Um novo olhar qualquer

Várias vezes por ano, por mês, semana ou até mesmo dia sou convocado por bueníssimas razões (pelo menos quero acreditar nisso) a experimentar um “novo olhar”, um “outro olhar” sobre o mundo e suas situações. As aplicações são as mais diversificadas possíveis: vão desde situações abstratas como um “novo olhar” para a “existência” ou a “diversidade”, até um “outro olhar” para o mundo concreto, social, seus fenômenos e contingências. Acontece que a convocação, como são todas as convocações, costuma ser bastante imperativa, isto é, deve-se acatar de imediato as perspectivas da postulação, sem o qual o “novo” olhar não ganha sentido, não opera, simplesmente ele não funciona.

Trata-se de um paradigma quase, mas também de uma metáfora, quase uma sugestão. Há que se escolher bem os termos com que se colocar este “novo” e este “outro”, portanto, para que não se empreenda, ao invés de convencimento e diálogo, imposição violenta e arbitrariedade.

Parece exagero dizer que há uma postulação violenta na proposição de uma novidade e que, pelo menos em tese, todas as novidades são benéficas, o que é essencialmente falacioso. Porém, desde que seja necessária uma inutilização prévia de meu instrumental para ir à aventura do “novo”, do “outro”, ou do que assim seja apresentado, cai por terra de imediato a conotação construtiva da novidade, pois ela ocorre a partir de uma demolição e não de uma consertação. Por outro lado, se mera metáfora fosse, seria uma metáfora um tanto enganosa, ou pelo menos uma promessa que substituiria em poucas palavras uma construção histórica, uma série de condições e acontecimentos duradouros, e não uma proposição equivalente.

Se neste caso usássemos uma metáfora, seria como dizer que a mudança partir de  um “outro olhar” ou de um “novo olhar”, seria mais como mudar o ângulo de visão do que substituir uma lente por outra.

Não há quem ignore que a metáfora é figura de linguagem das mais corriqueiras, isso tanto na literatura quanto na linguagem coloquial. Em campos e domínios nos quais é preciso delimitar o real e clarear suas circunstâncias, todavia, seu uso às vezes pode mais atrapalhar do que ajudar. Poucos parecem perceber isso, afinal a metáfora, antes de qualquer coisa, é um suavizante da compreensão, isso dito já um tanto quanto metaforicamente.

É sobretudo nos textos jornalísticos nos quais mais tem prosperado o uso de figuras de linguagem em lugar de uma análise precisa das situações. Mas isso bem pode ser mais literatura do que jornalismo propriamente dito. O que acontece é que, ao valer-se de metáforas como formas de explicar o mundo concreto, aquele que a redige passa a agir plenipotenciariamente sobre os elementos de seu discurso. O mundo já não acontece como é de fato, linearmente, mas da forma pela qual o postulante escolhe narrá-lo e assim torna-se episódico, datado. O artífice dessa escrita é, portanto, dotado de poderes sem limite acerca dos fatos e os minora ou amplifica de acordo com a sua exclusiva vontade. É um poder invejável. Em tempos nos quais a eloquência pode garantir mais leitores do que clareza ou até mesmo conteúdo, há que se verificar em quantas camadas de tintas literárias se têm encoberto o mundo real em suas cruezas.

Interpretar-se uma realidade política, por exemplo, com o uso da metáfora, pode ser um artifício poderoso na linguagem falada e consiste num traço retórico admirável, se empregado no ambiente adequado. Por outro lado, seu uso desenfreado costuma servir bem mais a um esforço evasivo e simplificador. O impacto se torna cansativo, a metáfora então exaure a si própria e, mais ainda, a quem é dirigida. O texto impregna-se de imprecisão, o discurso torna-se algo delirante, cada vez mais permeado por ambiguidades e,  consequentemente, vai dissociando-se do real e do objeto a que pretendia referir-se.

Há também que o uso deliberado da metáfora em situações realistas acaba competindo na própria desvalorização da figura de linguagem e, por tabela, da própria poesia. Quer dizer, poetizar a realidade faz muito sentido na literatura, quando a ênfase está localizada em potencializar a cognição do leitor; não faz tanto sentido se acaba por servir a desviá-lo da realidade para um seu duplo, artificial, planejado e ilusório (isso mais ou menos nos termos de Clément Rosset, em O real e seu duplo).

