O e-book de areia

Revista Amálgama

Ao contrário da maioria dos grandes autores da ficção científica, minhas distopias têm curtíssimo alcance. Quase nunca sequer extrapolam as fronteiras do pensamento fantasioso. Não tenho imaginação suficiente ou conhecimento eletromecânico para engendrar parafernálias esdrúxulas ou conceber formas inomináveis de vida. Minhas distopias comumente são rasas e seu horizonte é breve. Na melhor das hipóteses, alguns anos. Na pior, alguns meses ou até mesmo semanas. Na verdade, mal posso imaginar o que possa acontecer amanhã na rua onde moro, que dirá na imensidão cósmica no próximo século ou milênio.

O certo é que amanhã deverá ser um dia mais ou menos como hoje. Até onde sei, não há previsão de nem um salto tecnológico em vista ou de descobertas científicas que se processem em 24 horas ou menos. Por isso, é com alguma segurança que se pode afirmar que o que hoje vigora no mundo real amanhã e na próxima semana continuará a vigorar. No caso específico do livro impresso em papel, há pelo menos 500 anos de garantia e certificação no produto, ao passo que, em relação à alternativa digital, nem mesmo os maiores especuladores futuristas podem imaginar ou prever sua durabilidade. Antecipando-se a eles, o mercado editorial livreiro – estimulado sobretudo pela disseminação massiva de dispositivos digitais portáteis – vem ensaiando alguns passos em direção ao que muitos dizem ser o futuro inadiável, inexorável, incontrolável, etc.

Para confundir ainda mais o cenário, um dos principais interessados no assunto, o semiólogo e escritor Umberto Eco, que publicou em 2000 junto ao cineasta Jean-Claude Carrière o sugestivo livro de entrevistas “Não contem com o fim do livro” veio, cerca de dez anos depois, desdizer-se publicamente em entrevista concedida à revista Época. Mesmo não tendo dito que agora se deveria contar, pelo contrário, com o fim do livro, ele relata ter cedido à leitura – e achou ótimo fazê-la – na tela do seu iPad. Mas alertou que esse seria apenas um tipo de leitura de distração, não de estudo. E que, para este último efeito, isso requereria obrigatoriamente a possibilidade de rabiscar, negritar e grafar diretamente no papel. Bem, desde essa entrevista, é possível que Eco tenha mudado novamente de opinião. Talvez um novo livro venha por aí para explicar suas razões e preferências atuais. Nesse caso, partindo de sua própria concepção, um e-book seria o suficiente, porque este seria então apenas um segundo livro de distrações sobre o assunto.

Outro argumento de que os futurólogos costumam valer-se diz respeito aos números de vendas e estatísticas comerciais, como se fossem indicadores de outras coisas que não números de vendas e estatísticas comerciais. É claro que os aumentos irrisórios de vendas verificados nas principais feiras de livros mundo afora não desfazem dos benefícios inerentes ao livro digital: a portabilidade, a economia de espaço, a imunidade ao cupim e outros insetos, além da presumivelmente mais interessante entre todas: a velocidade de remessa e entrega. Nada que um bom blecaute nesses tempos de crise energética ou um escorregão acidental na tecla DEL, por exemplo, não possa sobrepujar com folgas. Assim, as crescentes iniciativas comerciais de publicação de livros digitais vem crescendo às vezes em ritmo acelerado e às vezes em passos de tartaruga. E isso acontece sobretudo porque as editoras têm grandes cautelas em relação ao descontrole de proliferação de cópias não autorizadas, a bem conhecida pirataria.

Em tempos tão remotos quanto o da invenção dos tipos móveis, sabe-se que mesmo as bíblias de Gutenberg teriam sido objeto de cópias, digamos assim, alternativas. Antes de que a imprensa e a tipografia pudessem multiplicar em ritmo industrial as primeiras brochuras, outro tipo de instituição já havia sido responsabilizada pelo crime de compartilhar o conhecimento escrito. Sim, não foi sem a desconfiança das sociedades científicas, universidades e autores que as primeiras bibliotecas públicas do ocidente, num modus operandi ainda vigente, passaram a cumprir, entre outros, o objetivo de multiplicar o número de olhos que um mesmo livro poderia receber. No livro de Matthew Battles, A Conturbada História das Bibliotecas, é possível conhecer muitas e inimagináveis histórias de desastres, crimes e atrocidades que ocorreram nestes ambientes recheados de ácaro, pó e silêncio – este que dizem ser o companheiro inseparável da boa leitura.

