A complexidade do zika

“Zika: do sertão nordestino à ameaça global”, de Debora Diniz (Civilização Brasileira, 2016, 192 páginas)

O mais recente livro da antropóloga e professora de bioética na Universidade de Brasília e na Fundação Oswaldo Cruz, a ativista Debora Diniz, Zika: do sertão nordestino à ameaça global, é um dos primeiros documentos acerca da epidemia do vírus zika e seus efeitos em solo brasileiro. Resultado de uma extensa e imersiva jornada e do seu contato direto com as pessoas e comunidades mais afetadas, no interior da Paraíba e em outros estados do nordeste, o livro aborda desde os momentos anteriores à descoberta da relação do vírus com os crescentes casos de microcefalia e outras doenças neurológicas até o impacto da notícia científica na comunidade global, passando pelos relatos de médicos e familiares e também pelo difícil enfrentamento às condições de atenção à saúde de mães e seus filhos na região.

Ao invés de ser tomado como um livro de clínica sobre uma doença, sua etiologia e consequências, o livro de Debora na realidade é bem mais um documento que nem por um instante sequer realiza concessões às responsabilidades políticas, mas, ao dialogar diretamente com as comunidades envolvidas, acaba por desvelar e esclarecer ainda mais a relação direta entre a situação de vulnerabilidade das comunidades do interior nordestino e as condições propícias para a expansão de uma doença cujo controle dependeria essencialmente de investimentos públicos em saneamento. Tanto isso é real que, paralelo ao livro, Debora também produziu um documentário que foi apresentado primeiramente na Dinamarca, em agosto, na maior conferência mundial sobre a saúde da mulher, a Women Delivery, depois no Brasil e que agora está disponível no YouTube. No filme, é possível assistir-se às muitas pessoas entrevistadas para o livro e conhecer-se um pouco mais uma realidade que muitas vezes acontece distante de quaisquer recursos de atenção primária à saúde.

Ainda que provavelmente não tenha sido sua intenção realizar um trabalho de denúncia acerca das condições de vida das pessoas afetadas ou suscetíveis à epidemia no sertão nordestino, é muito difícil mesmo para um leitor desinteressado no assunto deixar de notar que há um fator de sofrimento humano e social inerente ao que se passa. A percepção de um grande envolvimento comunitário e solidário entre as famílias, especialmente quando e onde a atenção do Estado mais falha, não deixa de ser uma comprovação deste sofrimento, exatamente por consistir em hercúleas tentativas de contraposição ao estado de coisas e o sucateamento dos equipamentos de públicos de saúde.

Em seu livro, todas as situações relatadas são reais, assim como as pessoas envolvidas. Todas têm uma origem, uma procedência e histórias que por vezes chegam a confundir-se com a própria história do sertão paraibano, potiguar, alagoano, baiano e pernambucano. Histórias de carências extremas e de uma desatenção secular que dificilmente permitiriam que se pudesse escapar ao raio de ação do principal vetor do vírus: o mosquito aedes aegypti. O fato de o vírus atingir e comprometer seriamente a saúde de bebês só vem a acrescentar um ingrediente ainda mais dramático a essa que foi a principal e mais grave ocorrência epidemiológica no Brasil em 2016 e que deve repetir-se no verão de 2017, dirigindo-se já aos estados do centro e sudeste, conforme já vem sendo notificado pelas autoridades sanitárias.

Porque inicialmente imaginava-se que a microcefalia seria a única decorrência da infecção pelo zika e as pesquisas em torno da ação do vírus eram incipientes, apenas aos poucos foi se percebendo que as implicações neurológicas envolviam e impunham também outras condições aos recém nascidos. Denominada daí em diante por “síndrome congênita do zika” e declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como situação de emergência em saúde pública de interesse internacional, ainda assim nos meses de inverno, com a trégua relativa na propagação do vetor, pouco de efetivo foi executado pelas autoridades. Além de uma inefetiva “guerra ao mosquito”, o que mais se viu durante o ano foi o aumento dos nascimentos e o incremento na circulação do vírus em outras regiões. Pesquisas sobre vacinas vêm sendo realizadas pelo Instituto Butantan (SP), mas as melhores perspectivas de testes poderão concretizar-se apenas para o final de 2017 ou 2018. Até lá, as recomendações de cuidados extras para gestantes ficam mantidas, pois ainda é inviável pensar-se em outro cenário.

