Quarenta vezes Zero

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Uma das maiores injustiças que poderia acontecer no ano de 2014 seria passar batido o quadragésimo aniversário de um marco da literatura brasileira, o romance Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. É claro que nem a literatura nem a crítica deveriam passar muito tempo olhando para o passado, como se num lamento evocativo, mas são tantas e por vezes tão exageradas as homenagens a autores e obras que uma a mais não há de fazer diferença. Nesse caso, precisamente, eu penso que poderá fazer, mas por outras razões.

É preciso dizer inicialmente que não há a possibilidade de aqui encontrar-se spoilers, a não ser para aqueles que ainda não tenham conhecido José (assim mesmo, sem sobrenome), personagem central de Zero. Sobre ele é o primeiro parágrafo do romance, em tudo revelador:

“José mata ratos num cinema poeira. É um homem comum, 28 anos, que come, dorme, mija, anda, corre, ri, chora, se diverte, se entristece, trepa, enxerga bem dos dois olhos, tem dor de cabeça de vez em quando, mas toma melhoral, lê regularmente livros e jornais, vai ao cinema sempre, não usa relógio nem sapato de amarrar, é solteiro e manca um pouco, quando tem emoção forte, boa ou ruim.”

Não. Não há spoilers aqui. Trata-se de um livro que sopra já quarenta velhinhas de idade e, mesmo assim, é muito difícil não surpreender-se ainda hoje com a dinâmica alucinante que acompanha o personagem José por uma paisagem tão precária como sua própria trajetória de vida, arrastada do subemprego e da marginalidade à luta armada. Então, por prudência e para preservar o direito à surpresa de todos aqueles que nunca o leram mas poderão ainda motivar-se a isto, não haverá aqui uma menção sequer ao enredo e desenredo do romance. A motivação oculta para isto é que, como aqueles que já o conhecem sabem muito bem, esta é uma tarefa praticamente impossível.

Publicado pela primeira vez na Itália, Zero não agradou inicialmente a nenhum editor brasileiro. Efetivamente, naquele ano publicá-lo seria razão certa para cefaleia posterior para qualquer editor. Ainda assim, um ano depois ele apareceu em terrae brasilis, para sumir das livrarias logo em seguida. Para isso, foi preciso que um abaixo-assinado reunindo centenas de intelectuais solicitasse esse favor à censura. Esse ciclo de aparição de Zero durou pelo menos mais uns cinco anos. Foi quando eu o conheci, perto de 1980, através de um furto qualificado que pratiquei contra meus irmãos mais velhos, orientados a manter o volume o mais distante possível dos meus olhos infantis. Não conseguiram evitar meu sucesso.

Como talvez nenhum outro romance da literatura brasileira, Zero foi e ainda é um livro altamente subversivo. À época de seu lançamento, uma subversão principalmente de cunho político. Mas, desde lá e ainda hoje, uma subversão estética e das tradições literárias e de todas as demais tradições e costumes evocáveis naquele longínquo 1974.

Ainda hoje eu guardo a impressão de que Ignácio escreveu todo o Zero e em seguida o picotou. Depois, na minha imaginação, teria colocado os picotes naqueles globos de sortear mega sena e foi tirando de lá e colando novamente no papel, até ganhar uma nova forma e coerência. E isso não deixa de ser um pouco a verdade, porque foi em Zero que pela primeira vez utilizou-se na literatura brasileira a técnica dos cut-ups, colagens que William Burroughs consagrou principalmente em Naked Lunch (Almoço Nu), publicado nos EUA em 1959.

O uso da técnica, todavia, não implica em dizer que é um livro escrito e pensado ao acaso. Seu protagonista, José, faz a trajetória do trágico circunscrito pelo real surreal. Para José, o cotidiano é de uma complexidade avassaladora, porque ele está imerso em uma sociedade decomposta, razão que pode explicar a opção de Ignácio em construir uma história absolutamente fragmentada.

Há quem atribua a Zero o qualificativo de “grotesco”, talvez pelo pleno uso do coloquial e do “baixo calão”. E o livro até poderia receber esse adjetivo, mas apenas caso se localize o grotesco pelo traço distorcido, pela pincelada excessiva, conforme é compreendido nas artes visuais. De outra forma, tomá-lo por bizarro seria uma tentativa de reduzir o impacto de um romance nascido de reportagens censuradas e situações absurdas, porém mais absurdas ainda pelo enorme realismo dos recortes e enquadramentos criados por Ignácio.

