Os lumes de Mia Couto e a voz de Herberto Helder

Unir em um mesmo texto dois poetas sem que se procure compará-los pode parecer, num golpe de vista, tarefa das mais impraticáveis. Como me situo entre aqueles que não acreditam na possibilidade ou utilidade de comparar-se a poesia de alguém com outrem, então não será necessário procurar comparações aqui. Mesmo que isto implique no risco de aproximar ou abreviar inadvertidamente a distância poética que há entre dois dos grandes poetas vivos da língua portuguesa, o português Herberto Helder e o moçambicano Mia Couto, quero insistir um instante só nessa tentativa. Tenho algumas razões para isso. Vou explicando.

A não ser pela escrita em versos e pelo uso do mesmo idioma, os nomes de Herberto e Mia Couto não costumam aparecer juntos. Sem que, contudo, sejam antípodas, o trato que têm para com a língua também não é muito semelhante (não diria o mesmo sobre o cuidado). E isso, no meu ponto de vista, é um exemplo vivo de como o idioma português abriga mais do que vernáculos específicos, mas muitas e muitas formas de dizer. A expressão poética de um e de outro são amostras sensíveis dessa diversidade muito característica: a diversidade lusófona. Coisa que, num país continental como o Brasil, poderia perceber-se simplesmente como sotaque.

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Não é sobre as características linguísticas destes dois poetas que quero falar, entretanto. Pelo menos não prioritariamente. É que 2014 já vai escorrendo pelos cantos do calendário e foi justamente neste ano que ambos os autores voltaram a publicar seus versos, sem que isso fosse quase notado no Brasil. Mas como pode uma coisa dessas?

A resposta é simples e deve ser direta, sem tergiversações. Vivemos, no Brasil, como numa ilha editorial. Submetidos a uma lista exaustiva de autores irrelevantes e meramente comerciais que frequentam e alternam-se nas listas dos mais vendidos com autores religiosos e biografias de encomenda a perder de vista, não temos tido o direito de acompanhar a edição – ao menos com alguma concomitância razoável – de escritores consagrados e reconhecidos como Mia Couto e Herberto Helder. E isso que se pode, em ambos os casos, tranquilamente poupar custos com tradutores. Mas nem assim.

Pelo menos no caso de Mia Couto e seu Vagas e Lumes, a internet e os e-books puderam resolver minha curiosidade e o desejo de conhecer seu novo livro de poemas. Seja na Editorial Caminho, de Portugal, ou na Amazon.br pode-se comprar com tranquilidade o e-book e recebê-lo no mesmo instante.

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Já A Morte Sem Mestre, de Herberto, é praticamente um livro inacessível. Programado pelo próprio autor para ter uma tiragem restrita (5.000 exemplares), não há registro de previsão de que um dia possa existir em versão digital. A ausência apenas poderia ser resolvida, portanto, através de uma editora interessada em publicar por aqui o autor de “O Poema Contínuo”. E aí, então, formula-se de forma autônoma a seguinte questão: mas alguém, neste mundo pragmático e tecnológico, ainda interessa-se por poesia? Pelo menos a não consagrada em memes de redes sociais? Ou seja, qual o retorno editorial possível em publicar um autor que parece fazer questão de esconder-se?

Difícil responder, senão impossível. Melhor nem tentar, por via das dúvidas.

Encerrada a sessão de reclamações, quero tentar comentar, enfim, um pouco sobre os livros. Nem tanto sobre os livros enquanto objetos, na verdade, mas sobre o que me impactaram e me pareceram em relação ao que vai por dentro deles, através das palavras de um e outro.

Vagas e Lumes é o terceiro livro de poemas que Mia Couto publica, embora muitas pessoas garantam que ele esconde poemas aleatoriamente entre seus livros de ficção. É uma prática questionável, principalmente para quem não gosta de encontrar poesia em narrativas. Gostando ou não, foram os seus livros de prosa que o fizeram um fenômeno de vendas no Brasil. Injustiça minha, foi sua qualidade. Se poéticos demais ou de menos, isso pouco importa. É muito bom contar com alguém como Mia Couto escrevendo originalmente em língua portuguesa, mesmo que do lado de lá do Atlântico.

Talvez de uma maneira não premeditada, a escolha do título incide precisamente em uma das impressões que fiquei do livro. Os poemas não são uniformes nem têm a mesma intensidade. Compõe-se de uma geografia e de uma humanidade visíveis nos romances que já escreveu. Apenas que, na forma poética, adquirem mais vida as impressões do romancista, aquela vista como se por olhos entreabertos, mesmo quando invadidos pela aspereza do mundo, suas paisagens e os sentimentos das criaturas e personagens desse universo peculiar que ele evoca muito nitidamente. Não ouso dizer quais os grandes momentos do livro para mim, porque não há coincidência possível nesse sentido. Que cada um os encontre, como cada um encontra a poesia onde ela se torna possível como experiência de leitura.

A Morte Sem Mestre, embora pareça um livro que não se queira lido – e constitua-se no mesmo gênero de Vagas e Lumes -, talvez seja quem queira ler e encontrar seus leitores. Que a poesia de Herberto não se pode ler impassivelmente não é uma novidade para quem já o conheceu, mas A Morte Sem Mestre o encontra desafiando a existência, como se provocando a morte a revelar-se. Mas, ao contrário de um poema que acaba, o poeta ali se desafia a continuar, mantendo-se em uma trajetória iniciada na década de 50 do século passado, chegando aos 85 anos de idade como a maior voz lírica da poesia portuguesa.

A tarefa de resenhar um livro que praticamente não existe é das mais perigosas. E se o livro for de poesia, a dificuldade apenas se amplifica. Para aqueles que não puderem encontrar mais o livro de Herberto nas livrarias (ele praticamente esgotou-se no mesmo dia do lançamento em Portugal), resta conformar-se com uma cópia (não autorizada) do CD que acompanha o livro postada no YouTube, onde Herberto, que já foi locutor de rádio, lê ele mesmo alguns dos poemas de A Morte Sem Mestre.

Apesar da minha primeira razão para unir ambos os poetas tenha sido, sim, esbravejar (admito) contra a inércia editorial que se pratica com a poesia universal por parte de um bom número das editoras brasileiras, a segunda razão consiste tão somente em mostrar que a poesia em língua portuguesa ainda conta com grandes autores vivos que merecem ser conhecidos e reconhecidos em vida. Muito embora as novas gerações de autores sobreponham-se incessantemente, isso acontece cada vez mais de uma forma quase irreconhecível e impossível de acompanhar.

A terceira e última razão é um mero apelo à lógica. Se aquelas iniciativas editoriais que buscam novas dicções deixam de perceber a aparição editorial de poetas como Mia Couto ou Herberto Helder, sem demérito algum da renovação sempre desejável, como é possível desejar que a poesia de novos autores seja valorizada e torne-se visível? Se alguém tiver a resposta para este imbricado enigma, por favor, faça a gentileza de me ajudar a entender…

O ano anunciado e o ano noticiado

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Pensar em retrospectiva pode significar tanto o risco de sobrevalorizar o indevido quanto o de supervalorizar o insignificante. Olhando para tudo o que se noticiou e para tudo o que se anunciou em 2014, será que o mais relevante foi devidamente noticiado? E, se isso não ocorreu, não terá sido por falta de anúncio?

Desde o longínquo janeiro, anunciava-se prioritariamente a Copa do Mundo e as eleições de outubro como os catalisadores da atenção pública no ano, o que se confirmou mesmo que, a despeito da precipitação de muitas previsões e análises, fossem realizadas à queima roupa. Deixava-se de perceber uma pauta oculta na imprensa: a crise de abastecimento de água, que crescia silenciosamente sob a tragédia envolvendo Eduardo Campos, o “risco” de Marina Silva vencer as eleições e os fragorosos 7×1 aplicados na mais apática de todas as seleções brasileiras de futebol de todos os tempos.

E, enquanto os anúncios e previsões esportivas e políticas naufragavam, a água escasseava no maior centro urbano do país. Noticiada sem anúncio prévio, evidenciando que o país apto a sediar um dos maiores eventos esportivos do mundo não estava apto na mesma proporção a fornecer água potável para a sua população. Pelo menos não na mesma intensidade ou com o mesmo interesse político.