Forma preferencial para deter através dos meios tecnológicos a pirataria editorial, o uso crescente dos digital rights managements, ou simplesmente DRM (atributos de controle que acompanham e estabelecem limites e permissões de uso para arquivos digitais), tem se prestado também para o estabelecimento de situações insólitas. Isto é devido principalmente às possibilidade de conexão dos dispositivos digitais e ao controle on-line do conteúdo transferido. Se até aqui a obtenção de um livro competia obrigatoriamente em sua propriedade, essa relação já não é mais assegurada. O que um consumidor obtém atualmente de um fornecedor de e-books é uma concessão de uso a qual pode ser alterada unilateralmente. Foi o que aconteceu com a maior loja de e-books do mundo, a Amazon.com, acusada de simplesmente excluir das coleções de consumidores títulos de seus próprios dispositivos, através de operações remotas. Em alguns dos casos noticiados, isso teria acontecido para possíveis correções editoriais ou problemas contratuais com os autores ocorridos após a comercialização. Seja como for, é uma possibilidade impensável para livros impressos, mesmo que recalls de brochuras já tenham acontecido.

Desde que a discussão predominante em torno do tema tem sido o prazo de tempo para a extinção final do suporte impresso, as discussões não avançam muito além de clarividências sistematicamente ignoradas pela realidade. Se o livro impresso deveria ter acabado no começo de 2013 ou irá agonizar até o fim da década presente para dar lugar a outro suporte, essa é uma informação das mais irrelevantes. Talvez interessasse mais perceber o comportamento das editoras comerciais em relação ao e-book, repleto de implicações e restrições, chegando muitas vezes a inviabilizar operações elementares dos textos digitais. A possibilidade de transcrever um texto para outro, o bem conhecido “copiar e colar”, por exemplo, para algumas editoras é uma prerrogativa impensável a entregar ao leitor e consumidor, suposto – até prova em contrário – pirata e contraventor em potencial.

Além das questões das restrições de transferência há impasses importantes que se travam principalmente entre bibliotecas e editoras. É claro que, por tratar-se de produtos comerciais, as editoras não podem ver-se obrigadas a migrar seu negócio para a caridade de uma hora para a outra. Porém, é evidente que seus processos produtivos e comerciais são reduzidos com a comercialização de livros digitais. Continua um mistério compreender-se porque isso via de regra representa para o consumidor final não mais que uma economia de 10% no preço final.

Para muitos autores, críticos e opiniáticos de toda a espécie o antípoda potencial do livro impresso, e talvez de qualquer livro, seria a própria internet. Não foi senão o prolífico Philip Roth que anunciou em entrevista que o livro em papel teria seus dias contados, assim como o romance como o conhecemos hoje e toda a cultura literária. Tudo de uma vez só, assim, como num bofetão. Interessante que, na mesma entrevista, ele declara também que não consegue imaginar ele próprio realizando uma leitura em um iPad, por exemplo. Eu pessoalmente considero esta uma entrevista profundamente melancólica. Não é o primeiro escritor que, diante da idade avançada, declara que tudo vai acabar, como se eles mesmos não investissem tempo e dedicação a permanecer além dos limites naturais da vida. Certo mesmo é que, enquanto o fim do livro impresso precisar ser anunciado em um novo livro impresso, esse fim não chegará nunca.

O que talvez custe às pessoas admitir não é propriamente a existência de uma crise editorial, porque ela não existe, basta ver a inumerável lista de títulos publicadas anualmente (sem contar as iniciativas de autopublicação, edições independentes, blogs, etc.), mas uma crise da capacidade de leitura em si mesma. Porque se trata de um investimento de tempo que cada vez mais precisa ser rapidamente consumido e transformado em produtividade visível, é possível que os hábitos de leitura, principalmente a realizada em meios digitais, tornem os livros impressos objetos trabalhosos demais e a leitura um empreendimento pessoal do qual não se pode extrair resultados imediatos.

