última pergunta. A consulta estava atrasando de verdade agora.

Muito melhor que eu, ele foi dizendo. Trabalha numa farmácia e namora a farmacêutica, que é dona da farmácia. “Sério?”, pergunto. “Claro, aquilo é um safado de marca maior”. E então ele riu bastante. E eu também. “Mas ela não é down, claro que não”, ele disse. “E como foi que ele conquistou a moça?”, perguntei já conferindo o troco. Ele demorou um pouco antes de responder, em meio a um tipo de suspiro, talvez..

“Eu acho que foi aquele sorriso torto..”

Então o tempo fechou e choveu muito, embora nossas roupas na rua, depois, continuassem secas e enxutas.. Não consegui perguntar mais nada. Fomos saindo. Eu e o meu filho. Ele, o taxista, também não olhou mais pelo retrovisor, mas teve tempo de desejar boa sorte. E disse para carregar na dose de paciência. E que, no fim, valia a pena. Que tudo iria dar certo.

Só me arrependo mesmo de não ter ficado com o endereço da farmácia para um dia desses ir lá conhecer o “ineducável”. É que educar dá trabalho mesmo, mas compensa.

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* Lista de outros nomes por que são denominadas as pessoas com síndrome de Down:

Quer saber?
Não vai ter lista não.
Coisa mais chata ficar remoendo assunto enjoado desses.
Pode chamar pelo nome, se você conhece a pessoa.
E de downzinho também, que ninguém vai se ofender.

Bom não era no meu tempo (ou como tirar o cavalinho da chuva)

ilust

Se tem uma coisa que me incomoda profundamente em pessoas que passaram para a vida adulta é o egoísmo. O egoísmo não relacionado às coisas materiais, bens e etc (se bem que esse existe também e é igualmente incômodo…). Falo do egoísmo da experiência. Da auto-referência. Da mesquinharia peculiar que habita o interior de cada um.

O suprassumo desse egoísmo é aquela clássica frase que precede comparações quase sempre inadequadas e impositivas: “no meu tempo…”…

Bom, antes de mais nada, a não ser que a criatura já tenha partido dessa para a melhor, o seu tempo é o tempo presente e, até onde sei, ninguém declara entre seus bens, no imposto de renda, o tempo passado. O tempo passado é propriedade única do passado, a quem a memória acessa com recursos muito seletivos. Normalmente em benefício próprio, diga-se de passagem.

Acho que isso acontece porque precisamos nos convencer de quando em quando na vida que ela não é meramente um intervalo de tempo passado em vão. Nada mais justo. Excelente razão para a existência de um disco rígido na cabeça da gente.

A memória, talvez mais que amparar a escolhas futuras, serve para oferecer uma perspectiva de quem somos hoje, nos erguendo pelos calcanhares em direção ao que há pela frente, através das lentes que obtivemos ao longo da vida, além das que eliminamos.

Quando eu leio/ouço pais e mães falando/escrevendo a tal frase “no meu tempo era melhor, diferente, ou outro qualificativo qualquer do gênero” uma onda de tristeza invade meu espírito. E não fico triste pela frase em si mesma ou pela melancolia inerente a quem a desfere, mas pelo pessimismo subjacente a ideia toda.

Porque dizer isso é exatamente o mesmo que dizer “isso que você vive, meu filho, é muito ruim, vale menos, é pior do que tudo o que eu vivi”. Ou na variante futura, significa dizer que não vale sequer ter esperança no futuro, porque “no meu tempo” sempre será melhor. Tire seu cavalinho da chuva. Existe algo mais cruel para se dizer a uma criança ou adolescente? Por que grande parte dos adultos, afinal, não se abstém de condenar seus filhos a uma vida mais infeliz e com menos valor do que as suas próprias? Será que isso parece legal a alguém? Não posso crer.

(…)

Hoje acordei com a notícia de que o ator Roberto Bolaños, o Chaves/Chapolin faleceu. Triste notícia. Embora nunca tenha assistido com atenção, sei que era amado por um humor muito específico. O personagem cômico da minha infância é o Didi, dos Trapalhões. O do meu pai e da minha mãe, octogenários, era o Oscarito. Carlitos também, além de “O Gordo e o Magro” e  “Os Três Patetas”. E meus avós, que viveram o começo da república brasileira, deviam ter algum ídolo do rádio, talvez. Mas acho que não. No interior do Brasil, naquela época, o lazer era feito interpessoalmente. E os circos duravam muito nas suas viagens, isso quando eles chegavam nos ermos geográficos da nação. Estou pensando na década de 20, do séc. XX, mais ou menos. Não sei do que eles riam, embora não tenha dúvida de que o fizessem.

Acho que Bolaños não gostaria de receber muitas das homenagens que estão recheando as mídias hoje.  De que o mundo não será igual sem ele. Que humor bom era o do Chaves ou do Chapolin. Alguém que faz humor é porque não consegue guardar só para si a graça que sente. Precisa compartilhá-la. O humor é a atividade anti-egoísta por excelência.

