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Antropofagia e dissimulação da identidade indígena no RS

Los ultimos charruas – Edmundo Prati, Gervasio Furest e Enrique Lussich

Na imagem abaixo, não estão altivos como na escultura acima, instalada no Parque do Prado, em Montevideo, ou nas pinturas de Jean-Baptiste Debret, nas quais se parecem a guerreiros de um exército bárbaro prestes a sitiar Roma. Pelo contrário, a fotografia de data, proveniência e modelos incertos inspira mesmo é piedade pela imagem acanhada de uma família sendo transportada no que parece ser um navio sob a observação de uma pessoa de aspecto europeu, branca, talvez um militar ou tripulante.

Imagem de autoria e data desconhecidas
Chef de charrues sauvages – Jean Baptiste Debret

Às duas se atribuem figurar imagens dos “charruas”, mas a minha impressão é de que nenhuma das duas representa a realidade. Uma é ótima; a outra, péssima.

Este, aliás, é um problema imenso em relação às etnias originárias do sul: de qual realidade estamos falando ou podemos falar? Como distinguir entre descrições e documentos pouco esclarecedores do que desejamos representar?

Outra imagem muito associada aos últimos charruas parece corresponder, na verdade, a indígenas aprisionados no alto Amazonas. Uma imagem deprimente principalmente se confrontada às principais características consagradas àqueles povos: valentia, bravura, etc, etc, etc. 

Artefatos de melancolia, objetos políticos – diria Susan Sontag.

Imagem de autoria e data desconhecidas.

O que me parece curioso, todavia, é que essa antítese, o par “herói histórico”/”vítima histórica” às vezes não constitui uma oposição, mas muito mais uma confirmação. O herói sendo vitimado e seu estatuto que advém da glória fatal do seu sacrifício.

O pareamento não consiste uma novidade. Enquanto vivos, raramente os mitos desfrutam dos privilégios gozados por seus representantes e sacerdotes post mortem.

Em oposição, não são poucas as personalidades póstumas que em vida sentiram na própria pele o aspecto menos glamouroso da fama. Perseguidos, presos, torturados, assassinados com requintes de crueldade, é mal esfriar a cadeira e logo são alçados a heróis, semideuses, mitos. O fenômeno, além de universal (ocorre em todas as nações e culturas), parece atravessar também os tempos.

Passados quase duzentos anos de sua desaparição enquanto etnias autônomas, o incremento do culto aos povos desaparecidos do pampa, por outro lado, não cede. É um culto ao vazio, como são todos os cultos. Culto ao seu desaparecimento. E mantê-lo de certo modo nos incute a noção de que habitamos um território povoado por fantasmas exóticos, muitos dos quais descendemos e nos cai estranho muitas vezes esse reconhecimento porque somos o produto da sua diluição e compartilhamos dessa dissimulação tanto genética quanto existencialmente.

* * *

Apesar de não contar com sequer uma imagem pública, uma escultura, uma pintura, um livro, a insígnia do indígena cavaleiro é uma imagem mais do que difundida no Rio Grande do Sul. Encontram-se, pois, no nome de produtos e estabelecimentos comerciais às dezenas, os termos “Charrua” ou “Minuano”.

Caixa de sabão em pó minuano
Rótulo do guaraná Charrua

No vizinho Uruguai, em que pese suas próprias dificuldades políticas e culturais em relação à memória indígena, este vazio de representação é muito menor. No Museu Histórico Nacional en Montevideo, as imagens em bronze dos caciques Zapicán e Abayubá, e em outros monumentos públicos, estão incluídos e visíveis os povos originários. Nas artes visuais em geral, principalmente no trabalho de Juan Manuel Blanes, o indígena pampiano comparece em sua dimensão original, da vida nos toldos e nos campos.

Cacique Zapicán – Nicanor Blanes
Cacique Abayubá – Juan Luis Blanes

Mesmo assim, também por lá o paradoxo de representações já foi levado ao extremo. Na deportação a Paris dos “últimos charruas” via-se o quarteto Senaqué, Tacuabé, Guyunusa e Vaimaca Perú como exemplos dos selvagens ameríndios, logo da sua deportação, representados numa feição heroica e ricamente trajada enquanto, na realidade, os indígenas definhavam doentes e encarcerados durante a exibição do Le Musée des Familles, depois num circo popular e dali até o momento de sua morte.