Além de verificar as dificuldades próprias da população, Debora investigou também o trânsito da informação científica sobre o zika e dificuldades muito particulares da comunidade científica brasileira em assimilar pesquisas e achados de pesquisadores que se encontravam distantes dos principais centros de pesquisa e daqueles que partiam de médicos de “beira de leito”, conforme sua expressão. Segundo depoimentos presentes no livro, tais dificuldades teriam colaborado no atraso do desenvolvimento de pesquisas e de ações públicas, inclusive sobre diagnóstico e notificações. De outro modo, ao dar voz a médicos que mesmo sem condições ideais insistiram em averiguar a causa do incremento de casos de microcefalia, o livro ressalta que muito do que hoje se conhece se deve a esse esforço clínico às vezes tão pouco notável. O ponto alto do livro de Debora aparece justamente no esforço em documentar e relatar não apenas as imensas dificuldades que emergem do encontro de um vírus poderoso, uma ciência em estado de transição e um ambiente social desoladamente permeado de precariedades, mas todo o esforço adaptativo de comunidades extremamente carentes.

Ao contrário da vizinha Colômbia, onde o aborto é legal na perspectiva de proteger a saúde (inclusive a mental) da mãe, e onde a circulação do vírus ainda não foi tão intensa e os números de casos mantêm-se reduzidos, no Brasil a situação é bastante diferente. Para Debora, tendo-se em vista a impossibilidade de controle do vetor e da responsabilidade dos agentes públicos no favorecimento de sua propagação, seria preciso superar, portanto, a questão do mosquito e garantir no âmbito dos direitos reprodutivos o direito ao acompanhamento pré-natal e a escolha ou não pela manutenção da gestação.

Nesse sentido, a Anis – Instituto de Bioética, entidade de pesquisa dirigida por ela própria, propôs ação ao STF visando ampliar o direito de escolha das mulheres e em responsabilizar o governo diante de uma epidemia que não foi controlada e cujo combate ao vetor de transmissão tem se mostrado insuficiente. Trata-se de uma ação em aberto cuja decisão final deverá custar ainda muita polêmica, mesmo já contando com o aval da OMS e de alguns juristas, embora outros tantos sejam contrários à medida. O tema, permeado por tabus e interesses diversos, não vem contando com um debate nem sério nem célere no Brasil, possivelmente porque a decisão não passe nem perto da realidade da população atingida. Por isso mesmo, e por ser um documento indispensável a todos os interessados nos debates contemporâneos sobre saúde pública e direitos reprodutivos, o livro de Débora seria também, para muitos, mais que um objeto de interesse eventual, mas uma oportunidade ímpar para inteirarem-se do assunto com um pouco mais de distanciamento do âmbito das crenças pessoais e o mais próximo possível da realidade de seus legítimos interessados.

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Outros jeitos de usar a boca - Rupi Kaur

A escritora e ilustradora canadense Rupi Kaur é mesmo alguém aparentemente fadada a colecionar feitos inéditos. Sua entrada na lista de mais vendidos da Folha, no sábado de 8 de abril, será apenas mais um entre eles e, mesmo assim, afirmar-se como um fenômeno literário, e não meramente editorial, exigirá bastante do seu livro de estreia: Outros Jeitos de Usar A Boca. Os demais feitos de Rupi não se referem ao fato de ela ter rompido o lacre das listas de mais vendidos, mas por ter indiretamente abalado várias crenças a respeito da escrita e da publicação de poesia, gênero que, a despeito de alguma popularidade, é dos mais insignificantes em vendas no mercado brasileiro de livros.

Rupi, que é filha de pais indianos de origem sikh, ganhou notoriedade após publicar pelos próprios meios um livro de poemas também ilustrado por ela mesma. Os poemas eram divulgados no Instagram e, em função de uma postagem censurada, onde ela aparecia de costas exibindo seu sangue menstrual, sua popularidade multiplicou-se vertiginosamente. Em poucos meses, o livro autopublicado estourou em números e venceu sua primeira barreira: finalmente encontrou um editor disposto a investir comercialmente. Antes, havia tido apenas a sorte comum a grande maioria dos livros de poesia, ou seja, a simples negativa. Por isso, Rupi fez ruir de uma vez só um duplo estigma: o de que poesia não vende e de que a autopublicação não seria uma alternativa editorial.