De tudo, não sei quem serão os próximos responsáveis por esse humor ingênuo que encanta tanto crianças e adultos. Sei que haverá. Mas nem o Chapolin Colorado nem Didi Mocó nem Carlitos será melhor que eles. Serão sua continuidade, apenas. Como os filhos são de nós. Com direito, inclusive, a pensar que sua experiência (a mais trivial e a mais relevante) é inédita. E é. Não vamos massacrá-los com o nosso passado, por favor. Vá tirando seu cavalhinho da chuva.

Tristes clowns

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Depois de muitas décadas na minha vida, voltei a pisar no piso esparramado sob a lona vermelha de um circo de rua. É uma experiência bem interessante para pessoas da minha idade, que provavelmente viram os circos na época em que até tigres e elefantes revezavam-se no picadeiro, assim como para as crianças que, por sua vez, podem ver um espetáculo que é (ou pode ser, isso depende do ponto de vista) encantador justamente pela imperfeição dos números, algo bem diferente das criaturas renderizadas que hoje povoam e “divertem” o nem um pouco pequeno mundo dos pequenos.

Bem diferente dos circos teatrais, os circos de rua guardam uma aura de coisa mambembe, viajante. Ainda lembro que há muitos anos atrás o sonho de muitas crianças era fugir atrás do circo, que parecia um lugar recheado de magia e espetáculo. É claro que uma simples visita fora do horário de espetáculo pudesse mudar um pouco a perspectiva dos pretendentes a acompanhantes, porque ali o glamour escasso de malabaristas e acrobatas estava desnudo e a vida dos artistas circense revelada em sua realidade, ensaios intermináveis e trabalho pesado. Sem falar na tristeza inerente às feras enjauladas, coisa que felizmente não se vê mais hoje.

Mesmo assim, acho que eu não estava preparado para ir ao circo. Não que eu imaginasse reconstituir uma nostalgia infantil e frustrar-me de alguma maneira em função disso, não é isso. É que não imaginei encontrar o que acabei encontrando. Não falo de nenhum número magistral ou coisa assim, mas do comportamento humano, que consegue ser sempre surpreendente, embora nem sempre no sentido positivo do termo.

Acho que para compensar os custos de manutenção e obter o máximo lucro possível, os artistas do circo ou estavam apresentando-se no picadeiro ou revezando-se na venda de inúmeros produtos entre a plateia. Refrigerantes, pipocas, balões, brinquedos e mais uma dezena de outras bujigangas eram vendidas logo na entrada e, depois, em intervalos do espetáculo. Em meio ao barulho ensurdecedor e pisoteamento de pés, os pobres pais sacrificavam seus vinténs para o regozijo da criançada. Então acho que foi nesse momento que imagino ter visto um retrato mais ou menos apavorante do futuro, bem diante dos meus olhos. Pensando bem, atrás de mim a cena se repetia também. E de ambos os lados, idem.

Eram pais acuados pelos filhos que, aos berros, exigiam que se comprasse exatamente tudo o que lhes passava pela frente e era oferecido. Filhos que eram transportados pelos pais, mas não acompanhados por eles, porque os adultos desses tempos hi-tech parece que não podem deslocar um instante os olhos para o mundo real, porque algo imperdível pode acontecer a qualquer instante numa tela de 5 por 10 cm. É o imperativo da curtição, como se bem sabe.

Não é que os números – honestos e caprichados – estivessem desinteressantes, mas era irresistível acompanhar as pessoas que, em sua maioria, nem olhavam para o picadeiro, mas pareciam sugadas para a tela das suas geringonças, gravando tudo (mesmo que houvessem pedido para que não se fizesse isso), mas assistindo a nada. Até agora estou tentando entender porque uma mãe de duas crianças que comiam pipoca compulsivamente filmava a mesmíssima cena que o pai das crianças filmava também, cada qual no seu smartphone. Será que eles pretendem fazer um concurso de borrões sem noção? E as crianças ali, comendo e berrando.

Tentei por um instante me transportar no tempo e imaginar aquelas crianças já adultas em um ambiente de trabalho, por exemplo. Ou, adolescentes, numa sala de aula, talvez. Então fica muito claro como é fácil e inútil exigir que as escolas evitem a propagação do bullying. É que se os pais não estão interessados nem nos próprios filhos, como é que estes irão entender as necessidades dos outros ou, pelo menos, perceber a necessidade de conviver socialmente com o mínimo de harmonia e respeito mútuo?

Ao fim do espetáculo, a imagem era dantesca. Crianças levavam nas mãos muito mais do que podiam carregar, quando não simplesmente depositavam no chão ou em qualquer lugar o lixo criado imediatamente após o incontrolável gasto p(m)aterno. Dessa vez, consegui evitar ter uma nova cena do futuro projetando-se em minha mente, afinal o show já havia acabado e era hora de ir embora. Mas era inútil tentar esquecer. O mais incrível é que ainda achamos melancólicos os clowns que sujam-se do pó do picadeiro para extrair (ou será doar?) um pouco de riso dos outros. Não é que esteja faltando espelho, aí estão os selfies para isso, não? É que nós, adultos, somos muito seletivos em nossas escolhas. As crianças que o digam.

Transcender é preciso

Qual o limite de vergonha que um cidadão pode suportar em relação ao seu próprio país? Seja como for, nada, absolutamente nada, pode ser mais indigno do que ser enxotado da própria rua.

