Não se discute

Tem duas situações específicas que me deixam p da vida com Jorge Luis Borges. Nenhuma delas diz respeito a ele mesmo, mas ao que dele fizeram e continuam a fazer.

A primeira delas é uma tradução deturpada de um poema seu, o “Poema de los dones”, no qual ele narra o drama da perda da visão num dos períodos da vida em que trabalhou na Biblioteca Nacional da Argentina.

Nesses tempos de “objetificação bibliófila”, quando a exposição do objeto livro vale pelo menos o triplo do seu conteúdo – seguidamente me aparece uma tradução capciosa de Borges, na qual ele teria dito que “o paraíso é uma forma de livraria”. Uma homenagem ao estabelecimento comercial que Borges, com efeito, nunca produziu, porque o original de seus versos, no “Poema de los dones“, diz apenas o seguinte: “Lento en mi sombra, la penumbra hueca / exploro con el báculo indeciso, / yo, que me figuraba el Paraíso / bajo la especie de una biblioteca.”

De que forma “biblioteca” passou a ser “livraria” nessa versão muito difundida pela internet eu não consigo explicar. Se Borges tivesse utilizado “librería” ainda vá lá, mas “biblioteca” traduz-se para “biblioteca” do espanhol ao português. Dirão que é preciosismo meu e que são quase sinônimos e que o sentido não se altera.

Como assim não se altera?

De uma instituição pública e não comercial a uma outra inteiramente mercantil há uma diferença abissal. Além do mais, neste poema Borges comenta da crescente cegueira que o acometia no período em que atuara como bibliotecário e depois como diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. Desta forma, se ao menos o poema se referisse a uma improvável experiência dele como livreiro ou vendedor de livros, acho que seria mais aceitável a deturpação. Como essa passagem biográfica efetivamente não confere com a realidade, não se justifica o uso. E o mais curioso (mas pouco engraçado) é que através do Google, Vossa Quintessência da era digital, prospera muito mais a versão deturpada da citação do que a correta. A bem dizer, curioso mesmo seria caso se desse o contrário..

Acho essa deturpação muito grave e triste para os bibliotecários de um modo geral, que assim veem surrupiado (não me ocorre outro termo) o seu direito a reivindicar o coleguismo e patronato do caríssimo Jorge. É como se os futebolistas não pudessem mais falar em Pelé, por exemplo, mas apenas num vendedor de chuteiras. Ou Maradona, a fim de que não se entre na querela geopolítica que anima as nações vizinhas.

Mas é da vida e ela, como se sabe bem, nem sempre é justa.

De todo o modo, toda a cultura livresca gosta muito de se referir a Borges e sua devoção ao hábito da leitura. É como se fosse um patrono universal do livro, reconhecimento supremo para um escritor. E justíssimo no caso dele, diga-se de passagem. No Brasil, entretanto, o objeto livro é informalmente patronado por Monteiro Lobato. O escritor, cuja obra (e biografia) hoje está envolvida em polêmicas raciais, além de editor (foi co-fundador da Brasiliense com Caio Prado Júnior e outros), transformou em pontos livreiros cada casa de comércio interior do Brasil adentro, entre farmácias e padarias, chegando a 2.000 pontos de venda – número hoje muito provavelmente inexistente… Mas temos o Google aí, que sempre serve para alguma coisa.

Assim como Lobato, Borges também é eventualmente criticado – e duramente – por razões estranhas à literatura. No seu caso, por declarado conservadorismo e simpatia para com o governo militar argentino. Posicionamentos condenáveis quanto a política e momentos políticos evidentemente não são privilégios de conservadores, mas, pelo menos aqui nesse texto despretensioso, não fazem diferença e não têm interesse algum. Os objetos de minha encrenca com Borges aqui são outros e o segundo deles diz respeito à certa apropriação indébita que explico melhor a seguir.

Bem, se estivesse conhecendo-o agora, julgaria que Jorge Luis Borges fosse porto-alegrense. Logo ele, que tão pouco se preocupou com os assuntos dos vizinhos de cá do Rio da Prata. É sério isso. Às vezes me parece que nem os buenairenses têm tanta devoção a Jorge Luis Borges quanto os porto-alegrenses. Eu classifico a “coisa” como obsessão. Não encontro termo melhor.

