Crítica Os lumes de Mia Couto e a voz de Herberto Helder

Os lumes de Mia Couto e a voz de Herberto Helder

Unir em um mesmo texto dois poetas sem que se procure compará-los pode parecer, num golpe de vista, tarefa das mais impraticáveis. Como me situo entre aqueles que não acreditam na possibilidade ou utilidade de comparar-se a poesia de alguém com outrem, então não será necessário procurar comparações aqui. Mesmo que isto implique no risco de aproximar ou abreviar inadvertidamente a distância poética que há entre dois dos grandes poetas vivos da língua portuguesa, o português Herberto Helder e o moçambicano Mia Couto, quero insistir um instante só nessa tentativa. Tenho algumas razões para isso. Vou explicando.

A não ser pela escrita em versos e pelo uso do mesmo idioma, os nomes de Herberto e Mia Couto não costumam aparecer juntos. Sem que, contudo, sejam antípodas, o trato que têm para com a língua também não é muito semelhante (não diria o mesmo sobre o cuidado). E isso, no meu ponto de vista, é um exemplo vivo de como o idioma português abriga mais do que vernáculos específicos, mas muitas e muitas formas de dizer. A expressão poética de um e de outro são amostras sensíveis dessa diversidade muito característica: a diversidade lusófona. Coisa que, num país continental como o Brasil, poderia perceber-se simplesmente como sotaque.

vagaselumes

Não é sobre as características linguísticas destes dois poetas que quero falar, entretanto. Pelo menos não prioritariamente. É que 2014 já vai escorrendo pelos cantos do calendário e foi justamente neste ano que ambos os autores voltaram a publicar seus versos, sem que isso fosse quase notado no Brasil. Mas como pode uma coisa dessas?

A resposta é simples e deve ser direta, sem tergiversações. Vivemos, no Brasil, como numa ilha editorial. Submetidos a uma lista exaustiva de autores irrelevantes e meramente comerciais que frequentam e alternam-se nas listas dos mais vendidos com autores religiosos e biografias de encomenda a perder de vista, não temos tido o direito de acompanhar a edição – ao menos com alguma concomitância razoável – de escritores consagrados e reconhecidos como Mia Couto e Herberto Helder. E isso que se pode, em ambos os casos, tranquilamente poupar custos com tradutores. Mas nem assim.

Pelo menos no caso de Mia Couto e seu Vagas e Lumes, a internet e os e-books puderam resolver minha curiosidade e o desejo de conhecer seu novo livro de poemas. Seja na Editorial Caminho, de Portugal, ou na Amazon.br pode-se comprar com tranquilidade o e-book e recebê-lo no mesmo instante.

amortesemmestre

Já A Morte Sem Mestre, de Herberto, é praticamente um livro inacessível. Programado pelo próprio autor para ter uma tiragem restrita (5.000 exemplares), não há registro de previsão de que um dia possa existir em versão digital. A ausência apenas poderia ser resolvida, portanto, através de uma editora interessada em publicar por aqui o autor de “O Poema Contínuo”. E aí, então, formula-se de forma autônoma a seguinte questão: mas alguém, neste mundo pragmático e tecnológico, ainda interessa-se por poesia? Pelo menos a não consagrada em memes de redes sociais? Ou seja, qual o retorno editorial possível em publicar um autor que parece fazer questão de esconder-se?

Difícil responder, senão impossível. Melhor nem tentar, por via das dúvidas.

Encerrada a sessão de reclamações, quero tentar comentar, enfim, um pouco sobre os livros. Nem tanto sobre os livros enquanto objetos, na verdade, mas sobre o que me impactaram e me pareceram em relação ao que vai por dentro deles, através das palavras de um e outro.

Vagas e Lumes é o terceiro livro de poemas que Mia Couto publica, embora muitas pessoas garantam que ele esconde poemas aleatoriamente entre seus livros de ficção. É uma prática questionável, principalmente para quem não gosta de encontrar poesia em narrativas. Gostando ou não, foram os seus livros de prosa que o fizeram um fenômeno de vendas no Brasil. Injustiça minha, foi sua qualidade. Se poéticos demais ou de menos, isso pouco importa. É muito bom contar com alguém como Mia Couto escrevendo originalmente em língua portuguesa, mesmo que do lado de lá do Atlântico.