Àqueles que se preocupavam com o rumor do “não vai ter Copa”, ofereceram-se céleres providências, inclusive a famigerada Lei de Segurança Nacional, além de se subsidiar com recursos públicos o que fora incialmente anunciado como investimento privado e mobilizar o aparato de Estado para combater o movimento de descontentes iniciado em junho de 2013, que parecia consistir uma ameaça aos planos da festa envolvendo a maior paixão nacional. Festa que, mesmo tímida e superestimada como fonte de receita, transcorreu sem maiores transtornos. Foi quando ficou mais uma vez claro que o poder público é seletivamente eficaz. Que é muito bom em iniciativas de controle civil, mas escasso em atender necessidades elementares pertinentes ao interesse público. Como a água, por exemplo.

E veio a Copa. E vieram os alemães. E o slogan do ônibus que transportava a seleção, “Preparem-se, o hexa está chegando!”, revelou-se apenas uma reedição de um delírio megalomaníaco que acomete regularmente tanto a seleção quanto outros setores da sociedade. Com o fim da expectativa pelo hexa frustrado, as eleições rapidamente tomaram conta da atenção nacional.

Após a trágica morte de Eduardo Campos e a ascensão da candidatura de Marina Silva, ninguém mais sabia o que predizer sobre o pleito. Antecipando-se a qualquer possibilidade, iniciou-se a campanha. A primeira na qual as redes sociais mostrariam efetivamente seu poder de fogo. E ele veio com tudo, de todos os lados. Delegou-se ainda mais às pessoas individualmente a tarefa do convencimento, com o suporte de iniciativas de informação talhadas para o enfrentamento político. E fez-se a guerra. E dela, os vencedores, como é muito bem sabido.

Nesse transcorrer, a crise da água em São Paulo agravando-se cada vez mais, parecendo um mero problema local de estiagem, logo revelado como efeito de uma política ambiental equivocada, em um ano que, com muito anúncio mas pouca notícia, o Brasil bateu recordes impressionantes de desmatamento na Amazônia, de onde principia a evaporação que regularmente rega com chuvas boa parte do território brasileiro.

Que a Amazônia se encontra praticamente em uma região alienígena do país já não há maiores dúvidas. Mas a atenção negligente do jornalismo para o que lá acontece favorece a desatenção política e o pouquíssimo engajamento público com o tema. À população que lá vive, ribeirinhos e indígenas, resta virar-se com o que lhes está disponível. Tem sido pouco para a própria sobrevivência, para ter de conviver com os efeitos do desmatamento, frear a violência em torno da posse da terra e dos megaprojetos energéticos governamentais, envoltos na neblina da irregularidade, a mesma que parece ser, às vezes, a única atmosfera possível quando se trata das relações entre o poder público e as empresas que “constroem” o Brasil, as bem conhecidas empreiteiras.

Mais noticiada que a questão ambiental, mas talvez não tanto quanto os graves “problemas” da seleção de futebol, a questão econômica também foi vítima das fatalidades jamais anunciadas, como a perspectiva da estagnação do PIB e outras “fatalidades”. A própria Copa do Mundo, tida previamente como solução econômica, resultou em grandes prejuízos, segundo o próprio Ministério da Fazenda. Nas cidades-sede, suas obras, licitadas e empreitadas, encontram-se em sua maioria a meio caminho e talvez não saiam disso. As pessoas removidas para que elas fossem iniciadas, entretanto, não ficaram no mesmo meio caminho. Foram mais longe em direção às periferias, distantes dos torcedores estrangeiros e, muitas vezes, do jornalismo fotográfico também.

O cenário completa-se com os dados da economia, nem um pouco animadores no fim do ano, quando se pensa claramente em um cenário de recessão econômica, ajuste fiscal severo e um prazo indeterminado de cinto apertado. Depois de sucessivos anos de estímulo ao consumo e de gerações de pessoas acostumadas a usar o crédito para adquirir bens de consumo pouco duráveis, é de pensar em como elas se comportarão diante da previsível obsolescência programada, do crédito já empenhado e da frustração do impedimento econômico ao consumo.

Essa também é uma perspectiva que poderia muito bem ser considerada uma pauta oculta, não fosse já verificada nos números das vendas deste Natal. Mas as festas de fim de ano aí estão. O certo talvez seja deixá-las passar – aproveitando-as na medida do possível – para aí, então, conferir o saldo final da conta de 2014 e então projetar 2015.

Que uns brindem com a champanhe que nunca lhes faltou. Muitos outros só esperam que não lhes falte apenas água e outros ainda que se mantenha o direito de nela banhar-se. Parece enigmático? É que aqui também há uma última pauta oculta, talvez a mais invisível de todas: os povos indígenas, que lutam impavidamente por continuar a viver no Xingu, no Tapajós e pela demarcação territorial em todo o país. Talvez, se a realidade for noticiada em tempo hábil, a possibilidade de tragédias já anunciadas e para lá de previsíveis, como o morticínio de pessoas, sejam evitadas a tempo, resultando em um ano novo, aí sim, com as muito bem vindas boas notícias.

Aquele sorriso torto

taxi

“Esse seu é calminho, hein? O nosso, quando tinha esse tamanho, dava medo.”

E assim começamos a conversar. No trânsito. Infernal, como todo e qualquer trânsito. Para ir ao centro de Porto Alegre há muito tempo desisti de ir dirigindo. O caos é tamanho que terceirizar o stress é uma medida necessária. Isso significa ir de transporte coletivo ou tomar um táxi.

Levei um susto porque demorei um pouquinho a entender o assunto da conversa. Com meu filho sentado ao meu lado, logo percebi que o assunto era ele. Não, não era ele. Era o irmão dele. Do taxista. Um “downzinho” como o “meu”.

Para quem não está familiarizado com o termo, “downzinho” é o coletivo/genérico empregado às crianças que nasceram com a síndrome de Down, principalmente entre familiares e pessoas próximas. Eu até confesso que mantive por muito tempo relutância em usar o termo. Mas, diante de outros usados mais ou menos abertamente e claramente depreciativos (ver lista ao final*), “downzinho” hoje eu considero carinhoso. Não me incomodo mais. Verdade que não.

Unido de repente a essa grande família sindrômica, despertei do choque inicial da conversa e aproveitei para indagar ao taxista sobre o downzinho “deles”. É uma curiosidade sem medida essa, como bem sabem todos os pais e mães. Porque mal tive tempo de perguntar seu nome, não vou usar nenhum nome aqui e tentar dissipar qualquer referência concreta o quanto antes. Essa é uma história real e não desejo nem por um instante expor a ninguém. Então pensei em pedir que ele contasse mais sobre o irmão, mas nem precisou. E ele então prosseguiu.

O downzinho “deles”, segundo me contou, era incontrolável. Mordia os colegas. Era medicado para conseguir dormir algumas poucas horas por noite. Foi expulso das escolas onde tentaram mantê-lo, quase sempre em virtude do comportamento agressivo. Mesmo na APAE foi difícil mantê-lo na infância.  Ele era considerado “ineducável”. Disseram-lhes que era autista também. Ou esquizofrênico. A jornada médica foi terrível, por anos a fio. A família gastou o que não tinha para procurar tratamentos. Mudaram do interior para a capital para tentar recomeçar a vida, levando pouco mais que a mala podia portar. Mas foi então que as coisas começaram a mudar, no mais improvável cenário que se pode imaginar.

Estamos quase chegando ao nosso destino. Estou levando meu filho ao oftalmologista, para revisar o grau dos óculos e pegar receita para fazer nova armação. É a terceira do ano. As outras duas foram perdidas. E sob muita reclamação. O taxista parou o carro e continuou contando. Não me atrevi a insinuar que era hora de descer, que estávamos quase atrasados. Seria verdade, se o dissesse. Mas queria ouvi-lo mais. E ele, por sua vez, queria falar mais também.

O “nosso downzinho”, disse ele, “teve de começar a trabalhar comigo. Vendíamos flores nos cruzamentos. Às vezes na rodoviária. Nos parques da cidade. Ele era um grande vendedor de flores. Bastava abrir o sorriso ‘meio torto’ que as mulheres, principalmente, se derretiam. E alguns homens também. Se houvesse um prêmio de vendedor de flores, ele mereceria um troféu, de tantas que vendeu.” Isso durou dois anos e esse dinheiro fez com que a família pudesse se estabelecer. Alugaram uma casa melhor e, embora ele não quisesse sair das ruas, voltou a estudar. A mãe não aguentava mais sofrer em saber que ele andava por aí, mesmo que sob a proteção do irmão. Não havia onde mais acender velas na casa. Isso que era uma casa de três cômodos.

