O contemporaneismo

Tive de um determinado professor a pior leitura possível da famosa aula de Agamben sobre o “contemporâneo”. No dia da exposição, foi quase intolerável. Minha vontade era de sair porta afora, fugir mesmo, mas, usando de muita meditação, consegui aquietar o espírito e tratei de me ocupar mentalmente com outras coisas. Só por isso mesmo consegui. Não é sempre que consigo, mas, em vista da necessidade, foi preciso tentar. Naquele momento, tentar desesperadamente.

Hoje, porém, creio que entendo a razão de todo aquele embananamento expositivo: o “contemporâneo” parece mesmo ser marco mais da temporalidade objetiva que subjetiva, ainda que subjetivamente ninguém esteja condenado a pensar e a viver de um modo regular, basta que assim o deseje. Subjetivamente, como queria o italiano, cada um submerge no tempo que melhor entender.

Talvez para adictos ontem aos jornais e, hoje, às redes sociais, o tempo tenha o mesmo efeito de uma algema, de uma bola de ferro, mas, justamente, a literatura pode mesmo ser o passaporte ideal para escapar a esse aprisionamento. Para os reacionários e retrotopistas, sempre há uma fuga/abrigo no passado idealizado. Para os visionários e utopistas, uma margem ainda. E para os céticos, como eu, uma busca inextinguível, um labirinto no qual é possível mover-se com liberdade, mas na condição (ou ônus) de desconhecer a possibilidade de uma saída.

No célebre ensaio Dentro da baleia, George Orwell diz que um escritor está na moda quando é muito lido por quem tem menos de trinta anos de idade. Escrito em 1940, acredito que seja tranquilo dar atualmente pelo menos uns dez anos a mais nessa conta. Quarenta anos atualmente significam os trinta de dez atrás (ou vinte), considerando especialmente a expansão da adolescência e seu voraz abocanhamento em direção à adultez. Orwell ainda assevera que, invariavelmente, essa é uma espécie de sucesso que data a si mesma e sua contraparte seria uma pequena chance de sobrevivência estética. Mesmo assim, de acordo com ele, tais obras costumam ser o testemunho mais fiel de uma época, pelo menos do estado de espírito “juvenil” da época.

Do ponto de vista comparativo, pelo menos na minha opinião, a estética contemporânea tem por principal predicado ser isso mesmo: contemporânea. E seu atrativo é mais por inerência à aparência de novidade e dicção do que propriamente uma questão de qualidade descritível. Valham-me os gregos que ainda hoje despertam a atenção e seus padrões que ninguém ousa taxar de “antiquados”. E tudo nesse intervalo até aqui, que, de tanto, nem vale elencar tanto. Nem vale e nem caberia.

Quanto ao conteúdo “intempestivo”, também é preciso dizer que isso já foi tentado e realizado à exaustão. Tanto que, talvez por contraste, uma simplicidade de motivos ainda às vezes me parece mais assombroso. Simplicidade que não é o mesmo que simplismo, não custa dizer, mas um senso de propriedade menos atento à aparência dos objetos do que a sua essência, independente do caráter mais ou menos volitivo da proposta autoral. O que também não quer dizer o mesmo que o saudosismo, mas uma entrega da atenção a exigências outras que o imediato. O imediato é o sangue do contemporâneo e nós muitas vezes agimos como espécies peculiares de vampiros, como numa debandada pela sobrevivência por meio de um presumível (mas nem sempre verificável) rejuvenescimento.

Qualquer escritor que tenha já desejado ou escrito a respeito de uma época fora da sua deve ter notado a necessidade de anular as referências contemporâneas e situar-se no máximo a uma meia distância do tempo presente, no qual se vive, e a meia distância do qual se está procurando submergir. Todavia é impraticável, mesmo considerando as melhores capacidades mediúnicas de um autor, que ele consiga imitar ou emular o espírito de uma época que já passou, especialmente se ele não a viveu, mas conheceu apenas literariamente ou por testemunhos.

