E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Crônicas Fragmento de uma crítica abandonada sobre críticas negativas

Fragmento de uma crítica abandonada sobre críticas negativas

Uma única vez na vida tive vontade de erguer a pena, quer dizer, os dedos ao teclado, para interpelar um autor em razão de sua obra. Felizmente desisti em tempo. Desisti porque me sentiria infeliz só de começar a pensar no assunto. Além de tudo, seria não apenas tempo perdido, seria mal empregado mesmo, afinal, é muito provável que o autor (um consagrado) jamais fosse ler aquilo e eu, como disse, não me comprazo nem um pouco na tarefa de desmontar qualquer autoimagem que alguém possa ter para consigo mesmo, isto é, acho justo que todo autor nutra para com sua autoestima as melhores expectativas. Admiro, sim, por outro lado, algum zelo com uma certa tendência a megalomania, mesmo considerando que, por outro, requer-se sempre um pouco dela para uma empreitada que efetivamente valha a pena. Quer dizer, lamento pela inevitável desfaçatez com que se tratam muitas vezes obras inovadoras, mas há que se considerar que, muitas vezes, ao invés de ser efetivamente o produto inovador a despontar no horizonte da mesmice mental e cultural de um tempo qualquer, possa-se estar vendo apenas um tipo de fantasmagoria, uma miragem, ou, pior de tudo, uma projeção enviesada de tendências caquéticas prestes a esfacelar-se, aí sim, num movimento inovador, mesmo que um localizado num eterno porvir. Admiro, sim, aqueles autores que tem a coragem de ver-se sob essa perspectiva, mas os amigos, infelizmente, costumam impedi-los em tempo.

1 thought on “Fragmento de uma crítica abandonada sobre críticas negativas”

  1. As críticas dos amigos e dos leitores são essenciais e de extrema importância, cabendo ao blogueiro ter a coragem de ver-se sob essa nova perspectiva, e depois seguir sua trilha sem permitir que ninguém venha a impedi-lo a qualquer tempo…

    … e se insistirem, tudo bem, mas o blogue é meu, o texto confuso é meu, o assunto é tenebroso foi eu quem escolhi, e as imagens são toscas fui eu quem produzi, e pronto!

    E se for brigar comigo eu vou contar prá minha mãe!!!
    http://www.aconteceuemitu.org

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À derivaÀ deriva

Até o carro enguiçar ou o pneu furar, nenhuma viagem ainda começou. Antes, é preciso olhar para os lados e encontrar o horizonte interminável dando para o nada absoluto. Também ter esquecido de calibrar o estepe a ponto de que nem para sentar um pouco, como um banco improvisado, ele ainda sirva. A viagem começa mesmo é no instante em que a ameaça da chuva se concretiza e o mundo parece que vai ser virado do avesso com a ventania e tudo o que ela revolve consigo: telhas de casas distantes, pequenos pássaros órfãos, plumas, cascas e galhos e folhas de árvore e tanta poeira que não é possível imaginar o que está a um passo daquele atracadouro, aquele lugar nenhum, onde se foi parar.

Mas é depois disso que é possível começar a ir algum lugar.

O caminho é curvo e nunca se sabe o que há logo a seguir. Pode haver uma oficina escondida entre os matos, como se interposta por Deus, um restolho improvável de civilização. Ou uma casa com as janelas abertas e luzes convidativas. Uma criança caminhando por aquela direção: em suas mãos uma jarra de água fresca. A fresta por onde um talho entre as nuvens, pleno azul, indicará finalmente o estio.

As roupas trazem o ruído da água e de repente é possível sentir-se como um anfíbio, um sapo ou salamandra e o destino dela, mutuamente submerso e terrestre (aéreo?) parece, mesmo, muito promissor. Há o que de perigo em andar na chuva, molhado da cabeça aos pés? É a mesma substância. E a estrada vaza água ainda, o que, de todo o modo, facilita percorrer o caminho.

De repente, num soslaio, até ela (a estrada) parecerá uma pintura falsa, como uma reprodução pendurada à parede de casa (a casa antiga, casa da infância) para a qual, nos dias infinitos de inverno do passado, era o que havia para olhar quando a luz faltava em decorrência dos temporais semanais que, com o tempo, também inundaram tudo – mas a estrada não.

O bom de viajar é encontrar os pés no chão e o desconforto da incerteza se passará alguém do lado inverso, sentido contrário, para algum socorro. É uma solidão sem sinal de telefonia e o interesse desdenhoso da natureza olhando em sua direção um momento só, por dentro dos olhos dos bovinos que estão por ali tão à deriva no mundo quanto você.

Laranja mágicaLaranja mágica

Quando eu tinha acho que uns oito ou nove anos, mais provável que nove, fiz amizade com um menino muito pobre, de uma família que consistia nele apenas e sua mãe.

Moravam os dois numa casinha porta e janela de uma transversal da nossa rua, num prolongamento de chão batido que margeava o arroio morto e alagadiço do Povo Novo, em Bagé. Um lugar sempre úmido e que, nos meses de inverno, parecia de um frio ártico, mas, na realidade, era ainda um pouco mais frio que isso, porque lá a geada chegava antes.