“Na APAE de novo?”, eu perguntei.

Não foi na APAE, mas em outra escola especial, que o aceitou apesar da idade já mais avançada. Perguntei em que ano foi isso e ele falou que foi no começo dos anos noventa, mais ou menos na época do impeachment do presidente Collor. Calculei rápido e concluí que hoje ele deveria estar por volta dos quarenta anos.

“E a agressividade aquela, onde foi parar?”, precisei perguntar.

“Logo depois que começou a sair comigo, melhorou muito.” O que ele precisava era cansar, segundo o irmão. E conversar, mesmo que daquele jeito embaralhado. E andar mais solto. Quando voltou à escola, a mãe acompanhava ele todos os dias, mas logo não foi mais preciso. Começou a ter aulas de judô. E começou a tomar banho sozinho. A cuidar mais de si mesmo. Ele estava é apaixonado, mas não contava nada. E dali em diante não teve mais um dia na vida em que não estivesse “enrabichado” com alguém. A mãe e o pai não se intrometiam. E assim foi que ele voltou a trabalhar e nunca mais pareceu aquele capeta.

“E hoje, como ele está?”, foi quase minha última pergunta. A consulta estava atrasando de verdade agora.

Muito melhor que eu, ele foi dizendo. Trabalha numa farmácia e namora a farmacêutica, que é dona da farmácia. “Sério?”, pergunto. “Claro, aquilo é um safado de marca maior”. E então ele riu bastante. E eu também. “Mas ela não é down, claro que não”, ele disse. “E como foi que ele conquistou a moça?”, perguntei já conferindo o troco. Ele demorou um pouco antes de responder, em meio a um tipo de suspiro, talvez..

“Eu acho que foi aquele sorriso torto..”

Então o tempo fechou e choveu muito, embora nossas roupas na rua, depois, continuassem secas e enxutas.. Não consegui perguntar mais nada. Fomos saindo. Eu e o meu filho. Ele, o taxista, também não olhou mais pelo retrovisor, mas teve tempo de desejar boa sorte. E disse para carregar na dose de paciência. E que, no fim, valia a pena. Que tudo iria dar certo.

Só me arrependo mesmo de não ter ficado com o endereço da farmácia para um dia desses ir lá conhecer o “ineducável”. É que educar dá trabalho mesmo, mas compensa.

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* Lista de outros nomes por que são denominadas as pessoas com síndrome de Down:

Quer saber?
Não vai ter lista não.
Coisa mais chata ficar remoendo assunto enjoado desses.
Pode chamar pelo nome, se você conhece a pessoa.
E de downzinho também, que ninguém vai se ofender.

Bom não era no meu tempo (ou como tirar o cavalinho da chuva)

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Se tem uma coisa que me incomoda profundamente em pessoas que passaram para a vida adulta é o egoísmo. O egoísmo não relacionado às coisas materiais, bens e etc (se bem que esse existe também e é igualmente incômodo…). Falo do egoísmo da experiência. Da auto-referência. Da mesquinharia peculiar que habita o interior de cada um.

O suprassumo desse egoísmo é aquela clássica frase que precede comparações quase sempre inadequadas e impositivas: “no meu tempo…”…

Bom, antes de mais nada, a não ser que a criatura já tenha partido dessa para a melhor, o seu tempo é o tempo presente e, até onde sei, ninguém declara entre seus bens, no imposto de renda, o tempo passado. O tempo passado é propriedade única do passado, a quem a memória acessa com recursos muito seletivos. Normalmente em benefício próprio, diga-se de passagem.

Acho que isso acontece porque precisamos nos convencer de quando em quando na vida que ela não é meramente um intervalo de tempo passado em vão. Nada mais justo. Excelente razão para a existência de um disco rígido na cabeça da gente.

A memória, talvez mais que amparar a escolhas futuras, serve para oferecer uma perspectiva de quem somos hoje, nos erguendo pelos calcanhares em direção ao que há pela frente, através das lentes que obtivemos ao longo da vida, além das que eliminamos.

Quando eu leio/ouço pais e mães falando/escrevendo a tal frase “no meu tempo era melhor, diferente, ou outro qualificativo qualquer do gênero” uma onda de tristeza invade meu espírito. E não fico triste pela frase em si mesma ou pela melancolia inerente a quem a desfere, mas pelo pessimismo subjacente a ideia toda.

Porque dizer isso é exatamente o mesmo que dizer “isso que você vive, meu filho, é muito ruim, vale menos, é pior do que tudo o que eu vivi”. Ou na variante futura, significa dizer que não vale sequer ter esperança no futuro, porque “no meu tempo” sempre será melhor. Tire seu cavalinho da chuva. Existe algo mais cruel para se dizer a uma criança ou adolescente? Por que grande parte dos adultos, afinal, não se abstém de condenar seus filhos a uma vida mais infeliz e com menos valor do que as suas próprias? Será que isso parece legal a alguém? Não posso crer.

(…)

Hoje acordei com a notícia de que o ator Roberto Bolaños, o Chaves/Chapolin faleceu. Triste notícia. Embora nunca tenha assistido com atenção, sei que era amado por um humor muito específico. O personagem cômico da minha infância é o Didi, dos Trapalhões. O do meu pai e da minha mãe, octogenários, era o Oscarito. Carlitos também, além de “O Gordo e o Magro” e  “Os Três Patetas”. E meus avós, que viveram o começo da república brasileira, deviam ter algum ídolo do rádio, talvez. Mas acho que não. No interior do Brasil, naquela época, o lazer era feito interpessoalmente. E os circos duravam muito nas suas viagens, isso quando eles chegavam nos ermos geográficos da nação. Estou pensando na década de 20, do séc. XX, mais ou menos. Não sei do que eles riam, embora não tenha dúvida de que o fizessem.

Acho que Bolaños não gostaria de receber muitas das homenagens que estão recheando as mídias hoje.  De que o mundo não será igual sem ele. Que humor bom era o do Chaves ou do Chapolin. Alguém que faz humor é porque não consegue guardar só para si a graça que sente. Precisa compartilhá-la. O humor é a atividade anti-egoísta por excelência.

De tudo, não sei quem serão os próximos responsáveis por esse humor ingênuo que encanta tanto crianças e adultos. Sei que haverá. Mas nem o Chapolin Colorado nem Didi Mocó nem Carlitos será melhor que eles. Serão sua continuidade, apenas. Como os filhos são de nós. Com direito, inclusive, a pensar que sua experiência (a mais trivial e a mais relevante) é inédita. E é. Não vamos massacrá-los com o nosso passado, por favor. Vá tirando seu cavalhinho da chuva.

O e-book de areia

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Ao contrário da maioria dos grandes autores da ficção científica, minhas distopias têm curtíssimo alcance. Quase nunca sequer extrapolam as fronteiras do pensamento fantasioso. Não tenho imaginação suficiente ou conhecimento eletromecânico para engendrar parafernálias esdrúxulas ou conceber formas inomináveis de vida. Minhas distopias comumente são rasas e seu horizonte é breve. Na melhor das hipóteses, alguns anos. Na pior, alguns meses ou até mesmo semanas. Na verdade, mal posso imaginar o que possa acontecer amanhã na rua onde moro, que dirá na imensidão cósmica no próximo século ou milênio.

O certo é que amanhã deverá ser um dia mais ou menos como hoje. Até onde sei, não há previsão de nem um salto tecnológico em vista ou de descobertas científicas que se processem em 24 horas ou menos. Por isso, é com alguma segurança que se pode afirmar que o que hoje vigora no mundo real amanhã e na próxima semana continuará a vigorar. No caso específico do livro impresso em papel, há pelo menos 500 anos de garantia e certificação no produto, ao passo que, em relação à alternativa digital, nem mesmo os maiores especuladores futuristas podem imaginar ou prever sua durabilidade. Antecipando-se a eles, o mercado editorial livreiro – estimulado sobretudo pela disseminação massiva de dispositivos digitais portáteis – vem ensaiando alguns passos em direção ao que muitos dizem ser o futuro inadiável, inexorável, incontrolável, etc.