De outra parte, a literatura tem limites expressivos e o mundo da leitura, no que toca ao leitor, outros limites introspectivos. No séc. XX, por exemplo, foi possível contar-se com o cinema que, em inúmeros casos, consegue ser muito fiel e feliz em sua representação. Mesmo o cinema, entretanto, tem limitações porque ocorre a posteriori e mesmo documentários participativos têm a condução autoral que atende especialmente às intenções do autor. Assista-se a um documentário a respeito da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, e mesmo assim não se conseguirá assimilar toda a tensão psíquica do momento pela observação cinematográfica, mesmo quando recolorido.

Um pouco mais atrás, encontramos a Virginia Woolf de Três Guinéus pedindo atenção à fotografia de guerra, na Primeira Guerra Mundial, estampada nos jornais do mundo inteiro, ainda que com um delay de dias, semanas ou meses, dado que a transmissão fotográfica ainda era, em meados dos anos 20 do século 20, realizada exclusivamente por meio postal. “Nós estamos vendo, com o senhor, os mesmos cadáveres, as mesmas casas destruídas”, ela apela e ainda assim o seu clamor à obviedade do horror limita-se em garantir a veracidade de um testemunho, pois, a não ser objetivamente, nenhuma paisagem se repete para dentro da retina do ser humano, onde ele sopesa experiência e sentimentos essencialmente desiguais de forma necessariamente particular e irrepetível.

Daí para trás, apenas a arte e, entre todas, a poesia, talvez por seu caráter mais intimista parece que mais tem servido para dar conta da apreensão do espírito predominante nas diferentes épocas. E isso vale para o séc. XIX, quando o romance de costumes passa a competir e ganhar atenção popular, e o tempo em direção ao imemorial, chegando-se sem muita dificuldade em Homero e na poesia grega ou nos demais vestígios da antiguidade.

No entanto, no contemporâneo, a poesia é o reduto preferencial do anacronismo se comparada, por exemplo, ao romance estrutural. Nela, coexistem formalmente sonetos alexandrinos, o verso moderno e livre e os experimentalismos grafo-visuais. No que diz respeito ao debate público, todavia, trata-se de uma presença auto limitada. Salvo se o poeta escreve regularmente uma coluna de crônica ou crítica, a sua existência não é computada no meio intelectual como seria, por exemplo, até os anos 50 do séc. XX, quando a poesia contava com um espaço de publicação popular na maioria dos jornais importantes e os grande nomes modernistas gozavam de certa popularidade.

No multiverso do séc XXI, o espaço literário é esquálido e cada vez mais absorvido pelo sumidouro das mídias digitais. O contemporâneo é cada vez menos duradouro e notável e reside mais numa expectativa do que numa consolidação. É uma paisagem que não flui e nem se toca, mas espelha-se por força da reação direta dos demais, para daí se dissolver. Como afirma o professor e crítico Alfonso Beradinelli, em seu Direita e esquerda na literatura (Âyiné, 2016), o presente, se contraposto apenas a si mesmo, sem perspectiva histórica, torna-se auto-referencial.

Em tempos que o moderno é disputado a unha por críticos e escritores que a cena literária distingue cada vez menos, a sorte às vezes é como a solução de uma roleta. O melancólico dos sistemas competitivos (como o literário) é que a exclusão cria uma espécie de vácuo de distinção dos mais aptos a encarar as exigências estéticas e morais da contemporaneidade (ultraneoliberal, conforme aprecia repetir o filósofo cult destes tempos, o germano-coreano Byung Chul-Han). Nesse aspecto, conceitos como bibliodiversidade e universalismo literário perdem-se no vazio gerado pelos sistemas de legitimação e no espólio verificável dos mais vendidos. Tornam-se palavras ocas, pois o contemporâneo encara desinteressadamente, como o angelus novus do “conceito de história” benjaminiano, para o que ele mesmo simultaneamente produz e espedaça.

