E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Crítica Os lumes de Mia Couto e a voz de Herberto Helder

Os lumes de Mia Couto e a voz de Herberto Helder

Unir em um mesmo texto dois poetas sem que se procure compará-los pode parecer, num golpe de vista, tarefa das mais impraticáveis. Como me situo entre aqueles que não acreditam na possibilidade ou utilidade de comparar-se a poesia de alguém com outrem, então não será necessário procurar comparações aqui. Mesmo que isto implique no risco de aproximar ou abreviar inadvertidamente a distância poética que há entre dois dos grandes poetas vivos da língua portuguesa, o português Herberto Helder e o moçambicano Mia Couto, quero insistir um instante só nessa tentativa. Tenho algumas razões para isso. Vou explicando.

A não ser pela escrita em versos e pelo uso do mesmo idioma, os nomes de Herberto e Mia Couto não costumam aparecer juntos. Sem que, contudo, sejam antípodas, o trato que têm para com a língua também não é muito semelhante (não diria o mesmo sobre o cuidado). E isso, no meu ponto de vista, é um exemplo vivo de como o idioma português abriga mais do que vernáculos específicos, mas muitas e muitas formas de dizer. A expressão poética de um e de outro são amostras sensíveis dessa diversidade muito característica: a diversidade lusófona. Coisa que, num país continental como o Brasil, poderia perceber-se simplesmente como sotaque.

vagaselumes

Não é sobre as características linguísticas destes dois poetas que quero falar, entretanto. Pelo menos não prioritariamente. É que 2014 já vai escorrendo pelos cantos do calendário e foi justamente neste ano que ambos os autores voltaram a publicar seus versos, sem que isso fosse quase notado no Brasil. Mas como pode uma coisa dessas?

A resposta é simples e deve ser direta, sem tergiversações. Vivemos, no Brasil, como numa ilha editorial. Submetidos a uma lista exaustiva de autores irrelevantes e meramente comerciais que frequentam e alternam-se nas listas dos mais vendidos com autores religiosos e biografias de encomenda a perder de vista, não temos tido o direito de acompanhar a edição – ao menos com alguma concomitância razoável – de escritores consagrados e reconhecidos como Mia Couto e Herberto Helder. E isso que se pode, em ambos os casos, tranquilamente poupar custos com tradutores. Mas nem assim.

Pelo menos no caso de Mia Couto e seu Vagas e Lumes, a internet e os e-books puderam resolver minha curiosidade e o desejo de conhecer seu novo livro de poemas. Seja na Editorial Caminho, de Portugal, ou na Amazon.br pode-se comprar com tranquilidade o e-book e recebê-lo no mesmo instante.

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Já A Morte Sem Mestre, de Herberto, é praticamente um livro inacessível. Programado pelo próprio autor para ter uma tiragem restrita (5.000 exemplares), não há registro de previsão de que um dia possa existir em versão digital. A ausência apenas poderia ser resolvida, portanto, através de uma editora interessada em publicar por aqui o autor de “O Poema Contínuo”. E aí, então, formula-se de forma autônoma a seguinte questão: mas alguém, neste mundo pragmático e tecnológico, ainda interessa-se por poesia? Pelo menos a não consagrada em memes de redes sociais? Ou seja, qual o retorno editorial possível em publicar um autor que parece fazer questão de esconder-se?

Difícil responder, senão impossível. Melhor nem tentar, por via das dúvidas.

Encerrada a sessão de reclamações, quero tentar comentar, enfim, um pouco sobre os livros. Nem tanto sobre os livros enquanto objetos, na verdade, mas sobre o que me impactaram e me pareceram em relação ao que vai por dentro deles, através das palavras de um e outro.

Vagas e Lumes é o terceiro livro de poemas que Mia Couto publica, embora muitas pessoas garantam que ele esconde poemas aleatoriamente entre seus livros de ficção. É uma prática questionável, principalmente para quem não gosta de encontrar poesia em narrativas. Gostando ou não, foram os seus livros de prosa que o fizeram um fenômeno de vendas no Brasil. Injustiça minha, foi sua qualidade. Se poéticos demais ou de menos, isso pouco importa. É muito bom contar com alguém como Mia Couto escrevendo originalmente em língua portuguesa, mesmo que do lado de lá do Atlântico.