Aí é que está: não há que conferir-se o status poético a uma situação real. Do real pode-se depreender a poesia, porém a ele jamais atribuí-la arbitrariamente. Na poesia, especialmente, a metáfora cumpre funções que normalmente enriquecem o texto escrito, como o de expansão de significantes e uma maior mediação simbólica entre texto e leitor. Mesmo que nem sempre seja usada com acerto ou economia, literariamente a metáfora costuma abrir um leque de possibilidades interpretativas. Na interpretação da realidade, entretanto, a metáfora às vezes se converte em mera evasiva e substituição de sentidos. Dá-se então o oposto, e a metáfora passa a ser empobrecedora do discurso por um caráter de imprecisão que desvia a cognição dos fatos para uma poetização do real, mas quando já não se trata mais de poesia.

Com isso quero dizer que a metáfora de um “novo” ou “outro” olhar estabelece um contato tênue demais para representar ou fomentar a mudança social ou cultural efetiva. A quem interessa vivenciar as condições da “novidade”, é necessário perceber claramente uma alteração substanciosa nas condições concretas nas quais o “novo” e o “outro” possam prevalecer. De outro modo, não há “novo” ou “outro” algum, caso a experiência se mantenha estável, constante.

Um exemplo simples a que se pode referir é o da “Nova República”, como ficou conhecido o período político posterior à abertura democrática brasileira. O que, de fato, aconteceu de “novo” ali nas condições materiais e econômicas brasileiras, para além da retomada do direito ao voto? Mais reforma agrária? Mais e melhor educação? Quais as condições de manifestação e verificação deste “novo”, afinal? Pois com tudo o que se denomina “outro” ou “novo” costuma acontecer o mesmo, com exceção, talvez, na ciência, onde a terminologia “paradigma” faz realmente algum sentido.

De mais a mais, é conveniente muitas vezes passar-se a ideia, dar a entender de que se está diante de um “novo”, mas o que há de real e metafórico nisso tudo? Ou seja, é possível convencer a alguém de que é fundamental para a constituição do “novo” a adequação de um “novo” olhar, mas não qualquer “novo olhar”: apenas aquele que se deseja fazer vigorar. Além disso, não vivemos num tempo etapista, no qual as condições são sumariamente eliminadas em prol de outras. Pelo contrário, a dinâmica social é da diversidade e a diversidade é nesse aspecto mais caótica do que harmônica. Mudanças uniformes já aconteceram na sociedade, nas mudanças de regime político, nas mudanças legais e formais, mas nunca atingiram as pessoas da mesma maneira e isso porque elas não ocupam a mesma posição social.

Eu não duvido nem um pouco que os “convites” e “convocações” sobre os quais estou tentando comentar continuarão chegando. Mensalmente, semanalmente, diariamente… Eu apenas quero dizer que, usando da mesma metáfora já utilizada, é muito difícil que eu mudasse meu ângulo de visão, mas apenas testasse a lente dessa nova promessa. Mudar o lugar das coisas costuma ser bem mais trabalhoso (e bem menos poético), que a instituição de uma palavra ou um “novo” qualquer.

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Poesia para quêPoesia para quê

Não foram muitos os críticos (críticos de verdade, com carreira nisso) que comentaram comigo sobre coisas que andei escrevendo nessa última década. Afora estes poucos, recebi de alguns outros até em mais evidência um “gostei”, um “impressionante” e alguns “lindos”, embora estes, para o efeito de crítica, valham muito pouco, se é que valem algo. Mas esses poucos a quem me refiro foram muito especiais. Detiveram-se em mim muito mais que eu merecia e, aparentemente, mais que habitualmente críticos e estudiosos hoje parecem reservar à leitura, haja vista seu afinco e comparecimento nas redes sociais.

Curioso é que as duas pessoas em questão, os professores Cícero Galeno Lopes e Carlos Felipe Moisés, leram coisas diferentes. O prof. Cicero leu minha prosa, meus contos rurais, enquanto que o prof. Carlos Felipe Moisés leu minha poesia, a primeira versão dos poemas de Falso Alarde. Trágico, mas não curioso, é o fato de que meu diálogo com eles foi brutalmente interrompido pela morte de ambos, fatos que aconteceram num período relativamente curto, de poucos meses, no ano de 2017. Certamente não perdi apenas eu com sua partida, mas para mim foram muito impactantes, ainda mais porque a ambos fiquei devendo respostas que, por minha demora, não lhes chegaram nunca.

