Me dá meu chapéu

A Cidade Baixa não tem desses cafés do Bom Fim, onde os velhos sentam para tomar um pingado e aproveitar o sol do outono, como uns gatos desalojados da vida doméstica. O comércio da Cidade Baixa é essencialmente etílico, salvo uns bistrozinhos de preços, acho eu, completamente desproporcionais. São poucos desses café de calçada, e os que se mantém em sua maioria são envidraçados. A razão disso é óbvia e não é meu assunto aqui.

O bom desses cafés nem é o café, mas essa companhia de cãs e calvas. Tem quem fuja com medo de ser confundido, mas se é uma vaidade (ou tolice) que nunca tive na juventude, não vai ser agora. É que se a idade traz o desconforto da proximidade cada vez mais breve para com a visitante fatal, por contrapartida traz uma espécie de tranquilidade. Tranquilidade que é um pouco cansaço também, mas sobretudo falta de pressa. De pressa e de surpresa.

É que é muito diferente conversar com alguém que só viu, por exemplo, os governantes deste milênio mal parido e com quem tem na memória os ecos de uma Segunda Guerra Mundial. Há uma forma diferente de sopesar as coisas, é isso que digo, que é algo tranquilizante. Para mim, é. Porque hoje vivemos a era do escândalo e da obscenidade e essas pessoas conhecem espécie de bem e de mal muito menos óbvios que, obviamente, não se extinguiram.

Eu ainda não fiz isso, mas um dia vou simplesmente pedir o meu pingado e tomar meu assento, não mais vou sentar à distância. Se me estranharem, digo simplesmente “ué, me esqueceram?”, e como ninguém vai querer acusar um lapso de memória, vão fazer de conta que conhecem, claro, e me recomendar que eu tire a cabeça do sol porque esqueci do chapéu. Eu, que não uso chapéu..

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Eu, robôEu, robô

Tardes de sábado boas mesmo têm de ter o bom e saudável tédio criativo. Esses dias eu vi de um famoso escritor que a pandemia estaria impedindo-o de escrever e ele dizia que precisava caminhar para escrever, então não estava escrevendo mais nada nos últimos tempos. Não é que ele escrevesse caminhando, mas haveria algo no andar à toa que lhe seria fundamental para o pensamento e, lógico, também para a escrita. Eu também acho e gosto muito de andar, principalmente no centro de Porto Alegre. Apesar de que o centro nunca esteve tão depauperado e abandonado, eu gosto, e para mim não há outro lugar em Porto Alegre que me dê tanta vontade de caminhar por caminhar. Sinto falta mesmo.

A pandemia nos roubou a liberdade de caminhar por aí e nos jogou de cabeça no mundo das redes, onde também não há tédio. Não sei como acontecem as antologias da pandemia sem que os escritores possam deambular livremente e o combustível da escrita, o tédio, a sedimentar pensamentos e emoções. Mas há quem consiga e eu fico realmente admirado.

Quando era criança, eu gostava muito de inventar histórias absurdas para os meus amigos. Era uma coisa meio teatral que eu fazia e só me dava por satisfeito quando conseguia convencê-los da minha representação. Não sei em que momento da minha infância me desviei das artes cênicas, mas acho que aquele tédio absoluto das tardes interioranas (e o livre trânsito pelas ruas da Bagé dos anos 70) me compelia a inventar alguma coisa. Qualquer coisa..
Naquelas eras glaciais, a tevê mal pegava e a programação das ruas era bem mais convidativa. Além disso, só na vizinhança havia dezenas de crianças para interagir realmente. E crianças naquela época consistiam um conceito bem mais elástico do que hoje. A adolescência e seus ritos de consumo chegaram por lá mais pro fim dos 80.

Nessa época é que apareceu lá em casa um disco do Kraftwerk, que um dos meus irmãos descobriu não sei de onde. Eu simplesmente surtei com aquilo e andava como um robô pela casa, esticando braços e pernas e endurecendo joelhos, cotovelos e o pescoço que ganhara engrenagens.

