E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Crônicas Os velhinhos do Centro de Porto Alegre

Os velhinhos do Centro de Porto Alegre

Entre a José Montaury e a Rua da Praia, num remoto ponto quase ao centro da Galeria Chaves, há um café no qual uma eterna reunião dos velhinhos do centro está sempre acontecendo.

Ninguém sabe quando o primeiro chegou até ali, mas fato é que o centro de Porto Alegre é gris como a cabeleira dos velhinhos que ainda não a perderam. Às vezes, de passar sem pressa naquele túnel, sento-me perto deles para ouvir-lhes algo. Algo de que os roube para uma crônica e não lhes falte, que não se rouba nada aos velhos. Isso não se faz.

O interessante deles, em sua conversa, é que os fatos políticos fazem confusões como a escalação dos clubes. E ninguém liga. Parece muito natural. Num alvoroço comedido, eles dizem que o Manga não podia ter tomado aquele gol tão fácil assim. Que o Brizola está na Austrália sem o que fazer, podia voltar e agitar a cabeça de quem às vezes nem parece tê-la. E outras sandices que parecem começar numa década, passar por outra e acabar em nenhuma, com seus olhos meio parados lamentando o futuro que não conhecerão.

Hoje cedo passava ali e notei um livro numa livraria nova e parei para olhar melhor. Nas mesas do café, um velhinho só, como um farol à espera de uma fisionomia conhecida. Sempre resta um, eu já disse. Menos quando as portas fecham no fim da tarde e eles somem como uma espécie de fantasmas vivos. Na calada da fatalidade da noite.

É o último dia da livraria, ela diz. Amanhã não estará mais ali. O ponto, diz a vendedora, se tornou caro demais para tão poucos leitores. O lugar é estranho e a vendedora diz que é a última livraria do centro. É a última que tenta vender ainda livros novos, de acordo com ela. Mas me parece que há outras, digo-lhe. Ela não sabe. As outras são sebos nas quais os velhinhos vivem a resvalar os olhos desinteressados em livros que não lerão mais do que o nome na capa e o título, pois eles já leram demais.

Apesar dos passos lentos, os velhinhos do centro desenham itinerários precisos nas ruelas. Mal um foi visto entrando ou saindo da Martins ou da Aurora, outro está atravessando a Praça da Alfândega. Sem sentarem-se, lógico, pois há os assaltos previsíveis e os achaques infalíveis.

Os passos lentos procuram caminhos mais curtos e às vezes somem nos táxis sem mais explicações. Para voltar amanhã, se o futuro assim permitir.

Ainda estrangeiro aqui, depois de tanto tempo, o único destino que me permito sonhar em Porto Alegre é me tornar um velhinho destes. Se é que já não me tornei..

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A partir de Robert Walser

Todos dizem ter uma árvore que é sua na cidade. Ter duas é avareza.

A minha, vive numa rua na qual nunca entro. No meu caminho de todo o dia, ela sempre está na contramão ao meu destino. Mesmo assim, eu gasto esses segundos por dia pensando em quem teve a ideia de plantá-la ao invés de mim. Magrinha, quase imperceptível entre postes de luz e casinhas amarrotadas, de bairro, nem sombra tem a oferecer.

Já no campo as árvores não são de ninguém. Os animais não as reclamam mais do que precisam. Os pássaros ocupam-nas um pouco só e partem. Nem o vento se deposita em demasia, no pacto de manter intactas folhas e flores.

Por mais inóspita a cidade, todas têm dessas árvores com dono cujas vidas tem sido apenas ser esquecidas. Paradas, não cansam de esperar o regresso dos pés da criança que um dia a escalou, o bêbado que entendeu em suas raízes um improvável regaço. Ou nem que fosse o cortejo das cruéis formigas cortadeiras. Mas não vem ninguém. Todos passam.

Contra o céu enfumaçado, açodada, suspira a minha arvorezinha. E insinua um cansaço apenas pelos braços curvos. A um tempo solene e humilde, a verdade é que não é de ninguém. Nunca foi. Se ela pudesse, diria “nem sua”..

Medo e sobrevivênciaMedo e sobrevivência

Muito antes que eu desenvolvesse o inevitável medo dos boletos, eu tive um pânico absoluto da bruxinha Memeia, personagem dos gibis da Luluzinha. É verdade. Pensando bem, até hoje sinto um desconforto estranho com a apenas aparentemente inocente figura destrambelhada da bruxinha. Embora me pareça que ela não represente qualquer espécie de perigo real, por via das dúvidas eu mantenho um remoto respeito pela menininha e sua bata preta. Outro medo indestrutível que eu desenvolvi na infância foi com o Coronel Urko, do Planeta dos Macacos. Ou melhor, todos os filmes antigos e a série do Planeta dos Macacos me inspiravam e inspiram certo desconforto.

Mas o medo é isso mesmo: é como um gatilho ligado diretamente na adrenal que escapa totalmente ao domínio da racionalidade. No mapa cerebral, ele tem endereço fixo no sistema límbico, na porção da massa cinzenta que temos em comum com praticamente todos os animais e, não por outra razão, predomina na instância dos instintos ao lado da sua meio-irmã: a agressividade.

Se no mundo imperasse a lógica e não a estultice, haveria de ter muito mais monumentos aos medrosos que aos temerários. Se fosse por esses últimos, a espécie não teria nem sobrevivido. Ao sair da caverna, nos teríamos jogado diretamente aos tigres de dente de sabre e teríamos acabado ali mesmo, na porta da toca. Precisou um prudente de plantão para alertar aos demais quanto ao risco evidente de enfrentar feras com pedras e galhos de árvore e pensar em estratégia.