No Rio Grande do Sul, o professor Cícero estudava – como pouco se estuda hoje – a vertente literária que trata do mundo rural do interior do estado. E eu só posso restar agradecido, senão espantado, porque ele não apenas leu como entendeu o propósito daqueles contos tão sentimentais que reuni em A aposta. E notou, como eu havia notado por outros caminhos, a ausência paulatina tanto de uma aproximação temporal ao presente (e um consequente congelamento histórico), quanto do preconceito crítico e acadêmico quanto aos temas rurais e do interior, fundantes (e de repente abandonados) da literatura rio-grandense.

De outro lado, o professor Carlos Felipe Moisés tinha (como eu tenho) preferência declarada e manifesta a respeito da poesia mais subjetiva, não tão voltada ao mundo da concretude e objetividade. Além disso, tinha ele um dos estudos mais consistentes a respeito da poesia de Fernando Pessoa no Brasil, talvez comparável apenas ao da professora Leyla Perrone Moisés. Eu, como diletante admirador da obra pessoana, pude ter uma nesga da sua compreensão a respeito de Pessoa e, por felicidade empírica, muitas impressões coincidentes. No entanto, para além disso e ao contrário do que aconteceu com Cícero, a interrupção brutal de nossa correspondência pode ser continuada pela leitura de seus livros de teoria literária. O mais recente deles, este do qual quero comentar um trecho e vai a capa anexa, foi lançado em 2019 pela editora da UNESP, uma editora fabulosa mesmo, talvez hoje a melhor do Brasil em humanidades.

Eu não tinha ideia de que também compartilhava com ele um sentimento dúbio, dúbio de duvidoso, na relação entre poesia e sua “presença” virtual, nas redes sociais. Apesar de seu livro ocupar-se de outras coisas, como as questões políticas e sociais da poesia e suas peculiaridades, de alguns temas já tradicionais como a “inspiração” e a sobrevivência da poesia e suas linguagens, mas é a respeito da leitura, do momento da leitura, que ele decide fazer um voto de desconfiança em relação ao substrato de permanente diluição das redes sociais, no qual pelo ralo temporal fundem-se todas as qualidades de texto e de metáforas, conformando um todo avassalador baseado muito mais na excitação alterada do que na reflexão, muito mais em pensamentos descartáveis que em fluxos de consciência.

Se eu houvesse combinado com ele de unirmos impressões, provavelmente o resultado não seria mais coincidente, mas nunca tratamos desse assunto. Eu ainda hoje não sei dizer se sinto mais estranheza ou complacência quando vejo poesia circulando nas redes sociais. Não é que pense que não possam ou devam poetas deitar seus versos no fluxo contínuo das redes, mas sempre isso me acaba acusando a sensação de anulação do ritmo poético, de dissolução mesmo. Já não se trata mais de uma pesca sem isca, mas de outra ainda mais efêmera, sem linha, sem anzol, só mesmo uma aparência do que de fato é. E isso, todo esse potencial, acaba sempre soterrado pela digressão hostil, pelo sarcasmo e, não raro, pelo escárnio, uma espécie de anti-poesia essencial. É um convívio impossível e cada vez mais doloroso esse.

Também não é só a poesia que é agredida nesse meio ambiente, isso é evidente. A própria comunicação interpessoal acaba reduzida a um ritual simbólico elementar no qual a palavra, a palavra mesmo, é no mais das vezes dispensável. A reação emocional vale mais e é mais visível em seus likes, smiles e loves. A significação empobrece e as relações são diluídas e às vezes simplesmente perdidas no vácuo virtual. Não me espanta que tanto o professor Cícero quanto Carlos Moisés fossem pessoas não afeitas às redes. Mas gastavam e gostavam de gastar muitas e muitas palavras para se fazer entender e isso numa oferta desinteressada.

