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A tirania do amor

Em dado momento do mais recente livro de Cristóvão Tezza, (A tirania do amor – Todavia, 2018) a personagem de Rachel, recém-separada do protagonista do romance, de sugestivo nome Otávio Espinhosa, é revelada como uma “leitora voraz de romances”; alguém capaz de resumi-los em duas ou três frases. O protagonista, por seu turno, embora tenha o perfil intelectual de quase um gênio matemático, trata-se de alguém que nunca foi um grande leitor de literatura. Autor sob pseudônimo de um best-seller de auto ajuda, o economista em vias de ser demitido de uma importante financeira lembra-se de ter aprendido tudo o que importa saber da alma humana em Crime e Castigo, de Dostoievski e a avaliá-la consultando a Ética de seu “antepassado” Baruch Espinosa. E o que mais ele se interessa em ler são as notícias da economia sobre as flutuações cambiais, mercadológicas e economicistas do Brasil do ano de 2017.

Este pequeno esclarecimento de Tezza a respeito de seus personagens centrais é irrisório diante de tudo o que ao longo do livro se pode saber a seu respeito, mas, ainda assim, não deixa de ser uma amostra simbólica de suas personalidades e também um disfarçado elogio do autor à literatura. No caso, o intensamente racionalizador Otávio é contraposto a supostamente acolhedora Rachel. Fosse o contrário, ele o ávido leitor e ela a economista insípida, não se alteraria o valor do que é proposto e se saberia exatamente o mesmo, isto é, que o interesse pela literatura pode favorecer no indivíduo o florescimento e amadurecimento de suas capacidades compreensivas e afetivas e que a matemática, áspera e gélida, pode muito pouco no sentido de melhorar o humano, embora em muitas situações possa ajudar a explicá-lo.

Mesmo longe de ser o mais relevante a ser dito a respeito do mais novo romance do autor do realmente best-seller O filho eterno, a relação do casal em processo de desfazimento para com a literatura diz muito a respeito de seu protagonista (e também de seu autor). Tendo por nome quase um trocadilho, Otávio Espinhosa é pessoa de uma afetividade opaca e de uma inteligência lógico-matemática vibrante. De sua biografia, pouco se sabe além de sua formação em Harvard e um presente caótico, no qual sua capacidade de cálculo magnífica e a obsessão por contabilizar até mesmo os passos na rua se mostra incapaz de ampará-lo da ruína iminente. É de um estado de descalabro afetivo, existencial e moral, isto é, totalmente generalizado, que Tezza deseja nos mostrar os descaminhos do mais tormentoso dia da vida de seu difícil e pouco empático personagem de meia-idade.

Não leva muito para que se consiga notar o caos mental e existencial em que se encontra Otávio Espinhosa. No mesmo dia em descobre que a mulher tem um amante e deseja separar-se e está por perder o emprego, ele decide abdicar em definitivo da vida sexual ao mesmo tempo em que passa a entabular mentalmente todo um jogo de racionalizações que vão conduzindo-o como que para dentro de um furacão. Espinhosa parece muitas vezes nem respirar e é jogado de lá para cá pelos fatos presentes, pelas suas projeções futuras e por lembranças de um passado que pouco a pouco já não lhe diz respeito e do qual vai se alheando cada vez mais, a despeito das tentativas de fixar-se e conter os efeitos das decisões dos outros e também as decorrentes de suas próprias ações e passividade.

Diante do futuro imponderável, a amargura de quem foi preparado pelas convicções de seu pai para ser nada menos que um gênio, o “seu Mozart”, ele topa-se frontal e incessantemente contra a autonomia da alteridade. A essa altura da vida, tudo lhe soa vulgar e seu cambiante heterônimo filosófico, Kelvin Oliva, com seu livro de dicas milagreiras de bem estar financeiro e emocional, parece constantemente punir-lhe com suas pregações inúteis e filosofia de quinta categoria, além do “parente” Espinosa.

