Autor: Editor

No clinch, com Eliane BrumNo clinch, com Eliane Brum

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Há livros que jamais deveriam ser resenhados, principalmente aqueles que tratam da subjetividade de seus autores. Além de não existir forma possível ou tamanha de abordar a subjetividade de quem quer que seja, há livros que parecem ser exclusivos para a leitura. Deveriam ser apenas lidos e os leitores deveriam dar-se por satisfeitos em apenas receber o seu conteúdo, seja ele um afago ou um cruzado no queixo. E abster-se de comentá-lo, pelo menos tanto quanto possa. Poucas horas depois de conhecer o novo livro de Eliane Brum, Meus desacontecimentos – a história da minha vida com as palavras, entretanto, já me sabia traído em minhas próprias ressalvas e crenças.

Imagine por um instante que você é um fã de boxe e lhe oferecessem a oportunidade de encarar os golpes de um Mike Tyson ou um Muhammad Ali, por exemplo. Qual atitude tomar? Fintar? Esgueirar-se? Tremer de medo? Fugir? Bem, se o exemplo fosse transposto ao papel de um leitor diante de um livro, meu desejo seria o de justamente procurar receber, na carne, os melhores golpes possíveis. Nada menos que isso. Mesmo que isso acontecesse inadvertidamente ou, melhor, principalmente nesses casos.

Se a leitura jornalística é muitas vezes indolor, sem falar de quando é apenas insípida, a literatura – especialmente a de cunho biográfico e subjetivo – tem outra característica. Conheço poucos escritores de quem nunca li um texto insípido e Eliane Brum é uma dessas pessoas. Não sei se conscientemente ela procurou afastar-se dessa qualidade de texto, mas minha intuição diz que o logrou apenas por não ter evitado a dor e por ter sabido reconhecê-la nas situações mais periclitantes – de quem se despoja realmente para conhecer a vida dos outros – e também nas mais comezinhas, de quem se aproxima o suficiente das pessoas para distinguir a beleza da mera tolice.

Desde o lançamento de seu primeiro romance, Uma duas, venho dizendo que Eliane é um autora boxeur, cuja perícia reside principalmente em jamais fustigar o leitor, mas em levá-lo de forma imperceptível ao colapso do reconhecimento. De posse desta informação e de minha teoria particular, julguei que seria simples encarar seu novo livro. Depois de anos acompanhando sua trajetória, da Zero Hora ao El País, parecia que poderia antever, num lance de olhos, seus movimentos, o jogo de pés, a velocidade dos jabs e o momento assombroso (e por que não desejado?) do knock-out. Uns dirão que isso beira o masoquismo ou a veneração, mas não é nem uma coisa nem outra. É que não se pode esperar de um dragão que se comporte como um camelo. Ou um golfinho. Um dragão “é” o dragão e a expectativa pelo fogo que adormece dentro de sua garganta será sempre mais poderosa que as chamas e labaredas expostas a público.

Pelo menos de forma aparente, um boxeur tem sempre sua estratégia, suas armas e golpes fatais. Até que os coloque em prática, entretanto, é como se estivesse em cena pela primeira e última vez. Muitos deles procuram revisar ensaios ou praticar ao espelho. Ou aos sacos de areia, até. No caso dos escritores, é preciso também fazer opções e Eliane não se furtou a fazê-las, mesmo tendo diante de si uma ameaça do seu mesmo porte. Sua opção, em Meus desacontecimentos, foi por encarar a si própria, colocando a subjetividade nas luvas e usando os punhos com o mesmo empenho que encarasse o mundo externo. Ao reencontrar-se com o passado, o que Eliane permite é que se veja mais do que comumente se vê nas pessoas. Aos poucos se pode reconhecer o estilo, os movimentos, os olhos por trás das mãos e, com a luta suspensa, já sem as luvas, as próprias mãos. Os cruzados não devem demorar, nem os ganchos, mas eles acontecem em direções insólitas e, ao invés de atingir a alvos específicos, distendem um conhecimento que se dirige cada vez mais para dentro.