Tido como um libelo em versos, Rupi trata em Outros Jeitos de Usar A Boca (Milk and Honey, no original em inglês) de temas muito difundidos no movimento feminista: abusos, relações familiares e o termo dos termos: empoderamento. E eis que aparece aqui a segunda barreira para o seu livro, a de sobrepujar o apelo temático e afirmar-se como valor mais poético do que identitário. É o que muitos se perguntam sobre o seu sucesso: se ele se deve à qualidade literária ou à identificação com uma causa das mais candentes no mundo contemporâneo. O que muitos dizem é que não seria porque Rupi vende um milhão de livros de poemas que há um milhão de pessoas interessadas em ler poemas. Num mercado marginal, a publicação de poesia cumpre um trânsito breve e bastante restrito a iniciados e poucos admiradores. Nas prateleiras das livrarias, via de regra apenas os nomes consagrados, em sua maioria mortos há muito tempo, é que estão disponíveis.

Muitos incrédulos apostam que o fenômeno Rupi deve esgotar-se em si mesmo e há muitas indagações a respeito de sua vocação poética. Se é poesia mesmo ou apenas autoajuda escrita em versos, por exemplo. Que a vocação política da poesia é antiga não há novidade alguma em dizer e que de uma autora de 24 anos não se pode exigir um projeto estético e literário definitivo, igualmente. Por que então não dar a Rupi o tempo que todos dispõem, ou seja, o tempo de amadurecer ou de perecer, se este for mesmo o caso?

Qualquer pressa nesse sentido, o de determinar definitivamente o valor do seu trabalho pode ser apenas a pressa pela desqualificação. Porque Rupi surgiu e cresceu assim mesmo, encarando o descrédito editorial e a incredulidade da crítica, é bem possível que ela venha a sobreviver, e ainda mais forte, porque amparada em leitores de todo o mundo e e de todas as idades. Eu não sei, penso que tanto quem gosta de versos (e desde que não esteja preocupado em escalonar os valores poéticos) quanto quem apenas se interessa pelo tema é quem sairá ganhando. Trata-se de apenas dar o tempo de uma autora em seu primeiro livro. E, sejamos um pouco decentes nesse aspecto, não há crime algum nisso.

A deficiência como fronteira do contrato social em Martha NussbaumA deficiência como fronteira do contrato social em Martha Nussbaum

Inclusive

Não conheço muitos pensadores contemporâneos, principalmente na filosofia, que tenham se debruçado diretamente sobre questões de interesse às pessoas com deficiência. De forma indireta, há muitos que sem dúvida abordam temas de interesse seja no que diz respeito à vida social quanto às condições existenciais e morais dos indivíduos, no entanto me parece ser uma experiência um tanto incomum encontrar quem os aborde objetivamente e, mais raro ainda, quem apresente uma compreensão abrangente e profunda de seus problemas e não um receituário de soluções consertativas. Isso é o que há de melhor no capítulo que a filósofa norte-americana Martha Nussbaum dedicou às pessoas com deficiência no seu “Fronteiras da justiça: deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie”, publicado no Brasil em 2013, pela Martins Fontes.

Essa ausência, eu não diria exclusão, parece ter mais uma causalidade histórica do que propriamente teórica. A essa altura do séc. XXI, não é segredo para mais ninguém que até o período da Segunda Guerra Mundial praticamente todas as questões relativas às deficiências, especialmente as intelectuais (sobre as quais ela mais se debruça), encontravam-se confinadas ao interesse da medicina e de investigações e intervenções muito tímidas da psicologia, campo que se ampliou e diversificou em muitas ramificações desde então. Seja como for, é pacífico afirmar que até então o interesse científico para com a deficiência intelectual era predominantemente clínico, naquilo que nos estudos da deficiência ficou conhecido como o “modelo médico da deficiência”.

Nussbaum, no entanto, se interessa menos pelos aspectos clínicos da deficiência do que pela sua emergência na esfera pública do séc. XX e em atualizar os estudos contratualistas, principalmente os de John Rawls1, de quem foi aluna em Harvard. No livro, ela esclarece também que muito do seu interesse decorre de uma experiência familiar. Um sobrinho seu, Arthur, diagnosticado com as síndromes de Asperger e de Tourette, percorre o capítulo do livro e ela muitas vezes compara detalhes de sua experiência de vida a de outras pessoas com deficiência, principalmente Sasha, uma jovem com paralisia cerebral grave e profundamente dependente, e Jamie, um garoto que nasceu com a síndrome de Down e cuja vida vem sendo relatada em diversos livros escritos pelo seu pai, o crítico literário Michel Berubé. É, portanto, do confronto de vidas reais às teorias de filosofia política que ela analisa a problemática, tendo como lastro a verificação dos marcos legais norte-americanos e a emergência da cultura inclusiva mundo afora.