Talvez de uma maneira não premeditada, a escolha do título incide precisamente em uma das impressões que fiquei do livro. Os poemas não são uniformes nem têm a mesma intensidade. Compõe-se de uma geografia e de uma humanidade visíveis nos romances que já escreveu. Apenas que, na forma poética, adquirem mais vida as impressões do romancista, aquela vista como se por olhos entreabertos, mesmo quando invadidos pela aspereza do mundo, suas paisagens e os sentimentos das criaturas e personagens desse universo peculiar que ele evoca muito nitidamente. Não ouso dizer quais os grandes momentos do livro para mim, porque não há coincidência possível nesse sentido. Que cada um os encontre, como cada um encontra a poesia onde ela se torna possível como experiência de leitura.

A Morte Sem Mestre, embora pareça um livro que não se queira lido – e constitua-se no mesmo gênero de Vagas e Lumes -, talvez seja quem queira ler e encontrar seus leitores. Que a poesia de Herberto não se pode ler impassivelmente não é uma novidade para quem já o conheceu, mas A Morte Sem Mestre o encontra desafiando a existência, como se provocando a morte a revelar-se. Mas, ao contrário de um poema que acaba, o poeta ali se desafia a continuar, mantendo-se em uma trajetória iniciada na década de 50 do século passado, chegando aos 85 anos de idade como a maior voz lírica da poesia portuguesa.

A tarefa de resenhar um livro que praticamente não existe é das mais perigosas. E se o livro for de poesia, a dificuldade apenas se amplifica. Para aqueles que não puderem encontrar mais o livro de Herberto nas livrarias (ele praticamente esgotou-se no mesmo dia do lançamento em Portugal), resta conformar-se com uma cópia (não autorizada) do CD que acompanha o livro postada no YouTube, onde Herberto, que já foi locutor de rádio, lê ele mesmo alguns dos poemas de A Morte Sem Mestre.

Apesar da minha primeira razão para unir ambos os poetas tenha sido, sim, esbravejar (admito) contra a inércia editorial que se pratica com a poesia universal por parte de um bom número das editoras brasileiras, a segunda razão consiste tão somente em mostrar que a poesia em língua portuguesa ainda conta com grandes autores vivos que merecem ser conhecidos e reconhecidos em vida. Muito embora as novas gerações de autores sobreponham-se incessantemente, isso acontece cada vez mais de uma forma quase irreconhecível e impossível de acompanhar.

A terceira e última razão é um mero apelo à lógica. Se aquelas iniciativas editoriais que buscam novas dicções deixam de perceber a aparição editorial de poetas como Mia Couto ou Herberto Helder, sem demérito algum da renovação sempre desejável, como é possível desejar que a poesia de novos autores seja valorizada e torne-se visível? Se alguém tiver a resposta para este imbricado enigma, por favor, faça a gentileza de me ajudar a entender…

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Cartaz do filme, onde vê-se Lola Duenas e Pablo Pineda sorrindo juntos

“Para que quer ser uma pessoa normal?” Essa é pergunta que Laura, a personagem interpretada por Lola Dueñas, em Yo, también, premiado em 2009 no Festival de Cinema de San Sebastián e ainda inédito no Brasil, faz a Daniel, vivido nas telas pelo espanhol Pablo Pineda. Apaixonado, Daniel vê no apelo à normalidade algo como uma credencial para a concretização de seu desejo de viver integralmente seus próprios desejos. Entretanto é a personagem de Lola quem é desafiada a despir-se de seus preconceitos e aceitar o potencial afetivo dessa relação que une em um extremo uma mulher de meia-idade insatisfeita com a própria vida e, no outro, Daniel, homem que, nascido com a síndrome de Down, luta com ganas por sua emancipação existencial.

Na crítica estrangeira, Yo, también é muitas vezes tratado como se fosse um documentário sobre a deficiência intelectual. Longe disso, é um filme sobre relações humanas, estabelecida entre seres humanos adultos e que buscam sua felicidade e realização em meio ao cotidiano de pessoas comuns. Talvez então fosse mais apropriado classificá-lo entre os filmes de ficção científica, ou você já viu (no cinema ou até mesmo na vida real) pessoas com síndrome de Down sendo retratadas como pessoas adultas e donas do próprio nariz e desejos?