Paul Klee – Angelus Novus

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O descolamento da poesia contemporâneaO descolamento da poesia contemporânea

Não há nada melhor para fixar o retrato de uma geração de escritores do que a publicação de uma antologia “definitiva”. Isso é um dado histórico na literatura, não suposição pessoal. Idealmente, se chancelada por um figurão acadêmico, um “entendido”, a antologia costuma ser ao mesmo tempo celebração de alguns e pá de cal na esperança de muitos outros em pleitear um espacinho na glória, essa ambição imaterial e supostamente perpétua que tanto fascina os mais incautos espíritos quanto envenena as relações entre as pessoas. O paradoxo não é meu, eu apenas o noto e gostaria muito mesmo de estar errado em minha interpretação acerca da competitividade desembestada que há no meio literário contemporâneo e, talvez, de todos os tempos.

Há cerca de dois anos, o livro é de 2017, coube à compositora, cantora e diletante Adriana Calcanhoto a fixação de um cânone da poesia contemporânea. Escolhida pela mais influente editora nacional, a Companhia das Letras, Adriana simplesmente fez reunir o que a ela pareceu “ter a ver” (sic) com o seu próprio filtro. Com a ressalva de trazer em seu próprio título a denominação de “incompleta”, a antologia, de acordo com reportagem da Folha de São Paulo, poderia ter sido realizada em muitos volumes, mas a organizadora teria optado por fazê-la em um apenas, reunindo exemplos de 41 autores nascidos entre 1970 e 1990. Pouco tempo antes, uma antologia preparada a pedido da Folha de São Paulo tinha abarcado um universo um pouco maior, com 70 poetas.

Datando uma contemporaneidade essencialmente “jovem”, a antologia de Adriana parece ser sobretudo um mostruário de uma determinada dicção “jovem”. Para mim, que penso em “jovem” como um atributo dos adolescentes, o termo se esgotaria lá pelos vinte e poucos anos. Depois disso, o que vejo são adultos, muito embora nunca tenha sido tão complexa a definição destes limites. Seja como for, a antologia preparada por Adriana é realmente um cardápio de boa poesia, a meu gosto, embora certamente tenham ficado de fora dela outros excelentes poetas. É o imponderável em questão. Mas, ao contrário de denominá-la por “contemporânea” eu diria “recente” ou, sendo irônico mesmo, “descolada”.

Para além das acepções sociológicas, é preciso clarificar o fato de que contemporâneas são todas as pessoas vivas de um mesmo período de tempo, quer tenham vinte e poucos ou oitenta e tantos anos de vida. No que me importa dizer aqui, é a definição a que me atenho. Sob esse ponto de vista absolutamente geracional, é bem interessante o uso da antologia de Calcanhoto para observarem-se características comuns, influências, etc. No caso da antologia em questão, salta aos olhos uma semelhança notável no uso do verso livre, do coloquial quase crônica e também de uma estética liberal, ainda que não necessariamente libertária ou politicamente engajada. Se essas características podem resumir as qualidades de toda a poesia realizada atualmente, este é outro debate e, para mim ao menos, muito mais inacessível.

Não é preciso que eu diga o quão polêmico foi a publicação da antologia e o número de reclamações, postagens, discussões e etc. A julgar pelo prêmio Oceanos, um dos principais do país e no qual centenas de poetas anualmente inscrevem seus livros no afã de concorrer, é compreensível a grita. Não compreendê-la, sim, é o que seria incompreensível.

Ainda que noutra qualidade de polêmica, no mesmo ano, 2017, foi escolhido para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras o poeta, critico e professor de filosofia Antônio Cícero. Porque as unanimidades quase sempre ocorrem aos já falecidos, obviamente a escolha suscitou desagrados. Como o dito logo acima, seria incompreensível é se não suscitasse. Pode-se sem dúvida objetar pela qualidade literária de seus livros, pertinência, pela própria credibilidade da Academia, o que seja, mas a indicação sobretudo ofende exatamente essa noção de contemporaneidade. Cícero é um poeta que tanto escreve dentro de uma vertente formalista quanto mais livre, mas também flerta com a canção popular e, o mais grave de tudo, com a filosofia.

