Anotação

Porque escrevo a respeito dos outros, parece que posso entendê-los. Não é verdade isso. Tudo é apenas uma tentativa e tenho certeza que errei em interpretação muitas vezes. Escrever a respeito da poesia de alguém é altamente arriscado porque é um encontro entre duas vontades: o desejo expressivo e o receptivo.

Não é diferente de quando alguém liga o rádio para escutar uma música ou seleciona uma faixa de um músico que nunca escutou antes. A não ser entre os mais previsíveis, a poesia é como uma composição que não se tem ideia de como vai se desenvolver ou concluir. Talvez as formas fixas permitam que o leitor anteveja o impacto sensível de um soneto ou a cadência de um ritmo exato, mas a poesia que usa de versos livres é mais ou menos como o jazz – exige uma atenção ainda maior para que se a compreenda em sua harmonia e centralidade.

Eu sei muito bem que não são pareáveis, música e poesia, mas, em muitos aspectos, são sim. Qualquer pessoa que tente tocar um instrumento sabe o quão podem ser complicadas as soluções de uma harmonia, o quão pode ser estranho um motivo, o quão incompleta e parcial a expressão de uma ideia. Já na literatura, esta simultaneidade está definitivamente impedida.

Como acontece ao poeta de não saber o que fazer das palavras, ao saxofonista acontece algo parecido. Ele atravessa a harmonia, assopra sem tocar, a nota sai pela metade e completa a melodia inaudita, que só alguns podem escutar. Com a poesia dá-se mais ou menos o mesmo. É uma revelação feita pelo leitor. Melhor se completada por ele.

Por mais que um poeta diga, pincele, esculpa, burile, se ele diz tudo, o leitor se enfara, sente-se inútil, resta-lhe apenas a admiração sem êxtase. O êxtase é compartilhar dos silêncios, do entrevisto, do sugerido. É o arrebatamento que se compartilha instantaneamente. Nesse aspecto, o músico é muito mais feliz que o poeta, pois ele pode experimentar isso ao vivo. O poeta, não. É de um efeito retardado, a posteriori, que ele obtém o efeito estético. Daí que provavelmente a poesia sempre traga consigo uma melancolia (mesmo a mais feliz e coloquial), que é do poeta estar sozinho naquele instante, consigo mesmo e numa distância total para com quem quer que seja.

Por isso, o que se pede muitas vezes aos poetas é que deixem um mísero espaço ao leitor, para que este possa imaginar-se, consolar-se naquele mesmo desconsolo, esquecer-se nos vazios subitamente interrompidos.

É claro que há também poetas romancistas, prosaicos, como um Duke Ellington, Cole Porter, Beethoven, Mozart, Brahms.. Sinfônicos, grandiosos e épicos, claro que há, mas não são de deixar resíduos, compartilham pouco, temem mostrar um pouco da carne e, por essa razão, parecem madeira, gesso, ou etéreos demais.

Sua obra não é de silêncios e nem os comporta, mas do vazio estrondoso que deixam em seu lugar. O vazio do assombro e também da estupefação.

E há ainda os poetas palestrantes que pensam na sua metapoesia como essência de linguagem, num delírio narcisista. Na música, seriam como aqueles músicos a quem a banda dá uma palhinha e o sujeito nunca mais para de solar, convicto de que chegará aos céus sozinho. Não raro, por mais talentosos que sejam, acabam tragicamente chegando mesmo.. Exemplos formidáveis não faltam.

Sinto muita compaixão pelos poetas. Parecem(os) criaturas um pouco desesperadas, às vezes, mas é uma projeção indevida. No mais das vezes, bem como os saxofonistas, fazem um voo solo sem nem saber quando ou onde aterrissar. Pois é esse momento do voo, que ninguém vê e não é espetacular, que os poetas desejariam (em vão) compartilhar.

