A mulher submersa

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 05/09/2020.

Os livros costumam ter itinerários fora e dentro da casa de gente. Fabricam-se, viajam e um dia chegam aonde deveriam chegar. Depois, diligentes, ocupam o seu lugar nas mesas, cabeceiras e depois ainda vão dormir, às vezes mal acomodados, nas prateleiras, como um volume a mais entre volumes. No entanto há livros que nunca couberam nem em si e logo vão encontrando, em sua vocação líquida, uma forma de se esparramar tão logo desembarcam. Como um parente antigo que, de repente, decide-se por cumprir uma promessa antiga e em definitivo regressa. Há pouco veio “morar” na minha em casa um livro assim, de pessoa que nunca vi, mas vi desde o primeiro instante de “quem” se tratava.

A mulher submersa, primeiro livro de Marceli Becker (ou Mar Becker, como é mais conhecida) e publicado em São Paulo pela editora Urutau, vê-se logo que é livro de gente viva e que se reconhece tão instantaneamente como a alguém que estivesse fadado mesmo ao destino de se deixar compartilhar sem receios, numa poesia impraticada, singular, e ao mesmo tempo comum, tal fosse parte da nossa própria voz a dizer aquelas coisas, em nós mesmos já incorporadas. Pois esse livro antes de chegar para ocupar um espaço entre as coisas da casa, veio não para ser guardado em fileiras de outros livros dorminhocos, mas para dizer por tantos que já andaram e disseram nos dias e noites da nossa vida.

É mesmo um livro um tanto fantasmagórico esse. E, por isso, mágico. Dentro dele, uma poesia discreta e vigorosa deixa falar mais que uma pessoa, mais que um tempo, mais que um motivo só. E antevejo nele minha bisavó, também poeta, e seus poemas riscados com pedaços de hulha no imenso tempo que há numa vida. Numa daquelas fotografias dentro do livro, sei que ela está lá também, carcomida do tempo, como eu a conheci.

Boa parte das pessoas, gaúchos inclusive, pensa na cultura do Rio Grande do Sul como uma cultura formatada em temas perenes e paisagens iridescentes e aconchegantes. O horizonte púrpura, crepuscular, a madrugada fria. Pouco se vê dos pátios, dos lugarzinhos, das gavetas dos móveis, das peças de roupa, das asperezas e dos gestos de pessoas que, muito ao contrário da imagem falastrona, dizem pouco, às vezes até desistem de dizer e deixam-se viver como se numa ciência tácita do próprio destino – e suas coisas.

Marceli é uma poeta que faz disso tudo matéria poética e está além das fronteiras porque sua poesia alcança a intimidade essencial das pessoas seja quando evoca o erotismo de Safo e os temas ancestrais da humanidade e das referências clássicas, da paixão bíblica e o estranhamento do ser e do sentir, como se trouxesse consigo um tanto de paraíso e apocalipse em sua poesia definitiva, como bem definiu certa vez o também poeta e amigo comum José Francisco Botelho, por intermédio de quem a conheci e pelo que sou grato. O fato dele ser poeta também é algo que a seu tempo será revelado, pois consagrou-se como excelente contista, mas há rumores de que logo um livro de versos seus vem por aí também.

Elogiada no Brasil inteiro por estudiosos, diletantes e leitores, desde antes do lançamento de A mulher submersa Marceli é de uma transparência que a faz ainda mais autêntica e se pode enxergar instantaneamente uma poeta devotada à sua arte e a quem ela é, em sua identidade. É algo muito estranho acompanhar o seu perfil nas redes sociais e ver que um dia bem ela está mencionando Herberto Helder como cantores populares do sul. Gildo de Freitas, Jayme Caetano Braun, Pedro Ortaça e os músicos do Folklore 4, de Bagé, estão tão presentes na sua timeline como Antonio Gamoneda, Alejandra Pizarnik, Bashô e Jacques Roubaud. Com uma tranquilidade temperada e um humor semelhante, Marceli é uma excelente companhia (mesmo virtual) e eu recomendo muito segui-la tanto quanto lê-la. É impressionante mesmo que se trate da mesma pessoa na sua composição mais íntegra de simplicidade e complexidade. Talvez daí venha justamente o apodo “Mar”.

Gaúcha de Passo Fundo, Mar Becker revive uma sentimentalidade do sul, nada óbvia, e faz caber num detalhe doméstico qualquer a imensidão de seu olhar e seu afeto cultural.  Quase nunca se vê o tanto de desterro, de solidão e de reflexão que acompanha a poesia de quem se afasta do seu lugar de constituição e afeto original. Numa gaveta de sua casa, em São Paulo, Marceli encontra um conjunto de atavismos e memórias e imagens a quem ela dá vida como quem é capaz de encantar e transmitir esse encantamento em versos fluídos dos quais ela mesma se faz.

No Quebec ou nas estepes do Azerbaijão, os temas da poesia são os mesmos porque as pessoas são as mesmas em sua aventura. De um olhar atemporal, de quem se observa e reconhece suas faltas, amores, saudades, tristezas, alegrias, de tudo isso se preencheu a minha casa, casa da minha família, em razão deste A mulher submersa. Engraçado é que parece possível encontrá-la numa janela de Porto Alegre, das muitas que vejo desde a reclusão da pandemia. Prova de que a sua poesia viaja apesar de tudo e está também onde estamos e mal notamos. A poesia de Mar Becker tem também a poesia que nós somos e pouco lembramos. Agora, com o livro, tudo finalmente ficou mais fácil e simples, como é de seu modo de ser. O Rio Grande do Sul pode congratular-se sem medo do surgimento em livro de Mar Becker e dizer que ela é sua. Quem a leu, afinal, já notou que a verdade é que nós é que somos dela.

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Mariana Machado diante do mundoMariana Machado diante do mundo

Artigo publicado no Caderno DOC do jornal Zero Hora, 24/03/2023.

Junto aos demais nas prateleiras de uma livraria, numa tela da internet ou na coleção particular de alguém, um livro é sempre muito semelhante aos outros livros. Como se pode distinguir um de outro? Não é pela gramatura ou qualidade da celulose, certamente não, mas logo se intui que o peso de um livro reside mais na obra e no que dela é inerente do que no objeto e sua exterioridade. É por isso que todos conseguem atestar uma descompensação tanto no valor de venda quanto no valor intrínseco de objetos de aspecto tão semelhante. Semelhança apenas aparente, diga-se de passagem. Nem todo o livro é obra e quem o disse não fui eu, mas Jacques Derrida na sua Gramatologia. De fato, a diferença se dá à leitura e logo que se a inicie desencadeia-se um complexo processo analítico-comparativo.

É essa a balança que cada qual regula com sua experiência, preferências e disposição para a surpresa. Quando acontece, é como o tilintar das moedas de uma slot machine: já não se pode mais largar aquele livro único e inimitável.

Não foi por sorte que caiu em minhas mãos o novo livro da poeta gaúcha Mariana Machado. Eu a leio desde as suas primeiras publicações e sei que, portanto, este é um livro de uma carreira que em 2022 obteve com Cães e Astromélias (Mondrongo, 2021) o terceiro lugar no Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional. Agora, Mariana traz pela mesma editora um volume generoso de 250 páginas de sua poesia, com a publicação de Entre Mandalas, Espadas e uma Escada Caracol. Com o livro, o universo poético de Mariana ao mesmo tempo se arroja e densifica. Certamente, não pesaria mal em nenhuma boa livraria ou na prateleira de boa poesia de uma biblioteca.

Abertas as portas do universo expandindo do livro de Mariana, logo se parte ao encontro de uma recriação em versos do épico Sidarta, de Herman Hesse. Os 47 cantos do poema dão conta da busca por esclarecimento que o buda empreendeu a sós em sua bem conhecida jornada. Aqui, logo se pode ver que também Mariana empreende uma jornada em que se confronta consigo mesma e com o mundo numa tensão poética rara de se ver. E o esclarecimento de Sidarta, o que “quisera dar-se apaixonadamente a tudo”, e que cumpriu o destino por ele mesmo forjado e “deixou tudo para trás e foi-se embora”, não é senão a aprendizagem dos que se desapegam, nesse processo de decantação pelo qual também se transformam os poetas em poetas.

Ao recuperar os ecos antepassados das mulheres do Rio Grande do Sul ou ao combater e desvendar a densidade do mundo presente, Mariana combina sua voz mais coloquial com os recursos de uma excelente leitora de poesia. Isso se confirma ao conhecerem-se as traduções que ela também registra no livro e vão de Goethe a Jacques Prévert, alargando as margens do seu próprio universo ao universo de outros tantos poetas.