Seja como for, não é possível argumentar contra as evidências matemáticas e elas informam que no mundo inteiro o número de vendas dos e-books finalmente superou o status de tendência e ganhou a preferência dos consumidores. Nos Estados Unidos, o ano de 2014 será marcado como o primeiro em que as vendas de e-books superaram as de livros impressos. No Brasil, a realidade comercial é ainda incipiente, mas ganha força com a chegada da Amazon em solo nacional, com o início de vendas de títulos no iTunes e com uma adesão crescente de editoras ao uso das mídias digitais.

Escapando dos dados quantitativos para os qualitativos, é imprevisível imaginar a forma pela qual as editoras irão investir daqui para diante, e suas prioridades. Com uma quantidade imensa de títulos esgotados e com restrições decorrentes de uma lei de direitos autorais defasada em muitos aspectos (especialmente porque elaborada em uma época em que o termo digital não se aplicava ao conteúdo editorial), o e-book tanto pode representar a recuperação dos catálogos de uma indústria que sobrevive de grandes puxadores de vendas quanto, por outro lado, o privilégio a livros que possam interessar às novíssimas gerações, millennials ou o que vier depois. Tal perspectiva jogaria dentro de um fosso toda a bibliografia não lucrativa e, caso se mantenham as atuais restrições ao comportamento das bibliotecas de acesso e empréstimo, por exemplo, isso poderia representar uma intensa dificuldade em obter-se informações, por mais absurdo que isso possa parecer, dadas as “facilidades” tecnológicas.

Internacionalmente, entretanto, parece haver um cenário promissor. Bibliotecas universitárias e projetos culturais específicos (como os de bibliotecas particulares de autores literários, por exemplo) têm realizado trabalhos colossais de digitalização e disponibilização de arquivos pessoais, bibliotecas particulares, etc. Embora os projetos capitaneados pela UNESCO de uma nova biblioteca universal não avancem conforme seu desejo, muitos países procuram desenvolver iniciativas locais de digitalização, de maior ou menor porte. Nenhum, certamente, pretende tanto quanto a Noruega, que deseja disponibilizar sem custo algum, a todas as pessoas que puderem ter um endereço IP norueguês, o acesso integral a toda a produção bibliográfica local, através da digitalização de todo acervo depositado obrigatoriamente na Biblioteca Nacional.

Outra disputa sem horizonte de resolução no tocante ao e-book é a que envolve as pessoas e suas preferências, manias e as possibilidades reais de um e outro meio. Enquanto há quem desde a primeira hora tenha passado a investir em bibliotecas digitais, há muitas outras pessoas reticentes, quando não totalmente refratárias ao formato digital. De um amigo radicalmente partidário do livro impresso, colhi esta comparação, nitidamente exagerada, porém (talvez) pertinente: “O e-book está para o livro como os compostos vitamínicos estão para um prato de comida.” É claro que, para a leitura propriamente dita, o suporte em que ela se realiza importa muito pouco. Se um leitor é hiperativo o bastante para não resistir a concluir um parágrafo e ir conferir o status das redes sociais ou o seu e-mail, é de imaginar que o processo de leitura se tornará fastidioso diante ao intenso desfile de informações imperdíveis que pululam rede sociais e internet adentro. Mas esta dificuldade pode atingir igualmente a leitura dos livros impressos, claro que pode, então acredito que a frase trata-se mesmo de uma impertinência. Cabível, mas ainda assim impertinência.

A mim incomoda bem mais um diálogo presente em O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges, no qual o vendedor do fantástico Holy Writ mostra a Borges as páginas do que seria o mais raro e precioso livro do mundo, mas ao mesmo tempo o adverte: “Olhe bem para estas páginas. É a última vez que você está vendo isso.” É claro que este é o terror que acompanha toda as pessoas que amam os livros guardam mais intimamente, o de que em um belo dia seus belos livros simplesmente evaporem. Assim, do nada e para sempre. Longe de mim desejar que uma coisa dessas aconteça a quem quer que seja, mas uma coisa eu posso garantir com tranquilidade: a probabilidade de uma catástrofe digital continua bem maior do que uma como aquela que ocorreu, por exemplo, no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