Group des indiens charrua – M de Corel
Los sauvages Charruas – Ches Aubert

São homenagens e signos sobretudo estranhos, porque não se pode saber exatamente a quem são prestados ou se referem a que condição. De alguma forma, a sua é uma ausência presente e, além das investidas culturais, busca-se há pelo menos dois séculos recuperá-la e reinseri-la nos valores identitários dos povos que em determinado momento tomaram o seu desaparecimento como resolução de Estado. É mais que uma incoerência histórica, é mesmo uma violência simbólica, uma antropofagia da qual por muito tempo, aliás, se imputou aos nativos, como o escalpelamento na América do Norte, mas essa presumivelmente mais real e próxima a nós.

Do ponto de vista estético, foi a arte de feição romântica quem veio nos países latinos oferecer ao pensamento dominante no século XIX, evolucionista e positivista, uma solução cultural para o problema.

Do vazio produzido pelas campanhas de extermínio desaparecerão imagens e vestígios que também detratem a violência desse encontro. E o indígena regressará milagrosamente vitorioso, fazendo desaparecer o horror da realidade. Para tudo, uma visão simplória da “seleção natural” e a religião positivista devota ao progresso satisfaziam a sociedade da época e, nesse esquema intelectual, estabeleceu-se outra relação paradoxal opondo barbárie e civilização nos mesmo moldes de Sarmiento, na Argentina, a extinção charrua com Zorrilla de San Martín e toda literatura que sucedeu ao trabalho liderado por Apolinário Porto Alegre no Rio Grande do Sul fixando o mestiço gaúcho e não o indígena como nossa figura seminal.

Capa de Facundo
Capa de Tabaré
Capa de O Vaqueano

Pereceram pela sua virtude e bravura, é o que ecoa, como se oferecer-se à morte voluntariamente pudesse constituir um ambição humana plausível. “Temerários” a ponto de, ao integrarem exércitos de cá ou dos domínios da coroa espanhola, posicionarem-se sempre à frente das cargas de cavalaria, é o que igualmente se costuma dizer.

Essa me parece ser mais uma narrativa explicativa, como se quisesse significar que morreram em razão do modo como viviam e guerreavam. E que mereciam morrer porque não saberiam viver de outra forma, em acordo com os colonos que trataram e comerciaram diretamente com as parcialidades por mais de duzentos anos, enquanto estrategicamente lhes foi oportuno. Em face dos morticínios recuperados e documentados por mais de vinte anos por Eduardo Acosta y Lara, pode-se dizer que esta é uma peça de ficção covarde e absurda.

Eduardo F. Acosta y Lara
Capa de La Guerra de los Charruas

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Mas antes de prosseguirmos, há que se compreender melhor o fascínio que o passado exerce no presente. Como identificamos com facilidade no presente lacunas e falhas culturais, os “rastros psíquicos” de que nos falava o filósofo Paul Ricoeur, o passado nos serve perfeitamente bem para ocuparmos inclusive com o que os nossos antepassados deram causa e sem nunca fazer questão de ocultá-lo. Para Marshal Sahlins, ao ser recriada, a cultura transforma a história dinamicamente, inclusive o presente. Na mentalidade rio-grandense, o credo positivista preponderante sempre exigiu uma ideia de progresso que inferiorizasse o passado. Em primeiro, o próprio gaúcho surge como superveniente ao indígena, como uma necessidade fatal; em seguida, o mesmo gaúcho é inferiorizado pela presença do imigrante europeu.

Há uma boa dose de vulgaridade quando convertemos o passado aporético, nebuloso, numa fantasia que nos beneficia no presente. É uma narrativa ultrajante da qual poderíamos de pronto recusar a participar e assumir que padecemos dos mesmos vazios nos quais encontramos (e deixamos) os demais. Seria preciso uma espécie de esforço, como ensina Koselleck, para assumir essa irracionalidade e subsumir na fluidez do tempo histórico que arrancamos aos povos originários, além de sua vida e memória. Poderia ser essa, talvez, uma das únicas formas de voltar a partilhar aquele tempo com menos presunção e mais humildade e respeito autêntico.

