O próximo e o outro

Eu não sou muito religioso (também não já sou mais tão ateísta), pelo menos no sentido estrito do termo, mas me comove muito a ideia cristã de igualdade e proximidade. No Natal eu não me sinto muito cristão, mas a Semana Santa sempre mexe comigo, isso que nem nunca comunguei na vida. Nem a ideia da ressurreição ou de vida eterna, muito mais a da paixão.

Como quem se apega às palavras, eu acho mesmo muito bonita a ideia de amar ao próximo. E acho nem tanto pelo “amor”, muito mais pelo “próximo”. É uma maneira delicada e especial de tratar as pessoas, como os que estão e são próximos. Uma ideia sequencial, em certo sentido. Sermos “o próximo” e não “o outro”.

Se há uma coisa que eu implico na psicanálise lacaniana é certo jargão que foi se sofisticando ao ponto do total hermetismo. E o hermetismo é uma reserva discursiva, não se pode esquecer. Eu não curto o tal “outro”. Na minha opinião, é de um distanciamento egocentricamente gélido chamar todos os demais seres humanos de “outro”. Por milhares de anos, a ideia cristã foi chamá-lo de “próximo”, mas tal ideia de proximidade foi varrida pela modernidade. Em seu lugar, ficamos com a diferenciação, a hipertrofia da alteridade e uma série de conceitos em sua maior parte abstratos cuja significação depende de um intérprete, ou seja, não é um código comunicativo comum, partilhável.

Eu, que sempre achei incompreensível a santíssima trindade, acho igualmente inexpugnável a teoria do grande outro. Olho aquela fórmula gráfica, semiótica, e não me parece se relacionar aos seres humanos, mas ao contexto de sua própria formulação, uma espécie de auto-referência. Porém, quando os religiosos falam no “próximo”, trata-se sobretudo de reconhecer um destino comum, idêntico e geral.

“O outro desempenha sempre na vida de um indivíduo o papel de um modelo, de um objeto, de um associado ou de um adversário”, disse Freud. Acho isso uma ideação do humano muito estranha. Para o cristianismo, basta amar ao próximo como a si mesmo. É uma ideia moral ao mesmo tempo rudimentar e muito complexa. Uma exigência que o próprio Jesus encarnou como exemplo ao morrer pelo injusto.

Eu comparo as duas proposições e concluo que a mensagem freudiana cai muito bem no sentimento moderno, mas que também traz em si mesma o sentido de desagregação comunitária que leva à fragmentação e ao estupor emocional. “Amar ao próximo”, todavia, apesar da aparente banalidade, consiste num desafio de auto-proposição. Não é com “o outro” que deve ocorrer, mas consigo mesmo. Pode que seja falacioso em muitos casos, um discurso enganoso, mas é uma questão da subjetividade e, principalmente, de largo alcance e simples compreensão.

Jesus não deixou uma teoria, apenas algumas poucas palavras ocasionais e muito silêncio. Não é sua imagem positiva que nos ficou, mas esse vazio que nos pergunta há dois mil anos, o que fazemos silenciosamente e a sós do amor pelos demais?

Desculpem-me os amigos psicanalistas, mas o indivíduo lá, seja filho de Deus ou não, ele tocou a eternidade. Enquanto a ciência decai, as teorias fracassam e os homens matam-se uns aos outros real e simbolicamente, a sua escassa palavra e exemplo não cessam nunca. Mesmo sendo um ateu ou uma rocha granítica de racionalidade, não tem como não se comover com o pobre do nazareno..

Deixe uma resposta

Related Post

Da música para a poesiaDa música para a poesia

Talvez se possa dizer que é uma forma de plágio, mas eu às vezes tento reproduzir por escrito, gramaticalmente, os compassos e harmonia de algumas músicas que me encantam. Em sua maioria, são músicas não cantadas, instrumentais, mas também acontece com músicas com letras e o resultado, isso que é o mais estranho, costuma ser completamente diferente dos versos que os letristas originais acomodaram às suas partituras.

O que eu faço é procurar notar os fraseados, os recomeços, os respiros, acentos, andamentos, ligaduras e etc para reproduzir aquela mesma condução musical e, sob ela, encontrar uma espécie de rítmica subjacente. Tudo isso sem manter qualquer relação semântica com o tema original, já que o que me importa, no caso, é a música em seu estado de pureza sonora.

A música, ao passo que pode induzir (e induz) ao sentimento, por outro lado se produz por uma linguagem estranha, indecifrável, e que antecede ao conteúdo verbal. Prova disso é que muitos esquemas rítmicos mais complexos são intraduzíveis nos sistemas métricos disponíveis para os artistas da palavra. E muitas composições são tão ou mais desconexas do que a maioria dos textos escritos, mesmo os mais experimentais.

