E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Poesia Nesta noite, neste mundo

Nesta noite, neste mundo

Alejandra Pizarnik (1936-1972)
trad. do espanhol

nesta noite, neste mundo
as palavras do sonho de infância de quem morreu
nunca são o que alguém deseja dizer
a língua materna esteriliza
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado por sua própria língua
que é o órgão da recriação
do reconhecimento
porém não o da ressurreição
nem o da negação
do meu horizonte de maldades e seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio –
apenas que o silêncio não existe

não
as palavras
não criam o amor
criam a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

nesta noite, neste mundo
é extraordinário o silêncio desta noite
o que acontece com a alma é que não se vê
o que acontece com a mente é que não se vê
o que passa com o espírito é que não se vê

de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
são recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura –
os corredores escuros
percorri a todos
oh! fica um pouco mais entre nós

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem ergue uma faca na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh! fica um pouco mais entre nós!

os resquícios das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
o que fizeste do dom do sexo?
oh! meus mortos
eu os engoli, me engasguei
não posso mais dominar

palavras abafam-se
tudo desliza
até a negra liquefação

e o cão da maldade
nesta noite, neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

eu digo
sabendo que não se trata disso
nunca se trata disso
oh! ajuda-me a escrever o poema mais prescindível
o que não sirva nem para
ser imprestável
ajuda-me a escrever palavras
nesta noite, neste mundo

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Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Eu já me perdi de mim mesmo.

Às vezes, tomo as lembranças entre as mãos, com carinho, e busco a infância distante, onde ficaram minha fé e minha força. Eu as vejo ainda lá, detrás de uma intransponível transparência no tempo mostrando com desprezo minha impropriedade de agora e mais admiro a chama tremeluzente de sua firmeza.

Perdi-me de mim mesmo quando mais fundo me busquei, como se a força de viver houvesse morrido.

Levo meus braços a frente e o que há é um sem fim. Como alcançar?

Espero.

Uma voz maior me dirá: Vem!

E, a partir daí, caminharei com tudo revelado, de joelhos, num campo de feridas, carregando na garganta o travo da vitória.

O fim dessa dor será antecipado pela foice dos meus passos, como uma saudação do trigo ante a segadora.

Perdi-me de mim mesmo e espero.

Senhor, eu tenho os braços estendidos…

O homem sofre a sua vergonha na minha carne.

As palavras hostis e as ofensas me parecem a verdadeira fortuna.

A culpa de cada um é de nós todos. Por que não sofrê-la? Preciso aprender:
a resistência à dor que tuas mãos me impõem;
serenidade intransponível ante a quem me ultraja.

E, melhor que julgar aos demais, limpar-me das próprias imundícies.

Se tenho ao alto as mãos, quanto mais baixo meu gesto aconteça, que ele então seja esquecido.

[Fé. In: Poemas místicos. 200 exemplares publicados por Adelina del Carril de Guiraldes. Buenos Aires, 1928.]

Contra a luzContra a luz

Às vezes, sem o que pensar, procuro imaginar se ao longo da vida conhecerei todos os seus olhos..

Os olhos da tarde, que esperam milagres, incrédulos e entregues. No crepúsculo, o horizonte transformando-se pouco a pouco em passado e memória.

Ao anoitecer, infiltram-se em mim como se atravessa uma tenda. Mas, quando é noite alta, voltam a fechar-se. Parecem saber de tudo, mas tudo lhes é revelado outra vez para que repousem, ainda mais tarde, como estrelas destapadas do céu..

Passará muito tempo, e a vida continuará a mesma. Mas já passou tempo demais, e a vida dói por isso.

Outra vez amanhece. As abelhas bebem o néctar na borda das taças e os dragões dissiparam-se no voo — não há sombras contra o sol.

No mundo, há o que é certo, há o que deve ser e o que não se pode devassar: olhos erguidos contra a luz da manhã, os ramos de avenca, o torso nas mãos..

Ao meio dia, as maxilas destroem um naco de pão e a carne recolhida das brasas.

E, depois, serão vistos à distância no que anseiam e no que lhes impede. Passa ainda mais tempo e sua atenção é reclamada. Assim é todo o dia.

Mais tarde, é hora de voltar ao ermo silencioso, ao que não precisa ser visto, ao tão bem apreendido.

Mas não há regresso desde que fomos enredados.

Apenas mantém-se a consciência de viver nestas mesmas almas, mas desde então em corpos trocados.