Tristes clowns

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Depois de muitas décadas na minha vida, voltei a pisar no piso esparramado sob a lona vermelha de um circo de rua. É uma experiência bem interessante para pessoas da minha idade, que provavelmente viram os circos na época em que até tigres e elefantes revezavam-se no picadeiro, assim como para as crianças que, por sua vez, podem ver um espetáculo que é (ou pode ser, isso depende do ponto de vista) encantador justamente pela imperfeição dos números, algo bem diferente das criaturas renderizadas que hoje povoam e “divertem” o nem um pouco pequeno mundo dos pequenos.

Bem diferente dos circos teatrais, os circos de rua guardam uma aura de coisa mambembe, viajante. Ainda lembro que há muitos anos atrás o sonho de muitas crianças era fugir atrás do circo, que parecia um lugar recheado de magia e espetáculo. É claro que uma simples visita fora do horário de espetáculo pudesse mudar um pouco a perspectiva dos pretendentes a acompanhantes, porque ali o glamour escasso de malabaristas e acrobatas estava desnudo e a vida dos artistas circense revelada em sua realidade, ensaios intermináveis e trabalho pesado. Sem falar na tristeza inerente às feras enjauladas, coisa que felizmente não se vê mais hoje.

Mesmo assim, acho que eu não estava preparado para ir ao circo. Não que eu imaginasse reconstituir uma nostalgia infantil e frustrar-me de alguma maneira em função disso, não é isso. É que não imaginei encontrar o que acabei encontrando. Não falo de nenhum número magistral ou coisa assim, mas do comportamento humano, que consegue ser sempre surpreendente, embora nem sempre no sentido positivo do termo.

Acho que para compensar os custos de manutenção e obter o máximo lucro possível, os artistas do circo ou estavam apresentando-se no picadeiro ou revezando-se na venda de inúmeros produtos entre a plateia. Refrigerantes, pipocas, balões, brinquedos e mais uma dezena de outras bujigangas eram vendidas logo na entrada e, depois, em intervalos do espetáculo. Em meio ao barulho ensurdecedor e pisoteamento de pés, os pobres pais sacrificavam seus vinténs para o regozijo da criançada. Então acho que foi nesse momento que imagino ter visto um retrato mais ou menos apavorante do futuro, bem diante dos meus olhos. Pensando bem, atrás de mim a cena se repetia também. E de ambos os lados, idem.

Eram pais acuados pelos filhos que, aos berros, exigiam que se comprasse exatamente tudo o que lhes passava pela frente e era oferecido. Filhos que eram transportados pelos pais, mas não acompanhados por eles, porque os adultos desses tempos hi-tech parece que não podem deslocar um instante os olhos para o mundo real, porque algo imperdível pode acontecer a qualquer instante numa tela de 5 por 10 cm. É o imperativo da curtição, como se bem sabe.

Não é que os números – honestos e caprichados – estivessem desinteressantes, mas era irresistível acompanhar as pessoas que, em sua maioria, nem olhavam para o picadeiro, mas pareciam sugadas para a tela das suas geringonças, gravando tudo (mesmo que houvessem pedido para que não se fizesse isso), mas assistindo a nada. Até agora estou tentando entender porque uma mãe de duas crianças que comiam pipoca compulsivamente filmava a mesmíssima cena que o pai das crianças filmava também, cada qual no seu smartphone. Será que eles pretendem fazer um concurso de borrões sem noção? E as crianças ali, comendo e berrando.

Tentei por um instante me transportar no tempo e imaginar aquelas crianças já adultas em um ambiente de trabalho, por exemplo. Ou, adolescentes, numa sala de aula, talvez. Então fica muito claro como é fácil e inútil exigir que as escolas evitem a propagação do bullying. É que se os pais não estão interessados nem nos próprios filhos, como é que estes irão entender as necessidades dos outros ou, pelo menos, perceber a necessidade de conviver socialmente com o mínimo de harmonia e respeito mútuo?

Ao fim do espetáculo, a imagem era dantesca. Crianças levavam nas mãos muito mais do que podiam carregar, quando não simplesmente depositavam no chão ou em qualquer lugar o lixo criado imediatamente após o incontrolável gasto p(m)aterno. Dessa vez, consegui evitar ter uma nova cena do futuro projetando-se em minha mente, afinal o show já havia acabado e era hora de ir embora. Mas era inútil tentar esquecer. O mais incrível é que ainda achamos melancólicos os clowns que sujam-se do pó do picadeiro para extrair (ou será doar?) um pouco de riso dos outros. Não é que esteja faltando espelho, aí estão os selfies para isso, não? É que nós, adultos, somos muito seletivos em nossas escolhas. As crianças que o digam.

Essas pessoas com deficiência

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“Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa./Ninguém é igual a ninguém./Todo o ser humano é um estranho ímpar.”
Carlos Drummond de Andrade, Igual-Desigual, in A Paixão Medida (1980).

Elas já foram deficientes. Excepcionais. Portadores de deficiência. Portadores de necessidades especiais. Agora, ou melhor, desde que a Convenção sobre Os Direitos das Pessoas com Deficiência foi promulgada com status de emenda constitucional, em 2008, são apenas pessoas com deficiência. Mas nem assim cessou o preconceito e superou-se a estigmatização.