A situação torna-se problemática quando, por mais que se deseje abrir registros, documentos e a historiografia, mais se torna inviável uma definição do conhecimento do passado.

Como seria mesmo a fisionomia dos charruas ou guenoa-minuanos? A arqueologia antropológica pouco nos ajuda. Sabe-se que, em sua maioria, minuanos e charruas descendiam dos povos “patagones” que, ao subirem em direção ao Gran Chaco paraguaio e encontrarem-se ao tronco aruaque, transformaram-se nos guaicurus. Não é por outra razão que os indígenas “pampas” argentinos e guaicurus paraguaios costumam ser exibidos com a mesma indumentária e instrumental que os dessa vizinhança.

Dos povos que se fixaram às margens do rio Uruguai por sua vez descenderam charruas e minuanos, que guardavam entre si diferenças fenotípicas e culturais, até que em seu desfecho praticamente podiam ser considerados um só grupo, charrua-minuano.

Tatuagens nos charruas e minuanos – Antonio Serrano

Cerca de trezentos anos passaram-se anos desde que os europeus haviam chegado à América e esse contato teve uma dinâmica muito própria, de intercâmbios culturais e genéticos inclusive com outras etnias, tais como os guaranis, chanás e caingangues. Todavia não se costuma associar a imagem dos pampianos aos indígenas do tronco tupi, como se houvesse aí qualquer noção de pureza étnica documentadamente inexistente, pois, no grande laboratório das missões, parcialidades e etnias fundiram-se largamente constituindo no que os historiadores uruguaios costumam denominar por charruas-minuanos, ou seja, o povo das tolderias.

Ao contrário do Uruguai, cuja identidade nacional foi calcada numa visão romântica dos indígenas, o Rio Grande do Sul parte de um pressuposto inteiramente colonial, açoriano a partir do sul (Rio Grande) e paulista a partir das bandeiras vindas do norte.

No Uruguai, todo um esforço de simbolizar o indígena resultou em diversas obras literárias e plásticas. Juan Manuel Blanes, o pintor da identidade “oriental”, trabalhou na figura da mulher indígena diversas vezes, mais notadamente em El ángel de los charruas. Mas mesmo Blanes representou uma idealização “realista”, já que ele os pintou muito após o desenlace histórico de Salsipuedes, episódio histórico traumático na vida do vizinho Uruguai.

El ángel de los charruas – Juan Manuel Blanes

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A estética do desaparecimento, termos de Paul Virilio que o antropólogo José Basini recuperou e fixou no seu trabalho, é um projeto de prazo indefinido. Por que se haveria mesmo de procurar e preocupar-se com vestígios de povos extintos? Que cuide disso a arqueologia. Pois essa presumida “extinção” pode ser muito bem considerada como um esforço político também de prazo indeterminado. Melhor que assim fosse assumida e não teríamos tantas mistificações.

No tempo de Fructuoso Rivera, idealizador e executor do massacre de Salsipuedes, isso era claramente assumido, mas a literatura de feição romântica logo tratou de totemizar o indígena. E tudo sobre o assunto virou passado.

Ora, quanto mais nos deslocamos à arqueologia, menos contato firmamos com o presente. A exigência do passado, da forma pela qual a explica o historiador italiano Paolo Rossi, nos impele à edificação de narrativas e de uma literatura em condições de preencher o lapso de continuidade que nos fixa à ancestralidade aborígene, mas ao mesmo tempo nos debita dos valores aqueles anteriormente consumidos na antropofagia.

No Rio Grande do Sul, a voz popular corrente admite com ressalvas que a miscigenação ocorreu por meio de uma relação de apresamento, redução e violência. Da mesma forma que num contra-veneno, parece inadmissível, por inoculação ideológica, presumir-se que relações humanas tenham acontecido ao natural em dois séculos de convivência de muita mobilidade territorial. A inserção do cavalo no pampa não apenas produziu uma legião de temíveis guerreiros, mas a possibilidade de se vencer longas distância em tempo muito razoável.

