Crônicas A laranja mágica, 2

A laranja mágica, 2

Com o tempo, parece que as papilas gustativas vão se tornando mais insensíveis. Insensíveis e esquecidas. Não faz muito, no verão, tomei dos caroços de uns butiás que me presentearam e os parti ao meio em busca de suas amêndoas. Nunca encontrei noz como a dos butiás, mas também não encontrei vestígio do sabor que passeava na boca quando criança e quebrávamos entre pedras as pequenas esferas até recolher de lá de dentro as quatro sementes, cada qual acomodada numa câmara interna da noz, como uma espécie de leito germinativo. Aquilo me causou como uma desolação sensorial. A memória da infância, esse patrimônio que cada um traz consigo, sentia-se ludibriada, desenganada.

Outros frutos me causam a mesma sensação de reencontro frustrado. Os caquis melosos que escorrem pelos dedos. As maçãs nas quais uma acidez confidencial deveria despertar memórias inesquecíveis, mas que pelo jeito foram esquecidas pelos próprios frutos. As laranjas e sua doçura inconfundível. Dentre as laranjas, especialmente as mágicas, de umbigo. Aquelas que dão apenas nas árvores mais frágeis e anciãs, perdidas no fundo dos pátios de casas humildes e antigas que ninguém se lembra de tombar, nas quais não há placas indicativas e às vezes nem numeração.

Se há o que eu lamento é que muitas pessoas jamais encontrarão uma dessas laranjas mágicas na vida. Ao passarem por um casinha como essas a que me refiro, não imaginarão ser possível que lá dentro daquela pobreza possa se encontrar o mais doce dentre os frutos.

Ontem, com o frio finalmente instalando o inverno, saí um pouco de casa para caminhar sem muito destino. Não ventava, o Minuano não acompanhou a frente fria dessa vez e pude caminhar passando as ruas da Cidade Baixa até a Azenha, onde casas como essa há muitas nas transversais à avenida tão vilipendiada de Porto Alegre. Casas de muro baixo, grades devassáveis e portinholas protegidas por cães mansos, incapazes de fazer mal a quem quer que seja.

Uma delas, especialmente, me lembrou da casa de um amigo antigo. Se vivo, que estará fazendo da vida? Viverá em Bagé ainda, onde nos conhecemos e me ofereceu a única laranja mágica que um velha laranjeira do pátio da sua casa tinha a oferecer? Ainda existirá a casa ou foi derrubada para um novo prédio, um novo bairro, outro lugar completamente diferente? Um edifício?

Não tenho ideia… Eu não sei. E, por não saber, deliro que naquele pátio sem muros, contra o céu, talvez a laranja esteja lá mais uma vez, em mais um inverno. Um manjar oferecido como um presente, por natureza tão miserável quanto aquela árvore. E que ele a esteja degustando num banquete único e sazonal, e por causa do sabor doce e incomum do fruto, lembrará de quando eu a devorei como um eclipse engole de uma vez só a lua inteira.

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O meu amigo LeviO meu amigo Levi

Por essas tristes fatalidades da vida, precisei há cerca de um ano trocar de chip no meu aparelho celular. O antigo, infectado por um vírus, depois de promover uma onda monumental de spam em meu nome, de um dia para o outro bateu as botas e nunca mais funcionou: o finado e bom número. O novo, radiante e aparentemente intacto, trouxe com ele o nome da pessoa mais indesejável que há no planeta Terra, quiçá no sistema solar inteiro, galáxia, universo e mundos paralelos: o Levi. Guardem esse nome: L – E – V – I.

Quem me conhece sabe muito bem que eu não sou nem nunca fui o Levi. Mas o maldito sujeito, além de um dia ter possuído o número que a operadora de telefonia me legou, era o maior calavera da paróquia. Um devedor contumaz. Fichado na SERASA e em todos os sistemas de fichamento de crédito sabidos no mundo inteiro. Devedor do Bradesco, do Itaú, do Banco do Brasil, do Unibanco, da Caixa Federal, do HSBC, do Santander, do Citibank e outros mais. Acho que até do Banco Safra e outras iniciativas igualmente calaveras ele era cliente. Cliente e inadimplente, diga-se de passagem.

Evidente que, por ter herdado seu número, herdei também as cobranças desta nobre pessoa, o Levi.

Teve dias que temi pela vida do Levi, é justo que o diga. Não porque eu desejasse matá-lo (isso nunca passou pela minha cabeça), mas imaginei que se ele devia para tantas pessoas jurídicas, tranquilamente ele deveria também para pessoas físicas… Daí a ser um alvo de um esquadrão de matadores de aluguel seria uma passo relativamente simples, basta você ser um pouco chato e isso, bem… Mas não! Nunca desejei nada de ruim ao Levi. Eu queria apenas que me desassociassem do seu nome e do seu CPF e então estaríamos de boas pela vida. Não sou de guardar rancor, como se vê. Basta que me deixem em paz e estamos bem!

Por um tempo, cessaram as incontáveis ligações em busca do Levi e mensagens SMS e até os convites para grupos de credores no WhatsApp. Na minha inocência, julguei que estava finalmente livre da memória dessa criatura subitamente íntima. Vã ilusão… Um dia recomeçaram, primeiro sutil e depois enfaticamente, as cobranças e agora unificadas numa única empresa especializada. Especializadíssima, soube mais tarde. O alívio, transitório como todos os alívios, acabou por revelar-se o maior dos tormentos. A empresa desejava realmente caçar, incomodar, infernizar a vida do Levi e, para ela, se o número estivesse no meu nome ou no do Papa Francisco, eles não se comoveriam.