Como parece impossível que sejam pessoas simplesmente nomeadas ou apontadas em um contexto social heterogêneo, a redação jornalística contemporânea vem encontrando novas e inadvertidas forma de estigmatização. Pessoas com deficiência, para efeito de referência, são “essas pessoas”. É o que se encontra invariavelmente em 99% dos textos jornalísticos e reportagens sobre qualquer tema envolvendo a deficiência. Por que não simplesmente usa-se “eles”, “nós” ou os demais pronomes pessoais e oblíquos disponíveis no vernáculo é algo ainda a ser melhor compreendido.

O problema é que, até chegar ao ponto de compreender o que acontece, muito do que está oculto e embutido na linguagem e na forma como ela é empregada emerge, quando não simplesmente salta aos olhos. Ou até mesmo agride.

Isso é o que acontece, por exemplo, quando se procura usar qualquer tipo de deficiência como um qualificativo, ou até mesmo uma metáfora. Ser cego, surdo, autista ou ter uma deficiência intelectual não são experiências comparáveis, razão pela qual o uso de qualquer um dos termos (e qualquer outro tipo ou denominação e deficiência) resvala quase sempre para um significado depreciativo, o que empresta e corrobora um sentido negativo para as condições, absolutamente normais na experiência humana.

Desde que foi introduzida por aqui a controvertida ideia do “politicamente correto”, a situação não melhorou nem um pouco, porque o cuidado excessivo acaba derivando para outra forma de discriminação e exageros igualmente estigmatizadores. Uma dica elementar para alguém entender se está se referindo de forma efetivamente preconceituosa, ao usar uma metáfora ou comparação, é verificar se o termo escolhido é elogioso ou caluniante. Se for caluniante ou prestar-se a um xingamento, não há então do que duvidar, é preconceito.

O “essas pessoas”, no entanto, surge em muitos outros contextos e, na maioria das vezes, de forma absolutamente gratuita. Seja num anúncio simples de um serviço oferecido às pessoas com deficiência ou uma situação envolvendo grupos sociais, quando se refere às pessoas com deficiência como “essas pessoas” o que se obtém é uma diferenciação automática em relação aos demais e uma uniformização de identidades.

Como se de um contexto social múltiplo e diversificado elas fossem arrancadas ao grupo homogêneo de seus iguais, quando é óbvio pensar que, como quaisquer outras pessoas, nem mesmo pessoas com a mesma deficiência são pessoas iguais, imbuídas de uma personalidade única. Além disso, a deficiência é uma expressão decorrente da relação do indivíduo com o meio social, não é um conceito ambulante.

Talvez alguém faça a objeção de que é apenas uma tentativa de agrupamento, inocente e inofensiva, que aqui há mais politicamente correto. Basta substituir o termo por outros e proceder a verificação. Se, em um texto, por exemplo, sobre a população negra, gays ou outras minorias se substituísse o coletivo por “esses negros”, ou “esses gays” ou mesmo “essas pessoas” o texto soaria claramente preconceituoso, não? Por que então, com as pessoas com deficiência, poderia ser diferente?

Cada pessoa é uma pessoa e cada pessoa com deficiência é uma pessoa também, por isso utilizar a expressão “essas pessoas” na redação jornalística ou em qualquer outra é um tipo de uniformização sem sentido. Caso se tratasse de animais, poderia dizer-se “essas vacas” ou “esses dromedários”, mas ao tratar-se de pessoas nunca é demais lembrar que ninguém é igual a ninguém e que tomar o sujeito pela característica anula o que há de mais precioso nele, ou seja, sua própria, implícita e incomparável humanidade.

Dramalhão simiesco

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Eu devia ter imaginado, mas acho que não quis acreditar que transformariam o excelente filme de ficção científica que fora Planeta dos Macacos – A Origem num dramalhão simiesco como se viu em Planeta dos Macacos – O Confronto. Na verdade, achei que não conseguiriam tal feito, porque o argumento todo já estava pronto e a presença magnética de Andy Serkis interpretando o líder Caesar deveria indubitavelmente garantir algumas horas de confortável alienação mundana.

Não foi o que me aconteceu. Pelo contrário, a poltrona do cinema parecia querer me enxotar dali o tempo todo. Principalmente quando os olhares dos macacos pareciam querer inspirar comoção e sentimentos evoluídos. Por ter acreditado que o roteiro poderia resolver satisfatoriamente o embretamento em que colocou o líder Caesar e seus comandados, resisti. Mas, infelizmente, não foi o que se confirmou. Trata-se, talvez, de uma continuação que por sua vez também não resistirá ao tempo. Talvez, nem à temporada de exibição.

Resvalar na pieguice parece às vezes ser uma regra de ouro das continuações. Lamentável que um dos personagens mais interessantes do cinema de ficção científica dos últimos anos, o símio Caesar, tenha sido, em Planeta dos Macacos – O Confronto, reduzido de líder revolucionário a um reles macaco chorão. Não será a primeira vez que um personagem auspicioso é derrubado de seu possível engrandecimento pela necessidade de preenchimento de cenas. Eu pensei que Caesar resistiria a isso tudo, mas a concepção lacrimosa em que se investiu na continuação parece que desandou com a “mística” do antropoide.

Assim, dessa forma melancólica, saí do cinema com a nítida impressão de tempo perdido e dinheiro mal empregado. Não que eu estivesse esperando exatamente pela reedição de um clássico do cinema, mas é que o reboot de Planeta dos Macacos – A Origem foi um filme surpreendente, a começar pela expressividade estupenda que o ator Andy Serkis emprestou a Caesar e, a seguir, por um roteiro impactante e repleto de dilemas morais comuns aos parentes ditos mais evoluídos, o que colaborou substancialmente para o engajamento dos espectadores. Pelo menos desses que usam moeda para obter as coisas.