No poema A Lavadeira, a poeta rende a sua escuta poética às mulheres:

Quebrando a geada, pé por pé, no mato,
alta a trouxa de roupas – feito Atlas –,
pulando arames, chega à beira d’água
pra mergulhar os dedos, vê-los mortos
e desfazer na fibra seus caroços.

Sim, há mais escuta e um olhar acurado para a vida que um discurso em seus poemas. É uma escuta de memória e da trama dos motivos sutis da vida feminina, suas restrições históricas, desejos e ambições. Mas a poesia se dá apesar disso e quando se encontra com o que há de sublime no mínimo, vê-se também que a poeta nunca prescinde de sua integridade e dedica aos versos, além de técnica vigorosa e têmpera mental, a amorosidade áspera e táctil como é própria da dicção do sul. Livre do embaraço dialetal, a poesia de Mariana rebrilha de sua própria luz.

Mas é poesia que também se deixa notar no mais íntimo processo de maternidade e no encontro de uma plenitude inesperada entre o trivial e o religioso. Com um senso crítico por vezes cáustico, encara a própria rotina e a literatura desse tempo com o mesmo desembaraço com que se depara com as questões metafísicas da fé e de Deus. Seja com a leveza sintética do hai kai ou valendo-se da tradição das formas fixas, ela expande seu domínio do ofício sem que se encontre sequer uma repetição de motivos. Além de uma raridade, uma amostra de que este é um universo irrefreável. Vivendo em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, para nossa sorte o seu universo agora se torna acessível na forma de um livro que também é obra. Talvez por essa combinação pese bastante também na sua estante de livros.

Lugar da poesia no pensamento brasileiroLugar da poesia no pensamento brasileiro

O ensaio foi também publicado na revista Sísifo (13), jan./jun. 2021

Mesmo que soe sempre como um “a quem interessar possa” ou uma encoberta inclinação filosófica, é constante a presença mais ou menos declarada do que se definiu chamar metapoesia em boa parte da obra publicada pelos poetas brasileiros do séc. XX. Considerando que é uma expressão que se volta para si mesma, é de pensar que o interesse do público quanto aos processos intelectuais e estéticos dos poetas fosse bem menor que os motivos líricos mais corriqueiros e de interesse universal. Ainda assim, continuando uma tradição auto especulativa que rendeu poemas até hoje lembrados e interrompendo um tanto a fluência e dicção de extração mais coloquial, o espaço da poesia de caráter mais reflexivo – embora limitado – está garantido na história literária nacional por meio de seus maiores expoentes, tais como o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e os fluminenses Dante Milano (1899-1991) e o contemporâneo Paulo Henriques Britto.

Ao menos na poesia em língua portuguesa – em especial a realizada no Brasil – os exemplos não se encerram nestes nomes e abordam desde poemas tomados isoladamente como livros inteiros dedicados a pensar a metalinguagem empregada na poesia. São cada vez mais presentes, aliás, estudos que examinam as obras dos poetas em particular sob esse aspecto, como em Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Ferreira Gullar, entre muitos outros nomes. Fora isso, o interesse de muitos poetas brasileiros recentes (no limite, estou pensando do fim da Primeira Guerra Mundial em diante) voltou-se frequentemente a questões menos atinentes à metapoesia e ao ordinário cotidiano, dirigindo-se a outros aspectos de interesse da filosofia, tais como as relações do indivíduo com o mundo social em suas diferentes perspectivas, impactando diversamente a vida intelectual do país.

Para além de deslocar-se do etapismo por meio do qual muitas vezes se aborda a história literária, pode consistir num campo de estudos interessante a análise da contribuição da poesia na história do pensamento brasileiro e a verificação da inclinação dos poetas a refletirem tanto quanto a si mesmos como suas escolhas e intenções temáticas. Dado que o contato dos poetas com as ideias filosóficas do seu próprio tempo costuma ser muito presente, é possível que naquela poesia mais reflexiva tais ideias compareçam de uma forma mais explícita, contaminando sua produção de acordo com o seu contato com essas ideias e a sua permeabilidade subjetiva.

Desde que se esclareça que essa interferência ocorra de modo multilateral, ou seja, sem uma ordem de precedência ou influência, poderemos ver também que, a seu tempo, muitos poetas brasileiros introduziram questões filosóficas entre o público leitor brasileiro (e mesmo entre outros poetas e intelectuais). Isso pode ter ocorrido sobretudo em momentos nos quais pouco havia de realização e publicação nacional original em filosofia. Trata-se, portanto, de garantir que cada qual seja percebido conforme a sua perspectiva particular, numa amostra da elasticidade intencional nas relações possíveis entre poesia e filosofia realizada pelos diferentes poetas.

No decurso histórico, a necessidade de uma expressão poética mais reflexiva não parece ser distribuída igualmente, então sua visibilidade é proporcional tanto aos movimentos culturais globais quanto às problemáticas com as quais a sociedade precisa lidar e, principalmente, quanto à medida a qual poetas sentem-se tocados por essas questões. Tanto a distinção histórica quanto a diversidade cultural impactam as motivações criativas de modo muito particular. Enquanto para João Cabral de Melo Neto, por exemplo, a extrusão de uma poética intelectualmente rigorosa decorre de uma percepção mais preocupada com a expressividade do que com a subjetividade, a poesia de Dante Milano, por seu turno, é mais atenta aos processos mentais e metafísicos. Já Paulo Henriques Britto, poeta contemporâneo que traz em sua produção um forte componente autorreflexivo, debate-se com o esgotamento da lírica em substituição a outras formas, como a canção, e investe mais na investigação dos impactos da representação e dos limites da autoexpressão. Dessa forma, Britto retorna com mais vigor ao debate a respeito da criação poética do que parece importar aos seus contemporâneos, isso pelo menos quanto é possível verificar na produção contemporânea publicada em livros, em periódicos especializados e antologias, de acordo com debates realizados por estudiosos e interessados na mídia cultural. Todavia seria uma limitação sem sentido atribuir a ele esse interesse exclusivo, pois a sua poesia, principalmente a registrada em seu mais recente livro, Nenhum mistério, avança muito mais em direção ao que pode a poesia em relação ao pensamento subjetivo do que aos seus aspectos formais.

É importante que se diga que o interesse aqui não é proporcionar uma leitura comparada dos poetas, mas a verificação da autopercepção e seus impactos na subjetividade expressa na poesia brasileira recente, examinando a disposição de alguns poetas em investir mais na poesia de cunho reflexivo e seu impacto na história cultural e do pensamento. Tomando-se em conta as implicações históricas particulares que afetaram diversamente aos poetas ao longo de quase um século, é preciso não ser restritivo quanto ao distinto aporte cultural de cada um nem as suas preferências e influências filosóficas. De outro modo, considerar estas questões como naturais apenas pode garantir que não se esteja procurando qualquer espécie de nivelamento prévio.

Por tratar-se essencialmente de uma metalinguagem voltada ao próprio psiquismo, a metapoesia tem uma expressão diversa e dispersa em muitos poetas. Alguns terão escrito um verso dentre muitos manifestando o contexto do qual emerge sua expressão; outros registrarão poemas dedicados a discutir a sua criação quanto às questões históricas e estéticas; alguns ainda tratarão do tema em livros inteiros ou em comentários redigidos na forma de artigos e ensaios. Talvez fosse inocente demais considerar que os poetas não elaboram uma avaliação do que criam, mas o séc. XX e a emergência modernista no Brasil tornou muito evidente este debate entre poetas no que diz respeito a sua criação, também comparativamente. É possível imaginar que, muitas vezes, não se trata apenas da defesa de uma concepção estética individual, mas de um debate mais complexo no qual se podem antever as influências filosóficas que mais os atingem e a maneira como eles resolvem a intrincada relação que se estabelece na apreensão do mundo, das ideias que nele circulam e a forma final que tudo isso impacta a criação e os interesses subjetivos.

