Coisas outras

Num limiar, numa pequena fresta entre os gêneros literários mais “nobres”, é onde foi se alojar a crônica. O seu aspecto simples, comum, prosaico, às vezes simplório mesmo, ao longo do tempo tornou o gênero o mais praticado pelos leitores. Sim, pelos leitores, pois a crônica é o gênero no qual o leitor mais toma parte ativa e do qual se pede cumplicidade e concessão desde a primeira letra.

Quero dizer com isso que faz muito sentido um poeta escrever uma obra para a posteridade, por exemplo, mas nem um sentido isso faz para o cronista. A poesia é gênero que mira a eternidade enquanto a crônica vislumbra quando muito o horizonte do momento. A brevidade do momento e, às vezes, a anotação de um pensamento qualquer. Sua durabilidade depende de um sentido de universalidade distinto de outros gêneros. Um que se estabelece, por contraditório que pareça, na fixação do efêmero.

Mas aqui, para encerrar de uma vez essas considerações iniciais, interessa mesmo dizer que as definições de crônica sabidamente nunca chegaram a um consenso e cada cronista tem lá suas especificações e instruções particulares, como se tratasse de fórmula alquímica. Ou um modo de agir.

Enquanto alguns se dedicam mais ao cotidiano, outros vão à berlinda com a ficção, outros ainda se dedicam ao humour ou sentimentalismo, enfim, as margens são muitas, mas o que talvez mais importe seja que a crônica é a escrita desarmada por excelência, e que não deseja comprovar coisa alguma, muito mais oferecer o olhar do escritor conforme ele é menos articulado e consequentemente mais espontâneo. Eis aqui uma definição universal? Quem dera, mas penso que são apenas as instruções de que falava antes a respeito do que o leitor poderá encontrar neste apanhado.

Possivelmente, as crônicas e textos reunidos neste volume tenham em comum a diferenciação dos demais gêneros do que uma fórmula própria. A ausência de fórmula e premeditação, aliás, é o que sempre me levou a escrever com a displicência necessária a quem deseja escrever para nada comprovar, pelo ímpeto de traduzir em palavras pensamentos e situações que poderiam muito bem passar sem qualquer registro. Ninguém notaria sua falta. Todavia, depois de escritas, tornam-se indispensáveis. Parte mesma das coisas quaisquer que sejam elas: as “coisas”.

O que eu noto mesmo é que nesse conjunto que segue há uma pobreza impressionante de metáforas. Também não há símiles. Dito isso, sabe-se então que a poesia não pode estar erguida sem esse sustentáculo retórico que a ergue no ar, com sua solenidade tamanha. Não. Nestes textos, não há solenidade a não ser aquela encontrada ao acaso nas ruas, onde se tropeçou nela e se a encontrou e abraçou como um pensamento comum, ordinário, reconhecível à distância, do caráter mais humano –  e por isso falível – do vivido e pensado ao  escrito.

Por essas razões (e outras que não me ocorrem agora), o que vem a seguir não tem uma linha temática, um estilo, uma abordagem ou uma proposta definida. De tudo o que tenho escrito, são as coisas menos projetadas. Não eram exatamente para dar em livro, deram ares nas redes sociais, às vezes algum veículo as publicou e muitas vezes foram pensamentos que sem muito esforço nasceram e vivificaram. Não são poemas, mas podem eventualmente trazer o poético. São quase contos, sensações do momento, impressões de alguma coisa. São as coisas outras que nunca almejaram o literário e só mesmo a crônica em sua liberdade e despojamento poderia abraçá-las nessa intenção desfeita em pouco, agora registrada em livro.

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O próximo e o outroO próximo e o outro

Eu não sou muito religioso (também não já sou mais tão ateísta), pelo menos no sentido estrito do termo, mas me comove muito a ideia cristã de igualdade e proximidade. No Natal eu não me sinto muito cristão, mas a Semana Santa sempre mexe comigo, isso que nem nunca comunguei na vida. Nem a ideia da ressurreição ou de vida eterna, muito mais a da paixão.

Como quem se apega às palavras, eu acho mesmo muito bonita a ideia de amar ao próximo. E acho nem tanto pelo “amor”, muito mais pelo “próximo”. É uma maneira delicada e especial de tratar as pessoas, como os que estão e são próximos. Uma ideia sequencial, em certo sentido. Sermos “o próximo” e não “o outro”.