Antes de ir um pouco mais além ao que diz respeito às suas ideias propriamente ditas, acho importante dizer que se trata de um livro muito acessível no que se refere ao cuidado com a linguagem e a apresentação dos conceitos políticos empregados. Sem dúvida, é um cuidado pessoal da autora que, como intelectual pública, é muito presente no debate público nos EUA e em todo o mundo, publicando regularmente na imprensa e dialogando com dramas sensíveis do mundo contemporâneo, tais como as questões feministas, globalização, equidade e justiça social.  Junto a Amartya Sen, o “inventor” do índice de desenvolvimento humano, Martha fundou em 2004 a Associação para o Desenvolvimento e Capacidade Humanos. Em dezenas de artigos e livros, ela vem desenvolvendo o que chama de a “teoria das capacidades”, postulado filosófico que, em linhas gerais, pretende obter o desenvolvimento de condições civis que permitam universalizar o conceito de dignidade humana onde é mais negligenciado. Não se trata, portanto, de uma proposição teórica, mas de uma que é dirigida à resolução prática dos problemas que afetam as democracias contemporâneas em todo o mundo.

Como já dito, neste livro Nussbaum parte de um tempo menos remoto àquele tratado na filosofia de Michel Foucault ou Gilles Deleuze, o de institucionalização e controle do espaço público. Foucault2, principalmente em “História da loucura”, analisa exaustivamente os mecanismos de exclusão na modernidade e como isso vem desaguar nos principais conflitos mundiais do século XX, com a naturalização do racismo e eugenismo como crenças morais distintivas. Não é que Nussbaum não os comente ou menospreze, apenas que seu interesse opera muito mais na própria composição das sociedades livres e no contrato social moderno.

A inclusão da pessoa com deficiência intelectual na sociedade tem uma história muito breve, ainda. Segundo Nussbaum, os contratualistas clássicos, mesmo Rawls, que faleceu em 2002, fundamentam o contrato social na capacidade que as pessoas têm em cooperar em condições de igualdade visando a vantagem mútua. Nessa perspectiva da teoria da justiça, uma tênue linha de continuidade leva às situações de desigualdade a noção de cuidado especial e altruísmo e, em seu centro, a ideia kantiana do indivíduo como um fim em si mesmo. Nussbaum, além de esmiuçar previamente as teorias do contrato social e considerar que nem sempre oferecem respostas satisfatórias em relação ao que denomina por “fronteiras”, ainda assim considera que é preciso oferecer uma alternativa que nos alce para o tempo futuro. Para tanto, ela se apoia na sua teoria das capacidades e num consenso ampliado de esfera pública no qual as diversidades estejam garantidas, as condições de igualdade permanentemente impulsionadas e a dignidade humana sempre preservada.

Sobre este tripé, Nussbaum vai dialogando com os pensadores modernos sem nunca deixar de observar a realidade, o que a distancia de qualquer visão idealista de justiça. A forma com que avalia o mundo é através das suas instituições fundamentais sociais: a justiça, a assistência e a educação. Apesar de neste livro abordar a educação apenas no que se refere às formas de atendimento as pessoas com deficiência e sua conformação formal e legal, Em outros livros, Nussbaum tem desenvolvido suas preocupações quanto às competências lucrativas e o que chama de educação para as capacidades compreensivas. Num dos seus outros livros traduzidos no Brasil, “Sem fins lucrativos”, ela examina detalhadamente o problema do abandono dos valores humanitários na educação ocidental.

Nussbaum reflete permanentemente sobre o contratualismo e sua ideia de inclusão passa justamente por um esforço em garantir o valor da busca pela igualdade e de uma atenção às dificuldades individuais apesar dos flagrantes desequilíbrios sociais e econômicos. Em seu enfoque das capacidades, o ser humano não pode ser instrumento do outro e sua ideia supera o simples reconhecimento3 através de uma ideia de inclusão como superação da estigmatização4 e obtenção e manutenção do autorrespeito moral de cada pessoa.

Em relação à deficiência, Nussbaum dedica-se especialmente a relacionar o que chama de “ética do cuidado” com o conceito de desenvolvimento de capacidades. Mesmo que o termo remeta ao que se refere ao preconceito contra pessoas com deficiência, o “capacitismo”, sua concepção de “capacidade” é inteiramente oposta ao privilégio de uma capacidade sobre a outra ou de qualquer discriminação competitiva ou qualitativa.

