Cosmos

A pior coisa que aconteceu na minha vida escolar foi quando, em 1982, a rede Globo passou a apresentar aos domingos, após o Fantástico, a série Cosmos, projeto de divulgação científica de Carl Sagan e sua esposa Ann Druyian.

Eu não assistia Cosmos no horário noturno, assistia a reprise da semana anterior aos sábados pela madrugada. A série era reprisada ali pelas 6 horas da manhã e não havia nada que me impedisse, a não ser a falta de energia elétrica, de assisti-la enrolado numa coberta naquelas típicas manhãs frias de Bagé.

Eu nunca tive coragem de assistir ao remake de 2004, com a apresentação de Neil DeGrasse Tyson. Seria uma espécie de profanação da memória sobrepor as novas imagens de computação gráfica àquelas primeiras, que se pareciam ainda um pouco aos efeitos de Jornada na Estrelas e Perdidos no Espaço. E a trilha de Vangelis, insubstituível, e que depois foi responsável por que se impedisse sua veiculação e reprodução em função de copyrights.

Com Cosmos eu fiquei sabendo de coisas que a educação formal nunca me ensinou. Pode ser que a memória me traia, mas eu tenho quase absoluta certeza de nunca ter tido nada além de rudimentos das ciências exatas e humanas e mesmo assim ter progredido. Ao longo dos anos escolares, não lembro de ter tido uma explicação mínima sobre o trabalho de Charles Darwin, de Galileu Galilei, de Nicolau Copérnico, J. Kepler, sobre os gregos nada além de Pitágoras (sem nenhuma contextualização de quem foi o sujeito), nada de filósofos e de literatura apenas nomes e períodos sem que precisasse distinguir nada. Em história, um vai e vem de datas desconexas, sem causa nem efeito. Nem em religião aprendia-se nada, isso que a minha era uma escola católica. A ciência sempre dogmática, o oposto do que deve ser. Arte? Nada. E assim tudo.

Quando passei no vestibular, pensava em como alguém com a minha educação poderia se sair tão bem em história, literatura e língua estrangeira sem ter estudado quase nada disso, afinal, precisava me concentrar nos meus déficits, as exatas, ou melhor, os decorebas das exatas. Eu tenho tanto horror às exatas que me recuso a fazer cálculos com números maiores de 1 dígito sem usar uma calculadora. Faço questão de não guardar nada disso e nada do que seja conhecimento aleatório no meu cérebro.

Com Sagan eu entendi pela primeira vez a importância das bibliotecas e quando fui conhecer a única que havia na minha cidade natal, soube que a minha ignorância não era individual, mas coletiva. E que certamente algo estava sendo sabotado em nosso país por meio de uma educação horrível, que ainda predomina. Com Cosmos eu entendi que deveria fugir à mesquinharia e ao reducionismo como o diabo da cruz. E que é sempre melhor assumir a ignorância do que passar recibo de prepotência.

Pessoas que não conseguem relacionar história e ideias não poderiam estar lecionando, mas há aos montes. Apesar de falar da história do universo, Sagan estava sempre atento ao essencial: de que o conhecimento que não leva a humildade é o caminho mais estreito em direção à violência e opressão. Sagan inutilizou para mim quase toda a educação que conheci depois. É uma lástima. Mas eu o agradeço até hoje por isso.

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Uma vizinhaUma vizinha

Até ontem, vivia nessa casa mantida com capricho e cuidado uma vizinha que viveu longos 104 anos de idade.

Quando instalaram numa das lojas do meu condomínio uma lancheria eu fui um dos que não gostou muito da ideia. Questões de higiene me preocupavam, afora um possível incômodo com os transeuntes e frequentadores.

Ela, não.

A Dona Ida estava sempre por ali. Numa mesinha, às vezes acompanhada, às vezes sozinha, quando tinha jogo do Colorado ela sentava-se e bebia uma (ou mais?) cerveja de 600 ml enquanto o time fazia das suas em campo. De acordo com o dono do estabelecimento, era pé quente. Dificilmente o Inter perdia se ela assistia.