De certa forma, como Émile Zola já havia realizado na França, em fins do século XIX, com o monumental empreendimento de Les Rougon-Macquart, Zero consegue restaurar o vigor naturalista do que também poderia ser considerado um novo romance experimental. Ainda mais ao considerar-se que suas características formais tivessem mais por base a linguagem jornalística que qualquer outra tradição narrativa. A fluidez dos cut-ups, ilustrações e cortes abruptos, além do panorama multidimensional, transforma Zero em um romance com características inauditas e ao mesmo tempo inigualáveis, porque ocupa na história recente da literatura brasileira um lugar até então desocupado e, posteriormente, sem seguimento.

O Zero de Ignácio de Loyola Brandão ainda desafia os novos autores a tentar o caminho do imprevisível. Seja pelos personagens caóticos e psicologicamente complexos quanto pela falta aparente de estrutura, o romance é ao mesmo tempo referência e sombra que se projeta sobre a literatura posterior a ele. É referência por deslocar aos subúrbios e ao mundo da pobreza o foco literário sem nenhuma condescendência sociológica. E é sombra porque exige da inovação literária bem mais que a utilização de quebra de esquemas e desvios narrativos, senão uma corrida com a própria liberdade criativa, sensação muito presente e comum para autores e artistas formados na agitação dos anos sessenta, mas visivelmente uma relação que vem se deteriorando bastante desde então.

A passagem de quarenta anos poderia ter tornado Zero um livro velho, uma sucata. Pelo contrário, o tempo ainda o faz um romance revelador, tanto em aspectos formais quanto sobre seu conteúdo, principalmente para leitores que conhecem pouco ou começam a conhecer agora a literatura produzida no período em que o Brasil esteve privado da democracia e o estado de exceção e a censura naturalizados. Algumas pessoas afirmam que é nos períodos mais críticos da história que as grandes obras são criadas. Então, por consequência lógica, nós brasileiros devemos mesmo estar passando muito bem, porque não é nada fácil encontrar romances tão impactantes como Zero por aí.

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Cartaz do filme, onde vê-se Lola Duenas e Pablo Pineda sorrindo juntos

“Para que quer ser uma pessoa normal?” Essa é pergunta que Laura, a personagem interpretada por Lola Dueñas, em Yo, también, premiado em 2009 no Festival de Cinema de San Sebastián e ainda inédito no Brasil, faz a Daniel, vivido nas telas pelo espanhol Pablo Pineda. Apaixonado, Daniel vê no apelo à normalidade algo como uma credencial para a concretização de seu desejo de viver integralmente seus próprios desejos. Entretanto é a personagem de Lola quem é desafiada a despir-se de seus preconceitos e aceitar o potencial afetivo dessa relação que une em um extremo uma mulher de meia-idade insatisfeita com a própria vida e, no outro, Daniel, homem que, nascido com a síndrome de Down, luta com ganas por sua emancipação existencial.

Na crítica estrangeira, Yo, también é muitas vezes tratado como se fosse um documentário sobre a deficiência intelectual. Longe disso, é um filme sobre relações humanas, estabelecida entre seres humanos adultos e que buscam sua felicidade e realização em meio ao cotidiano de pessoas comuns. Talvez então fosse mais apropriado classificá-lo entre os filmes de ficção científica, ou você já viu (no cinema ou até mesmo na vida real) pessoas com síndrome de Down sendo retratadas como pessoas adultas e donas do próprio nariz e desejos?

Muito melhor que tudo isso, é um filme divertido, sem ser um filme humorístico ou abusar de apelos cômicos. É divertido porque, como dizem seus diretores, os novatos Antonio Naharro e Álvaro Pastor, na vida é preciso um certo humor, até para poder sobreviver-se a ela. Mas é igualmente dramático na medida em que não abdica de mostrar portas fechadas, desilusões, frustrações ou perdas. O melhor de tudo é que consegue voltar a ser divertido quando mostra a possibilidade vívida de ir-se sempre muito além dos limites sociais e da trivialidade dos preconceitos e dos “nãos” que a vida, em todas as suas formas e estruturas sociais, insistentemente apresenta a quem quer somente o direito de viver a pleno a própria vida.