Numa tarde daquelas, decidi que um grande amigo e vizinho, crédulo como ele só, ele teria que acreditar que eu realmente me transformara num robô. De cara ele não quis embarcar muito na minha narrativa, mas, pouco a pouco, fui convencendo a ele e saímos pra rua comigo caminhando ainda daquele jeito robótico. Os vizinhos adultos me olhavam com certa desconfiança e como eu não esmorecesse, o meu amigo por fim cedeu – em prantos – quando eu disse que logo à noite um OVNI vinha me buscar a adeus planeta Terra, adeus rua, adeus tudo..

É inacreditável, mas é a mais pura verdade. São todos fatos verídicos, inclusive eu ter me transformado em robô.. 🙂

Brincadeiras à parte, eu até hoje não entendi como esse amigo conseguia acreditar em mim, já que uma vez por semana eu era uma coisa diferente.. Outras vezes fui vampiro, lobisomem e outras coisas improváveis e ele sempre acreditou. Religiosamente. Quando enfim parei de representar, ele também parou de acreditar em mim. Tinha a convicção de que devia ser criança ainda um tempo mais, mas o meu tempo já havia se acabado. E assim foi que nos afastamos. Quando a primeira transformação de verdade aconteceu, mas só para mim..

EsqueletoEsqueleto

Na minha rua nunca se vê ninguém à janela. Só às vezes uma furtiva cabeça chega rápido e atravessa o limiar dos prédios para ver o que foi o barulho, a que se deve a grita. Se o caminhão do gás (gás raro e nobre, pelo valor absurdo), furto de qualquer coisa, colisão ou conflito de espécies. Mais raro ainda o corpo atravessa a porta e posta-se à calçada por estar ali: a vida é cada vez mais ir e vir e menos estar. A rua desempenha a função de trafegar os entes, só nunca se percebe que é um tanto viva também.

Da minha janela, entretanto, nesses dias vi deslocarem sonoramente a sua pele. Ruazinha estreita da Azenha que mal comporta uma mão única, mas se fez mão dupla certamente num decreto da prefeitura, não efeito da observação de criatura viva que se convencesse opticamente da impossibilidade. Mas, à distância, tudo é possível e simples. E assim decidiram atrolhar de carros e movimento a ruazinha que, num passado não muito distante, talvez não comportasse sequer duas carroças em sentido contrário. Agora tem suvs e caminhões espremendo com seu rugido as margens das calçadas e espantando o povo pra dentro de casa.

Sob a pele, o esqueleto de uma cidade empedrada ainda, mas asfaltada à força. “É pra andar mais rápido”, eu lembro-me do pai me explicando, criança, numa vinda à capital, muito tempo atrás e eu ficava fascinado que a gente andava no carro sem tremer inteiro por dentro graças ao deslize fácil da cobertura preta. Alguém me disse até que agora em novembro próximo se podia fritar um ovo ao meio-dia só quebrando a casca e depositando clara e gema sobre o asfalto. Nunca fiz nem vi a experiência, mas deve ser possível. O solado emborrachado dos tênis e sapatos gruda mesmo, parece um molho derretido entre o corpo do indivíduo e o chão da cidade, num prato sui generis mesmo: o homem urbano.

Retirada a pele, o esqueleto de que falava Quintana aparece como fratura exposta de um lugar que já não sossega muito, nunca está muito a passeio, que é devedor dos próprios deveres, e de um povo que às vezes parece nunca dever nada à cidade. Quase nunca. Só por cobrá-la do que muitas vezes também se prefere não lhe oferecer. De bom grado, Porto Alegre se entristece às vezes, e mais do que merecia. Mas não dói, quase não se nota sua dor, não grita ao descarnamento, à exposição. Sequer geme.

Será essa a “dor infinita” de que falava o poeta? Tem quem hoje recuse Quintana como o grande poeta da cidade também. O “velho bobo”. Mas que desaforo! Tem que ser muito poeta pra ouvir um lamento desses. Vista do alto, do meu terceiro andar, Porto Alegre faz bem em não doer mesmo. Finge bem a cidade como uma velha mãe desiste de queixar-se pra não fustigar os filhos..

Em casa de respeito não se entra pela janelaEm casa de respeito não se entra pela janela

Nem que eu quisesse podia entrar na casa da minha avó pela janela. A bem da verdade, sempre faltaram-me pernas para isso e uma repreensão silenciosa da minha mãe fazia com que eu rapidamente entendesse que era bom que ali eu suspendesse as molecagens. Estávamos indo na casa da vó e era bom para a minha saúde que eu me comportasse. Tivesse modos, como ela dizia.