A cartografia produzida por religiosos missioneiros e militares é abundante no sentido de comprovar que as parcialidades migravam – e não pouco – entre o que é hoje território brasileiro e uruguaio. Desse contato, portanto, é muito possível deduzir que nem todos os filhos mestiços do europeu e do indígena tenham sido produtos do estupro de mulheres indígenas. Mesmo sabendo de contradições tais como estas, a ideologia nos faz seletivos e insensíveis ao que ocorre fora do seu abrigo e, de repente, não sabemos mais nos movermos fora dessas ideias circulares.

A despeito disso, a relação de parentesco histórico com os remanescentes indígenas e um respectivo sentimento de orfandade sempre costuma nos aparecer, como uma sombra inarredável que ocupa bastante espaço na investigação cultural quanto aos gaúchos.

É como se um “guaxismo” fosse inerente ao gauchismo, isto é, uma origem que parte de uma desestrutura social e afetiva.

Nesse aspecto, pesquisa recente realizada no campo da continuidade genética foi desenvolvida na região do pampa e, constatada uma relação direta de ancestralidade, buscou-se reestabelecer o parentesco e o laço simbólico com charruas e minuanos (Bortolini, 2019). O que poderia ser mais sintomático do que uma pesquisa a nível de DNA, cromossômica, para certificar de que se trata de uma memória que se dissolveu e dissimulou quase completamente no séc. XX?

No entanto, como não há pesquisa pacífica e nem definitiva, a antropologia também passou a investigar os resultados da pesquisa sobre diluição genética, concluindo que o apressamento nas conclusões, rapidamente difundidas na imprensa local, trazia um certo viés de confirmação preponderando a reapropriação do caráter positivo dos indígenas, num novo ciclo de antropofagia simbólica.

Reportagem do jornal Zero Hora
Reportagem da Folha de São Paulo

Ao contrário do que no Uruguai historiadores e antropólogos procuraram afirmar, o “charruísmo” como uma deformação antropológica passadista, quer dizer, a ideologia subjacente à revalorização das etnias originárias, no Rio Grande do Sul o fenômeno assume uma fisionomia diferenciada.

Por aqui, busca-se a apropriação simbólica, mas sem o correspondente esclarecimento histórico. Deseja-se o benefício simbólico de uma relação eivada por problemas de toda a ordem e obliterada até mesmo na literatura, contribuindo dessa forma com a extinção da capacidade popular de evocação. Na comunidade superveniente, de feição europeia, instala-se o preconceito denegativo na qual o valor da ancestralidade é firmado num pacto de dissimulação. Participar dessa dissolução não requer muito, é suficiente contribuir na proliferação de mais ideologia e mistificação. No entanto, caso se deseje o contrário, corre-se o risco de se parecer meio “apressado”, mas vá se contar direito para perceber que já passaram três centenas de anos.


Bibliografia mencionada

ACOSTA Y LARA, E. F. 1961. La guerra de los charrúas en la Banda Oriental. (Período hispánico – Período Pátrio, eidción facsimilar con prólogos de Aníbal Barrios Pinto y Oscar Padrón Favre). Montevideo: Ediciones Cruz del Sur, 2021.

BASINI, José. Índios num país sem índios. A estética do desaparecimento: um estudo sobre imagens índias e versões étnicas. Manaus: Editora Travessia/Fapeam, 2015. 520 p

Gumbrecht, Hans Ulrich (Org.), Koselleck, Reinhart, Thamara de Oliveira Rodrigues(Org.) Uma latente filosofia do tempo. São Paulo: Editora UNESP, 2010. 164 p.

Porto Alegre, Apolinário. O Vaqueano. Porto Alegre: Movimento, 1987. 104 p.

Ricouer, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007. 535 p.

Rossi, Paolo. O passado, a memória, o esquecimento: seis ensaios da história das ideias. São Paulo: Editora UNESP, 2010. 238 p.

Sahlins, Marshall. Ilhas de história. Rio de Janeiro: Zahar, 1990. 217 p.

Sarmineto, Domingo Faustino. Facundo, Ou Civilização e Barbarie. São Paulo: Cosac & Naif, 2010. 512 p.

Sontag, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 224 p.

Werb, Elton. Os charruas vivem. Zero Hora. Porto Alegre,18 ago. 2003.