Sistemáticos, eles passaram a ligar cerca de 7 vezes por turno do dia, através de números os mais diversos, de prefixos de localidades tão estranhas quanto o município de Anta Gorda, no RS, como o de Jijoca de Jericoacoara, no CE. Eu, por pensar que poderia ser uma herança de um remoto e desconhecido parente milionário, por um tempo fui atendendo as ligações, confiando naquela hipótese do raio cair bem na minha cabeça. Logo vi que era apenas mais da herança e do legado do Levi e suas operações bancárias.

O suprassumo aconteceu num dia em que, estando na escola para buscar meu filho junto a outros pais e familiares, a ligação foi ineditamente convidativa. Uma gravação convidava-me a dizer SIM ou NÃO após ouvir o bip e tudo estaria para sempre resolvido. Na hora, subitamente emocionado, disse o que estava entalado na minha garganta por meses a fio. Disse um comprido NÃO. Representado graficamente, saiu mais ou menos assim: NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO! E, por um momento absolutamente descontrol, continuei: NÃO, EU NÃO SOU O LEVI, NÃO SOU, NUNCA FUI, NÃO CONHEÇO, ODEIO, QUERO MATAR!!

Houve olhares. Algum estranhamento também. Mas logo expliquei expressamente a minha situação, no afã de ser compreendido, e não foi com pouca surpresa que meus interlocutores revelaram que tinham, cada qual, o seu equivalente ao Levi. Nem digo que fiquei aliviado, mas serviu sim de consolo saber que, afinal de contas, não sou apenas eu o condenado à chateação telefônica. Somos todos ou, pelo menos, um bom número…

De resto, serviu-me o aprendizado com o meu amigo Levi a desconsiderar solenemente ligações que não sejam do meu mais restrito círculo de conhecidos. Eu até continuo oferecendo de bom grado meu número. E agora sem nenhum cuidado, para qualquer farmácia e padaria que quiser me cadastrar sabe-se lá com que objetivos, eu informo. Não vou atender mesmo… Então, já sabem, se quiserem falar comigo, não me liguem. Depois do Levi, todos são potenciais Levis. E, sinceramente, um já me foi o bastante pela vida inteira.

Autenticidade poéticaAutenticidade poética

Se alguém procurasse recuperar o que de relevante se passou na poesia rio-grandense no ano de 2022, dificilmente poderia deixar de registrar a descoberta de um poema inédito de Mario Quintana no interior de um dos 5.000 exemplares obtidos de uma coleção particular por um livreiro de Porto Alegre.

Jornais e leitores de todo o país correram para anunciar a descoberta, assim comprovando a vitalidade e o interesse que o poeta ainda desperta Brasil afora, quase 30 anos após a sua morte.

Apesar de trazer sua assinatura ao final do poema, logo se procurou verificar sua autenticidade. Fizeram-no o professor e diretor do Theatro São Pedro, Antônio Hohlfeldt, e Gilberto Schwartzmann, escritor e presidente da Associação de Amigos da Biblioteca Pública Estadual do RS. Uma vez “certificado” o original, o poema foi adquirido pela associação para daí ser doado ao acervo da Biblioteca e exposto na Casa de Cultura Mario Quintana entre outros manuscritos e objetos do poeta.

Fico eu pensando: mas não bastaria bater os olhos nos versos do poeta para saber-se que não é uma falsificação?

E penso mais: como é que se poderá daqui a 30, 50 ou 70 anos investigar a autenticidade de um inédito de quem quer que seja? Como é que se poderá saber que um poema corresponde a uma autoria quando somos inundados por deep-fakes inacreditáveis de tão perfeitas? E o que dizer da imensidão de adulterações, repetições e falsificações que trafegam internet afora sem qualquer certificação?

Por uma “dicção” particular não será. Sabemos pelo exemplo de Quintana, que é um poeta dos que se costuma denominar por “inconfundível”.

Neste ponto, vivemos num tremendo impasse. Por um lado, não se imagina que se possa refrear a pulsão informativa das redes, muito menos filtrá-la. Uma iniciativa desse porte exigiria o emprego de inteligência artificial e, até onde eu sei, não há como se programar o gosto estético do que é puramente técnica, ou garantir sua incorruptibilidade. Por outro, a noção de materialidade da obra escrita esboroou-se, tornando impossível sua organização; isto significa que as bibliotecas não têm mais condições de comportar tudo o que é escrito e os meios dissolvem-se na tentativa vã de abarcar o aluvião digital.

Mesmo com isso, o impasse da autenticidade permanece.

Tudo o que poetas de todos os tempos sempre aspiraram foi a ambição de não serem confundidos com ninguém, mas aí, de repente, se faz necessária uma investigação.

A bem da verdade, ninguém aceita muito bem a despersonalização de um estilo, nem sua generalização. Todavia a vida digital assim exige. É uma imposição do meio que todo o publicado seja automaticamente liquidificado. E a todos se exige uma espécie de self adaptável, como o os oferecidos pelos apps de “desenho” inteligente.

Como vai ser isso no futuro, é no que eu fico pensando. Alguém comprará um poema inédito de alguém para expor aonde? Numa biblioteca? Biblioteca de que espécie? De postagens do Instagram?

¿Que sé yo?