Poesia Nesta noite, neste mundo

Nesta noite, neste mundo

Alejandra Pizarnik (1936-1972)
trad. do espanhol

nesta noite, neste mundo
as palavras do sonho de infância de quem morreu
nunca são o que alguém deseja dizer
a língua materna esteriliza
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado por sua própria língua
que é o órgão da recriação
do reconhecimento
porém não o da ressurreição
nem o da negação
do meu horizonte de maldades e seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio –
apenas que o silêncio não existe

não
as palavras
não criam o amor
criam a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

nesta noite, neste mundo
é extraordinário o silêncio desta noite
o que acontece com a alma é que não se vê
o que acontece com a mente é que não se vê
o que passa com o espírito é que não se vê

de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
são recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura –
os corredores escuros
percorri a todos
oh! fica um pouco mais entre nós

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem ergue uma faca na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh! fica um pouco mais entre nós!

os resquícios das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
o que fizeste do dom do sexo?
oh! meus mortos
eu os engoli, me engasguei
não posso mais dominar

palavras abafam-se
tudo desliza
até a negra liquefação

e o cão da maldade
nesta noite, neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

eu digo
sabendo que não se trata disso
nunca se trata disso
oh! ajuda-me a escrever o poema mais prescindível
o que não sirva nem para
ser imprestável
ajuda-me a escrever palavras
nesta noite, neste mundo

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Jennifer Franklin
trad. do inglês

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se deslocaria para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos se tornaria
tão precário quanto o dela e escapariam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico em silêncio.
Com o sorriso dela cauterizando-me, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta

Que ela guarda suavemente, sem rasgar as pétalas, como faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela enrola-se em mim para eu niná-la –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro nessa mesma posição
em que estamos. Eles foram enterrados de maneira incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós no último suspiro,

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

Um pedidoUm pedido

Passos acima
o reino perfeito do amor
dorme um sono de séculos
de que não pode acordar.

Ao subir, desistira
de um regresso, e o retorno
impossível à cúpula
revela ainda mais dor.

Aqui, a indiferente natureza
prossegue frutificando
pasmos sempre novos
a novos olhos ferrugentos.

A relva na relva, o mar
no mar, tudo se recolhe
noite após noite
ante a noite replicada.

Cores copiosas do crepúsculo
vazam sua cor de clara de ovo.
A desafortunada visão
sequer percebe a si mesma.

*

Há uma mão pendurada
em silêncio que não alcança
nada a ninguém
em mais um gesto irrefletido.

Melhor que não visses
ao espelho quem foste,
quem viste, o que amaste
e o que dizes..

Mas uma centelha me pedes
desta rigorosa ambiguidade.
Eu digo: não sei.. Se digo,
é a intimação de um pedido..

Quando vais, me ausentas
do teu ser e estar
miraculoso. Como, sem tua
voz, me sustento?

Colocaste o pé sobre o meu.
Me acordaste. Do mais profundo
dos sonos, vieste. Se não sabes
quem és, não importa.. Vieste,
apenas. E então me causaste.