Zoriilla de San Martin, Juan. Tabaré. Buenos Aires: C. Dupont Farré, 1955. 254 p.

Charruas e minuanos em Bagé

Lá em Bagé, minha cidade natal, todos aprendem cedo que o lugar onde o Minuano sopra mais forte é na frente do Charrua.

O Charrua em questão é o hotel que por duas décadas foi o mais sofisticado da cidade, empreendimento do grupo Ypiranga que foi vendido em meados da década de 80 para um empresário local que grafou o seu próprio nome no hotel e retirou da fachada o cavaleiro indígena que o simbolizava e se podia ver à distância.

Já Minuano é o nome do vento que sopra de sudoeste, normalmente acompanhando as massas polares e é o vento mais frio que sopra em território brasileiro. Logo após a entrada de uma frente fria, o Minuano enregelante sopra forte sob as colunas do hotel, vindo de Aceguá, e há que ter força nas pernas para manter-se em pé ao cruzar por ali.

Fora essas duas menções, que eu me lembre, Bagé não guarda nenhuma referência histórica pública dos povos originários, nem um topônimo e nem nome de rua. Sequer o nome da cidade foi perdoado, assim como a memória de um certo curandeiro que teria por lá vivido à época dos primeiros acampamentos, e que até motivo de chacota se tornou na intelectualidade rio-grandense dos anos 50.

Ibajé teria sido o seu nome e, por essa razão, o nome da cidade guardava a grafia dos vocábulos indígenas, com a letra “J”. Ao longo do tempo, instituiu-se o Bagé com “G”, desfigurou-se a lenda e se chegou ao ponto de derivar o nome a um remoto vilarejo português, desvinculando-se de suas possíveis conotações indígenas.

Dos povos originários, a cidade vizinha do forte de Santa Tecla e da redução de Santo André dos Guenoas hoje não conta mais nem com a estampa na fachada do hotel. No município, vive hoje um assentamento kaingang que passa por muitas dificuldades, necessitando nesse inverno de alimentos, agasalhos e cobertores.

La Minuana

Não fazem três semanas ainda, mas logo depois que concluímos a última revisão do texto de “La Minuana”, o Thomaz (meu editor e amigo pessoal) me pediu para que eu escrevesse uma sinopse da novela. Ele precisava para montar um informativo da editora e pensou que ninguém melhor que o autor saberia dizer do se tratava, afinal, o livro que partia para a gráfica.

Não consegui. Precisei de uns dias para conseguir redigir um mero parágrafo.

Olhava o texto, o prólogo, as referências, notas e a pesquisa iconográfica que havia feito e me parecia bastante coisa, mas, ao mesmo tempo, ainda insuficiente…

Parecia que eu recém havia tocado a borda de um universo e me apressava a participar de um mundo do qual já não havia testemunhos, apenas resíduos e fragmentos mal historiografados e se eu não fosse cuidadoso o suficiente sentia que veria espatifar-se tudo aquilo nas minhas mãos. E assim evaporaria do nada, como fumaça, essa lenda, conto, novela que ganhou vida em mim para que a contasse. Para que tentasse contar com o máximo respeito possível essa história trágica e delicada que é a dos povos originários do sul, do qual, a despeito de tudo, se conhece ainda tão pouco.

Do que trata, afinal, “La Minuana”? Há uma personagem, uma feiticeira minuana, e há um personagem, um desertor das inumeráveis guerras que assolaram o sul do continente nos sécs. XVIII e XIX. Mas isso apenas não diz do que trata o livro. É preciso tomar dessa linguagem dúbia e partir em marcha, mesmo que a viagem seja apenas fuga e evasão.. Acompanhar-se do destino violento de um povo que, a despeito disso, é nosso, nos constitui de muitas maneiras e influencia, penso eu que sim..

Os últimos exemplares de “La Minuana” podem ser encontrados na em algumas livrarias de Porto Alegre ou via Estante Virtual.

A Pedra do Segredo

Numa das estreitas furnas que se podem ver nessa rocha gigantesca, diz uma lenda corrente na região de Caçapava do Sul ser o lugar onde foram depositados os ossos do cacique guarani José Tiaraju, o Sepé. Junto aos ossos, haveria também incertos tesouros em prata e ouro dos jesuítas que muitas pessoas se animam ainda a procurar. Até hoje, nem uma pataca parece ter sido efetivamente encontrada.