Encontrar-se evidências ou vestígios de metapoesia, portanto, às vezes significa a expressão de uma preocupação menos aleatória do que parece à primeira vista, pois constituinte do psiquismo e do processo criativo criação de cada poeta. Além disso, como os poetas costumam conhecer-se mutuamente e trocar impressões, muitas vezes acontece desse debate evidenciar-se entre contemporâneos ou em análises históricas, de poetas do passado. Quando um poeta como Manuel Bandeira escreve a sua “Poética” e afirma do que lhe interessa, está manifestando a sua impressão a respeito do que vinha sendo feito e suas preferências. “Estou farto do lirismo comedido”, disse ele para anos mais tarde rever a si próprio e “lançar a teoria do poeta sórdido”. E quando João Cabral de Melo Neto diz a Carlos Drummond de Andrade que “não há guarda-chuva/contra o poema” e este declara a Manuel Bandeira que “(…) a minha / musa de pescoço fraco / a ver-te, mete a violinha / no saco” e Bandeira, por sua vez, escreve um livro inteiro de Louvações a outros poetas, vê-se nitidamente que os poetas dialogavam por meio da poesia para além da eventual ou corriqueira correspondência, a depender da intensidade do laço de amizade. O hábito de Drummond em dedicar versos inclusive foi reunido pelo também poeta Eucanaã Ferraz no volume intitulado Versos de circunstância, publicado em 2011 pelo Instituto Moreira Salles. Quanto à obra de João Cabral Melo Neto, Antônio Secchin registrou nela a ocorrência de dedicatórias e menções em 13 dos seus 20 livros.

Também os seguintes versos são muito demonstrativos de que os grandes poetas brasileiros modernistas e os subsequentes ocuparam-se da autorreflexão e da metapoesia muitas vezes: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã.” – Carlos Drummond de Andrade; “O poema final ninguém escreverá.” – João Cabral de Melo Neto; “O poema deve ser como a nódoa no brim” – Manuel Bandeira; “Fere de leve a frase… E esquece…” – Mario Quintana; “Entendi que as palavras / daquele modo agrupadas / dispensavam as coisas sobre as quais versavam / meu próprio pai voltava indestrutível.” – Adélia Prado; “Densa / a palavra fere / o branco / expulsa a presença e – humana – é esplendor memória / e sangue.” – Orides Fontela.

Assim como seria inocente cogitar-se a ausência de reflexão dos poetas quanto a sua poesia, seria igualmente ingênua a suposição de que tenham se restringido a pensar apenas em si próprios. Caso fosse assim, aliás, como angariariam a simpatia dos leitores? Aí estão as coletâneas póstumas, de correspondência, artigos para a imprensa e ensaios que podem demonstrá-lo. Em relação à filosofia da composição, o desenvolvimento dos estudos acadêmicos propiciou inclusive que muitos poetas com formação em filosofia elaborassem ao mesmo tempo obra crítica e poética. No presente, os mais conhecidos no Brasil parecem ser Antonio Cícero, que tem dois livros abordando a intersecção/afastamento entre os campos filosófico e literário, e Alberto Pucheu, que, por sua vez, organizou um dos poucos livros recentes que abordam a congruência dos temas. Adélia Prado, embora tenha formação pela Faculdade de Filosofia de Divinópolis, ao que me consta não tem publicação teórica a respeito da poesia, a despeito de ser uma poeta que reivindica muito em seus poemas o lugar da reflexão metafísica e tenha algumas poucas vezes concedido entrevistas e realizado conferências a respeito de sua obra. Adélia é muito mais conhecida por poeta, no entanto, que por filósofa. Orides Fontela, que em 1983 foi premiada com o Jabuti de poesia por Alba, formou-se em filosofia pela Universidade de São Paulo e registrou num único ensaio a sua percepção quanto aos dois temas, afirmando que, em seu ideal, “poesia não é loucura nem ficção, mas um instrumento altamente válido para apreender o real” (FONTELA, 2018, p. 11). E provavelmente haja outros nomes não tão conhecidos ou menos evidentes que presentemente estudam filosofia e escrevem poesia de forma concomitante, uma vez que nem toda a poesia escrita é bem divulgada e difundida.

No exterior, são bastante conhecidos muitos filósofos que também foram aos versos para expressarem-se; ocorre-me rapidamente a alemã Hannah Arendt (cuja obra poética traduzida para o português parece estar finalmente avançando) e, um pouco mais remotamente, Miguel de Unamuno. Também seria possível buscar aqueles poetas cujas obras foram tomadas em algum momento como ponto de partida de estudos teórico-filosóficos, tais como Wallace Stevens, T. S. Eliot, Paul Celan, Robert Frost e outros – são os assim chamados philosophical poets. Especificamente Hannah Arendt interessa a esta argumentação porque, mais adiante, será possível verificar que ela discute em seu livro final, A vida do espírito, não apenas a origem e relevância da metáfora na constituição e organização do pensamento, mas também o tempo, elemento constantemente evocado na poesia de muitos poetas do modernismo brasileiro, como Cecília Meireles, Jorge de Lima e Mário Quintana.

Para além das preocupações autoexpressivas e metalinguísticas observáveis na poesia, as ideias filosóficas, por outro lado, muitas vezes nela diluem-se em temáticas e abordagens tão diferenciadas quanto são as vozes poéticas. As inflexões filosóficas e reflexivas ocorrem, por essa razão, de forma assistemática e essencialmente desigual, com algumas poéticas mais atentas ao mundo externo e outras ao mundo interno, mas num movimento desuniforme. Além da reflexão sobre a poesia e o ato de escrevê-la, poetas de todas as épocas têm induzido por meio de suas obras as pessoas à reflexão. De uma forma religiosa ou profana, sob o rigor formal ou por meio do verso livre, não importa, o poema “altera” o mundo sem alterá-lo efetivamente. Faz simbolicamente e é por meio de suas atribuições figurativas e argumentativas que no leitor cresce ou decresce sua empatia para com ele, numa negociação de linguagens, crenças e expectativas. O poeta, por meio de seus recursos e artifícios, causa sem causar no mundo físico, mas atinge o psiquismo das pessoas na sua emoção, sentimentos e capacidade reflexiva.

Se é mesmo vedado ao poeta descrever ou narrar completa e efetivamente seus sentimentos (para o filósofo coreano Byung-Chul Han “nem o afeto nem a emoção são narráveis”) (HAN, 2018, p. 60), seu elo comunicativo com o leitor então é sempre limitado e incompleto, pois duas pessoas nunca são plenamente equiparáveis em personalidade, experiência e compreensão. Contudo, mesmo considerando países com letramento precário como o Brasil, é na poesia que as pessoas muitas vezes primeiro tomam contato com ideias intelectuais mais elaboradas ou filosóficas e criam laços importantes de identificação com poetas e suas ideias e metáforas. Se a incomunicabilidade entre as pessoas é por vezes facilmente identificável e constatada, também é notável a capacidade que muitos poetas têm de induzir as pessoas às emoções e pensamentos menos usuais na vida cotidiana, gerando empatia e identificação. Por muito tempo, os jornais brasileiros contaram com poetas que contribuíram regularmente e que, desse modo, fizeram-se conhecidos e deram a conhecer sua visão de mundo e de humanidade.

Evidentemente que, ao longo de um século (e ainda por cima um século como o vigésimo), os padrões comunicativos e estéticos se alteraram muitas vezes; e radicalmente em muitas delas. A poesia, que se desenvolveu e transformou a reboque de movimentos históricos, políticos e culturais marcantes, foi inevitavelmente impactada por todos esses elementos sociais e históricos, além dos provocados por movimentos de reivindicação estética ou ideológica. Foi durante o período crucial da Segunda Guerra Mundial que um poeta com uma dicção um tanto incomum se fez notar entre os leitores e autores modernistas, diferenciando-se ao mesmo tempo do modernismo brasileirista, do grupo espiritualista reunido em torno da revista Festa e também dos elegíacos Augusto Frederico Schmidt e Vinícius de Moraes: em 1948, contra a sua vontade, pois preferia a posteridade à publicação, Dante Milano impactaria leitores e crítica com sua lírica cerebral, por meio do livro Poesias, publicado pela José Olympio no Rio de Janeiro.

Dante Milano

No período anterior à publicação de Poesias, livro que reúne os poemas que foram praticamente todos os que ele escreveu (ou pelo menos manteve) em vida, Dante Milano publicou esparsamente em jornais, principalmente no suplemento Autores e Livros, do jornal A Manhã, poemas, traduções e artigos a respeito de literatura e outros assuntos. Ainda assim, para a crítica da época, composta por alguns estudiosos e muitos escritores, o seu lançamento em livro foi determinante para balançar ainda mais a torre modernista, pois a sua poesia intelectualizada exigia uma percepção mais acurada que, pelas mãos de amigos e admiradores de anos anteriores, não tardou a chegar. Dante Milano guardou o quanto pode seus poemas e sua publicação tardia, por esforço de amigos, em 1948, constituiu, de acordo com Sérgio Buarque de Holanda, no evento literário mais importante da vida literária daquele momento. Além dele, Franklin de Oliveira, Paulo Mendes Campos e Manuel Bandeira também, no calor do momento, saudaram a chegada de seu livro e dedicaram-lhe críticas muito positivas.