Nesse ponto, realmente a porca torce o rabo, desculpem-me o dito abrupto, porque se há um preconceito visceral da poesia brasileira é em relação à filosofia. Uma não pode ser a outra e, de fato, não ocupam o mesmo espaço nem requerem as mesmas características, mas fazem um namoro fascinante que poucos, como Cícero, conseguiram levar a um casamento. Isso é minha opinião. Os namoros da poesia brasileira com a filosofia ou, noutro extremo, com a canção popular, são sempre muito mais reclamados do que com uma possível tradição com o bom humor. Quando o flerte é com a filosofia, simplesmente ocorre o veto e a determinação estranhamente provém (no mais das vezes) mais dos poetas que dos filósofos. Nesse sentido, pelo menos, ocorreram recentemente debates acalorados nas páginas do mais importante jornal brasileiro e daí afora (ver o artigo em que Mariella Masagão acusa a poesia contemporânea de “sisuda” e “hermética”).

Mas eu não diria isso apenas de Cícero, outros poetas vivos (não tão joviais quanto os antologizados por Adriana) e atuantes também vão à berlinda com os temas metafísicos, do pensamento e da reflexão. Penso que são contemporâneos também e sobretudo porque sua temática não é casuística ou delimitada temporalmente. Nem maiores nem melhores que os outros, isso não, pois não é meu critério, mas me parece absolutamente incompreensível apontar a poesia contemporânea e, ao mesmo tempo, sepultar em vida poetas produtivos e com uma obra complexa ou obliterá-los em razão, ora veja-se, da sua “lírica”. Esse é que me parece ser, aliás, o descolamento mais impressionante da poesia contemporânea: para com a subjetividade. Isso que não estou falando aqui dos que não publicam ou deixaram de publicar (por n razões), mas continuam escrevendo. Ou seus “títulos” de poetas foram cassados porque seus nomes não estão nas feiras e festas literárias e antologias da hora?

Seja como for, na minha opinião, há muita injustiça no mundo e continuará havendo; sou muito pessimista em relação a isso. Eu apenas considero relevante apontá-la e suas nuances e implicações secundárias. Espero que seja tolerado por isso.

***

A título de curiosidade, porque foge ao assunto (ou o circunscreve), só há pouco fui assistir ao filme realizado em homenagem ao cantor Freddie Mercury, compositor e vocalista da banda de rock britânica Queen. No filme, além dos nostálgicos momentos musicais, há um momento breve que é muito tocante em meu ponto de vista. A cena transcorre quando a banda está dissolvida, antes do regresso no Live Aid, e Mercury está solitário, já se sabe soropositivo e tenta reatar com o restante dos músicos pois deseja volta a cantar com o grupo.

Num encontro promovido pelo produtor, os músicos aceitam conversar com aquele que os havia dispensado num surto arrogante. Antes de recebê-lo, porém, o guitarrista Brian May, devoto à genialidade do cantor e amigo, resolve dar um “gelo” em Mercury. Os demais integrantes da banda não irão simplesmente recebê-lo com uma festa. Então ele simplesmente alega que a banda tem de conversar um pouco sem a presença de Freddie para decidir. Acontece que os integrantes da banda não falam absolutamente nada. Não trocam uma palavra porque não tinham nada a dizer, mas queriam que o astro de carisma irresistível pensasse um pouco com seus botões, sozinho, e percebesse que precisava dos outros mais até do que eles precisavam dele. Faz parte de ser uma melhor pessoa reconhecer o caráter intrinsecamente humilhante que há na vaidade excessiva.

