A urna – 2

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Era ódio: já não é. Agora já não existe
mais esta febre da carne viva.
Para quando eu vier a morrer não resista
sombra de orgulho, nem raiva altiva.

Antes eu era todo um tormento,
contradição, luta, mentira;
esticava meu olhar turbulento
no arco da ira.

Em forças desajustadas me dividia
e hoje conto apenas com uma energia
suprema, que alimenta o gesto eterno:

um amor pensativo e doloroso.
Por ele sou como um lago silencioso
entre imensas montanhas. O inverno…

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La pesadaLa pesada

Há uns anos eu tinha um certa implicância com Yamandu. Eu achava que o menino virtuose estava além de uma economia no toque e ficava sempre comparando-o (injustamente) a outros violonistas, como, por exemplo, Raphael Rabello e Baden. E, nessa comparação, notava, ou melhor, não notava um elemento nele, de brilho, pelo qual me parecia que às vezes passava batido, o Yamandu.

Lembro que na última vez que Paco de Lucia andou em Porto Alegre coincidiu com uma apresentação de Yamandu e deram um jeito de que o andaluz fosse observar o prodigioso guri de Passo Fundo. Isso foi em 2013, um ano antes de sua morte e Paco foi pessoalmente aos camarins para cumprimentar Yamandu. Teria dito lá, de acordo com registros, que estava diante de “algo completamente diferente, original”.

Era Paco de Lucia elogiando e eu, Lucio Carvalho, com as minhas ressalvas sem pé nem cabimento. Pois é. De vez em quando, não adianta que mesmo uma autoridade incontestável edite uma lei, se a lei não cala.. Ora, Paco de Lucia..

Mas uma coisa que eu nunca tive dificuldade é de dar o braço a torcer. Ao invés de me aferrar na pretensão da certeza, eu cedo basta que seja convencido pelos outros ou, ainda mais usual, convença a mim mesmo de que não estava certo ou de que decaíram as minhas ressalvas. É das poucas coisas que me orgulho em mim mesmo, aliás, essa capacidade, mesmo que as outros pareça “incoerência” ou “capitulação”.

Nesse vídeo abaixo eu acho que entendi o que impressionou Paco ao conhecer Yamandu. Não é pelo que eu achava que ele deveria ter, mas pelo que ele tinha de melhor. No caso de Yamandu, o vigor do ataque da mão direita treinado na música do sul, menos doce e delicada que a do norte, sem dúvida, mas que responde por certo sotaque aos dedos, se é que isso existe. Acho que existe..

Logo no começo do vídeo, se pode ver que Yamandu não apenas aprendeu a silenciar e cadenciar sua potência pelo choro, por incorporar traços da tradição do violão brasileiro ao seu ritmo desembestado, mas ali por volta dos 43 minutos do vídeo é possível ver Yamandu executando uma chacarera, ritmo do norte argentino, e deixando ver que às vezes a delicadeza pode muito bem ser expressa de muitas formas, e que sua platinidade, por outro lado, é o que lhe diferencia em essência e característica.

Ao brilho que no meu juízo faltava a Yamandu, realmente eu não só o encontro hoje com mais naturalidade como vejo muito mais em sua técnica. Vejo que no fundo ele não abriu mão da sua essência, mas ampliou seu universo sem abandonar o seu mundo de dentro. É lá onde está a dinamite intacta da sua potência e certamente foi o que Paco percebeu nele antes de mim. Questão de ouvido. Deve ser..

Coisas outrasCoisas outras

Num limiar, numa pequena fresta entre os gêneros literários mais “nobres”, é onde foi se alojar a crônica. O seu aspecto simples, comum, prosaico, às vezes simplório mesmo, ao longo do tempo tornou o gênero o mais praticado pelos leitores. Sim, pelos leitores, pois a crônica é o gênero no qual o leitor mais toma parte ativa e do qual se pede cumplicidade e concessão desde a primeira letra.

Quero dizer com isso que faz muito sentido um poeta escrever uma obra para a posteridade, por exemplo, mas nem um sentido isso faz para o cronista. A poesia é gênero que mira a eternidade enquanto a crônica vislumbra quando muito o horizonte do momento. A brevidade do momento e, às vezes, a anotação de um pensamento qualquer. Sua durabilidade depende de um sentido de universalidade distinto de outros gêneros. Um que se estabelece, por contraditório que pareça, na fixação do efêmero.

Mas aqui, para encerrar de uma vez essas considerações iniciais, interessa mesmo dizer que as definições de crônica sabidamente nunca chegaram a um consenso e cada cronista tem lá suas especificações e instruções particulares, como se tratasse de fórmula alquímica. Ou um modo de agir.

