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A divina proporção literária

Revista Parêntese, ed. 150

Que as redes sociais empurraram a literatura num caminho quase sem volta a uma radicalização total da estética de recepção é inconteste para qualquer pessoa que, na qualidade de leitor/usuário das redes, já percebeu isso por conta própria. 

Em 2022, quando os vestígios autônomos de criação literária no mundo digital convergiram para as grandes redes comerciais (Facebook, Twitter, Instagram), deixando no passado a era dos blogues (os anos 2000-10) e tornando obsoletas as tecnologias de mediação criadas com esse propósito (Skoob, Goodreads, etc.), foram mesmo os algoritmos das big techs que abocanharam um sistema literário que reúne características tão elásticas e diversas quanto são os meandros da sociedade brasileira.

O processo ocorreu na velocidade espantosa do desenvolvimento dos gadgets, ou seja, bastou piscar e ele já estava aí. Não tanto assim, é verdade, mas mais ou menos isso.

A data de corte pode ser situada ali por 2010, quando os smartphones da Apple e a popularização do Android tornaram ambulante o acesso à internet. Até então, blogues e redes temáticas como o Orkut dominavam o trânsito de informações, e pontos de referência crítica eram bem mais notáveis que atualmente. Depois, a proliferação de comentaristas em vídeo – os youtubers – fez evaporar os canais de crítica convencionais, quase todos localizados em suplementos literários dos grande jornais, páginas especiais de revistas semanais e veículos especializados.

Hans Robert Jauss, o mais inflexível dos críticos envolvidos na teoria da estética da recepção, ficaria por certo baratinado ao ver como se processa na contemporaneidade o tráfego de influências, a legitimação e a consolidação de carreiras literárias. Para além da desconstrução dos sistemas objetivos, a emergência participativa viabilizou a noção das “comunidades interpretativas” no lugar de uma mediação racionalizante. Gestada nos anos 60 como forma de trazer para a teoria literária a contribuição de Gadamer para o estudo da hermenêutica, no Brasil a teoria foi impulsionada sobretudo a partir da publicação, em 1979, da coletânea A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. A calhar com a crise de leitura diagnosticada nos anos 80, a teoria reposicionou no leitor um poder outrora dissimulado numa relação desigual de valoração. O leitor/receptor dava, dessa forma, lugar ao leitor crítico capaz de por sua ação agir na legitimação autoral dentro do sistema literário.

Falar em leitura e situá-la dentro de uma crise educacional, como se vê, não consiste em novidade nos estudos literários. A estética da recepção todavia pode ser compreendida como uma guinada que, na era presente de digitalização de tudo, empoderou o leitor justamente no momento em que mais se diz que a crise encontra-se mais do que estabelecida: estaria efetivamente consolidada. Isso pode ser verificado pragmaticamente por meio dos números obtidos nas pesquisas regulares que o setor editorial, principalmente por meio da Câmara Brasileira do Livro, vem executando no Brasil, aferindo também o impacto das mídias digitais.

Bem como Jauss e Norman Holland, críticos até então definitivos da história literária no séc. XX, em que podemos acomodar Barthes, Benjamin e até mesmo as correntes psicanalíticas lacanianas, e os analistas do discurso, os estruturalistas e os pós-estruturalistas, todos, sem exceção, precisariam esfregar os olhos antes de redigir uma frase acerca do boom comunicativo da internet nos anos 2020. Para não colaborar muito, as ciências sociais também oferecem um olhar muito receoso a respeito do mundo virtual. Nem perto do que fizeram no séc. XX pensadores como Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Erving Goffmann e outros tantos, para ficarmos nos mais populares.

Embora seja suficiente usar uma hora/dia nas redes sociais para perceber-se a força autoconfigurativa das redes, isto é, a transmigração entre os papéis de crítico e leitor, a própria noção de papéis, identidade e autenticidade se encontra presentemente fora de qualquer lugar. Nisso, é de se perguntar, portanto, para qual direção dirigir o olhar. Porque concentrada cada vez mais no imperativo de leitor e no decaimento do apanhado crítico em condições de suportar as condições meteóricas de surgimento/desaparecimento autoral, a estética da recepção volta a ser uma perspectiva em condições de ventilar a areia do rosto de quem quer que queira debruçar-se no estudo literário na era da “economia da atenção”. (“Era da economia da atenção” é o termo utilizado no marketing contemporâneo para o estudo de formas de manutenção da atenção dos consumidores diante da informação torrencial).