Trailer do filme

De uma maneira muito própria ao cinema espanhol contemporâneo, no qual as relações afetivas aparecem muito vinculadas ao desejo e à liberdade, seus diretores não procuram um casal com química perfeita, idealizações mesmo que vistos pela lente da “diferença”, mas um choque explosivo de temperamentos no qual o afeto anda de mãos dadas com a angústia, com a incompreensão, mas que é obtido em sua plenitude fora de qualquer clichê costumeiro quando da exposição de pessoas aparentemente “incapacitadas” para a vida afetiva e sexual.

Yo, también exigirá muito da capacidade do público em torcer o nariz diante de relações aparentemente improváveis. Irá incomodar quem pensa que as pessoas têm lugares próprios para existir e o espaço social limitado por abstrações arbitrárias. Surpreenderá aqueles que estão presos a estereótipos e às visões simplistas do ser humano e da deficiência intelectual. De ideias que os reduzem a eternos filhos e crianças, acabando por anulá-los em imagens cristalizadas e condená-los a um mundo ínfimo e sem esperança. Yo, también vai, sem que se possa perceber muito claramente, contar-nos que toda essa representação finalmente está ruindo e que daí não há mais volta. Se há dúvida que isso é possível, assistir o filme poderá ser uma forma simples de perceber o que pessoas como Pablo Pineda e tantas outras estão, pelo mundo afora, fazendo já por suas próprias vidas.

Ator, mas só por um momento

Ao contrário de Lola que, como atriz, já atuou em dois outros filmes, ainda em pós-produção, após Yo, también, Pablo já declarou em entrevista (ver vídeo a seguir) que não pretende voltar a trabalhar como ator. Antes dessa experiência, Pablo já era relativamente conhecido no mundo inteiro por ter sido a primeira pessoa com síndrome de Down, em solo europeu, a lograr um título universitário. Formado em Pedagogia em 1999 e prestes titular-se psicopedagogo, diz que sua participação na produção mudou sua vida, mas queixa-se das perguntas repetitivas dos jornalistas que já o denominaram inclusive de “superdotado”. Dizendo-se uma pessoa realista, Pablo está mais preocupado em lançar novos olhares sobre a síndrome de Down e que, longe de imaginar-se como um ator, prefere ver-se no papel de alguém que luta por oportunidades para as pessoas com deficiência intelectual e que não esquece, por mais holofotes que sejam lançados em sua direção, que esse compromisso diz respeito ao verdadeiro sentido de autonomia individual e responsabilidade coletiva do qual ele dá indícios também na composição de seu papel.

Pablo em entrevista ao programa Cuatro A Raíz

Antes de Pablo, Pascal Duquenne fora premiado em Cannes, por “O Oitavo Dia”

Cena de “O Oitavo Dia”, onde Pascal Duquenne e Daniel Auteuil caminham num campo verde

Treze anos antes da premiação de Yo, también em San Sebastián, em 1996, o belga Pascal Duquenne dividiu com o consagrado ator francês Daniel Auteuil a Palma de Ouro de melhor ator por Le huitième jour (no Brasil, “O Oitavo Dia”), refilmagem de um filme finlandês de 1960. Motivo de grande comoção, O Oitavo Dia estreou a presença de um ator com síndrome de Down representando vigorosamente sua personagem na cena dos festivais internacionais. Foi a primeira vez em que a pessoa com deficiência intelectual era mostrada em grande estilo, em primeiro plano, já não mais como cenário. Ali, entretanto, o tom dramático se fazia bem mais intenso e a personagem vivia como que à deriva, numa situação de abandono que acabaria por levá-la a um desfecho fatal, a despeito de seu “efeito transformador” sobre os outros, principalmente a personagem de Auteuil. Desde então, outros filmes de ficção foram feitos com a presença de atores com síndrome de Down, como o espanhol León y Olvido e o norte-americano My Brother. Igualmente dramáticos e com roteiros muito centrados nos dramas familiares, suas personagens não chegam a transpor as questões de dependência pessoal e focam preferencialmente os aspectos incapacitantes de suas vidas. No mais recente “A Outra Margem”, realização portuguesa de 2007, o tom dramático é amenizado, mas a presença quase-angelical, transformadora dos outros – como em O Oitavo Dia, lança luz a um resgate de dignidade para a vida dos “diferentes”, sejam pessoas com deficiência ou, no caso do filme português, do outro protagonista, um travesti vivido pelo ator Filipe Duarte.