Do bug do milênio ao epub, passando pelas microfichas, disquete, CDs, discos rígidos e DVDs, dos quais sabe-se lá a durabilidade e a segurança que têm, os livros ainda são um produto de tecnologia muito mais bem acabado, pelo menos na minha opinião, que qualquer gadget disponível para o efeito pretendido. Eu o comparo à colher e à roda, por exemplo, que têm feito mais pela humanidade do que a eletrônica e seus upgrades intermináveis, mesmo que isso apenas seja comprovável numa margem de centenas de anos. E com a vantagem única e incomparável de perpetuar a tradição da dedicatória e sessões de autógrafos. Alguém, por acaso, está disposto a por tudo isso a perder?

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A paixão tranquila de Emily DickinsonA paixão tranquila de Emily Dickinson

Germina – Revista de Arte & Literatura

No Brasil, recebeu o título de Além das palavras o filme de Terence Davies, A quiet passion, sobre a vida da poeta norte-americana Emily Dickinson. Penso eu que uma tradução literal, como jamais se devesse recomendar para a poesia de Dickinson, talvez tivesse um resultado melhor. Resultaria em algo como Uma paixão silenciosa, o que não me agrada tanto, ou então como o que me parece bem melhor: Uma paixão tranquila.

Além das palavras (afinal é preciso que se utilize seu nome comercial) é mesmo um filme silencioso, mas também está bastante longe de ser um filme tranquilo. Como se a tela estivesse sutilmente escurecida por uma luminosidade crepuscular, quase âmbar, e os ruídos amortecidos como que por uma coberta de veludo, tudo o que não se percebe ao acompanhar os passos de Emily e sua transmutação da juventude até sua morte é tranquilidade. É bem um contraste que se tem para com as poucas imagens reais disponíveis da poeta, cuja expressão ao mesmo tempo solene e ascética parece muitas vezes pairar sobre tudo.

Outra explicação que me ocorre para não preferir o título Uma paixão silenciosa é o fato de que ele poderia ser creditado ao suposto apego que Emily poderia ter desenvolvido para com o Pastor Charles Wadsworth, no filme vivido por Eric Loren. O diretor Terence Davies, talvez premido pela necessidade de inserir qualquer efeito mobilizador em um roteiro tão linear, dá a entender claramente que os sentimentos de Emily por Wadsworth ultrapassaram em muito a amizade. A tomada em que ela aparece abalada quando ele parte em viagem sem se despedir pessoalmente dispensa qualquer explicação. Não obstante acreditar-se que alguns de seus poemas de cunho mais amoroso possam referir-se mesmo a ele, essa é apenas mais especulação biográfica que Davies preferiu considerar no lugar de outras. Bem, quando se trata de Dickinson, especulações nunca são o bastante, mas para que se chegue a um roteiro e daí a um filme é preciso que se façam opções. As de Terence Davies menosprezam outros enlevos amorosos que, de acordo com alguns biógrafos, a poeta teve além de Wadsworth.

No filme, a despeito dos silêncios prolongados, a intranquilidade a que me refiro se torna muito evidente pela expressão um tanto atormentada que a atriz Cynthia Nixon, que interpreta Emily na idade adulta, escolheu para estampar na fisionomia da grande poeta norte-americana. É compreensível, afinal a atriz está encarando um imenso desafio, isto é, dar gesto e aparência a uma poeta realmente reservada e da qual muito pouco se sabe ou se testemunhou. Mesmo assim, o efeito obtido pela atriz é poderoso, ao mesmo tempo enérgico e contido. Para uma personagem que passa pelo menos a metade do filme dentro de casa, chega a ser exasperante, em alguns momentos, exasperante como uma mente inquieta como a de Emily tenha sobrevivido a uma reclusão tão absoluta, mas justamente são as cenas em que ela aparece envolvida com a escrita que acabam colaborando para afastá-la do mito da poeta exasperada. Pelo menos no filme de Davies, Emily é felizmente mostrada em franca concentração ao escrever e, mais que isso, aparentemente muito satisfeita por fazê-lo.