Talvez de uma maneira não premeditada, a escolha do título incide precisamente em uma das impressões que fiquei do livro. Os poemas não são uniformes nem têm a mesma intensidade. Compõe-se de uma geografia e de uma humanidade visíveis nos romances que já escreveu. Apenas que, na forma poética, adquirem mais vida as impressões do romancista, aquela vista como se por olhos entreabertos, mesmo quando invadidos pela aspereza do mundo, suas paisagens e os sentimentos das criaturas e personagens desse universo peculiar que ele evoca muito nitidamente. Não ouso dizer quais os grandes momentos do livro para mim, porque não há coincidência possível nesse sentido. Que cada um os encontre, como cada um encontra a poesia onde ela se torna possível como experiência de leitura.

A Morte Sem Mestre, embora pareça um livro que não se queira lido – e constitua-se no mesmo gênero de Vagas e Lumes -, talvez seja quem queira ler e encontrar seus leitores. Que a poesia de Herberto não se pode ler impassivelmente não é uma novidade para quem já o conheceu, mas A Morte Sem Mestre o encontra desafiando a existência, como se provocando a morte a revelar-se. Mas, ao contrário de um poema que acaba, o poeta ali se desafia a continuar, mantendo-se em uma trajetória iniciada na década de 50 do século passado, chegando aos 85 anos de idade como a maior voz lírica da poesia portuguesa.

A tarefa de resenhar um livro que praticamente não existe é das mais perigosas. E se o livro for de poesia, a dificuldade apenas se amplifica. Para aqueles que não puderem encontrar mais o livro de Herberto nas livrarias (ele praticamente esgotou-se no mesmo dia do lançamento em Portugal), resta conformar-se com uma cópia (não autorizada) do CD que acompanha o livro postada no YouTube, onde Herberto, que já foi locutor de rádio, lê ele mesmo alguns dos poemas de A Morte Sem Mestre.

Apesar da minha primeira razão para unir ambos os poetas tenha sido, sim, esbravejar (admito) contra a inércia editorial que se pratica com a poesia universal por parte de um bom número das editoras brasileiras, a segunda razão consiste tão somente em mostrar que a poesia em língua portuguesa ainda conta com grandes autores vivos que merecem ser conhecidos e reconhecidos em vida. Muito embora as novas gerações de autores sobreponham-se incessantemente, isso acontece cada vez mais de uma forma quase irreconhecível e impossível de acompanhar.

A terceira e última razão é um mero apelo à lógica. Se aquelas iniciativas editoriais que buscam novas dicções deixam de perceber a aparição editorial de poetas como Mia Couto ou Herberto Helder, sem demérito algum da renovação sempre desejável, como é possível desejar que a poesia de novos autores seja valorizada e torne-se visível? Se alguém tiver a resposta para este imbricado enigma, por favor, faça a gentileza de me ajudar a entender…

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O maior risco que há ao escrever-se sobre um autor muito conhecido provavelmente seja o de recair em obviedades, isto é, o risco de não trazer nada de novo, de dizer nada além do que já tenha sido dito e de qualquer tentativa parecer de antemão algo como mero envernizamento da obra. Por outro lado, este mesmo risco consiste também em um desafio interessante: o de que se torna indispensável fugir de qualquer leitura prévia. A tarefa volta a complicar-se quando se trata de um livro de não ficção e de um autor amplamente conhecido, como é o caso do escritor, pesquisador, comunicador e médico Drauzio Varella.