Nada contra, em absoluto, à relevância literária de Borges, mas às vezes tanta citação e reverência me parecem revelar certo desejo inconfesso dos gaúchos imaginarem-se platinos e em imaginarem Porto Alegre como um prolongamento fantasioso de Buenos Aires. Também classifico a isso como obsessão. E repito, nada disso é contra Borges nem muito menos contra Buenos Aires, mas às vezes acho muito deslocado (para não dizer afetado) encontrar na população riograndense de um modo geral identificação tão plena e rápida com Borges. E Porto Alegre, bem, procurando ser justo com a prata da casa, creio que não necessita tanto assim desse frenético platinismo.

Por mais que considere incomparáveis a obra de um e de outro, acho que Porto Alegre ainda deve muito a sua própria caracterização e identidade a Mario Quintana, que dedicou à cidade versos de autêntico carinho e inspiração peculiares. Mas Quintana, assim como nunca foi bom o bastante para a Academia Brasileira de Letras, parece ainda hoje não ser uma referência suficientemente boa para os próprios porto-alegrenses. E olha que o homem escreveu “O Mapa”..

Não basta. Na síndrome de vira-latismo porto-alegrense, quaisquer valores locais são menosprezados diante do menor efeito blasé vindo do exterior, nem que seja logo ali do Mampituba. Isso acontece com Quintana, com Érico e até com o seu filho Luis Fernando, cronista ímpar e inigualável da literatura brasileira. Todos “superados”. Às vezes desconfio, aliás, que um escritor gaúcho é superado desde antes de começar a escrever. E o mais estranho de tudo, por seus próprios pares e críticos… Mas a Argentina, ah a Argentina… Tem Cortazar, Saer, Sábato, Arlt, Piglia e mais um monte de escritores colossais. E, ainda por cima, Borges.

Dito isso, deveríamos os gaúchos deitarmo-nos ao chão e esperar a passagem triunfal dos hermanos sobre as nossas cabeças medíocres. O povo daqui, se ouvisse o ruído dos crânios partindo-se, decerto não faria nada e citaria como exemplo de autor o velho Borges, num masoquismo muito particular e nosso. Principalmente isso: nosso.

Humildade, aliás, é exatamente a segunda razão que me faz ficar p com Jorge Luis Borges. Por mais glorioso e valoroso que seja, quanto a livros e bibliotecas e talvez postura de vida, me identifico muito mais com o “simplório” Quintana. Acho magnífica essa foto dele, sentado anônimo em uma de mesas da Biblioteca Pública do Estado, lendo tão absortamente quanto perfeito pode ser o gesto da leitura: íntimo, silencioso e discreto.

Quanto a Borges, há inúmeras e majestosas imagens suas na Biblioteca Nacional da Argentina, como esta que uni arbitrariamente a de Quintana. Mas é esse o ponto a que queria chegar: me enraivece Borges não por ele mesmo, nunca isso me passou pela cabeça, mas me irrita a reverência excessiva com que os gaúchos muitas vezes lhe tratam, quando é apenas mais um entre os escritores e que provavelmente não daria a menor importância à importância que por aqui lhe dão. E além do mais, não se trata de admirá-lo como gaúcho fosse, mas como argentino que é, no que isso é bom e mau.

Os gaúchos, portanto, não Borges, me fazem muitas vezes cansar de (e por) Borges e às vezes preferir a ele qualquer quadrinha infantil do Mário Quintana, numa comparação ridícula porque ridícula é toda essa veneração. Mas Borges é inocente de ambas as culpas que ele não têm e mal lhe atribuo, eu sei. Mesmo assim, na ausência de qualquer melhor argumento e na presença de uma comparação esdrúxula como essa, Quintana era muito mais simpático e quanto a isso não se discute.

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Entre outras milEntre outras mil

Não sei se por culpa da aceleração de tudo, da pressa ou do que mais, mas eu tenho tido nos últimos tempos cada vez mais dificuldade para me concentrar na ficção. Ficção de um modo geral, mas especialmente novelas e romances. Já venho assim há uns anos: deixo para o fim do ano, para os meses de verão, a leitura de prosa longa. Durante o ano, prefiro ler não-ficção (cabe bastante coisa aí nessa gaveta) e poesia.