Já a noção de sistema literário predominante no séc. XX resta em prejuízo diante da maleabilidade dos meios hoje disponíveis aos autores. É provável que hoje seria mais adequado etiquetar na nuvem os valores literários do que reunir uma bibliografia. Dado que o substrato literário parece ser menos relevante do que o modo de leitura, é muito possível que qualquer um de nós já tenha se maravilhado com um texto jamais publicado em papel. Não é o mais comum, uma vez que o mercado editorial (essa parcela nem um pouco passiva do sistema literário) costuma agir rapidamente no sentido de transformar os bens intangíveis em material fungível. No horizonte literário, há ainda que entender melhor a superveniência dos tokens e da fungibilidade técnica, conceito quase abstrato que vai se notabilizando como fonte de sustentação dos negócios no capitalismo tecnológico.

Evidente não é para todos que observam o mundo literário, mas é relativamente simples apanhar uma leva de nomes de autores que capitalizaram muito bem a esfera de atenção digital trazendo para o mundo das redes um comportamento de marketing e engajamento mais usuais na publicidade. Funciona bem, afinal o meio é maleável e nele coexistem informações de toda espécie. Na literatura, sobressai-se visivelmente o gênero poético, provavelmente devido ao formato breve e condensação temática. Aqui não abordo nomes específicos, mas parece que o fenômeno dos instapoets (poetas que publicam predominantemente no Instagram) parece ser o caso mais potente entre todos.

De tudo isso, efetivamente não se deve concluir que o leitor na era da economia da atenção é passivo ou, por outro lado, suficientemente informado para portar-se como um crítico legitimador. Por mais curtido que um autor possa ser, isso equivale sempre a um sucesso de público. A crítica, embora reduzida e confinada cada vez mais aos estudos de pós-graduação, persiste e num ritmo muito mais lento do que verificado, por exemplo, até os anos 60, quando a televisão tomou da leitura literária uma parcela considerável de atenção do público. Aliada ao encerramento e diminuição de fontes impressas, a dificuldade de fixação canônica encontra-se agora embaraçada num liame complexo entre “cultura popular” e “alta cultura”, isso considerando a multiplicidade incontável de temáticas e fatias de interesse.

Pense-se nisso e na competição que os autores têm para com outras espécies de conteúdo, para com outros autores e para consigo próprios, pois a manutenção de um público leitor fidelizado é empreitada de altíssima exigência. É preciso alimentar constantemente o vínculo e participar ativamente dele numa nova divina proporção, algo entre o entusiasmo e a reticência. É preciso atender às demandas estéticas, políticas e morais do público ou nada feito. E entrelaçar-se nele numa partilha real ou pelo menos com sinais de realismo, favorecendo os enlaces promovidos pelos dotes simpáticos dos algoritmos. E zelar pela interlocução das subjetividades agora totalmente expostas. 

Como se trata de um mundo heraclitiano, é preciso evitar a repetição e privilegiar o ineditismo. É preciso ser uma agência literária ambulante para publicar e fidelizar leitores, seja o postulante um novato ou um veterano das letras. Felizmente, tudo isso é possível e está ao alcance de qualquer smartphone. Basta força de vontade, insistência e talento. E não necessariamente nessa ordem.

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De década em década, o argentino naturalizado canadense Alberto Manguel refaz do seu principal objeto de estudo: a história da leitura e dos livros. No final de 2017, foi a vez das Edições SESC engrossarem sua bibliografia brasileira com a publicação de O leitor como metáfora.

Autor de dezenas de títulos, dentre os quais os já clássicos A história da leitura (1996) e A biblioteca à noite (2006), Manguel, que em 2016 voltou a Buenos Aires para dirigir a Biblioteca Nacional da Argentina, empreende em seu mais recente livro uma criteriosa investigação taxonômica a respeito dos leitores. Mesmo que possa tratar-se de modelos ideais, ou protótipos, é de pensar se seu objetivo não seria justamente identificar as pessoas potenciais com que atingir tanto através de suas obras quanto por sua atuação a frente da prestigiosa instituição. Seja como for, é bastante provável que ele se valha muitas vezes de sua própria experiência como leitor para uma das mais antigas tarefas que se realiza em bibliotecas: a classificação.