Às vezes, eu a via tomando a linha 77, do Menino Deus, e descia poucas paradas adiante, no Zaffari. Fazia suas compras e tomava um táxi de volta para casa.

Ao lado da porta de entrada da sua casa, num banco de madeira, às vezes eu a via sentada com alguma visita. A casa tinha um ar de descanso e só de pousar nela os olhos me acontecia um degelo. Na semana passada ela estava ali, se não me engano. Cuidando com os olhos alguma coisa, um passarinho, a altura da grama, não sei o quê…

Talvez alguém herde ou compre a sua casinha. Não sei se tinha parentes, na verdade falei com ela uma vez apenas, quando num dia de São Cosme e Damião ela postou-se no portão oferecendo balas e doces para as crianças que passavam. Uma vez eu e minha filha passávamos ali e ela lhe ofereceu uma boa porção.

A rua já está bem mais feia sem ela, que gozava da saúde que todo o idoso merecia ter. Decerto não foi de graça e nem por uma benção que ela obteve essa vitalidade centenária. Por isso, para mim ela era uma pessoa paradigmática. Tomar sozinha um ônibus nessa Porto Alegre asselvajada, entornar uma Antártica e ainda por cima torcer para o Colorado, aos 100, não é para qualquer um.

Procurei aqui, mas não encontrei, uma reportagem feita para a tevê com ela. Não encontrei no Google, que já começou a me oferecer – só pode ser por desaforo mesmo – cadeira de vovó e ofertas de casa de repouso.

A laranja mágica, 2A laranja mágica, 2

Com o tempo, parece que as papilas gustativas vão se tornando mais insensíveis. Insensíveis e esquecidas. Não faz muito, no verão, tomei dos caroços de uns butiás que me presentearam e os parti ao meio em busca de suas amêndoas. Nunca encontrei noz como a dos butiás, mas também não encontrei vestígio do sabor que passeava na boca quando criança e quebrávamos entre pedras as pequenas esferas até recolher de lá de dentro as quatro sementes, cada qual acomodada numa câmara interna da noz, como uma espécie de leito germinativo. Aquilo me causou como uma desolação sensorial. A memória da infância, esse patrimônio que cada um traz consigo, sentia-se ludibriada, desenganada.

Outros frutos me causam a mesma sensação de reencontro frustrado. Os caquis melosos que escorrem pelos dedos. As maçãs nas quais uma acidez confidencial deveria despertar memórias inesquecíveis, mas que pelo jeito foram esquecidas pelos próprios frutos. As laranjas e sua doçura inconfundível. Dentre as laranjas, especialmente as mágicas, de umbigo. Aquelas que dão apenas nas árvores mais frágeis e anciãs, perdidas no fundo dos pátios de casas humildes e antigas que ninguém se lembra de tombar, nas quais não há placas indicativas e às vezes nem numeração.

Se há o que eu lamento é que muitas pessoas jamais encontrarão uma dessas laranjas mágicas na vida. Ao passarem por um casinha como essas a que me refiro, não imaginarão ser possível que lá dentro daquela pobreza possa se encontrar o mais doce dentre os frutos.

Ontem, com o frio finalmente instalando o inverno, saí um pouco de casa para caminhar sem muito destino. Não ventava, o Minuano não acompanhou a frente fria dessa vez e pude caminhar passando as ruas da Cidade Baixa até a Azenha, onde casas como essa há muitas nas transversais à avenida tão vilipendiada de Porto Alegre. Casas de muro baixo, grades devassáveis e portinholas protegidas por cães mansos, incapazes de fazer mal a quem quer que seja.

Uma delas, especialmente, me lembrou da casa de um amigo antigo. Se vivo, que estará fazendo da vida? Viverá em Bagé ainda, onde nos conhecemos e me ofereceu a única laranja mágica que um velha laranjeira do pátio da sua casa tinha a oferecer? Ainda existirá a casa ou foi derrubada para um novo prédio, um novo bairro, outro lugar completamente diferente? Um edifício?