Essa noção de coadjuvar, de simplesmente “estar com” e de não “estar para este ou aquele” é em meu ponto de vista uma das faltas mais melancólicas da literatura, ainda que não expressa em versos e nem sempre mostrada tão bem quanto após o advento das redes sociais. Como diz o autor (também não antologizável, já que rapper) Mano Brown, “ninguém quer ser coadjuvante de ninguém”. Alguém o refutaria? É que é muito próprio das sociedades violentas, como o Brasil, a escassíssima simpatia para além das listas vip, dos círculos preferenciais, das panelinhas tediosas. Reconhecer a necessidade da presença dos outros não é um traço de grandeza ou nobreza, mas de reconhecimento devido, sobretudo de respeito interpessoal. E de um viés democrático que, infelizmente, não está tão evidente quanto gostaríamos em nosso cordial modo de ser.

Mas notem que nem sempre fomos assim ou, não sei, talvez tenhamos sido mesmo e só agora nos é facultado esclarecê-lo. Sempre que penso nisso, lembro-me dessa foto e, ainda que seja impossível entender o que passaria naquelas cabeças, eu nunca vejo nela um pódio. Mas eu sou um lírico, não contem comigo para espezinhar a malevolência humana. O que eu tenho mais dos poetas é um pouco de pena, porque julgo entender um pouco do que os anima. Para mim, são pobres estrelas desconsteladas, sobrando no vazio noturno, com suas arestas ferindo a poesia inacessível da noite..

O boom orwellianoO boom orwelliano

Revista Amálgama

Caso desejasse, alguém poderia atravessar o ano de 2021 comparando as novíssimas traduções para um dos principais “lançamentos” editoriais do ano: George Orwell. Não é mau. Trata-se, afinal, de uma obra prolífica que, neste repentino boom comercial, todavia parece concentrar-se em apenas dois de seus títulos, Animal Farm e Nineteen Eighty-Four. É bem natural que seja assim. Ambos são romances que atravessam o tempo pela alegoria que fazem em relação ao temor totalitário de todos os tempos e foram escritos e publicados logo do apogeu da era mais sombria do séc. XX, quando os titãs autocratas de então se batiam, por meio dos seus soldados e maquinário, na ânsia de colonizar o mundo e garantir nele a preservação dessa espécie de governo.

Comparando-se aos títulos que costumam frequentar as listas de mais vendidos, realmente não é mau que Orwell (pseudônimo de Arthur Eric Blair) venha a confirmar-se como um habitué do rol de títulos mais cobiçado do sistema literário. Normalmente, há pouca literatura (ainda mais de boa qualidade) em evidência nessas apurações e o mero interesse num autor fundamental para a compreensão histórica da crise mundial dos anos mil e novecentos deveria representar um alento a todos aqueles devotos à leitura enquanto hábito positivo.

Longe de ser uma casualidade, o fenômeno editorial orwelliano se dá por uma dupla detratação. Por um lado, sua obra teria muito em comum com o gênero distópico tão em evidência nos meios audiovisuais e, por outro, a liberação dos direitos de autoria (vencido o prazo de setenta anos de morte do autor) minoraria os custos editoriais. Pode ser. Isso explicaria a blitzkrieg comercial dos múltiplos “lançamentos” das mais recentes traduções de seus dois principais romances.

Essencialmente, não há nada de errado e nem de mau nisso. Sempre que decaem os direitos de um autor cujo interesse popular é grande, isso costuma acontecer. Recentemente, o poeta português Fernando Pessoa passou por um boom semelhante, com muitas edições paralelas de suas obras sendo publicadas e comercializadas, desde o paperback mais acessível até edições acartonadas em boxes com um trabalho mais meticuloso. Em sã consciência, num país que amarga índices de leitura literária muito fracos, alguém poderia dizer que há algum problema nisso? Bem, pode e não é um problema sem sentido, dado que um dos sintomas mais visíveis desse súbito fenômeno poderia indicar que, por evidente, seriam os direitos autorais os responsáveis pelo encarecimento do livro nacional. Isso é o mesmo que afirmar que bastaria, portanto, suprimir tais direitos para que se tivessem finalmente livros mais acessíveis? Evidentemente, não.