Yo, también não é um filme melhor ou pior que os acima citados, mesmo porque são histórias muito diferentes as aí contadas. O distal entre eles está, entretanto, na proximidade que realiza entre as personagens, como se atravessassem uma ponte que os demais focam à distância ou ignoram por completo. Essa é uma diferença muito importante que não deve ser esquecida. Se os filmes acima podem ser categorizados como filmes sobre a deficiência intelectual, Yo, también deve ficar fora dessa relação e aparecer em uma outra que acaba de inaugurar, como filmes que mostram pessoas e seus desejos, esperanças e dificuldades, entre elas as pessoas com deficiência intelectual. Fora isso, nada de “anormal”. Ainda assim, é um filme diferente. Diferente como ele mesmo. Afinal, não é isso mesmo a diferença?

Livros de viagemLivros de viagem

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 29/02/2020.

Em 1910, muito antes que os primeiros youtubers e coaches literários pisassem sobre a terra, Robert Musil tinha os nervos quase em colapso após uma experiência que transcreveu mais tarde para o seu O homem sem qualidades. No que no livro ele chama de “hospício de livros”, Musil viveu a experiência real de ser um dos bibliotecários da Universidade Técnica de Viena, cargo obtido após o sucesso do biográfico O jovem Törless. Segundo seus biógrafos, parece que lá ele projetava ter o sossego necessário para desenvolver seus posteriores projetos literários. O trabalho, no entanto, acabou revelando-se exasperante em vista da segunda explosão bibliográfica ocorrida logo após a Revolução Industrial (a primeira ocorreu no séc. XVII com a popularização da prensa). Lendas contam que ele redigiu as mais de mil páginas de O homem sem qualidades também como vingança pela extenuante experiência laboral catalográfica na “bibliografia das bibliografias”.

Mais de um século após, e com a sobreposição da revolução tecnológica (sem que a industrial tenha jamais pausado), pense-se no quão exasperante pode ser a um ser humano dotado de apenas um cérebro e uma vida indicar, que seja, apenas um livro a alguém, não interessa quem. É uma tarefa efetivamente impossível e, dada a recente compulsão por listas de recomendações, às vezes parece que estamos todos a tentar compilar a “lista das listas” como se esta fosse a finalidade em si mesma da leitura ou, como em Musil, a única leitura possível.

Objetivamente, tudo se resume ao critério da ignorância, ou seja, todos reconhecem que é humanamente impossível ler todos os livros ou ter absoluta certeza de que o próximo da lista, qualquer que seja ela, não pudesse ser muito superior ao precedente. Como solução para o impasse que vem desde Alexandria, literatos costumam valer-se de recomendações canônicas enquanto que leitores comuns, por outro lado, parecem mesmo tentados a cada vez mais procurar outras fontes de lazer. É pelo menos o que tem demonstrado os achados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada numa parceria entre o IBOPE e o Instituto Pró-Livro e que deve ser reeditada no ano de 2020.

Nessa dissociação, todavia, todos conseguem decodificar rapidamente os males que se refletem na vida de cada um decorrentes da deterioração do hábito de leitura. Não raro se aponta que muitas dificuldades do mundo contemporâneo também possam ter alguma relação com as capacidades intelectivas obtidas (ou perdidas) pelo hábito e, especialmente de ficção e poesia, cujo efeito já foi equiparado por neurocientistas a terapias que retardariam o declínio das funções cognitivas e poderia ajudar a prevenir inclusive condições como ansiedade e depressão. Seja na aquisição de capital cultural ou no aprimoramento das capacidades interpretativas, também dificilmente alguém se oporia à ideia de que estimular a leitura é condição fundamental para a melhoria de toda a vida social. A constatação é das mais banais. Enfrentá-la é que são elas.

