Um novo olhar qualquer

Várias vezes por ano, por mês, semana ou até mesmo dia sou convocado por bueníssimas razões (pelo menos quero acreditar nisso) a experimentar um “novo olhar”, um “outro olhar” sobre o mundo e suas situações. As aplicações são as mais diversificadas possíveis: vão desde situações abstratas como um “novo olhar” para a “existência” ou a “diversidade”, até um “outro olhar” para o mundo concreto, social, seus fenômenos e contingências. Acontece que a convocação, como são todas as convocações, costuma ser bastante imperativa, isto é, deve-se acatar de imediato as perspectivas da postulação, sem o qual o “novo” olhar não ganha sentido, não opera, simplesmente ele não funciona.

Trata-se de um paradigma quase, mas também de uma metáfora, quase uma sugestão. Há que se escolher bem os termos com que se colocar este “novo” e este “outro”, portanto, para que não se empreenda, ao invés de convencimento e diálogo, imposição violenta e arbitrariedade.

Parece exagero dizer que há uma postulação violenta na proposição de uma novidade e que, pelo menos em tese, todas as novidades são benéficas, o que é essencialmente falacioso. Porém, desde que seja necessária uma inutilização prévia de meu instrumental para ir à aventura do “novo”, do “outro”, ou do que assim seja apresentado, cai por terra de imediato a conotação construtiva da novidade, pois ela ocorre a partir de uma demolição e não de uma consertação. Por outro lado, se mera metáfora fosse, seria uma metáfora um tanto enganosa, ou pelo menos uma promessa que substituiria em poucas palavras uma construção histórica, uma série de condições e acontecimentos duradouros, e não uma proposição equivalente.

Se neste caso usássemos uma metáfora, seria como dizer que a mudança partir de  um “outro olhar” ou de um “novo olhar”, seria mais como mudar o ângulo de visão do que substituir uma lente por outra.

Não há quem ignore que a metáfora é figura de linguagem das mais corriqueiras, isso tanto na literatura quanto na linguagem coloquial. Em campos e domínios nos quais é preciso delimitar o real e clarear suas circunstâncias, todavia, seu uso às vezes pode mais atrapalhar do que ajudar. Poucos parecem perceber isso, afinal a metáfora, antes de qualquer coisa, é um suavizante da compreensão, isso dito já um tanto quanto metaforicamente.

É sobretudo nos textos jornalísticos nos quais mais tem prosperado o uso de figuras de linguagem em lugar de uma análise precisa das situações. Mas isso bem pode ser mais literatura do que jornalismo propriamente dito. O que acontece é que, ao valer-se de metáforas como formas de explicar o mundo concreto, aquele que a redige passa a agir plenipotenciariamente sobre os elementos de seu discurso. O mundo já não acontece como é de fato, linearmente, mas da forma pela qual o postulante escolhe narrá-lo e assim torna-se episódico, datado. O artífice dessa escrita é, portanto, dotado de poderes sem limite acerca dos fatos e os minora ou amplifica de acordo com a sua exclusiva vontade. É um poder invejável. Em tempos nos quais a eloquência pode garantir mais leitores do que clareza ou até mesmo conteúdo, há que se verificar em quantas camadas de tintas literárias se têm encoberto o mundo real em suas cruezas.

Interpretar-se uma realidade política, por exemplo, com o uso da metáfora, pode ser um artifício poderoso na linguagem falada e consiste num traço retórico admirável, se empregado no ambiente adequado. Por outro lado, seu uso desenfreado costuma servir bem mais a um esforço evasivo e simplificador. O impacto se torna cansativo, a metáfora então exaure a si própria e, mais ainda, a quem é dirigida. O texto impregna-se de imprecisão, o discurso torna-se algo delirante, cada vez mais permeado por ambiguidades e,  consequentemente, vai dissociando-se do real e do objeto a que pretendia referir-se.

Há também que o uso deliberado da metáfora em situações realistas acaba competindo na própria desvalorização da figura de linguagem e, por tabela, da própria poesia. Quer dizer, poetizar a realidade faz muito sentido na literatura, quando a ênfase está localizada em potencializar a cognição do leitor; não faz tanto sentido se acaba por servir a desviá-lo da realidade para um seu duplo, artificial, planejado e ilusório (isso mais ou menos nos termos de Clément Rosset, em O real e seu duplo).

