A realpolitik me faz votar em Marina

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Marina Silva em Xapuri, Acre. Foto: Wikipedia.

Minha candidata à presidência da república não deveria existir, pelo menos não nestas eleições. Ela nasceu e viveu boa parte da vida num lugar que dizem, como fosse piada, que também não existe, embora esteja contido no mapa desse imenso país, numa região estranhamente dominada pela natureza e pelas diferentes formas pelas quais a população encontra para viver com ela. Nela. Através dela. Pelo menos enquanto ela dure. Enquanto ela esteja ainda lá.

Até os dezesseis anos viveu, lá no Acre, na invisibilidade das letras sem sentido. No analfabetismo. Foi empregada doméstica. Eu nunca imaginei que teria um dia como candidata à presidente da República uma mulher que não procura falsear no seu curriculum vitae que foi empregada doméstica, muito menos inventar qualquer coisa ali, para parecer mais palatável a imensa massa de eleitores da classe média, extrato econômico da população que costuma decidir eleições conforme seus mais conscientes e inconscientes temores e anseios.

Minha candidata nasceu chamando-se Maria Osmarina Silva de Souza, mais conhecida pelo apelido de Marina, nome que registrou em 1986, quando se candidatou a deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores. Na mesma eleição, o líder e mentor Chico Mendes concorreu a deputado estadual e ambos não foram eleitos. Chico não sobreviveu, como se sabe, à violência que ainda hoje grassa no norte do país em disputas territoriais. Marina teve outra sorte e outro destino político, em uma trajetória muito bem conhecida.

Mas minha intenção aqui não é falar da trajetória política da candidata Marina Silva tanto quanto do porquê da minha guinada de opção eleitoral, mesmo que isso talvez não seja do interesse de muitas pessoas.

Pois então. Mais ou menos até ontem eu estava convencido a votar no candidato Eduardo Jorge, do PV, naquilo que seria uma espécie de jornada particular em torno de uma candidatura “pura”, movida ideologicamente ou, pelo menos, uma candidatura que agredisse menos que as demais as minhas próprias ideias. Até então, nem o apelo fácil ao voto útil era capaz de demover-me da intenção, mas aos poucos fui sendo tomado pelo fantasma irresistível do pragmatismo político, essa que parece ser a única forma aceitável de pensar e fazer política no Brasil contemporâneo.

Antes de assistir a forma radical com que Eduardo Jorge aniquilou os demais concorrentes nos debates a que assisti, pensei também em votar na candidata do PSOL, Luciana Genro, exatamente pelas mesmas razões. Como se fosse possível esboçar – pelo menos no interior da minha subjetividade – uma reação à disseminada realpolitik, que levou de roldão nos últimos anos os últimos vestígios de uma política realizada por princípios, talvez numa razão superior aos 95%, se consideradas todas as legendas partidárias e, ainda mais, a intrincada rede de coligações que amarra as intenções de uns nas mãos de outros.

Mas eu cedi à tentação de concordar com a tese bismarckiana de que a política é mesmo a arte do possível. E, mesmo que isso me traga mais desalento que esperança, por suplantar a emergência de um sentimento social autônomo e por estrangulá-lo no caminho estreito das seções eleitorais para respirar-se novamente apenas em novo período eleitoral, trata-se de uma tentação inelutável. Praticamente de um beco sem saída.

Se a ingenuidade não tem mesmo lugar na política, a mim só resta lamentar por isso. Num “outro mundo possível”, o candidato Eduardo Jorge seria um bom presidente para o Brasil. E isso menos pelo tom caricatural que configurou sua aparição nessa eleição e mais pelo necessário encontro entre um país amarrado a um modelo de economia centrada na exploração desenfreada dos recursos naturais e seu próprio futuro, no qual os dilemas que as novas gerações enfrentarão já despontam, como a poluição exagerada, cidades trancadas em si mesmas, carência de água, etc etc etc.

No mundo “possível” da política pragmática há, no entanto, apenas dois cenários em questão. E eles estão expressos nas candidaturas de Dilma e Marina.

Embora eu não creia tanto em que haja uma cisão ou uma ruptura de modelo em vista, pelo menos no plano simbólico Marina representa um pouco do Brasil que não se reconhece ainda como nação, mas precisa chegar a isto para ter um vir a ser a todos os seus cidadãos, já que todos são seus contribuintes. Vinda do Acre, o estado que “não existe” na piada, a candidatura de Marina diz respeito a uma parcela da população que tenta fixar-se no seu território ao invés de correr em busca de uma vida concretizável nas metrópoles e nas intensas relações de consumo necessárias para viver-se nos grandes centros urbanos.

Se a candidatura Dilma representa a ascensão da capacidade de consumo da população pobre, do IPI zero para aquisição de produtos da linha branca, automóveis a perder de vista nas ruas e necessidade brutal de fornecimento energético, Marina lembra mais os povos do Xingu, daquelas pessoas cuja existência em si mesma é um óbice a um projeto de desenvolvimento social que não se importa em conservar o habitat e o modo de vida e de geração de renda de milhares de pessoas que dependem de um ecossistema que, por outro lado, é por si só um entrave aos planos de geração de energia para uma “nova classe média” sedenta por consumo de eletrônicos, automóveis e bens de consumo com grande efeito gerador de CO2, tanto no uso final quanto em seu processo produtivo.

Na disputa entre Dilma e Marina há, portanto, um background bem mais significativo que as campanhas eleitorais podem revelar, porque centradas em objetivos eleitorais numéricos emergenciais no qual vale mais o embaraço ao outro do que os próprios programas de governo. A disputa entre um país do centro sul, para o qual o norte pouco existe e, quando existe, interessa apenas enquanto reservatório aparentemente inesgotável de recursos naturais e um país do centro norte, do qual tanto Marina quanto o ex-presidente Lula vieram, mas com destinos bem diferentes.

Um dos argumentos que tem sido mais utilizados pela campanha dos militantes pró Dilma contra Marina na reta final do primeiro turno, principalmente nas redes sociais, reside em caracterizar a candidata do PSB como alguém que teria propostas vazias e inconsistentes, distantes do que seria necessário para a condução da economia brasileira, além de outras ameaças já desmentidas pela própria Marina, seja a respeito da flexibilização das leis trabalhistas ou o seu desejo de encerrar os programas de compensação social do governo, como o Bolsa Família, por exemplo. Dentro dessa visão rápida, Marina não teria condições de enfrentar a realpolitik, porque ela envolveria uma capacidade de articulação política ampla como a que, por exemplo, sustenta o governo atual.

Pois essa é justamente a razão principal pela qual mudei minha intenção de voto. Se é para ser pragmático e construir novas relações de força entre os partidos, Marina é uma opção pelo menos ainda inaudita, enquanto que o PT não propõe qualquer mudança nesse sentido, consolidando-se no núcleo duro dos partidos de centro no Brasil, junto ao seu principal aliado, o PMDB e até mesmo ao PP, que seria o braço mais à direita entre todos os partidos, sucessor direto do antigo PDS e da antiga ARENA. Se Marina irá manter a articulação nos mesmos moldes do governo atual, então não há tanto a temer em relação a alguma instabilidade política ou decomposição no Congresso. Se ela fizer diferente, talvez a distinção posterior entre os partidos identificados à direita e à esquerda mude bastante, forçando o PT a buscar uma nova composição na oposição. Talvez mais à esquerda ainda junto ao PSOL e PSTU ou, lamentavelmente para alguns, à direita, junto à gama de partidos cuja única vocação política parece ser o desejo de assentar-se no poder. Este seria o impasse por excelência para o PT caso Dilma perdesse as eleições, ou seja, onde e na companhia de quem locar-se para retornar ao cenário político como alternativa.

Para uma candidata que há pouco sequer existia, de um estado que é piada nacional, de uma região que é mais desconhecida para maioria das pessoas que o leste europeu, cuja aparência da população não nos deixa esquecer de que nossa identidade não é centrada exclusivamente nos habitantes do centro ou do sudeste, Marina é um fantasma e tanto para uma eleição que até poucos meses era dada como certa e definida de véspera. Não é mais.