Na proposta de seu ensaio, basicamente o que se distinguiria são três espécies de leitores. Como expresso com muita clareza no título, haveria por primeiro o leitor viajante, ou seja, aquele que porta e deixa-se levar pela silenciosa aventura livresca; os que buscam o isolamento mundano e o conhecimento através da leitura (os ocupantes da torre); os que devoram (e porventura por eles são devorados) livros com avidez indiscriminada e que não poderiam ter denominação diversa de “traças”.

Embora simples, a taxonomia de Manguel tem o apuro de um leitor dos mais experimentados. Ao invés de uma proposição meramente literária ou historicista, Manguel vai organizando, das tradições literárias, as metáforas e significações que o ato de ler revela da relação do humano com o mundo; ao menos em sua experiência, não haveria interpretação do mundo sem leitura e por essa razão o ato de ler espelharia as próprias capacidades interpretativas dos indivíduos. Mas, se serve de advertência, é provável que quem buscar encontrar em seu livro apenas laivos de uma erudição afetada será, entre os leitores, o que mais se frustrará. As citações de Manguel também não obedecem a nem uma espécie de crivo acadêmico e dizem mais respeito aos encontros que escritores e leitores parecem operar durante a experiência de leitura mesmo que séculos após a morte dos primeiros; mesmo que os meios para tanto não sejam necessariamente o do texto impresso. A felicidade da leitura e de seu “ofício”, para Manguel, estaria mais relacionada ao empenho e enlevo que o leitor desenvolve pelos livros a partir do efeito da leitura do que por qualquer culto material do objeto livro.

Transportando as suas diferentes “espécies” de leitores através dos tempos, ele vai dessa forma dirigindo os leitores às suas respectivas metáforas; em determinado momento chega a parecer que deseja mesmo encaminhar os leitores de encontro aos autores que vai identificando em sua taxonomia. Remetendo-se desde a antiguidade sumeriana, através da epopeia cuneiforme de Gilgamesh, passando pelos manuscritos de Dante, os códices de Leonardo e chegando aos já impressos Shakespeare, Cervantes e Montaigne, Manguel avança em direção ao séc. XX ao mesmo tempo em que regressa livremente a autores de todas as épocas, sempre que um autor possa lhe servir na exemplificação das muitas formas de existir no mundo, de comportar-se nele e também de recriar continuamente a experiência da vida, esta que seria a tarefa inadvertida dos escritores de todos os tempos e culturas.

Ao passo em que pode ser percebido tanto quanto uma continuidade de sua permanente exortação à leitura, para leitores menos experientes, todavia, seu livro pode ter um efeito, digamos, acachapante. Ou como poderiam sentir-se leitores inexperientes diante de um desfile intermitente de nomes, títulos e citações? Dotado de um conhecimento que se poderia denominar por enciclopédico e não fossem escritos sem o menor traço de pedantismo, seus livros poderiam muito bem ser tomados como proselitismo cultural ou fútil ostentação. Porém não é disto que se trata; longe disso.

Antes de qualquer coisa, é preciso saber que se trata de um autor cuja principal preocupação é a difusão do hábito da leitura e, a menos que se tenha inventado alguma espécie de malabarismo telepático, parece totalmente impossível a qualquer um a tentativa de advogar em nome dos livros sem mencioná-los. Além disso, em sua gestão na Biblioteca Nacional da Argentina, notadamente Manguel vem investindo em todas as frentes: na conservação de originais, na expansão de coleções, na digitalização e difusão intermidiática e na promoção e atração de novos leitores. Em entrevista concedida ao portal Perfil, logo ao assumir o cargo ele já afirmava desejar perseguir a ideia de uma biblioteca para todos os leitores e interessados. Parece que a ideia borgeana de uma biblioteca universal, pelo menos em solo argentino, encontrou finalmente quem a desejasse continuar.