Essa “coisa”, que é uma coisa rara e ao mesmo tempo poética e prosaica vai se transformando com a internet, é isso que eu sinto, assim como a leitura paciente, demorada e que cumpria a tarefa de nos ensinar a perceber como se da primeira vez, o nunca imaginado nem sentido, como ponderava Carlos Felipe Moisés. Agora é reforço sobre reforço no próprio viés de confirmação. Like sobre like, love sobre love. Há de haver bons poetas nesse mundo assim, sem tempo, certamente há, mas vai ser muito mais difícil para eles nessa disputa interminável pelo mais novo, quando já não há mais opção entre durar e não durar se tornou para a poesia o único tempo possível.

Entre outras milEntre outras mil

Não sei se por culpa da aceleração de tudo, da pressa ou do que mais, mas eu tenho tido nos últimos tempos cada vez mais dificuldade para me concentrar na ficção. Ficção de um modo geral, mas especialmente novelas e romances. Já venho assim há uns anos: deixo para o fim do ano, para os meses de verão, a leitura de prosa longa. Durante o ano, prefiro ler não-ficção (cabe bastante coisa aí nessa gaveta) e poesia.

No fim do ano passado, entretanto, pouco antes do Natal e logo depois do Ano-Novo, nesse intervalo, eu li de enfiada uns quantos livros de ficção que não me causaram aquele desvio mental que essa esse tipo de leitura vinha me proporcionando. Quer dizer, pude me concentrar com muito mais facilidade. Vão me chamar de bairrista, eu não me importo, mas todos eram de autores gaúchos. Em função e em razão da Sepé, eu procurei ler os autores e poetas daqui que eu não conhecia ainda e outros que conhecia e que haviam publicado recentemente.

A pilha ainda não acabou, mas já encontrei vários livros muito bons. De alguns já comentei por aí, de outros ainda não. Mas hoje eu queria comentar a respeito de um o qual especialmente gostei muito. É o Entre outras mil, da Rochele Bagatini e publicado pela Diadorim, editora daqui de Porto Alegre.

Antes de qualquer coisa, eu digo que não faria isso se não tivesse gostado mesmo do livro. Se não tivesse gostado, não teria inclusive lido até o final. Teria o Entre outras mil ido parar literalmente entre os outros mil inacabados que referi acima. Eu sei que há leitores que têm paciência para encantar-se com um livro lá pela página 139. Não é o meu caso. Isso se aplica – para mim – tanto para autores iniciantes quanto para consagrados. Eu estimo que esse meu comportamento seja muito mais adotado que assumido, mas não vejo problema nenhum em admiti-lo e isso também não cria em mim uma regra. Há autores cuja narrativa exige um tempo maior para que a gente se acostume por uma exigência estilística, um contexto cultural específico ou coisa assim. Não é de livros assim a que me refiro, mas daqueles que enroscam o leitor na tentativa de aprisioná-lo e acabam sufocando-o.

Entre outras mil passa longíssimo dessa situação e isso eu pude ver nele logo ao ler suas duas primeiras páginas. Em primeiro lugar, a novela me pegou pela maciez da prosa e pela objetividade narrativa. Entenda-se bem que, para mim, maciez não é o mesmo que melosidade. Tem mais a ver com a prosódia mesmo, com o modo de dizer e de projetar na mente do leitor a voz das personagens. Pode-se trocar o termo por “fluidez” também, mas eu prefiro “maciez” porque é também a qualidade de um texto que não se vale de tombos, golpes bruscos ou efeitos assim. Nada disso. Trata-se de uma prosa que dispensa airbags e não sacrifica a suspensão do leitor.

E essa metáfora mecânica, automobilística, ou melhor, a sua falta é justamente uma das características que muitas vezes me tem feito abandonar uma novela ou romance. Trafegar cento e tantas páginas aos solavancos exige do leitor muito mais do que paciência. Exige um kit de primeiros socorros com direito a calmante ou estimulante, a depender.

A segunda característica que me ganhou em Entre outras mil foi a objetividade narrativa que a autora maneja com muita maturidade. Não é lá muito bom que a gente saiba do que trate todo um romance para gostar do livro, mas a identificação de um contexto, de um enredo, principalmente quando não se está num projeto psicológico e introspectivo, parece ser cada vez mais dispensável na prosa contemporânea. Sabe aquela sensação de estar por horas a fio navegando na bruma da imprecisão (e aos solavancos sintáticos)? Em Entre outras mil a gente não sente isso e o resultado dessa combinação não é outro que um texto agradável, fluido e nem por isso frio, dado que a narradora é inteligente e observadora: uma mulher em busca de resolver dramas familiares complexos vivendo o que deverá marcar a transição para a sua vida adulta.