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A Copa do Mundo nem começou e já está insuportável. Não insuportável por ser uma coisa chata e cansativa (para muitos a quem se deve o mesmo respeito que se deve aos fanáticos por futebol ela é ambas as coisas), mas porque aconteceu o acaso de realizar-se em um país que não pode suportá-la. E isso, a cada dia que passa, fica mais evidente.

A recente recomendação expedida pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) de que, para preservar inclusive a própria segurança individual, moradores de rua devem desocupar o seu lar – as próprias ruas – e dirigirem-se a seguros confinamentos de gente miserável é das mais claras evidências que se pode perceber nesse sentido.

Mesmo que haja algum sentido e efetivo desejo protetivo na medida, pensar em tudo o que a envolve e seus significados sociais e políticos também é insuportável. Pessoas mais sensíveis não deveriam sequer pensar nisso ou, se possível, transcender as notícias de remoções humanas que não param de chegar, mesmo que isso signifique algum tipo de exílio mental.

Nessas semanas que antecedem o evento, venho tornando-me cada vez mais, para minha própria surpresa, um sujeito transcendental. Desejo transcender o evento e, se possível, o mês inteiro de junho e seus significados reais. Ou poderia exilar-me no país do futebol, no estado de exceção imposto pela FIFA, e crer finalmente que as medidas de gestão adotadas desde o anúncio da Copa são necessárias e até desejáveis. Afinal, como vai ficar a imagem do Brasil com turistas tropeçando em mendigos e crackeiros?

Não pega bem. Definitivamente, não. É preciso que haja outras soluções. É preciso o apoio de outras instituições para que tudo dê certo. E é preciso dar certo, mesmo que isso seja uma manchete de jornal com conteúdo também insuportável (de tão irreal). Aí estão os poderes de Estado, polícias e forças armadas para resolver o impasse e criar soluções para que se tenha um país enfim transitável, isso tanto no que se refere ao próprio trânsito quanto à segurança pública e outros incômodos ordinários e corriqueiros. O que isso traz embutido em si mesmo é melhor nem pensar muito. Melhor transcender e esquecer-se de quem está promovendo tudo isso.

Tenho alimentado nos últimos tempos, além do desejo irrefreável por transcendência, um intenso sentimento de vergonha. E de esperança, também. Esperança, no caso, de ser possível viver sem vergonha do que vem acontecendo com seres humanos de carne e osso como eu ou você, em função de um fetiche político ou de um delírio social de que o país tenha precisado em algum momento procurar mostrar ao mundo uma possível face pujante e rosada como de um bebê pronto para encarar o séc. XXI.

E pode mesmo fazer isso o Brasil, se quiser, mas não para agradar a ninguém ou fazer parecer às entidades internacionais e países com os quais mantém amigáveis relações comerciais. Perder a máscara de país em perpétuo vir a ser desenvolvimentista e assumir (talvez corrigir, quem sabe?) as próprias mazelas pode ser um bom começo. É uma oportunidade. Criada às avessas, mas ainda assim uma oportunidade. E uma esperança também. Nesse caso, eu apenas espero que não se transcenda essa esperança também, porque aí estaríamos noutro terreno, o da confirmação histórica, do destino e essas coisas desesperançadas que podemos dar, ou não, um basta final.

Qual o limite de vergonha que um cidadão pode suportar em relação ao seu próprio país? Seja como for, nada, absolutamente nada, pode ser mais indigno do que ser enxotado da própria rua. Mas essa é a proposta social que está sendo feita às pessoas que vivem na rua. É isso que estamos lhe dizendo com as bocas fechadas, olhos indiferentes e mãos impotentes, que seu lugar não é nem aí, em lugar nenhum. E que suas existências podem corroer a sociedade por dentro, mas não nossa imagem pública internacional. E, sob o argumento da proteção, o que temos a oferecer é que sumam da face da terra, que a festa da Copa não lhes pertence, como nada lhes pertence. E devemos salvaguardar os direitos daqueles que querem festejar, com exército inclusive, mesmo que à revelia dos direitos de todos os demais.

O que se pede às pessoas é que elas transcendam a situação e entendam que agora tudo é urgente e inevitável. E que vai ter Copa, sim, a qualquer custo. E que vivemos nessa democracia cautelosa e seletiva ditada mais pela economia e pelos poderes dos cartões de crédito que pela decência, essa abstração detestável. E dispendiosa.

É por essas e outras que estou providenciando as soluções para o meu dilema e recomendo que todos façam o mesmo. Vou torcer pelo Brasil e continuar a ter esperança nele, porque isso é doença inata, mas momentaneamente vou procurar transcender o real, o meu e de todos os outros que não alcanço com olhos ou as mãos, mas nem por isso renego que sejam meus concidadãos. A solução que encontrei é oriental e nobre: a transcendência. Não é bem melhor que remoção?

Em Porto Alegre, se chover, não vai ter Copa

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Não sei em outros lugares do Brasil, mas em Porto Alegre, se chover, não vai ter Copa mesmo. E a culpa não recairá sobre os black blocks nem a ninguém, a não ser – talvez – São Pedro em pessoa. Ou Netuno.