Por redimensionar um jogo político dado como esgotado em si mesmo e por representar a possibilidade de alterar-se um cenário de pasmaceira centrífuga, vou precisar mudar de voto a menos de uma semana das eleições. Vou ter de deixar meu candidato preferido em nome de um pragmatismo mentecapto que significa que nossas opções políticas são imaturas demais para enfrentar os temas que Eduardo Jorge enfrentou de peito aberto, sobre energia sustentável, aborto, entre tantos outros. Em seu lugar, todas as mais sensatas pessoas clamam por que se faça o melhor possível. Para quem, como eu, não vê no atual governo o melhor possível sendo feito em muito setores e em muitos direitos fundamentais, Marina pode ser mesmo apenas uma aposta. Eu, pelo menos nessa eleição, vou preferir apostar no duvidoso que manter-me no marasmo que trabalha em comunhão aos setores mais conservadores da política brasileira. E vou sem medo algum. O máximo que pode acontecer é minha candidata perder a eleição, mas sua presença irá cada vez mais exigir que o Brasil assuma-se o país continental que é e responsabilize-se não por promover um aceleramento ao pós-capitalismo consumista, mas por conservar uma sociedade diversa e digna. Em todos as regiões e estados da federação. Inclusive no Acre.

Richard Dawkins e a ciência que dá conselhos

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Respeito muito, de verdade, meus “colegas” pais e mães de crianças com deficiência e, antes de mais nada, digo abertamente que não trocaria minha experiência pessoal com meu filho por nada nesse mundo. Não aconteceu na minha vida saber antes do parto de sua condição, por isso não me atrevo a tentar imaginar ou opinar sobre o que outros pais que se viram nessa situação pensaram e decidiram fazer de posse dessa informação durante a gestação. Também não tenho parâmetro algum para isso, que é algo que só importa à realidade de quem vive a situação. Mas garantidamente não condeno qualquer decisão pessoal que tenham tomado ou tomem, seja por ter o bebê ou interromper a gestação. Aliás, não me ocorre pensar em opinar sobre o uso da liberdade de ninguém.

É claro que, se me perguntarem como tem sido a vida com meu filho, eu posso ficar horas a fio falando dos momentos felizes e também das apreensões que vivi com ele, que nasceu com a síndrome de Down, e com sua mãe e sua irmã mais velha. Mas irei alertar ao meu interlocutor o mais breve possível, caso ele tenha esquecido, que a experiência humana nunca é transferível, mas apenas compartilhável. Quero dizer que, por mais que uma pessoa se esforce em crer que seu exemplo de vida é notável e tem validade universal, isso não pode ser real.

O que quero dizer é que a experiência feliz de uma família na qual veio ao mundo uma criança com síndrome de Down não representa garantia nenhuma de que isso possa repetir-se alhures. Portanto, não dou conselhos sobre isso, justamente porque é impossível para mim entender a dimensão total da experiência de cada um. Falta-me essa balança de precisão, assim como o mundo parece já não ter fita métrica em relação à moral que persegue – realidade que o comportamento social às vezes torna evidente.

Por isso não consigo entender o que tinha em mente o biólogo, etólogo, divulgador científico e escritor britânico Richard Dawkins ao atacar frontalmente o fundamento de incoercibilidade moral ao aconselhar em seu twitter, no último 20 de agosto, a uma pessoa que pediu sua opinião sobre o que fazer diante de uma gestação na qual o feto fosse diagnosticado com a síndrome de Down. Aborte e tente novamente, aconselhou Dawkins, pois segundo ele “seria imoral para trazê-lo para o mundo, se você tem a escolha”.

Desnecessário relatar que, mundo afora, um grande barulho se fez a partir da declaração – logo explicada (mas não relativizada) por ele mesmo, conforme texto publicado no The Guardian e em seu próprio website. E ruídos de toda espécie ressoaram web adentro. É que, antes disso, Dawkins tuitou que não daria o mesmo conselho sobre a questão do autismo, porque, segundo ele, seriam pessoas que poderiam contribuir socialmente, enquanto as pessoas com síndrome de Down estariam fadadas a não desenvolver-se e a ter no sofrimento sua única possibilidade de vida.

Além de ter descartado todo o esforço científico em torno da validade do aconselhamento genético, Dawkins falou como um autêntico oráculo. A questão é entender se cabe à ciência postular enunciados taxativos sobre situações genéticas complexas e ainda não compreendidas de todo ou se, pelo menos, o seu “aconselhamento” tem efetivo amparo e respaldo na comunidade científica. Talvez, inadvertidamente, ele tenha assumido a mesma postura de seus maiores detratores, a comunidade religiosa, confundindo questões filosóficas complexas, tendências tecnológicas e inclinações bioéticas para frutificar suas crenças morais, também intransferíveis.

Tenho a impressão de que a declaração de Dawkins retrocede a discussões até já ultrapassadas tanto no campo da ética quanto da bioética. Retrocede ao aderir sem maiores explicações ao conceito de wrongful life e ao imaginar inovador um pensamento já compreendido como de interesse ao assim chamado ableism, corrente de pensamento no qual desconsidera-se o reconhecimento da dignidade inata da pessoa com deficiência em detrimento de uma necessidade expressa de ajuste e enquadramento social. É lamentável que a polêmica tenha surgido menos de um ano após o falecimento de Adrienne Asch, filósofa e bioeticista que defendeu muitas e muitas vezes que as práticas do aborto seletivo afrontariam a noção social a respeito das deficiências, sedimentando práticas discriminatórias e consolidando-as como opções políticas. Em artigo traduzido pela antropóloga Débora Diniz, do Anis (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero), para a Physis – Revista de Saúde Coletiva, é possível conhecer melhor suas ideias e preocupações.

No texto de Dawkins, onde este defende-se das acusações de eugenismo, jamais fica claro o que ou de quem seriam, afinal, as vidas aceitáveis. Pelo contrário, tal decisão seria amparada no sentido de “evitar-se o sofrimento”. Trocando em miúdos, isso equivale a proteger a pessoa da condição de deficiência, como se isso fosse insuportável e realizável a partir do julgamento de um terceiro. Para não sofrer, nesse raciocino, seria melhor não existir. Em nenhum momento é dada ao indivíduos a possibilidade da consciência, como se se negasse que as pessoas com síndrome de Down pudessem ter uma. Essa não é uma “proteção” desejável, porque somente a existência pode indicar a consciência de existir. E também o sofrimento não é, obviamente, uma exclusividade das pessoas com síndrome de Down, bem como não se trata de uma condição determinada geneticamente. Por que ser tão restritivo, nesse caso?

Acostumado a polêmicas, mesmo assim custa-lhe um bom pedaço da argumentação a tentativa de descolar-se da acusação de pregação eugênica. Embora sua posição seja calcada pelo que ele chama de “opção da maioria”, não é compreensível que essa possa ser uma premissa de credibilidade. Ou, então, todas as “opções da maioria” seriam igualmente justificáveis. Outro argumento defendido é o de que a síndrome de Down não é uma condição hereditária, razão pela qual não poderia ser evitada precocemente. Não vejo sentido algum nessa afirmação, pois exames não invasivos para detecção precoce estão disponíveis há muitos anos na Europa e pelo menos há uns dois anos aqui mesmo, no Brasil.

Trata-se, portanto, de uma condição extinguível, e os números disponíveis indicam que a opção da maioria vai mesmo por esse caminho, especialmente em solo europeu. Mas duvido muito que isso aconteça para evitar-se o sofrimento de quem quer que seja. Estou mais de acordo com a tese habermasiana de que a natureza humana conforma-se cada vez mais pela regulação do mercado e, então, aos homens e suas escolhas morais recai totalmente o peso da decisão, cuja margem foi alargada inexoravelmente pelo acesso à tecnologia e pela propulsão do consumo.

