Silêncio Ghibli

Às vezes, me acontece uma grande vontade de silêncio. Não é o silêncio da ausência dos decibéis, mas aquele dos pequenos ruídos. A possibilidade de calar os grandes rumores e concentrar-me nos pequenos resíduos. Como se fosse possível prestar atenção contínua no som que o vento causa ao passar pela superfície das folhas e das ramas, no zumbido de uma abelha indo e vindo, numa portinhola de uma casa abandonada batendo para ninguém. Um silêncio como o dos filmes do Studio Ghibli.

Estar no mundo de uma forma silenciosa é um desejo um pouco metafísico e por isso mesmo inacessível. É preciso estar no mundo para saber-se vivo. E estar no mundo significa ouvir incessantemente o que está sendo dito, ler o que está sendo escrito, devorar o que está sendo oferecido. É estar submetido à informação, aos anúncios das coisas e portar a angústia de não conseguir debulhar isso tudo numa forma razoável de consumo. É um empanturramento de vazios. Vazios rumorosos.

Ou você tem livros demais para ler ou tem todas as músicas do mundo à sua disposição ou está zapeando um catálogo labiríntico de uma referência que se dissolve noutra, de uma montanha de produtos que se materializam para você. Coisas que aparentemente existem e estão ali disponíveis, mas nada disso é o que você quer.

O seu desejo é o de poder ouvir a água como um peixe pode ouvi-la. Zunir como um inseto e ser ignorante do zunido. Ter aquelas imensas orelhas de um elefante e o seu mesmo direito de não compreender nada.

Mas não tente encontrar uma porta por onde acessar esse silêncio que não é o dos museus e suas coisas, tapetes, objetos e falsas aberturas. Esse silêncio de todas as músicas quando se as espreme muito. Talvez seja mais simples entrando numa indústria e aquele ruído tão absoluto que não se pode ouvir mais nada, e apenas suporta-se sem saber quando aquilo vai terminar, como uma espécie perfeita de infinito.

Por outro lado, há sons extremamente silenciosos. E há pessoas silenciosas que não ocupam mais do que o espaço que têm, embora se exija cada vez mais que todos estendam a sua existência e a prolonguem e signifiquem para além da própria vida. Logo já não será possível mais morrer neste mundo. Alguma coisa técnica tomará o seu lugar e continuará a sua vida, reproduzindo uma sucessão de hábitos, como se viver fosse apenas esse deslocamento da sua aparência e seus pensamentos repetitivos. Algo como os livros faziam e cada vez mais serão outras coisas e objetos.

A minha vontade, às vezes, era de acessar um silêncio elementar como o que eu sentia quando era criança ao carregar com minhas mãos infantis, numa vasilha, a água para encher os vasos de flores das sepulturas dos antepassados nos dias de Finados, quando acompanhava meu pai. O som da água na vasilha sacudindo era tão silencioso… Mas, se quisesse, eu podia quase tocá-lo e parar até ele com meus dedos. Essa possibilidade que agora me falta absolutamente, que a vida toma de todo o mundo e só mesmo a morte restitui, porque definitivamente não há outra forma possível de obtê-lo. Até mesmo escrever isso não é uma forma de rompê-lo?

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Para mim, que sou avesso às listas de melhores, chega a ser uma sordidez dizer que, na minha opinião, estes sejam alguns dos discos mais importantes da música brasileira.

Todos são de música instrumental e é por isso mesmo que para mim eles são dos mais importantes. Para mim, muitas vezes a música instrumental – por estranho que possa parecer – “fala” mais que a música cantada, com letra.

É que a exigência expressiva da música instrumental é essencialmente superior à canção letrada. Tendo de trazer significantes exclusivamente sonoros, livremente musicais, a ênfase na mensagem necessita ser muito mais amplificada. É nesse sentido que eu posso dizer que estes sejam, no meu modo de perceber, os mais importantes, porque comportam e veiculam a musicalidade no seu estado mais puro e incorruptível. E são ainda mais importantes porque são discos autorais. E porque, apesar de serem músicos que serviram ao trabalho de letristas talentosos e intérpretes excepcionais, sua música fala por si só e, ao mesmo tempo, compõem cada qual um universo muito particular. Além disso, são essencialmente brasileiros e trazem a influência popular transposta numa elaboração maior, mais refinada, e nem por isso afetada.

A minha sordidez reside em apontar que não temos no Rio Grande do Sul, até hoje, um disco nessas condições, um compositor nesse nível de composição e com recepção universal.

Pessoas me lembrarão de Yamandu, certo, Yamandu tem público onde for, mas o seu trabalho maior ainda é o de intérprete. Como compositor, dificilmente alguém consegue apontar de memória uma gravação ou tema inesquecível de sua autoria.

Tem também que o seu apogeu acontece justamente no declínio da cultura do disco. Se tivesse gravado nos anos 80 ou 90, época em que a qualidade das gravações brasileiras teve seu auge, talvez a situação fosse outra. Yamandu é um músico da era do single, na qual ninguém mais ouve um disco do início ao fim.

É claro que nada disso diminui a sua grandeza, mas, de fato, essa conjugação autoral ele ainda não conseguiu fazer na sua brilhante carreira de músico. Falta-lhe popularizar-se como compositor e dadas as condições de execução disponíveis, não se pode mais garantir essas coisas para ninguém.

Nesse ponto, eu diria que o músico com essas melhores condições no Rio Grande do Sul ainda chama-se Renato Borghetti. Mas Borghetti, decerto por uma ainda mais radical identificação e caracterização gauchesca, dificilmente um dia será apreciado na medida em que mereceria por suas características e não pelos preconceitos que lhe colam.

Sorte diferente têm estes outros três senhores. Ninguém lhes diz baiano demais, mineiro demais ou fluminense demais..

Fato é que, além do talento e de uma marca pessoal altamente elaborada, todos eles elevaram a musicalidade popular até chegar a um paradoxal alto nível de simplicidade formal. É impossível ouvi-los e não pensar imediatamente no Brasil. Se resta alguma dúvida, é suficiente usar os links abaixo.

Toninho Horta (Igreja do Pilar)

Dori Caymmi (Porto)

Egberto Gismonti (Lôro)

Renato Borghetti (Sétima do Pontal)