Em primeiro lugar, há pouquíssima notícia de que autores (célebres ou desconhecidos) recebam valores significativos de direitos de venda e que tais dividendos sejam contabilizados com alguma transparência; em segundo, apenas idealmente o custo final com direitos representaria em torno de 10% da arrecadação; na prática, os últimos autores nacionais a sobreviverem com essa espécie de renda ainda remontam aos anos 60 e 70 do séc. XX. Como é sabido, escritores costumam exercer outras atividades comerciais a fim de perceberem ganhos monetários, tais como palestras, cursos, oficinas, etc. E também não é desconhecido que o metiér literário é também exercido por pessoas com outras fontes de renda mais seguras e que, inclusive, o mercado de livros pré-pagos (pelos autores) é bastante expressivo.

Esse cenário supracitado ao mesmo tempo evidencia a fragilidade do ramo e do sistema que o sustém. Isso, todavia, não explica a forma pela qual se desperta o mercado e o interesse aquisitivo das pessoas em condições de investir no objeto livro. Por meio da quinta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, por exemplo, pode-se saber muito acerca das motivações predominantes no acesso ao livro e, pasme-se ou não, critérios religiosos preponderam em relação aos do gosto literário. Dessa forma, ainda que se subtraiam os improváveis custos com direitos de autor (e seus respectivos espólios e gestores), trata-se invariavelmente de um boom com hora de acabar. Isto é, na dinâmica comercial, conta-se inclusive com o encalhe de títulos e o respectivo destino final das obras: a conversão em aparas que tanto chocou o mundo letrado há alguns anos no caso Cosac Naify.

Ao fim e ao cabo do fenômeno Orwell, restará que apenas seus títulos “bons de venda” receberão a momentânea benção multiplicadora dos livros. É de duvidar que títulos menos glamorosos do autor, como Na pior em Paris e Londres, recebam ao menos novas reimpressões. De resto, o ramo permanecerá dependente do seu setor menos célebre e do gosto predominante, livros religiosos e psicografados além da infalível autoajuda. É daí que não há milagres operando no caso Orwell, apenas que se pode ver que, dos míseros percentuais que se destinariam aos autores, ainda se consegue fazer uma indústria.

Poesia para quêPoesia para quê

Não foram muitos os críticos (críticos de verdade, com carreira nisso) que comentaram comigo sobre coisas que andei escrevendo nessa última década. Afora estes poucos, recebi de alguns outros até em mais evidência um “gostei”, um “impressionante” e alguns “lindos”, embora estes, para o efeito de crítica, valham muito pouco, se é que valem algo. Mas esses poucos a quem me refiro foram muito especiais. Detiveram-se em mim muito mais que eu merecia e, aparentemente, mais que habitualmente críticos e estudiosos hoje parecem reservar à leitura, haja vista seu afinco e comparecimento nas redes sociais.

Curioso é que as duas pessoas em questão, os professores Cícero Galeno Lopes e Carlos Felipe Moisés, leram coisas diferentes. O prof. Cicero leu minha prosa, meus contos rurais, enquanto que o prof. Carlos Felipe Moisés leu minha poesia, a primeira versão dos poemas de Falso Alarde. Trágico, mas não curioso, é o fato de que meu diálogo com eles foi brutalmente interrompido pela morte de ambos, fatos que aconteceram num período relativamente curto, de poucos meses, no ano de 2017. Certamente não perdi apenas eu com sua partida, mas para mim foram muito impactantes, ainda mais porque a ambos fiquei devendo respostas que, por minha demora, não lhes chegaram nunca.

No Rio Grande do Sul, o professor Cícero estudava – como pouco se estuda hoje – a vertente literária que trata do mundo rural do interior do estado. E eu só posso restar agradecido, senão espantado, porque ele não apenas leu como entendeu o propósito daqueles contos tão sentimentais que reuni em A aposta. E notou, como eu havia notado por outros caminhos, a ausência paulatina tanto de uma aproximação temporal ao presente (e um consequente congelamento histórico), quanto do preconceito crítico e acadêmico quanto aos temas rurais e do interior, fundantes (e de repente abandonados) da literatura rio-grandense.