De resto, na vida diária, envolvida nos cuidados que dedica junto à irmã Lavínia a uma mãe que convalesce por longos anos, Emily aparece perfeitamente resignada à condição que a austera família protestante lhe reserva, principalmente por meio da autoridade paterna. Nos longos e arrastados dias em que já pouco sai de casa, ela entrega-se à escrita de forma cada vez mais integral e é bem dessa tranquila devoção que acaba consolidando-se o legado de seus volumes de poesia, apenas conhecidos após a sua morte, em 1886. É por isso que minha impressão é de que a paixão a que pretendia referir-se o diretor Terence Davies na escolha do título em inglês seja unicamente a que ela dedicava à poesia e a ninguém mais.

Dickinson, que entre a década de 50 e 60 do séc. XIX foi publicada anonimamente no The Republican, jornal sediado em Springfield e de propriedade de Samuel Bowles, um amigo da família, parece que, na realidade, deixou-se atormentar pela poesia poucas vezes. Isso é mostrado no filme quando ela percebe que seus poemas foram editados por Bowles à sua revelia e então ela tem oportunidade de reclamar-lhe a intrusão. Apesar de que a Emily recriada e interpretada por Cyntia Nixon na adultez (na adolescência ela é interpretada pela atriz Emma Bell) se mostrasse sagaz e incisiva nos diálogos com seus irmãos ou com sua grande amiga e depois cunhada, Susan Gilbert, sua disposição para a vida social declina e o filme que começa solar e luminoso vai, aos poucos, tomando ares bem mais taciturnos.

Esse é bem um intervalo da biografia de Emily que o filme aborda muito convencionalmente, sem incorrer em interpretações muito ousadas. Sua relação com a cunhada Susan, com quem Emily trocou centenas de cartas, segundo algumas especulações biográficas poderia ter tido também uma conotação passional, mas Davies passa ao largo de qualquer insinuação a esse respeito. Nesse caso, mesmo para essa possibilidade, o título Uma paixão silenciosa soaria inadequado, já que nada quanto a isso é aventado. Por isso, assumir que a paixão de Emily pela poesia pudesse ser maior que as paixões mundanas é um caminho bem menos pedregoso para quem pretende entrever a vida de uma poeta que, afinal, viveu a maior parte de sua vida longe da vista de todos.

Dessa mesma época, embora já tivesse sido publicada nos jornais locais anonimamente, é que Emily vai buscar contato com Thomas Higginson, conhecido abolicionista e crítico considerado na Nova Inglaterra, a quem envia alguns de seus poemas. Mas Higginson, que após sua morte viria a ser o seu primeiro editor, aconselhou-a a retardar qualquer iniciativa de publicação ao mesmo tempo em que se tornou um de seus principais leitores. Higginson foi quem trouxe, por sua vez, mais da intranquilidade externa justamente no período em que ela mais se dedicava à poesia. Talvez, graças ao seu contato com ele e seu escasso encorajamento à publicação, Dickinson tenha se debatido tanto com o dilema do reconhecimento e acabado por entregar-se à poesia pela própria satisfação. Da poeta “pouco apurada”, de acordo com ele, hoje se conhece muito bem os versos que comparam a busca por publicação a um julgamento da mente, algo a que ela decidiu-se bem por essa época a não mais submeter-se (publication is the auction/of the mind of man – J709 – Fr788), reservando seu legado para a posteridade.

Não muito depois disso, coincidindo com o afastamento dos poucos amigos e o agravamento do estado de saúde da mãe, ela passa a viver cada vez mais enclausurada. E se até então se exibia em passeios externos aos jardins e eventualmente até mesmo teatros de ópera, no filme, a essa altura, ela já está radicalmente interiorizada. Mantendo quase apenas as relações com os irmãos Lavinia, Austin e a agora cunhada Susan, seu círculo social restringe-se cada vez mais à família e de sua opção pelo cuidado materno parece proceder ao hábito (questionável, segundo alguns biógrafos) de utilizar a partir daí um vestuário exclusivamente branco e a falar com os raros visitantes à distância ou por trás de uma porta.

Ainda assim, como ficção biográfica que é, o filme de Davies incorre em muitas licenças. A de entrar onde consta que ninguém tenha entrado é, sem dúvida, a maior delas. Mesmo que ele conduza a narrativa com serenidade e intercalando leituras que a atriz Cynthia Nixon faz de alguns dos poemas de Emily, o terço final do filme — ou um pouco mais que isso — mostra momentos dolorosos de sua vida, quando a doença renal que acabará por levá-la a morte começa a causar-lhe dores e desconfortos imensos.