Não tenho ideia… Eu não sei. E, por não saber, deliro que naquele pátio sem muros, contra o céu, talvez a laranja esteja lá mais uma vez, em mais um inverno. Um manjar oferecido como um presente, por natureza tão miserável quanto aquela árvore. E que ele a esteja degustando num banquete único e sazonal, e por causa do sabor doce e incomum do fruto, lembrará de quando eu a devorei como um eclipse engole de uma vez só a lua inteira.

Sci-fi in vivoSci-fi in vivo

Não faz muito acessei minha estação de trabalho remoto aqui de casa. Domingo, isso mesmo. A operação é banal. Basta que eu forneça um endereço de rede, login e senha e está pronto: é como se estivesse em dois lugares, operando simultaneamente dois computadores. Para quem trabalha com recursos de informática, é uma operação trivial, possível há vários anos já. Até a pandemia e a implantação do homework, eu nunca usara o recurso. Nos últimos meses, tem sido a rotina e com muita facilidade acesso atividades e tarefas remotas e as executo como se estivesse in loco.

Entrei para encontrar um texto que estive olhando por alto esses dias. Até onde vi, é dos primeiros artigos que discutem a juridicidade dos algoritmos de navegação para carros autônomos e a questão da responsabilidade penal em danos e acidentes.

O assunto por si só parece estranhamente remoto, como se viesse diretamente de um filme de ficção científica, mas a verdade é que o mundo das normas legais já começa a se preparar para o desembarque desses veículos no Brasil e é necessário que sua tecnicidade seja compreendida e limitada pelo ordenamento jurídico nacional. Será a primeira vez que os automóveis se portarão como robots ou autômatos e o desafio dessa interação é ainda incompreensível em sua extensão. Logo, será mais uma banalidade tecnológica com a qual estaremos lidando como se o mundo sempre tivesse sido assim.

A ideia de que para se ter um robot é necessário um boneco mecânico com cabeça, tronco e membros (ou rodinhas) tem a infantilidade necessária para que não se perceba a dimensão que a tecnologia tomou em nossas vidas. Às vezes eu fico pensando que a robótica sempre foi apenas um jogo de cena, uma cortina de fumaça para a verdadeira revolução tecnológica em curso: a microinformática. Idealizados quase sempre como escravos mecânicos, os robots definitivamente não tem muito a ver com essa imagem, esse clichê.

De um modo ou de outro, o certo é que todos temos vários robots que automatizam tarefas e rotinas para nós, mas de forma que nem percebemos. Um cartão de crédito é um robot, por exemplo, quando ele nos libera da tarefa de ir ao banco, sacar dinheiro, pagar por algum produto ou serviços, receber o troco, conferir e guardar de volta na carteira. Dentro do cartão, um chip coordena todas essas transações e nós já nos acostumamos tanto a isso que banalizamos a complexidade de tarefas executadas por aquele pedaço de plástico.

Tudo o que executa uma tarefa autônoma a nossa vontade, mas seguindo determinadas instruções, pode muito bem ser chamado de robot também. Um elevador. Uma geladeira. Uma televisão. Um computador então nem se fale. Um computador é uma grande comunidade de robots. Ou mais que isso: uma sociedade de comunidades. Acontece que num computador (ou em qualquer meio digital nativo ou de transmissão digital), os robots são muito menos evidentes que os seus ancestrais – o elevador, a geladeira, etc. Ali, tanto há dispositivos para executar uma operação bancária desejada quanto dispositivos infiltrados para roubar dados e outros que estão ali para montar barreiras, caçar e eliminar os códigos intrusos. Há linhas de código minúsculas que são robots. Mas todas essas transações corriqueiras são automatizadas de modo a que a gente possa usar o tempo com outras ocupações e/ou diversões e não essas “banalidades”.

Se você é uma pessoa que, por acaso, costuma jogar xadrez contra sistemas autônomos, já percebeu que sua capacidade é cada vez mais ridícula diante a deles. A não ser que você seja um Kasparov da vida (mas mesmo ele tomou um mate inesquecível do Deep Blue da IBM em 1997). Mais recentemente, o Deep Mind (outro deep) venceu o garoto Lee Se-Dol em 2016 jogando Go, um jogo ainda mais complexo do que o Xadrez. Desde essa época, tornou-se uma “banalidade” ser vencido por sistemas autônomos nutridos por inteligência artificial. Mas a questão certamente é mais “deep” do que parece.