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Versos humildesVersos humildes

Só não vê quem não quer e há que nunca quererá ver, mas os traços da personalidade de um poeta estão expressos na sua poesia. E pode parecer incrível, mas estão mais expressos na forma do que no conteúdo. O conteúdo é um grande disfarce, é o fingimento. A forma é que revela a expressão do poeta. Claro que não estou pensando na forma métrica, frasal, etc. Estou dizendo da forma como o poeta se dirige ao poema para que ele se anime, como um banana de dinamite é acendida quase parecendo ser uma coisa autônoma. Mas é claro que não é. A mão do poeta está ali, quase oculta. É ela que acende o pavio que conduz a chama pelo caminho da explosão. Mas há também muitos poemas que não explodem. Na verdade, deve haver em algum lugar um depósito de poemas que falharam no seu objetivo de dinamitar as defesas dos leitores. Dos que explodem, nós inevitavelmente passamos a saber alguma coisa das pessoas. São cifras que a nossa intuição decodifica. A forma nos diz da humildade ou da prepotência. Nada mais estranho que um poeta prepotente, que não esquece uma chave pelo chão, que está do outro lado do muro ou diante do espelho num ensaio eterno para consigo mesmo. Estranho e comum, infelizmente. Incomum mesmo é o poeta de versos humildes. Humildes, não pobres. Humildes no sentido do receio de abordar o leitor. Humildes, as pessoas são ou não são. E ninguém pode escolher entre ser ou não ser. Humildes como o inocente que sobe ao cadafalso porque não saberia mentir nem para salvar a própria cabeça. O tempo não me ensinou a ler poesia, mas me ensinou a ler os poetas. Mas com os poetas humildes se deve ter muito cuidado, muito mais do que com os prepotentes. Eles podem sem mais nem menos colocar, num desatino, a sua vida em nossas mãos. O que se pode fazer com criaturas assim? Eu não sei.. Admirar, simplesmente, como se faz a um estranho cometa. E nunca, nem pensar em tentar dependurá-las de volta ao céu de onde vieram. Elas não estão mais lá. Nunca mais estarão. Ou você viu ou não viu. E não se aponta com o dedo, jamais, a um poeta ou a uma estrela. É um convencimento que cada um faz a si mesmo, como os astrólogos que interpretam estrelas e montam absurdas constelações aos olhos incrédulos do céu. 

EpílogoEpílogo

Não são muitos a essa hora na rua, ainda mais que maio já exulta um frio que emerge das superfícies, por tudo… Brota das gretas e das rachaduras da tinta uma espécie de suor. Os tijolos suam do tanto que fazem em suportar as vidas em seu interior. Aqui onde estou não há ninguém, mas alguém ainda mantém um fogo aceso. Sinto o ardido da lenha verde queimando e exalando o perfume de uma lareira ou um fogão a lenha aceso já por um desses velhos madrugadores. Mas, na rua, ninguém. A cerração é uma nuvem que desistiu de voar, a mãe disse um dia, e a essa hora há como uma fusão das duas neblinas, a da noite e a do dia. O Fernando não está aqui como disse que estaria e em lugar nem um me parece haver alguém conhecido a quem possa mostrar o recorte de jornal que trago no bolso traseiro da calça jeans. Uma folha do Correio do Sul dobrada em oito ou doze partes, uma imagem borrada ali dentro, a face imberbe de um Alexandre como eu o conheci. Não pode ser a mesma pessoa, eu penso. E por isso preciso tirar a limpo essa informação com alguém. Morreu mesmo? Mas isso é verdade? Quando foi? Alguém foi a esse velório? Era ele mesmo? E se ele botou alguém no lugar dele? Um cupincha que se prestasse… E se ele fez isso para fugir ao Uruguai, Bolívia, o raio que o parta? Quem é que numa hora dessas pode andar por essa maldita cidade e me dar certeza? “Morreu, sim”, quem vai me dizer? Viu a certidão de óbito? Doente de quê? Morto por quem? Pensa bem, tu estás falando do Alexandre e ele tem tantas vidas como um gato, um gato vadio que ninguém segura ou aprisiona. O Alexandre, eu quero dizer, é ladino e felino, o filho-da-mãe, e só vocês mesmo, que são burros, acreditam nas lorotas dele. Eu sei bem que ele está solto a essa hora. Aonde? Que sei eu? Na zona, num boteco fuleiro, na cama do prefeito, o Alexandre ele pode estar onde ele bem entender e é por isso que eu vim aqui, que de outro modo não viria. Não tenho interesse nesse lugar depois da morte do pai e de que consegui finalmente levar a mãe comigo. Vim porque me deram a certeza de que era verdade, mas eu não acredito em ninguém que ainda viva aqui. Este lugar sempre foi um poço de mentiras, meias verdades, um precipício de ilusões dementes. Ali adiante, onde morei, a mesma casa. Se olho ao sul, só o vento de sempre, anavalhando o que encontra pela frente. Pela noite, ruínas de memórias revestem a cidade que parece a mesma, mas não há mais ninguém aqui se ele morreu. É um lugar propício onde morrer de tanta paz, de tanto tédio, de tanto nada para fazer. Eu vim buscar quem me confirme da morte desse traste humano e nem o Fernando, que gostava de mim, consegue estar ainda aqui, ele que resistiu mais que todos nós. Escorado nessa mesma parede, ele fumava lentamente e olhava adiante como se pudesse tocar outro destino com os olhos. E raspava as palmas das mãos como se fosse dizer algo surpreendente, mas só se queixava do frio. “Que frio é esse?”, indagava num discurso pró-forma, sem esperar resposta, sem esperar nada. Ao lado dele, não me intimidava o Alexandre, porque nesse caso ele é quem se intimidava. Nem ao menos o Fernando aqui, claro que não… Ninguém que parecesse conhecido, somente a figura de um Alexandre pálido no bolso das calças. E nem ele poderia me salvar mais de estar aqui, porque nunca me deixaria escapar, pegar a estrada de volta e fugir. Espero que venha de uma vez o dia antes que a noite me deixe também sem alma.