Seja pelo início expresso, no qual se explica a propagação de um vírus que dizimou meia humanidade ou mais e colocou o mundo de ponta a cabeça, ou pelo desenvolvimento arrastado, o filme não trás descobertas, revelações, insights ou surpresas. E aquilo que seria razoável supor, de que os macacos evoluiriam culturalmente a partir da aquisição de habilidades inteligentes, não acontece. Eles brutalizam-se, na verdade. E o filme todo caminha nessa direção, colocando em oposição o que se poderia chamar de duas lideranças proto-políticas, antes indissociáveis, o líder Caesar e o truculento Koba, animado pelo ator Tony Kebbell.

Enquanto um haveria colecionado doces lembranças de sua criação por um humano afetivo, conforme o exibido no filme anterior, o outro fora exposto a toda sorte de experimentos e violências, razão pela qual não consegue confiar nestes nem por um instante. O momento em que eles discutem e tomam caminhos distintos na relação com os humanos é provavelmente o ponto alto do filme. Se há uma cena impactante na sequência, é esta em que Koba mostra ao então amigo e líder as cicatrizes que os amistosos humanos cravaram em sua pele e explicita as razões de sua desconfiança para com aqueles.

Apesar de que a violência de Koba depois disso deslanche descontroladamente, seu gesto acaba por querer demonstrar que seria inútil empreender contra os mais poderosos e que a revolta acaba por voltar-se contra os próprios revoltados. Esse argumento, entretanto, não salva o herói macaco Caesar de ceder totalmente à condição de espécie subalterna, mesmo sendo ele o exemplo máximo de sua própria espécie. O impasse subjacente à trama, portanto, equivale ao que seriam eleições na floresta, nas quais nem sempre vence o com mais razões e nem perde o menos capacitado. E o final, sangrento e explosivo, não deixa nada a desejar a outros filmes com seres energúmenos, animais ou não. A bem da verdade, se o filme fosse reclassificado de “ficção científica” para “ação” ou “aventura” pelo menos um pouco de justiça seria feita ao gênero original da série.

Assobie essa melodia

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Esses dias topei sem querer com uma lista inusitada na internet, onde listas de qualquer coisa proliferam alucinadamente. Era uma lista com dez assobios musicais que não desgrudam da cabeça. A seleção foi feita pela Rolling Stone e, entre os 10 assobios grudentos, apenas um brasileiro na lista. Coube a Gilberto Gil o feito, pela sua gravação de Esotérico, registrada no álbum Um Banda Um, de 1985.

Achei uma injustiça tremenda, porque de cara lembrei-me de pelo menos outros 5 ou mais assobios celebrizados por cantores e compositores brasileiros que não fariam feio numa lista dessas ou até poderiam sobrepujá-los no quesito “grudento”, senão (felizmente) em outros critérios musicais.

Na minha lista de assobios da música brasileira, mas não apenas para não contrariar os caras da Rolling Stone, constaria também o Esotérico de Gil, porque sem dúvida é um assobio que cai muito bem na melodia e na harmonia. A seu lado, para variar, caberia bem a companhia de Caetano Veloso, em pelo menos dois registros, ao que eu me lembre. O primeiro que me ocorre é sua fabulosa versão de For no One, de Lennon e McCartney, gravada no long play Qualquer Coisa, de 1975. Logo a seguir, por que não incluir também Você é Linda, gravada em 1983 em Uns?

Voltando um pouco no tempo, o que dizer então de O Vento, de Dorival Caymmi, assobiada e gravada pela primeira vez nos idos de 1949?

Dos baianos para baixo, logo ao sul, encontra-se obviamente Milton Nascimento e sua turma de clubeiros, em Minas. Em Cravo e Canela, gravado no seminal Clube da Esquina, de 1972, já se podia ouvir o assobio que repetiu em Bola de Meia, Bola de Gude, que ele mesmo só foi gravar em disco em 1982, no álbum Amigo.

Em Vida Noturna, de João Bosco e Aldir Blanc, gravada em 1976 no álbum Galos de Briga, o cantor e violonista mineiro introduz a noturna letra de Aldir em um longo e melodioso assobio. Lembrava dessa?

Elis Regina, com o assobio de Toots Thielemans, por sua vez gravou Você, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli em 1969.

Timidamente, como não podia deixar de ser, Chico Buarque também aparece nessa minha lista sem ranking, com um assobio quase furtivo em Futuros Amantes, de Paratodos, de 1993.

Luiz Gonzaga Jr, o Gonzaguinha, em Eu Apenas Queria que Você Soubesse, no álbum Coisa Mais Maior de Grande, de 1981, também está aqui.

Pulando algumas décadas e pensando em que está mais perto de mim, aqui no sul, lembrei-me de Vitor Ramil, que gravou no ano de 2000 o disco Tambong. Nele, a faixa Espaço tem como introdução um longo e melodioso assobio.

Os tribalistas Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, também assobiaram juntos em Mary Cristo, em 2002, ainda que bem discretamente.

A cantora Fernanda Takai, do Pato Fu, em parceria com Rodrigo Amarante, dos Los Hermanos, regravou do jovemguardista Demétrius a faixa No Ritmo da Chuva, para o especial sobre a jovem guarda da série Um Barzinho e Um Violão, de 2004, que conta com um trecho delicadamente assobiado por Rodrigo.