É que na capital dos gaúchos, como sabem os residentes locais, 30 milímetros de água são o suficiente para inviabilizar completamente a vida urbana, a não ser que o sujeito tenha uma canoa na garagem ou, sorte das sortes, não precise sair de casa nestes dias molhados.

A tragédia sobrenatural será a mais terrível de todas, porque não haverá culpados imediatos a apontar, só sucessivos. São as sucessivas administrações da capital, que priorizaram o marketing político em detrimento do interesse público e de investimentos reais em mobilidade urbana decente (como parece ser o destino mais comum da política) que devem ser lembradas nesse momento inglório que pode acontecer ou não, dependendo tudo única e exclusivamente da sorte e de desconhecidos desígnios divinos.

Estou lendo, apenas por curiosidade, a previsão do tempo e a situação é tão imprecisa quanto as previsões que chegam o tempo todo pelo rádio (elas dificilmente acertam o que vai acontecer na próxima hora). A questão é relaxar e torcer para que tudo dê certo. Cada um para a sua torcida, é claro. Se eu fosse um “gestor da coisa pública”, estaria imediatamente convocando as forças do além para levar as nuvens de chuva para bem longe daqui.

Também não se deve desperdiçar a oportunidade de assimilar alguma coisa através da vergonha local, que dizem ser o primeiro sentimento patriótico da pessoa. Já imagino como isso aconteceria. Eu – ou qualquer um – ligaria a TV para assistir a mobilização pré-jogo entre Argentina e sei lá quem e o repórter, vestindo uma capa de chuva, anunciaria que o transporte terrestre até o Beira-Rio se encontra interrompido e o craque Messi, por exemplo, ficará preso por pelo menos duas horas no trânsito de Porto Alegre, como acontece quando chove aos seres humanos mortais. O mundo terá olhado para a capital dos gaúchos e pensará em que fim de mundo isso poderia acontecer.

É por isso que dizem por aqui que nem toda a fama é bem vinda. E com razão.

Do pink ao punk: o buraco negro da pré-adolescência

camisetas

“For what is a brat, what has he got
When he wears hats and he cannot
Say the things he truly feels
But only the words, of one who kneels (…)”

Sid Vicious, My way

Há pelo menos uns vinte anos venho recebendo a notícia sistemática de que a infância está encolhendo e a adolescência alargando-se, naquilo que parece ser um movimento inexorável e inevitável. No começo, as manchetes diziam que a infância terminava aos doze anos de idade, mais ou menos. Depois aos dez e, mais recentemente, simplesmente quando a própria criança assim decidisse, num momento impreciso entre os seis e os dez, tendo em vista que os mais especializados especialistas do ramo parecem ter desistido de arriscar na quantia, tal é a imprecisão do gênero humano, esta sim inacabável.

Devo esclarecer que não comecei a escrever pensando em responder qualquer coisa ou anunciar que encontrei finalmente o momento crucial da cisão do mundo infantil rumo ao adulto. Esse parece um elo perdido ainda mais remoto do que aquele que nos separaria dos primatas. Na verdade quero falar do que não encontrei. E também um pouco a respeito desse buraco negro onde estão essas pessoas que chamam de “pré-adolescentes”.

Seria uma tolice incomensurável chamar referências a um Stephen Hawking para explicar o que são buracos negros. Já usei muitas mídias nessa tentativa e muito rapidamente cheguei a conclusão de que estou naquele vasto percentual que só sabe dos buracos negros o nome “buraco negro”, coisa que pode enganar a alguns desavisados, mas nem por isso por um tempo muito longo. A ignorância, ao contrário da sabedoria, revela-se na velocidade da luz, seja lá o que for isto também… Confesso que a física, mesmo a pré-newtoniana, é um trauma da minha própria pré-adolescência, se é que um dia ela existiu. Mas não é daí que vem minha empatia com os teenagers. É que de incompreensibilidade eu sou mesmo bom e, por isso, reconheço que tenho muito de teenager em mim mesmo, ainda que não fisicamente e, veja bem, isso está longe de ser uma lamúria.

Porque o destino quis assim, minha casa e minha vida (isso não é nenhum trocadilho com o programa habitacional do governo) estão prestes a ser ocupadas por um exemplar dessa faixa etária. Mas já aviso, como medida de prudência, que pretendo deixar o tal buraco negro do lado de fora, que lá ele já é imenso o bastante. Isso não evitará de que minha filha e ele se encontrem muitas vezes. E porque sei que preciso conhecê-lo bem, vou a ele também. E mais inadvertidamente do que desejaria.

Minha primeira experiência com o buraco negro aconteceu há poucos dias. Estava matando tempo em um shopping center e senti vontade de presentear minha filha. Uma roupa, pensei. Um bom pai, nestes tempos, requer desenvoltura nisso. Escolher uma roupa para presentear uma filha deveria ser uma tarefa fácil. No shopping há várias lojas de todos os tipos, como se sabe. Desde as boutiques de grife até as lojas de departamentos. Como prefiro a autonomia ao auxílio caudaloso das lojas femininas, fui passando as vitrines, espichando o olho e pensando no que ficaria melhor na sua silhueta de menina ou moça, que isso é quase como uma variação lunar, eu diria. Então me dirigi a uma loja de departamentos, com a desenvoltura de quem sabe que não terá seus sentidos invadidos por amostras infinitas e peças economicamente desproporcionais à realidade. Então, não mais que de repente, eu o vi.