Na vida real, Espinhosa é confrontado pelos filhos adolescentes, pelos fantasmas da ex-mulher, de uma antiga e de uma nova namorada que o atormentam ao desnudá-lo mentalmente a todo o instante, como se formassem um superego abrangente sobre o qual ele necessita sobreviver. Sua situação apenas não é mais tenebrosa do que a da empresa em que trabalha, cujos escândalos prestes a serem revelados talvez lhe custem o emprego e a sobrevivência. Nesse fatídico e interminável dia, todo o mundo lhe parece tragado pela fantasia da vulgaridade econômica e cultural. Ele mesmo, em perspectiva, vê-se como um embuste, principalmente em razão de sua realização intelectual mais notória: o sucesso provisório de seu livro A matemática da vida.

Contra o pano de fundo da contemporaneidade brasileira, Otávio Espinhosa (nome que de acordo com a ex-mulher Rachel se parece a um ouriço), é um personagem acidulado que vai buscando reorganizar-se mentalmente (sempre muito mais mentalmente do que emocionalmente) a fim de sobreviver à própria percepção de inadequação de um modo de vida que, afinal, lhe trouxe aonde trouxe, mas do qual não sabe sequer se deseja mesmo livrar-se ou superá-lo.

Se o senso comum dita que a idade traz a sabedoria, Espinhosa parece tão imaturo e renitente quanto seu filho Daniel, um estudante de jornalismo engajado em novíssimos movimentos sociais que em arroubos pseudoindependentes vem deflagrando uma guerra contínua contra ele, o modo de vida burguês que ele representa e o filho naturalmente abomina. Ele também não conta com a mesma placidez da filha Lucila ao buscar diante de um futuro vestibular um caminho em que apenas lhe interessa a auto realização. Espinhosa, entretanto, parece cada vez mais influenciado e obsidiado pelos conselhos do pai falecido há muitos anos, pelos fantasmas de seus relacionamentos anteriores e até mesmo pelo alterego Kelvin Oliva, o filósofo de mentirinha que vive de conselhos fajutos.

Talvez o que Otávio Espinhosa procure vislumbrar ao fim desse dia, vencidas as exigências interpessoais para ele insuportáveis, seja um pouco de liberdade. Em sua perspectiva calculista, entretanto, o resultado a que pode chegar independe de trabalhar ou não para uma instituição comprometida com a corrupção financeira, independe de ser dispensado de um casamento no qual se acomodara por duas décadas. Tudo isso para ele está perdido. Com exceção de Débora, um affair repentino com a herdeira da financeira que aparentemente vai-se arruinando, Espinhosa deixa-se levar pelo núcleo do furacão com a vitalidade que lhe é ainda disponível, depois de tudo.

Bem como em O filho eterno, Tezza constrói um personagem geracional e complexo. No caso, alguém em tudo revelador da decomposição moral de uma geração que tendo alcançado o poder político e financeiro e flagrada em plena crise, parece incapaz de sustentar-se discursivamente de forma convincente. O brilhante economista que dava conta perfeitamente bem de uma atenção multitarefa e a três monitores sobre a mesa de trabalho, em algum momento (não por suas brilhantes deduções, mas porque viver é mesmo emaranhado) vê-se compelido a ter de viver na transitoriedade de sua condição e a lidar com a vida conforme ela se apresenta. Nada que evidentemente lhe garanta que ela logo mais não venha a apresentar-se, cedendo aqui finalmente ao trocadilho, ainda mais espinhosa.

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Artigo publicado no Caderno DOC do jornal Zero Hora, 24/03/2023.