Enquanto alguns se dedicam mais ao cotidiano, outros vão à berlinda com a ficção, outros ainda se dedicam ao humour ou sentimentalismo, enfim, as margens são muitas, mas o que talvez mais importe seja que a crônica é a escrita desarmada por excelência, e que não deseja comprovar coisa alguma, muito mais oferecer o olhar do escritor conforme ele é menos articulado e consequentemente mais espontâneo. Eis aqui uma definição universal? Quem dera, mas penso que são apenas as instruções de que falava antes a respeito do que o leitor poderá encontrar neste apanhado.

Possivelmente, as crônicas e textos reunidos neste volume tenham em comum a diferenciação dos demais gêneros do que uma fórmula própria. A ausência de fórmula e premeditação, aliás, é o que sempre me levou a escrever com a displicência necessária a quem deseja escrever para nada comprovar, pelo ímpeto de traduzir em palavras pensamentos e situações que poderiam muito bem passar sem qualquer registro. Ninguém notaria sua falta. Todavia, depois de escritas, tornam-se indispensáveis. Parte mesma das coisas quaisquer que sejam elas: as “coisas”.

O que eu noto mesmo é que nesse conjunto que segue há uma pobreza impressionante de metáforas. Também não há símiles. Dito isso, sabe-se então que a poesia não pode estar erguida sem esse sustentáculo retórico que a ergue no ar, com sua solenidade tamanha. Não. Nestes textos, não há solenidade a não ser aquela encontrada ao acaso nas ruas, onde se tropeçou nela e se a encontrou e abraçou como um pensamento comum, ordinário, reconhecível à distância, do caráter mais humano –  e por isso falível – do vivido e pensado ao  escrito.

Por essas razões (e outras que não me ocorrem agora), o que vem a seguir não tem uma linha temática, um estilo, uma abordagem ou uma proposta definida. De tudo o que tenho escrito, são as coisas menos projetadas. Não eram exatamente para dar em livro, deram ares nas redes sociais, às vezes algum veículo as publicou e muitas vezes foram pensamentos que sem muito esforço nasceram e vivificaram. Não são poemas, mas podem eventualmente trazer o poético. São quase contos, sensações do momento, impressões de alguma coisa. São as coisas outras que nunca almejaram o literário e só mesmo a crônica em sua liberdade e despojamento poderia abraçá-las nessa intenção desfeita em pouco, agora registrada em livro.

Entrevista para a revista Marcela (2023)Entrevista para a revista Marcela (2023)

Ézio: Essa primeira edição da Revista Marcela propõe como tema novas visões sobre o território da pampa. Buscar essas novas visões passa por fugir de estereótipos como do gaúcho, do interiorano desinformado, da história do RS sempre vista a partir da perspectiva bélica e da relação de antagonismo entre urbano e rural. Como você lidou com esses pontos na hora de criar o seu texto e não cair no lugar comum?

Lucio: Vocês partirem da premissa de que eu não caí no lugar comum muito me alivia. Eu mesmo não tenho isso tão certo comigo… E acho que não tenho porque guardo muitas dúvidas se é mesmo possível a quem escreve sobre uma paisagem específica (poderia ser o cerrado, o sertão, a floresta amazônica) fugir ao caldo cultural que a forma e, goste-se ou não, todos são permeados efetivamente por estereótipos e preconceitos endógenos e exógenos. É complicado, penso, estabelecer uma formulação literária que dê conta de um ambiente sócio cultural tão, digamos, sobrecaracterizado. Penso que, no meu caso, me sinto mais feliz quando não descarto a dimensão afetiva e não procuro eu mesmo resolver situações culturais complexas, pois seria fantasioso. Ao longo do tempo que venho escrevendo com o pano de fundo da região pampiana, tenho procurado abordar com respeito situações que conheci, mas que sempre estão se transformando, às vezes sem que possamos percebê-las. De certa maneira, tenho buscado conscientemente desvincular a imagem de violência e brutalidade que se colou à população rural de um modo geral. Não é tão difícil assim, basta desviar o olhar para outros focos poéticos, que há muitos.

Ézio: O que um escritor da sua região pode dizer diferente dos demais do estado do RS?

Lucio: Bom, desde que ele trate de sua localidade e procure representá-la de alguma forma, penso que qualquer autor deva ser fiel a si mesmo, ou seja, procurar ser sincero com a sua compreensão e defender sua liberdade a despeito das muitas coerções culturais existentes. Pensando especificamente na região da qual provenho, a fronteira sudoeste e a região da Campanha, penso que há certo acúmulo de ideias quanto a essa população, mas uma escassa reflexão escrita que parta desse exame mais autônomo. De certo modo, a iniciativa da Revista Marcela é excepcional por permitir que todo esse complexo relacional seja exposto com a atenção e o afeto merecido. Penso que os escritores de um modo geral costumam fazer isso em relação ao lugar de onde provêm ou onde vivem. A questão de isso vir a público, ser lido e debatido é muito benéfica socialmente, ainda que não seja necessária a formação de um consenso homogêneo valorativo. O convívio democrático é sempre de alta exigência.