Não sei quando eu comecei com isso, mas não foi uma decisão racional do estilo “agora vou fazer assim e assado”. Simplesmente procurei seguir a intuição musical alheia por uma linha paralela, sem buscar qualquer ponto de contato com a “matriz”. É uma atividade inversa a da que é mais costumeira, quando compositores tomam do trabalho de poetas e escritores para musicá-los, como no caso do excelente Literary Jukebox da compositora norte-americana Carla Kihlstedt com a musicalização de e. e. cummings e outros tantos poetas anglófonos.

Porque o meu gosto musical é eclético, meu critério é variado, mas segue menos minhas preferências do que minha percepção musical por si mesma. Desta forma, no meu programa de influência — um programa sem qualquer programa — apenas me deixo levar por melodias que vibram para mim de forma especial, de estilos tão diversos como a música folclórica da Noruega quanto o trabalho de sambistas nascidos, crescidos e falecidos no Brasil. E também música pop. E coisas mais experimentais de que eu gosto.

E erudito também, sim, mas aqui tem um detalhe importante: a música erudita costuma ser longa e, por isso, sua “interface” verbal acabaria por resultar muito maior e complexa do que um poema. E na prosa, à exceção da prosa poética, costuma-se eliminar vestígios líricos pareáveis – embora eu já tenha pensado em contos e relatos breves a partir de composições mais extensas.

Mas há músicas que pareceriam levar a um poema e, de repente, se alargam, aumentam, dizem mais do que o enunciado. Nestas, o que eu percebo é uma espécie de eco, uma reverberação narrativa tomada por repercussões culturais, históricas, etc.

* * *

Uma composição que me levou a essa sensação é a “Valsa sem nome”, composição de Baden Powell e letra de Vinicius de Moraes. Abstraia-se da letra de Vinicius e procure-se perceber que a música em si mesma é matriz inesgotável de verbalização. Mesmo as estrofes regulares de Vinicius e o ritmo sincopado da valsa expandem-se no violão solo de Baden.

Como isso pode ser? É que a vibração da música não se prende ao tema, não se prende a nada, ela é a essência na qual se pode alicerçar qualquer coisa, se ela permitir. Não é que Vinicius não tenha escolhido bem (quem escolheria melhor do que ele?), mas o que eu quero dizer é que enquanto a palavra enunciada é um fecho, a música é uma fonte.

A “Valsa sem nome” é um composição com intensa conotação sentimental, mas ela mesma, nos seus enlaces harmônicos, ultrapassa o lirismo convencional da letra de Vinicius. Ali cabe muito mais e também está dito pela melodia muito mais. Isso eu não diria de, por exemplo, “Samba em prelúdio”, para o meu gosto o casamento mais perfeito da dupla de compositores, na qual a letra teria sido composta alta noite, de uma só vez, após o próprio Vinicius ser convencido de que não se tratava a melodia de duas vozes um plágio de Chopin.

A “Valsa sem nome”, por outro lado, ela é um pelo menos um conto. Um conto sem palavras, inteiramente sonoro. Quando a melodia introduz o tema, para mim o que ela está fazendo é assentar um cenário completo. Nessa introdução, menciona seus elementos e fugas apenas insinuando o desfecho, sem revelá-lo. Só depois disso Baden desenvolve o arco imprevisto, aumentando progressivamente a carga dramática quando ele “estoura” as cordas do violão quase junto ao cavalete, como é sua característica. Depois, ele a repete do começo ao fim suavizando-a ao contrário. E o tema – amoroso, sentimental – conclui-se no drama suavizado do arpejo final.

* * *

Pode ser um delírio meu, de ouvir música dessa forma, mas, às vezes, é assim mesmo que eu escuto. Mas a verdade que também é assim que eu leio, distinguindo intuitivamente a escrita musical da estritamente racional, mais direta e monocórdica. Sem desmerecer o trabalho da segunda espécie de autores, que também admiro, eu prefiro os primeiros. E provavelmente a maioria das pessoas leia e escute música assim sem notar que o faça e se identifique, talvez, com os artistas que se expressam com sensibilidade semelhante à sua.

* * *

O disco em que Baden melhor gravou a “Valsa sem Nome”, “Rio das Valsas”, de 1988, eu diria que ele mesmo é como um livro, tal a riqueza de motivos e complexidade das composições. Em 1967, o violonista havia gravado “Poema on guitar”, mas este me parece mais arranjado e, curiosamente, menos poético. Mas parece que ele tinha essa ideia de diálogo poético-musical muito em mente também.

***

Se um dia eu fosse dar um curso sobre criação literária, meu programa principal seria ouvir muita música. Mas não de uma forma estruturalista, com o aparato sensorial-mecânico — com o aparato contemplativo, da alma.