Muito melhor que tudo isso, é um filme divertido, sem ser um filme humorístico ou abusar de apelos cômicos. É divertido porque, como dizem seus diretores, os novatos Antonio Naharro e Álvaro Pastor, na vida é preciso um certo humor, até para poder sobreviver-se a ela. Mas é igualmente dramático na medida em que não abdica de mostrar portas fechadas, desilusões, frustrações ou perdas. O melhor de tudo é que consegue voltar a ser divertido quando mostra a possibilidade vívida de ir-se sempre muito além dos limites sociais e da trivialidade dos preconceitos e dos “nãos” que a vida, em todas as suas formas e estruturas sociais, insistentemente apresenta a quem quer somente o direito de viver a pleno a própria vida.

Trailer do filme

De uma maneira muito própria ao cinema espanhol contemporâneo, no qual as relações afetivas aparecem muito vinculadas ao desejo e à liberdade, seus diretores não procuram um casal com química perfeita, idealizações mesmo que vistos pela lente da “diferença”, mas um choque explosivo de temperamentos no qual o afeto anda de mãos dadas com a angústia, com a incompreensão, mas que é obtido em sua plenitude fora de qualquer clichê costumeiro quando da exposição de pessoas aparentemente “incapacitadas” para a vida afetiva e sexual.

Yo, también exigirá muito da capacidade do público em torcer o nariz diante de relações aparentemente improváveis. Irá incomodar quem pensa que as pessoas têm lugares próprios para existir e o espaço social limitado por abstrações arbitrárias. Surpreenderá aqueles que estão presos a estereótipos e às visões simplistas do ser humano e da deficiência intelectual. De ideias que os reduzem a eternos filhos e crianças, acabando por anulá-los em imagens cristalizadas e condená-los a um mundo ínfimo e sem esperança. Yo, también vai, sem que se possa perceber muito claramente, contar-nos que toda essa representação finalmente está ruindo e que daí não há mais volta. Se há dúvida que isso é possível, assistir o filme poderá ser uma forma simples de perceber o que pessoas como Pablo Pineda e tantas outras estão, pelo mundo afora, fazendo já por suas próprias vidas.

Ator, mas só por um momento

Ao contrário de Lola que, como atriz, já atuou em dois outros filmes, ainda em pós-produção, após Yo, también, Pablo já declarou em entrevista (ver vídeo a seguir) que não pretende voltar a trabalhar como ator. Antes dessa experiência, Pablo já era relativamente conhecido no mundo inteiro por ter sido a primeira pessoa com síndrome de Down, em solo europeu, a lograr um título universitário. Formado em Pedagogia em 1999 e prestes titular-se psicopedagogo, diz que sua participação na produção mudou sua vida, mas queixa-se das perguntas repetitivas dos jornalistas que já o denominaram inclusive de “superdotado”. Dizendo-se uma pessoa realista, Pablo está mais preocupado em lançar novos olhares sobre a síndrome de Down e que, longe de imaginar-se como um ator, prefere ver-se no papel de alguém que luta por oportunidades para as pessoas com deficiência intelectual e que não esquece, por mais holofotes que sejam lançados em sua direção, que esse compromisso diz respeito ao verdadeiro sentido de autonomia individual e responsabilidade coletiva do qual ele dá indícios também na composição de seu papel.

Pablo em entrevista ao programa Cuatro A Raíz

Antes de Pablo, Pascal Duquenne fora premiado em Cannes, por “O Oitavo Dia”

Cena de “O Oitavo Dia”, onde Pascal Duquenne e Daniel Auteuil caminham num campo verde