Ézio:. De que forma você pensa na literatura hoje? Como espera que seu texto atinja os leitores?

Lucio: Penso muitas coisas desconexas, eu acho. Talvez até que aprecie mais a literatura de outros tempos que a “de hoje”. Mas eu realmente não me preocupo muito com os leitores. Acho que cada texto tem seu leitor e, às vezes, a boa sorte acontece deles se encontrarem. Mas realmente não aprecio a escrita que visa agradar aos leitores e, bem, me parece que atualmente é muito praticada, daí minha predileção para quando o leitor não comandava tanto assim a mente dos autores e nem os autores eram tão facilmente comandados pela audiência e etc.

Ézio: Quais são os autores que formaram seu imaginário de leitor e escritor?

Lucio: Na minha idade (rsrs), muita gente. Acho que o mais certo a dizer quanto a isso é que sempre fui um leitor sem preconceitos e que procurou aproveitar o máximo o que me havia de disponível. Tive a boa sorte de ter o hábito de leitura disseminado na família e entre meus amigos desde a adolescência, então meu “método” sempre foi esse: ler de tudo e o máximo possível. Evidentemente tenho preferências, mas mesmo estas não são pela autoria, e sim pelo conteúdo. Então tenho nessa coleção muitos poetas, contistas, romancista e ensaístas. Talvez ficasse enfadonho listá-los, mas, sem dúvida, a leitura da poesia de Fernando Pessoa, dos contos de Kafka, do épico de Érico e as narrativas de Garcia Márquez estão entre as leituras que mais me impactaram quando comecei a ler literatura na adolescência. Antes disso, gostava muito de histórias folclóricas e mitológicas. Bem, continuo gostando muito de tudo isso, fora o que foi sendo agregado nesse meio tempo.

Ézio: O que motiva você a escrever com uma multiplicidade de narrativas visuais na atualidade?

Lucio: Competir com o audiovisual vem se mostrando uma tarefa inglória, como se sabe. Por outro lado, mesmo as narrativas visuais tem um texto de fundo e as escritas também podem conformar um estado perceptivo “como se” de um filme. O que talvez ainda seja um campo exclusivo do escrito é capacidade polissêmica, de gerar sentidos múltiplos no lugar dos seriais, ampliando a capacidade subjetiva de interpretação de cada pessoa.

Ézio: Qual tipo de gênero literário você prefere na hora de escrever (Poesia, conto, narrativas longas, dramaturgia)?

Lucio: Bem, me parece que cada ideia pede uma espécie de texto especifico. Uma ideia com um arco mais longo precisa de mais espaço, um conto não costuma ser tão aberto, um poema é uma forma ainda mais sintética. No entanto, a depender de quem escreve e de como escreva, qual seja o gênero o efeito obtido é sempre inesperado. Essa é mesmo a riqueza da literatura, extrapolar de suas recomendações e surpreender o leitor.

Ézio: Na hora de conceber o texto você possui um padrão? Primeiro pensa nos personagens, no cenário, no tema, no final do texto?

Lucio: Penso que “padrão”, não… Nem etapas, nem roteiros… De alguma maneira que não sei explicar, tudo vem um pouco junto e o texto é quem vai organizando os elementos. Sei que existem pessoas que usam técnicas aprendidas em oficinas e guias, mas eu penso que a leitura em si mesma, a leitura mais atenta e analítica, é quem melhor ensina a escrever. Uma boa dica também é conhecer o método de trabalho de grandes escritores, mas, mesmo assim, penso que é mais proveitoso que cada qual descubra como funciona melhor a sua própria concepção e execução.

Ézio: Que sentimentos o aproximam mais da escrita? Você escreve quando está triste, feliz ou isso é indiferente?

Lucio: Acho que seria estranho pensar que é indiferente ou, talvez ainda mais, que buscasse a escrita por um ou em busca de um estado emocional específico. O que me parece é que a escrita traz consigo um sentido de realização que se auto justifica, quer dizer, ele mesmo não resolve um estado emocional, sua capacidade maior é de induzir estados de pensamento capazes de emocionar as pessoas em suas particularidades. O contrário disso é uma escrita com viés sentimentalista e esta, embora funcione em muitos casos, bem, não é exatamente a espécie de escrita que procuro pessoalmente fazer.