No fim do ano passado, entretanto, pouco antes do Natal e logo depois do Ano-Novo, nesse intervalo, eu li de enfiada uns quantos livros de ficção que não me causaram aquele desvio mental que essa esse tipo de leitura vinha me proporcionando. Quer dizer, pude me concentrar com muito mais facilidade. Vão me chamar de bairrista, eu não me importo, mas todos eram de autores gaúchos. Em função e em razão da Sepé, eu procurei ler os autores e poetas daqui que eu não conhecia ainda e outros que conhecia e que haviam publicado recentemente.

A pilha ainda não acabou, mas já encontrei vários livros muito bons. De alguns já comentei por aí, de outros ainda não. Mas hoje eu queria comentar a respeito de um o qual especialmente gostei muito. É o Entre outras mil, da Rochele Bagatini e publicado pela Diadorim, editora daqui de Porto Alegre.

Antes de qualquer coisa, eu digo que não faria isso se não tivesse gostado mesmo do livro. Se não tivesse gostado, não teria inclusive lido até o final. Teria o Entre outras mil ido parar literalmente entre os outros mil inacabados que referi acima. Eu sei que há leitores que têm paciência para encantar-se com um livro lá pela página 139. Não é o meu caso. Isso se aplica – para mim – tanto para autores iniciantes quanto para consagrados. Eu estimo que esse meu comportamento seja muito mais adotado que assumido, mas não vejo problema nenhum em admiti-lo e isso também não cria em mim uma regra. Há autores cuja narrativa exige um tempo maior para que a gente se acostume por uma exigência estilística, um contexto cultural específico ou coisa assim. Não é de livros assim a que me refiro, mas daqueles que enroscam o leitor na tentativa de aprisioná-lo e acabam sufocando-o.

Entre outras mil passa longíssimo dessa situação e isso eu pude ver nele logo ao ler suas duas primeiras páginas. Em primeiro lugar, a novela me pegou pela maciez da prosa e pela objetividade narrativa. Entenda-se bem que, para mim, maciez não é o mesmo que melosidade. Tem mais a ver com a prosódia mesmo, com o modo de dizer e de projetar na mente do leitor a voz das personagens. Pode-se trocar o termo por “fluidez” também, mas eu prefiro “maciez” porque é também a qualidade de um texto que não se vale de tombos, golpes bruscos ou efeitos assim. Nada disso. Trata-se de uma prosa que dispensa airbags e não sacrifica a suspensão do leitor.

E essa metáfora mecânica, automobilística, ou melhor, a sua falta é justamente uma das características que muitas vezes me tem feito abandonar uma novela ou romance. Trafegar cento e tantas páginas aos solavancos exige do leitor muito mais do que paciência. Exige um kit de primeiros socorros com direito a calmante ou estimulante, a depender.

A segunda característica que me ganhou em Entre outras mil foi a objetividade narrativa que a autora maneja com muita maturidade. Não é lá muito bom que a gente saiba do que trate todo um romance para gostar do livro, mas a identificação de um contexto, de um enredo, principalmente quando não se está num projeto psicológico e introspectivo, parece ser cada vez mais dispensável na prosa contemporânea. Sabe aquela sensação de estar por horas a fio navegando na bruma da imprecisão (e aos solavancos sintáticos)? Em Entre outras mil a gente não sente isso e o resultado dessa combinação não é outro que um texto agradável, fluido e nem por isso frio, dado que a narradora é inteligente e observadora: uma mulher em busca de resolver dramas familiares complexos vivendo o que deverá marcar a transição para a sua vida adulta.

Além disso, há um enredo muito rico no qual personagens não são casuais, mas indispensáveis à construção da personalidade da protagonista/narradora e um panorama da condição feminina na história recente, marcada sobretudo pela presença da telenovela como fonte mediadora das mentalidades. Raquel, a protagonista de Entre outras mil, é uma personagem que vem do interior para disputar na capital do Rio Grande do Sul a emancipação de um passado no qual o fantasma do abandono familiar a revisita provocando-a a questionar-se (e muito) em relação as suas próprias expectativas de vida. Não sei se pode dizer que é um romance de formação porque ali não está a formação uma escritora, mas alguém que ambiciona a carreira de juíza. Então talvez se pudesse dizer um romance formativo. Formativo e muito fecundo para um lançamento de uma autora que se diferencia bastante e positivamente de um contexto de livros de ficção um tanto apáticos como os que marcaram as primeiras décadas da novelística rio-grandense deste novo século. A determinação e inteligência da jovem Raquel garantem ao livro uma prosa vigorosa, de uma autora também vigorosa como sempre estamos precisando muito.