Treze anos antes da premiação de Yo, también em San Sebastián, em 1996, o belga Pascal Duquenne dividiu com o consagrado ator francês Daniel Auteuil a Palma de Ouro de melhor ator por Le huitième jour (no Brasil, “O Oitavo Dia”), refilmagem de um filme finlandês de 1960. Motivo de grande comoção, O Oitavo Dia estreou a presença de um ator com síndrome de Down representando vigorosamente sua personagem na cena dos festivais internacionais. Foi a primeira vez em que a pessoa com deficiência intelectual era mostrada em grande estilo, em primeiro plano, já não mais como cenário. Ali, entretanto, o tom dramático se fazia bem mais intenso e a personagem vivia como que à deriva, numa situação de abandono que acabaria por levá-la a um desfecho fatal, a despeito de seu “efeito transformador” sobre os outros, principalmente a personagem de Auteuil. Desde então, outros filmes de ficção foram feitos com a presença de atores com síndrome de Down, como o espanhol León y Olvido e o norte-americano My Brother. Igualmente dramáticos e com roteiros muito centrados nos dramas familiares, suas personagens não chegam a transpor as questões de dependência pessoal e focam preferencialmente os aspectos incapacitantes de suas vidas. No mais recente “A Outra Margem”, realização portuguesa de 2007, o tom dramático é amenizado, mas a presença quase-angelical, transformadora dos outros – como em O Oitavo Dia, lança luz a um resgate de dignidade para a vida dos “diferentes”, sejam pessoas com deficiência ou, no caso do filme português, do outro protagonista, um travesti vivido pelo ator Filipe Duarte.

Yo, también não é um filme melhor ou pior que os acima citados, mesmo porque são histórias muito diferentes as aí contadas. O distal entre eles está, entretanto, na proximidade que realiza entre as personagens, como se atravessassem uma ponte que os demais focam à distância ou ignoram por completo. Essa é uma diferença muito importante que não deve ser esquecida. Se os filmes acima podem ser categorizados como filmes sobre a deficiência intelectual, Yo, también deve ficar fora dessa relação e aparecer em uma outra que acaba de inaugurar, como filmes que mostram pessoas e seus desejos, esperanças e dificuldades, entre elas as pessoas com deficiência intelectual. Fora isso, nada de “anormal”. Ainda assim, é um filme diferente. Diferente como ele mesmo. Afinal, não é isso mesmo a diferença?

A vida secreta das árvoresA vida secreta das árvores

Um dos livros mais vendidos de não-ficção do ano nos Estados Unidos e na Europa, A Vida Secreta das Árvores, do botânico alemão Peter Wohlleben, parece tratar de tudo, menos de árvores. Nele, clãs e famílias digladiam-se pela sobrevivência, criaturas solitárias enfrentam o cerco de inimigos, pedem socorro, socorrem-se, tornam-se amigas, realizam pactos, conversam entre si e até mesmo contra-atacam àqueles que agridem os membros destas curiosas sociedades de faias, freixos, carvalhos, bétulas, abetos, teixos e assim por diante.

Se quisesse, Wohlleben poderia ter escrito um épico que entremeasse as muitas desventuras arbóreas. O que acabou fazendo, entretanto, foi esclarecer uma dimensão inesperada e oculta da vida das árvores. E, nesse mundo quase imperceptível, o modo como estes seres sobrevivem e relacionam-se, mesmo quando costumam ser pouco notados e até certo ponto menosprezados no mundo da racionalidade. O inesperado maior é que ele faz isso quase literariamente, apesar de contar apenas com o instrumental da ciência, com uma impressionante capacidade observadora e uma narrativa até certo ponto afetiva a respeito dos enormes vegetais. É a maneira que encontrou para tornar acessível esse universo a qualquer leigo em botânica.

À leitura, é praticamente impossível não reconstituir-se imediatamente a imagem das árvores vivas da ficção fantástica de J. R. R. Tolkien: os ents e suas movimentações pelas florestas da Terra Média. É bom lembrar, porém, que não é apenas em Tolkien que a relação das árvores com a literatura acontece. Trata-se de um fenômeno universal, dado que a coexistência e dependência entre os diferentes tipos de seres acontece desde sempre, isto é, praticamente desde que os seres humanos desocuparam de seus galhos e postaram-se em dois pés, no solo. Assim que desde o Édem bíblico e de suas duas árvores seminais: a da vida e a do conhecimento, passando por tradições culturais tão diversas quanto a do extremo oriente e a dos povos do norte europeu, árvores e homens vêm dividindo espaço na geografia real e também na imaginação popular.

Primeiro, na mitologia mais arcaica em que dríades nasciam de dentro de carvalhos, ninfas eram transmutadas em loureiros, deuses africanos incorporavam em baobás gigantescos, teixos e salgueiros assombrosos protegiam residências e seus moradores de influências maléficas da natureza e outras inumeráveis possibilidades. Depois, na literatura, o aspecto mágico da relação também foi consolidando-se como dos mais duradouros. Um exemplo extremo dessa simbologia sobrenatural pode ser encontrado na literatura fantástica que tanto predominou na América espanhola no último século, quando eventualmente árvores e homens chegaram até mesmo a fundir-se, como no caso de José Arcadio Buendía, personagem de Gabriel Garcia Marques em Cem anos de solidão.