Uma das perspectivas em evidência obedece à lógica que o sociólogo francês Pierre Bourdieu denominou em seus livros por “distintiva”. Quase toda ela reside na vantagem social e simbólica decorrente do acúmulo de capital cultural, mesmo desconsiderando variáveis perspectivistas. Embora pareça ser a preferência entre literatos e adictos, não raro os leitores comuns a interpretam como afetação e objetificação, portanto há que se ponderar em seu uso com objetivos de convencimento. Em tempos de guerras culturais, a perspectiva compete muitas vezes mais na autoafirmação pessoal que num efetivo interesse de disseminação do hábito. E, considerando-se que a interpretação costuma ser a primeira baixa e a mútua incompreensão a principal moeda corrente das comunicações digitais, é relevante pelo menos que se tenha ciência dos limites “pedagógicos” interpessoais, mesmo em face dos melhores objetivos.

Outra perspectiva em questão, bibliófila, trata de um estímulo positivo e direcionado à difusão do hábito de leitura, revalorização das bibliotecas em detrimento da tecnologia e iniciativas mais convidativas que pedagógicas. Nos últimos tempos, talvez ninguém como o argentino Alberto Manguel, atual presidente da Biblioteca Nacional Argentina (cargo já ocupado por Jorge Luis Borges), encarne o papel de divulgador literário, principalmente depois da morte de Umberto Eco.

Uma ideia defendida por ele, de que muitas vezes os livros ensinam mais dos lugares e culturas remotas do que até mesmo podem fazer as viagens, pode servir de consolo para quem, em tempos difíceis, sequer pode viajar a lazer. Mas o que ele deseja dizer é que a espécie de viagem que sobretudo a leitura ficcional permite fazer é muito diferente da que é disponível em sua forma consumista.  Ou seja, viajar “estando” num outro mundo, não apenas “visitando-o” e “reportando-o”. Desse modo, e contrariando a tendência predominante que nos condena a estar na mesma posição em qualquer lugar, ou seja, consultando um smartphone, a leitura de ficção pode efetivamente transportar a mente, principalmente se por meio de histórias interessantes e, melhor de tudo, ciceroneada por pessoas habilidosas como são os bons escritores.

Por outro lado, é preciso lembrar que a leitura de literatura e ficção é apenas parte do conjunto de livros que há para ler e se o declínio do hábito de leitura se deve às exigências culturais cada vez mais indisponíveis, não se pode esquecer também do principal vilão evocado quando o brasileiro dá a conhecer sua média de três livros por ano: o tempo. Ao lado da irrefutável imensidão de oferta de títulos, é preciso igualmente usar de honestidade ao admitir a prevalência de outras leituras e fontes de lazer. Tudo a competir com o tempo e com as escolhas de cada um em gastá-lo.

Já o mundo não é o mesmo do crítico Émile Faguet, que recomendava que, para aprender a ler, “é preciso ler bem devagar, e em seguida é preciso ler bem devagar e, sempre, até o último livro que tiver a honra de ter sido lido por você, será preciso ler bem devagar”. No país que mais usa ansiolíticos no mundo, convenhamos que é uma recomendação para lá de inquietante. Embora o prazer da leitura venha sendo nitidamente substituído por outros prazeres e compulsões, talvez seja possível um exercício justamente de tempo para levar a efeito uma atividade que inicialmente possa ser assombrosa como, por exemplo, a leitura das mil e tantas páginas de O homem sem qualidades – ou qualquer outro livro.

Nesse exercício, é desnecessário realizar uma equação das recomendações de fim de ano das pessoas mais respeitáveis do ramo. Recomendável também ignorar as listas de mais vendidos ou livros premiados. E, mais importante que decidir por comprar, por tomar emprestado de um amigo ou de uma biblioteca ou mesmo de livros já lidos e relidos, importa aproveitar qualquer livro como passaporte para uma viagem na qual lhe podem acompanhar as mentes mais imaginativas e poéticas com que o mundo já contou, em direção a lugares do mundo que nunca se tenha pisado antes ou mesmo que já não existam mais, quer seja num país distante ou no bairro ao lado. Este privilégio impagável de tomar parte nos dramas e alegrias humanas requer o sacrifício de penhorar, quando possível, apenas o tempo que mais tarde seria lamentado como perdido.