O que ela não deixa de considerar nem menospreza é o fato de que o cuidado é real e dispende recursos humanos, familiares e sociais. Convencer a sociedade da importância de investir na inclusão é, em sua visão, uma forma de convencê-la de que precisa melhorar essencialmente e nas relações humanas amplo senso. Detendo-se longamente em valorizar as condições de vida, assistenciais e educacionais, Nussbaum nunca generaliza as formas de atender as pessoas. Com um princípio em tudo semelhante ao de Ortega y Gasset5 em “O homem e sua circunstância”, ela não propõe um modelo de atenção, mas que a atenção seja a adequada a cada indivíduo e que o social colabore com ele, e não a oposta readequação.

Como crítica do funcionalismo e argumentando contra a ditadura dos “standards”, seu enfoque é o do autorrespeito e da dignidade. No que se refere à escolarização – e para tanto ela se vale dos exemplos já mencionados – critica situações que rompam com a equidade de direitos e a preservação da dignidade. Refutando o procedimentalismo jurídico, Nussbaum insiste que a justiça não se esgota na lei e nem no acesso à justiça, mas na experiência civil, onde o direito ao cuidado e a noção de autorrespeito deveriam preponderar ao direito formal e às convenções sociais. Nesse ponto, ela defende que a educação deva ser heterogênea e o estado responsável por garantir a cada um o que lhe é necessário para conviver em condições de igualdade com os demais. A preocupação com igualdade, ou equidade, aliás, é central tanto no seu pensamento como em todo o contratualismo rawlsiano.

Os elementos ou requisitos fundamentais de uma sociedade menos excludente e desigual são, para Martha, o apoio mútuo, a cooperação e a ideia de uma democracia pluralista. Citando exemplos de cidadãos norte-americanos que obtiveram da justiça daquele país as garantias de acesso adequado à saúde e educação, ela avança da seara dos direitos formais ao apoio e consideração das diversas habilidades e critica duramente o sistema educacional norte-americano, segundo ela quase todo voltado ao mercado competitivo e valores de consumo, assim como a decadência no financiamento das escolas públicas.

Sobre assistência, Nussbaum dedica um longo arrazoado sobre a a vida real das pessoas com deficiência, seus cuidadores e as dificuldades legais sobre acesso à renda e serviços acessíveis e de qualidade. Centrando-se muito na questão das mulheres, como feminista que é, Nussbaum denuncia severamente as sociedades que sobrecarregam sem desonerar de nenhuma forma famílias de baixa renda e sustentadas pelo trabalho feminino. Nesse ponto especificamente, volta a fortalecer a ideia de compromisso social coletivo em torno às dificuldades e custos reais e na necessidade de um contrato social que preveja a diversidade de condições sem, no entanto, deixar de fomentar o desenvolvimento social, econômico e cultural de cada pessoa.

Para além das questões sobre deficiência, Nussbaum ainda aborda em seu livro duas outras situações bastante complexas. Trata-se das desigualdades globais (e consensos internacionais) e, por fim, os direitos que atendem aos animais não humanos. Como filósofa interessada especialmente na ética e na justiça global, Nussbaum se vê muito a vontade com o legado de Rawls e devota à educação dos sentimentos o capítulo final de seu livro. Mesmo considerando que a demanda por melhorar as condições objetivas do mundo passa necessariamente por melhorar as condições subjetivas, seu livro é um reforço considerável nas esperanças de quem propõe o ser humano mais como agente da benevolência do que do do egoísmo. Para ela, as fronteiras da justiça continuam a requerer reflexão e novas soluções. E a curiosidade intelectual e a coragem imaginativa benevolente, como propõe, poderão continuar a nos encorajar contra o cinismo e o desespero que às vezes bate à porta.

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1 Rawls, John. Uma teoria da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2016. 816 p.

2 Foucault, Michel. História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 2014. 560 p.

3 Honneth, Axel. A luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2009. 291 p.

4 Goffman, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. 158 p.

5 Ortega y Gasset, J. El Quijote en la escuela. El espectador III. Obras completas. 3ª reimpresión. v. II. Madrid: Alianza, 1998.

O leitor como metáfora (e realidade)O leitor como metáfora (e realidade)

De década em década, o argentino naturalizado canadense Alberto Manguel refaz do seu principal objeto de estudo: a história da leitura e dos livros. No final de 2017, foi a vez das Edições SESC engrossarem sua bibliografia brasileira com a publicação de O leitor como metáfora.

