E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Poesia Quando fores bem velhinha

Quando fores bem velhinha


William Butler Yeats
(13/06/1865 – 28/01/1939)

Quando fores bem velhinha, já grisalha e, exausta de sono,
Pestanejares junto ao fogo da lareira, toma este livro,
Lê com calma, e sonha com o olhar um pouco mais vivo,
Como o que tiveste outrora, sem as sombras do abandono;

Quantos, falsos ou verdadeiros, amaram a encantadora
E fugaz beleza da juventude, quando era simples e fácil,
Mas um homem só amou com efeito a peregrina em tua alma,
E amou em teu rosto as sombras que podes ver agora;

E, curvando-te em direção às chamas incandescentes,
Resmungas, tristonha, de qualquer amor distante
Que sobrepassou colinas, montanhas adiante,
Desaparecendo da mesma forma que as estrelas cadentes.

§

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

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O bilheteO bilhete

O novo ano trouxe velhas penitências
bem embrulhadas, como presentes
preparados há tempos, de um antigo banquete.

Há tempos ouvindo a mesma coisa,
tomo cuidado com o que posso escutar.
Não são tantas lascas nas pedras, mas há.

É raro quando o comum se revela estranho.
É uma tempestade que permanece em segredo –
e o que existe se reveste de ausências.

Aperto os joelhos entre os braços, gasto
tempo demais com máquinas quebradas
e coisas arruinadas que nem valem nada.

Os olhos eu abro porque vai começar a chover.
Tudo parece tão limpo.. E, o frio, glacial.
O relógio é que bate cada vez mais cedo…

Desse modo qualquer um pode vir a morrer:
não há o sustento do sol e a noite vindoura
ainda dorme, malgrado lhe envie o bilhete.

Eu sou…Eu sou…

Alejandra Pizarnik (1936-1972)
trad. do espanhol

minhas asas?
duas pétalas apodrecidas

minha mente?
tacinhas de vinho azedo

minha vida?
vazio bem pensado

meu corpo?
um talho na cadeira

meus altos e baixos?
um gongo infantil

meu rosto?
um zero dissimulado

meus olhos?
ah! pedaços de infinito

Contra a luzContra a luz

Às vezes, sem o que pensar, procuro imaginar se ao longo da vida conhecerei todos os seus olhos..

Os olhos da tarde, que esperam milagres, incrédulos e entregues. No crepúsculo, o horizonte transformando-se pouco a pouco em passado e memória.

Ao anoitecer, infiltram-se em mim como se atravessa uma tenda. Mas, quando é noite alta, voltam a fechar-se. Parecem saber de tudo, mas tudo lhes é revelado outra vez para que repousem, ainda mais tarde, como estrelas destapadas do céu..

Passará muito tempo, e a vida continuará a mesma. Mas já passou tempo demais, e a vida dói por isso.

Outra vez amanhece. As abelhas bebem o néctar na borda das taças e os dragões dissiparam-se no voo — não há sombras contra o sol.

No mundo, há o que é certo, há o que deve ser e o que não se pode devassar: olhos erguidos contra a luz da manhã, os ramos de avenca, o torso nas mãos..

Ao meio dia, as maxilas destroem um naco de pão e a carne recolhida das brasas.

E, depois, serão vistos à distância no que anseiam e no que lhes impede. Passa ainda mais tempo e sua atenção é reclamada. Assim é todo o dia.

Mais tarde, é hora de voltar ao ermo silencioso, ao que não precisa ser visto, ao tão bem apreendido.

Mas não há regresso desde que fomos enredados.

Apenas mantém-se a consciência de viver nestas mesmas almas, mas desde então em corpos trocados.