Ali, entre o corredor tomado de vestidos e roupas pink e o próximo corredor, tomado de motivos punk e roupas pretas, o buraco negro. Nem digo que parecesse ameaçador, mas tenho certeza que ele ficou incrédulo de que eu o flagrasse. Anda mais dentro de uma loja de departamentos, ainda mais dentro de um shopping center, e assim por diante. Mesmo assim, não se abalou e, caso eu fingisse que não o estivesse vendo, ele se estenderia implacavelmente sob meus pés, impondo o corredor punk diante aos meus olhos, com suas caveiras, feras e simbologias que, como um tornado, arrancariam minha menina do mundo cor de rosa da Barbie e, de um golpe só, a jogaria aos pés de um Sid Vicious, por exemplo. Sim, nesse momento tremi, mas não por causa do Sid Vicious, e sim, pela extensão da travessia que aquela loja de departamentos, uma das mais conhecidas do Brasil, reduziu a menos de um metro, como se essa fosse a distância que uma criança deve atravessar até chegar a adolescência. Da Barbie ao Sid Vicious. Do pink ao punk, sem paradas e nem tempo para um refresco sequer.

Falar em excluídos e invisíveis hoje não é mais um privilégio da sociologia, como se sabe. Os pré-adolescentes, contudo, estão longe de ser uma minoria obscura ou obscurecida. E não é só o buraco negro que os observa. O mercado também o faz. Políticos rejuvenescidos pelo marketing também. Artistas de toda a ordem que querem lhe devorar os trocados, sem falar nos inventores de tralhas digitais, que acreditam mesmo serem seus sócios inatos e cobram míseros dólares de milhões de pessoas para extrair seus lucros que proliferam como vírus, só que neste caso legais. Muito legais. Very cool, na realidade. E lá, no finzinho da fila, os pobres pais também observam, ainda atônitos por ter de entregar ao mundo como ele parece ser os seus babies. Pior para os que, como eu, sabem que não há alternativas nem esperanças de que as identidades por que se pode comprar nas lojas dos shoppings acolham com a mesma força do braço parental. Definitivamente, a pré-adolescência é fase da desproteção. De filhos e pais.

Mas, sem chorumelas, por favor. A vida é assim mesmo e já foi muito pior, caso você precise de algum consolo. Houve época, por exemplo, em que nem existia adolescência. Simplesmente se encaixotavam as crianças e as enviavam aos internatos e, daí, a qualquer vida possível. Isso para quem podia pagar por internatos, obviamente. Os demais rumavam direto ao trabalho mesmo, este verbete que é execrado pelos defensores do direito à infância e ao brincar. É por isso que muito comumente, quando olhamos retratos antigos de crianças, parecem que são miniadultos. Hoje ainda parecem, em alguns casos, na verdade, mas somente porque os adultos os mimetizam como se com isso pudessem encontrar um tipo mágico de fonte do rejuvenescimento. E, porque esses são tempos líquidos, como gostava muito de afirmar o polonês Zygmunt Baumann, há adultos que parecem crianças e vice-versa. Tudo depende do desejo que há em cada um. Seguro é apenas o fato de que ninguém quer estar no buraco negro da invisibilidade, mesmo que o preço a pagar seja adotar uma identidade caricatural ou não adotar nenhuma, adquirindo todas.

O vestuário não é, evidentemente, o único meio pelo qual um pré-adolescente fixa uma identidade para si. A identidade pré-adolescente parece ser na maioria das vezes volátil, inclusive. Isso depende muito do que lhe está disponível, tanto em matéria de roupas nas lojas quanto a bens culturais em vigor nas mídias e redes de trocas simbólicas. Há poucos dias, minha única opção de vestuário para uma menina pré-adolescente era o motivo punk. Ninguém me garante, entretanto, que amanhã não seja outra aparência. Uma roupagem futurista, de repente. Ou gótica, sei lá. E isso acontece na música também.

A maior ilusão que os pais de crianças criam para si mesmos é que poderão determinar ou pelo menos orientar o gosto musical dos filhos, assim como as suas demais opções estéticas. Porque a música traz em si elementos muito intensos de identidade, quer pelas letras ou pelos ritmos e estilos, muitos pais creem que podem livrar os filhos de preferir o que a eles soam como abominações detestáveis. Não é viável essa ideia e forçá-la é muitas vezes apenas o exercício de poder travestido de boas intenções. Se uma pessoa é mesmo um pré-adolescente, eu sinto informar, mas ela tem como um radar anti-lobos-travestidos. Isso não impede de que ela seja eventualmente conquistada por sonoridades e significantes anteriores à sua época histórica. É uma boa oportunidade de diálogo real, essa. Mas, se virar rapidamente uma lição de bom gosto, pode esquecer. O Sid Vicious, por mais temível que pareça, é mais sedutor que o seu melhor e mais comovente discurso. Então é preciso cautela para que você não seja o responsável por jogar seu filho dentro do tal buraco negro, porque a mão que faz isso nunca é a mesma que o tira de lá. E isso não é lei da física newtoniana. É batata.