Mas Dawkins parece estar historicamente ainda aquém das ideias que Habermas expressou em O futuro da natureza humana, porque centrado na ideia de seleção negativa, mais próximo das ideias nascidas em Francis Galton do que gostaria de perceber em si mesmo e mais distante das do primo daquele, Charles Darwin, sabidamente seu grande inspirador científico. É que embora se tenha muitas vezes atribuído a Darwin a origem de ideias de inspiração eugênica, um parágrafo apenas em A descendência do homem retira toda e qualquer dúvida:

A ajuda na qual somos impelidos a dar aos necessitados é principalmente um resultado incidental dos instintos de simpatia, que foi originado como parte dos instintos sociais, mas que foi subsequentemente aprimorado, como visto antes, a ser mais amigável e mais amplo. Jamais poderíamos abandonar a simpatia, mesmo aos maiores apelos da razão, sem deteriorar a parte mais nobre da nossa natureza. Um cirurgião pode hesitar enquanto perfaz uma operação, porque ele sabe que está agindo para o bem do seu paciente; mas se intencionalmente negligenciamos os fracos e necessitados, seria apenas por um beneficio contingente, junto com um enorme mal em troca.

Tudo que eu não quero crer nem consigo imaginar é que Dawkins queira remontar suas opiniões morais à Inglaterra vitoriana. Muitas voltas o mundo deu desde então e o horror surgido na esteira da Segunda Guerra Mundial e das experiências eugênicas concretizadas ali (e antes dali) não permite senão que se avance a uma compreensão humanizante do tema. Evidentemente que todo o conceito de diversidade humana e genética é posterior à criação da ONU, UNESCO e declarações de direitos, mas é compreensível que o assunto em si mesmo, tratado como se num ambiente de ensaio, perca nuances próprias do humano. Infelizmente, ainda há muita ciência feita e mantida nessa espécie de ambiente, sem contato com o real fora de abstracts e papers.

Achei graça de muitos pais convidando Dawkins para um “estágio imersivo” a fim de que ele redimensionasse seu conceito de sofrimento e refletisse, por um momento, sem o uso diametral da razão sobre o assunto. Para uma mentalidade crítica como a dele, acho que a ideia não causou muito impacto. Para mim, foi entusiasmante. Talvez assim ele entendesse que existe uma simetria possível entre pessoas com e sem a síndrome de Down e que a vida, nesses casos, não é apenas “compatível”, mas possível e desejável. É claro que qualquer comparação da síndrome de Down com outras condições incompatíveis com a vida está, nesse caso, inadequada. Porém, ele mesmo optou por seguir essa linha de raciocínio e situou a síndrome de Down no espectro do “imoral” e do “descartável”. Ora, eu quero entender é porque, afinal de contas, ele sentiu-se no dever de dar conselhos desta ordem. De um modo bem mais sutil, o mercado de saúde está dando conta do assunto e, se vivemos sob o seu imperativo, a ciência – por outro lado – não deveria estar no lugar de questioná-lo em detalhe e garantir que se observassem princípios éticos e universais, visando a preservação da dignidade humana?

Por isso a ideia do estágio in loco não me desagrada e, pela experiência vivida, as pessoas com síndrome de Down têm uma característica afetiva marcante, provavelmente determinadas por uma expressão demasiada do sistema límbico, responsável pelas emoções humanas e suas manifestações. Acho que o contato real seria benéfico para ele, assim como é para a sociedade como um todo. Ou acaso estamos dispensando o afeto das relações humanas em prol… em prol do que mesmo?

Há alguns anos atrás, conversando com um amigo envolvido na causa ambientalista, ele contou-me uma história muito tocante, que acredito aplicar-se neste caso também. Ele disse que desde o secundário – hoje ensino médio – sentia uma necessidade de engajar-se com as questões ambientais e de conservação, mas a vida foi dura com ele e, por razões de sobrevivência, ele só conseguiu ser um ambientalista técnico, ou seja, conhecia muito as razões do que defendia, mas muito pouco “o que” defendia. Entre os focos de sua atenção, no entanto, as baleias eram os seres que ele mais admirava. Sabia tudo sobre baleias, espécies e acredito que até a quantidade de cada uma delas no mar. Um dia, porém, convidaram-no a uma expedição em que encontrariam baleias de verdade, não sei de que espécie. E então ele pode mergulhar e ir encontrá-las como nós encontramos cães e gatos pelas ruas, de tão próximos. E então a mágica se deu. E não se daria se as baleias não estivessem mais ali.

A confluência poética de Jennifer Franklin

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Estou entre as pessoas que acredita que, acima de qualquer outra coisa, a literatura é uma forma de conhecimento. Penso que isso pode ser especialmente verdadeiro quando se trata de poesia. Em minha experiência (não seria tolo de falar por mais ninguém), a leitura da poesia funciona como tomar-se emprestados os olhos de outra pessoa, apropriar-se de seus sentimentos, sua capacidade perceptiva e sensibilidade. Dessa forma, a interpretação da poesia pode extrapolar em muito a análise de seus próprios aspectos formais, ainda que deles seja dependente em seu processo criativo.

Assumo a revivificação da ideia de Werner Jaeger de que a poesia é psicagogia, matriz de conversão espiritual imbuída de universalidade e vitalidade. Talvez seja por isso que custe tanto a entender como podemos prescindir, no Brasil, do conhecimento de poetas fundamentais até mesmo para a literatura do séc. XX e possamos permanecer aparentemente à margem não do universal, mas do universo propriamente dito. No caso da poesia norte-americana, estou falando de poetas premiados como Robert Lowell, Adrienne Rich, Anne Sexton, Robert Frost, entre muitos outros. Assim, é só por fatalidade que podemos antever a presença de uma nova geração de poetas e escritores, já que grande parte das editoras está atualmente empenhada em outra espécie de publicações.

Marcada desde meados do séc. XX pela dicotomia impessoal/confessional (principalmente na obra de T. S. Eliot e Wallace Stevens de um lado e Robert Lowell e Sylvia Plath, de outro) a poesia norte-americana contemporânea, assim como grande parte da poesia ocidental, chega ao séc. XXI de forma multiversa e simultânea. Os movimentos culturais posteriores ao modernismo não apenas multiplicam-se, mas ramificam-se e derivam para matizes muitas vezes indistinguíveis. Ao passo que a geração beat consolidou a libertação formal, nas universidades o estudo da poesia mantém vivo tanto o interesse nos clássicos como se relaciona mais abertamente com novas formas expressivas, como não poderia deixar de ser. Poeta ainda pouco conhecida no Brasil, Jennifer Franklin unifica formação clássica e expressividade intimista para dar voz a uma experiência de vida absolutamente pessoal: a experiência de uma maternidade impactada pela realidade do autismo.

Conheci a poesia e um pouco da biografia de Jennifer através do livro do jornalista norte-americano Andrew Solomon, Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade, publicado em 2013 no Brasil pela Companhia das Letras. A partir de um pequeno trecho de sua poesia, transcrito por Solomon em seu livro, busquei encontrá-la em outras fontes, até chegar ao seu chapbook Persephone’s Ransom, disponível – em inglês – na Amazon.com e na editora Finishing Line Press. O livro integra uma obra maior, ele seria a segunda parte de um conjunto mais amplo de poemas, ainda inédito, Daughter.

Persephone’s Ransom é um momento especial em que a autora faz confluir sua poética anterior, marcada pela influência de uma poesia mais estudada e da ekphrasis, com os momentos cruciais da descoberta e convivência com o autismo de sua filha. No livro, os arquétipos da mitologia grega criam uma espécie de relevo tátil através do qual Jennifer expressa seus sentimentos mais profundos e atravessa uma experiência de perda e recomposição, que ela compara ao mito do rapto de Perséfone e dos ciclos que ele impõe ao mundo.

Correspondi-me com Jennifer muitas vezes na tentativa de traduzi-la para o português e também a fim de compreender melhor sua dicção e biografia. Apesar de ela ter iniciado a carreira literária antes mesmo de ser mãe (ela diz que ainda na adolescência, aos quinze), a realidade do autismo, diagnosticada aos dois anos de idade de sua única filha, impôs-se como temática visceral em sua produção. A maternidade e a relação com a filha não são seus únicos motivos, mas mola propulsora da poética que vem construindo em uma carreira que começou em 1996, na The Paris Review. Depois disso, passou por diversas revistas literárias como a Antioch Review, Gettysburg Review, Pequod, Southwest Review, Western Humanities Review, New England Review, The Nation, Salmagundi, Boston Review e Guernica; ela também chegou a ser finalista de diversos premiações nos Estados Unidos, tais como o Gerald Cable Book Award, o Autumn House Press Prize in Poetry e o ABZ Prize in Poetry.