Autor de dezenas de títulos, dentre os quais os já clássicos A história da leitura (1996) e A biblioteca à noite (2006), Manguel, que em 2016 voltou a Buenos Aires para dirigir a Biblioteca Nacional da Argentina, empreende em seu mais recente livro uma criteriosa investigação taxonômica a respeito dos leitores. Mesmo que possa tratar-se de modelos ideais, ou protótipos, é de pensar se seu objetivo não seria justamente identificar as pessoas potenciais com que atingir tanto através de suas obras quanto por sua atuação a frente da prestigiosa instituição. Seja como for, é bastante provável que ele se valha muitas vezes de sua própria experiência como leitor para uma das mais antigas tarefas que se realiza em bibliotecas: a classificação.

Na proposta de seu ensaio, basicamente o que se distinguiria são três espécies de leitores. Como expresso com muita clareza no título, haveria por primeiro o leitor viajante, ou seja, aquele que porta e deixa-se levar pela silenciosa aventura livresca; os que buscam o isolamento mundano e o conhecimento através da leitura (os ocupantes da torre); os que devoram (e porventura por eles são devorados) livros com avidez indiscriminada e que não poderiam ter denominação diversa de “traças”.

Embora simples, a taxonomia de Manguel tem o apuro de um leitor dos mais experimentados. Ao invés de uma proposição meramente literária ou historicista, Manguel vai organizando, das tradições literárias, as metáforas e significações que o ato de ler revela da relação do humano com o mundo; ao menos em sua experiência, não haveria interpretação do mundo sem leitura e por essa razão o ato de ler espelharia as próprias capacidades interpretativas dos indivíduos. Mas, se serve de advertência, é provável que quem buscar encontrar em seu livro apenas laivos de uma erudição afetada será, entre os leitores, o que mais se frustrará. As citações de Manguel também não obedecem a nem uma espécie de crivo acadêmico e dizem mais respeito aos encontros que escritores e leitores parecem operar durante a experiência de leitura mesmo que séculos após a morte dos primeiros; mesmo que os meios para tanto não sejam necessariamente o do texto impresso. A felicidade da leitura e de seu “ofício”, para Manguel, estaria mais relacionada ao empenho e enlevo que o leitor desenvolve pelos livros a partir do efeito da leitura do que por qualquer culto material do objeto livro.

Transportando as suas diferentes “espécies” de leitores através dos tempos, ele vai dessa forma dirigindo os leitores às suas respectivas metáforas; em determinado momento chega a parecer que deseja mesmo encaminhar os leitores de encontro aos autores que vai identificando em sua taxonomia. Remetendo-se desde a antiguidade sumeriana, através da epopeia cuneiforme de Gilgamesh, passando pelos manuscritos de Dante, os códices de Leonardo e chegando aos já impressos Shakespeare, Cervantes e Montaigne, Manguel avança em direção ao séc. XX ao mesmo tempo em que regressa livremente a autores de todas as épocas, sempre que um autor possa lhe servir na exemplificação das muitas formas de existir no mundo, de comportar-se nele e também de recriar continuamente a experiência da vida, esta que seria a tarefa inadvertida dos escritores de todos os tempos e culturas.

Ao passo em que pode ser percebido tanto quanto uma continuidade de sua permanente exortação à leitura, para leitores menos experientes, todavia, seu livro pode ter um efeito, digamos, acachapante. Ou como poderiam sentir-se leitores inexperientes diante de um desfile intermitente de nomes, títulos e citações? Dotado de um conhecimento que se poderia denominar por enciclopédico e não fossem escritos sem o menor traço de pedantismo, seus livros poderiam muito bem ser tomados como proselitismo cultural ou fútil ostentação. Porém não é disto que se trata; longe disso.

Antes de qualquer coisa, é preciso saber que se trata de um autor cuja principal preocupação é a difusão do hábito da leitura e, a menos que se tenha inventado alguma espécie de malabarismo telepático, parece totalmente impossível a qualquer um a tentativa de advogar em nome dos livros sem mencioná-los. Além disso, em sua gestão na Biblioteca Nacional da Argentina, notadamente Manguel vem investindo em todas as frentes: na conservação de originais, na expansão de coleções, na digitalização e difusão intermidiática e na promoção e atração de novos leitores. Em entrevista concedida ao portal Perfil, logo ao assumir o cargo ele já afirmava desejar perseguir a ideia de uma biblioteca para todos os leitores e interessados. Parece que a ideia borgeana de uma biblioteca universal, pelo menos em solo argentino, encontrou finalmente quem a desejasse continuar.