Igualmente recente, de 2010, o paulista Marcelo Janeci gravou um assobio na hiperexecutada Felicidade, do festejado Feito pra Acabar.

Toda essa história de gravar assobios na música brasileira data, porém, de muito tempo atrás. Consta que já em 1904 o trinado de Geraldo Magalhães já podia ser escutado em Meu Assobio, composta por Eustórgio Wanderley (parceiro de Chiquinha Gonzaga) e gravado mais ou menos nessa época, pela Odeon.

Refúgio dos maus cantores, o assobio pode ser tanto o meio de evocar uma melodia como de criá-la. Não é preciso dizer que, obviamente, os exemplos acima não se referem a maus cantores. Talvez isso ajude a demonstrar que se trata, provavelmente, do mais portátil, natural e espantoso instrumento musical, porque fabricado e transportado no próprio corpo.

Ele surge ou introduz melodias que nascem fáceis, especialmente de compositores da música popular. Afinal, talvez não haja mesmo expressão musical mais simples do que estas nascidas com a boca quase fechada, mas complexa a ponto de soar tão bem quanto o mais afinado instrumento. Então se, como eu, você canta mal a ponto de espantar a passarinhada, quem sabe assobiando..?

Transcender é preciso

Qual o limite de vergonha que um cidadão pode suportar em relação ao seu próprio país? Seja como for, nada, absolutamente nada, pode ser mais indigno do que ser enxotado da própria rua.

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A Copa do Mundo nem começou e já está insuportável. Não insuportável por ser uma coisa chata e cansativa (para muitos a quem se deve o mesmo respeito que se deve aos fanáticos por futebol ela é ambas as coisas), mas porque aconteceu o acaso de realizar-se em um país que não pode suportá-la. E isso, a cada dia que passa, fica mais evidente.

A recente recomendação expedida pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) de que, para preservar inclusive a própria segurança individual, moradores de rua devem desocupar o seu lar – as próprias ruas – e dirigirem-se a seguros confinamentos de gente miserável é das mais claras evidências que se pode perceber nesse sentido.

Mesmo que haja algum sentido e efetivo desejo protetivo na medida, pensar em tudo o que a envolve e seus significados sociais e políticos também é insuportável. Pessoas mais sensíveis não deveriam sequer pensar nisso ou, se possível, transcender as notícias de remoções humanas que não param de chegar, mesmo que isso signifique algum tipo de exílio mental.

Nessas semanas que antecedem o evento, venho tornando-me cada vez mais, para minha própria surpresa, um sujeito transcendental. Desejo transcender o evento e, se possível, o mês inteiro de junho e seus significados reais. Ou poderia exilar-me no país do futebol, no estado de exceção imposto pela FIFA, e crer finalmente que as medidas de gestão adotadas desde o anúncio da Copa são necessárias e até desejáveis. Afinal, como vai ficar a imagem do Brasil com turistas tropeçando em mendigos e crackeiros?

Não pega bem. Definitivamente, não. É preciso que haja outras soluções. É preciso o apoio de outras instituições para que tudo dê certo. E é preciso dar certo, mesmo que isso seja uma manchete de jornal com conteúdo também insuportável (de tão irreal). Aí estão os poderes de Estado, polícias e forças armadas para resolver o impasse e criar soluções para que se tenha um país enfim transitável, isso tanto no que se refere ao próprio trânsito quanto à segurança pública e outros incômodos ordinários e corriqueiros. O que isso traz embutido em si mesmo é melhor nem pensar muito. Melhor transcender e esquecer-se de quem está promovendo tudo isso.

Tenho alimentado nos últimos tempos, além do desejo irrefreável por transcendência, um intenso sentimento de vergonha. E de esperança, também. Esperança, no caso, de ser possível viver sem vergonha do que vem acontecendo com seres humanos de carne e osso como eu ou você, em função de um fetiche político ou de um delírio social de que o país tenha precisado em algum momento procurar mostrar ao mundo uma possível face pujante e rosada como de um bebê pronto para encarar o séc. XXI.

E pode mesmo fazer isso o Brasil, se quiser, mas não para agradar a ninguém ou fazer parecer às entidades internacionais e países com os quais mantém amigáveis relações comerciais. Perder a máscara de país em perpétuo vir a ser desenvolvimentista e assumir (talvez corrigir, quem sabe?) as próprias mazelas pode ser um bom começo. É uma oportunidade. Criada às avessas, mas ainda assim uma oportunidade. E uma esperança também. Nesse caso, eu apenas espero que não se transcenda essa esperança também, porque aí estaríamos noutro terreno, o da confirmação histórica, do destino e essas coisas desesperançadas que podemos dar, ou não, um basta final.

Qual o limite de vergonha que um cidadão pode suportar em relação ao seu próprio país? Seja como for, nada, absolutamente nada, pode ser mais indigno do que ser enxotado da própria rua. Mas essa é a proposta social que está sendo feita às pessoas que vivem na rua. É isso que estamos lhe dizendo com as bocas fechadas, olhos indiferentes e mãos impotentes, que seu lugar não é nem aí, em lugar nenhum. E que suas existências podem corroer a sociedade por dentro, mas não nossa imagem pública internacional. E, sob o argumento da proteção, o que temos a oferecer é que sumam da face da terra, que a festa da Copa não lhes pertence, como nada lhes pertence. E devemos salvaguardar os direitos daqueles que querem festejar, com exército inclusive, mesmo que à revelia dos direitos de todos os demais.