O lugar fica nas bordas do escudo rio-grandense, na Serra de Santa Bárbara, não muito distante do centro da cidade de Caçapava. Apesar da aparência monolítica, na verdade trata-se de um imenso amontoado de pedras gigantescas desabadas umas sobre as outras desde que não havia vida no planeta. É o que explica as grutas e cavernas que atravessam de lado a lado o monte de pedras gigantescas. Nas frestas entre as pedras sobraram espaços de circulação e escoamento e assim se formaram as furnas.

Chama-se Caverna da Escuridão o lugar no qual o enterro de Sepé supostamente possa ter acontecido. Lugar assombrado, dizem, onde as fogueiras se extinguem e fantasmas dos indígenas afastam os visitantes mais atrevidos.

Eu nunca estive lá. Conheço a história de ouvir falar e ler a respeito. Como é uma lenda, também tenho minhas suposições.

O que eu mais fico pensando é como se poderia ter certeza mesmo que o Sepé supostamente enterrado ali se trate do alferes guarani.

“Sepé” é um nome que muitos caciques adotaram entre os guaranis reduzidos e também entre as nações infiéis. É um termo, aliás, originado na nação charrua e não na tupi, das pouco mais de 70 palavras que resistiram do idioma original dos indígenas que povoavam os campos do Uruguai e o sudoeste do Rio Grande do Sul.

Na língua dos charruas, significa o correspondente a “sábio”. É o que diz o Códice Vilardebó, que sistematiza a sua língua e foi compilado em torno de 1840 por um dos fundadores da Biblioteca Nacional e do Instituto Histórico e Geográfico do Uruguai.

Não que seja improvável que o alferes de São Miguel tenha andado por aquelas bandas que integraram antes da Cisplatina a maior de suas vacarias, chegando ao limite do Forte de Santa Tecla, em Bagé. A cavalo e com pouca carga, uma viagem de duas luas bastava para ir até os limites dos territórios em domínio dos jesuítas e guardados pelo exército de guaranis. Nos campos de Bagé, há registro de sua passagem, inclusive do diálogo com os demarcadores dos dois países ibéricos, logo do tratado de Madri que deu origem à guerra guaranítica.

Não muitos anos depois que Tiaraju morreu em combate, em 1756, a nação charrua do sul foi espremida em direção ao massacre de Salsipuedes, em 1831. Salvaram-se cerca de 70 indígenas, fora os que foram foram levados a Paris para estudo e exibição. Em plena campanha de independência, os charruas foram declarados inimigos públicos dos novos governantes e encontraram guarida nos acampamentos dos republicanos farroupilhas. O último cacique charrua chamava-se Polidoro e adotou (mais certo que adotaram para ele) o nome de Sepé, decerto uma homenagem a sua liderança. Nas escaramuças dos farrapos, viajaram o Rio Grande inteiro, inclusive Caçapava do Sul.

Este segundo Sepé teria vivido até o ano de 1864 e morrido em Tacuarembó, no Uruguai. Antes disso, viveu no Brasil e assistiu os remanescentes de seu povo morrerem um a um de varíola, até restarem os três últimos do seu toldo, ele e seus filhos, que não deixaram descendentes. Diziam ser o mais destemido dos charruas e antes que o passassem a cuchillo safou-se sempre com um sexto sentido inato para a guerra. Um guerreiro como poucos. Como não há um livro ou filme sobre uma pessoa assim até hoje?

Antes da colonização, como a maioria das cidades da fronteira, Caçapava do Sul foi um acampamento dos indígenas. Eles escolhiam para viver lugares estratégicos, de passagem, com boas aguadas e fartura de caça e pesca. Mas à chegada dos colonos, eram espantados para o interior dos campos, tornando-se ainda mais nômades e dependentes do roubo dos animais que agora povoavam a região. Um povo que vivera pelo menos 5.000 anos numa grande nação estável, em menos de 200 desapareceu completamente e de uma forma especialmente cruel: pelas mãos de um antigo amigo militar uruguaio a quem haviam servido, mais tarde vingado, dizem, por este Sepé menos conhecido. O militar era sobrinho do presidente Fructuoso Rivera.