No Brasil, em específico, as árvores também costumam aparecer desde os mitos de formação, principalmente os de matriz indígena. Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, relata que mitos como o do caipora e o da mãe-das-seringueiras cumprem o papel de proteção das florestas, vivendo no interior dos troncos das árvores, surgindo para defender as matas de seus invasores externos. Na literatura, entre aparições incidentais, há um conto que facilmente poderia ser dado como precursor do realismo fantástico, de João Simões Lopes Neto, publicado na imprensa no começo do séc. XX, e que narra a história de certa figueira que teria absorvido características de muitas árvores cujas sementes depositaram-se acidentalmente próximo às suas raízes. O conto intitulado A figueira encontra-se no livro Casos do Romualdo, recompilado e republicado em 1954 pela editora Globo, de Porto Alegre.

Exemplos míticos e literários como os acima atestariam de certo modo que, a despeito da visível fixidez, as árvores ocupam diversos lugares na literatura, demonstrando que, pelo menos no imaginário, elas não são tão fixas assim. Não é difícil lembrar de árvores sábias e confidentes, como o pé de laranja-lima de José Mauro de Vasconcelos ou da presença ameaçadora e constante nos bosques de fábulas e contos infanto-juvenis de um tempo em que seres humanos e florestas tinham limites de não tão fácil transposição quanto há hoje. Movido talvez por isso, Wohlleben tenha apressado-se a narrar a história e a natureza dos fenômenos botânicos de modo a sensibilizar a razoabilidade presente em relação ao tema, tendo em vista a crescente dessensibilização do ser humano para com quaisquer elementos da natureza objetiva. E isto é visível sobretudo na constatação de que mitos e seres afins simplesmente deixaram de dar conta da tarefa de delimitar territórios de árvores e de homens, não que a exposição permanente de números de desmatamento venha tendo melhor sorte.

Em seu livro, ao invés de agir como biólogo ou guarda florestal, Wohlleben assume-se como um narrador de realidades tão pouco aparentes que chegam a parecer fantasia. Para ele, mesmo que tratando especialmente das florestas alemãs e europeias, importa mais que as pessoas reconsiderem o papel das árvores e florestas, que não as percebam como meros conversores de oxigênio, mas como seres dotados de uma dinâmica capaz de interferir decisivamente no mundo contemporâneo, quem sabe até mesmo pelos seus exemplos de comportamento social, mesmo que isso pareça estranho dizer.

O leitor que está limitado a uma visão utilitarista da natureza por certo irá aborrecer-se com a leitura de A vida secreta das árvores, mas não é o desejo de Wohlleben realizar a missão de convencimento ou pregação ambiental. Nada disso. Talvez o mais espantoso seja afinal que ele está a mostrar o que de outro modo parece incompreensível, ou seja, de que tanto as florestas quanto a vida não são inexpugnáveis e que se a literatura tem logrado sobreviver sem a necessidade das árvores, o mesmo não se pode dizer nem de autores, nem de leitores, nem de ninguém. Já é um motivo e tanto para, pelo menos, escrever-se um livro assim.

Esquisito como um adolescenteEsquisito como um adolescente

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Acostumado a assistir ótimos trailers e filmes correspondentes não tão bons assim, foi uma música que me motivou a assistir Ponto Zero (2015), do diretor gaúcho José Pedro Goulart, o mesmo do antológico e premiado curta O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda (1986) e que foi adaptado de um episódio do livro O Amor de Pedro por João, do também gaúcho Tabajara Ruas. A frase, aparentemente sem sentido, não tem mesmo muito sentido, principalmente porque essa má correspondência, no caso de Ponto Zero, não procede e porque a trilha do filme, assinada por Leo Henkin, é boa a ponto de prescindir de qualquer remissiva, como por exemplo a que fiz entre a notícia do filme e a de que, em sua nova turné, iniciada em Paris em meados de maio, o Radiohead de Thom Yorke e Jonny Greenwood voltou a executar ao vivo Creep, após longos sete anos de ausência nos setlists da banda.