Essa poética intelectualizada, em grande medida filosófica, nascia para o Brasil como outros poetas haviam aparecido no mundo, tais como Fernando Pessoa em Portugal, Eugenio Montale na Itália e T. S. Eliot e W. H. Auden no mundo anglófono. De acordo com Ivan Junqueira, Dante Milano esfriava um pouco o ânimo naturalmente exaltado do brasileiro e de forma inaudita:

É que, contrariando as tendências efusivas e algo emocionais da poesia brasileira – mas não, necessariamente, as da poesia de língua portuguesa -, Dante Milano cultiva uma poética do pensamento emocionado, como o fizeram os chamados “poetas metafísicos1” ingleses do séc. XVII, o que não significa que sua expressão haja renunciado à emoção. Quem nele sente, porém, é o pensamento (JUNQUEIRA, 2005, P. 300).

Embora não fosse filósofo e nem comungasse das propostas estéticas das vanguardas do entre guerras e preferisse a austeridade das formas fixas às experimentações em verso livre, a sua publicação viria a influenciar mesmo poetas que surgiram e foram publicados antes dele, como Murilo Mendes. Murilo, mais espiritualizado do que ele, também escrevia uma poesia bastante diferenciada em relação aos seus contemporâneos, mais por conta de uma autoimersão na proposta surrealista, tendo uma visão muito particular a respeito do que a poesia deveria realizar: “a poesia deve propor não só um conhecimento, mas ainda uma transfiguração da condição humana, elevando-nos a um plano espiritual mais alto.” Dante Milano, por outro lado, não se devotava de todo às ideias metafísicas e, mesmo identificado por seus críticos como o poeta do “pensamento emocionado”, costumava conservar uma lucidez constante quanto às possibilidades poéticas e as suas como indivíduo. Essa atitude filosófica que transborda para a sua poesia de certo modo compeliu muitos leitores sensíveis e outros poetas também na realização, a seguir, de uma poesia mais introspectiva.

Além dele, outros poetas, modernistas e posteriores, cada qual com sua peculiaridade, aproximaram-se dos temas mais reflexivos por desejo autônomo. Embora Vinicius de Moraes abandonasse o misticismo religioso com Forma e exegese e passasse a tematizar preocupações mais mundanas, com o lançamento de Mar absoluto, de Cecília Meireles e O aprendiz de feiticeiro, de Mario Quintana, a poesia mais introspectiva aprofundou suas raízes e expandiu sua presença na literatura brasileira na década seguinte, quando Carlos Drummond de Andrade publica os seus dois livros mais intelectualizados (ou filosóficos): Claro enigma e Fazendeiro do ar e João Cabral de Melo Neto, com o Cão sem plumas e Psicologia da composição, aprofunda sua reviravolta formal e consolida sua poesia lúcida e visual de forma ímpar na poesia brasileira.

Porque recluso da vida social literária – embora guardasse amizades duradouras com os principais artistas e intelectuais da sua época – Dante Milano descolou-se muito das influências predominantes no período, em sua maioria provenientes do exterior, e recuperou da leitura dos clássicos e da filosofia muito de sua perspectiva peculiar. Mal situado no modernismo e na poesia de vanguarda que logo apareceria com mais força no Brasil, na década de 50, mesmo um crítico estudado como José Guilherme Merquior preferiu colocá-lo como um dos poetas “avulsos” em meio às principais tendências poéticas do modernismo brasileiro, sem deixar de registrar a particularidade de sua “marca de permanência” dada pelo rigor que aplicava na expressão de sua poesia intimista.

Voltando sua atenção a temas filosóficos universais e ao drama humano marcado sobretudo pela consciência do desamparo da finitude, Dante Milano desembaraçou-se de debater em sua poesia muitas questões candentes de seu tempo, o tempo da Segunda Grande Guerra. Todavia, em seus artigos e pequenos ensaios, ele também se dedicou a assuntos de interesse político e voltou-se algumas vezes à poesia contemporânea, mas ainda mais a do passado, com a de Dante e de Baudelaire, que traduziu. É o suficiente para desmentir a hipótese de poeta isolado do mundo e afastado dos problemas de seu tempo, ainda que o “tempo” considerado filosoficamente parece ter-lhe ocupado mais e rendido um dos estudos mais conhecidos, publicado em 1942 no suplemento Autores e Livros. Em Na biblioteca do tempo, Dante Milano demonstra sua preocupação acerca da transitoriedade de tudo, inclusive da modernidade e confirma assim a sua preocupação em manter a sua própria percepção do mundo por meio da escrita: “O Tempo é um velho leitor, atento e incansável. Nem um instante larga o livro. Parece que da vida só existe para ele aquilo que ficou escrito. O resto desaparece, o Tempo não o lê.”

Na poesia de Dante Milano, o desencanto com a própria condição humana o conduz a uma espécie de rendição à aniquilação inevitável da existência. De um tempo fugaz, preenchido pelo cotidiano e pela materialidade das coisas, Dante Milano se desprende em direção ao pensamento em sua forma mais pura, decisiva para ele mesmo e menos intencional que poderia ser uma poesia mais cerebral. Que ele tenha tratado isso de forma encantadora e poética se deve, talvez, ao seu intenso amor pela arte poética e pelo que ela consegue devolver ao poeta do que o tempo e a condição humana, débil e finita, a própria vida paulatinamente foi quitando. Sem nunca perder essa autoconsciência, talvez como a obra de Fernando Pessoa se concentra sobremaneira na dualidade do ser e do pensar o ser, Dante Milano conseguiu consagrar na poesia brasileira uma mentalidade mais autocrítica do que crítica do mundo e diferenciou-se dos demais poetas brasileiros de sua época pelo que Paulo Mendes Campos denominou de “antilirismo lúcido”, confluindo o pensamento simbólico da poesia em direção a uma subjetividade esvaziada pela ruína moral experimentada pela humanidade no período em torno ao horror da Segunda Guerra Mundial. Possivelmente pelo arruinamento do mundo, Dante Milano tenha se voltado à introspecção. Dessa sua tendência ou determinação, não importa, conseguiu criar sonetos, cantigas e poemas em verso livre sobre a própria condição da existência, como nos versos a seguir:

Cantiga

A vida é tempo perdido.
O que se ganha é bem pouco.
Que vale ao morto o vivido?
Que vale ao vivo, tampouco?

E nunca me sai do ouvido
Esse rumor incessante:
“A vida é tempo perdido”…
Oh, que marulho distante,

Voz de sepultos oceanos
Num caracol aturdido.
Longos dias, breves anos.
A vida é tempo perdido.
(MILANO, 1979, p. 49)


Lugar da poesia no pensamento brasileiro

Não há dúvida que Dante Milano não foi o único poeta brasileiro que se voltou a uma tendência intimista no decurso do séc. XX. Muitos outros poetas já mencionados o fizeram e precederam, porém, a radicalização empreendida por ele até a sua aparição era inaudita. Talvez por conta de seu afastamento dos círculos literários ou por suas predileções temáticas particulares, nunca se poderá saber ao certo, sua dicção se diferenciou bastante dos seus contemporâneos, apesar de muitos compartilharem mais ou menos de preocupações subjetivas e desenvolvessem também uma poesia de caráter mais especulativo, aproximando-se do pensamento mais filosófico ou, como às vezes suponho, tenha especulado filosoficamente por meio da poesia, embora não seja por isso, entretanto, que um poeta possa ser mais ou menos notável em razão de sua poesia. Como adverte o poeta e filósofo Antonio Cicero: “o que torna um poema admirável enquanto poesia não é o que torna um texto filosófico admirável enquanto filosofia” (CICERO, 2012, p. 30).

De todo modo, o trato com categorias simbólicas e a expressão do sentimento pessoal e interpessoal é motivo constante na poesia brasileira do séc. XX, e a própria conformação de um público leitor de poesia decorre de sua identificação para com poetas próximos e daqueles que se fizeram conhecer popularmente sobretudo por meio da publicação na mídia impressa. De acordo com Carlos Felipe Moisés:

“A valorização da intimidade, na lírica moderna, de certo modo define o caminho a ser inevitavelmente explorado tanto pelo leitor quanto pelo poeta, qual seja o do convívio mais estreito com a vida interior. Para o poeta não há alternativa. Dispensado das atividades diárias da Urbe utilitarista e inóspita, este se recolhe na subjetividade, de onde espera extrair a matéria de sonho e realidade a ser carreada para seus poemas. Já o leitor será convidado a reproduzir a experiência do recolhimento, primeiro na condição de confidente privilegiado, diante de quem (ou diretamente a quem) o poeta expõe suas inquietações profundas, seus receios e anelos, sua mais secreta intimidade, na expectativa de encontrar algum acolhimento, recepção afetiva e compreensão. O convívio com a interioridade alheia conduzirá o leitor, num segundo momento, a desenvolver a experiência paralela do convívio com sua própria vida interior, seja sob o signo do contraste e da repulsa provocada pelas “estranhas inquietações do poeta, seja sob o signo da empatia e da identificação eventualmente experimentadas diante dessas mesmas inquietações.” (MOISÉS, 2007, p.92).