De outro lado, o professor Carlos Felipe Moisés tinha (como eu tenho) preferência declarada e manifesta a respeito da poesia mais subjetiva, não tão voltada ao mundo da concretude e objetividade. Além disso, tinha ele um dos estudos mais consistentes a respeito da poesia de Fernando Pessoa no Brasil, talvez comparável apenas ao da professora Leyla Perrone Moisés. Eu, como diletante admirador da obra pessoana, pude ter uma nesga da sua compreensão a respeito de Pessoa e, por felicidade empírica, muitas impressões coincidentes. No entanto, para além disso e ao contrário do que aconteceu com Cícero, a interrupção brutal de nossa correspondência pode ser continuada pela leitura de seus livros de teoria literária. O mais recente deles, este do qual quero comentar um trecho e vai a capa anexa, foi lançado em 2019 pela editora da UNESP, uma editora fabulosa mesmo, talvez hoje a melhor do Brasil em humanidades.

Eu não tinha ideia de que também compartilhava com ele um sentimento dúbio, dúbio de duvidoso, na relação entre poesia e sua “presença” virtual, nas redes sociais. Apesar de seu livro ocupar-se de outras coisas, como as questões políticas e sociais da poesia e suas peculiaridades, de alguns temas já tradicionais como a “inspiração” e a sobrevivência da poesia e suas linguagens, mas é a respeito da leitura, do momento da leitura, que ele decide fazer um voto de desconfiança em relação ao substrato de permanente diluição das redes sociais, no qual pelo ralo temporal fundem-se todas as qualidades de texto e de metáforas, conformando um todo avassalador baseado muito mais na excitação alterada do que na reflexão, muito mais em pensamentos descartáveis que em fluxos de consciência.

Se eu houvesse combinado com ele de unirmos impressões, provavelmente o resultado não seria mais coincidente, mas nunca tratamos desse assunto. Eu ainda hoje não sei dizer se sinto mais estranheza ou complacência quando vejo poesia circulando nas redes sociais. Não é que pense que não possam ou devam poetas deitar seus versos no fluxo contínuo das redes, mas sempre isso me acaba acusando a sensação de anulação do ritmo poético, de dissolução mesmo. Já não se trata mais de uma pesca sem isca, mas de outra ainda mais efêmera, sem linha, sem anzol, só mesmo uma aparência do que de fato é. E isso, todo esse potencial, acaba sempre soterrado pela digressão hostil, pelo sarcasmo e, não raro, pelo escárnio, uma espécie de anti-poesia essencial. É um convívio impossível e cada vez mais doloroso esse.

Também não é só a poesia que é agredida nesse meio ambiente, isso é evidente. A própria comunicação interpessoal acaba reduzida a um ritual simbólico elementar no qual a palavra, a palavra mesmo, é no mais das vezes dispensável. A reação emocional vale mais e é mais visível em seus likes, smiles e loves. A significação empobrece e as relações são diluídas e às vezes simplesmente perdidas no vácuo virtual. Não me espanta que tanto o professor Cícero quanto Carlos Moisés fossem pessoas não afeitas às redes. Mas gastavam e gostavam de gastar muitas e muitas palavras para se fazer entender e isso numa oferta desinteressada.

Essa “coisa”, que é uma coisa rara e ao mesmo tempo poética e prosaica vai se transformando com a internet, é isso que eu sinto, assim como a leitura paciente, demorada e que cumpria a tarefa de nos ensinar a perceber como se da primeira vez, o nunca imaginado nem sentido, como ponderava Carlos Felipe Moisés. Agora é reforço sobre reforço no próprio viés de confirmação. Like sobre like, love sobre love. Há de haver bons poetas nesse mundo assim, sem tempo, certamente há, mas vai ser muito mais difícil para eles nessa disputa interminável pelo mais novo, quando já não há mais opção entre durar e não durar se tornou para a poesia o único tempo possível.