Se há uma coisa que eu implico na psicanálise lacaniana é certo jargão que foi se sofisticando ao ponto do total hermetismo. E o hermetismo é uma reserva discursiva, não se pode esquecer. Eu não curto o tal “outro”. Na minha opinião, é de um distanciamento egocentricamente gélido chamar todos os demais seres humanos de “outro”. Por milhares de anos, a ideia cristã foi chamá-lo de “próximo”, mas tal ideia de proximidade foi varrida pela modernidade. Em seu lugar, ficamos com a diferenciação, a hipertrofia da alteridade e uma série de conceitos em sua maior parte abstratos cuja significação depende de um intérprete, ou seja, não é um código comunicativo comum, partilhável.

Eu, que sempre achei incompreensível a santíssima trindade, acho igualmente inexpugnável a teoria do grande outro. Olho aquela fórmula gráfica, semiótica, e não me parece se relacionar aos seres humanos, mas ao contexto de sua própria formulação, uma espécie de auto-referência. Porém, quando os religiosos falam no “próximo”, trata-se sobretudo de reconhecer um destino comum, idêntico e geral.

“O outro desempenha sempre na vida de um indivíduo o papel de um modelo, de um objeto, de um associado ou de um adversário”, disse Freud. Acho isso uma ideação do humano muito estranha. Para o cristianismo, basta amar ao próximo como a si mesmo. É uma ideia moral ao mesmo tempo rudimentar e muito complexa. Uma exigência que o próprio Jesus encarnou como exemplo ao morrer pelo injusto.

Eu comparo as duas proposições e concluo que a mensagem freudiana cai muito bem no sentimento moderno, mas que também traz em si mesma o sentido de desagregação comunitária que leva à fragmentação e ao estupor emocional. “Amar ao próximo”, todavia, apesar da aparente banalidade, consiste num desafio de auto-proposição. Não é com “o outro” que deve ocorrer, mas consigo mesmo. Pode que seja falacioso em muitos casos, um discurso enganoso, mas é uma questão da subjetividade e, principalmente, de largo alcance e simples compreensão.

Jesus não deixou uma teoria, apenas algumas poucas palavras ocasionais e muito silêncio. Não é sua imagem positiva que nos ficou, mas esse vazio que nos pergunta há dois mil anos, o que fazemos silenciosamente e a sós do amor pelos demais?

Desculpem-me os amigos psicanalistas, mas o indivíduo lá, seja filho de Deus ou não, ele tocou a eternidade. Enquanto a ciência decai, as teorias fracassam e os homens matam-se uns aos outros real e simbolicamente, a sua escassa palavra e exemplo não cessam nunca. Mesmo sendo um ateu ou uma rocha granítica de racionalidade, não tem como não se comover com o pobre do nazareno..

Leitura e bibliofiliaLeitura e bibliofilia

Como os aborígenes que temem que a sua alma fique presa numa fotografia, os bibliófilos brasileiros pretendem evitar a pirataria tornando o preço do livro nacional um dos mais altos do mundo. Não faz muito sentido, mas, tomando-se consequência como causa, o argumento ganha ares de razoabilidade. Parece ciência, mas trata-se de apenas mais um disparate.

O preço do livro nacional é alto por uma série de razões, a menos importante delas é a pirataria. Em recente entrevista concedida ao jornal O Globo, o presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Marcos da Veiga Pereira, confirmou que, para dar conta do setor livreiro, os valores saem das editoras por x (R$10,00) para a venda final por 6x (R$66,00). A variação, portanto, em regra ultrapassa os 600% e, de acordo com os cálculos da reportagem, com uma margem de 50% mantendo o mínimo de lucratividade.

O que o Lucio conclui, examinando esses números? Que os livros poderiam ser mais acessíveis e em muitos casos até mesmo ter preços populares. Que os programas governamentais poderiam muito bem obter contrapartidas públicas reais, não sacolinhas de brindes ou a vala banal das propinas.

O que os bibliófilos concluem? Para evitar a pirataria e a diminuição da procura, vamos aumentar os preços.

No mercado, é difícil encontrar um produto que passe por esse percurso de preços sem que o PROCON precise intervir. Ou o CADE. Mas, por alguma razão, no caso do setor livreiro uma política de preços fundamentada em percepções subjetivas não representa problema nem esses percentuais motivam a atuação dos órgãos de proteção do consumidor. Afinal “livro” e “povo” não têm muito a ver, é o que devem pensar os interessados. Talvez se trate de uma tradição ou da propagação de diagnósticos e compreensões parciais. Ou de um combinado de ambas.