Com o seu mais recente livro, Prisioneiras, Drauzio retoma o tema da vida prisional e diz estar concluindo a trilogia iniciada em 1999, com Estação Carandiru, e entremeada por Carcereiros, de 2012. Ao todo, completam-se cerca de vinte anos de trabalho em unidades prisionais que conduziram Drauzio a uma posição ímpar entre os escritores brasileiros, de quem não está fazendo propriamente jornalismo, nem etnografia ou historiografia, mas ao mesmo tempo está fazendo tudo isso. Além disso tudo, como não muitas vezes acontece, ele acaba sempre por colocar nas mal afamadas listas de mais vendidos uma temática das mais espinhosas: a vida e as condições de vida de uma parcela da população que de outro modo só ganha notoriedade ao figurar nas páginas policiais dos jornais, via de regra por crimes cometidos e, mais raro, por vítimas também.

A respeito da temática nem se poderia dizer que Drauzio estaria tirando-a da invisibilidade. Trata-se de uma situação conhecida e estudada no âmbito da criminologia brasileira desde a década de 70 pelo menos. Desde O cemitério dos vivos, pioneiro trabalho de Julita Lemgruber e os posteriores Mulheres encarceradas, de Maud Fragoso de Albuquerque Perruci e O mundo do crime, de José Ricardo Ramalho, estudos sobre a cultura prisional e recortes mais específicos proliferaram no âmbito das ciências sociais. É a partir daí, pelo menos, que se consolida no Brasil a antropologia criminal enquanto campo de investigação. O mérito e diferencial do trabalho de Drauzio decorrem, talvez, mais da popularização da temática e de um caráter menos tecnicalista na abordagem das condições de vida dentro dos presídios e unidades carcerárias. Seus dois livros anteriores, por exemplo, respectivamente foram transformados em filme e série televisiva e é provável que algo assim venha também a acontecer com Prisioneiras.

Talvez por praticar constantemente a escuta como instrumento de trabalho clínico, Drauzio é um escritor dotado de grande capacidade observadora. Isso se reflete tanto no que se refere ao ambiente físico, material, quanto ao psicológico e comportamental. Sua capacidade em totalizar o ambiente e mapeá-lo desde seu componente institucional até as suas estruturas de poder nem sempre perceptíveis proporciona algo como uma imersão segura no ambiente prisional, embora ele mesmo ateste que muitas vezes se sinta em maior segurança lá dentro do que fora. O que parece incompreensível para aqueles que jamais estiveram perto dos corredores carcerários, para ele é, portanto, o corriqueiro. Ao longo de todo esse tempo, desde o início de seu trabalho sobre AIDS no antigo Carandiru, ele nunca se afastou completamente do trabalho voluntário nos presídios. A inclinação decorre, segundo ele, de uma atração sobre situações limite que sempre teve, desde a infância, o que acabou desenvolvendo nele uma visão muito particular e abrangente da vida no cárcere.

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A paixão tranquila de Emily DickinsonA paixão tranquila de Emily Dickinson

Germina – Revista de Arte & Literatura

No Brasil, recebeu o título de Além das palavras o filme de Terence Davies, A quiet passion, sobre a vida da poeta norte-americana Emily Dickinson. Penso eu que uma tradução literal, como jamais se devesse recomendar para a poesia de Dickinson, talvez tivesse um resultado melhor. Resultaria em algo como Uma paixão silenciosa, o que não me agrada tanto, ou então como o que me parece bem melhor: Uma paixão tranquila.

Além das palavras (afinal é preciso que se utilize seu nome comercial) é mesmo um filme silencioso, mas também está bastante longe de ser um filme tranquilo. Como se a tela estivesse sutilmente escurecida por uma luminosidade crepuscular, quase âmbar, e os ruídos amortecidos como que por uma coberta de veludo, tudo o que não se percebe ao acompanhar os passos de Emily e sua transmutação da juventude até sua morte é tranquilidade. É bem um contraste que se tem para com as poucas imagens reais disponíveis da poeta, cuja expressão ao mesmo tempo solene e ascética parece muitas vezes pairar sobre tudo.