Lá eu estive pela primeira vez a seu convite porque seria o “dia da laranja mágica” e como eu havia lhe emprestado a minha bicicleta para ele dar duas voltas no quarteirão sem pedir de volta, ele disse que seria sempre meu amigo e que, pela minha amizade, dividiria a única laranja mágica daquele ano comigo.

Era um anúncio estranho porque, afinal, para mim, laranja era tudo igual. Não entendia como poderia haver uma que fosse mágica do modo que eu entendia as coisas mágicas, isto é, soltando raios e etc.

Na sua casa, atravessamos um corredorzinho tão estreito que quase precisamos passar caminhando de lado e chegamos a um portão que parecia dar para um pátio, mas um pátio sem fim, sem muros, sem margens, como fosse a campanha. A menos de dois passos, uma laranjeira quase nua, com os galhos tomados de parasitas, limo e líquen e uma barba de ancião. Árvore anã que alcançaríamos mal estendendo o braço e na qual uma laranja só, uma única laranja de tamanho normal, aparência levemente ruim, cascarrenta mesmo, parecia dormir na árvore miserável. Eu entendi que era ela a laranja mágica, mas respeitosamente silenciei quando ele ergueu o braço, arrancou o fruto e o depositou em minhas mãos.

Eu estava tocando o seu umbigo quando ele me chamou com um “Vem!” para dentro de casa. Disse mais com o gesto de cabeça do que com o convite e fui seguindo seus passos até dar numa pequena cozinha na qual cabia apenas uma mesa de fórmica e duas cadeiras, um armário de chão, o fogão a lenha e uma geladeira que devia regular de idade com a árvore.

“Onde tá tua mãe?”, perguntei-lhe intrigado com a casa totalmente aberta, sem chaves, com apenas a porta encostada. “Limpando”, explicou e entendi que estava fazendo isso a trabalho, mas não perguntei mais nada. Sentados um de frente para o outro, com a laranja posando como um troféu dentro de um prato Duralex, ele disse para que eu me preparasse e, mais rápido que eu entendesse, ele como que enrolou e desenrolou a laranja das mãos voltando completamente descascada, branca como uma lua nova, sem uma rugosidade, sem um naquinho de casca.

“Prova!”, ordenou, e colocou-a de volta no prato.

“Anda, come toda!”, impacientou-se. “Come duma vez!”, repetiu como se estivesse bravo e eu obedeci. Como um favo de mel, o fruto drenou para dentro da minha boca e eu percebi que tinha uma sede imensa, ancestral, que a laranja me saciava e era como eu sentisse a sede morrendo e o bem estar da fruta me inundava e, então, engoli toda aquela laranja enquanto ele ria, ria a não poder mais, como se eu lhe providenciasse um espetáculo insólito, uma bestificação.

De volta ao pátio, a noite fria de inverno, escura, anunciava-se tenebrosa ali, pois a rua não tinha iluminação pública. Pela vidraça, notamos que sua mãe regressara e já acendera a luz da cozinha. Sem mais frutos, a laranjeira parecia estéril e nua como o contorno da lua nova no céu marinho.

Minha hora de voltar estava chegando e eu não sabia o que dizer ao meu novo amigo, mas precisava voltar para casa. Olhei a bicicleta encostada junto à porta e passei por ela sem remorso, não a levei comigo. Minha casa não era tão longe que eu não chegasse a pé e logo haveria um Natal que o pai me desse outra, se tudo andasse bem no colégio. Que me custava andar? Diria ao pai que a perdera numa aposta, uma questão de honra incontornável. Eu já ia pra dez anos dali a um pouco, uma boa idade pra sentar o juízo.

Me dá meu chapéuMe dá meu chapéu

A Cidade Baixa não tem desses cafés do Bom Fim, onde os velhos sentam para tomar um pingado e aproveitar o sol do outono, como uns gatos desalojados da vida doméstica. O comércio da Cidade Baixa é essencialmente etílico, salvo uns bistrozinhos de preços, acho eu, completamente desproporcionais. São poucos desses café de calçada, e os que se mantém em sua maioria são envidraçados. A razão disso é óbvia e não é meu assunto aqui.

O bom desses cafés nem é o café, mas essa companhia de cãs e calvas. Tem quem fuja com medo de ser confundido, mas se é uma vaidade (ou tolice) que nunca tive na juventude, não vai ser agora. É que se a idade traz o desconforto da proximidade cada vez mais breve para com a visitante fatal, por contrapartida traz uma espécie de tranquilidade. Tranquilidade que é um pouco cansaço também, mas sobretudo falta de pressa. De pressa e de surpresa.

É que é muito diferente conversar com alguém que só viu, por exemplo, os governantes deste milênio mal parido e com quem tem na memória os ecos de uma Segunda Guerra Mundial. Há uma forma diferente de sopesar as coisas, é isso que digo, que é algo tranquilizante. Para mim, é. Porque hoje vivemos a era do escândalo e da obscenidade e essas pessoas conhecem espécie de bem e de mal muito menos óbvios que, obviamente, não se extinguiram.

Eu ainda não fiz isso, mas um dia vou simplesmente pedir o meu pingado e tomar meu assento, não mais vou sentar à distância. Se me estranharem, digo simplesmente “ué, me esqueceram?”, e como ninguém vai querer acusar um lapso de memória, vão fazer de conta que conhecem, claro, e me recomendar que eu tire a cabeça do sol porque esqueci do chapéu. Eu, que não uso chapéu..