O que se pede às pessoas é que elas transcendam a situação e entendam que agora tudo é urgente e inevitável. E que vai ter Copa, sim, a qualquer custo. E que vivemos nessa democracia cautelosa e seletiva ditada mais pela economia e pelos poderes dos cartões de crédito que pela decência, essa abstração detestável. E dispendiosa.

É por essas e outras que estou providenciando as soluções para o meu dilema e recomendo que todos façam o mesmo. Vou torcer pelo Brasil e continuar a ter esperança nele, porque isso é doença inata, mas momentaneamente vou procurar transcender o real, o meu e de todos os outros que não alcanço com olhos ou as mãos, mas nem por isso renego que sejam meus concidadãos. A solução que encontrei é oriental e nobre: a transcendência. Não é bem melhor que remoção?

A chacina do bom senso

Nova chacina cometida em solo norte-americano viraliza noções erradas sobre o autismo, doença mental e homicídios.

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Na última sexta-feira (23/05), um novo episódio de violência pessoal atingiu o solo norte-americano naquilo que parece ser a continuação de um filme, exceto que não se trata de um filme, mas de uma realidade cruel que acabou com a vida de pelo menos seis pessoas, além de ter ferido outras tantas. Como todos os homicídios, uma violência abominável e, pelo menos aparentemente, absolutamente desnecessária e injustificável. O autor dos homicídios, um jovem de 22 anos chamado Elliot Rodger, é o mais novo monstro da América, que parece reciclar de tempos em tempos personagens dessa realidade mais sombria que os mais sombrios filmes do seu cinema.

Elliot Rodger, o homicida, está morto também. Ele pode ter sido morto no tiroteio que trocou com a polícia de Isla Vista, Califórnia, ou pode ter tirado a própria vida. Seu gesto, serial, repete o de outros homicidas, tais como James Eagan Holmes que, em 2012, executou 12 pessoas em uma exibição do filme Batman: o cavaleiro das trevas em Denver, Colorado (ver aqui) ou com o personagem Kevin, do livro e filme Vamos falar sobre Kevin?, baseado em dezenas de relatos semelhantes estudados pela escritora Lionel Shriver.

Algo mais que a evidente tragédia e semelhantes coincidências acaba por remeter um crime ao outro. No caso de Elliot, a hipótese de uma forma de autismo, a síndrome de Asperger, estar por trás do gesto foi apresentada pelo advogado da família, Alan Schifman (ver aqui). Não é a primeira vez que a associação é feita nem que se debita ao diagnóstico a causa direta de comportamentos homicidas.

Em 2012 ainda, em outra chacina – desta vez em Newtown, Connecticut – quando, em uma escola, 26 pessoas foram mortas, os temas também estiveram muito próximos. Muitas pessoas opinaram, entre jornalistas, especialistas e familiares de pessoas com autismo. Isso aconteceu, no Brasil, especialmente depois que uma psicóloga declarou ao vivo, no programa Domingão do Faustão, da Rede Globo, que o comportamento poderia ser explicado pelo diagnóstico. À época, familiares e entidades de pessoas com autismo expuseram sua contrariedade com os argumentos apresentados, na tentativa de refutar a associação que se estabelecia. Nas redes sociais, o assunto dominou inúmeras discussões e os próprios meios de comunicação jogaram luz ao que as pessoas diretamente envolvidas estavam discutindo a respeito.

É muito provável que, a respeito da nova ocorrência, o mesmo volte a acontecer. A torrente de opiniões é incontrolável e, dentre a torrente, é cada vez mais impreciso distinguir quem tem um pouco de razão e quem já perdeu totalmente o bom senso. Visualizar o que familiares e as próprias pessoas com autismo estão relatando é um passo fundamental no sentido de evitar conclusões e generalizações apressadas e sem nenhum sentido. Os especialistas podem e devem colaborar, mas tomá-los exclusivamente é um risco considerável, já que em muitos casos sua perspectiva é apenas patologizante, não veem a pessoa por trás do indivíduo e o sujeito tomado apressadamente pelo rótulo, em explicações que não se aventuram a entender o evento além do seu causador, confinando as causas à imprecisão que ronda tanto o autismo quanto as doenças mentais, isso ainda hoje.

Some-se a isso o fato de que o assassino foi apresentado pela própria família desta forma, talvez na esperança de atenuar ou justificar a violência cometida. Mas um diagnóstico não comete crimes, quem os comete são as pessoas. A tese de que existam assassinos ou psicopatas inatos é antiga, remonta às teorias lombrosianas e aos precursores do criminalismo. Entretanto, ainda hoje são objetos de polêmica. No caso de James Eagan Holmes, em Aurora, acontecera o mesmo e, como o autor do crime permanece vivo, pleiteou-se a apresentação do diagnóstico de doença mental como atenuante, como uma espécie de álibi. Neste caso, a situação é um pouco distinta, mas não talvez o que se procura ao vincular-se um comportamento criminoso a causas psicológicas.

A confusão mais simples que é feita, nesses casos, é entre o que seja autismo e o que seja doença mental. Postular uma hierarquia de gravidade e periculosidade, mesmo na opinião de familiares, é um tipo de crueldade que as pessoas não parecem importar-se em cometer. Não se trata de que o autismo possa ser menos grave que a esquizofrenia (ou vice-versa) ou que um dos diagnósticos seja causa de comportamentos violentos e o outro não, o fato é que um não deveria ser o bode expiatório do outro. Além disso, talvez seja necessário repetir, diagnósticos não cometem assassinatos. Quem os faz são as pessoas e mesmo autistas e esquizofrênicos são sujeitos sociais, não são essencialmente portadores de uma sintomatologia cujo comportamento pode ser tomado como previsível.