Não é à toa. Enquanto ao mesmo tempo abandonava a instrução formal da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, por considerar os estudos formais aborrecidos, o diletante Manguel iniciava sua carreira literária concomitantemente a de editor. Em meados da década de 60, tornara-se “ledor” de um Jorge Luis Borges já cego e que coincidentemente dirigia a Biblioteca Nacional da Argentina na mesma época; desse encontro é como se houvesse estabelecido para ele um encantamento pela literatura e, sobretudo, pela leitura enquanto hábito individual. Sua formação, completada pelo trabalho como jornalista e editor, é a de quem erigiu uma carreira viajando através de vários países e investigando incessantemente a história literária. É muito provável, portanto, que Manguel tenha desenvolvido a taxonomia do seu novo livro também a partir da auto-observação.

Quanto ao que se refere ao desejo de fomentar a curiosidade nos demais, este parece ser um hábito comum entre os bibliófilos de um modo geral. Porém, como parece ser recorrente a quem tem por missão institucional propagar o livro e a leitura, um impasse oculto às vezes mostra suas sombras em seu livro. Trata-se da irresolução peremptória da efetividade de qualquer política cultural voltada ao assunto e expressa na dicotomia estabelecida entre, por um lado, a popularização do hábito da leitura e, por outro, a especialização do público leitor.

Provavelmente por ser um autor prolífico e a primeira vez que Manguel está atuando institucionalmente (e logo na mesma biblioteca que Borges dirigiu), outras reflexões a respeito do assunto deverão advir da experiência. Isso no que toca aos interessados no assunto deverá ser um deleite por si só, ainda mais que, após a morte de Umberto Eco, há cada vez mais poucos autores notabilizados pela devoção e divulgação da cultura livresca universal quanto Manguel. Há com certeza os historiadores que se dedicaram ao tema, como Roger Chartier e Robert Darnton, mas em ambas as investidas historiográficas o que se mais pode notar são preocupações que giram em torno de explicar a evolução da tecnicidade da instrumentação escrita, sua reprodutibilidade, análises sobre o colapso do espaço físico das bibliotecas, a expansão contínua dos formatos digitais e a segurança e conservação do conhecimento em vista ao desenvolvimento das tecnologias da informação.

Sem dúvida que todas as preocupações e iniciativas em utilizar beneficamente os recursos tecnológicos são bem vindas e necessários, mas em absoluto não é este o centro das inquietações de Manguel. Para ele, interessa mais seduzir e cativar ao leitor do que porventura ele possa estar perdendo do que condená-lo à danação da ignorância, como, aliás, convém a um bibliotecário proceder. De todo o modo, não se imagine que equilibrar uma equação dessa natureza é tarefa fácil do ponto de vista da gestão cultural de acervos bibliográficos. O que não parece faltar em Manguel, todavia, é o cimento de não desviar-se de um trabalho de lenta e muitas vezes invisível consolidação dos espaços afetivos e também físicos com que uma sociedade se relaciona com a cultura letrada, que parece cada vez mais dispensar de quem a organize, valorize e promova.

Seja como for, na vizinha Argentina ou aqui mesmo, no Brasil, as dificuldades são inumeráveis e o cenário educacional e cultural um tanto quanto amedrontador. Não são comparáveis, portanto, aos moinhos do Quixote, os desafios de quem propugna por valorizar os livros e a leitura. Neste caso, os gigantes podem ser compreendidos em dados obtidos regularmente através de pesquisas e levantamentos que se fazem em todo o mundo, inclusive no Brasil.

No Brasil, quanto e como se lê?

Dos indicadores e estatísticas a respeito do Brasil contemporâneo, poucos soam tão assustadores quanto os dados sobre proficiência em leitura levantados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Banco Mundial através do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).

No relatório, pode-se saber entre outras coisas que no que diz respeito à eficiência com que um texto escrito é interpretado, o Brasil mantém-se estável desde 2006, mas com indicadores mais distantes da média dos demais países aferidos e, por outro lado, mais próximos das piores taxas, além de projetar uma defasagem em relação aos países desenvolvidos que se resolveria em séculos ainda (cerca de 256 anos). Unindo-se os resultados aos de outras pesquisas, como a Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-Livro e realizada pelo IBOPE, a sensação é de premência de uma calamidade. Trata-se, porém, de uma calamidade silenciosa e que ao longo do tempo tem ensurdecido autoridades, editores, educadores, bibliotecários, autores e também o público leitor.