Após alguns meses nos quais trocamos muitas impressões, nunca podemos chegar a um ponto de mútua satisfação para dar por encerradas as tentativas de tradução. Em dado momento, por uma leitura casual de Jorge Luis Borges, chegamos ambos à conclusão de que os poemas seriam melhor apresentados se mantidos no idioma original. No prólogo de Para Las Seis Cuerdas, Borges diz que “toda lectura implica una colaboración y casi una cumplicidad” e no de El Oro de Los Tigres que “para un verdadero poeta, cada momento de la vida, cada hecho, debería ser poético, ya que profundamente lo es.” Para ele, a poesia só é traduzível como recriação, jamais por dizer respeito a um sistema de códigos linguísticos. Trata-se de uma expressão enraizada na pessoa e realizada em sua língua materna. A um determinado ponto, ficou claro que traduzir os poemas de Jennifer implicaria em revivificar momentos cruciais e absolutamente pessoais de sua vida, coisa que é definitivamente impossível porque na experiência íntima não existe nunca um “como se”. De outra forma, seria inevitável esbarrar nos próprios limites da expressão quando fosse mais proveitoso ao leitor descobrir sua poesia conforme originalmente expressa.

Em My Herculaneum, publicado na Boston Review, que corresponde aos poemas de sua segunda fase, se encontram versos como estes: “When I arrived, I thought I knew how to live./I saw my future as clearly as new frescoes/On stone. What I didn’t have, I made do without -/Or invented: the trompe l’oeil mosaic in the summer/Triclinium for a real garden. (…)”, nos quais se pode perceber claramente a confluência do estilo descritivo no qual teve formação (nas Universidades de Brown e de Columbia, onde cursou Inglês e Escrita Criativa – Cum Laude, 1994) com alguns de seus principais interesses estéticos e culturais: a mitologia e história greco-romanas e a representação artística, unificados através da temática da maternidade e do conhecimento travado com o autismo da filha.wounded_amazon

Wounded amazon (integrante do chapbook  Persephone’s Ransom), segundo Jennifer, foi criado a partir da reação intensa que a filha, por volta dos dois anos de idade, manifestava em relação a Statue of a Wounded amazon, localizada na galeria de escultura greco-romana do Metropolitan Museum of Art, que mãe e filha frequentavam desde sua época de bebê, para as sessões de leitura e narração de histórias. Nele, pode-se ver a aproximação crescente entre a forma descritiva e o tom confessional, ainda mais marcante na última parte de Daughter: “With her serene, slanted face that will/Not betray pain, I can look at her again./You always loved her—the first work/Of art you knew by name. Each week/You brought me to her. Distracted/By joy at seeing her tall marble form,/I didn’t realize you were showing me/Whom I needed to become to protect/You from all you did not understand (…)”.

Nessa última parte de Daughter é onde está, talvez, o mais impactante entre todos os poemas que pude conhecer, sobretudo pela delicadeza e profundidade emocional. I would like my love to die, foi também publicado na Guernica Magazine, onde pode ser lido integralmente, representa um momento de purificação formal no trabalho de Jennifer, no qual ela se expressa em relação ao envolvimento com a filha de forma mais direta, sem motivos adjacentes e dando maior vazão aos próprio aspectos emocionais. O poema tem como base um verso de Samuel Beckett, “je voudrais que mon amour meure”, a partir de onde é desenvolvido: “I would like my love to die/Or at least that I didn’t love you/So much. If I could turn my heart/To winter, I wouldn’t need to do this/To the earth (…)”.

Seria absurdo pretender que, em uma apresentação rápida como esta, pudesse demonstrar muito mais do que está aqui. A ideia fundamental reside tão somente em desvendar a trajetória de uma poeta ao mesmo tempo delicada e vigorosa que, confrontada com uma realidade inesperada, exacerbou-a como significação poética de grande intensidade expressiva. Sua obra obteve um facho de luz através da monumental obra de Andrew Solomon sobre o amor e a condição humana. Talvez, por isso, seja possível compartilhar de sua aventura como quem pode prestar atenção na riqueza de sua experiência individual, como se através de seus próprios olhos, projetando-se com a potência dos mitos aos quais se remete para amplificar ainda mais nossa compreensão universal e atemporal do humano, tão embotada pela aridez a que, enquanto leitores, temos sido frequentemente expostos e/ou mantidos.

Mídia e deficiência: quando e como

Entre os próximos dias 13 e 15 de agosto, dentro da programação do VI Encontro Internacional de Tecnologia e Inovação para Pessoas com Deficiência, acontecerá uma série de mesas redondas destinadas a debater assuntos relacionados aos disability studies, ou estudos sobre a deficiência. A última delas, na tarde do dia 15, abordará os temas comunicação e deficiência.

Ao lado de Jairo Marques, jornalista que atua na Folha de São Paulo e de Lara Pozzobon, produtora do Festival Assim Vivemos e diretora da Lavoro Produções Artísticas, debateremos como esses dois assuntos relacionam-se entre si e também com outros assuntos, em suas diferenças e peculiaridades. Não são, infelizmente, tão comuns as iniciativas de debater as relações entre comunicação social e o tema deficiência e, por isso mesmo, há uma gama bastante grande de temas a abordar.

Desde que, em 2003, a ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância e a Fundação Banco do Brasil trabalharam em uma pesquisa quantiqualitativa sobre a emergência das temáticas da deficiência nos meios de comunicação, provavelmente nenhum trabalho tão abrangente e sistematizado foi realizado nesse sentido. Isso não significa que trabalhos pontuais, entre institucionais e acadêmicos, não tenham sido realizados no período, embora o âmbito predominante dos estudos sobre deficiência venha se configurando mais em outros campos do conhecimento, especialmente nas ciências da saúde e ciências sociais. O que se verifica, em decorrência disso, é a existência de lacunas consideráveis a respeito do conhecimento que se dispõe sobre a relação entre as duas temáticas.

Seria improdutivo procurar recuperar todo o apanhado e os achados daquela pesquisa sem que se pudesse atualizá-los efetivamente para, a partir daí, cotejá-los, embora esta seja uma demanda interessante a muitos atores sociais, como governos, movimentos sociais, associativos, etc. Por outro lado, os dados que procuramos levantar são bem menos específicos e realizados em uma metodologia diversa, tendo em vista a disponibilidade presente de novos recursos de tratamento e recuperação de informações, especialmente daquelas publicadas em meio digital no ambiente internet. Já do ponto de vista conceitual, as diferenças são menores, a não ser aqueles conceitos e realidades sociais que, no espaço de uma década, foram substancialmente modificados, como conceitos educacionais, dispositivos legais e outros.

Dessa forma, antes de partir a uma pormenorização maior, é preciso comentar que os dados obtidos tem caráter predominantemente quantitativo. Ainda que sua expressão permita algumas especulações de natureza qualitativa, isso apenas ocorre pela sua natureza de macroindicadores. Trata-se, portanto, não de um ponto de chegada de uma pesquisa extensiva, como a realizada pela ANDI em 2013, mas de um corte específico em uma realidade específica, talvez ponto de partida para análises e estudos mais detalhados e cuidadosos.

De um modo bastante geral, a relação entre meios de comunicação e as temáticas relacionadas à deficiência poderiam ser analisadas sob diversos critérios como, por exemplo, a forma, o conteúdo, abordagens, predominâncias conceituais e outros. No caso dos dados que queremos apresentar, nos fixaremos basicamente no tipo de ocorrência temática nos meios de comunicação e seus números no espaço preciso de tempo correspondente a um ano, considerando as informações disponíveis e indexadas pelas ferramentas de busca disponíveis atualmente e exclusivamente em informações da espécie “notícia” e “reportagem” e desconsiderando, para todos os efeitos, aquelas informações e conteúdos cujos proprietários reservam-se ao direito de organizar e disponibilizar por meios próprios.