Além disso, há um enredo muito rico no qual personagens não são casuais, mas indispensáveis à construção da personalidade da protagonista/narradora e um panorama da condição feminina na história recente, marcada sobretudo pela presença da telenovela como fonte mediadora das mentalidades. Raquel, a protagonista de Entre outras mil, é uma personagem que vem do interior para disputar na capital do Rio Grande do Sul a emancipação de um passado no qual o fantasma do abandono familiar a revisita provocando-a a questionar-se (e muito) em relação as suas próprias expectativas de vida. Não sei se pode dizer que é um romance de formação porque ali não está a formação uma escritora, mas alguém que ambiciona a carreira de juíza. Então talvez se pudesse dizer um romance formativo. Formativo e muito fecundo para um lançamento de uma autora que se diferencia bastante e positivamente de um contexto de livros de ficção um tanto apáticos como os que marcaram as primeiras décadas da novelística rio-grandense deste novo século. A determinação e inteligência da jovem Raquel garantem ao livro uma prosa vigorosa, de uma autora também vigorosa como sempre estamos precisando muito.

A tirania do amorA tirania do amor

Em dado momento do mais recente livro de Cristóvão Tezza, (A tirania do amor – Todavia, 2018) a personagem de Rachel, recém-separada do protagonista do romance, de sugestivo nome Otávio Espinhosa, é revelada como uma “leitora voraz de romances”; alguém capaz de resumi-los em duas ou três frases. O protagonista, por seu turno, embora tenha o perfil intelectual de quase um gênio matemático, trata-se de alguém que nunca foi um grande leitor de literatura. Autor sob pseudônimo de um best-seller de auto ajuda, o economista em vias de ser demitido de uma importante financeira lembra-se de ter aprendido tudo o que importa saber da alma humana em Crime e Castigo, de Dostoievski e a avaliá-la consultando a Ética de seu “antepassado” Baruch Espinosa. E o que mais ele se interessa em ler são as notícias da economia sobre as flutuações cambiais, mercadológicas e economicistas do Brasil do ano de 2017.

Este pequeno esclarecimento de Tezza a respeito de seus personagens centrais é irrisório diante de tudo o que ao longo do livro se pode saber a seu respeito, mas, ainda assim, não deixa de ser uma amostra simbólica de suas personalidades e também um disfarçado elogio do autor à literatura. No caso, o intensamente racionalizador Otávio é contraposto a supostamente acolhedora Rachel. Fosse o contrário, ele o ávido leitor e ela a economista insípida, não se alteraria o valor do que é proposto e se saberia exatamente o mesmo, isto é, que o interesse pela literatura pode favorecer no indivíduo o florescimento e amadurecimento de suas capacidades compreensivas e afetivas e que a matemática, áspera e gélida, pode muito pouco no sentido de melhorar o humano, embora em muitas situações possa ajudar a explicá-lo.

Mesmo longe de ser o mais relevante a ser dito a respeito do mais novo romance do autor do realmente best-seller O filho eterno, a relação do casal em processo de desfazimento para com a literatura diz muito a respeito de seu protagonista (e também de seu autor). Tendo por nome quase um trocadilho, Otávio Espinhosa é pessoa de uma afetividade opaca e de uma inteligência lógico-matemática vibrante. De sua biografia, pouco se sabe além de sua formação em Harvard e um presente caótico, no qual sua capacidade de cálculo magnífica e a obsessão por contabilizar até mesmo os passos na rua se mostra incapaz de ampará-lo da ruína iminente. É de um estado de descalabro afetivo, existencial e moral, isto é, totalmente generalizado, que Tezza deseja nos mostrar os descaminhos do mais tormentoso dia da vida de seu difícil e pouco empático personagem de meia-idade.

Não leva muito para que se consiga notar o caos mental e existencial em que se encontra Otávio Espinhosa. No mesmo dia em descobre que a mulher tem um amante e deseja separar-se e está por perder o emprego, ele decide abdicar em definitivo da vida sexual ao mesmo tempo em que passa a entabular mentalmente todo um jogo de racionalizações que vão conduzindo-o como que para dentro de um furacão. Espinhosa parece muitas vezes nem respirar e é jogado de lá para cá pelos fatos presentes, pelas suas projeções futuras e por lembranças de um passado que pouco a pouco já não lhe diz respeito e do qual vai se alheando cada vez mais, a despeito das tentativas de fixar-se e conter os efeitos das decisões dos outros e também as decorrentes de suas próprias ações e passividade.