Homo DeusHomo Deus

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Não é à toa que Homo Deus, o novo livro de Yuval Noah Harari começa com uma imagem, ao invés de por uma palavra. Tomando conta de toda a página inicial do livro e lembrando uma gravura em preto e branco, a imagem reproduz a tomada ampliada de uma microinjecção intracitoplasmática em um óvulo humano e de imediato situa o leitor onde Harari quer colocá-lo: do ponto em que o ser humano passa a dominar a biotecnologia e adquire um controle sem precedentes sobre a natureza em sua travessia no espaço-tempo.

Em seu livro anterior, o sucesso de vendas Sapiens: uma breve história da humanidade, a biotecnologia também aparecera, mas apenas no terço final de um livro que tinha o ambicioso projeto de narrar a história da civilização e da inteligência humana até o tempo presente. Em Homo Deus, Harari parte para um ponto de inflexão temporal que se ocupa mais do futuro e de especulações sobre o que pode estar por vir, reportando-se apenas eventualmente ao passado histórico da humanidade. Se em Sapiens a biotecnologia e sua expansão eram apresentadas como a forma encontrada pelo mundo globalizado em sustentar a escalada frenética da civilização em torno do consumo, do esgotamento dos recursos naturais e da expansão do crédito comercial em todo o mundo, em Homo Deus ela surge como uma situação já dada para a contemporaneidade, como se uma nova etapa da ciência talhada especialmente para a sobrevivência e a adaptação da espécie humana daqui em diante.

Homo Deus, portanto, não é um prolongamento de Sapiens e nem uma crítica epistemológica do contemporâneo ou um livro de filosofia da ciência. Mesmo assim, não deve ser tomado como um livro inteiramente fácil, de variedades cientificas. Apesar de manter a característica da leitura agradável e contínua que fizeram o sucesso de Sapiens, Harari investe pesado em uma contraposição ao senso comum e ao humanismo como ideologia e aponta muitas vezes para a composição de um cenário distópico para o futuro, no qual a novíssima face do humano seria engendrada pela composição de uma nova técnica e consciência, dado que sua dissociação da racionalidade começa a ocorrer por meio da mediação tecnológica e proliferação de sistemas artificiais de inteligência, como as que já existem hoje principalmente na internet.

Igualmente seria exagero ou equívoco afirmar que Homo Deus pudesse ser considerado uma extensão da ficção distópica do seriado inglês Black Mirror por tratar de um futuro que já dá seus sinais evidentes e altera inclusive a percepção que se pode obter do tempo. Mesmo que tanto o livro quanto o seriado realizem especulações sobre o futuro breve e muitas vezes se valham de exemplos semelhantes, isso apenas acontece porque ambos tratam da mesma matéria: a ascensão tecnológica e suas implicações. Mas as coincidências param por aí, uma vez que as projeções de Harari referem-se a um futuro mais distendido do que o cultuado seriado exibido pelo de streaming Netflix.

Para além de suas questões centrais, a biotecnologia e a inteligência artificial, Homo Deus é permeado por muitas referências históricas, literárias e culturais. É de onde emergem muitas de suas mais indagações, porque dialogam com o mundo real e o mundo de ontem ao invés de especular tão livremente, a ponto de parecer um mero devaneio. Harari parece estar bem mais preocupado em procurar entender as condições históricas do desenvolvimento humano futuro do que em propor um modelo de substituição do homem pela tecnologia.

De modo diferente de outros pensadores e idealizadores do futuro, como o japonês Michio Kaku ou mesmo o crítico da religiosidade Richard Dawkins, Harari devolve ao campo filosófico a precedência na crítica da racionalidade científica. Aos 40 anos, o autor israelense não apenas entrou de vez na lista de best-sellers do mundo inteiro, mas de forma ainda mais competente na lista de livros interessantes e populares sobre divulgação científica. Sem o astrônomo Carl Sagan no “páreo” e situando o pensamento humano no horizonte da ciência e da tecnologia, Harari propõe que a autonomia do pensamento e a liberdade, para ele os maiores desafios futuros, colocam-se desde já como desafios evolucionários para dar fisionomia a própria natureza humana. Embora por vezes possa soar superficial ou realize especulações um tanto temerárias, seu livro é uma aventura do pensamento. Não é pouco e, pela riqueza de detalhes e qualidade de informação, não é também um livro comum.