Os dados exibidos no gráfico a seguir mostram exclusivamente a predominância temática de conteúdo jornalístico em relação aos temas transversais à questão da deficiência obtidos no período de tempo correspondente a junho de 2013 e junho de 2014, ou seja, são números absolutos de ocorrência obtidos em séries de recombinação pesquisados através do mecanismo Google News ©.

Além dos dados acima, obtivemos outros por cruzamentos que serão apresentados durante a mesa redonda, mas que necessitam ainda de alguma depuração, apesar de representarem algumas situações de forma bem clara, principalmente no que diz respeito ao conhecimento acerca da legislação interessante ao tema, educação e outros.

Em muitas análises jornalísticas e estudos acadêmicos sobre a relação entre os assuntos deficiência e comunicação social, é bastante presente a concepção de que o tema e subtemas são veiculados especialmente em datas comemorativas ou em função de outras variáveis menos conhecidas. Isso não explica, por exemplo, como o maior avanço legal obtido pelo movimento social das pessoas com deficiência, a aprovação com efeito constitucional da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, continue subalternizado em relevância e ocorrências a temas secundários. Caso compare-se os dados com outros temas – como saúde e educação, por exemplo – as diferenças fazem-se gritantes.

O que desejamos pensar a respeito disso sempre será menos importante que a realidade presente. Se os meios de comunicação produzem a informação ou, mais simplesmente, repercutem-na, isso ocorre a partir de uma determinada realidade social. O que os dados obtidos talvez nos indiquem seja onde a sociedade e o Estado poderiam atuar mais para concretizar um ambiente acessível e inclusivo. Mesmo que o tema venha continuar a ser, de certo modo, objeto de interesse mais ou menos restrito a instituições e agentes sociais envolvidos diretamente com as pessoas com deficiência, é preciso considerar que há mudanças em curso que são tanto resultado de políticas públicas governamentais como da ação social e civil propriamente ditas. Caso o conteúdo dos meios de comunicação sejam pensados como reflexo dos movimentos que acontecem internamente à sociedade então a própria deve ser capaz de provocá-los a ponto de refletir uma democracia e um estado de direito para todos, o que parece ser o desejo central de todos agentes sociais interessados às temáticas da deficiência.

Um capítulo a parte mereceriam as formas, terminologias, conceitos e preconceitos ainda elaborados e redigidos pelo jornalismo a respeito das situações de deficiência. Esse tipo de análise, contudo, já é bem mais presente graças ao envolvimento de entidades de defesa de direitos e do interesse do campo jurídico e de ciências sociais. Mas, diferente do aqui cogitado, esse é um tema que trata do “como” ao invés do “quando” e do “quanto”, não que tenha menor relevância, já que dá conta do imaginário, das narrativas e da representação real e simbólica das pessoas. Um capítulo a parte que merece ser tratado com mais cuidado que o disponível neste momento e que faz fronteira aos limites da linguagem e de como dispomos dela para considerarmos uns aos outros.

Luto pelo Brasil

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Não sou adepto do luto, nunca fui, não consigo. Não costumo lamentar-me se as coisas não dão certo ou se acabam. Se não dão certo, não deram. Se acabou, já era. Ponto final. Mas há poucos dias percebi como eu estava gravemente errado e percebi da falta verdadeira que o luto faz. Que essa mania de hiper ou autorresolução pode ser falaciosa e, mais que isso, perniciosa.

Toda essa reviravolta se deu comigo após assistir a um filme de animação japonês chamado “O Túmulo dos Vagalumes”. Os traços delicados de Isao Takahata ao desenhar os personagens do filme, produzido pelo Studio Ghibli em 1988, a princípio até pareciam que poderiam minimizar o impacto do enredo, mas não puderam. No Japão, o filme foi motivo de intensa comoção nacional na época de seu lançamento. É claro que seria, pois ainda estão vivas as pessoas que passaram pelos bombardeios norte-americanos durante a Segunda Guerra mundial e o filme mostra o que sabemos, mas às vezes parece que desejamos esquecer, porque o passado não é sepulto jamais na memória. Ali ele permanece vivo, mas ainda assim portando consigo a oportunidade de ser elaborado, reescrito e ressignificado. Em caso contrário, ele costuma permanecer no seu estado original, sempre muito ameaçador e doloroso.

Sobre o enredo do filme não há muito a contar, exceto de que seu final é trágico, porque as guerras e as respectivas mortes e descaminhos indevidos são as maiores tragédias que os seres humanos já conseguiram causar aos seus semelhantes. É que, ao envolver crianças, as tragédias sempre ficam mais evidentes e comoventes. É como se através delas fossem extirpadas possibilidades do futuro, como se arrancadas para sempre do tempo, inexoravelmente.

Eu penso que, se do ponto de vista pessoal, o luto é uma necessária etapa da compreensão que precisamos para seguir adiante, socialmente ele também deveria ter esse efeito. Mas, ironicamente, parece que “o social” não gosta muito de encarar perdas. É natural. Isso exige o enfrentamento de problemas reis e não seu mascaramento ou ocultamento. Quando isso acontece com os outros, então, mal merece um complacente resmungo, que dirá um luto verdadeiramente sentido.

Nesses termos, qualquer um pode concluir que o Brasil – talvez por ter incorporado muito fortemente a crença de que é um país feliz, do carnaval, etc. – é mesmo um lugar sui generis. Aqui conseguimos lamentar mais o fracasso da seleção de futebol na Copa do Mundo que o horror mascarado (ou nem tão mascarado) na escrita da história desta peculiar localidade geográfica.

Assim, caso alguém pense em questionar com seriedade o impacto histórico de fatos como escravidão ou do (ainda presente) genocídio indígena, por exemplo, logo é desacreditado como revanchista, antiprogressista ou adjetivos correlatos. Isso acontece tanto para feridas antigas como para recentes, como os escândalos de corrupção e a respectiva impunidade, devastação ambiental e violências de toda a espécie, que em seu conjunto conformam uma cartografia indesejável, mas também inocultável de todo.

Há mais de um ano já, em junho de 2013, muito mais que algumas pessoas mascaradas interessadas em ir à desforra de algo aparentemente ainda impreciso (isso mesmo passado mais de doze meses) foram às ruas em protestos que aconteceram em muitos lugares do país, das grandes cidades ao pacato interior. Não havia exatamente um tom de revolta popular, mas o início do que talvez poderia ser um movimento de luto autêntico e inédito, ainda que não de luta social declarada. Então, interrompido por pressões políticas diversas e narrativas esdrúxulas que implicaram em sentidos artificiais e impositivos, o cortejo desfez-se. Mas bem mais cedo do que deveria, isso pelo menos na minha opinião pessoal.

É por essa razão que o lamento da população negra a respeito da chaga mal resolvida da escravidão continua a ecoar nas periferias, onde – não curiosamente – vive a maioria dos descendentes daqueles que foram, por 388 anos, pessoas escravas e que hoje, 126 anos depois, continuam ocupando a área de serviço da sociedade, como demonstra recente pesquisa do Istituto Ethos e reportagem da Folha de São Paulo. É a mesma coisa com a população indígena, que continua sendo furtada e violentada em seus direitos fundamentais com a complacência e até mesmo conivência institucional e governamental. E é também, inclusive, o silêncio da torcida da seleção de futebol, que viu frustrada a promessa da sua grande festa, no hexa “que já estava vindo”. E o da população em geral que, diante de um período eleitoral que avança irrefreavelmente, ensaia um apoio tímido a candidatos políticos que insistem em perpetuar um tom político de progresso ufanista ou de revanchismo barato, mantendo as mesmas concessões de sempre, seja à hegemonia dos partidos de centro ou às agendas mais conservadoras de setores com promissores redutos eleitorais, como o dos setores religiosos, por exemplo.