Para confundir ainda mais o cenário, um dos principais interessados no assunto, o semiólogo e escritor Umberto Eco, que publicou em 2000 junto ao cineasta Jean-Claude Carrière o sugestivo livro de entrevistas “Não contem com o fim do livro” veio, cerca de dez anos depois, desdizer-se publicamente em entrevista concedida à revista Época. Mesmo não tendo dito que agora se deveria contar, pelo contrário, com o fim do livro, ele relata ter cedido à leitura – e achou ótimo fazê-la – na tela do seu iPad. Mas alertou que esse seria apenas um tipo de leitura de distração, não de estudo. E que, para este último efeito, isso requeriria obrigatoriamente a possibilidade de rabiscar, negritar e grafar diretamente no papel. Bem, desde essa entrevista, é possível que Eco tenha mudado novamente de opinião. Talvez um novo livro venha por aí para explicar suas razões e preferências atuais. Nesse caso, partindo de sua própria concepção, um e-book seria o suficiente, porque este seria então apenas um segundo livro de distrações sobre o assunto.

Outro argumento de que os futurólogos costumam valer-se diz respeito aos números de vendas e estatísticas comerciais, como se fossem indicadores de outras coisas que não números de vendas e estatísticas comerciais. É claro que os aumentos irrisórios de vendas verificados nas principais feiras de livros mundo afora não desfazem dos benefícios inerentes ao livro digital: a portabilidade, a economia de espaço, a imunidade ao cupim e outros insetos, além da presumivelmente mais interessante entre todas: a velocidade de remessa e entrega. Nada que um bom blecaute nesses tempos de crise energética ou um escorregão acidental na tecla DEL, por exemplo, não possa sobrepujar com folgas. Assim, as crescentes iniciativas comerciais de publicação de livros digitais vem crescendo às vezes em ritmo acelerado e às vezes em passos de tartaruga. E isso acontece sobretudo porque as editoras têm grandes cautelas em relação ao descontrole de proliferação de cópias não autorizadas, a bem conhecida pirataria.

Em tempos tão remotos quanto o da invenção dos tipos móveis, sabe-se que mesmo as bíblias de Gutenberg teriam sido objeto de cópias, digamos assim, alternativas. Antes de que a imprensa e a tipografia pudessem multiplicar em ritmo industrial as primeiras brochuras, outro tipo de instituição já havia sido responsabilizada pelo crime de compartilhar o conhecimento escrito. Sim, não foi sem a desconfiança das sociedades científicas, universidades e autores que as primeiras bibliotecas públicas do ocidente, num modus operandi ainda vigente, passaram a cumprir, entre outros, o objetivo de multiplicar o número de olhos que um mesmo livro poderia receber. No livro de Matthew Battles, A Conturbada História das Bibliotecas, é possível conhecer muitas e inimagináveis histórias de desastres, crimes e atrocidades que ocorreram nestes ambientes recheados de ácaro, pó e silêncio – este que dizem ser o companheiro inseparável da boa leitura.

Forma preferencial para deter através dos meios tecnológicos a pirataria editorial, o uso crescente dos digital rights managements, ou simplesmente DRM (atributos de controle que acompanham e estabelecem limites e permissões de uso para arquivos digitais), tem se prestado também para o estabelecimento de situações insólitas. Isto é devido principalmente às possibilidade de conexão dos dispositivos digitais e ao controle on-line do conteúdo transferido. Se até aqui a obtenção de um livro competia obrigatoriamente em sua propriedade, essa relação já não é mais assegurada. O que um consumidor obtém atualmente de um fornecedor de e-books é uma concessão de uso a qual pode ser alterada unilateralmente. Foi o que aconteceu com a maior loja de e-books do mundo, a Amazon.com, acusada de simplesmente excluir das coleções de consumidores títulos de seus próprios dispositivos, através de operações remotas. Em alguns dos casos noticiados, isso teria acontecido para possíveis correções editoriais ou problemas contratuais com os autores ocorridos após a comercialização. Seja como for, é uma possibilidade impensável para livros impressos, mesmo que recalls de brochuras já tenham acontecido.

Desde que a discussão predominante em torno do tema tem sido o prazo de tempo para a extinção final do suporte impresso, as discussões não avançam muito além de clarividências sistematicamente ignoradas pela realidade. Se o livro impresso deveria ter acabado no começo de 2013 ou irá agonizar até o fim da década presente para dar lugar a outro suporte, essa é uma informação das mais irrelevantes. Talvez interessasse mais perceber o comportamento das editoras comerciais em relação ao e-book, repleto de implicações e restrições, chegando muitas vezes a inviabilizar operações elementares dos textos digitais. A possibilidade de transcrever um texto para outro, o bem conhecido “copiar e colar”, por exemplo, para algumas editoras é uma prerrogativa impensável a entregar ao leitor e consumidor, suposto – até prova em contrário – pirata e contraventor em potencial.

Além das questões das restrições de transferência há impasses importantes que se travam principalmente entre bibliotecas e editoras. É claro que, por tratar-se de produtos comerciais, as editoras não podem ver-se obrigadas a migrar seu negócio para a caridade de uma hora para a outra. Porém, é evidente que seus processos produtivos e comerciais são reduzidos com a comercialização de livros digitais. Continua um mistério compreender-se porque isso via de regra representa para o consumidor final não mais que uma economia de 10% no preço final.

Para muitos autores, críticos e opiniáticos de toda a espécie o antípoda potencial do livro impresso, e talvez de qualquer livro, seria a própria internet. Não foi senão o prolífico Philip Roth que anunciou em entrevista que o livro em papel teria seus dias contados, assim como o romance como o conhecemos hoje e toda a cultura literária. Tudo de uma vez só, assim, como num bofetão. Interessante que, na mesma entrevista, ele declara também que não consegue imaginar ele próprio realizando uma leitura em um iPad, por exemplo. Eu pessoalmente considero esta uma entrevista profundamente melancólica. Não é o primeiro escritor que, diante da idade avançada, declara que tudo vai acabar, como se eles mesmos não investissem tempo e dedicação a permanecer além dos limites naturais da vida. Certo mesmo é que, enquanto o fim do livro impresso precisar ser anunciado em um novo livro impresso, esse fim não chegará nunca.

O que talvez custe às pessoas admitir não é propriamente a existência de uma crise editorial, porque ela não existe, basta ver a inumerável lista de títulos publicadas anualmente (sem contar as iniciativas de autopublicação, edições independentes, blogs, etc.), mas uma crise da capacidade de leitura em si mesma. Porque se trata de um investimento de tempo que cada vez mais precisa ser rapidamente consumido e transformado em produtividade visível, é possível que os hábitos de leitura, principalmente a realizada em meios digitais, tornem os livros impressos objetos trabalhosos demais e a leitura um empreendimento pessoal do qual não se pode extrair resultados imediatos.

Seja como for, não é possível argumentar contra as evidências matemáticas e elas informam que no mundo inteiro o número de vendas dos e-books finalmente superou o status de tendência e ganhou a preferência dos consumidores. Nos Estados Unidos, o ano de 2014 será marcado como o primeiro em que as vendas de e-books superaram as de livros impressos. No Brasil, a realidade comercial é ainda incipiente, mas ganha força com a chegada da Amazon em solo nacional, com o início de vendas de títulos no iTunes e com uma adesão crescente de editoras ao uso das mídias digitais.

Escapando dos dados quantitativos para os qualitativos, é imprevisível imaginar a forma pela qual as editoras irão investir daqui para diante, e suas prioridades. Com uma quantidade imensa de títulos esgotados e com restrições decorrentes de uma lei de direitos autorais defasada em muitos aspectos (especialmente porque elaborada em uma época em que o termo digital não se aplicava ao conteúdo editorial), o e-book tanto pode representar a recuperação dos catálogos de uma indústria que sobrevive de grandes puxadores de vendas quanto, por outro lado, o privilégio a livros que possam interessar às novíssimas gerações, millennials ou o que vier depois. Tal perspectiva jogaria dentro de um fosso toda a bibliografia não lucrativa e, caso se mantenham as atuais restrições ao comportamento das bibliotecas de acesso e empréstimo, por exemplo, isso poderia representar uma intensa dificuldade em obter-se informações, por mais absurdo que isso possa parecer, dadas as “facilidades” tecnológicas.

Internacionalmente, entretanto, parece haver um cenário promissor. Bibliotecas universitárias e projetos culturais específicos (como os de bibliotecas particulares de autores literários, por exemplo) têm realizado trabalhos colossais de digitalização e disponibilização de arquivos pessoais, bibliotecas particulares, etc. Embora os projetos capitaneados pela UNESCO de uma nova biblioteca universal não avancem conforme seu desejo, muitos países procuram desenvolver iniciativas locais de digitalização, de maior ou menor porte. Nenhum, certamente, pretende tanto quanto a Noruega, que deseja disponibilizar sem custo algum, a todas as pessoas que puderem ter um endereço IP norueguês, o acesso integral a toda a produção bibliográfica local, através da digitalização de todo acervo depositado obrigatoriamente na Biblioteca Nacional.