Assim como debitar as razões de crimes violentos e absurdos, como estes, diretamente a causas patológicas ou ao autismo especificamente é uma temeridade irresponsável, aventar que pessoas autistas e esquizofrênicas não possam cometer crimes é igualmente incompreensível. Podem e cometem, como todas as pessoas, mas no seu caso parece querer-se embutir uma espécie de razão iatrogênica, como se fossem pessoas fadadas a isso. Frente a argumentações dessa espécie, é preciso duvidar e investigar um pouco mais os contextos sociais e afetivos nos quais a violência explode de modo tão abissal. Isso requer mais que cuidado com as pessoas, requer consideração pela pessoa humana e, sobretudo, a consideração de que mesmo o autismo e a doença mental constituem naturalmente a experiência humana.

Por outro lado, previsível mesmo é que uma sociedade – deixemos os indivíduos e seus diagnósticos de lado por um instante – que vende armas de fogo com a mesma facilidade que se vendem brinquedos ou comida acabará por ter de encarar o resultado de acesso tão franqueado à violência, mesmo que em situações bárbaras como são as chacinas. Se não é possível evitar que eventualmente alguém tenha acesso a arsenais particulares de eliminação, então a sociedade norte-americana- talvez a planetária – esteja em um impasse ainda maior, pela necessidade de resolver uma cultura baseada em padrões de força, ocupação e beligerância permanente. A existência de uma barbárie social tampouco pode justificar crimes monstruosos como estes, mas a pior chacina que se pode fazer é contra a possibilidade de criarem-se relações humanas mais respeitosas. E isso, claro, a despeito de qualquer diagnóstico. Se há uma tendência na estigmatização de criminosos assim, não é possível recusar a violência inerente ao próprio estigma social do qual, mais ou menos diretamente, todos continuamos a dar causa.

Em Porto Alegre, se chover, não vai ter Copa

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Não sei em outros lugares do Brasil, mas em Porto Alegre, se chover, não vai ter Copa mesmo. E a culpa não recairá sobre os black blocks nem a ninguém, a não ser – talvez – São Pedro em pessoa. Ou Netuno.

É que na capital dos gaúchos, como sabem os residentes locais, 30 milímetros de água são o suficiente para inviabilizar completamente a vida urbana, a não ser que o sujeito tenha uma canoa na garagem ou, sorte das sortes, não precise sair de casa nestes dias molhados.

A tragédia sobrenatural será a mais terrível de todas, porque não haverá culpados imediatos a apontar, só sucessivos. São as sucessivas administrações da capital, que priorizaram o marketing político em detrimento do interesse público e de investimentos reais em mobilidade urbana decente (como parece ser o destino mais comum da política) que devem ser lembradas nesse momento inglório que pode acontecer ou não, dependendo tudo única e exclusivamente da sorte e de desconhecidos desígnios divinos.

Estou lendo, apenas por curiosidade, a previsão do tempo e a situação é tão imprecisa quanto as previsões que chegam o tempo todo pelo rádio (elas dificilmente acertam o que vai acontecer na próxima hora). A questão é relaxar e torcer para que tudo dê certo. Cada um para a sua torcida, é claro. Se eu fosse um “gestor da coisa pública”, estaria imediatamente convocando as forças do além para levar as nuvens de chuva para bem longe daqui.

Também não se deve desperdiçar a oportunidade de assimilar alguma coisa através da vergonha local, que dizem ser o primeiro sentimento patriótico da pessoa. Já imagino como isso aconteceria. Eu – ou qualquer um – ligaria a TV para assistir a mobilização pré-jogo entre Argentina e sei lá quem e o repórter, vestindo uma capa de chuva, anunciaria que o transporte terrestre até o Beira-Rio se encontra interrompido e o craque Messi, por exemplo, ficará preso por pelo menos duas horas no trânsito de Porto Alegre, como acontece quando chove aos seres humanos mortais. O mundo terá olhado para a capital dos gaúchos e pensará em que fim de mundo isso poderia acontecer.

É por isso que dizem por aqui que nem toda a fama é bem vinda. E com razão.

Como dourar a pauta da Copa

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Finalmente os meios de comunicação, movidos pela publicidade e pelas forças cronológicas, parecem ter acordado para o fato de que uma coisa chamada Copa do Mundo de futebol está para acontecer dia desses em solo nacional. De uma hora para outra, ou do nada, se assim preferirem, o assunto começou a aparecer furtivamente em jornais, telejornais, sites, etc. Antes parecia que não se queria acreditar que, passados sete anos desde seu anúncio, isso pudesse mesmo acontecer. Acontecer assim, quero dizer, realmente.

Enquanto projeto nacional, a Copa é um naufrágio que se viu desde a partida, mas que não foi muito fotografado ou televisionado. Analisar o que houve desde seu anúncio oficial até o momento presente é desnecessário, por enquanto. Tudo isso foi visto. Ou melhor, não foi visto. Talvez exatamente por isso não houve reportagens muito extensivas nem pessoas dedicadas a examinar e debater em profundidade o evento, que se aproxima inexoravelmente. Trata-se de complacência da mídia e formadores de opinião? Questões de patrocínio, talvez? É possível que sim, mas será que vale examinar as causas disso? É possível que não, e talvez seja mesmo melhor acreditar que assim seja preferível.