Fragmento de uma crítica abandonada sobre críticas negativasFragmento de uma crítica abandonada sobre críticas negativas

Uma única vez na vida tive vontade de erguer a pena, quer dizer, os dedos ao teclado, para interpelar um autor em razão de sua obra. Felizmente desisti em tempo. Desisti porque me sentiria infeliz só de começar a pensar no assunto. Além de tudo, seria não apenas tempo perdido, seria mal empregado mesmo, afinal, é muito provável que o autor (um consagrado) jamais fosse ler aquilo e eu, como disse, não me comprazo nem um pouco na tarefa de desmontar qualquer autoimagem que alguém possa ter para consigo mesmo, isto é, acho justo que todo autor nutra para com sua autoestima as melhores expectativas. Admiro, sim, por outro lado, algum zelo com uma certa tendência a megalomania, mesmo considerando que, por outro, requer-se sempre um pouco dela para uma empreitada que efetivamente valha a pena. Quer dizer, lamento pela inevitável desfaçatez com que se tratam muitas vezes obras inovadoras, mas há que se considerar que, muitas vezes, ao invés de ser efetivamente o produto inovador a despontar no horizonte da mesmice mental e cultural de um tempo qualquer, possa-se estar vendo apenas um tipo de fantasmagoria, uma miragem, ou, pior de tudo, uma projeção enviesada de tendências caquéticas prestes a esfacelar-se, aí sim, num movimento inovador, mesmo que um localizado num eterno porvir. Admiro, sim, aqueles autores que tem a coragem de ver-se sob essa perspectiva, mas os amigos, infelizmente, costumam impedi-los em tempo.

Scroll-downScroll-down

O normal para as pessoas de todas as épocas sempre foi viver num ou noutro período de guerra, em períodos de dificuldade tremenda, de escassez e penúria. Dificilmente uma geração passaria inteira sem atravessar ou vivenciar alguns eventos histórico marcantes. Me basta pensar nos meus pais, por exemplo, que nasceram antes da Segunda Guerra Mundial. Ou dos meus avós. Esses atravessaram duas guerras, pandemias, ditadores de toda a espécie e nem antibiótico tinha. Meus bisavós viveram uma época em que chegar aos cinquenta anos já era longevidade. E nem havia infância para esse pessoal. Eles pulavam direto das calças curtas para a vida adulta, de trabalho sem facilidades e tecnologia rudimentar, morando em lugares sem estrada, num interior sem horizonte e nem tempo certo.

Mas o destino teria me oferecido (por alguma razão mágica) viver nessa paz perpétua, nessa fruição consumista sem dano e nem tragédia à vista. Nem a ditadura militar, o período mais complicado da história recente, eu vivi direito. Quando dei por mim como ser vivente, já estava tudo se encaminhando para Tancredo e a Nova República. E depois, o mundo político foi mais ou menos sempre um levar com o abdômen o status quo, sem grandes mudanças.

Nas aulas de História no colégio eu até ficava pensando em como teria sido viver em situações e momentos terríveis, mas como um exercício mental mesmo. E não é que se vivesse um estado de coisas equilibrado, mas aparentemente estava meio dado que as coisas seriam meio essa pasmaceira. Sem muro de Berlim, as crises seriam sempre apenas marolinhas na boca dos experts e logo a pujança capitalista sanaria – num passe de mágica – dificuldades imensas, heranças terríveis como a escravidão e uma desigualdade econômica incontornável, sem par no mundo civilizado e que alimenta uma sociedade abertamente violenta, só na fachada feliz.

Não me espanta que morram agora 4000 pessoas/dia e nada aponte no cenário que a sociedade possa mudar o rumo das coisas. É claro. É claro que não. Vivemos no show de Truman, no show do Zuckerberg, causando uns aos outros e não queremos acreditar que essa é uma época trágica protagonizada por nós mesmos e que nos pegou infantilizados ao extremo. E quando eu vejo a geração de septuagenários morrendo, octogenários, eu fico meio em pânico porque com a sua memória se vai a lembrança de como era necessário ser bravo para viver.

Dê uma senha de wifi e umas moedas ao povo e está garantido o show de patetas que nós nos tornamos. Nem originalidade temos nas lamúrias todas iguais. É dar Ctrl + C e Ctrl + V e seguir adiante, num scroll-down sem fim. Mas se essa pandemia e esse governo for apenas o começo de uma crise maior, muito maior, nós ainda assim não hesitaremos em mentir aos nossos filhos e netos de que fizemos todo o possível. Na verdade, fizemos nada. Quase menos que salvar a própria pele, andando que nem baratas tontas, tal o nosso estado de desorientação.