Daí que ser um povo sem paradeiro nunca foi uma escolha dos indígenas, mas uma contingência. Que andaram entre as margens da Lagoa Mirim e do Rio da Prata é sabido. Seus vestígios são escassos como precária era sua tecnologia. Para guerrear, nunca usaram as armas dos homens brancos. Seus túmulos eram de pedra e tinham nos minerais sua fonte de setas e ferramentas. Quando morriam, matavam seus cavalos, que cobriam seus túmulos. As mulheres amputavam um dedo da mão a cada membro que perdiam da família. Há relatos militares de mulheres e anciãs encontradas sem nem um dedo nas mãos… No luto, ao invés de pranteá-los, gritavam seus mortos por uma lua. Depois, seguiam viagem.

Se há um Sepé que deveria ser enterrado ali dentro desse magnífico geomonumento é este segundo, mas é provável que não haja vestígio de nem um deles. O nome do primeiro ter batizado o segundo deve ser o bastante para servir de amostra do que foi o vulto de Tiaraju, e seu poder.

É triste que se saiba tão pouco a respeito dos povos originários, os chamados índios-vagos: aqueles sempre arredios e esquivos do convívio com o homem branco. Certamente intuição não lhes faltava, muito menos disposição para enfrentar a luta pela sobrevivência e a morte. Os azares da guerra.

O mais é como o nome da imensa rocha. É segredo.

Bernabé, Bernabé!

Ao completar trinta anos da primeira edição, a Alfaguara tomou a iniciativa de publicar no Uruguai uma edição comemorativa de Bernabé, Bernabé! A novela histórica de Tomas de Mattos (1947-2016) com grande tranquilidade pode ser tomada como um divisor de águas na compreensão da relação histórica daquele país (e incidentalmente do sul do Brasil) com a etnia indígena formadora de sua população: o povo charrua. Traduzido para o português em 1992 pelo escritor Sérgio Faraco e publicado pela extinta editora Mercado Aberto, o romance de Mattos é, além de ficção histórica de notável elaboração formal, talvez o exemplo mais bem acabado do que seria uma recuperação ficcional dos fatídicos dias da etnia que emprestou ao gaucho oriental e também ao gaúcho brasileiro sua porção nativa mais ancestral e da qual, na bacia do Prata e aqui, estes povos teriam herdado mais ou menos diretamente costumes, crenças e possivelmente também uma importante herança genética.

Não se trata, em Bernabé, Bernabé!, de um testemunho direto proveniente das tradições orais indígenas como em casos hoje presentes em muitas publicações brasileiras (como o caso da excelente Coleção Tembetá, da Azougue Editorial, que também publica escritores e pensadores indígenas contemporâneos). Tendo presente que a história da etnia do Cacique Vaimaca, Senaqué, Tacuavé, e Guyunusa (imortalizados em bronze no Parque del Prado, em Montevideo) termina na data de sua partida em direção a Paris, logo após o desfecho da batalha de Salsipuedes em 1833, isto seria algo completamente impossível.

Também pelo esforço de Tomas de Mattos, a história da etnia charrua ganhou finalmente uma perspectiva menos fantasiosa da que muitos estudiosos e autores costumavam tratar a respeito do legado indígena na formação cultural do Prata e também no Rio Grande do Sul. Da mesma forma que a Iracema de José de Alencar, o poema épico uruguaio de Juan de San Martin, Tabaré, cujo protagonista é um índio charrua que vive um romance improvável com uma espanhola, perdurou desde o período romântico como fonte exemplar e seminal da relação entre os povos. Foi necessária toda a fixação de um novo repertório local, com a geração de 45 (Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, etc.) e as investidas do romance histórico posterior ao fim do período ditatorial, do qual emerge a prosa de Mattos, para somente então tornar-se possível o esboço de novas perspectivas tanto em torno ao evento histórico de Salsipuedes como no sopesamento da herança indígena na formação da identidade cultural do país.