Considerando um período histórico no qual os estudos filosóficos acadêmicos recém começavam a ser publicado na forma de livro e o mundo das ideias era tratado por pessoas de formação diversa, como juristas, escritores e jornalistas, muitas reflexões de natureza existencial chegaram ao público leitor pela forma poética. Dado que o mundo da canção popular se ocupava cada vez mais dos motivos líricos, o campo filosófico abriu-se também aos poetas. Em que medida cada poeta apropriou-se desta ou daquela ideia seria uma tarefa imensa por descortinar, porém certa tendência intelectualizada se confirmou na poesia brasileira a partir dos poetas que abertamente abordaram os grandes temas filosóficos, Dante Milano entre eles.

Os precedentes dessa tendência estão no mundo por toda a parte e evidentemente os poetas e estudiosos brasileiros vinham travando, como desde o séc. XIX, contato com a poesia e a crítica realizada no estrangeiro. Paul Valéry, T. S. Eliot, André Breton, Francis Ponge e críticos como Edmund Wilson eram bem conhecidos entre os modernistas, assim como os poetas portugueses reunidos em torno da revista Orfeu e Presença.

Fernando Pessoa, o autor de Autopsicografia, o poema metapoético por excelência, influenciou os poetas brasileiros e inclusive Cecília Meireles teria procurado encontrá-lo pessoalmente, em Lisboa, alguns anos antes de sua morte, em 1935. Ele, que pensava em si mesmo tanto na forma de poesia como analítica, tinha uma autocrítica incomparável tanto em relação às possibilidades da poesia como a cotejava permanentemente com a filosofia, ocultismo e tantas outras coisas que estudou. Numa das autodefinições encontradas em suas anotações filosóficas, ele se diz como “um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas (PESSOA, 1966, p. 14)”, mas, logo a seguir, diz por meio de seu heterônimo mais antifilosófico, Alberto Caeiro, que “Os poetas místicos são filósofos doentes, / E os filósofos são poetas doidos.” (PESSOA, 1946, p. 53). Conforme comenta Leyla Perrone-Moisés, quanto a ele “os citadores contumazes parecem não se perturbar com o fato de, para cada citação de Pessoa, haver outra que diz exatamente o contrário” e mais, que “cada vez que Pessoa é citado, é em nome de uma verdade; ora suas verdades são tantas e tão contraditórias que, no conjunto, negam a existência de qualquer verdade.” (PERRONE-MOISÉS, 2000, p. 146).

Como Heidegger ao procurar na poesia de Holderlin a expressão mais autêntica do sentimento moderno, filósofos muitas vezes se valeram do trabalho de poetas para situar e analisar a história das ideias. No Brasil, o estudo da poesia com base em sua apreciação filosófica tem menos um marco acadêmico que autocrítico, sendo normalmente realizada tanto por outros poetas e escritores quanto pelos próprios. A Segunda Guerra Mundial, se trouxe para cá o desencanto de um projeto de modernidade arruinado, trouxe também muitos estudiosos que rapidamente se integraram à vida intelectual brasileira, como Otto Maria Carpeaux, Paulo Rónai e outros. Apesar da tradição nacional de estudos literários do séc. XIX, esses críticos tinham mais facilidade com idiomas e tradições literárias pouco difundidas até mesmo no Brasil dos modernistas. Já na década de 1950, a compreensão da poesia brasileira e seus movimentos externos se encontrava bem mais consolidada, mas, até então, poetas escreviam muito a respeito de si próprios e a metapoesia serviu bem a esse propósito reflexivo ainda carente de uma abordagem essencialmente crítica, como a inaugurada nos trabalhos de Aurélio Buarque de Holanda, Antonio Candido e seus tantos discípulos.

À parte essa aproximação, é interessante notar que quando o mundo letrado parecia ser mais permeável ao cidadão comum e não tanto território de especialistas e teóricos, menos se distinguia essa irmandade entre poesia e filosofia e, contraditoriamente, mais elas se mesclavam. Qualquer pessoa que trave contato com os grandes poetas em língua portuguesa do séc. XX encontrará pessoas que se preocuparam e exprimiram, por meio da literatura, inquietações filosóficas, religiosas, políticas, mas, sobretudo, subjetivas. A especialização dos estudos literários, por um lado, permitiu uma compreensão mais detalhada e esmiuçada do fenômeno poético, por outro, tornou menos terrenas as inquietações poéticas que, para alcançar esse status, precisaram cada vez mais nutrir-se de elementos estéticos de diferenciação à teorização crescente. Embora aqui não se deseje avaliar a qualidade disso ou daquilo, este impasse acabou se tornando central na consolidação de um repertório literário. Este é um problema, portanto, da alçada da contemporaneidade. A questão de examinar a metapoética e a aproximação da poesia contemporânea com outros campos de saber, tais como a filosofia ou a história, por exemplo, parece ser um larguíssimo território por explorar.

Ao longo da segunda metade do séc. XX, o Brasil protagonizou, assistiu e absorveu muitas outras influências. Desde o cinema norte-americano até a literatura do pós-guerra e, de forma atrasada, autores centrais anteriores à guerra, como Kafka, que teve em Carpeaux um dos seus primeiros difusores no Brasil. A questão interessante de pensar o séc. XX é que seus principais autores e poetas produziram ao longo de todo esse tempo, transformando uns aos outros. Nessa segunda parcela do século, encontram-se ativos e produtivos boa parte dos poetas modernistas, como Drummond e Bandeira, além de testemunharem a chegada de outros e o nascimento de vertentes muito características do período como, por exemplo, o movimento concretista. Talvez porque seja da natureza da poesia justificar-se ou explicar a si mesma e aos demais, também aí se observa uma considerável produção de metapoesia e crítica elaborada pelos próprios poetas, avançando-se até o final do século com diversos percalços de ordem política nesse intervalo.

Ferreira Gullar, poeta que surge em 1955 com A luta corporal, além de romper com a discursividade lírica do modernismo, pensa a respeito de sua poesia e apaga nela um tanto da expressividade de tom confessional predominante na geração de 1945. Para Gullar, “o poeta, portanto, não cria, não inventa, mas apenas diz, mostra o existente existindo” (GULLAR, 1978, p. 47). Sua poesia, para Ivan Junqueira “descarnada” e “seca”, simboliza a partir do real e é reflexiva também quanto ao próprio estar no mundo do poeta e sua passagem pela vida:

Lição de um gato siamês

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
           finita
           da minha precariedade.

O tempo fora
de mim
            é relativo
mas não o tempo vivo
esse é eterno
porque afetivo
– dura eternamente
enquanto vivo.

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo).
(GULLAR, 2015, p. 496)

Cada qual a seu modo e sob influências as mais diversas, poetas buscam sempre formas de fixar as inquietações subjetivas e mundanas conforme alcançam a percepção do mundo e de si próprios. Algumas vezes, de acordo com a compreensão de Susan Sontag a respeito da arte moderna e do “hábito crônico” em desagradar, essa comunicação foi inteiramente negativa, ou mesmo “inaceitável”; isso pode tanto significar a intenção de silenciar a repercussão pública ou impactá-la. Pelo menos nos momentos políticos mais opressivos também ocorreu um chamado à poesia engajada. Nos anos 80, Paulo Leminski, poeta modelar da geração pós-marginal, tentou definir dessa maneira o que seria a função do poeta, ao mesmo tempo sujeito existencial e social: “Os poetas dizem uma coisa que as pessoas precisam que seja dita. O poeta não é um ser de luxo, ele não é uma excrescência ornamental, ele é uma necessidade orgânica de uma sociedade.” (LEMINSKI, 1985). Isso sem falar que um poeta canônico como Drummond reiterou até o último momento (como em entrevista de 1987, pouco antes de sua morte) ser “inteiramente partidário da ideia de inspiração” (EMEDIATO, 1987), demonstrando a concomitância de vozes e perspectivas poéticas.