Aí é que está: não há que conferir-se o status poético a uma situação real. Do real pode-se depreender a poesia, porém a ele jamais atribuí-la arbitrariamente. Na poesia, especialmente, a metáfora cumpre funções que normalmente enriquecem o texto escrito, como o de expansão de significantes e uma maior mediação simbólica entre texto e leitor. Mesmo que nem sempre seja usada com acerto ou economia, literariamente a metáfora costuma abrir um leque de possibilidades interpretativas. Na interpretação da realidade, entretanto, a metáfora às vezes se converte em mera evasiva e substituição de sentidos. Dá-se então o oposto, e a metáfora passa a ser empobrecedora do discurso por um caráter de imprecisão que desvia a cognição dos fatos para uma poetização do real, mas quando já não se trata mais de poesia.

Com isso quero dizer que a metáfora de um “novo” ou “outro” olhar estabelece um contato tênue demais para representar ou fomentar a mudança social ou cultural efetiva. A quem interessa vivenciar as condições da “novidade”, é necessário perceber claramente uma alteração substanciosa nas condições concretas nas quais o “novo” e o “outro” possam prevalecer. De outro modo, não há “novo” ou “outro” algum, caso a experiência se mantenha estável, constante.

Um exemplo simples a que se pode referir é o da “Nova República”, como ficou conhecido o período político posterior à abertura democrática brasileira. O que, de fato, aconteceu de “novo” ali nas condições materiais e econômicas brasileiras, para além da retomada do direito ao voto? Mais reforma agrária? Mais e melhor educação? Quais as condições de manifestação e verificação deste “novo”, afinal? Pois com tudo o que se denomina “outro” ou “novo” costuma acontecer o mesmo, com exceção, talvez, na ciência, onde a terminologia “paradigma” faz realmente algum sentido.

De mais a mais, é conveniente muitas vezes passar-se a ideia, dar a entender de que se está diante de um “novo”, mas o que há de real e metafórico nisso tudo? Ou seja, é possível convencer a alguém de que é fundamental para a constituição do “novo” a adequação de um “novo” olhar, mas não qualquer “novo olhar”: apenas aquele que se deseja fazer vigorar. Além disso, não vivemos num tempo etapista, no qual as condições são sumariamente eliminadas em prol de outras. Pelo contrário, a dinâmica social é da diversidade e a diversidade é nesse aspecto mais caótica do que harmônica. Mudanças uniformes já aconteceram na sociedade, nas mudanças de regime político, nas mudanças legais e formais, mas nunca atingiram as pessoas da mesma maneira e isso porque elas não ocupam a mesma posição social.

Eu não duvido nem um pouco que os “convites” e “convocações” sobre os quais estou tentando comentar continuarão chegando. Mensalmente, semanalmente, diariamente… Eu apenas quero dizer que, usando da mesma metáfora já utilizada, é muito difícil que eu mudasse meu ângulo de visão, mas apenas testasse a lente dessa nova promessa. Mudar o lugar das coisas costuma ser bem mais trabalhoso (e bem menos poético), que a instituição de uma palavra ou um “novo” qualquer.

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Banco de livros

Daqui a uns anos mais, não me arrisco a dizer quantos, mas decisivamente não muitos, somente uns poucos curiosos ou uma ínfima elite cultural conseguirá distinguir um mínimo da literatura do inesgotável repositório digital que é recriado diariamente na internet. Talvez fragmentos esparsos ou adaptações resumidas garantam uma fração para lá de imprecisa da permanência futura do cânone literário universal, nacional e regional, mas isto trata-se apenas de uma expectativa sem maiores indícios. Talvez memes engenhosos salvem ainda um pouco menos que fragmentos. E frases completas e não deturpadas igualmente poderiam ser salvas da deslembrança completa da mesma maneira. Mas também é possível que, infelizmente, talvez nada mais consiga operar essa façanha e esse destino esteja desde já inapelavelmente selado.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção. A despeito disso, publica-se como nunca. E incessantemente. Minha impressão, porém, é de que se publicam livros impressos e digitais na proporção inversa que se criam adultos interessados na literatura. Nos últimos tempos, principalmente depois que se pode observar o comportamento sobre a leitura nas redes sociais, é fácil perceber que o que mais vem proliferando são guetos de interessados restritos e leitores apenas casuais. Leitores regulares de ficção ainda são escassos e sua expansão é quantitativamente inexpressiva. Prova disso é a qualidade das estatísticas de vendas e listas de mais vendidos, praticamente invariável, o que é verificável nos rankings de vendas regularmente publicados pela Publish News. É de ver para crer, para aqueles que insistem na incredulidade a respeito de títulos e tendências comerciais.