Um inédito Aureliano de Figueiredo PintoUm inédito Aureliano de Figueiredo Pinto

Artigo publicado na 10ª ed. da Revista Sepé

Possivelmente não exista na poesia rio-grandense livro tão inédito quanto foi Itinerário – poemas de cada instante (1998), de Aureliano de Figueiredo Pinto.

Aureliano não apenas não o publicou em vida como tratou de garantir que o caderno de manuscritos não fosse conhecido até que ele mesmo e sua esposa não vivessem mais. Mesmo assim, ainda levou cerca de 40 anos mais (Aureliano morreu em 1959) para que o filho entregasse os originais para publicação, aos cuidados do Prof. Carlos Jorge Appel, da editora Movimento.

Na página frontal do manuscrito, uma misteriosa dedicatória rasurada indicando a quem o livro seria dedicado, mas cujo conhecimento parece ter ficado mesmo restrito à família. 

Se a informação perdeu-se ou se desvaneceu no tempo, o mesmo não se pode dizer dos poemas do livro. Ainda assim, ao contrário dos outros livros de Aureliano, até hoje Itinerários não teve público para uma segunda edição. Isso talvez se explique um pouco pela temática rural dos outros livros que, no Rio Grande do Sul, até há bem pouco significava a garantia de um bom público leitor. Os versos de Romances de Estância e Querência (1959) e do póstumo Armorial de Estância (1963) foram popularizados por diversos cantores e folcloristas, especialmente nas gravações de Noel Guarany, em 1978, no bojo do movimento nativista, fortemente inspirado, aliás, em sua poética.

Romances de Estância e Querência foi o único dos livros que Aureliano chegou a ver editado; saiu pela Globo e o filho levou até São Paulo, onde ele buscava recursos e tratamento, os primeiros exemplares para que o pai conhecesse. Memórias do Coronel Falcão é póstumo (teria sido escrito no final da década de 30) e foi publicado em 1973. Acabou sendo reunido aos demais romances realistas de 30 publicados à época em que foram escritos, como Sem Rumo de Cyro Martins, Xarqueada de Pedro Wayne e Fronteira agreste, de Ivan Pedro de Martins.

Quando publicado na década de 90, não se imaginava que o médico e intelectual discreto que Aureliano foi tivesse produzido versos daquele qualidade lírica e intensidade erótica. Primeiro, seria de pensar que, caso houvesse material inédito, seriam poemas que continuassem a temática dos seus dois outros livros anteriores, com motivos rurais. Segundo, a guinada lírica um tanto quebra em pedaços o estereótipo de que um poeta que tenha se celebrizado pela “cor local” não possa alcançar os temais universais, como o amor, o erotismo, reflexões existenciais quanto à vida e finitude humanas.