No que interessa mais ao estudo do pensamento e às relações com a poesia, e desbastando os abundantes estudos sobre os aspectos filosóficos na poesia de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e qualquer um dos grandes nomes da poesia do séc. XX, surgem nomes recentes e contemporâneos que poderiam ser bem observados nessa relação. Além de Orides Fontela, que foi uma poeta que também teve formação acadêmica em filosofia, penso que a poesia de Leonardo Fróes, a do próprio Antonio Cícero e, mais ainda, de Paulo Henriques Britto, poderiam ser apreendidas no viés de uma poesia que pensa a respeito de si mesmo e do mundo de forma mais especulativa e menos lírica. Esta suposição decorre da leitura dos mais recentes livros de Britto, Formas do nada e Nenhum mistério. Nos dois livros, além da metapoesia formal, vê-se também, e muito, a presença da metapoesia subjetiva, que investiga a motivação do pensamento em contraposição ao efeito criativo de consolidá-lo.

Paulo Henriques Britto

No intervalo geracional que vai desde o momento posterior ao fim do período militar até o presente, parece precipitado e injusto apontar uma dicção homogênea na poesia brasileira. Seria muito possível apontar nomes de outras tendências e estilos, mas interessa notar que, por também ser um teórico da literatura, Paulo Henriques Britto é bastante exemplar de uma trajetória poética que reflete muito a respeito de si mesma, como é bastante verificável em outros poetas que também se dedicam aos estudos acadêmicos. Britto pertence a uma geração que apareceu publicada em torno aos anos 1980 e 1990. De uma tendência formalista e afeita às formas fixas, apenas recentemente Britto tem permitido um maior acento emocional em sua poesia sempre contida e cerebral, aliás, como toda uma geração que foi bastante influenciada pelo anti-lirismo, principalmente o difundido por meio da poesia de João Cabral de Melo Neto.

Seu primeiro livro de poemas remonta a 1982, com Liturgia da Matéria, e chega a 2018, com Nenhum Mistério. Nesse meio tempo, recebeu prêmios importantes como o Alphonsus de Guimaraens, por seu Trovar Claro, de 1997, e o Portugal Telecom (atual Oceanos) por Macau, de 2004. Além disso, Britto vem traduzindo para o português inúmeros autores, dentre os quais a poeta Elizabeth Bishop, o poeta Wallace Stevens e outras várias dezenas de poetas e romancistas.

Em seus livros mais recentes, nota-se uma exacerbação de certo caráter filosófico que, se também encontrado em poetas da mesma geração, como Antonio Cícero, Claudia Roquete-Pinto, Leonardo Fróes ou Alberto Pucheu, extrapolou certo limite e contenção a que ele vinha submetendo a própria poesia, ancorada na metalinguagem e em reflexões estético-filosóficas. Embora a temática da busca de sentido e um ceticismo de pensamento estivessem presentes desde os seus primeiros livros, é notável o quanto, em seu mais recente livro, os temas da perda e da negatividade sobrepujaram os questionamentos formalistas iniciados anteriormente. Onde um poeta que antes indagava os significados objetivos da realidade, sobreveio outro que responde desde a constatação acentuada da perda, traço para ele comum a toda experiência humana e ponto de contato com a obra de Elizabeth Bishop, principalmente no poema A Arte de Perder, do qual provém o título de Nenhum Mistério, que também serve de negativa à metafísica e sujeição à casualidade de viver, temática também presente no poema transcrito a seguir.

Da metafísica


Ser parte de alguém ou algo
tão grande que não se entenda:
toda crença, ao fim e ao cabo,
se resume a essa lenda –
o mais rematado dislate,
coisa jamais entendida,
que eleva ao sumo quilate
o caco mais reles de vida.
(BRITTO, 2018, p. 65)

Seja porque Britto continua sem abrir mão do tratamento rigoroso do verso e, ainda que tenha permeabilizado a sua poesia à linguagem coloquial, popular, pela primeira vez em sua carreira ele parece ter se permitido uma maior abertura emocional. Em entrevista para a Folha de São Paulo, em setembro de 20182, Britto chegou a afirmar que “as maiores realizações artísticas são aquelas que veiculam uma carga emocional forte através da forma” (BRITTO, 2018). Trata-se do mesmo poeta que, alguns anos antes, afirmara que o lirismo já não cabia mais na poesia e que “muito do que geraria poesia hoje resulta numa canção popular. Então o território que sobrou para a poesia foi o da reflexão sobre a linguagem” (BRITTO, 2018). No que diz respeito a sua trajetória, vê-se bem que sua poesia ganhou muito com as perdas naturais da vida, o que se parece contraditório e terrível à primeira vista, revela agora uma poesia amadurecida pela forte autoconsciência que sempre o distinguiu dos demais poetas contemporâneos e mais atenta ao drama humano e suas nuances psíquicas.


Nenhuma arte

Os deuses do acaso dão, a quem nada
lhes pediu, o que um dia levam embora;
e se não foi pedida a coisa dada
não cabe se queixar da perda agora.
Mas não ter tido nunca nada, não
seria bem melhor — ou menos mau?
Mesmo sabendo que uma solidão
completa era o capítulo final,
a anestesia valeria o preço?
(Rememorar o que não foi não dá
em nada. É como enxergar um começo
no que não pode ser senão o fim.
Ontem foi ontem. Amanhã não há.
Hoje é só hoje. Os deuses são assim.)
(BRITTO, 2018, p. 9)

Como o Drummond que procura o consolo na praia, Britto radicaliza a busca despersonalizada e do esvaziamento subjetivo, um tanto mais semelhante ao cenário “desértico” (de acordo com Manuel Bandeira) da poesia de Dante Milano. Além de recusar o conforto metafísico, Britto está empenhado em combater a memória, como se procurasse desembaraçar-se do passado para enfrentar a vida presente. Quando o poeta assevera logo no começo de Nenhum mistério que “Rememorar o que não foi não dá em nada”, Britto elimina até mesmo a ausência de sua atenção mental. Essa é uma ideia que de certo modo colide com uma das ideias mais impactantes defendidas por Hannah Arendt em sua palestra O pensar, presente em A vida do espírito. Para ela, “o pensamento sempre lida com ausências e abandona o que está presente e ao alcance da mão” (ARENDT, 2016, p. 221). No entanto, Britto agora desafia a lógica filosófica em prol da sustentabilidade da própria existência. A memória evocativa e episódica é objetificada no discurso poético para uma memória semântica na qual paisagens e sentimentos são examinados com o rigor de um poeta observando a própria materialidade do poema. Outro poeta brasileiro que lida muito com metáforas contrastantes à ausência é Manoel de Barros, que muitas vezes molda sua poesia no descarte de sua aparência, como no poema a seguir:

Os deslimites da palavra

2.5
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.
(BARROS, 2010, p. 310)

Mesmo que para Hannah Arendt a poesia pareça dependente da memória, pois até para saber-se que “rememorar o que não foi não dá em nada” é necessária uma avaliação prévia do que “foi”, a poética de Paulo Henriques Britto quer se desfazer dos elementos poéticos decorativos e de todos os que não sejam decorrentes do próprio curso de pensamento. Ocorre que o apagamento total da memória não é possível, pois ela revive sempre como meio de avaliação e recurso comparativo do ser no presente, ou então é possível apenas pela morte, daí a intensidade reflexiva dos mais recentes poemas de Britto parecer decorrente de um processo mental muito severo e distante do que mesmo a poesia contemporânea mais hermética tem obtido3.

A aparência fria e a mensagem severa dos poemas de Britto não são idênticas ou equiparáveis em motivos a de Dante Milano (se é que alguma poesia é equiparável sob algum aspecto), mas é atenta a si como a daquele. Nem a memória nem o poema como “emoção-do-ser”, como definiu o primeiro José Guilherme Merquior, podem dar conta perfeitamente de todas as indagações e aproximações que os poetas fazem em relação a si mesmos e ao mundo e não há precedência em quem poderá tomá-las. Às vezes serão os poetas que motivarão os filósofos; às vezes se dará o contrário. Poesia e pensamento são ponderações distintas sujeitas às interferências tanto do mundo externo quanto das condições inerentes ao psiquismo individual de seus postulantes naquele momento. Pelo menos até que outro poeta siga o rastro daqueles mais auto exigentes em todos os sentidos, por enquanto Paulo Henriques Britto parece ser o poeta brasileiro mais afinado com certa tendência especulativa da própria subjetividade. E, despido de qualquer traço confessional, parece ser ainda assim o poeta que aparece mais nu e desembaraçado entre todos.