Diante do futuro imponderável, a amargura de quem foi preparado pelas convicções de seu pai para ser nada menos que um gênio, o “seu Mozart”, ele topa-se frontal e incessantemente contra a autonomia da alteridade. A essa altura da vida, tudo lhe soa vulgar e seu cambiante heterônimo filosófico, Kelvin Oliva, com seu livro de dicas milagreiras de bem estar financeiro e emocional, parece constantemente punir-lhe com suas pregações inúteis e filosofia de quinta categoria, além do “parente” Espinosa.

Na vida real, Espinhosa é confrontado pelos filhos adolescentes, pelos fantasmas da ex-mulher, de uma antiga e de uma nova namorada que o atormentam ao desnudá-lo mentalmente a todo o instante, como se formassem um superego abrangente sobre o qual ele necessita sobreviver. Sua situação apenas não é mais tenebrosa do que a da empresa em que trabalha, cujos escândalos prestes a serem revelados talvez lhe custem o emprego e a sobrevivência. Nesse fatídico e interminável dia, todo o mundo lhe parece tragado pela fantasia da vulgaridade econômica e cultural. Ele mesmo, em perspectiva, vê-se como um embuste, principalmente em razão de sua realização intelectual mais notória: o sucesso provisório de seu livro A matemática da vida.

Contra o pano de fundo da contemporaneidade brasileira, Otávio Espinhosa (nome que de acordo com a ex-mulher Rachel se parece a um ouriço), é um personagem acidulado que vai buscando reorganizar-se mentalmente (sempre muito mais mentalmente do que emocionalmente) a fim de sobreviver à própria percepção de inadequação de um modo de vida que, afinal, lhe trouxe aonde trouxe, mas do qual não sabe sequer se deseja mesmo livrar-se ou superá-lo.

Se o senso comum dita que a idade traz a sabedoria, Espinhosa parece tão imaturo e renitente quanto seu filho Daniel, um estudante de jornalismo engajado em novíssimos movimentos sociais que em arroubos pseudoindependentes vem deflagrando uma guerra contínua contra ele, o modo de vida burguês que ele representa e o filho naturalmente abomina. Ele também não conta com a mesma placidez da filha Lucila ao buscar diante de um futuro vestibular um caminho em que apenas lhe interessa a auto realização. Espinhosa, entretanto, parece cada vez mais influenciado e obsidiado pelos conselhos do pai falecido há muitos anos, pelos fantasmas de seus relacionamentos anteriores e até mesmo pelo alterego Kelvin Oliva, o filósofo de mentirinha que vive de conselhos fajutos.

Talvez o que Otávio Espinhosa procure vislumbrar ao fim desse dia, vencidas as exigências interpessoais para ele insuportáveis, seja um pouco de liberdade. Em sua perspectiva calculista, entretanto, o resultado a que pode chegar independe de trabalhar ou não para uma instituição comprometida com a corrupção financeira, independe de ser dispensado de um casamento no qual se acomodara por duas décadas. Tudo isso para ele está perdido. Com exceção de Débora, um affair repentino com a herdeira da financeira que aparentemente vai-se arruinando, Espinhosa deixa-se levar pelo núcleo do furacão com a vitalidade que lhe é ainda disponível, depois de tudo.

Bem como em O filho eterno, Tezza constrói um personagem geracional e complexo. No caso, alguém em tudo revelador da decomposição moral de uma geração que tendo alcançado o poder político e financeiro e flagrada em plena crise, parece incapaz de sustentar-se discursivamente de forma convincente. O brilhante economista que dava conta perfeitamente bem de uma atenção multitarefa e a três monitores sobre a mesa de trabalho, em algum momento (não por suas brilhantes deduções, mas porque viver é mesmo emaranhado) vê-se compelido a ter de viver na transitoriedade de sua condição e a lidar com a vida conforme ela se apresenta. Nada que evidentemente lhe garanta que ela logo mais não venha a apresentar-se, cedendo aqui finalmente ao trocadilho, ainda mais espinhosa.