É provável que o dissenso que foi às ruas em 2013 não retorne em 2014, como alguns esperaram que acontecesse antes da Copa do Mundo, ainda mais depois de que legislação repressiva foi instituída no âmbito do legislativo e os poucos remanescentes dos manifestantes perseguidos a exaustão e criminalizados. É que o dissenso foi se tornando motivo de outro dissenso e assim por diante, até sua dispersão final, como se uma ideia política pudesse esfarelar-se em meio gás lacrimogêneo das ruas e ao cotidiano da vida das cidades e tornar-se um tipo de desolação social ressentida. E assim deram-se e dão-se os fatos. Suspendemos a luta incipiente pela ausência de luto e pela falta de expressão das verdadeiras causas do incômodo social que continua a assolar a nação. No final, melancólico como os finais de qualquer coisa, vemos as imagens do nosso próprio futuro desperdiçadas em cartas bem conhecidas do jogo político.

Pelo que vai acima, eu quero acreditar que o luto que dava amostras de enfim transparecer no rosto de milhares de pessoas bem poderia ser retomado (afinal, o que mudou de lá para cá?), ainda que não retorne a luta (pelo menos naquele modelo de lutas) que se viu em junho de 2013 e que acabou por interromper um processo histórico com o qual a sociedade brasileira parece nunca querer encontrar-se, que é justamente o de reparar os próprios erros a partir de um esforço de compreensão (e não alienação) social. Ou então, pelo menos, que sua presença, a desse luto coletivo ou social, seja incorporada na escrita dos períodos históricos que há entre uma e outra copa de mundo de futebol e, claro, carnavais anuais e eleições periódicas. Quero dizer, um pouco de luto no flow do país do futebol e do carnaval não há de matar ninguém, não é mesmo? Quem sabe até pode evitar outras tantas perdas e tragédias.

Tristes clowns

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Depois de muitas décadas na minha vida, voltei a pisar no piso esparramado sob a lona vermelha de um circo de rua. É uma experiência bem interessante para pessoas da minha idade, que provavelmente viram os circos na época em que até tigres e elefantes revezavam-se no picadeiro, assim como para as crianças que, por sua vez, podem ver um espetáculo que é (ou pode ser, isso depende do ponto de vista) encantador justamente pela imperfeição dos números, algo bem diferente das criaturas renderizadas que hoje povoam e “divertem” o nem um pouco pequeno mundo dos pequenos.

Bem diferente dos circos teatrais, os circos de rua guardam uma aura de coisa mambembe, viajante. Ainda lembro que há muitos anos atrás o sonho de muitas crianças era fugir atrás do circo, que parecia um lugar recheado de magia e espetáculo. É claro que uma simples visita fora do horário de espetáculo pudesse mudar um pouco a perspectiva dos pretendentes a acompanhantes, porque ali o glamour escasso de malabaristas e acrobatas estava desnudo e a vida dos artistas circense revelada em sua realidade, ensaios intermináveis e trabalho pesado. Sem falar na tristeza inerente às feras enjauladas, coisa que felizmente não se vê mais hoje.

Mesmo assim, acho que eu não estava preparado para ir ao circo. Não que eu imaginasse reconstituir uma nostalgia infantil e frustrar-me de alguma maneira em função disso, não é isso. É que não imaginei encontrar o que acabei encontrando. Não falo de nenhum número magistral ou coisa assim, mas do comportamento humano, que consegue ser sempre surpreendente, embora nem sempre no sentido positivo do termo.

Acho que para compensar os custos de manutenção e obter o máximo lucro possível, os artistas do circo ou estavam apresentando-se no picadeiro ou revezando-se na venda de inúmeros produtos entre a plateia. Refrigerantes, pipocas, balões, brinquedos e mais uma dezena de outras bujigangas eram vendidas logo na entrada e, depois, em intervalos do espetáculo. Em meio ao barulho ensurdecedor e pisoteamento de pés, os pobres pais sacrificavam seus vinténs para o regozijo da criançada. Então acho que foi nesse momento que imagino ter visto um retrato mais ou menos apavorante do futuro, bem diante dos meus olhos. Pensando bem, atrás de mim a cena se repetia também. E de ambos os lados, idem.

Eram pais acuados pelos filhos que, aos berros, exigiam que se comprasse exatamente tudo o que lhes passava pela frente e era oferecido. Filhos que eram transportados pelos pais, mas não acompanhados por eles, porque os adultos desses tempos hi-tech parece que não podem deslocar um instante os olhos para o mundo real, porque algo imperdível pode acontecer a qualquer instante numa tela de 5 por 10 cm. É o imperativo da curtição, como se bem sabe.

Não é que os números – honestos e caprichados – estivessem desinteressantes, mas era irresistível acompanhar as pessoas que, em sua maioria, nem olhavam para o picadeiro, mas pareciam sugadas para a tela das suas geringonças, gravando tudo (mesmo que houvessem pedido para que não se fizesse isso), mas assistindo a nada. Até agora estou tentando entender porque uma mãe de duas crianças que comiam pipoca compulsivamente filmava a mesmíssima cena que o pai das crianças filmava também, cada qual no seu smartphone. Será que eles pretendem fazer um concurso de borrões sem noção? E as crianças ali, comendo e berrando.

Tentei por um instante me transportar no tempo e imaginar aquelas crianças já adultas em um ambiente de trabalho, por exemplo. Ou, adolescentes, numa sala de aula, talvez. Então fica muito claro como é fácil e inútil exigir que as escolas evitem a propagação do bullying. É que se os pais não estão interessados nem nos próprios filhos, como é que estes irão entender as necessidades dos outros ou, pelo menos, perceber a necessidade de conviver socialmente com o mínimo de harmonia e respeito mútuo?

Ao fim do espetáculo, a imagem era dantesca. Crianças levavam nas mãos muito mais do que podiam carregar, quando não simplesmente depositavam no chão ou em qualquer lugar o lixo criado imediatamente após o incontrolável gasto p(m)aterno. Dessa vez, consegui evitar ter uma nova cena do futuro projetando-se em minha mente, afinal o show já havia acabado e era hora de ir embora. Mas era inútil tentar esquecer. O mais incrível é que ainda achamos melancólicos os clowns que sujam-se do pó do picadeiro para extrair (ou será doar?) um pouco de riso dos outros. Não é que esteja faltando espelho, aí estão os selfies para isso, não? É que nós, adultos, somos muito seletivos em nossas escolhas. As crianças que o digam.

Essas pessoas com deficiência

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“Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa./Ninguém é igual a ninguém./Todo o ser humano é um estranho ímpar.”
Carlos Drummond de Andrade, Igual-Desigual, in A Paixão Medida (1980).

Elas já foram deficientes. Excepcionais. Portadores de deficiência. Portadores de necessidades especiais. Agora, ou melhor, desde que a Convenção sobre Os Direitos das Pessoas com Deficiência foi promulgada com status de emenda constitucional, em 2008, são apenas pessoas com deficiência. Mas nem assim cessou o preconceito e superou-se a estigmatização.

Como parece impossível que sejam pessoas simplesmente nomeadas ou apontadas em um contexto social heterogêneo, a redação jornalística contemporânea vem encontrando novas e inadvertidas forma de estigmatização. Pessoas com deficiência, para efeito de referência, são “essas pessoas”. É o que se encontra invariavelmente em 99% dos textos jornalísticos e reportagens sobre qualquer tema envolvendo a deficiência. Por que não simplesmente usa-se “eles”, “nós” ou os demais pronomes pessoais e oblíquos disponíveis no vernáculo é algo ainda a ser melhor compreendido.

O problema é que, até chegar ao ponto de compreender o que acontece, muito do que está oculto e embutido na linguagem e na forma como ela é empregada emerge, quando não simplesmente salta aos olhos. Ou até mesmo agride.

Isso é o que acontece, por exemplo, quando se procura usar qualquer tipo de deficiência como um qualificativo, ou até mesmo uma metáfora. Ser cego, surdo, autista ou ter uma deficiência intelectual não são experiências comparáveis, razão pela qual o uso de qualquer um dos termos (e qualquer outro tipo ou denominação e deficiência) resvala quase sempre para um significado depreciativo, o que empresta e corrobora um sentido negativo para as condições, absolutamente normais na experiência humana.