Outra explicação que me ocorre para não preferir o título Uma paixão silenciosa é o fato de que ele poderia ser creditado ao suposto apego que Emily poderia ter desenvolvido para com o Pastor Charles Wadsworth, no filme vivido por Eric Loren. O diretor Terence Davies, talvez premido pela necessidade de inserir qualquer efeito mobilizador em um roteiro tão linear, dá a entender claramente que os sentimentos de Emily por Wadsworth ultrapassaram em muito a amizade. A tomada em que ela aparece abalada quando ele parte em viagem sem se despedir pessoalmente dispensa qualquer explicação. Não obstante acreditar-se que alguns de seus poemas de cunho mais amoroso possam referir-se mesmo a ele, essa é apenas mais especulação biográfica que Davies preferiu considerar no lugar de outras. Bem, quando se trata de Dickinson, especulações nunca são o bastante, mas para que se chegue a um roteiro e daí a um filme é preciso que se façam opções. As de Terence Davies menosprezam outros enlevos amorosos que, de acordo com alguns biógrafos, a poeta teve além de Wadsworth.

No filme, a despeito dos silêncios prolongados, a intranquilidade a que me refiro se torna muito evidente pela expressão um tanto atormentada que a atriz Cynthia Nixon, que interpreta Emily na idade adulta, escolheu para estampar na fisionomia da grande poeta norte-americana. É compreensível, afinal a atriz está encarando um imenso desafio, isto é, dar gesto e aparência a uma poeta realmente reservada e da qual muito pouco se sabe ou se testemunhou. Mesmo assim, o efeito obtido pela atriz é poderoso, ao mesmo tempo enérgico e contido. Para uma personagem que passa pelo menos a metade do filme dentro de casa, chega a ser exasperante, em alguns momentos, exasperante como uma mente inquieta como a de Emily tenha sobrevivido a uma reclusão tão absoluta, mas justamente são as cenas em que ela aparece envolvida com a escrita que acabam colaborando para afastá-la do mito da poeta exasperada. Pelo menos no filme de Davies, Emily é felizmente mostrada em franca concentração ao escrever e, mais que isso, aparentemente muito satisfeita por fazê-lo.

De resto, na vida diária, envolvida nos cuidados que dedica junto à irmã Lavínia a uma mãe que convalesce por longos anos, Emily aparece perfeitamente resignada à condição que a austera família protestante lhe reserva, principalmente por meio da autoridade paterna. Nos longos e arrastados dias em que já pouco sai de casa, ela entrega-se à escrita de forma cada vez mais integral e é bem dessa tranquila devoção que acaba consolidando-se o legado de seus volumes de poesia, apenas conhecidos após a sua morte, em 1886. É por isso que minha impressão é de que a paixão a que pretendia referir-se o diretor Terence Davies na escolha do título em inglês seja unicamente a que ela dedicava à poesia e a ninguém mais.

Dickinson, que entre a década de 50 e 60 do séc. XIX foi publicada anonimamente no The Republican, jornal sediado em Springfield e de propriedade de Samuel Bowles, um amigo da família, parece que, na realidade, deixou-se atormentar pela poesia poucas vezes. Isso é mostrado no filme quando ela percebe que seus poemas foram editados por Bowles à sua revelia e então ela tem oportunidade de reclamar-lhe a intrusão. Apesar de que a Emily recriada e interpretada por Cyntia Nixon na adultez (na adolescência ela é interpretada pela atriz Emma Bell) se mostrasse sagaz e incisiva nos diálogos com seus irmãos ou com sua grande amiga e depois cunhada, Susan Gilbert, sua disposição para a vida social declina e o filme que começa solar e luminoso vai, aos poucos, tomando ares bem mais taciturnos.

Esse é bem um intervalo da biografia de Emily que o filme aborda muito convencionalmente, sem incorrer em interpretações muito ousadas. Sua relação com a cunhada Susan, com quem Emily trocou centenas de cartas, segundo algumas especulações biográficas poderia ter tido também uma conotação passional, mas Davies passa ao largo de qualquer insinuação a esse respeito. Nesse caso, mesmo para essa possibilidade, o título Uma paixão silenciosa soaria inadequado, já que nada quanto a isso é aventado. Por isso, assumir que a paixão de Emily pela poesia pudesse ser maior que as paixões mundanas é um caminho bem menos pedregoso para quem pretende entrever a vida de uma poeta que, afinal, viveu a maior parte de sua vida longe da vista de todos.