Conclusões

Não é que a poesia possa ou pretenda em sua volição alcançar ou substituir a reflexão filosófica, mas, talvez, muitas vezes tenha ocupado um espaço em branco o qual os movimentos estrangeiros não puderam dar conta completamente ao integrar-se à complexidade histórica inerente à sociedade brasileira. Considerando-se que a filosofia no Brasil “nasceu” quase toda nos anos 1940, na Universidade de São Paulo, e os primeiros estudos consistentes realizados por brasileiros, como os de Gerd Borhein a respeito de Martin Heidegger, Sérgio Paulo Rouanet e seu trabalho com o iluminismo e a obra kantiana, José Arthur Giannotti e seus estudos marxistas e Benedito Nunes e a literatura vieram a público em torno já da década de 1960, é de perguntar se não teriam partido, antes deles, dos poetas boa parte das mais elaboradas formulações de natureza filosófica realizadas no Brasil do séc. XX. Esta, porém, é uma questão a que não me proponho responder, apenas sugerir aos estudiosos para que a cogitem.

Em vista disso, não me espantaria que, ao menos na poesia realizada desde o aporte simbolista no Brasil, ou seja, por quase um século, as inquietações filosóficas e analíticas mais prementes se mostrassem por meio de seus poetas, que inseparáveis do ser humano. Não é que todos os poetas comuniquem ou desejem comunicar à história das ideias, mas por certo alguns entre eles acabariam por se revelar mais intimamente relacionados às questões filosóficas, e não seriam um ou dois mais destacados, mas uma tendência consolidada na poesia brasileira e com exemplos poderosos como os mencionados. Para sabê-lo, no entanto, é necessário que se examine a poesia de forma mais filosófica que contemplativa e uma leitura cuidadosa que notasse que não se propõe a confusão de suas imagens como a um espelho, mas também não apostasse num desenlace definitivo e um mútuo abandono no labirinto da compreensão e expressão.

Notas

1 Os poetas metafísicos a que Ivan Junqueira se refere são os ingleses John Donne, George Herbert, Richard Crashaw, e Andrew Marvell, assim referidos por Samuel Johnson, em Vidas dos mais eminentes poetas ingleses, a respeito de poetas que viveram no séc. XVII.

2 Ver MEIRELES, Maurício. Paulo Henriques Britto volta à poesia com versos sobre a perda e a ausência de sentido. São Paulo, Folha de São Paulo, 8 set. 2018

3 Em abril de 2019, a professora Mariella Augusta Masagão publicou artigo na Folha de São Paulo discutindo as tendências poética contemporâneas brasileiras, enfatizando uma crítica a uma poesia, segundo ela, notadamente “sisuda e hermética”. Ver MASAGÃO, Mariella Augusta. Poesia brasileira ficou sisuda e hermética, diz pesquisadora. São Paulo, Folha de São Paulo, 14 abr. 2019

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Yoñlu, o filme e a narrativa do suicídio na adolescênciaYoñlu, o filme e a narrativa do suicídio na adolescência

É possível fazer um bom filme sobre o suicídio de um adolescente? Como pegar desse enredo inóspito e doloroso e daí realizar um filme que muito provavelmente irá atingir o público que ele mesmo retrata, isto é, o público adolescente? É preciso ser educativo, esclarecedor ou simplesmente basta que conte a história como aconteceu? Como fazer isso se o filme, ainda por cima de tudo, não é ficcional, mas baseado na vida de um adolescente que tomou essa decisão há pouco mais de uma década, aos dezesseis anos, num episódio que talvez tenha mais para amedrontar a sociedade do que, por exemplo, a badalada série 13 Reasons Why, produzida nos EUA e veiculada  em 2017 no canal de streaming Netflix?

Para questões como essas, não há e nem deveria mesmo haver respostas fáceis. Mostrar isso tudo, entretanto, será dos maiores desafios que terão pela frente o diretor Hique Montanari e também o ator Thalles Cabral, que reviverá nas telas o compositor e cantor Yoñlu. Yoñlu é o pseudônimo pelo qual se autodenominava e ficou conhecido este garoto (seu nome era Vinicius) nascido em 1989, em Porto Alegre, onde também veio a falecer, no ano de 2006. Também será o nome do filme que em outubro terá sua primeira exibição, no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro.

Enquanto o filme ainda não tem data para estrear nos cinemas, na internet dia a dia aumentam as visualizações da fanpage e de seu primeiro trailer já divulgado. Dificilmente poderia ser diferente: Yoñlu e a internet sempre estiveram muito próximos, quase interconectados. Foi nela que ele primeiro divulgou suas músicas, alcançando o mundo inteiro desde o seu quarto de dormir, exatamente como fazem há bastante tempo já, e no mundo inteiro, milhões de adolescentes.

Há uma década, na era pré smartphone e primórdios das redes sociais, não era tarefa das mais simples encontrar-se grupos de interesse mútuo, porém, em fóruns, blogues e grupos de discussão se podia acessar com relativa facilidade e anonimato quem quisesse compartilhar músicas, opiniões e conversas sobre quaisquer assuntos, inclusive formas de tirar a própria vida. Este território sem limites precisos ou censura, a internet, foi o único palco que o compositor e cantor Yoñlu conheceu. Pelo destino que deu a sua breve vida, foi ali também que ao longo de uma década se tornou uma espécie de mito, consagrado principalmente pelos seus contemporâneos adolescentes.

Tão logo a notícia de sua morte se espalhou, sua história foi ganhando visibilidade para além da web e reportagens na mídia impressa começaram a surgir, diferenciando-se do que costuma acontecer nos suicídios de um modo geral. No caso dele, não parecia tratar-se de mais um número entre as estatísticas, mas da morte precoce de uma mente muito criativa e com enorme talento para a música. E também porque trazia consigo uma mensagem ainda hoje complexa a respeito de um potencial um tanto quanto obscuro da web: o de, além de encerrar por muito tempo as pessoas em uma irresistível sensação de imensidão e liberdade, chocá-las de encontro a uma impessoalidade capaz de compartilhar ideias tão radicais como, por exemplo, o suicídio.

Ainda lembro-me do começo do ano de 2008 como o ano em que conheci a adaptação de Sean Penn para o cinema do livro de Jon Krakauer, Na natureza selvagem. Na verdade, conheci um pouco antes a trilha sonora que Eddie Vedder, do Pearl Jam, compôs para o filme e suas baladas folk. As letras melancólicas tratavam de um personagem real, Chris McCandless, um adolescente em franco processo de desadaptação que aos 22 anos, em 1990, resolve isolar-se da civilização e ir de encontro à solidão de uma floresta no Alasca, para lá viver por uns tempos. Quanto tempo, porém, ele teria desejado ficar mesmo por lá, isolado de todos, é algo que nunca se poderá saber ao certo. Chris, que também adotava um pseudônimo e referia a si mesmo como um certo Alex Supertramp, acabou morrendo completamente só, dentro de um ônibus, sem a ajuda de ninguém, vítima de inanição ou um possível envenenamento decorrente da ingestão de sementes tóxicas.

Naquele mesmo período, em uma revista de circulação nacional, li pela primeira vez a respeito do suicídio de Yoñlu. Retratado como um adolescente que perdia a vida após a realização de um meticuloso procedimento todo obtido e reportado na internet, ele deixara uma coleção de canções que entrevia seu talento para compor e aspectos psicológicos de sua abreviada trajetória. Logo após isso fui conhecer a sua música, disponível em registros caseiros aos quais se dedicava intensamente. Na escrivaninha do quarto onde compunha suas músicas, encontrou-se um disco com suas gravações e explicações deixadas aos pais. Além dos registros no CD, Yoñlu deixara gravados em seu computador algo em torno de cem canções. Mais tarde, parte delas seria transformada em dois discos, um produzido no Brasil e outro nos EUA, pelo selo Luaka Bop, de David Byrne dos Talking Heads.

Assim foi que as duas histórias (e músicas) se misturaram por algum tempo em minha mente. Dois adolescentes, duas espécies distintas de morte, mas duas perdas de garotos excepcionalmente inteligentes numa época da vida em que excessos (e sentir em excesso) são muito comuns, mas o único que não se deveria aceitar tão tranquilamente é o de que justamente pessoas com um potencial tremendo deixem, de repente, de acreditar que ao menos vale a pena continuar vivo.