Há outras datas de corte dessa evolução que ocorreram imperceptivelmente no ambiente doméstico. Uma delas foi o lançamento do Windows 10, pela Microsoft. Desde então o sistema operacional se estabilizou de modo impressionante à medida que a maior parte das transações informacionais deixou de ocorrer nos mainframes pessoais, passando ao território das nuvens (que de nuvens não tem nada, são supercomputadores regiamente pagos pelas empresas de tecnologia). O iPhone 4, da Apple, surge no mesmo contexto, amparando-se no mesmo conceito de intensificação da virtualidade.

É bem nesse momento que os robots e microbots da informática migraram massivamente para as nuvens, deixando ao encargo dos apetrechos apenas operações triviais, de processamento rápido. Hoje, praticamente não há mais computadores no mercado, apenas uma caixinha com a mesma tecnologia nano dos telefones. Também nenhuma mídia nova surgiu desde então, apenas novos formatos de encapsulamento e encriptação de dados. O que aconteceu foi que as empresas de storage então passaram a abrigar centenas de zilhares de bits, o famoso big data. Dentro dele, transações oficiais, extra-oficiais e um cadinho invisível que é retrabalhado permanentemente pela inteligência artificial a fim de extrair dados, apontar tendências e, por fim, vender mais tecnologia.

A questão é que, de fato, a revolução tecnológica não está nessa mudança de localização dos dados. Ela está no fato de que os dados passaram a nos comandar e nós é que nos tornamos seus escravos, alimentando sistemas que se aperfeiçoam apenas em nos comandar melhor. E, como nos melhores sistemas totalitários, com a nossa anuência e colaboração. O próprio vício em tecnologia é um hack implantado em nosso sistema biológico, eletro-biológico, enfim, o cérebro.

Não interessa se gostemos mais ou menos disso, mas tudo os sistemas sabem antes a nosso respeito. Basta que acionemos um login, e eles imediatamente recompõem nossas tarefas de trabalho, nossas relações humanas, nossa situação financeira e até mesmo emocional – ou para o que você acha que servem essas carinhas, coraçõezinhos, joinhas e etc a não ser medir a sua (a minha, a nossa) temperatura emocional?

Não faz muito tempo, o Facebook lançou vários alertas falsos de tentativas de suicídio, em erros forçados de interpretação instruídos pelos seus programadores, mas salvou algumas vidas também. Não foi bola de cristal que eles usaram.

Há poucos dias, no Google Translator, coloquei para traduzir um texto em alemão de um livro traduzido que fiquei com preguiça de buscar na estante. A tradução era a mesma do livro, em cada vírgula. O tradutor recebeu royalties por isso?

Não importa o que você faça, qual seja o seu trabalho, se isso já não aconteceu, não demora vai acontecer com você também. Não serão mais os robots que trabalharão para você, mas justamente o contrário.

Às vezes até uma ideia nova, aquela sensação de um insight poderoso, será mera indução tecnológica em seus diálogos algorítmicos. Se foram experimentadas a partir de 2010, eu não duvidaria. Até o voto e outras decisões da esfera aparente da liberdade. A liberdade não é aquela sensação de segurança de uma decisão tranquila, ideológica, mas exatamente o oposto movediço dessa sensação. E se há uma técnica de poder associada a essa revolução, a minha impressão é que ela é a mais bem sucedida desde o fim da escravidão. Muito mais efetiva e controladora que o consumismo de massas.

Agora pode parecer delirante ou exagero, mas em breve isso ficará cada vez mais evidente. E você ainda estará pensando que o Felipe Neto é que um digital influencer perigoso. Esse é o problema de gastar palavras à toa, porque de tão ignorantes e embevecidos não sabemos nem nomear nem qualificar esse poder, quando conseguimos notar sua presença.