Assim como na Creep do Radiohead, Ponto Zero faz como um desvio narrativo em direção à adolescência, esse momento incômodo do desenvolvimento humano em que as coisas desejadas da vida adulta não começaram ainda a acontecer e tudo o que é indesejado do fim da infância passa a ocupar o universo afetivo e psicológico, mas com uma espécie de vazio inesperado, num hiato que às vezes parece ser infinito e insolúvel. Se percebido através dos olhos de um personagem como Ênio, vivido pelo excepcional ator estreante Sandro Aliprandini, o mundo é tão ou mais nonsense que uma frase desconexa. E é disso, desse lugar de solidão absoluta, que seu personagem deverá emergir, não que isso irá acontecer como em uma fábula, porque para adolescentes como Ênio fábulas também já não fazem mais nenhum sentido.

Quase sempre silenciosamente, Ênio encara uma vida que em muito se parece a um pesadelo desde a primeira cena. Bulimizado e agredido em frente à escola, ele sequer parece estranhar a humilhação, como quem decidisse de antemão que qualquer reação é impossível ou inútil. À noite, a vida familiar é uma sucessão de homilias infindáveis que a mãe, vivida pela atriz Patricia Selonk, de forma desesperada tenta repecutir em vão. Interpretado por Eucir de Souza, o pai é um radialista que trabalha pela noite, mas que nem sempre volta para casa e com quem tem uma relação fria e superficial. A família é completada pela irmã que, na sua ótica, é quase alheia e vive sua rotina de estudante. Para Ênio, é como se ela tivesse apenas a função de trazer para dentro de casa suas colegas também adolescentes, objetos do seu solitário e fantástico interesse sexual.

O aprisionamento daquele modo de vida, entretanto, aos poucos vai se tornando cada vez mais insuportável. Como forma de escapar daquela repetição perpétua, ele vai buscar, um pouco na realidade e um pouco no sonho, um modo de desencapsular-se da vida em que se matinha. E então, em uma noite de chuva torrencial, ele sai de casa sem que ninguém perceba no carro do pai para cumprir sua jornada em direção ao fim definitivo da infância. O mundo precariamente mantido pela insistência de uma mãe obcecada em manter o casamento com um marido ausente dá lugar a uma cidade desvanecida na qual ele se choca com pessoas e situações que o forçam definitivamente contra um limite já insustentável.

É sem dúvida na atuação de Sandro Aliprandini o maior trunfo com que o diretor José Pedro Goulart conta para narrar uma história de poucos diálogos, quase onírica, da qual sobressai-se, mais que o desenlace de um enredo imbricado, a construção de um personagem e seu vertiginoso processo de amadurecimento. Com o cabelo crescido e sem corte, com as roupas sem qualquer estilo, Ênio é um adolescente espinhento e comum quanto qualquer outro tentando safar-se dos destinos que os outros querem lhe imputar e viver por sua própria conta. É um esquisito, como diz a letra de Thom Yorke, bem como os adolescentes costumam ser quando já não lhes servem mais nem a face, nem a mente e nem o corpo infantis e debatem-se sem muita ideia do que desejam e do que estão prestes a se tornar.

Estranho também é que o filme tenha justamente entrado em cartaz quase ao mesmo tempo dessa reaparição de Creep nos palcos do Radiohead. Ao mesmo tempo em que a banda está lançando seu mais novo disco A Moon Shaped Pool (2016), Creep pertence mais àquela sonoridade de Pablo Honey (1993) e The Bends (1995), com guitarras mais evidentes que os sintetizadores e cujas letras remetem bem mais aos adolescentes dos anos 90 e da virada do milênio do que as letras atuais da banda. É claro que a presença de True Love Waits no disco desmente tudo isso, porque também é uma letra de 1995 que se refere ao universo teen e está ali, deslocada como um adolescente entre as músicas do novo disco, que bem poderia ser chamado de a “maturidade” da banda. Não faz muito sentido, mas talvez faça, afinal parece que muita gente faz questão ou tente estar na maturidade preservando pelo menos algo com a autenticidade da adolescência, nem que o pasmo ou o desejo de aventurar-se no novo, nem que seja como no caso do Ênio de Ponto Zero, no novo de si mesmo.