Junto aos demais nas prateleiras de uma livraria, numa tela da internet ou na coleção particular de alguém, um livro é sempre muito semelhante aos outros livros. Como se pode distinguir um de outro? Não é pela gramatura ou qualidade da celulose, certamente não, mas logo se intui que o peso de um livro reside mais na obra e no que dela é inerente do que no objeto e sua exterioridade. É por isso que todos conseguem atestar uma descompensação tanto no valor de venda quanto no valor intrínseco de objetos de aspecto tão semelhante. Semelhança apenas aparente, diga-se de passagem. Nem todo o livro é obra e quem o disse não fui eu, mas Jacques Derrida na sua Gramatologia. De fato, a diferença se dá à leitura e logo que se a inicie desencadeia-se um complexo processo analítico-comparativo.

É essa a balança que cada qual regula com sua experiência, preferências e disposição para a surpresa. Quando acontece, é como o tilintar das moedas de uma slot machine: já não se pode mais largar aquele livro único e inimitável.

Não foi por sorte que caiu em minhas mãos o novo livro da poeta gaúcha Mariana Machado. Eu a leio desde as suas primeiras publicações e sei que, portanto, este é um livro de uma carreira que em 2022 obteve com Cães e Astromélias (Mondrongo, 2021) o terceiro lugar no Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional. Agora, Mariana traz pela mesma editora um volume generoso de 250 páginas de sua poesia, com a publicação de Entre Mandalas, Espadas e uma Escada Caracol. Com o livro, o universo poético de Mariana ao mesmo tempo se arroja e densifica. Certamente, não pesaria mal em nenhuma boa livraria ou na prateleira de boa poesia de uma biblioteca.

Abertas as portas do universo expandindo do livro de Mariana, logo se parte ao encontro de uma recriação em versos do épico Sidarta, de Herman Hesse. Os 47 cantos do poema dão conta da busca por esclarecimento que o buda empreendeu a sós em sua bem conhecida jornada. Aqui, logo se pode ver que também Mariana empreende uma jornada em que se confronta consigo mesma e com o mundo numa tensão poética rara de se ver. E o esclarecimento de Sidarta, o que “quisera dar-se apaixonadamente a tudo”, e que cumpriu o destino por ele mesmo forjado e “deixou tudo para trás e foi-se embora”, não é senão a aprendizagem dos que se desapegam, nesse processo de decantação pelo qual também se transformam os poetas em poetas.

Ao recuperar os ecos antepassados das mulheres do Rio Grande do Sul ou ao combater e desvendar a densidade do mundo presente, Mariana combina sua voz mais coloquial com os recursos de uma excelente leitora de poesia. Isso se confirma ao conhecerem-se as traduções que ela também registra no livro e vão de Goethe a Jacques Prévert, alargando as margens do seu próprio universo ao universo de outros tantos poetas.

No poema A Lavadeira, a poeta rende a sua escuta poética às mulheres:

Quebrando a geada, pé por pé, no mato,
alta a trouxa de roupas – feito Atlas –,
pulando arames, chega à beira d’água
pra mergulhar os dedos, vê-los mortos
e desfazer na fibra seus caroços.

Sim, há mais escuta e um olhar acurado para a vida que um discurso em seus poemas. É uma escuta de memória e da trama dos motivos sutis da vida feminina, suas restrições históricas, desejos e ambições. Mas a poesia se dá apesar disso e quando se encontra com o que há de sublime no mínimo, vê-se também que a poeta nunca prescinde de sua integridade e dedica aos versos, além de técnica vigorosa e têmpera mental, a amorosidade áspera e táctil como é própria da dicção do sul. Livre do embaraço dialetal, a poesia de Mariana rebrilha de sua própria luz.

Mas é poesia que também se deixa notar no mais íntimo processo de maternidade e no encontro de uma plenitude inesperada entre o trivial e o religioso. Com um senso crítico por vezes cáustico, encara a própria rotina e a literatura desse tempo com o mesmo desembaraço com que se depara com as questões metafísicas da fé e de Deus. Seja com a leveza sintética do hai kai ou valendo-se da tradição das formas fixas, ela expande seu domínio do ofício sem que se encontre sequer uma repetição de motivos. Além de uma raridade, uma amostra de que este é um universo irrefreável. Vivendo em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, para nossa sorte o seu universo agora se torna acessível na forma de um livro que também é obra. Talvez por essa combinação pese bastante também na sua estante de livros.