Não é à toa. Enquanto ao mesmo tempo abandonava a instrução formal da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, por considerar os estudos formais aborrecidos, o diletante Manguel iniciava sua carreira literária concomitantemente a de editor. Em meados da década de 60, tornara-se “ledor” de um Jorge Luis Borges já cego e que coincidentemente dirigia a Biblioteca Nacional da Argentina na mesma época; desse encontro é como se houvesse estabelecido para ele um encantamento pela literatura e, sobretudo, pela leitura enquanto hábito individual. Sua formação, completada pelo trabalho como jornalista e editor, é a de quem erigiu uma carreira viajando através de vários países e investigando incessantemente a história literária. É muito provável, portanto, que Manguel tenha desenvolvido a taxonomia do seu novo livro também a partir da auto-observação.

Quanto ao que se refere ao desejo de fomentar a curiosidade nos demais, este parece ser um hábito comum entre os bibliófilos de um modo geral. Porém, como parece ser recorrente a quem tem por missão institucional propagar o livro e a leitura, um impasse oculto às vezes mostra suas sombras em seu livro. Trata-se da irresolução peremptória da efetividade de qualquer política cultural voltada ao assunto e expressa na dicotomia estabelecida entre, por um lado, a popularização do hábito da leitura e, por outro, a especialização do público leitor.

Provavelmente por ser um autor prolífico e a primeira vez que Manguel está atuando institucionalmente (e logo na mesma biblioteca que Borges dirigiu), outras reflexões a respeito do assunto deverão advir da experiência. Isso no que toca aos interessados no assunto deverá ser um deleite por si só, ainda mais que, após a morte de Umberto Eco, há cada vez mais poucos autores notabilizados pela devoção e divulgação da cultura livresca universal quanto Manguel. Há com certeza os historiadores que se dedicaram ao tema, como Roger Chartier e Robert Darnton, mas em ambas as investidas historiográficas o que se mais pode notar são preocupações que giram em torno de explicar a evolução da tecnicidade da instrumentação escrita, sua reprodutibilidade, análises sobre o colapso do espaço físico das bibliotecas, a expansão contínua dos formatos digitais e a segurança e conservação do conhecimento em vista ao desenvolvimento das tecnologias da informação.

Sem dúvida que todas as preocupações e iniciativas em utilizar beneficamente os recursos tecnológicos são bem vindas e necessários, mas em absoluto não é este o centro das inquietações de Manguel. Para ele, interessa mais seduzir e cativar ao leitor do que porventura ele possa estar perdendo do que condená-lo à danação da ignorância, como, aliás, convém a um bibliotecário proceder. De todo o modo, não se imagine que equilibrar uma equação dessa natureza é tarefa fácil do ponto de vista da gestão cultural de acervos bibliográficos. O que não parece faltar em Manguel, todavia, é o cimento de não desviar-se de um trabalho de lenta e muitas vezes invisível consolidação dos espaços afetivos e também físicos com que uma sociedade se relaciona com a cultura letrada, que parece cada vez mais dispensar de quem a organize, valorize e promova.

Seja como for, na vizinha Argentina ou aqui mesmo, no Brasil, as dificuldades são inumeráveis e o cenário educacional e cultural um tanto quanto amedrontador. Não são comparáveis, portanto, aos moinhos do Quixote, os desafios de quem propugna por valorizar os livros e a leitura. Neste caso, os gigantes podem ser compreendidos em dados obtidos regularmente através de pesquisas e levantamentos que se fazem em todo o mundo, inclusive no Brasil.

No Brasil, quanto e como se lê?

Dos indicadores e estatísticas a respeito do Brasil contemporâneo, poucos soam tão assustadores quanto os dados sobre proficiência em leitura levantados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Banco Mundial através do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).

No relatório, pode-se saber entre outras coisas que no que diz respeito à eficiência com que um texto escrito é interpretado, o Brasil mantém-se estável desde 2006, mas com indicadores mais distantes da média dos demais países aferidos e, por outro lado, mais próximos das piores taxas, além de projetar uma defasagem em relação aos países desenvolvidos que se resolveria em séculos ainda (cerca de 256 anos). Unindo-se os resultados aos de outras pesquisas, como a Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-Livro e realizada pelo IBOPE, a sensação é de premência de uma calamidade. Trata-se, porém, de uma calamidade silenciosa e que ao longo do tempo tem ensurdecido autoridades, editores, educadores, bibliotecários, autores e também o público leitor.