Hors-concoursHors-concours

Artigo publicado na Revista Parêntese, de 20/08/2020.

Mal chegou agosto e já tenho escolhido o meu livro do ano. Meu livro não foi escolhido nem por algoritmos e nem por recomendação de terceiros, nada disso. Ele que me descobriu num dia de trabalho e foi-me apresentado não por seu autor, mas pela mãe dele. Antes que pensem que é cedo demais para uma afirmação dessas, eu garanto que não é. E, se me acompanharem, entenderão o porquê de eu afirmar isso de forma tão categórica.

A julgar pela capa e pelo titulo, A angústia de uma alma, qualquer um imaginaria de imediato um livro religioso ou doutrinário, mas não é disso que se trata. De autoria de um certo Mike Lorry Loudney Joseph, o livro se apresentou a mim de uma forma irrecusável. Eu não conheço o Mike pessoalmente (pelo menos ainda não), mas conheço a mãe dele, que é também é sua maior entusiasta e mercadora. Ela trabalha numa empresa terceirizada que presta serviços à instituição na qual eu trabalho. É uma “colaboradora”, como agora se convencionou chamar – este que é mais um dos eufemismos pós-capitalistas já normalizados no mundo – as pessoas empregadas em serviços terceirizados.

O livro do Mike é muito triste. Triste como a história dos haitianos que emigraram para o Brasil nos últimos anos. Formalmente, não é um livro impecável, mas quase não se nota isso à leitura de um poema que trata de uma prima sua que perdeu a vida num naufrágio, de outro a respeito de um amigo também afogado e, sobretudo, das ruínas de um lugar do qual se quer fugir a todo o custo e da esperança que um outro lugar que damos também como em ruínas – o Brasil – pode encerrar para um garoto de 18 anos de idade.

O Mike viveu o terremoto que atingiu quase em cheio a capital Porto Príncipe no ano de 2010. Separado da família, somente foi reencontrar-se com ela em 2017, quando veio tentar a vida em Porto Alegre. Eu não imagino qual foi a tiragem do seu livro, certamente é bastante restrita, mas tenho certeza que seria sempre pequena, mínima, em relação ao impacto de um livro de um autor que precocemente encontrou a experiência da devastação, do desterro e da morte desde o início de sua vida.

Proporcionalmente ao seu volume, o livro não saiu barato. São cerca de 40 páginas e com o valor que paguei poderia comprar com tranquilidade um pocket-book da L&PM ou da Companhia das Letras, mas acontece que o livro do Mike conta com as suas pernas e as da sua mãe para ganhar a rua e os leitores que entendem da importância e da dignidade de um livro como o dele. Vale cada centavo.

Além de ser tocante por si só, o livro me induz a pensar que a história do livro e da leitura é muito maior que a história do comércio de livros. A bem da verdade, deveria separar-se as duas coisas, mas como isso seria possível num sistema, como diria Walter Benjamin, hipertrofiado? Ou seria exagero usar desse termo para descrever-se uma indústria livreira que, no Brasil, destina milhões de exemplares anualmente à indústria de picotagem e ao final menos honroso que o papel poderia ter em seu nem tão longo ciclo industrial?

Por duro que seja admitir, a indústria do livro tem mais semelhança hoje com a indústria petroquímica do que com a cultural. Para ela, não há problemas na produção de excedentes de milhões de exemplares quando o preço de capa dos lançamentos paga por tudo isso, mesmo que por conta disso Cervantes ou Shakespeare acabem transformando-se em aparas e não cheguem jamais às bibliotecas públicas e escolares do país, despidos definitivamente de sua “aura”.

Não é um escândalo. Há anos, aliás, sabe-se muito bem disso por meio das pesquisas encomendadas pela Câmara Brasileira do Livro e Sindicato Nacional dos Editores de Livros e que vinham sendo desenvolvidas anualmente pela Fipe. Neste ano, coube a Nielsen Book atestar a estabilidade destes números e o encolhimento de 20% do setor em quinze anos.