Embora se divulgue muito a afirmação de que há no Brasil uma crise permanente na leitura, eu penso que ela não existe propriamente como “crise”, principalmente porque as vendas se mantêm razoavelmente constantes, ou pelo menos que o uso do termo “crise” não explique toda a extensão da problemática. O que parece mesmo estar crescendo é uma crise na capacidade de atenção à leitura, esta, sim, decorrente da proliferação de lazer tecnológico. E, talvez, ainda uma terceira crise que poderia ser localizada na literatura propriamente dita e no sistema literário, que têm se mostrado, juntos ou em separado, incapazes de romper as fronteiras acadêmicas, de fazer-se interessante ao público juvenil e de disputar novos leitores com outras mídias e fontes de informação. Há um risco sério de comprometimento nesse ponto e caso autores e editoras não reflitam sobre a questão, muito pouco haverá a lamentar, possivelmente até mesmo dentro de um curto prazo, na migração de interessados na leitura para o universo de aplicativos e brinquedos eletrônicos.

Há cerca de cinco anos, o norte-americano Philip Roth apostou, em entrevista, que a cultura literária teria seu fim em cerca de 20 anos. Não gosto nem um pouco de ter de concordar com ele, mas a verdade é que cada vez mais eu creio que ele estava apenas querendo parecer pouco pessimista. Entretanto, se foi minimamente realista, restam então cerca de 15 anos até o apocalipse final das letras, pelo menos de como elas têm sido conhecidas e consumidas nos últimos 500 anos.

Como chegamos a isso?”, é a pergunta que continuam a fazer-se os incrédulos. As respostas costumam vir de todos os lados e a partir de motivações bastante específicas, mas via de regra resvalam para a baixa qualidade da educação e a pouca ênfase na formação de leitores. Mas não seria essa justamente uma razão para apostar-se pouco em soluções efetivas e duradouras para a crise da leitura? Atrelá-la a uma educação cambaleante não seria uma forma de comprometê-la ainda mais? Ou seria a própria tecnologia, a mesma potencial causadora do desastre literário, quem poderia justamente salvá-la, a literatura?

Não é nada fácil responder estas questões, até mesmo porque a situação atual não é de uma chegada final, mas de uma transição na qual o protagonismo do livro não está dando lugar ao livro digital, como alguns embates sugerem, mas ao que se tem denominado de “gamificação”. Ou seja, jogos digitais com suposto ou nenhum efeito educacional e a presença cada vez mais massiva de conteúdo digital e interativo no lugar da especulação analítica e do agir reflexivo, mediada pelo livro, seja qual for o seu suporte, impresso ou digital.

Dentro disso que costuma ser denominado por cultura gamer, o indivíduo aprenderia indiretamente e através de experiências sensoriais que procuram que o indivíduo “embarque” virtualmente no objeto de conhecimento a que se pretende conhecer e que se aproprie sem um esforço de todo racional. Nessa perspectiva, a leitura aconteceria apenas funcionalmente, o objetivo em si mesmo seria a recompensa sensorial traduzida em repetidos estímulos àqueles embarcados na experiência lúdico-educacional. Os defensores de sua utilização defendem que essa poderia ser uma forma de atrair e conquistar novos interessados nos bens culturais escritos e na literatura de um modo geral, mas a possibilidade de que os possam afastar ainda mais do livro, seja ele em bits ou em papel, não é nem um pouco exagerada ou descabida.