Outra disputa sem horizonte de resolução no tocante ao e-book é a que envolve as pessoas e suas preferências, manias e as possibilidades reais de um e outro meio. Enquanto há quem desde a primeira hora tenha passado a investir em bibliotecas digitais, há muitas outras pessoas reticentes, quando não totalmente refratárias ao formato digital. De um amigo radicalmente partidário do livro impresso, colhi esta comparação, nitidamente exagerada, porém (talvez) pertinente: “O e-book está para o livro como os compostos vitamínicos estão para um prato de comida.” É claro que, para a leitura propriamente dita, o suporte em que ela se realiza importa muito pouco. Se um leitor é hiperativo o bastante para não resistir a concluir um parágrafo e ir conferir o status das redes sociais ou o seu e-mail, é de imaginar que o processo de leitura se tornará fastidioso diante ao intenso desfile de informações imperdíveis que pululam rede sociais e internet adentro. Mas esta dificuldade pode atingir igualmente a leitura dos livros impressos, claro que pode, então acredito que a frase trata-se mesmo de uma impertinência. Cabível, mas ainda assim impertinência.

A mim incomoda bem mais um diálogo presente em O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges, no qual o vendedor do fantástico Holy Writ mostra a Borges as páginas do que seria o mais raro e precioso livro do mundo, mas ao mesmo tempo o adverte: “Olhe bem para estas páginas. É a última vez que você está vendo isso.” É claro que este é o terror que acompanha toda as pessoas que amam os livros guardam mais intimamente, o de que em um belo dia seus belos livros simplesmente evaporem. Assim, do nada e para sempre. Longe de mim desejar que uma coisa dessas aconteça a quem quer que seja, mas uma coisa eu posso garantir com tranquilidade: a probabilidade de uma catástrofe digital continua bem maior do que uma como aquela que ocorreu, por exemplo, no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

Do bug do milênio ao epub, passando pelas microfichas, disquete, CDs, discos rígidos e DVDs, dos quais sabe-se lá a durabilidade e a segurança que têm, os livros ainda são um produto de tecnologia muito mais bem acabado, pelo menos na minha opinião, que qualquer gadget disponível para o efeito pretendido. Eu o comparo à colher e à roda, por exemplo, que têm feito mais pela humanidade do que a eletrônica e seus upgrades intermináveis, mesmo que isso apenas seja comprovável numa margem de centenas de anos. E com a vantagem única e incomparável de perpetuar a tradição da dedicatória e sessões de autógrafos. Alguém, por acaso, está disposto a por tudo isso a perder?

O Brasil desidratado

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Eu não sei os demais, mas eu penso que a crise de água em SP é em tudo reveladora do Brasil, esse país ao mesmo tempo abundante e desidratado. Não exatamente por revelar o destrato com os recursos naturais, desmatamento desenfreado e todos esses fatos ambientais, mas por mostrar que o Brasil é um país de empatia seletiva.

Por quantos anos o sertão e até mesmo o sul do Brasil (minha cidade natal, Bagé, quase fronteira com o Uruguai, penou por uma estiagem de quase uma década que obrigou ao racionamento permanente) tiveram gravíssimos problemas de abastecimento, alguém lembra? É claro que as dimensões do drama paulista são imensas dadas as dimensões de São Paulo, mas essa crise ataca mesmo é aquela velha ideia de “coração do Brasil”.

Vê-se, agora, que é um coração bem dos recauchutados e muito, mas muito mais dependente dos outros órgãos do corpo do que imaginava ser. Aos sertanejos e nordestinos de um modo geral parece que seu destino humano seria o de viver com a escassez de água e com a aridez, mas isso já tinha deixado de ser preocupante há muito tempo, naturalizando-se a ideia de que isso era inevitável (como se o desmatamento massivo para o cultivo da cana em épocas passadas não estivesse por trás disso também) ou um desígnio divino.

Mentiras convenientes, como muitas que querem impingir ao povo brasileiro. Como as mais atuais, que informam que o único desenvolvimento econômico possível para o país consistiria em abusar sistemática e irresponsavelmente de modelos extrativistas, centrados na monocultura e numa balança comercial dependente da exportação de commodities.

De posso do novo e dilacerador Código Florestal e de políticos que não relacionam lucro ambiental e conservação, logo logo vai faltar água para o corpo todo..

Para um país que se imaginava dono do maior rio do mundo, do maior aquífero do planeta e outros delírios de grandeza, um pouquinho de humildade e reconhecimento não há de fazer mal algum. Talvez até ajude a resolver e prevenir muitos outros problemas com esse líquido tão pouco valorizado, dada a nova mania nacional de enxergar solução para tudo no pré-sal.

Que eu saiba, mesmo que um dia o retirem de lá, o que por si só é duvidoso, ainda não existe no mundo tecnologia disponível que transforme o líquido preto nesse outro, que finalmente passa a adquirir o devido valor.

O indispensável despreparo necessário à educação inclusiva

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Por muito tempo acreditei, ou quis acreditar, ou me fizeram crer (difícil saber ao certo) que os principais problemas da educação inclusiva no Brasil seriam o despreparo e a falta de experiência dos professores. Santa ingenuidade, Batman. Só hoje consigo compreender que o “preparo” e a “experiência” tanto podem representar pontes desejáveis quanto armadilhas quase irreconhecíveis nos caminhos tortuosos ou retilíneos da educação e do aprendizado dos alunos com deficiência, especialmente daqueles com deficiência intelectual.

É que o atributo da experiência, mesmo que para uns signifique aprendizado, para outros tantos significa apenas acúmulo. E o acúmulo de más experiências e baixas expectativas pode ter um resultado pior que a encomenda, ou seja, pode colaborar em compreensões e abordagens pré-estruturadas e negativas dos indivíduos, no caso os alunos.

Assim, não é incomum encontrar-se professores que alimentam a crença de que seus alunos podem ser tomados genericamente com base em um CID ou diagnóstico e que, portanto, basta replicar possíveis fórmulas de sucesso e evitar previsíveis receitas de fracasso para que as coisas aconteçam. Vã ilusão. Cada ser humano é inesperado e enquanto pensarmos que é possível encaixotá-los em categorias da “diversidade” não avançamos além da rotulagem mais do que imaginamos, quando não apenas se está a reforçar ainda mais, mesmo que de uma maneira aparentemente democrática, a bem conhecida estigmatização.

Por mais estranho que pareça, sempre tive melhor (no meu caso pessoalíssimo) sorte com professores despreparados. É sério, não é piada. Não faço piada sobre esse tipo de assunto porque realmente às vezes é difícil distingui-la de algumas coisas, novidades, cursos, eventos, publicações e teorias que parecem muito sérias, mas que na prática nem sempre são tão sérias e aproveitáveis assim. Não vou citar nomes aqui não por uma questão de respeito ou indulgência, mas porque há muitas sobre as quais ainda tenho muitas dúvidas e se encontram sob investigação.

Das muitas vantagens de um professor despreparado, eu citaria rapidamente a principal delas: um professor despreparado tem muito menos preconceitos e ideias errôneas em mente que aqueles que optaram por uma compreensão unidirecional dos processos de construção/aquisição/elaboração/ou seja lá o que for do conhecimento. Ele está aberto a surpresas enquanto o “preparado” predominantemente imagina que já sabe o que vai encontrar, carregando na sua compreensão e práticas muitas vezes mais os quilogramas de conceitos e preconceitos disponíveis no mercado de ideias que o mínimo indispensável ao ofício: amor e respeito às crianças pelo que elas são.

Essa vantagem poderia ser suficiente para encerrar minha argumentação, mas ainda há outras de que não posso esquecer. O professor “despreparado”, por exemplo, pode afeiçoar-se pelos alunos individualmente (ou seja, suas pessoinhas) enquanto os “preparados” lidarão sempre com categorias de alunos. Os “inexperientes” procurarão entender o percurso individual do aluno de uma forma natural, já o “experiente” poderá tentar empilhar o sujeito (ou sujeitinho) em alguma camada do seu know-how prévio. E, glória das glórias, o “experiente e preparado” poderá tentar repetir fórmulas indefinidamente, enquanto que o “despreparado” será sempre obrigado a procurar caminhos e alternativas, instigando-se a si mesmo, o que é uma característica das mais desejáveis para a profissão.