De que se trata de uma situação complexa quase ninguém duvida e não raro as manchetes dos periódicos triunfam com os maus indicadores brasileiros. O caminho da resignação, sempre o menos escarpado, todavia parece sempre conduzir a um senso de conformidade reincidente. Ajuda menos ainda a combalida autoestima nacional a também reincidente comparação com os dados de leitura da vizinha Argentina. Ainda que a afirmação de que apenas Buenos Aires (ou, num arroubo platino, apenas a Calle Corrientes) pudesse ter mais livrarias do que o Brasil inteiro seja fantasiosa, dados da Market Research World, no assim denominado Índice de Cultura Mundial, informam que, apesar da veracidade comparativa, o país vizinho também não anda fazendo um retrato dos mais excepcionais.

O que se sabe definitivamente é que, de fato, a situação da leitura é grave e afeta o desempenho cognitivo e cultural de toda a sociedade e de muitos países. Uma vez que o possível amparo da resignação mostra-se incapaz de recolocar em movimento a dinâmica e complexa relação entre a cultura letrada e uma população que ainda deveria ser mais e melhor estimulada a relacionar-se com o livro e os bens culturais literários, o que se pode antever é muito trabalho coletivo pela frente e a necessidade de reflexões ponderadas tanto no que confere ao sistema educacional quanto ao literário.

O cada vez mais difícil de contestar é o fato de que o impasse que a crescente expansão tecnológica deveria colocar entre leitor e leitura vem na realidade esgarçando-se cada vez mais. Não se trata de imaginar que isoladamente e sem projetos consistentes o emprego dos recursos tecnológicos resolverá a situação. Conforme os mesmos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o constatável é um decréscimo constante do tempo dedicado à leitura (24% entre a preferência total) em comparação ao incremento do uso individual da internet (47% entre a preferência total).

Nos ensaios e artigos que publicou na imprensa a respeito das questões da escrita e do livro reunidos no livro Papel-Máquina, de 2001, o filósofo franco-magrebino Jacques Derrida veio reforçar sua ideia visionária de 1969, em Gramatologia, quando afirmou que desde aquela época o leitor passava a exercer papel imperativo em relação aos meios e suportes de leitura. Derrida, apesar de ter sido a princípio mais um dos estudiosos a denunciar o “fim do livro”, teve a prudência de ponderar igualmente pela infinitude desse processo. Resta entender se a isso convém chamar de impasse ou paradoxo e aguardar por que outros estudiosos venham também refletir a respeito, afinal trata-se de tema de interesse permanente e universal.

De um modo muitas vezes reducionista, boa parte das análises a respeito da vereda tecnológica e da sobrevivência do livro e do texto literário têm, desde o início do novo século, refletido por vezes mais das apreensões individuais do que uma observação mais apurada do contexto cultural amplo senso. Se na história da civilização certa vez a leitura ocupou papel central na formação cultural e de identidade das nações, de fato é preciso admitir que a tecnologia expandiu boa parte dos limites e cerceamentos que havia até meados do séc. XX. Se já foi o veículo de informação por excelência, fonte de entretenimento e suporte privilegiado de comunicação dos bens culturais, hodiernamente a leitura parece-se mais ao substrato multitudinário de uma gama imensa de informações que o veículo de um determinado cânone literário.

A esse ponto, verificar a inundação de livros (e livros nem sempre são obras, como adverte Derrida) e outros formatos de informação é tarefa de facílima constatação. Se a literatura, de fato, vem convertendo-se em testemunhos autorais de um interesse ao mesmo tempo segmentado e restrito e se há como ainda hoje vivificar o interesse de novas gerações por um mundo distante ou por um passado remoto, livros como os de Manguel, usando aqui de metáfora, parecem-se a faróis avulsos de um mundo mais profundo, instigante e enriquecedor que a leitura criteriosa certamente ainda dá a desvendar às pessoas. Pois a prevalência do livro agora possivelmente esteja mais relacionada a uma necessária recuperação e valoração da leitura propriamente dita do que uma substituição de técnicas e formatos. A falta de tempo, justificativa reiterada pelos desinteressados contumazes na leitura, não é furto que se flagre ou perda que aconteça isoladamente, mas a perda (tanto para pessoas quanto para instituições) é lamentavelmente irreparável e o tempo, como se sabe, brevíssimo.