A questão talvez então fosse estudar as formas pelas quais o ser humano, ao longo da história, vem se relacionando com a leitura. O escritor argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel, no seu Uma História da Leitura, fornece pistas interessantes. Uma delas é ao citar como, por exemplo, no começo do século, os leitores e escritores se relacionavam com o livro e a leitura. Segundo ele, o tcheco Franz Kafka teria dito, em correspondência enviada no ano de 1904 ao amigo Oskar Pollak, que, entre outras coisas “precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios”. Sensação muito distinta que se pode perceber ao verificar que no Brasil, ao longo das últimas décadas pelo menos, prosperam especial e exponencialmente vendas de títulos de autoajuda, num flagrante de que nossos leitores “potenciais” são de um tipo que não deseja ser incomodado pelos livros, mas acarinhado por essa espécie muito particular de escrita.

Tendo de disputar a atenção das pessoas com outras fontes de lazer e informação, a literatura de ficção acaba por competir aos leitores no que parece ser um alto investimento de tempo e de atenção concentrada. E numa época notadamente marcada pelo mais escancarado utilitarismo, é compreensível que as pessoas prefiram fazer opções menos trabalhosas do que ter de encarar, por exemplo, quinhentas páginas de qualquer autor russo do século 19 ou extensas e volumosas obras, como as de Balzac, Proust ou Thomas Mann. Todavia isso nem sempre é uma regra ou obrigação, o que pode ser comprovado pelo autor fenômeno de vendas norueguês, Karl Ove Knausgård, autor do colossal romance autobiográfico Minha Luta. Trata-se, sem dúvida, de um sucesso de vendas, inclusive no Brasil, mas provavelmente dentro daquele percentual de leitores já habituados a leituras extensas. É muito provável, por outro lado, que um novo leitor opte por não começar sua “carreira” com uma série de livros com milhares e milhares de páginas. Talvez antevendo uma possível exaustão e outras emergências e preferências, isso mesmo o faça desistir até mesmo de tentar com os livros pequenos ou qualquer tipo de livro. É uma possibilidade. As alternativas estão sempre à sua mão e costumam atender pelos nomes de smartphone ou de controle remoto.

De outra maneira, o atrativo virtual (não confundir com digital, dada a possibilidade de realizar-se leitura em dispositivos digitais), qualquer que seja ele, parece ser sempre irrecusável, mesmo que consuma horas a fio às vezes sentidas e percebidas como completo vazio ou perda de tempo, nesse processo angustioso que se tornou a vida virtualizada ou gamificada. Talvez a verdade a evitar-se falsear seja a de que já não há nada de errado no mundo contemporâneo quando o virtual se torna mais real do que o próprio real. Numa época em que o que não é “compartilhado” parece não existir e o compartilhamento de bens culturais é tomado como “ostentação” ou “obscenidade”, tudo acaba dificultado para o estímulo à leitura e facilitado para o lúdico, principal potencial dos gadgets.

Pistas mais próximas que a correspondência de Kafka, mantida no início do século passado, podem ser justamente os aplicativos para smartphones. Como, por exemplo, a febre do momento, o app Pokémon Go. As imagens há pouco divulgadas de crianças sírias “interagindo” ou exibindo imagens do boneco Pokémon com a finalidade de serem resgatadas, dentro de uma campanha humanitária, são impactantes, mas duram um momento só, como tudo o que “existe” no mundo virtual. É o tempo de passar os olhos e rolar os dedos e seguir adiante, ao novo objetivo, meta, fase ou o que seja.

Assim como todo e qualquer clamor dirigido ao mundo virtual, seu efeito maior provavelmente seria o de virtualizar e relativizar o seu próprio foco, tornando-o um tipo de estímulo capaz de proporcionar sensações passageiras, comoção ocasional e necessidade de novos estímulos porque o sistema de recompensa é, ao contrário do corpo físico e mental, incansável e insaciável. É por isso que me mantenho um tanto incrédulo quanto ao incentivo que a cultura gamer ou a gamificação educacional pode trazer ao universo da leitura, a não ser que se crie um universo de significação paralela, mas aí não será mais o mesmo nem em relação às dificuldades que representam a compreensão de um texto ficcional e nem ao conteúdo em si mesmo. A leitura, convertendo-se em estímulo, mas a partir justamente de um desestímulo à leitura e ao ato de ler só por ficção, poderia ser tomada como sinônimo de “avanço”. Não há, portanto, chance alguma de se emplacar, por exemplo, uma campanha do mesmo gênero em relação ao resgate de livros ainda que muitos mereçam e muito ser recuperados de tamanho desconhecimento contemporâneo.