Quando a Cosac Naify anunciou que seus excedentes teriam esse mesmo destino, em 2016, o meio cultural esboçou um grande lamento. Mas quem salvou os livros caprichados de Charles Cosac e vendeu todos os exemplares foi a temível Amazon (de acordo com as pesquisas, responsável por 3% de vendas no mercado nacional) com sua política de preços imbatível. Hoje, não há mais nem um exemplar à venda dos livros cujo destino seria virar rolos de papel Neve, a não ser em sebos nos quais chegam a valer até 5 vezes o seu valor de capa original.

No começo deste ano, foi noticiado que apenas o MEC poderia se desfazer de 3 milhões de exemplares intactos, num gasto estimado de R$ 20,3 milhões. Não parece ser uma grande tragédia, já que cíclica. A pujança brasileira, ou a ilusão de sua sustentabilidade, há de dar conta desse desbalanço comercial que se verifica entre produtores, preços e consumidores. Tudo é muito triste e revoltante e me dá a sensação de afogamento em livros.

Bem mesmo quem fez talvez tenha sido o Tyrteu Rocha Viana, poeta modernista rio-grandense, que, na primeira metade do séc. XX, obrigado a uma tiragem de 1.000 exemplares, pagou por todos e mandou imprimir apenas uma dezena deles para distribuir a quem acreditava que realmente o leria. Ou então a mãe do Mike e ele mesmo, decididos que estão a bater perna até vender o último dos exemplares de A angústia de uma alma.

Impecável pela modéstia, Mike é o poeta que, tendo vivido isso tudo, afirma apenas “não sou herói / sou apenas a vitima do destino”. Destino, aliás, é das palavras que mais aparecem nos seus poemas, como se ele desejasse muito sobrepujar a sua vontade. O livro do Mike é mesmo um livro inconformado com o destino e que não pretende calar sozinho com a sua angústia. “Alguém para ouvir o meu grito de desesperança?”, ele indaga. O livro dele é dos que certamente não vai se conformar em virar aparas, num destino trágico, porque não é um livro de um sobrevivente, mas um livro hors-concours, de sobrevivência.

O “Ponto-final” de Marcos NobreO “Ponto-final” de Marcos Nobre

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 27/06/2020.

Parte integrante da recém-lançada Coleção 2020 – Ensaios sobre a pandemia, da editora Todavia, o mais recente ensaio de Marcos Nobre, Ponto-final: a guerra de Bolsonaro contra a democracia, é um livreto extraído a quente do momento político brasileiro atual. O autor, que além de professor do Departamento de Filosofia da Unicamp assumiu no ano passado a presidência do cinquentenário Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), é um pensador que, pelo menos desde junho de 2013, vem fazendo a análise política institucional brasileira quase sempre ao tempo dos fatos. Essa característica, se por um lado o torna um tanto quanto vulnerável a precipitações, por outro o coloca na vanguarda do pensamento brasileiro conforme ele se expressa na vida política e intelectual da sociedade. O risco invariavelmente tem valido a pena. São de sua autoria boa parte das análises mais consistentes da política nacional desde aquele junho até o atual, intervalo no qual o cenário de forças e influências transfigurou-se na história recente até chegar à eleição de Bolsonaro em 2018 e a primeira crise política relevante do seu governo, agora em 2020, em meio à pandemia do coronavírus.

Ponto-final parte, portanto, do presente em direção ao passado e também a algumas especulações a respeito de tendências futuras de um governo marcado por auto polêmicas. Num livro breve, de leitura rápida, seu autor procura traçar a rota de racionalidade na qual vem se movendo o presidente, o seu governo e a coalizão de forças que, com a saída do ministro Sérgio Moro, agora parece fraquejar nas suas principais promessas, quais sejam o enfrentamento à corrupção e o afastamento de grupos e figuras políticas que o próprio presidente costumava classificar como pertencentes à “velha política”. Além disso, Nobre examina as características funcionais do governo em sua dinâmica interna, propondo que o governo Bolsonaro seja analisado desde a sua própria concepção e funcionamento. Nisso também ele se distingue de boa parte da crítica que se faz ao governo atual na imprensa e no mundo acadêmico, dado que se trata de uma perspectiva que implica todos os atores políticos num mesmo cenário e não externaliza uma visão sectária.