Brasil, construtor de ruínasBrasil, construtor de ruínas

Foi numa entrevista para a Parêntese, concedida ao professor Luís Augusto Fischer, que fiquei sabendo que o mais recente livro da Eliane Brum, Brasil Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago, 2019), não havia recebido sequer uma crítica dos grandes jornais brasileiros, apesar de ter sido resenhado pela New Yorker, pelo New York Times e estar sendo traduzido para diversos idiomas, entre os quais o polonês e o italiano.

A informação em nada me espanta. Apesar dos vários títulos que vêm sendo publicados na intenção de dissecar a história política recente, em sua maioria os livros teóricos têm compromissos nítidos com a sua própria performance investigativa e estão disputando, para além da narrativa, o cenário e destino eleitorais. O livro da Eliane também tem seus compromissos, mas não é por isso que eu acredito nessa refração que o público brasileiro vem tendo em relação à publicação da Arquipélago, editora de Porto Alegre que é a sua “casa”, conforme ela diz.

Eu temo, aliás, que qualquer iniciativa intelectual que vise colocar ao espelho a história recente brasileira venha a passar pelo mesmo. Não é que não estejamos preparados ainda para enfrentar a dissolução da Nova República no bolsonarismo: é que nunca estaremos. É muito terrível ser obrigado a olhar a ruína logo atrás e ainda por cima precisar entender que o futuro breve continua sendo determinado por escolhas comprometidas e/ou já fracassadas.

Como a bíblica família de Lot, pesa-nos a advertência de que, para seguir sobrevivendo em paz relativa, é necessário não olhar para trás, nem examinar os meandros do que competiu a maldição da história toda. Há o risco de congelamento em sal numa recaída simples. E ninguém em sã consciência do seu instinto de sobrevivência gostaria de terminar assim. Ou seja, fugindo ao viés de confirmação de uns ou de outros, qualquer literatura será mal vinda. Bem vinda aquela que permite continuar, ainda que ao custo da denegação da realidade objetiva.

É por afrontar o legado petista e lulista, por enfrentar a sanha justiceira lavajatista e por confrontar a expressão da malignidade bolsonarista que o livro de Eliane vai se convertendo num clássico pouco lido. A sua diferença maior em relação aos livros de ciência política não é dada pela linguagem ou pelo método jornalístico de imersão total pelo qual ela opta, mas pelo distanciamento que lhe confere a isenção ideológica e o exame vis-à-vis dos acontecimentos.

Se é possível que ela incorra em equívocos de interpretação, isso é o que há de menos grave. A história do Brasil recente está mesmo sendo forjada a quente e, no tocante às decisões políticas, vem competindo em desastres humanitários, ambientais e econômicos sem precedentes. Além disso, os cronistas dos jornais e das redes sociais estão também implicados muitas vezes numa rede de enganos e auto enganos que mantêm suas bolhas agregadas e sua narrativa montada, em pé.

Desse consensos não coincidentes não resulta uma ciência política taxativa nem diagnósticos claros do que ainda pode vir a acontecer, mas o ponto de vista de Eliane Brum, como residente no mesmo alto Xingu no qual se estabeleceu o gigantismo destruidor da usina de Belo Monte e como pensadora autônoma, não está colocado como a chave interpretativa por excelência adotada nem por direita e nem por esquerda. É de um lugar oblíquo, do qual permite ver os estilhaços da imagem de uma nação esfacelada em muitos cacos, que o espelho do seu livro alcança ao público. De primeira, não será uma imagem muito clara ou precisa, mas, ao fim, vai se ver que a imagem resulta de uma semelhança incômoda com o Brasil real e isso, afinal, talvez seja o que mais nos aterrorize.

Brasil, construtor de ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro
de Eliane Brum, (Arquipélago, 2019).