Das profecias primitivas às esferas subterrâneas do purgatório medieval de Dante, do terror que inaugurou o imaginário industrial moderno com o Frankenstein de Mary Shelley ao revival do gótico assombroso pré-moderno, do horror de Lovecraft ao cyberpunk do fim do século 20, atravessando o moderno, suas correntes literárias todas e o pós-moderno, sempre o ser humano tem buscado a ficção como forma de sublimar as próprias querelas ou melhor compreendê-las. Mas desde que a subjetividade seja convertida cada vez mais em exibicionismo virtual e fonte de inesgotável autorreferência e narcisismo, a leitura pode passar a representar um tipo de ameaça bem diferente daquele imaginado por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, de quando os livros poderiam desestabilizar o “sistema”, mas trazer a possibilidade sempre horripilante de colocar o indivíduo em contato consigo próprio e com pensamentos mais elaborados do que um emoji ou um conjunto deles.

É sempre um risco, mas que cabe a cada um decidir por tentar ou não corrê-lo. Há fortes indícios de que, na história, reservar um tempo regular à leitura ajudou a humanidade a superar dificuldades significativas e que a imersão tecnológica nos tem levado a guerras e conflitos terríveis e supostamente impessoais, como prova o uso de drones, mas quem poderia afirmar que isso tudo é mesmo verdade e não propaganda de improváveis e rancorosos sebos e antiquadas livrarias de bairro? Seja como for, talvez um ou dois livros fossem o suficiente para acabar para sempre com a dúvida.

A judicialização kafkiana do direito à inclusãoA judicialização kafkiana do direito à inclusão

Há poucos dias, tomei conhecimento de uma decisão proveniente do STJ, exarada através do ministro Hermann Benjamin, sobre recurso interposto pela Defensoria Pública do Distrito Federal, que me causou a impressão de estar diante de mais um típico enredo kafkiano. Não há muita novidade aqui, o sistema jurídico boa parte das vezes se parece mesmo assim: propositalmente incompreensível. Basta o indivíduo estar situado no lugar de quem pleiteia um direito fundamental qualquer e, do outro lado, a muralha procedimental e normativa do direito concretizada como poder de Estado a impugnar-lhe as demandas numa canetada.

Joseph K. é o conhecido personagem do tcheco Franz Kafka que, em O Processo, sucumbe ao maquinário da burocracia e depois de ser processado de forma inclemente é levado à pena capital sem nunca ter entendido direito do que estava sendo acusado. Dizem que é em razão deste livro e não do mais conhecido de Kafka, A Metamorfose, que se começou a usar o termo “kafkiano” para definir tudo o que é real e ao mesmo tempo incompreensível. No linguajar comum, “kafkiano” passou a significar tudo aquilo a que se está irremediavelmente submetido e que acontece à revelia de qualquer racionalidade, embora travestido de razoabilidade e coerência.

A decisão em questão (REsp 1.667.748 – 2.ª Turma – j. 27/6/2017) trata especificamente do pleito de um aluno com deficiência em contar com o acompanhamento de um monitor exclusivo em sala de aula, da redução no número de alunos e o direito a adaptações pedagógicas. O aluno, menor de idade, representado por sua mãe e no caso defendido pela Defensoria Pública do Distrito Federal, tem 15 anos de idade e diagnosticado com a síndrome de Asperger, variação do Transtorno do Espectro Autista. A decisão em primeiro grau, atendida parcialmente e apelada em segunda instância ao STJ, foi ali novamente negada.

No inteiro teor da decisão, pode-se saber o argumento utilizado pelo ministro Hermann Benjamin: “a necessidade da pessoa com deficiência deve ser contrabalançada com a parca capacidade financeira do Estado de prover monitores exclusivos para todos os alunos especiais que demandam judicialmente acerca desse serviço”.

Ora, se isso não significa negar de uma vez só a todos aqueles que acreditam que a Constituição Federal, a Convenção sobre Os Direitos da Pessoa com Deficiência e a Lei Brasileira de Inclusão devem provisionar o atendimento a cada aluno em sua necessidade, é que deve me estar faltando capacidade interpretativa.

Se isso não significa oferecer de mão beijada ao poder executivo em suas diversas instâncias um precedente que o autoriza a descumprir o marco legal, está me faltando capacidade interpretativa.