Lá no comecinho eu avisei que esse texto não era bom de soluções, mas recheado de problemas obscuros como a física quântica e a temível pré-adolescência. Ah, vestir-se de punk também não irá ajudar muito, cumpre frisar. Sendo o caso, o melhor mesmo é apostar em certo auto-estranhamento e confiar (ô palavrinha difícil) que é assim mesmo que alguém, mesmo um pré-adolescente, pode tirar a cabeça de dentro do buraco e nascer para a vida mundana, com os pais ou fantoches que lhe estiverem a mão. Esse vestuário, no caso, cabe apenas aos pais decidir.

Porto Alegre: poesia e piada prontas

Uma coisa ninguém pode dizer contra a cidade de Porto Alegre: a de que ela não seria uma cidade poética. Afora os poetas que a circunscrevem de versos dos mais variados estilos e lirismos, a administração pública municipal também presta diuturnamente sua contribuição direta e ostensiva para a concretrização do predicado. Não, não estou falando de iniciativas consagradas como os bem conhecidos “poemas no ônibus”, mas da distribuição de conteineres de recolhimento de lixo pela cidade.

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Inadvertidamente, o poder público municipal tem distribuido cópias in vivo do poema “O Bicho”, do pernambucano Manuel Bandeira por aqui. Poucas vezes em sua história a cidade contou com tantas dramatizações poéticas unitemáticas como presentemente. Algumas pessoas, sobretaxadas pelo adjetivo “pessimistas”, chegam a dizer que o famoso pôr-do-sol no Guaíba está ameaçado pela imagem dos detritos urbanos (e daqueles que só tem a isso por alimento) que se espalham uniformemente pela cidade, de tantos em tantos metros, revelando um projeto de engenharia urbana realmente formidável.

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Aguarda-se que, em virtude da Copa do Mundo que se aproxima, cartões postais (ainda se usa isso?) e camisetas serão impressos louvando as imagens poéticas da capital dos gaúchos. Não deverão faltar, obviamente, imagens dos conteiners de recolhimento de lixo e seus arredores, esses espaços pictóricos por excelência nos quais a população deposita diariamente o que já não mais lhe serve para alimentar, ou seja, o lixo orgânico e tantas outras coisas das quais é até melhor nem lembrar. Desculpem a má poesia, mas a sujeira é reconhecidamente um valor poético e estético há muito tempo já, como atesta o “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar. Porto Alegre, neste caso, pode considerar-se das mais poéticas cidades do país, e tudo obra de uma repartição pública comandada desde o paço municipal, o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU).

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Sim, Porto Alegre institucionalizou a poesia do lixo urbano e rapidamente acostuma-se a outras poesias típicas das cidades sem planejamento, como o trânsito caótico e os espaços públicos abandonados, por exemplo, além de outras vertentes ainda mais realistas que, por pouca relevância, só chegam mesmo a publicar-se nas páginas policiais dos veículos de imprensa. Mas tanta poesia tem os dias contados. Desde o último dia 03, vigora na cidade legislação que permite aos agentes fiscais da repartição em questão, o DMLU, aplicar multas e autos de infração aos cidadãos flagrados ao descartar no espaço público desde um milimétrico papel de balas até volumosos entulhos de obras.

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Trata-se de uma solução viável, aos olhos dos gestores e legisladores da coisa pública municipal, mas com efeitos efetivamente imprevisíveis. Se a ameaça de multas irá ou não coibir a proliferação de lixo no espaço público é coisa que não se pode ainda saber. Resta imaginar que, num rompante de autocrítica, o DMLU aplique multas a si mesmo por permitir que os resíduos destinados a sua solução mágica, os containers espalhados pela cidade, re-amanheçam por toda a cidade, em aniversários repetidos.

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Talvez por apreço a essa espécie peculiar de poesia urbana praticada diariamente em Porto Alegre, alguns desses seus moradores “pessimistas” antevejam aí uma política pública fiasquenta e malcheirosa. O certo é que, se um dia o problema da limpeza urbana e do uso racional dos espaços públicos fossem realmente enfrentados, muita gente, “pessimistas” e “otimistas”, dispensaria com prazer a saudade desse tipo de poesia que existe apenas para infectar a paisagem e o olfato dos habitantes locais, sem esquecer dos visitantes que logo logo vêm aí comemorar a festa da Copa brasileira.

Um réveillon alsaciano

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Ontem eu estava no supermercado, já quase no caixa, quando de repente senti que alguém se aproximou de mim pelas costas. Não senti o desconforto de qualquer ameaça, mas virei para ver quem estava ali. Era um sujeito alto, magro e negro. Com a barba por fazer e vestido como se vestem os moradores de rua, mas não era andrajoso, era apenas miserável. Um miserável ereto e atento ao movimento de todos. Lúcido diante dos olhos dos funcionários do estabelecimento. Silencioso como um gato, mas respeitoso como um cão que sabe perfeitamente onde está pisando.