Então quero dizer com isso que não existe preparo adequado ou ganhos pela experiência que sejam possíveis? Claro que não quero dizer isso. Mas então.. eis a pergunta que não quer calar: como saber? Não sei. Realmente não sei. Se eu dissesse que sei então estaria incorrendo no mesmo erro que acabo de condenar, que tenho a fórmula, como se alguém pudesse ser ou portar-se como uma agência de certificação, não que algumas pessoas não tentem ser um tipo de oráculo educacional. Definitivamente, os há. E como! Demasiado até, no meu ponto de vista.

Quero dizer com isso que um professor despreparado fará melhor trabalho que um mais preparado? Também não sei. Não tenho como saber. Fazê-lo seria aplicar a mesma regra com que muitos professores empregam a seus alunos, encaixotando-os e rotulando-os. Não é disso que se trata. Estou pensando e falando sobre comportamento real, não sobre teoria ou literatura científica.

O que eu quero dizer essencialmente para pais como eu, de crianças pequenas que dependem muito de uma comunicação indireta ou mediada por profissionais externos para revelar seus problemas e progressos, é que encontrar um professor “despreparado”, mas realmente dedicado e interessado, pode ser em muitos casos a verdadeira sorte grande, com quem será possível aprender e compartilhar para um mútuo proveito.

E também que, infelizmente, encontrar um professor “preparado” e “experiente” ou tudo isso conjugado nem sempre é garantia de coisa alguma, não cabendo, ressalte-se, tomar isso como regra. É claro que a soma de boas experiências e boa fundamentação teórica é o substrato ideal para que um professor encare satisfatoriamente a sua tarefa, embora haja muitas coisas a considerar também, desde a questão salarial, suporte, recursos adequados e espaços reais de colaboração com as famílias, que são os interessados finais no processo todo, afinal de contas.

Longe de mim querer ser ou parecer ser o agente da “intranquilidade”, mas de certo modo é exatamente disso que se trata. É claro que as metodologias de ensino são importantes e tudo o mais, mas igualmente é necessário restabelecer um pouco de espanto, surpresa e curiosidade no processo educacional como um todo, sob pena de que ele resulte artificial e com pouquíssimos atrativos, especialmente em se tratando do público infantil.

A infância, como sabemos, é um momento único na vida. Para os pais e mães de crianças pequenas – e nesse ponto se são crianças com deficiência intelectual ou não isso pouco importa -, seus filhos não podem ser resumidos em oportunidades ou experiências de maior ou menor sucesso escolar, mas constituem e integram efetivamente suas famílias e, através da escola, eles esperam apenas que ela os ajude a pertencer dignamente à sociedade. Se o preparo e a experiência conspirarem a favor dos alunos, então está tudo ótimo e há pouco a melhorar. Caso contrário, talvez seja interessante convidar os educadores a restituírem pelo menos um pouco a importância da dúvida para a constituição do saber. E isso não requer tanto preparo quanto, talvez, um pouquinho mais de boa vontade.

Quarenta vezes Zero

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Uma das maiores injustiças que poderia acontecer no ano de 2014 seria passar batido o quadragésimo aniversário de um marco da literatura brasileira, o romance Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. É claro que nem a literatura nem a crítica deveriam passar muito tempo olhando para o passado, como se num lamento evocativo, mas são tantas e por vezes tão exageradas as homenagens a autores e obras que uma a mais não há de fazer diferença. Nesse caso, precisamente, eu penso que poderá fazer, mas por outras razões.

É preciso dizer inicialmente que não há a possibilidade de aqui encontrar-se spoilers, a não ser para aqueles que ainda não tenham conhecido José (assim mesmo, sem sobrenome), personagem central de Zero. Sobre ele é o primeiro parágrafo do romance, em tudo revelador:

“José mata ratos num cinema poeira. É um homem comum, 28 anos, que come, dorme, mija, anda, corre, ri, chora, se diverte, se entristece, trepa, enxerga bem dos dois olhos, tem dor de cabeça de vez em quando, mas toma melhoral, lê regularmente livros e jornais, vai ao cinema sempre, não usa relógio nem sapato de amarrar, é solteiro e manca um pouco, quando tem emoção forte, boa ou ruim.”

Não. Não há spoilers aqui. Trata-se de um livro que sopra já quarenta velhinhas de idade e, mesmo assim, é muito difícil não surpreender-se ainda hoje com a dinâmica alucinante que acompanha o personagem José por uma paisagem tão precária como sua própria trajetória de vida, arrastada do subemprego e da marginalidade à luta armada. Então, por prudência e para preservar o direito à surpresa de todos aqueles que nunca o leram mas poderão ainda motivar-se a isto, não haverá aqui uma menção sequer ao enredo e desenredo do romance. A motivação oculta para isto é que, como aqueles que já o conhecem sabem muito bem, esta é uma tarefa praticamente impossível.

Publicado pela primeira vez na Itália, Zero não agradou inicialmente a nenhum editor brasileiro. Efetivamente, naquele ano publicá-lo seria razão certa para cefaleia posterior para qualquer editor. Ainda assim, um ano depois ele apareceu em terrae brasilis, para sumir das livrarias logo em seguida. Para isso, foi preciso que um abaixo-assinado reunindo centenas de intelectuais solicitasse esse favor à censura. Esse ciclo de aparição de Zero durou pelo menos mais uns cinco anos. Foi quando eu o conheci, perto de 1980, através de um furto qualificado que pratiquei contra meus irmãos mais velhos, orientados a manter o volume o mais distante possível dos meus olhos infantis. Não conseguiram evitar meu sucesso.

Como talvez nenhum outro romance da literatura brasileira, Zero foi e ainda é um livro altamente subversivo. À época de seu lançamento, uma subversão principalmente de cunho político. Mas, desde lá e ainda hoje, uma subversão estética e das tradições literárias e de todas as demais tradições e costumes evocáveis naquele longínquo 1974.

Ainda hoje eu guardo a impressão de que Ignácio escreveu todo o Zero e em seguida o picotou. Depois, na minha imaginação, teria colocado os picotes naqueles globos de sortear mega sena e foi tirando de lá e colando novamente no papel, até ganhar uma nova forma e coerência. E isso não deixa de ser um pouco a verdade, porque foi em Zero que pela primeira vez utilizou-se na literatura brasileira a técnica dos cut-ups, colagens que William Burroughs consagrou principalmente em Naked Lunch (Almoço Nu), publicado nos EUA em 1959.

O uso da técnica, todavia, não implica em dizer que é um livro escrito e pensado ao acaso. Seu protagonista, José, faz a trajetória do trágico circunscrito pelo real surreal. Para José, o cotidiano é de uma complexidade avassaladora, porque ele está imerso em uma sociedade decomposta, razão que pode explicar a opção de Ignácio em construir uma história absolutamente fragmentada.

Há quem atribua a Zero o qualificativo de “grotesco”, talvez pelo pleno uso do coloquial e do “baixo calão”. E o livro até poderia receber esse adjetivo, mas apenas caso se localize o grotesco pelo traço distorcido, pela pincelada excessiva, conforme é compreendido nas artes visuais. De outra forma, tomá-lo por bizarro seria uma tentativa de reduzir o impacto de um romance nascido de reportagens censuradas e situações absurdas, porém mais absurdas ainda pelo enorme realismo dos recortes e enquadramentos criados por Ignácio.

De certa forma, como Émile Zola já havia realizado na França, em fins do século XIX, com o monumental empreendimento de Les Rougon-Macquart, Zero consegue restaurar o vigor naturalista do que também poderia ser considerado um novo romance experimental. Ainda mais ao considerar-se que suas características formais tivessem mais por base a linguagem jornalística que qualquer outra tradição narrativa. A fluidez dos cut-ups, ilustrações e cortes abruptos, além do panorama multidimensional, transforma Zero em um romance com características inauditas e ao mesmo tempo inigualáveis, porque ocupa na história recente da literatura brasileira um lugar até então desocupado e, posteriormente, sem seguimento.