Desde que foi introduzida por aqui a controvertida ideia do “politicamente correto”, a situação não melhorou nem um pouco, porque o cuidado excessivo acaba derivando para outra forma de discriminação e exageros igualmente estigmatizadores. Uma dica elementar para alguém entender se está se referindo de forma efetivamente preconceituosa, ao usar uma metáfora ou comparação, é verificar se o termo escolhido é elogioso ou caluniante. Se for caluniante ou prestar-se a um xingamento, não há então do que duvidar, é preconceito.

O “essas pessoas”, no entanto, surge em muitos outros contextos e, na maioria das vezes, de forma absolutamente gratuita. Seja num anúncio simples de um serviço oferecido às pessoas com deficiência ou uma situação envolvendo grupos sociais, quando se refere às pessoas com deficiência como “essas pessoas” o que se obtém é uma diferenciação automática em relação aos demais e uma uniformização de identidades.

Como se de um contexto social múltiplo e diversificado elas fossem arrancadas ao grupo homogêneo de seus iguais, quando é óbvio pensar que, como quaisquer outras pessoas, nem mesmo pessoas com a mesma deficiência são pessoas iguais, imbuídas de uma personalidade única. Além disso, a deficiência é uma expressão decorrente da relação do indivíduo com o meio social, não é um conceito ambulante.

Talvez alguém faça a objeção de que é apenas uma tentativa de agrupamento, inocente e inofensiva, que aqui há mais politicamente correto. Basta substituir o termo por outros e proceder a verificação. Se, em um texto, por exemplo, sobre a população negra, gays ou outras minorias se substituísse o coletivo por “esses negros”, ou “esses gays” ou mesmo “essas pessoas” o texto soaria claramente preconceituoso, não? Por que então, com as pessoas com deficiência, poderia ser diferente?

Cada pessoa é uma pessoa e cada pessoa com deficiência é uma pessoa também, por isso utilizar a expressão “essas pessoas” na redação jornalística ou em qualquer outra é um tipo de uniformização sem sentido. Caso se tratasse de animais, poderia dizer-se “essas vacas” ou “esses dromedários”, mas ao tratar-se de pessoas nunca é demais lembrar que ninguém é igual a ninguém e que tomar o sujeito pela característica anula o que há de mais precioso nele, ou seja, sua própria, implícita e incomparável humanidade.

Dramalhão simiesco

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Eu devia ter imaginado, mas acho que não quis acreditar que transformariam o excelente filme de ficção científica que fora Planeta dos Macacos – A Origem num dramalhão simiesco como se viu em Planeta dos Macacos – O Confronto. Na verdade, achei que não conseguiriam tal feito, porque o argumento todo já estava pronto e a presença magnética de Andy Serkis interpretando o líder Caesar deveria indubitavelmente garantir algumas horas de confortável alienação mundana.

Não foi o que me aconteceu. Pelo contrário, a poltrona do cinema parecia querer me enxotar dali o tempo todo. Principalmente quando os olhares dos macacos pareciam querer inspirar comoção e sentimentos evoluídos. Por ter acreditado que o roteiro poderia resolver satisfatoriamente o embretamento em que colocou o líder Caesar e seus comandados, resisti. Mas, infelizmente, não foi o que se confirmou. Trata-se, talvez, de uma continuação que por sua vez também não resistirá ao tempo. Talvez, nem à temporada de exibição.

Resvalar na pieguice parece às vezes ser uma regra de ouro das continuações. Lamentável que um dos personagens mais interessantes do cinema de ficção científica dos últimos anos, o símio Caesar, tenha sido, em Planeta dos Macacos – O Confronto, reduzido de líder revolucionário a um reles macaco chorão. Não será a primeira vez que um personagem auspicioso é derrubado de seu possível engrandecimento pela necessidade de preenchimento de cenas. Eu pensei que Caesar resistiria a isso tudo, mas a concepção lacrimosa em que se investiu na continuação parece que desandou com a “mística” do antropoide.

Assim, dessa forma melancólica, saí do cinema com a nítida impressão de tempo perdido e dinheiro mal empregado. Não que eu estivesse esperando exatamente pela reedição de um clássico do cinema, mas é que o reboot de Planeta dos Macacos – A Origem foi um filme surpreendente, a começar pela expressividade estupenda que o ator Andy Serkis emprestou a Caesar e, a seguir, por um roteiro impactante e repleto de dilemas morais comuns aos parentes ditos mais evoluídos, o que colaborou substancialmente para o engajamento dos espectadores. Pelo menos desses que usam moeda para obter as coisas.

Seja pelo início expresso, no qual se explica a propagação de um vírus que dizimou meia humanidade ou mais e colocou o mundo de ponta a cabeça, ou pelo desenvolvimento arrastado, o filme não trás descobertas, revelações, insights ou surpresas. E aquilo que seria razoável supor, de que os macacos evoluiriam culturalmente a partir da aquisição de habilidades inteligentes, não acontece. Eles brutalizam-se, na verdade. E o filme todo caminha nessa direção, colocando em oposição o que se poderia chamar de duas lideranças proto-políticas, antes indissociáveis, o líder Caesar e o truculento Koba, animado pelo ator Tony Kebbell.

Enquanto um haveria colecionado doces lembranças de sua criação por um humano afetivo, conforme o exibido no filme anterior, o outro fora exposto a toda sorte de experimentos e violências, razão pela qual não consegue confiar nestes nem por um instante. O momento em que eles discutem e tomam caminhos distintos na relação com os humanos é provavelmente o ponto alto do filme. Se há uma cena impactante na sequência, é esta em que Koba mostra ao então amigo e líder as cicatrizes que os amistosos humanos cravaram em sua pele e explicita as razões de sua desconfiança para com aqueles.

Apesar de que a violência de Koba depois disso deslanche descontroladamente, seu gesto acaba por querer demonstrar que seria inútil empreender contra os mais poderosos e que a revolta acaba por voltar-se contra os próprios revoltados. Esse argumento, entretanto, não salva o herói macaco Caesar de ceder totalmente à condição de espécie subalterna, mesmo sendo ele o exemplo máximo de sua própria espécie. O impasse subjacente à trama, portanto, equivale ao que seriam eleições na floresta, nas quais nem sempre vence o com mais razões e nem perde o menos capacitado. E o final, sangrento e explosivo, não deixa nada a desejar a outros filmes com seres energúmenos, animais ou não. A bem da verdade, se o filme fosse reclassificado de “ficção científica” para “ação” ou “aventura” pelo menos um pouco de justiça seria feita ao gênero original da série.

Assobie essa melodia

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Esses dias topei sem querer com uma lista inusitada na internet, onde listas de qualquer coisa proliferam alucinadamente. Era uma lista com dez assobios musicais que não desgrudam da cabeça. A seleção foi feita pela Rolling Stone e, entre os 10 assobios grudentos, apenas um brasileiro na lista. Coube a Gilberto Gil o feito, pela sua gravação de Esotérico, registrada no álbum Um Banda Um, de 1985.

Achei uma injustiça tremenda, porque de cara lembrei-me de pelo menos outros 5 ou mais assobios celebrizados por cantores e compositores brasileiros que não fariam feio numa lista dessas ou até poderiam sobrepujá-los no quesito “grudento”, senão (felizmente) em outros critérios musicais.

Na minha lista de assobios da música brasileira, mas não apenas para não contrariar os caras da Rolling Stone, constaria também o Esotérico de Gil, porque sem dúvida é um assobio que cai muito bem na melodia e na harmonia. A seu lado, para variar, caberia bem a companhia de Caetano Veloso, em pelo menos dois registros, ao que eu me lembre. O primeiro que me ocorre é sua fabulosa versão de For no One, de Lennon e McCartney, gravada no long play Qualquer Coisa, de 1975. Logo a seguir, por que não incluir também Você é Linda, gravada em 1983 em Uns?