Sua opção em mostrar que mesmo uma poeta marcada por uma dicção quase etérea padecia das dores humanas não parece casualidade, mas uma tentativa de humanização do mito, de dissolução do enigma que ao longo do tempo foi associando-se ao nome de Dickinson. De fato, parece que quanto maior o desejo de reclusão e obscurecimento de um escritor, mais isso acaba colaborando no desejo de saber-se mais e mais e de mostrá-lo, isso no caso específico do cinema. Mesmo que se incorra no risco de sobrevalorizar alguns aspectos em detrimento de outros, trata-se de um irresistível desejo especulativo que, no caso de Emily, apenas aumenta em razão de que se refere a um gênio literário que está por trás da renovação da moderna poesia lírica em todo o mundo e pensar que tudo isso tenha sido feito quase em completo segredo só pode mesmo aumentar o fascínio em torno ao seu nome.

Ao final do filme, certo é que mais e melhor pode-se imaginar sobre a reclusa vida de Emily, embora pouco a respeito do seu repertório poético tão inovador, suas influências e motivos muitas vezes tão herméticos. Realmente, essa é uma tarefa que se faz melhor à leitura do que à exibição cinematográfica, sem desabono do excelente filme de Terence Davies que, por outro lado, é muito competente em mostrar que uma vida reservada e pequena para os outros não implica necessariamente em uma vida pequena nem reservada para a poesia.

Tomorrow will be beautifulTomorrow will be beautiful

A cada vez que eu vejo escritores reclamando a falência e o esgotamento da crítica literária, fico pensando no que então poderiam dizer os músicos a respeito da crítica musical. Este é um abismo do qual e para o qual ninguém olha muito porque, de um modo geral, a música vive uma sucessão de impasses desde a instauração da crise do disco e do fim do CD. É crise sem fim à vista. Crise em curso ainda.

Se é relativamente simples encontrar-se resenhas de lançamentos de autores nacionais e estrangeiros, no tocante à música o cenário é desastroso. Além de que são raros os jornais e revistas (que revistas?) que contam com críticos musicais, a prática vai por sua vez resumindo-se a uma crítica de eventos. Até pouco tempo, os blogues musicais ainda supriam um tanto a busca por informações, mas, com as redes sociais, foram soterrados pelo big data e sua orquestra de algoritmos.

A reboque da crise de formato, pode-se ver então um pouco mais a extensão da crise de mercado que afeta o métier, uma vez que a remuneração do produto gravado danou-se e a crise de crítica e de consumo vai se apagando à medida que a própria mídia cultural vai se desfazendo. É o laissez-faire da contemporaneidade, a verdadeira balbúrdia para a qual ninguém estava preparado. Mas aqui chegamos.

Perto desse cenário, mesmo a miséria editorial literária parece um banquete perto do que se dispõe de espaços de divulgação e debate musical.

Os efeitos são terríveis para músicos e compositores brasileiros e/ou estrangeiros. Lançamentos relevantes, novos nomes de uma cena musical distante dos hits estratosféricos das redes e plataformas continuam acontecendo, assim como novos trabalhos de artistas vão ficando cada vez mais circunscritos aos próprios seguidores. E como essa contabilidade digital passou em algum momento a ser qualificada como relevância, a situação é de um impasse muito complexo para a qual as fórmulas de debate musical habituais não conseguem mais abordar, pois o campo foi extrapolado (ou entregue) para a tecnologia da informação.

Um exemplo. Dois dos meus compositores e cantores preferidos da última década, o casal Benjamin Clementine e a cantora Flo Morrissey. Dele, com um alcance maior e presença em palcos europeus, ainda se consegue alguma referência em português. Mesmo assim, demorou bastante e por muito tempo o único texto disponível era um que eu mesmo havia escrito. Isso para um artista literalmente gigante.