De que se trata de uma situação complexa quase ninguém duvida e não raro as manchetes dos periódicos triunfam com os maus indicadores brasileiros. O caminho da resignação, sempre o menos escarpado, todavia parece sempre conduzir a um senso de conformidade reincidente. Ajuda menos ainda a combalida autoestima nacional a também reincidente comparação com os dados de leitura da vizinha Argentina. Ainda que a afirmação de que apenas Buenos Aires (ou, num arroubo platino, apenas a Calle Corrientes) pudesse ter mais livrarias do que o Brasil inteiro seja fantasiosa, dados da Market Research World, no assim denominado Índice de Cultura Mundial, informam que, apesar da veracidade comparativa, o país vizinho também não anda fazendo um retrato dos mais excepcionais.

O que se sabe definitivamente é que, de fato, a situação da leitura é grave e afeta o desempenho cognitivo e cultural de toda a sociedade e de muitos países. Uma vez que o possível amparo da resignação mostra-se incapaz de recolocar em movimento a dinâmica e complexa relação entre a cultura letrada e uma população que ainda deveria ser mais e melhor estimulada a relacionar-se com o livro e os bens culturais literários, o que se pode antever é muito trabalho coletivo pela frente e a necessidade de reflexões ponderadas tanto no que confere ao sistema educacional quanto ao literário.

O cada vez mais difícil de contestar é o fato de que o impasse que a crescente expansão tecnológica deveria colocar entre leitor e leitura vem na realidade esgarçando-se cada vez mais. Não se trata de imaginar que isoladamente e sem projetos consistentes o emprego dos recursos tecnológicos resolverá a situação. Conforme os mesmos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o constatável é um decréscimo constante do tempo dedicado à leitura (24% entre a preferência total) em comparação ao incremento do uso individual da internet (47% entre a preferência total).

Nos ensaios e artigos que publicou na imprensa a respeito das questões da escrita e do livro reunidos no livro Papel-Máquina, de 2001, o filósofo franco-magrebino Jacques Derrida veio reforçar sua ideia visionária de 1969, em Gramatologia, quando afirmou que desde aquela época o leitor passava a exercer papel imperativo em relação aos meios e suportes de leitura. Derrida, apesar de ter sido a princípio mais um dos estudiosos a denunciar o “fim do livro”, teve a prudência de ponderar igualmente pela infinitude desse processo. Resta entender se a isso convém chamar de impasse ou paradoxo e aguardar por que outros estudiosos venham também refletir a respeito, afinal trata-se de tema de interesse permanente e universal.

De um modo muitas vezes reducionista, boa parte das análises a respeito da vereda tecnológica e da sobrevivência do livro e do texto literário têm, desde o início do novo século, refletido por vezes mais das apreensões individuais do que uma observação mais apurada do contexto cultural amplo senso. Se na história da civilização certa vez a leitura ocupou papel central na formação cultural e de identidade das nações, de fato é preciso admitir que a tecnologia expandiu boa parte dos limites e cerceamentos que havia até meados do séc. XX. Se já foi o veículo de informação por excelência, fonte de entretenimento e suporte privilegiado de comunicação dos bens culturais, hodiernamente a leitura parece-se mais ao substrato multitudinário de uma gama imensa de informações que o veículo de um determinado cânone literário.

A esse ponto, verificar a inundação de livros (e livros nem sempre são obras, como adverte Derrida) e outros formatos de informação é tarefa de facílima constatação. Se a literatura, de fato, vem convertendo-se em testemunhos autorais de um interesse ao mesmo tempo segmentado e restrito e se há como ainda hoje vivificar o interesse de novas gerações por um mundo distante ou por um passado remoto, livros como os de Manguel, usando aqui de metáfora, parecem-se a faróis avulsos de um mundo mais profundo, instigante e enriquecedor que a leitura criteriosa certamente ainda dá a desvendar às pessoas. Pois a prevalência do livro agora possivelmente esteja mais relacionada a uma necessária recuperação e valoração da leitura propriamente dita do que uma substituição de técnicas e formatos. A falta de tempo, justificativa reiterada pelos desinteressados contumazes na leitura, não é furto que se flagre ou perda que aconteça isoladamente, mas a perda (tanto para pessoas quanto para instituições) é lamentavelmente irreparável e o tempo, como se sabe, brevíssimo.