De deputado do baixo-clero a candidato outsider e daí a presidente da República, para Marcos Nobre a trajetória do presidente Bolsonaro está intimamente relacionada à crise do presidencialismo de coalizão que governou o Brasil a partir do centro político desde a instauração da Nova República, representado principalmente no MDB de José Sarney. Precisamente em 2013, véspera da eleição presidencial que reconduziu Dilma Rousseff ao poder, de acordo com ele o sistema político colapsava e acenou insegurança em responder às demandas desuniformes da população passando a agir de forma autofágica justamente quando o enfraquecido PT governava o país e podia ser sacrificado pelo sistema político em prol da salvação de grupos que não viam problema nisso, desde que salvassem a própria pele no processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Situado à margem do processo de instauração do impeachment e afastado do centrismo destroçado pela Lava-Jato, Bolsonaro teria, de acordo com Nobre, aproveitado a dissolução do sistema para reunir em torno da sua candidatura setores também marginais e descontentes com o projeto de coalizão do governo petista. Dessa forma, com o apoio de classes subalternizadas na máquina pública, como militares de baixa patente, pequenos empresários, agricultores e, sobretudo, o baixo clero do Congresso, ele teria finalmente saído vencedor nesse levante contra o sistema político. Nobre diz ainda que estes setores representariam a parcela inarredável de apoio com que o presidente Bolsonaro vem se mantendo principalmente após a crise ministerial e o abalo da chegada do coronavírus ao país e a respectiva crise sanitária.

Tendo vencido o candidato “improvável”, na eleição mais caótica que o país poderia ter, de acordo com Marcos Nobre o presidente Bolsonaro jamais teve interesse em apaziguar o país – o que seria quase o mesmo que acariciar o arranjo contra o qual foi eleito. Mesmo em meio à pandemia, quando seria razoável manter-se uma equipe estável e um projeto de contenção sanitária, a desestabilização institucional continuou sendo o regime ao lado de uma crescente militarização do executivo expressando o desejo de implementação de uma hierarquização cada vez mais vertical na estrutura do Estado. No terremoto constante do seu governo, apenas as figuras incontestavelmente identificadas com essa postura poderiam guarnecer o presidente. Nesse sentido, a demissão dos ministros Sérgio Moro e de Luiz Henrique Mandetta representariam muito mais o descarte de ameaças à integridade do governo do que a popularidade do presidente, como foi aqui e ali aventado.

Assentado no que denomina ser um “governo de guerra”, Marcos Nobre defende a ideia de que a governabilidade de Bolsonaro está calcada na manutenção de um estado de beligerância constante, o que ele chama de “método do caos”. A ideia consistiria na geração incessante de conteúdo ideológico e na permanente desqualificação da esfera pública, na qual a imprensa apareceria como adversário central ao seu projeto de governo. Além disso, a crise da pandemia ao tempo em que teria desgastado sua gestão militarizada da coisa púbica acabou por fortalecer a figura de um personagem político em luta eterna contra o sistema e o aparelho jurídico representado principalmente no STF. Em sua recente guinada em direção ao centrão do Congresso Nacional, elemento central de detratação de sua campanha eleitoral, o presidente administra agora uma parceria insólita com figuras como Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto, desagradando o setor militar e tornando mais nebulosa a retomada da normalidade, que dirá o “novo-normal” necessário à superação da crise sanitária e econômica.

Concorde-se mais ou menos com suas avaliações, de qualquer forma é muito relevante que as análises políticas, tais como as propostas por essa coleção da Todavia, venham a púbico neste momento e sirvam ao propósito de fermentar o debate público, muitas vezes nebuloso e deprimido. O que Marcos Nobre procura fazer, e que não se encontra tão facilmente entre analistas e comentaristas em geral, é pensar o Brasil para além da agenda na qual os políticos tentam forjá-lo (visando normalmente eleições). A tarefa requer um tanto de sangue frio. No entanto, poucas pessoas como ele têm essa frieza e não se deixam levar pela comoção ou por conveniências narrativas, selecionando apenas elementos de análise que o favoreçam. Se a sensatez caracterizasse o tempo presente, mesmo o governo e seus apoiadores poderiam refletir mais e melhor a respeito da forma de conduzir o Brasil o mais longe possível do precipício que 2020 parece estar se transformando.