E ela? Nada ainda. É certo que com seus dois discos a repercussão não seria imediata, porém a invisibilidade é sobretudo de crítica. Seus views nas plataformas são modestíssimos. Há apresentações de estúdio, com alta qualidade de gravação, que não chegam aos 3.000 views no YouTube. Como o de Benjamin, seu disco é dos mais estupefacientes (e duradouro, a gravação é de 2015). Um lirismo rico, arranjos etéreos e sublimes e uma voz que fica entre Billie Holliday e Karen Dalton. Alguma referência a sua existência no Brasil? Nenhuma.

Talvez estejamos bem sem nada disso, afinal, parece que nos bastamos com outra qualidade de coisas. Mas vamos sem crítica. Daqui a um pouco, porque também ninguém é de ferro, vamos sem música mesmo, porque os ouvidos também não são de ferro.

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Há uns dia recebi um e-mail (há quem ainda o use) de uma pessoa que nunca me viu e eu nunca vi e que, mesmo assim, dizia sentir falta de mim. Não, não se trata de uma paixão platônica, nada disso.. Trata-se de alguém que se acostumara a ler textos que até há pouco eu costumava escrever sobre um assunto que me é ainda muito caro: a inclusão social e educacional das pessoas com deficiência.

Assim como eu, ela tem um filho com síndrome de Down e disse que eu sempre a ajudara (sem saber) com as coisas que eu escrevia. Hoje, me parece um pouco incrível que alguém pudesse sentir-se apoiado pelas coisas que tenho escrito: implicâncias, epifanias e até mesmo ironias. Mas isso não está em quem escreve decidir, e sim em quem lê. Então se ela disse, não tenho razão para lhe contradizer. Falou, tá falado.

Só que a menor vaidade que eu possa sentir quanto a esse e-mail está soterrada por uma resposta que ainda não consegui redigir. Por que mesmo não escrevo mais sobre inclusão, se foi o tema que justamente me fez voltar a escrever após longos, longuíssimos anos de silêncio branco? Por quê? Por quê? Desculpem a repetição, é apenas eco. Reverberação. A pergunta martelando respostas como prego fraco em madeira de lei. Por quê?

Eu realmente não sei. Não tenho uma resposta exata. Tenho apenas suposições que, todavia, não me demovem desse distanciamento. Mas por que isso? Também não sei. Só mesmo suposições que não ajudam nem a mim mesmo, então não sinto que deva externalizá-las como se fossem conclusões. Só tenho a dizer sobre isso uns achismos. Achismos são pensamentos toscos, inacabados e muito particulares. Às vezes até incompreensíveis. Então pode ter muita bobagem misturada no que lhe diria. Com certeza teria..

O que eu acho, talvez em primeiro lugar, é que não tenho uma boa palavra nesse momento, para oferecer.. Acho que vivemos em tempo sectários e se há um antônimo para “inclusão” não é a mera oposição do termo “exclusão”, e sim o sectarismo. O mérito dessa definição não é meu, mas do filósofo chinês Confúcio. Isso está em algum trecho dos seus Analectos.

Superar o espírito sectário me parece muito mais difícil do que superar a exclusão, que é uma condição social. Não porque eu prefira, mas, na contemporaneidade, o tanto que se diz por aí a respeito de “inclusão” transformou-se em instruções formais amparadas em algumas leis e mediadas por relações comerciais. E mesmo quando as pessoas valem-se dos serviços públicos estão mediando suas relações pela contraparte do que o estado tem a oferecer em troca dos seus impostos. Então há uma relação comercial também nesse caso. A não ser numa vida autóctone, portanto, não me parece haver meios possíveis de superar essa condição. A onda homeschooling, claro, não tem nada a ver com isso, afinal não é uma modalidade gratuita. O assunto até tem alguma relação, mas acho que não nesse ponto.

Já integrei movimentos sectários na minha vida e não me fizeram bem. Também tenho certo caráter dissociativo, dissidente, que me dificulta acatar consensos quando me parecem equivocados ou mal intencionados. Acho que a transformação de uma situação real, vivida, numa disputa conceitual também implodiu com a noção de um discurso preciso, do qual abri mão porque também lá pelas tantas já não me fazia bem empunhar um discurso político, formalista, a despeito da situação real das pessoas, cada uma delas discordante em trajetória, condições materiais, cognitivas, de saúde, etc, etc, etc. Seria uma violência continuar participando dessa barganha (não política, mas moral) e embora não me arrependa das brigas que comprei e de nenhuma vírgula que redigi nessa década, comigo precisou ser assim.