O Zero de Ignácio de Loyola Brandão ainda desafia os novos autores a tentar o caminho do imprevisível. Seja pelos personagens caóticos e psicologicamente complexos quanto pela falta aparente de estrutura, o romance é ao mesmo tempo referência e sombra que se projeta sobre a literatura posterior a ele. É referência por deslocar aos subúrbios e ao mundo da pobreza o foco literário sem nenhuma condescendência sociológica. E é sombra porque exige da inovação literária bem mais que a utilização de quebra de esquemas e desvios narrativos, senão uma corrida com a própria liberdade criativa, sensação muito presente e comum para autores e artistas formados na agitação dos anos sessenta, mas visivelmente uma relação que vem se deteriorando bastante desde então.

A passagem de quarenta anos poderia ter tornado Zero um livro velho, uma sucata. Pelo contrário, o tempo ainda o faz um romance revelador, tanto em aspectos formais quanto sobre seu conteúdo, principalmente para leitores que conhecem pouco ou começam a conhecer agora a literatura produzida no período em que o Brasil esteve privado da democracia e o estado de exceção e a censura naturalizados. Algumas pessoas afirmam que é nos períodos mais críticos da história que as grandes obras são criadas. Então, por consequência lógica, nós brasileiros devemos mesmo estar passando muito bem, porque não é nada fácil encontrar romances tão impactantes como Zero por aí.

Deseducar para incluir

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Nem todo o estranhamento é preconceito, mas a atitude defensiva de pais e mães de crianças com deficiência pode contribuir ainda mais para aumentar um e outro. O terreno é argiloso e movediço e sei que para entrar nele todo o cuidado é pouco, mas é um risco necessário. Além de ser o único modo de chegar ao outro lado da questão. Isso se houver um outro lado da questão. É o que vou tentar descobrir aqui.

De imediato eu poderia lançar mão em meia dúzia de teorias sobre o preconceito ou da bem difundida (mas será que executada na mesma medida?) “educação para a diversidade”, mas vou tentar outro caminho. Vou usar como exemplo duas situações que aconteceram comigo mesmo e meus filhos, em diferentes momentos da vida.

Nunca tivemos, em casa, nenhum tipo de atitude pedagógica sobre a deficiência com que meu filho mais novo nasceu (ele nasceu com a síndrome de Down). Nem com sua irmã mais velha, nem com parentes ou amigos. E não fizemos isso porque nunca sentimos necessidade. Nossa opção foi desde o seu primeiro dia de vida tratar a ele e sobre ele naturalmente. Nem sabíamos que tínhamos outra opção, inclusive.

Hoje sei que poderia ter colocado uma placa na porta de casa com instruções de relacionamento ou ter ido às ruas defendendo-o de qualquer olhar curioso, mas resolvemos não transformar nossa vida num campo de batalha. Aparentemente temos, pelo menos até agora, sido bem sucedidos. Não que isso evite o preconceito, porque normalmente este é um sentimento íntimo e velado, interditado pelas convenções sociais. Bom, também temos sido bem sucedidos em não nos tornarmos caçadores de preconceitos, tarefa das mais ingratas que um ser humano pode ter ou conclamar a si mesmo.

A primeira das situações aconteceu há alguns anos atrás. Estávamos num parque, sob as ávores, numa calorosa tarde de verão e de repente vimos aproximar-se uma família cuja uma de suas integrantes aparentava cerca de quarenta ou cinquenta anos. Uma senhora que também tinha a síndrome de Down, aqueles olhinhos pequenos não deixavam dúvidas. Eles sentaram-se relativamente próximos a nós. Mas ela, a senhora, praticamente não falava com nenhum dos demais. Ao contrário, saiu a caminhar por ali, para conhecer ou reconhecer o lugar.

As crianças que estavam por perto, meus filhos inclusive, logo perceberam sua presença e lembro que uma delas resolveu implicar com a senhora por alguma razão. Minha filha mais velha, que nessa época mal tinha noção de que o irmão também tinha a síndrome de Down (ela tinha no máximo seis anos de idade e ele 4), resolveu interceder. Lembro exatamente como se fosse hoje do que disse: “Deixa ela. Ela é assim.”

É claro que sua intervenção não foi resultado do empreendimento de uma campanha doméstica contra o preconceito que tenhamos feito. Ela, naturalmente, entendeu o que parece ser incompreensível para a maioria das pessoas, que é o fato de que as pessoas têm o direito de ser exatamente como são. Sem mais nem menos. Sem pôr nem tirar.

Essa simplicidade de pensamento, tão comum nas crianças, eu fico pensando.. onde é que ela vai parar mais tarde? Se toda a sofisticação do pensamento culto consiste em atribuir um valor distintivo entre as pessoas, talvez seja por isso que tão facilmente abrimos mão de reconhecer a diferença no outro e interpusemos uma série de requisitos sociais, sem os quais parece não ser possível um convívio minimamente natural e civilizado.

Naquele momento, de forma absolutamente desimpedida, minha filha (sem ter a mínima ideia disso) mostrou-me que a aceitação e o reconhecimento não requerem esforço algum. E que, quando isso acontece de forma programada, pode ser que está a exercitar-se outras coisas que não a “inclusão”, talvez no máximo a tolerância e a compreensão. O que não é pouco nem pior, mas não é o mesmo. Tratar conceitos assim como se fossem o mesmo é uma confusão que acaba sempre por colocar um dos sujeitos no papel de alvo e o outro no de agente da “civilização”. Do outro lado desse comportamento “pedagógico”, nem todos parecem perceber o abismo que se cria entre as pessoas, mesmo quando os objetivos são efetivamente nobres e os gestos edulcorados.

Meu outro exemplo envolve meu filho e o seu próprio contato com a diferença.

Recentemente, no supermercado do bairro que frequentamos, uma funcionária anã passou a trabalhar ali. Ele, que só conhecia anões através de histórias e filmes infantis, ficou pasmo quando viu a nova funcionária. Também de forma natural, resolveu aproximar-se, mas ela, de sua parte, não gostou e logo foi dando um jeito de sair de perto. Ela não seria mesmo obrigada a ver-se no papel de atração infantil. Não a condeno por isso. Longe de mim. Se ela conversasse um pouquinho, talvez pudesse ajudar a desfazer a incompreensão, mas ninguém deve estar obrigado a isso. É seu direito e deve ser respeitado. Muitos pais e mães de crianças com deficiência agem da mesma forma, não que eu concorde com isso.

No mesmo instante, pensei em como explicar a ele a situação, dada sua dificuldade cognitiva. Não consegui. Nada do que pensava me ocorria ser uma explicação acessível e aceitável. Então a imagem da minha filha voltou a minha mente e simplesmente expliquei a ele que ela era assim. Ponto final. Não há nada que se possa fazer com a diferença alheia a não ser aceitá-la. Assim mesmo: tacitamente.

Se funcionou? Em grande parte sim, porque das outras vezes em que nos encontramos no supermercado ele não tentou ir brincar com ela ou ficar apontando com o dedo. Naturalizou sua presença. O convívio fez de uma maneira direta aquilo que o meu discurso certamente teria falhado em obter.

É claro que meus exemplos não são universais e nem poderiam ser. Há uma variedade infinita de emoções possíveis para mães, pais e crianças com deficiência que seria de uma arrogância impensável forjar um modo de agir, porque não existe um modo de agir certo que seja aplicável a toda e qualquer pessoa, a não ser numa mentalidade autoritária. E é uma incoerência tamanha reivindicar tratamento igualitário mediante a apresentação de um manual de instruções.

Evidentemente é necessário aprender a conviver com a diferença e com a deficiência, mas isso deve ser feito preferencialmente na prática, sob pena de que discursos pedagógicos e campanhas não surtam efeito algum, a não ser o de aumentar ainda mais o estranhamento ou emplacar-se a noção de que são pessoas de vidro, como tabus ambulantes, a quem se pode perguntar isso mas não aquilo. A quem é permitido conviver, mas sob determinadas condições.

Se do outro lado da questão do preconceito e da “educação para a diversidade” há um novo tipo de preconceito, talvez então seja o caso de deixar um pouco mais às crianças e pessoas com deficiência a árdua “tarefa” da convivência, com seus ônus e bônus. Pode ser surpreendente que novas dinâmicas sociais criem-se ao natural, sem a necessária presença de uma mediação ideológica de quem quer que seja.

Aniquilados pelas eleições

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Súbita, uma saudade do tempo em que a maior diferença de opiniões entre os amigos era sobre se o Toddy seria melhor que o Nescau ou vice-versa. Dúvida que, aliás, ainda persiste para mim e tantas outras pessoas que só não têm coragem de admitir publicamente o dilema. Na verdade, eu desconfio que nunca a humanidade chegará a algum consenso final sobre isso. Ou, talvez, sobre qualquer coisa.