Eu não tenho dúvida de que uma das razões principais do sucesso do Covid se deve ao fato de sua invisibilidade e também de uma arrogância do ser humano contemporâneo em situar-se num lugar privilegiado na natureza. Ou seja, um pouco de medo real não faria mal a ninguém, mas essa é justamente a dificuldade no caso da pandemia: não há uma imagem a ser temida e mesmo a figura do vírus, por minúscula, é tratada pela maioria das pessoas como se não existisse.

Quando eu era criança e sentia medo da bruxinha Memeia eu reconhecia um fator de estranheza na personagem, já que ela introduzia uma aparência e comportamento dissonante entre uma enormidade de outras personagens inocentes. Estava ela ali alertando que não há só inocência no mundo e que, ainda mais grave, ela se oculta numa aparente situação de normalidade, como uma espécie de camuflagem. O mesmo com o Planeta dos Macacos, afinal, é muito insólito que os seres humanos possam ser escravizados por animais. Também uma normalidade aparente está acobertando uma situação terrível, assustadora. Não muito diferente da pandemia também.

O que parece é que poucos detectam um padrão que inspire medo e prudência a não ser que se viva de perto ou em si mesmo o aprendizado da doença e da fragilidade da condição humana. Por isso, a ansiedade é como um medo difuso, desorganizado e insuficiente para a autoproteção e se tornou a sensação predominante nesses dias. Existe a consciência de um risco, mas também uma enorme dificuldade em localizá-lo e precisá-lo com clareza.

Por essas e por outras, já que o vírus e seu contágio são invisíveis, o temor que ele inspira nas pessoas é fraco porque sobrenatural, ou seja, não é pelo seu comportamento evidente, mas pelo que se pode imaginar a seu respeito, com as devidas matizes e informações de cada um.

Como se trata de uma população sem noção e temerária, o contágio é descontrolado. Normalmente, as pessoas temerárias não esboçam uma reação de medo ao ver um gráfico, ao contabilizar números, para elas isso é um cenário tranquilo, administrável na sua neurose cotidiana. São as mesmas pessoas que expõe a comunidade ao risco por serem tomadas de um sentimento de invulnerabilidade.

Este mundo (e também o novo normal) é o império do homo demens e essa época o antropoceno que vai se arruinando dia a dia. O Covid, nesse caso, tem muito pouco trabalho e, se pudesse, o que ele faria mesmo é agradecer as facilidades oferecidas. Nunca foi tão fácil colonizar uma espécie que não tem medo e se julga acima da natureza.

São JuéversonSão Juéverson

Se houver justiça nesse mundo, no futuro, um dia de veneração será reservado nesse país brasileiro a São Juéverson.

Ele ainda santo não é, mas é questão de tempo para que se reconheça a beatitude dessa criatura de Deus.

Eu o conheço há pelo menos meia dúzia de anos, que é o tempo em que o vejo, no supermercado, do lado de dentro do balcão da fiambreria. Sempre a mesma placidez, o gesto imparcial, a correção platônica que o Juéverson oferece de bom grado aos clientes dos seus patrões que, não tenho dúvida disso, sequer suspeitam da sua existência.

Do Juéverson nunca ninguém ouviu um “Tá bom assim?”, diante a um deslize de microgramas nos fatiados. Ele corrige seus erros, coisa que a maioria das pessoas simplesmente não faz, quando intencionalmente não piora, sabe-se lá por que razão. E acerta as pilhas de muzzarela, presunto ou mortadela com a precisão de um robô e a delicadeza de um ourives.

Mesmo nunca tendo ganhado um elogio por isso, o Juéverson exibe aquela satisfação inatacável de quem está fazendo o certo pelo certo. Nem o nome esdrúxulo nunca foi capaz de lhe importunar o semblante sereno, mesmo quando clientes engraçadinhos erram por gosto a sua pronúncia, suprimindo o “u” intruso e o “v” trocado pelo “f”.

“É Juéverson mesmo! E eu adoro o nome que a minha mãe escolheu pra mim!”, ele diz sempre que indagado a respeito, sem nem suspeitar do assédio e da importunação embutidos ali ou fazendo parecer que não suspeita.

Aos “tira uma pouquinho”, “bota mais umas duas fatias”, “não, troca pelos daquela outra pilha ali”, “acho que eu não vou querer desse” e “eu não falei duzentas gramas?” de todo o santo dia, o Juéverson exibe sempre o seu sorriso impávido, de Gioconda. E continua o serviço sem nunca olhar para o tamanho da fila, mas plenamente atento à precisão das solicitações inacreditáves que lhe fazem.

No futuro ainda mais distante, se houver mesmo justiça no mundo, não se dirá mais “paciência de Jó”, mas “paciência de Juéverson”.

Mas e o milagre para ser santo? Devem estar fazendo contas os incréus…

Considere apenas que, mesmo em face do seu direito ao homicídio, ele jamais o cometeu. No meu, o critério é o bastante. Não por isso, há mais de 10 meses o Juéverson não erra um pedido. É mandar e pesar. Sempre na bucha. O que seria isso, inclementes, se não ajuda divina?

São Juéverson, residente desde o nascimento na Restinga, em Porto Alegre, filho da dona Mariana e do seu Zacarias. Funcionário na fiambreria do Zaffari há seis anos. Ficha limpa. Padroeiro do queijo laminado e da salsicha a granel.