Apesar de habitar o cancioneiro popular e também a literatura histórica rio-grandense (ainda que precariamente), são nítidas as atribuições que a cultura popular remete ao indígena charrua, normalmente evocado desde uma posição positiva. Diriam respeito aos hábitos (a caça com boleadeiras, a perícia na equitação, a bebida do mate), vestimentas (o chiripá, o modo de sujeitar os cabelos, o poncho tramado em lã), mas quase nada à linguagem, o que ainda hoje é pouco discutido em filologia, e ao comportamento, ainda que a tendência dos povos gaúchos de um modo geral a certo paganismo poderia tranquilamente lhes ser debitada. Sem maiores vestígios arqueológicos e descendência direta, as etnias pampeanas (charruas, guenoas, arachanes, minuanos) por essas razões têm servido muito bem ao papel que se lhes deseje conferir.

De acordo com pesquisa recente no campo da ancestralidade genética, por exemplo, sua contribuição ao genoma da população fronteiriça do Rio Grande do Sul seria comparável apenas às populações amazônicas e, segundo seus autores, certamente de origem charrua. Além dos achados desta pesquisa, remanescentes remotos do combate de Salsipuedes poderiam ter se evadido para a região nordeste do estado, atravessado pelo menos um século na invisibilidade para presentemente granjear o reconhecimento pela FUNAI de sua etnicidade (conforme reportagem da BBC). Do mesmo modo, no Uruguai um grupo de possíveis descendentes vem reivindicando para si o direito à ancestralidade tanto quanto seus atributos culturais. Os estudos em antropologia cultural, por outro lado, preferem acautelar-se quanto a tais reivindicações em função da dificuldade de comprovação genética e também por considerar que a pretensão se prestaria sobretudo a confirmar longitudinalmente apenas traços desejáveis da formação do povo gaúcho em detrimento de povos indígenas que chegaram ao tempo presente, como o guarani ou o caigangue, e outras características.

Ainda que não pudesse esclarecer finalmente o desenlace de todo o drama charrua, o romance histórico de Mattos, que foi advogado, jornalista, bibliotecário e diretor da Biblioteca Nacional do Uruguai, converteu-se por lá em documento de interesse nacional. Mais centrado em tecer múltiplos olhares sobre os eventos que culminaram na vingança que os indígenas perpetraram contra o coronel Bernabé Rivera, sobrinho do primeiro presidente uruguaio, Fructuoso Rivera, o romance recria o conflito no qual os indígenas, antes integrados ao exército espanhol na campanha contra os portugueses, foram emboscados por Bernabé, que era amigo e privava com os caciques charruas. Na característica multiperspectiva da narrativa de Matos, a condução do enredo trágico dos charruas finalmente encontra-se à gravidade dos fatos reais e obtém o devido reconhecimento.

Desde uma perspectiva mais histórica que antropológica, o mais notável do romance sem dúvida tem sido sua potência em mobilizar os estudos históricos e culturais do país em reconhecer, senão a parcela indígena na formação da identidade de seu povo, pelo menos a natureza da relação atroz entre indígenas e colonizadores de forma mais realista e consequente. Talvez, e isso ainda é algo por esclarecer, a miscigenação não tenha ocorrido nem da forma como presentemente se deseja idealizá-la e nem deixado de acontecer de todo, o que seria apenas possível na ausência de qualquer contato social. Mas o charrua, indígena remanescente do tronco aruaque e inimigo histórico das etnias do tronco guaranítico, possivelmente teria sido mesmo o combatente militar ideal para enfrentar o estrangeiro e fatalmente miscigenar-se no indistinto popular.

Na campanha dos uruguaios contra os brasileiros e mesmo em documentos da época da Revolução Farroupilha há, de fato, indícios de sua presença entre os militares de lá e de cá. Nada, contudo, se pode comprovar a respeito de que tenham sido os mais valorosos combatentes a não ser que não restou vivo ao menos um. De alguma forma, os interesses militares e geopolíticos de brasileiros e uruguaios acabaram por expulsá-los da história de uma maneira infame. O reconhecimento que Tomas de Mattos, com Bernabé, Bernabé! ofereceu ao episódio encontrou por lá o eco que há no que é pela história mal explicado e o incômodo que, por outro lado, persiste e a literatura de qualidade e escritores corajosos, apesar do tempo e da distância, conseguem reverberar.