Sempre pensei na adolescência como o momento da vida em que o tempo perde toda a linearidade e, todavia, não se pode saber ao certo quando aquilo vai acabar nem quando será possível chegar ao próximo platô, ou o que se costuma denominar por “maturidade”. Importa dizer que para muitos adolescentes este pode tratar-se de um processo muito difícil e, se o entorno não colabora, muitas vezes a sensação subjacente é a de aprisionamento, isolamento. E, diga-se de passagem, um isolamento que nem a rede das redes costuma ser capaz de romper ou ainda que, de outro modo, muitas vezes parece colaborar ainda mais em certo confinamento, dado que na internet se configura uma espécie de duplo do mundo real em suas muitas representações, declarações e uma sorte infinita de contatos indiretos e impessoais. Mesmo assim, sob o argumento de ajudar as pessoas até onde seja possível, a rede social mais utilizada no mundo, o Facebook, tem entre suas políticas de conteúdo a permissão para que os usuários realizem inclusive a transmissão ao vivo de tentativas de automutilação ou suicídio. A informação foi divulgada em maio do ano passado pelo jornal britânico The Guardian, após investigação que revelou as diretrizes mais secretas da rede de Mark Zuckerberg.

A implicação de adolescentes em um mundo em que a representação da morte é banalizada e até certo ponto erotizada, como o psicanalista Contardo Caliigaris alertou em seu artigo Sempre há um exército dos mortos, que amam e propagam a morte, não é exatamente uma novidade. Desde a publicação de Werther, de Goethe, em 1774, teme-se pela replicação entre o público juvenil do drama suicida e as ideias românticas, afinal, são ideias que não podem simplesmente extirpar-se da cultura. Na realidade, são ideias e valores que estão integrados a ela e nela são recicladas periodicamente. Seja na literatura, no cinema ou na música, não poderia haver medida mais infrutífera ou contraproducente do que limitar-se o acesso do público, ainda mais o adolescente, do que se pode obter na internet. Felizmente, em anos recentes, se tem procurado outras condutas e alternativas, como o esforço educativo e campanhas de esclarecimento como o “Setembro Amarelo” e a inserção da temática no âmbito escolar, reduto por excelência do público adolescente.

A ocorrência suicida entre a população adolescente parece não decorrer de mera insegurança ou exclusivamente pela falta de perspectivas econômicas, ainda que tudo isso tenha seu peso na situação de vida de qualquer pessoa. Talvez a situação seja um pouco mais complicada que isso e, para pessoas que já não são mais crianças e ainda não completamente adultas, implica muitas vezes em sentir-se e saber-se impotente em dar conta de um legado ao qual não deram causa e nunca estiveram integrados ativamente, mas que, de repente, é todo o mundo que há para existir. Como lidar com tudo isso não é algo simples ou que se resolva com simples recomendações, isto é, trata-se de um tema socialmente tenso, eu só consigo ficar muito curioso em saber como o filme que conta a história de Yoñlu irá tratar disso tudo, tendo-se em vista um ano que começou com o furor em torno a 13 Reasons Why e logo a seguir entrou em pânico com a disseminação do jogo de automutilação “a baleia azul”.

Se Hannah Baker, a personagem central de 13 Reasons Why causou apreensão por um suicídio decorrente da violência sexual e do bullying por que passou, nesta história não há propriamente um incômodo externo, mas um interno, e por isso mesmo de mais difícil abordagem. Não que as causas de diferentes mortes possam ser comparadas, mas enquanto é relativamente simples localizar num personagem um elemento externo, uma razão prática, do outro permanece uma nebulosa associação com a depressão e uma dificuldade de abordar-se adequadamente – e em tempo hábil – as dificuldades de natureza psicológica que muitas vezes transformam adolescentes em alvos potenciais de ideações suicidas. Seja como for, neste terreno não se tem o direito de ser leviano nem por um instante, dado que as estatísticas apontam para números crescentes entre a população dessa faixa etária por aqui e em todo o mundo.

Embora muitas vezes a associação entre depressão e suicídio pareça a mais óbvia, é relevante pensar que outros elementos possam colaborar tanto para o desfecho quanto para que se aventem medidas para que se o evite. No livro O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão, o jornalista e escritor norte-americano Andrew Solomon destaca que depressão e suicídio nem sempre fazem uma equação indissociável. Ele diz ainda que, embora apareçam juntos muitas vezes, a ideia e pulsão de morte são inerentes à vida e que ambas as situações têm vida própria e, portanto, generalizações deveriam ser evitadas a fim de não estigmatizar-se ainda mais as pessoas. Para a psicanalista Julia Kristeva, autora de O sol negro: depressão e melancolia, mesmo a pessoa mais deprimida debate-se com o afeto e sua expressão. Para ela, talvez seja justamente pelo afeto, pela recuperação da saúde afetiva, que passe muito do que pode ser feito em prol das pessoas, especialmente os adolescentes, antes de qualquer outro desfecho.

Até que se possa saber mais e chegue em definitivo aos cinemas, não se pode dizer ainda como Yoñlu, o filme será recebido pelo público. Antes mesmo de seu lançamento, entretanto, já é possível perceber o quanto tem despertado o interesse. Seja como for, o inegável é que cada pessoa é única e tem sua história, seu percurso inigualável e sua forma peculiar de lidar com a informação. Por enquanto, não se pode saber se o filme dará mais eco ao que nunca se entenderá por completo, isto é, a morte em si mesma, ou então da vida e do que se pode fazer por ela. Como uma está imbricada na outra e compõem espontaneamente o drama humano, não se trata de simples desmistificação, mas de uma perspectiva a qual todos estão vulneráveis e para a qual, ao mesmo tempo, ninguém nunca está preparado.

Mito que é cada vez mais decomposto, o suicídio continua assombrando e fascinando as pessoas justamente porque, dos gestos humanos, talvez seja o que mais desestabiliza o mundo como ele é, isto é, o mundo de quem fica. Tudo ao que se confere apreço, que está imbuído de valor e pelo que se preza, em um momento apenas se evapora diante de quem confere sentido ao mundo e lhe dá significação. Se o adolescente está especialmente vulnerável ao suicídio, assim como também a outras formas de violência, e isso em qualquer classe social ou geografia, seu gesto fala não apenas de si, mas de todo o seu entorno afetivo e social. É preciso falar sobre suicídio, sem dúvida, mas também do que isso importa à família, à escola, à sociedade e, já que não se restringe exclusivamente aos adolescentes, aos sentimentos de todas as pessoas. Yoñlu, o filme certamente não tem o dever de fornecer todas as respostas de que precisamos. Por outro lado, nós é que temos o de aproveitar a oportunidade do filme e incrementar as necessárias discussões a respeito do assunto.

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Há quase duas décadas atrás, no ano de 2000, a OMS publicava um guia voltado aos profissionais da mídia na intenção de instruir as abordagens e notícias sobre o suicídio. Em linhas gerais, as recomendações giravam em torno de evitar-se o detalhamento de métodos, certa tendência à espetacularização, associações diretas com outros transtornos mentais, alusões que possa levar a uma estigmatização das pessoas e suas famílias, bem como destacar-se informações alternativas e fontes de informação confiáveis sobre o assunto.

Seguindo o exemplo da OMS, há cerca de uma década o governo federal, através do Ministério da Saúde, publicou as Diretrizes Nacionais para Prevenção ao Suicídio, oferecendo indicações a respeito da necessidade de ações de prevenção ao suicídio e de sua caracterização como um problema de saúde pública. Apenas desde 2004 a OMS passou a publicar relatório exclusivo sobre o tema. Dois anos atrás, em 2015, foi instituído no Brasil o “Setembro Amarelo”, iniciativa conjunta do Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) dedicada a reflexão e medidas de enfrentamento ao suicídio.

Na última semana (21/09), o Ministério da Saúde divulgou o primeiro Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil, contendo dados obtidos entre 2011 e 2015. Importante destacar que a interpretação cuidadosa de estatísticas, o evitamento de generalizações e comparações geográficas, recomendações publicadas pela OMS no longínquo ano de 2000, parecem ainda muito distantes de serem observadas.

 

Os links abaixo remetem aos conteúdos publicados em alguns meios de comunicação sobre a publicação do boletim:

Mapa dos suicídios no Brasil coloca Rio Grande do Sul em alerta (Zero Hora)

Brasil registra uma tentativa de suicídio por hora, diz boletim inédito (Correio Braziliense)

Núcleo identifica uma tentativa de suicídio a cada 10 horas na Capital

Suicídio é a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos (Agência Brasil)

Brasil registra 30 suicídios por dia; problema afeta mais idosos e índios (Folha de São Paulo)

Cerca de 11 mil pessoas tiram a própria vida todos os anos no Brasil… (UOL)

Suicídios aumentam 12% em 4 anos e preocupam Ministério da Saúde (Estadão)

 

Fontes e links de apoio:

CVV – Centro de Valorização da Vida (Tel: 188)

FIOCRUZ – Especial sobre suicídio

Setembro Amarelo

Suicídio e vida

Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio

Befrienders