Apesar de não ter sido o objeto imediato (alguém sabe qual foi?) dos intensos protestos deflagrados no inverno passado, a Copa esteve no centro de muitas manifestações, cartazes pintados a mão e, por que não dizer?, na boca do povo. Fato sabido é que o que o povo diz não repercute muito. À exceção das redes sociais, que são redutos de pessoas conhecidas, o clamor parece enclausurado. Talvez nelas também.

Assim, o assunto foi direcionado a outros atores, FIFA, personalidades, etc. À seleção mesmo, muito pouco. É difícil encontrar quem saiba de cor até mesmo a escalação e elenco da verde-amarela. Não fosse a imponência pessoal e imagética do técnico, muito vista na publicidade, e de craques imprecisos, também muito vistos na publicidade, quase não se pode perceber a qualidade desportiva do grupo, que às vésperas do início da competição ainda parece uma improvisação imprevisível.

Depois de sete anos, entretanto, uma solução pode ser antevista. O jornalismo, e não exclusivamente o esportivo, tem a oportunidade de dourar a pílula da Copa, reduzindo o impacto emocional de um possível desastre. Épico, caso fosse considerado que o tal futebol é a paixão nacional e patrimônio da humanidade. Mas nem para um assunto tão sensível ao próprio povo a sociedade e autoridades pareceram dar importância (para onde estão olhando, afinal? As telas dos computadores e pesquisas eleitorais?). Mas pode o jornalismo, efetivamente, evitar a realidade, como se ela dependesse dele? Não será um esforço em vão socorrer uma sociedade insatisfeita com doses fragmentadas de esperança? Enfim, há muitas conjecturas a fazer, tanto quanto pontos de vista.

Para aqueles que, por outro lado, procuram reorganizar as características geopolíticas do país sede do evento antes de aventurar-se a emitir opiniões ou cumprir burocráticos roteiros de pauta, o escritor Luiz Ruffato, no El Pais, vem prestando grande auxílio. Ao elencar em duas partes o que os turistas encontrarão, porque muito do que encontrariam não encontrarão em razão do tempo exíguo e outros imprevistos, ele talvez não perceba que sua ajuda pode também, como se diz?, fazer cair a ficha entre nós mesmos, sem considerar os turistas, de que o país do futebol finalmente está conseguindo libertar-se do estigma ao oferecer ao mundo um exemplar formidável de autodescaso. Talvez, embora isso seja vendido de modo diferente no exterior, nós mesmos (povo) já o saibamos. Resta saber se é o jornalismo ou quem que irá nos alcançar a toalha, porque se o rei não está nu ainda (o que ele venderá assim?), o seu país está.

Professores exclusivos e educação inclusiva. É possível a combinação?

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Apesar de que a educação inclusiva balize há alguns anos já a política nacional de educação especial e a própria legislação preveja, através da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, o desenvolvimento de sistemas educacionais inclusivos, ainda há muita discrepância entre ideia e prática. E também de uma realidade para a outra.

A educação inclusiva, embora parta de uma construção teórica, não pode sustentar-se absolutamente como ideia. É preciso que ela ganhe formato, práticas e condutas. No cenário pedagógico brasileiro, ganha força a ideia de que o aluno com deficiência deve ser assistido individualmente, oferecendo-se “proteção” em detrimento de oportunidades de desenvolvimento de sua autonomia, talvez sem que se perceba que a conduta pode estimular um efeito indesejado, o do isolamento. Famílias têm recorrido ao poder judiciário exigindo a presença do “professor exclusivo” e, de sua parte, o judiciário tem acatado esse tipo de demanda, conforme foi noticiado no portal UOL Educação recentemente.

O caso da reportagem, entretanto, é apenas um entre tantos. Não há estimativas oficiais, mas este é um número que não para de crescer, principalmente entre escolas particulares.

Esta seria uma das formas encontradas para que os sistemas educacionais pudessem, supostamente, suportar a ideia da educação inclusiva no interior de seus muros. E também seria forma de aplacar a ansiedade das famílias, pois a presença de um professor exclusivo representaria, ao menos em tese, um fator de segurança. A questão é entender por que o ambiente escolar e os próprios contextos educacionais não podem por si só oferecer essa segurança. Então, nesse ponto, talvez seja possível começar a responder aquela pergunta inicial, sobre os reais beneficiários da prática.

Diretamente, através do recurso (muitas vezes cobrado ilegalmente das famílias), a escola esquiva-se de criar condições realmente inclusivas, porque a inclusão não é uma ideia, mas uma prática. Ninguém estuda e convive numa ideia, mas apenas numa relação de transferência social. Essa perspectiva, entretanto, parece ainda muito distante da realidade. Dessa forma, desconsidera-se o fato de que outros alunos, sem deficiência, também têm dificuldades que (por que não?) mereceriam o mesmo tratamento. Mas o traço distintivo da deficiência é ainda poderoso e é bem mais confortável isolar e identificar “um” problema que tratar de contextos sociais.

Mas quem, afinal, corre perigo com a presença de um aluno com deficiência no ambiente escolar? A resposta pode ser multivariada, e com certeza haverá opiniões discordantes nesse sentido, mas parece claro que a situação expõe uma grande fragilidade, tanto dos sistemas educacionais como do de garantias legais, em compreender e assimilar que a deficiência não deve nem pode ser resolvida no indivíduo, mas apenas pelo encontro de interesses em promover-se ambientes sociais favoráveis ao aprendizado e convívio entre todos.