Se tal decisão não ofende o Art. 24 da CPCD (Dec. 6949, de ), que prevê que as pessoas com deficiência recebam o apoio necessário com vistas a facilitar seu acesso à educação, está também me faltando capacidade interpretativa.

E está me faltando capacidade interpretativa sobretudo se uma decisão como esta não se confronta, na realidade, diretamente com o Art. 16 do mesmo diploma legal, favorecendo a violência institucional, liberando seus agentes de qualquer responsabilidade e expondo justamente o elemento vulnerável da relação, objeto final das leis e tratados internacionais com força de emenda constitucional a situações de abuso e exclusão.

Mas como o poder judiciário poderia estar agindo nesse sentido, favorecendo o descumprimento legal ao invés de provisionar a responsabilização coletiva e a segurança jurídica dos mais elementares direitos fundamentais, como é o acesso à educação? Como pode punir indiretamente pessoas vulneráveis, usuárias dos serviços públicos, e liberar de qualquer responsabilidade gestores que, estes sim, deveriam responder pela falência das contas públicas? Como pode justificar, por esse tipo de razão, a não observância sistemática de um marco legal celebrado por todos, mas seguido à risca, como se vê, por muito poucos?

Pois não se trata de mera má vontade pessoal do ministro em simplesmente denegar o direito social a um aluno com deficiência em específico. O mais duro de admitir é que o engessamento institucional afronta especialmente os direitos dos mais pobres, tendo em vista que no âmbito privado todas as soluções que se somam à garantia do acesso à educação do alunado com deficiência costumam ser muito bem vindas e endossadas, quando não dadas como exemplares.

Já no caso da educação pública, a mera menção de disponibilizar apoio individualizado costuma representar nada menos que a falência do Estado. É uma espécie de ameaça que a população pobre conhece de muitas outras situações e para a qual, infelizmente, conta sempre com muito pouca solidariedade e empatia social.

O mais duro de admitir é que o papel exercido pela corte de apelação acaba sendo este mesmo: proteger o Estado de cumprir as políticas que ele mesmo optou, com o respaldo da ampla maioria dos congressistas que votaram favoravelmente à Constituição Federal, ao status de emenda constitucional da Convenção Sobre Os Direitos da Pessoa com Deficiência e também à Lei Brasileira de Inclusão. Será preciso mostrar as fotografias festivas de tais eventos para lembrá-los disso? Ou então será preciso apenas reforçar a certeza da precariedade da efetivação dos direitos? Aceitar, como o Joseph K. de Kafka, que a burocracia é inapelável e condenatória? Ou tomar por certo que o império da lei está em vigor, mas que isso pouco significa quando o que está em jogo é a vida real das pessoas?

Por certo é exigir demais do Estado e de sua saúde financeira que atenda com decência às pessoas com deficiência. Nessa mesma visão de reserva do possível se deveria, inclusive, desincumbir o Estado de seus menores deveres para que, enfim, pudesse dedicar-se a outras finalidades mais nobres e inenarráveis. Não bastam as dificuldades inerentes às mais diferentes condições de deficiência, é preciso sempre contar com a irracionalidade política, a impassibilidade jurídica, a impermeabilidade social e a indiferença de classe socioeconômica. Eu sinto informar, mas um modelo social baseado neste modelo de sociedade, com poderes de Estado atuando da forma como atuam, é um modelo que nos tem servido de muito pouco, que é uma maneira delicada de dizer “nada” mesmo.

Entre outras milEntre outras mil

Não sei se por culpa da aceleração de tudo, da pressa ou do que mais, mas eu tenho tido nos últimos tempos cada vez mais dificuldade para me concentrar na ficção. Ficção de um modo geral, mas especialmente novelas e romances. Já venho assim há uns anos: deixo para o fim do ano, para os meses de verão, a leitura de prosa longa. Durante o ano, prefiro ler não-ficção (cabe bastante coisa aí nessa gaveta) e poesia.

No fim do ano passado, entretanto, pouco antes do Natal e logo depois do Ano-Novo, nesse intervalo, eu li de enfiada uns quantos livros de ficção que não me causaram aquele desvio mental que essa esse tipo de leitura vinha me proporcionando. Quer dizer, pude me concentrar com muito mais facilidade. Vão me chamar de bairrista, eu não me importo, mas todos eram de autores gaúchos. Em função e em razão da Sepé, eu procurei ler os autores e poetas daqui que eu não conhecia ainda e outros que conhecia e que haviam publicado recentemente.