Voltando um pouco no tempo, o que dizer então de O Vento, de Dorival Caymmi, assobiada e gravada pela primeira vez nos idos de 1949?

Dos baianos para baixo, logo ao sul, encontra-se obviamente Milton Nascimento e sua turma de clubeiros, em Minas. Em Cravo e Canela, gravado no seminal Clube da Esquina, de 1972, já se podia ouvir o assobio que repetiu em Bola de Meia, Bola de Gude, que ele mesmo só foi gravar em disco em 1982, no álbum Amigo.

Em Vida Noturna, de João Bosco e Aldir Blanc, gravada em 1976 no álbum Galos de Briga, o cantor e violonista mineiro introduz a noturna letra de Aldir em um longo e melodioso assobio. Lembrava dessa?

Elis Regina, com o assobio de Toots Thielemans, por sua vez gravou Você, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli em 1969.

Timidamente, como não podia deixar de ser, Chico Buarque também aparece nessa minha lista sem ranking, com um assobio quase furtivo em Futuros Amantes, de Paratodos, de 1993.

Luiz Gonzaga Jr, o Gonzaguinha, em Eu Apenas Queria que Você Soubesse, no álbum Coisa Mais Maior de Grande, de 1981, também está aqui.

Pulando algumas décadas e pensando em que está mais perto de mim, aqui no sul, lembrei-me de Vitor Ramil, que gravou no ano de 2000 o disco Tambong. Nele, a faixa Espaço tem como introdução um longo e melodioso assobio.

Os tribalistas Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, também assobiaram juntos em Mary Cristo, em 2002, ainda que bem discretamente.

A cantora Fernanda Takai, do Pato Fu, em parceria com Rodrigo Amarante, dos Los Hermanos, regravou do jovemguardista Demétrius a faixa No Ritmo da Chuva, para o especial sobre a jovem guarda da série Um Barzinho e Um Violão, de 2004, que conta com um trecho delicadamente assobiado por Rodrigo.

Igualmente recente, de 2010, o paulista Marcelo Janeci gravou um assobio na hiperexecutada Felicidade, do festejado Feito pra Acabar.

Toda essa história de gravar assobios na música brasileira data, porém, de muito tempo atrás. Consta que já em 1904 o trinado de Geraldo Magalhães já podia ser escutado em Meu Assobio, composta por Eustórgio Wanderley (parceiro de Chiquinha Gonzaga) e gravado mais ou menos nessa época, pela Odeon.

Refúgio dos maus cantores, o assobio pode ser tanto o meio de evocar uma melodia como de criá-la. Não é preciso dizer que, obviamente, os exemplos acima não se referem a maus cantores. Talvez isso ajude a demonstrar que se trata, provavelmente, do mais portátil, natural e espantoso instrumento musical, porque fabricado e transportado no próprio corpo.

Ele surge ou introduz melodias que nascem fáceis, especialmente de compositores da música popular. Afinal, talvez não haja mesmo expressão musical mais simples do que estas nascidas com a boca quase fechada, mas complexa a ponto de soar tão bem quanto o mais afinado instrumento. Então se, como eu, você canta mal a ponto de espantar a passarinhada, quem sabe assobiando..?

Transcender é preciso

Qual o limite de vergonha que um cidadão pode suportar em relação ao seu próprio país? Seja como for, nada, absolutamente nada, pode ser mais indigno do que ser enxotado da própria rua.

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A Copa do Mundo nem começou e já está insuportável. Não insuportável por ser uma coisa chata e cansativa (para muitos a quem se deve o mesmo respeito que se deve aos fanáticos por futebol ela é ambas as coisas), mas porque aconteceu o acaso de realizar-se em um país que não pode suportá-la. E isso, a cada dia que passa, fica mais evidente.

A recente recomendação expedida pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) de que, para preservar inclusive a própria segurança individual, moradores de rua devem desocupar o seu lar – as próprias ruas – e dirigirem-se a seguros confinamentos de gente miserável é das mais claras evidências que se pode perceber nesse sentido.

Mesmo que haja algum sentido e efetivo desejo protetivo na medida, pensar em tudo o que a envolve e seus significados sociais e políticos também é insuportável. Pessoas mais sensíveis não deveriam sequer pensar nisso ou, se possível, transcender as notícias de remoções humanas que não param de chegar, mesmo que isso signifique algum tipo de exílio mental.

Nessas semanas que antecedem o evento, venho tornando-me cada vez mais, para minha própria surpresa, um sujeito transcendental. Desejo transcender o evento e, se possível, o mês inteiro de junho e seus significados reais. Ou poderia exilar-me no país do futebol, no estado de exceção imposto pela FIFA, e crer finalmente que as medidas de gestão adotadas desde o anúncio da Copa são necessárias e até desejáveis. Afinal, como vai ficar a imagem do Brasil com turistas tropeçando em mendigos e crackeiros?

Não pega bem. Definitivamente, não. É preciso que haja outras soluções. É preciso o apoio de outras instituições para que tudo dê certo. E é preciso dar certo, mesmo que isso seja uma manchete de jornal com conteúdo também insuportável (de tão irreal). Aí estão os poderes de Estado, polícias e forças armadas para resolver o impasse e criar soluções para que se tenha um país enfim transitável, isso tanto no que se refere ao próprio trânsito quanto à segurança pública e outros incômodos ordinários e corriqueiros. O que isso traz embutido em si mesmo é melhor nem pensar muito. Melhor transcender e esquecer-se de quem está promovendo tudo isso.

Tenho alimentado nos últimos tempos, além do desejo irrefreável por transcendência, um intenso sentimento de vergonha. E de esperança, também. Esperança, no caso, de ser possível viver sem vergonha do que vem acontecendo com seres humanos de carne e osso como eu ou você, em função de um fetiche político ou de um delírio social de que o país tenha precisado em algum momento procurar mostrar ao mundo uma possível face pujante e rosada como de um bebê pronto para encarar o séc. XXI.

E pode mesmo fazer isso o Brasil, se quiser, mas não para agradar a ninguém ou fazer parecer às entidades internacionais e países com os quais mantém amigáveis relações comerciais. Perder a máscara de país em perpétuo vir a ser desenvolvimentista e assumir (talvez corrigir, quem sabe?) as próprias mazelas pode ser um bom começo. É uma oportunidade. Criada às avessas, mas ainda assim uma oportunidade. E uma esperança também. Nesse caso, eu apenas espero que não se transcenda essa esperança também, porque aí estaríamos noutro terreno, o da confirmação histórica, do destino e essas coisas desesperançadas que podemos dar, ou não, um basta final.

Qual o limite de vergonha que um cidadão pode suportar em relação ao seu próprio país? Seja como for, nada, absolutamente nada, pode ser mais indigno do que ser enxotado da própria rua. Mas essa é a proposta social que está sendo feita às pessoas que vivem na rua. É isso que estamos lhe dizendo com as bocas fechadas, olhos indiferentes e mãos impotentes, que seu lugar não é nem aí, em lugar nenhum. E que suas existências podem corroer a sociedade por dentro, mas não nossa imagem pública internacional. E, sob o argumento da proteção, o que temos a oferecer é que sumam da face da terra, que a festa da Copa não lhes pertence, como nada lhes pertence. E devemos salvaguardar os direitos daqueles que querem festejar, com exército inclusive, mesmo que à revelia dos direitos de todos os demais.

O que se pede às pessoas é que elas transcendam a situação e entendam que agora tudo é urgente e inevitável. E que vai ter Copa, sim, a qualquer custo. E que vivemos nessa democracia cautelosa e seletiva ditada mais pela economia e pelos poderes dos cartões de crédito que pela decência, essa abstração detestável. E dispendiosa.

É por essas e outras que estou providenciando as soluções para o meu dilema e recomendo que todos façam o mesmo. Vou torcer pelo Brasil e continuar a ter esperança nele, porque isso é doença inata, mas momentaneamente vou procurar transcender o real, o meu e de todos os outros que não alcanço com olhos ou as mãos, mas nem por isso renego que sejam meus concidadãos. A solução que encontrei é oriental e nobre: a transcendência. Não é bem melhor que remoção?