Logo quando publiquem os resultados das pesquisas dos hábitos de leitura nacionais, como os realizados quadrianualmente pelo Instituto Pró-Livro (da CBL e SNEL), também se saberá que culpados são os iletrados e analfabetos funcionais brasileiros, pois deixam de participar desse mercado. Da publicação desses resultados, a mídia se fartará a diagnosticar a situação lamentável da leitura no Brasil. Em letras garrafais, os principais jornais estamparão que em média o brasileiro lê 2 livros ao ano contra 15 da Finlândia. Com os livros custando em média R$ 60,00/unidade, não é difícil de entender porque isso acontece.

E a pirataria, o que faz? A pirataria faz o que o Estado não faz ao providenciar bibliotecas acessíveis a população, que é seu dever. Em países com sistemas de bibliotecas públicas equipados, a pirataria quase em nada participa do “mercado”. Até mesmo porque os serviços de bibliotecas são formas de “pirataria legal” sistematicamente desencorajadas pelo sistema editorial. Daí, portanto, que defender o espaço de bibliotecas numa manutenção desses argumentos é imoral. Editoras não se dignam a doar sobras para bibliotecas. Ao invés disso, preferem inutilizar seus passivos em reciclagem. Duvidam? Eu que duvido. E mudo com prazer minha convicção se puder ver ao menos um convênio ativo entre editoras e qualquer biblioteca brasileira sem que isso passe por uma grande aquisição governamental, uma licitação, um programa, etc.

Nada disso faz mesmo muito sentido, mas é ilustrativo da história cultural brasileira o uso extorsivo do valor simbólico do livro para justificar práticas comerciais abusivas nas quais pirataria e direitos autorais são imbricados no mesmo problema.

Só que este modelo de negócios é tão ruim para as pequenas editoras que é desanimador constatar que mais de 50% do mercado hoje é dominado por uma transnacional, a Penguin Books, e seus selos nacionais, entre os quais a prestigiosa Companhia das Letras e seus subselos. Junte-se 3 ou 4 majors, e então sabemos como a cadeia se comporta e porque se comporta como se comporta: punindo o consumidor com preços elevados e livrando-se de qualquer compromisso educacional duradouro. Business, é disso que se trata e nada além disso.

Outro argumento reincidente na crítica ao hábito de leitura do brasileiro é a comparação aos vizinhos argentinos. Mas além de uma rixa pátria ancestral, essa é uma comparação totalmente improcedente. Tanto a história política quanto educacional argentinas são muito diferentes da brasileira. Há duzentos anos pelo menos os índices de alfabetização interiorizada da Argentina são superiores ao Brasil e o investimento em escolas e bibliotecas comunitárias data da Guerra do Paraguai, basta ver o exemplo de Sarmiento, visionário presidente argentino que fundou mais escolas e bibliotecas no séc XIX lá do que nós em todo o séc. XX cá.

O nosso chegou no boom da II Guerra Mundial, quando experimentamos o milagre brasileiro, mas durou pouco. Antes disso, são notáveis os empreendimentos literários que arruinaram pessoas físicas, tais como Moteiro Lobato e outros. O livro popular não tem uma boa história no Brasil e isso acompanha justamente os índices educacionais de um modo geral. Enquanto os argentinos tem uma relação com o livro de “leitores”, nós temos de “bibliófilos”. É uma questão cultural mesmo, da nossa verve cortesã, de luxo e pompa e breguice. Pois então. É como bibliófilos somos tratados, com preços fora da realidade. Com os bodes expiatórios certos, para que vamos nos preocupar com isso?

É uma pena, mas é como eu vejo as coisas. E estou muito longe de ser/estar feliz por causa disso, ainda mais com o entendimento brucutu do governo atual, de dificultar tudo ainda mais. Às vezes eu penso que viemos no preparando para esse apogeu de realismo que estamos vivendo, só pode ser, ou então não soubemos evitar por arrogância mesmo. Nisso somos tão bons de acusar os argentinos também que é uma forma de não assumir a imensa fraqueza da infantilidade civil que permite roubarmos uns aos outros e tudo o mais, e toda essa tradição de vilanias e brutalidades.

The trapeze swinger (Sam Bean)The trapeze swinger (Sam Bean)

Sam Bean (1974), que também usa o nome artístico Iron & Wine, é cantor e compositor estadunidense de folk rock. Beam lançou seu primeiro álbum como Iron & Wine em 2002, intitulado “The Creek Drank the Cradle”, pela gravadora Sub Pop. “The trapeze swinger” está no álbum “Around the weel”, de 2009.