Ele tinha duas coisas nas mãos. Uma garrafa de aguardente e um pacotinho de suco de uva em pó. Eu olhei rapidamente para ele e ele me perguntou se eu “passava” o suco para ele. Os trocados que ele tinha na mão não dariam para os dois produtos, de qualquer forma. “Claro”, eu falei. Vai me custar muito pouco. Um suco em pó vale menos de um real. A cachaça que ele levava devia custar dois ou três reais, mas ele não fez a menor menção de que eu pagasse a bebida. Ele a levava junto ao peito como os demais levavam suas caixas de leite ou outros mantimentos.

Por um momento, passou pela minha cabeça que eu devia pagar a própria cachaça e colaborar de vez com sua embriaguez. O verão intolerável de Porto Alegre lhe seria mais suportável e provavelmente ele sairia dali para compartilhar a bebida com outros dos muitos moradores de rua que perambulam e pernoitam nas ruas da Cidade Baixa. Meu gesto teria uma missão social, possivelmente, porque ninguém que mora na rua bebe uma garrafa de cana sozinho. Na rua, o verbo compartilhar tem um significado concreto que envolve tanto a sobrevivência mais elementar quanto dormir juntos sobre o duro colchão do cimento e das calçadas.

Olhei rapidamente para ele antes de entregar meu cartão para a moça do caixa e percebi que, mesmo que eu desejasse, essa possibilidade não existia. Tentar fazê-lo seria uma violência comparável à profanação da honra de um samurai. Não, isso não aconteceria pela minha mão. Para ele, estava claro que ninguém deveria arcar com sua bebida tão explicitamente, embora provavelmente as moedas que a pagariam tenham sido obtidas pela doação de alguém, mas em oculto, no anonimato pelo qual uma mão limpa deposita moedas numa mão suja, à vista de todos, no olho da rua.

Depois que passei minhas compras, fiquei enrolando um pouco ali perto, conferindo a nota. Na verdade eu queria conferir é qual seria o tratamento dispensado ao “cliente”. A moça do caixa nem piscou em passar apenas a bebida. Foi uma sorte, pois eu sabia que se alguém tentasse qualquer abuso, eu precisaria fazer alguma coisa. Nunca se é cúmplice de alguém até certo ponto, nem que seja por causa de uma garrafa de cachaça. Era a minha honra ali. A dele provavelmente já havia sido espancada muitas e muitas vezes. Eu consegui cumprir minha parte sem maiores dificuldades. Ele foi saindo do local acompanhado de longe pelo olhar dos seguranças. Talvez esse seja o sabido ônus de ter um comércio na Cidade Baixa, mas eu mesmo muitas vezes presenciei a ação truculenta de funcionários dos supermercados, principalmente com moleques de rua furtivos.

Com a cachaça e o suco devidamente ensacolados, ele dirigiu-se a uma porta oposta a qual eu me dirigi, rumo ao estacionamento. No elevador, um homem de seus sessenta anos puxou assunto: “Você viu aquele vagabundo e o outro financiando a cachaça?” Dessa vez tomei um susto de verdade, mas logo vi que o sujeito não havia percebido que o “promotor” da vagabundagem e beberagem era eu mesmo. “Ah é?”, perguntei. É uma pouca vergonha, ele continuou. “Garanto que se lhe dessem um emprego, ele não queria trabalhar.” E a viagem do elevador pareceu mais lenta do que nunca.

Do lado de fora da porta, continuou insistindo, como se eu devesse ouvir sua doutrinação. Vou lhe dizer que quem financia a vagabundagem é que vende a cachaça mais barato que o leite e o pão, mas uma pessoa dessas jamais vai entender isso. É o típico sujeito que, na noite de réveillon, vai beber tranquilamente seu espumante até começar a encher os tubos de alguém mais de uma maneira absolutamente insuportável, porque lúcido está claro que já é chato o bastante. E claro, só existem criaturas assim no mundo porque um tipo de plateia o apupa e promove. Talvez sua própria família, se é que alguma aguentaria de bom grado a sua companhia.

Falta-lhe a dignidade de beber silenciosamente como os mendigos, até que o grito afogado que adormece dentro de cada um deles irrompa de uma maneira socialmente insuportável e passe a vagar por aí, nos deslugares da cidade. Dentro do carro, procuro localizar meu beneficiário, mas não consigo vê-lo. Apenas vejo o sujeito insuportável do elevador reclamando alguma coisa com o menino da catraca do estacionamento. Há muitos moradores de rua nas redondezas, mas a maioria está dormindo sob a sombra fugidia das marquises. É bobagem procurar por alguém nessas condições. Provavelmente, ele vai guardar a garrafa para a noite, para beber na virada do ano, talvez sozinho, talvez com o amor extraviado de alguém igual a ele. Mas ele vai estar tão bêbado que nem vai se lembrar disso, apenas de um gosto amargo na boca que nem o melhor néctar das uvas alsacianas poderia disfarçar.

Parem o mundo que eu quero filmar

Pessoas filmando a posse do papa

Sou dessas pessoas que têm fixação em números e séries estatísticas. Rankings também são legais e eu faço questão de usar meu tempo para entender as coisas que eles dizem. Na verdade, já há alguns anos eu venho procurando me tornar uma pessoa pragmática, voltada inteiramente ao mundo concreto e às ações sumárias. Chega dessa bobagem de cogitum ergo sun. Vamos aos fatos. E deles às ações, por favor, que ninguém aqui tem tempo a perder.