Dessa mesma época, embora já tivesse sido publicada nos jornais locais anonimamente, é que Emily vai buscar contato com Thomas Higginson, conhecido abolicionista e crítico considerado na Nova Inglaterra, a quem envia alguns de seus poemas. Mas Higginson, que após sua morte viria a ser o seu primeiro editor, aconselhou-a a retardar qualquer iniciativa de publicação ao mesmo tempo em que se tornou um de seus principais leitores. Higginson foi quem trouxe, por sua vez, mais da intranquilidade externa justamente no período em que ela mais se dedicava à poesia. Talvez, graças ao seu contato com ele e seu escasso encorajamento à publicação, Dickinson tenha se debatido tanto com o dilema do reconhecimento e acabado por entregar-se à poesia pela própria satisfação. Da poeta “pouco apurada”, de acordo com ele, hoje se conhece muito bem os versos que comparam a busca por publicação a um julgamento da mente, algo a que ela decidiu-se bem por essa época a não mais submeter-se (publication is the auction/of the mind of man – J709 – Fr788), reservando seu legado para a posteridade.

Não muito depois disso, coincidindo com o afastamento dos poucos amigos e o agravamento do estado de saúde da mãe, ela passa a viver cada vez mais enclausurada. E se até então se exibia em passeios externos aos jardins e eventualmente até mesmo teatros de ópera, no filme, a essa altura, ela já está radicalmente interiorizada. Mantendo quase apenas as relações com os irmãos Lavinia, Austin e a agora cunhada Susan, seu círculo social restringe-se cada vez mais à família e de sua opção pelo cuidado materno parece proceder ao hábito (questionável, segundo alguns biógrafos) de utilizar a partir daí um vestuário exclusivamente branco e a falar com os raros visitantes à distância ou por trás de uma porta.

Ainda assim, como ficção biográfica que é, o filme de Davies incorre em muitas licenças. A de entrar onde consta que ninguém tenha entrado é, sem dúvida, a maior delas. Mesmo que ele conduza a narrativa com serenidade e intercalando leituras que a atriz Cynthia Nixon faz de alguns dos poemas de Emily, o terço final do filme — ou um pouco mais que isso — mostra momentos dolorosos de sua vida, quando a doença renal que acabará por levá-la a morte começa a causar-lhe dores e desconfortos imensos.

Sua opção em mostrar que mesmo uma poeta marcada por uma dicção quase etérea padecia das dores humanas não parece casualidade, mas uma tentativa de humanização do mito, de dissolução do enigma que ao longo do tempo foi associando-se ao nome de Dickinson. De fato, parece que quanto maior o desejo de reclusão e obscurecimento de um escritor, mais isso acaba colaborando no desejo de saber-se mais e mais e de mostrá-lo, isso no caso específico do cinema. Mesmo que se incorra no risco de sobrevalorizar alguns aspectos em detrimento de outros, trata-se de um irresistível desejo especulativo que, no caso de Emily, apenas aumenta em razão de que se refere a um gênio literário que está por trás da renovação da moderna poesia lírica em todo o mundo e pensar que tudo isso tenha sido feito quase em completo segredo só pode mesmo aumentar o fascínio em torno ao seu nome.

Ao final do filme, certo é que mais e melhor pode-se imaginar sobre a reclusa vida de Emily, embora pouco a respeito do seu repertório poético tão inovador, suas influências e motivos muitas vezes tão herméticos. Realmente, essa é uma tarefa que se faz melhor à leitura do que à exibição cinematográfica, sem desabono do excelente filme de Terence Davies que, por outro lado, é muito competente em mostrar que uma vida reservada e pequena para os outros não implica necessariamente em uma vida pequena nem reservada para a poesia.