Há também a questão de sombreamento de uma política pública de governo com um movimento em essência conflitivo. Nessa relação de forças, pelo menos no Brasil, sempre a política acaba submetendo a esfera pública e o conceito inclusivo aposto, explicativo, perde muito do seu elã (essa palavra eu tirei do arcabouço materno), fica meio fantoche. Na prática, não há muito protagonismo nem autonomia, mas pessoas sendo conduzidas por processos nem sempre transparentes e que movem uma máquina de recursos públicos (e também afetivos) que pouco ou nada destina-se a melhorar as condições de vida das pessoas. Muito mais à tecnocracia, mas isso também é outro assunto. Só que a politização da questão danificou terrivelmente seu caráter intrínseco, como status social por desejar. Então continuar essa busca é, para mim, como a busca por uma miragem, algo que tem a aparência da coisa mas nunca consegue ser a coisa que aparenta. E assim por diante. Isso reduziu um anseio social a um “faça como puder, você estará sozinho nessa de qualquer jeito”. O conceito revolucionário, o sonho, rendido e constrangido pela realidade. E mercantilizado também. Muito mercantilizado.

Fora isso, ainda há o balcão de negócios que políticos costumam fazer sem nem disfarçar, mesmo quando são práticas nocivas ao convívio democrático. Nada constrange esse pessoal. Não adianta gritar nas redes sociais. Há um muro aqui, um backwall, uma quarta margem intransponível ao cidadão comum. Você, amigo, que luta ou pensa lutar contra essa estrutura, acostume-se a ser uma aberração na matrix. Lá pelas tantas, foi assim que passei a me sentir, como alguém portador de dissonância. Portador aqui, aliás, no sentido exato do termo.

Eu não sei. Não ganhei um centavo só com ativismo. Pelo contrário, muito mais gastei e me gastei. Ganhei foram alguns e-mails que embrulham a garganta por dentro, mas isso não conta para nada nem ninguém a não ser eu mesmo. Não se trata de recompensa nem de reconhecimento, mas de não se sentir enganador, de me sentir um pouquinho verdadeiro, mais real do que posso ver ao espelho. Essa, sim, me parece uma boa sensação.

Tive a sorte de ter me envolvido com esse assunto com a radicalidade que o tempo exigia, de fazer valer pelo conteúdo mais até que pelo mérito. Mas todo o esforço coletivo hoje foi pulverizado em projetos pessoais, em “compartilhamento” em redes sociais. Chega uma hora que a gente entende que gastou sola do sapato demais, só isso. Tem ainda a questão do preconceito social e a impressão que o mundo caminha mal não só por culpa da extrema-direita ascendente, mas que essa ascensão seja a irradiação de energia perigosa que passamos a compartilhar também, individualmente, mesmo que sem percebê-lo e mesmo que pareça sempre muito positiva. Viver no Brasil me parece ser, de certo modo, cada vez mais viver num estado de negação positivada, solarizada. É um não (ou nãos) valendo por sim, mas sem um sim correspondente. Ficou tudo muito estranho e difícil, mais fácil e simples dizer. Sinto também que é preciso agir, mas sob outros significados, outros contextos. Fazer nascer algo novo. Se for para dar parte nisso, nesse milagre, e não em reviver e continuar o que nos trouxe aqui, contem comigo.

Mas o certo, o adequado, seria dizer algo bem menos complicado. É uma pessoa muito simples a minha interlocutora, não uma pensadora sofisticada. Ou uma acadêmica. É uma mãe, nem sei sua profissão, só que seu filho tem mais ou menos a idade do meu e que ela continua esperando de mim uma palavra que não sei se posso ainda dar. Nem um testemunho perfeito, um exemplo, tenho a lhe mostrar. Só uma tentativa que às vezes dá certo, às vezes não. O assunto, claro, será sempre caro para mim. E importante, sem dúvida. É bem por ser tão caro assim que não tenho mais escrito a respeito. Seria o certo a dizer nessa resposta. E enviá-la. Mas ainda está faltando a coragem de apertar o botão “Enviar” e assumir que cheguei mesmo a esse ponto final.

02.07.2019