Nessa mesma época da minha vida, longínqua e irresponsável, não lembro de uma vez sequer ter sido atacado na minha preferência por um outro entre os achocolatados, ainda mais pelos amigos e pessoas próximas. Muito menos de alguém ter-me dito que eu estava sendo estúpido por preferir um ao outro ou ver o rótulo do meu produto do coração achincalhado em montagens deturpadas, notícias frias ou coisas do gênero. Havia, provavelmente, uma noção de respeito pelo outro que o “amadurecimento” deu conta de aniquilar para o bem.., bem.., para o bem de alguma coisa que eu nem saberia dizer o que é.

Nos idos anos setenta, ainda não havia isso que hoje se entende por “memes” nem nada que se parecesse ao Twitter ou ao Facebook. A verdade era chapada e transmitida em preto e branco. E a política, bilateralmente dividida entre dois partidos, MDB e Arena. Mas meu mimimi histórico não tem a menor importância. O mundo parece mesmo que ficou mais complexo desde lá. Esse texto, até este ponto preciso, é apenas um subterfúgio para chegar a um assunto bem mais sério que a disputa entre o Nescau e o Toddy. Ou, pelo menos, deveria sê-lo. Nessa semana de eleições presidenciais há algum outro assunto, falando nisso? Não que eu saiba.

Salvo pelos mais interessados, a política é um assunto que não entusiasma muitas pessoas, ao contrário do que pode parecer, mesmo em épocas eleitorais. A algumas pessoas, é um assunto que chega mesmo a deprimir completamente. Mas eu ouso tentar dizer: não é a política, são as pessoas. A política, termo cunhado pelos gregos para designar a apropriação da polis pelos cidadãos, é um termo gasto e vulgarmente utilizado como xingamento até, o que é uma constatação das mais lamentáveis. Se é uma palavra que foi levada a esse tipo de significado por um mau uso, então nosso desafio é tão somente procurar fazer dela o melhor uso possível. Recuperá-la desse atoleiro. O quanto isso nos for possível, claro. Sem exageros, por favor.

Nessa época eleitoral, não são poucas nem raras as amizades estremecidas em razão de divergências políticas. Mas eu quero pensar que não é a política em si mesma que causa isso. São as divergências e as formas pelas quais as pessoas lidam com isso ou, em última análise, lidam consigo mesmo. São as próprias pessoas e suas qualidades não muito compartilhadas, mas ainda assim muito visíveis: a intolerância, o autoritarismo, a prepotência, o “seachismo” e etc. Etc. Etc.

Talvez seja exigir demais de relações que, cada vez mais mediadas pelo meio virtual, não comportam grande compromissos pessoais e às vezes as pessoas simplesmente abstraem de que estão falando entre si e não para consigo mesmo. Que suas opiniões chegam aos demais e que a forma pela qual chegam diz mais sobre quem as está emitindo que ao seu destino, que é sempre imponderável e pode ir parar sabe-se lá aonde depois da invenção da internet.

Se há mesmo uma tendência, criada sobretudo a partir da virtualização das relações humanas, à espetacularização das opiniões pessoais ou um tipo de egolatria decorrente de um eu que se afirma apenas sobre uma certa autoidealização e no precário reconhecimento do outro, então talvez seja mesmo inevitável que isso aconteça. Mas aqui também, mais uma vez, não cabe debitar essa dificuldade à tecnologia. Trata-se de uma dificuldade humana que a tecnologia apenas “ajuda” a evidenciar, exatamente pelo dinamismo das trocas conceituais e simbólicas que se faz nesse substrato digital. Mais uma vez, a culpa é das pessoas. Não é possível culpar a existência da internet sobre o que se comete através dela. Seria uma miopia total. Ou um tipo de fuga, talvez.

Há pessoas que percebem no mundo do novo milênio um mundo mais complexo, mais intrincado, repleto de relações de certo modo inapreensíveis. Tenho minhas dúvidas. Tenho a impressão que não mudamos tanto assim, assim como não devemos mudar de comportamento em relação aos demais simplesmente porque envelhecemos e nos arrabugentamos (do verbo arrabugentar, neologismo). Não deveríamos, nesse aspecto, muito antes pelo contrário, melhorar?

Nesse ponto, cabe pensar também que o formato contemporâneo de política representativa e o entendimento de democracia como o mero direito ao voto favorece absolutamente o individualismo, a atomização social. O voto secreto, ao passo em que consiste num momento mais ou menos mágico, não é senão uma forma de destituição da vontade política. O cidadão delega sua potência cidadã a um burocrata que supostamente o irá representar perante o sistema estatal. Esse extravio de potência, de tão violento que é, culmina numa dicotomia odiosa que, ao invés de unir as pessoas e os sentimentos sociais, as pulveriza. E então o que deveria ser a festa máxima da diversidade e da democracia torna-se apenas um festival de rancores e inimizades. Das diferenças no pior sentido do termo.

Ali, na seção eleitoral, com o dedo no botão “confirmar”, o que estaremos confirmado, afinal? A foto do(a) nosso(a) candidato(a)? Suas propostas? Suas ideias? As ideias de suas alianças políticas, nem sempre tão evidentes assim? Ou simplesmente nossa falta de opção, reduzidos que fomos ao consumo do marketing político? Seja como for, não votamos em consenso e as opções que temos não nos representam inteiramente, em todas as nossas preocupações individuais. É por isso que às vezes saímos insatisfeitos das seções eleitorais e das urnas. É que ali se processa uma tremenda aniquilação da nossa compreensão social e desejo político.

Algumas pessoas têm dito e defendido que é preciso, para ontem, uma reforma política. Que o sistema atual favorece disputas desiguais, aparelhamento econômico dos partidos, etc. Tudo isso é verdade, mas é também verdade que a nossa relação com a democracia está um pouco sucateada. E isso tem menos a ver com o voto em lista do que com a forma com que nos relacionamos com o poder político, cada vez mais centralizado e comandado por estruturas inacessíveis ao cidadão comum. Isso produz necessariamente um dissenso. Um descrédito com a democracia. E algum rancor pessoal, em muitos casos.

Aqueles que desejam reformar a democracia devem lembrar que a democracia não é uma instituição ou um mero canal de empregos. Ela é um bem. Devolver à democracia a condição de bem comum é o desafio oculto das eleições. Encontrar candidatos que preservem ou recuperem essa condição constitui o verdadeiro dever de votar. Pensar nos candidatos como crianças escolhem, no critério do maniqueísmo, entre o bem e o mal, como se entre o Toddy e o Nescau, ainda é o máximo que muitos conseguem e pode ser o caminho do engano que muitas vezes nos custa a admitir em nós mesmos, mas percebemos com intensa clareza nos demais.

Mas enquanto não chegamos a este e outros consensos, cada um deve respeitar a escolha do outro. Em caso contrário, de posse de nossos títulos eleitorais e das melhores intenções do mundo, como os fanáticos que condenamos em outros continentes, estaremos apenas pisoteando o cadáver do que se deveria chamar democracia. Se não fazíamos isso quando éramos crianças, porque então naturalizamos tanto assim a expressão do ódio político? Sem dúvida, há partidos que funcionam quase como religiões, abrigam pessoas que se orientam irracionalmente em dogmas alheios porque lhes falta muitas vezes uma independência crítica e é um caminho mais fácil descer as escadas firmes em um corrimão, como gostava de dizer a filósofa alemã Hannah Arendt.

Como acabamos sabendo mais cedo ou mais tarde, não há escolha certa entre o Nescau e o Toddy, há apenas uma preferência. Há apenas tentativas. Desde os gregos, a política não é o território das certezas, mas também não deve ser o território das guerras ou da eliminação do outro porque, nesse caso, teria se transformado no totalitarismo, mesmo que não usemos mais esse nome e que nossos artifícios de dominação sejam hoje mais sofisticados que espadas e lanças e se encontre mais no território das opiniões, das autoridades ou dos poderes simbólicos. Por isso, se a eleição está servindo a uma espécie de aniquilação do sentimento civil, há algo que está muito errado. Devem ser as pessoas, de novo. Mesmo assim, a democracia deve ser devolvida a elas. O quanto for possível. Não exclusivamente, mas inclusive nas eleições.