A pilha ainda não acabou, mas já encontrei vários livros muito bons. De alguns já comentei por aí, de outros ainda não. Mas hoje eu queria comentar a respeito de um o qual especialmente gostei muito. É o Entre outras mil, da Rochele Bagatini e publicado pela Diadorim, editora daqui de Porto Alegre.

Antes de qualquer coisa, eu digo que não faria isso se não tivesse gostado mesmo do livro. Se não tivesse gostado, não teria inclusive lido até o final. Teria o Entre outras mil ido parar literalmente entre os outros mil inacabados que referi acima. Eu sei que há leitores que têm paciência para encantar-se com um livro lá pela página 139. Não é o meu caso. Isso se aplica – para mim – tanto para autores iniciantes quanto para consagrados. Eu estimo que esse meu comportamento seja muito mais adotado que assumido, mas não vejo problema nenhum em admiti-lo e isso também não cria em mim uma regra. Há autores cuja narrativa exige um tempo maior para que a gente se acostume por uma exigência estilística, um contexto cultural específico ou coisa assim. Não é de livros assim a que me refiro, mas daqueles que enroscam o leitor na tentativa de aprisioná-lo e acabam sufocando-o.

Entre outras mil passa longíssimo dessa situação e isso eu pude ver nele logo ao ler suas duas primeiras páginas. Em primeiro lugar, a novela me pegou pela maciez da prosa e pela objetividade narrativa. Entenda-se bem que, para mim, maciez não é o mesmo que melosidade. Tem mais a ver com a prosódia mesmo, com o modo de dizer e de projetar na mente do leitor a voz das personagens. Pode-se trocar o termo por “fluidez” também, mas eu prefiro “maciez” porque é também a qualidade de um texto que não se vale de tombos, golpes bruscos ou efeitos assim. Nada disso. Trata-se de uma prosa que dispensa airbags e não sacrifica a suspensão do leitor.

E essa metáfora mecânica, automobilística, ou melhor, a sua falta é justamente uma das características que muitas vezes me tem feito abandonar uma novela ou romance. Trafegar cento e tantas páginas aos solavancos exige do leitor muito mais do que paciência. Exige um kit de primeiros socorros com direito a calmante ou estimulante, a depender.

A segunda característica que me ganhou em Entre outras mil foi a objetividade narrativa que a autora maneja com muita maturidade. Não é lá muito bom que a gente saiba do que trate todo um romance para gostar do livro, mas a identificação de um contexto, de um enredo, principalmente quando não se está num projeto psicológico e introspectivo, parece ser cada vez mais dispensável na prosa contemporânea. Sabe aquela sensação de estar por horas a fio navegando na bruma da imprecisão (e aos solavancos sintáticos)? Em Entre outras mil a gente não sente isso e o resultado dessa combinação não é outro que um texto agradável, fluido e nem por isso frio, dado que a narradora é inteligente e observadora: uma mulher em busca de resolver dramas familiares complexos vivendo o que deverá marcar a transição para a sua vida adulta.

Além disso, há um enredo muito rico no qual personagens não são casuais, mas indispensáveis à construção da personalidade da protagonista/narradora e um panorama da condição feminina na história recente, marcada sobretudo pela presença da telenovela como fonte mediadora das mentalidades. Raquel, a protagonista de Entre outras mil, é uma personagem que vem do interior para disputar na capital do Rio Grande do Sul a emancipação de um passado no qual o fantasma do abandono familiar a revisita provocando-a a questionar-se (e muito) em relação as suas próprias expectativas de vida. Não sei se pode dizer que é um romance de formação porque ali não está a formação uma escritora, mas alguém que ambiciona a carreira de juíza. Então talvez se pudesse dizer um romance formativo. Formativo e muito fecundo para um lançamento de uma autora que se diferencia bastante e positivamente de um contexto de livros de ficção um tanto apáticos como os que marcaram as primeiras décadas da novelística rio-grandense deste novo século. A determinação e inteligência da jovem Raquel garantem ao livro uma prosa vigorosa, de uma autora também vigorosa como sempre estamos precisando muito.