Estou lendo nesse momento a informação de que, em 2013, o incremento das vendas de smartphones chegou a 110% em relação a 2012. Poucos produtos tiveram um salto dessa proporção. A venda de automóveis, por exemplo, terá um aumento entre 1 e 3% em relação ao ano passado. Já a venda de TVs de LCD e LED caiu 7%. Parece que apenas o consumo de água aumentou numa razão semelhante ao dos smartphones. Não sei quais são os índices, mas a Global Footprint Network está dizendo que ultrapassou já a própria capacidade de renovação que o planeta pode oferecer.

Se em relação à água chegamos ao vermelho, em relação aos smartphones os dados indicam que estamos no apogeu. Mas será positivo que o mundo e o comércio possam saciar a sede por smartphones mas não possa garantir o consumo de água potável para 770 milhões de pessoas? Perigando chegar aos 3 bilhões em 2015, segundo diz a FAO em pessoa?

Voltemos aos números e sua frieza taxativa. Basta de interrogações. Afinal, de que serve interrogar sobre questões sabidamente sem resposta? Bons mesmo são os números, especialmente se o numerário na sua conta bancária lhe permite renovar seu status tech com a mesma avidez que os fabricantes anunciam seus novos modelos e escutam o tilintar das moedas.

Enquanto fabricantes e vendedores festejam o consumo de smartphones, a água escasseia e setores econômicos inteiros e indivíduos chegam ao vermelho econômico, o mundo segue sua jornada irrefreável. Ele e seus habitantes.

A vantagem evidente que os lucrativos e cobiçados smartphones trazem ao mundo nessa situação é de que ele, o mundo, pode agora ser registrado como nunca antes fora. É claro que a câmera embutida não irá transformar uma pessoa de forma automática num Glauber Rocha ou num Sebastião Salgado, mas eu pessoalmente não tentaria dissuadir ninguém quanto a isso.

Mesmo que as pretensões de seus donos normalmente sejam mais singelas, ao comprar o aparelho às vezes parece que uma mensagem subliminar embutida grava em regiões profundas do cérebro a ideia de que todo e qualquer momento é sublime, especialmente se for uma projeção do eu em relação ao mundo. O mundo por si só é algo mais ou menos desinteressante até que seja focado e clicado, mesmo que para ser visto num borrão ou em cenas indistinguíveis. Ou para não ser visto nunca mais, se é que isso faz alguma diferença.

Há muito sabe-se que o registro do tempo é um imperativo para os seres humanos desde a época em que os recursos para tanto resumiam-se em rabiscos nas cavernas, mas com a “vantagem” da portatilidade, há todo um universo a ser explorado. As possibilidades são infinitas. Você não pode perder nenhum momento. O tempo está esvaindo-se. Esse é o recado dos anunciantes dos apetrechos e até mesmo o físico e astrônomo Marcelo Gleiser parece concordar com isso. Na Folha de São Paulo, há algumas semanas, ele foi além ao afirmar que “os celulares tornaram-se parte integral de nossa existência, um apêndice tecnológico que nos define como indivíduos”.

Parece que a charada está decifrada, a função oculta do aparelho então seria a reconexão com o tempo, o mesmo tempo – este – que está permanentemente esvaindo-se. A questão é saber se dá tempo de tomar um copo de água ou se, ao nos reconectarmos à falível e biológica natureza, ainda haverá alguma água para beber.

Seja como for, as vantagens em preservar os recursos hídricos, como não obedecem ao círculo vantajoso do voraz mercado, são constantemente desprezadas. Isso não significa que deveriam ser desprezíveis, mas a ação pragmática de muita gente só onde chega é nesse estado de coisas, nessa situação. Como bom pragmático, me resta perguntar “fazer o quê?” Mas nem pensem que eu tenha a resposta. Sou pragmático, bobo não.

Além de ler os índices acumulados e rankings anuais, esses dias topei com o trailer do novo filme da série “O Planeta dos Macacos” (trailer aqui). Desde criança essa série vem me assombrando, mas o espanto não se deve tanto à imagem da ruína da Estátua da Liberdade nem pela maquiagem dos macacos (as máscaras antigas serão obviamente sempre insuperáveis), o que me assombra é a mera possibilidade de que a humanidade simplesmente possa perder a vez no planeta. Uma cena do último filme da série, na qual o líder Caesar angariou o maior atributo do homem, a linguagem, mas justamente para dizer “não”, já tinha me feito perder a respiração. Na época eu escrevi um pequeno texto sobre essa cena para mim antológica, está neste link.

No novo filme, que estreará no mesmo mês da Copa brasileira e do aniversário de um ano das manifestações populares que pintaram de catapora o mapa e a face do Brasil, os macacos entraram finalmente em guerra com os humanos. Eu não imagino como o roteirista do filme vai resolver a pendenga, se vai armar até os dentes os parentes primatas ou jogá-los num banho de sangue. Se estivesse em seu lugar, eu faria com que os humanos depusessem seus smartphones em troca de umas frutas suculentas e umas gotas de água pura. E vamos às árvores que o ano novo vem aí e façam o favor de seguir o conselho dos vendedores dos “smarts”, não há tempo a perder, nem num texto “pragmático” como este.