O trapezista

Por favor, lembre-se de mim
com alegria,
ainda próximo à roseira, rindo
e cheio de machucados no queixo.

Na época em que
contávamos, ainda acordados,
cada carro preto que passava
por sua casa, abaixo da colina,
até que alguém nos pegou na cozinha
com mapas, sob uma cadeia montanhosa,
um cofrinho de porco
e uma remota visão do futuro.

Mas, por favor, lembre-se de mim
carinhosamente…

Ouvi dizer que você continua linda
e que eles ficaram dizendo
que os portões perolados
tinham graffitis eloquentes
tipo “nós nos encontraremos de novo”
e “foda-se o homem”
e “diga para minha mãe não se preocupar”
e anjos com seus cumprimentos
cinzentos
feitos sempre com tanta pressa.

E, por favor, lembre-se de mim
no Halloween
fazendo todos os vizinhos de idiotas
com nossos rostos pintados de branco.

Pela meia-noite
nós esquecemos um ao outro
e quando a manhã chegou
eu estava morto de vergonha.

Somente agora parece tão bobo:
aquela época deixou este mundo
e depois retornou
e agora você está iluminada pela cidade.

Então, por favor, lembre-se de mim
mesmo que da forma errada..

Na janela da mais alta torre
eles passam por nós,
mas alto demais
para ver a estrada vazia no fim da tarde.

Partem e ressoam
iguais aos portões
em torno do reino sagrado
com palavras como
“achados e perdidos”
e “não olhe para baixo”
e “alguém me salve da tentação”.

Por favor, lembre-se de mim
como no sonho,
éramos como bebês esfolados
entre as árvores caídas
e dormindo rápido
à parte os leões e as damas
que lhe chamaram como você prefere
e podem até mesmo
presenteá-la pelo seu comportamento
e uma chance efêmera de ver
um trapézio
balançar tão alto quanto
quem a socorreria.

Mas, por favor, lembre-se de mim
em minha tristeza
e como eu perdi tudo o que queria..

Aqueles cachorros que amam a chuva
perseguindo os trens.

Os pássaros coloridos lá em cima correndo
em círculos em volta do poço
e onde ele descansa
na parede atrás do São Pedro
tão brilhante no cinza
com tinta spray
“quem diabos pode sempre entender?”

E, por favor, lembre-se,
quando puder..

No carro atrás do carnaval,
com minha mão entre seus joelhos
e você virou para mim dizendo
“o espetáculo do trapezista foi maravilhoso”

O trapezista

Please, remember me happily
By the rosebush laughing
With bruises on my chin
The time when we counted every black car passing

Your house beneath the hill and up until
Someone caught us in the kitchen
With maps, a mountain range, a piggy bank
A vision too removed to mention

But please, remember me fondly
I heard from someone you’re still pretty
And then they went on to say that the pearly gates
Had some eloquent graffiti

Like “We’ll meet again” and “Fuck the man”
And “Tell my mother not to worry”
And angels with their gray handshakes
Were always done in such a hurry

And please, remember me at Halloween
Making fools of all the neighbors
Our faces painted white by midnight
We’d forgotten one another

And when the morning came, I was ashamed
Only now it seems so silly
That season left the world and then returned
But now you’re lit up by the city

So please, remember me mistakenly
In the window of the tallest tower call
Then pass us by but much too high
To see the empty road at happy hour

Gleam and resonate just like the gates
Around the holy kingdom
With words like “Lost and found” and “Don’t look down”
And “Someone save temptation”

And please, remember me as in the dream
We had as rug-burned babies
Among the fallen trees and fast asleep
Beside the lions and the ladies

That called you what you like and even might
Give a gift for your behavior
A fleeting chance to see a trapeze
Swinger high as any savior

But please, remember me, my misery
And how it lost me all I wanted
Those dogs that love the rain and chasing trains
The colored birds above their running

In circles ‘round the well and where it spells
On the wall behind St. Peter’s
So bright on cinder gray and spray paint
“Who the hell can see forever?”

And please, remember me seldomly
In the car behind the carnival
My hand between your knees, you turn from me
And said the trapeze act was wonderful

But never meant to last, the clowns that passed
Saw me just come up with anger
When it filled with circus dogs, the parking lot
Had an element of danger

So please, remember me, finally
And all my uphill clawing, my dear
But if I make the pearly gates
Do my best to make a drawing

Of God and Lucifer, a boy and girl
An angel kissing on a sinner
A monkey and a man, a marching band
All around the frightened trapeze swingers