No clinch, com Eliane Brum

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Há livros que jamais deveriam ser resenhados, principalmente aqueles que tratam da subjetividade de seus autores. Além de não existir forma possível ou tamanha de abordar a subjetividade de quem quer que seja, há livros que parecem ser exclusivos para a leitura. Deveriam ser apenas lidos e os leitores deveriam dar-se por satisfeitos em apenas receber o seu conteúdo, seja ele um afago ou um cruzado no queixo. E abster-se de comentá-lo, pelo menos tanto quanto possa. Poucas horas depois de conhecer o novo livro de Eliane Brum, Meus desacontecimentos – a história da minha vida com as palavras, entretanto, já me sabia traído em minhas próprias ressalvas e crenças.

Imagine por um instante que você é um fã de boxe e lhe oferecessem a oportunidade de encarar os golpes de um Mike Tyson ou um Muhammad Ali, por exemplo. Qual atitude tomar? Fintar? Esgueirar-se? Tremer de medo? Fugir? Bem, se o exemplo fosse transposto ao papel de um leitor diante de um livro, meu desejo seria o de justamente procurar receber, na carne, os melhores golpes possíveis. Nada menos que isso. Mesmo que isso acontecesse inadvertidamente ou, melhor, principalmente nesses casos.

Se a leitura jornalística é muitas vezes indolor, sem falar de quando é apenas insípida, a literatura – especialmente a de cunho biográfico e subjetivo – tem outra característica. Conheço poucos escritores de quem nunca li um texto insípido e Eliane Brum é uma dessas pessoas. Não sei se conscientemente ela procurou afastar-se dessa qualidade de texto, mas minha intuição diz que o logrou apenas por não ter evitado a dor e por ter sabido reconhecê-la nas situações mais periclitantes – de quem se despoja realmente para conhecer a vida dos outros – e também nas mais comezinhas, de quem se aproxima o suficiente das pessoas para distinguir a beleza da mera tolice.

Desde o lançamento de seu primeiro romance, Uma duas, venho dizendo que Eliane é um autora boxeur, cuja perícia reside principalmente em jamais fustigar o leitor, mas em levá-lo de forma imperceptível ao colapso do reconhecimento. De posse desta informação e de minha teoria particular, julguei que seria simples encarar seu novo livro. Depois de anos acompanhando sua trajetória, da Zero Hora ao El País, parecia que poderia antever, num lance de olhos, seus movimentos, o jogo de pés, a velocidade dos jabs e o momento assombroso (e por que não desejado?) do knock-out. Uns dirão que isso beira o masoquismo ou a veneração, mas não é nem uma coisa nem outra. É que não se pode esperar de um dragão que se comporte como um camelo. Ou um golfinho. Um dragão “é” o dragão e a expectativa pelo fogo que adormece dentro de sua garganta será sempre mais poderosa que as chamas e labaredas expostas a público.

Pelo menos de forma aparente, um boxeur tem sempre sua estratégia, suas armas e golpes fatais. Até que os coloque em prática, entretanto, é como se estivesse em cena pela primeira e última vez. Muitos deles procuram revisar ensaios ou praticar ao espelho. Ou aos sacos de areia, até. No caso dos escritores, é preciso também fazer opções e Eliane não se furtou a fazê-las, mesmo tendo diante de si uma ameaça do seu mesmo porte. Sua opção, em Meus desacontecimentos, foi por encarar a si própria, colocando a subjetividade nas luvas e usando os punhos com o mesmo empenho que encarasse o mundo externo. Ao reencontrar-se com o passado, o que Eliane permite é que se veja mais do que comumente se vê nas pessoas. Aos poucos se pode reconhecer o estilo, os movimentos, os olhos por trás das mãos e, com a luta suspensa, já sem as luvas, as próprias mãos. Os cruzados não devem demorar, nem os ganchos, mas eles acontecem em direções insólitas e, ao invés de atingir a alvos específicos, distendem um conhecimento que se dirige cada vez mais para dentro.

Sabendo de tudo isso, abri o livro. E não fechei até terminá-lo. O que encontro é mais ou menos como o visto mais cedo, na sessão de autógrafos. São pessoas estranhas a mim, lembranças muito remotas e particulares, algumas imagens fugazes de lugares do passado e a boxeur ali, em um dos cantos do quadrado. Dentro e fora do livro, a luta não começa, desacontece. Alguns leitores, quero dizer, pessoas da plateia, dizem que viram-na ensaiando golpes no ar, como se contra um adversário imaginário. Por um instante temo por sua integridade, adversários imaginários são imprevisíveis. Mil vezes encarar um Mike Tyson, claro, de preferência se aposentado…

Mas a noite é de autógrafos, não de sacrifícios. Eliane não está na lona, muito menos submersa nela. Pelo contrário, aparece livre de qualquer coisa que lembre artefatos de luta. Nem imagino em que ringues e sobre o que ela deitará as mãos no futuro, mas graças a Meus desacontecimentos percebo com mais nitidez o que a faz assim, como a digo, uma boxeur. É que boxeurs não esperam passar ilesos pela vida nem conhecê-la de raspão. Boxeurs não são especialistas da sobrevivência, mas da entrega. Enquanto não chega meu momento de pegar o autógrafo, avalio de longe sua figura e fico muito tranquilo por constatar que está inteira ali, sem exibir seus hematomas como troféus, mas nem por isso, imagino, que incólume… Feliz por vê-la sorridente encontrando seus leitores e por abraçá-los fora de um clinch.