Como em vida Aureliano não esteve em busca de publicação ou reconhecimento e sua obra seja praticamente toda póstuma, a crítica literária o alcançou tardia e parcamente. Basta dizer que as duas mais extensas apreciações publicadas ainda são as mesmas dos anos 80, quando o falecido escritor Luiz Sérgio Metz realizou e publicou para a coleção Esses Gaúchos, da editora Tchê um livreto dedicado a ele, em 1986, e a professora Helena Tornquist produziu para a coleção Letras Rio-Grandenses, do Instituto Estadual do Livro, um caderno especial, em 1989. Ambos os trabalhos têm o mesmo titulo: Aureliano de Figueiredo Pinto.

Apesar disso, nos também já anosos volumes da história literária do Rio Grande do Sul seu nome comparece muito mais associado à poesia regionalista. A despeito de ter uma “realização grande”, conforme o assinalado por Luís Augusto Fischer, os poemas líricos de Itinerário não contam nos mais difundidos livros de história literária com uma apreciação correspondente, bastando que se o situe entre o simbolismo ainda muito praticado no Rio Grande do Sul dos anos 30 e as inovações formais modernistas que ele aproveitou mais, curiosamente, na poesia de inspiração rural.

Como Itinerário vem a público no final da década de 90 e tais trabalhos são praticamente da mesma época, essa parte de sua obra permanece mal reportada. No tocante à sua lírica, Aureliano se arroja em conteúdo ao mesmo tempo que se contém nas formas mais tradicionais da poesia simbolista e neo-parnasiana. Um dos mais extensos artigos produzidos a respeito da literatura de Aureliano, publicado em 1974 pelo Prof. Guilhermino Cesar, por exemplo, ignora a existência dos poemas de Itinerário. No artigo, Guilhermino reconhece o caráter reservado do poeta e lamenta que não tivesse até então se registrado em sua obra “uma descida mais vertical à paixão do homem”.

Os versos a seguir demonstram bem que o poeta, afinal, cumpriu o desejo de Guilhermino, porém de forma inédita, sem que o mesmo pudesse sabê-lo:

XI

A água que eu bebo tem o gosto do teu beijo;
a manhã lembra a luz pagã do teu sorriso.
Sugere a névoa o vago olhar, longe, impreciso,
de quando aplacas, fina e langue, o teu desejo.

A asa que passa, no céu alto, em vôo andejo,
lembra o teu gesto arisco em sutil sobreaviso.
E, na árvore alta e fina, e na flor do paraíso, :
tendo-te toda em mim, sempre em tudo te vejo.

Bruna e pálida, alta e trêmula, os cabelos
cheios da escuridão das noites em que amamos!
— Sinto-te no meu sangue em tumultos e apelos.

Em tua leve silhueta o mundo se resume.
E quando, sem encontrar-nos, nos buscamos,
ruge em minha alma em sombra a alma do teu perfume.

Em que pese sua aparição apagadiça, a obra de Aureliano vem sendo estudada mais ou menos diretamente. Em sua maior parte, seu nome é citado co-lateralmente em trabalhos que problematizam o romance de 30. Por ele referir-se mesmo em sua lírica a elementos de sua vivência em remissivas geográficas (como ao “vento pampeiro”) parte dos poucos trabalhos dedicados a ele notam em sua lírica póstuma a marca indelével do regionalismo, como uma chaga fosse, como se isso anulasse o alcance universal de sua visada lírica, a meu ver uma apreciação contaminada de preconceitos.

Embora nos anos em que estudou Medicina em Porto Alegre tenha tido um convívio próximo aos escritores que viveram o fervor modernista rio-grandense, nos cafés do centro e em torno da Livraria do Globo, Aureliano logo que pode retornou à Tupanciretã e lá estabeleceu-se como clínico-geral, interrompendo as publicações que fez por meio de periódicos como a Revista Kodak, que circulou entre os anos de 1912-1920.

Paradigma de um autor verdadeiramente reservado, Aureliano de Figueiredo Pinto por muito pouco não passou completamente despercebido pelas gerações suas posteriores. No caso, ele teve um dos filhos que se preocupou em não deixá-lo cair no oblívio completo e a sorte de um editor preocupado em recuperar e conservar a memória literária do Rio Grande do Sul sem qualquer preconceito temático, linguístico ou de procedência.