Ao invés disso, eu deveria percorrer passo a passo os corredores do prédio de poucos andares até chegar, quase ao fundo do corredor, à porta que separava o mundo da cidade daquele mundo privado onde viviam meus avós e sempre tinha alguém de passagem ou visita.

A casa da minha avó sempre foi uma casa de visitas e, a despeito da sala espaçosa, nós, seus familiares, preferíamos ficar no quarto do casal. Lá, eu tinha a impressão (ou certeza) de que era um lugar onde o frio jamais poderia entrar. Era como se a temperatura ideal fosse combinada previamente com alguma divindade meteorológica que mantinha a salvo do vento Minuano o ambiente que mais frequentávamos no apartamento de frente ensolarada onde eles viveram enquanto viveu o meu avô.

Depois de sua morte, a vó veio viver em Porto Alegre e o apartamento em que veio para morar com uma tia logo adquiriu aquela mesma propriedade térmica: nunca frio demais, nunca exageradamente quente. A verdade é que aquela condição partia dela mesma. Embora não fosse pessoa espalhafatosamente calorosa, a vó tinha uma energia e vitalidade realmente impressionantes. E essa vitalidade contagiava o ambiente.

De repente, do nada sinto uma saudade absurda de ser conduzido à casa da vó para visitar alguma tia que estivesse de passagem na cidade – o que significava também a oportunidade de reencontrar primos que moravam longe e via muito esporadicamente. Criança, no entanto, não me permitiam que fosse muito longe e desse modo eu ficava mesmo era “ao pé” da mãe, como um bezerro em cria, ouvindo a conversa dos adultos enquanto o solzinho cozinhava vagarosamente o ambiente ensolarado do quarto da vó sob o olhar econômico e silencioso do meu avô.

Às vezes, mandavam-me à padaria comprar alguma bolachinha (em algum outro lugar do mundo se diz “bolachinha”?) ou alguma coisa na mercearia da esquina. Naquelas tardes intermináveis em que o futebol da rua havia sido suspenso por liminar materna e, claro, sem celular nem wi-fi, tudo o que havia para fazer era ficar sabendo da vida social (às vezes particular) por comentários aleatórios que elas faziam enquanto tomavam o chimarrão com florzinha de macela e espocavam a crocância das bolachinhas que eu havia buscado. É ridículo falar em internet naquela época, mas assim quero dizer que estávamos sempre presentes no próprio corpo, algo que hoje é sempre duvidoso nas pessoas.

Quando a gente é levado pela mãe, entende que há uma hora que não há retorno possível para a vida normal e planejada. É como se a gente fosse guardado na bolsa dela e submetido à sua condução inclemente e suplícios tais como dar só uma passadinha “ali” e conversar um pouquinho só com não sei quem mais. É condição inescapável e indiscutível. Parece que a liberdade recém avistada na infância foi suspensa por uma autoridade intransponível e irrecorrível: autoridade de mãe.

Às vezes sinto uma saudade absurda (e contraditória) de quando a minha mãe pegava de minha mão e levava-me consigo para ir não sei aonde e depois passar o resto da tarde na vó. Íamos a pé, atravessando as ruas friorentas de Bagé, tão familiarmente estranhas agora.

Então é nostalgia que chama? Pode ser, mas eu penso então que essa nostalgia é das perdas de tempo mais interessantes que existem, porque ela permite justamente que se salve da passagem do tempo alguma coisa que não seja a escravidão momentânea, permanente, da atenção no que aparentemente vai se desfazendo sem parar e, principalmente, do que já parece irremediavelmente perdido.

Do que eu comento é outra coisa. É como um efeito vítreo que a luz solar deposita em tudo e que depois não se descola mais. Adere indefinidamente às coisas justamente por esse caráter indefinido e consolida-se, realmente, é na memória de cada um e de modo totalmente particular. Pode ser qualquer coisa e, na verdade, qualquer um pode evocar quando viu pela última vez essa película acomodando-se em lugares, cenas e imagens que, incrível, não são instagramáveis. Essa luminosidade está nas coisas, objetivamente, mas, subjetivamente, em quem as observa.

Nesses dias não é que eu quisesse melancolicamente estar onde seria impossível voltar a estar, mas como evitar me sentir eventualmente como se por um momento estivesse?