Sabendo de tudo isso, abri o livro. E não fechei até terminá-lo. O que encontro é mais ou menos como o visto mais cedo, na sessão de autógrafos. São pessoas estranhas a mim, lembranças muito remotas e particulares, algumas imagens fugazes de lugares do passado e a boxeur ali, em um dos cantos do quadrado. Dentro e fora do livro, a luta não começa, desacontece. Alguns leitores, quero dizer, pessoas da plateia, dizem que viram-na ensaiando golpes no ar, como se contra um adversário imaginário. Por um instante temo por sua integridade, adversários imaginários são imprevisíveis. Mil vezes encarar um Mike Tyson, claro, de preferência se aposentado…

Mas a noite é de autógrafos, não de sacrifícios. Eliane não está na lona, muito menos submersa nela. Pelo contrário, aparece livre de qualquer coisa que lembre artefatos de luta. Nem imagino em que ringues e sobre o que ela deitará as mãos no futuro, mas graças a Meus desacontecimentos percebo com mais nitidez o que a faz assim, como a digo, uma boxeur. É que boxeurs não esperam passar ilesos pela vida nem conhecê-la de raspão. Boxeurs não são especialistas da sobrevivência, mas da entrega. Enquanto não chega meu momento de pegar o autógrafo, avalio de longe sua figura e fico muito tranquilo por constatar que está inteira ali, sem exibir seus hematomas como troféus, mas nem por isso, imagino, que incólume… Feliz por vê-la sorridente encontrando seus leitores e por abraçá-los fora de um clinch.

A música que não vibraA música que não vibra

Revista Amálgama

Há algum tempo atrás li, em algum lugar, que o naturalista inglês Charles Darwin não gostava de música. Não é que não gostasse, é que sua mente aparentemente não apreciava o gozo estético da música. Parece que ele sentia o mesmo em relação à pintura. Não podia ou não sabia como julgar o valor estético de uma obra de arte, embora pudesse observar, compreender e descrever os fenômenos biológicos de uma maneira absoluta, razão pela qual figura sabidamente entre os grandes gênios científicos da humanidade. Um gênio irrefutável e, mesmo assim, aparentemente intocado pelo prazer da percepção musical. Consta que, a despeito disso, sua esposa Emma tenha sido excelente pianista, aluna de Frédéric Chopin e por este inclusive elogiada em razão de sua técnica. Imagino que Darwin tenha sido um amante paciencioso, pois através de algumas biografias também pode saber-se que ele não se furtava ao serões de Mrs Emma. Bem, as especulações param por aqui.

Outro pilar da modernidade, o austríaco Sigmund Freud, parecia sentir o mesmo sobre a primeira das artes. Em O Moisés de Michelangelo, ele diz: “com a música sou quase incapaz de obter qualquer prazer” para, em seguida, talvez explicar as razões disso acontecer (quem sabe explicando também o que acontece a Darwin): “Uma inclinação mental em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de comover-me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta.”

Na minha vida, conheci pessoas com graus diferentes de sensibilidade musical. Desde prodígios infantis a pessoas praticamente indiferentes às composições sonoras, sem falar nas completamente ineptas aos instrumentos musicais. Não sei se terá a uns faltado o estímulo que chegou a outros, mas o fato é que talvez a sensibilidade musical tenha um fundo neurológico que se desenvolve de forma diferenciada nas pessoas. Ou então se desenvolva em algumas pessoas a assim chamada “amusia” que corresponderia, no campo da neurociência, à perda total das funções musicais pelo indivíduo. Através da neurociência sabe-se também que, ao contrário de outras funções cerebrais, a musicalidade não está ligada a nenhum campo específico do cérebro, mas a muitos campos simultaneamente, o que dificulta ainda mais a compreensão sobre o assunto.

Há outros fenômenos sobre a musicalidade e o indivíduo que me chamam bastante a atenção também. Aquelas pessoas que, por exemplo, têm uma relação utilitarista com a música e usam-na como um tipo de terapia particular. Pessoas que gostam de gêneros musicais seletivamente ou que são radicalmente refratárias a determinados estilos. Não são poucas as pessoas que se recusam a ouvir qualquer melodia mais lenta que classificam-na imediatamente como “música depressiva”. Conheci pessoas que apenas toleravam o estilo de “música ambiente”, que parece ser de um tipo que não lhes afeta o humor. E outros que apenas escutavam “músicas positivas”, com efeito motivacional ou grandiloquente. E ainda pessoas que vinculam a música exclusivamente ao gesto e prática da dança.

No livro Alucinações Musicais, o neurologista e escritor Oliver Sacks conta situações incríveis envolvendo a música e os seres humanos. A que mais me chamou a atenção foi a de que pacientes com Alzheimer, de um forma ainda desconhecida, mantêm preservada a memória musical e que inclusive o aprendizado de um instrumento, mesmo tardiamente, ajudaria a retardar o próprio desenvolvimento da moléstia. O uso terapêutico da música com animais e vegetais também parece ter algum tipo de efeito comprovado através de observações científicas. Vacas que ouvem Mozart produziriam mais leite na ordenha e alfaces tirariam mais proveito da fotossíntese se submetidas a “audições”. Coisas da natureza.

Lembro ainda hoje do quanto me espantei ao descobrir que mesmo um instrumento percussivo, como a bateria, possui uma escrita musical que pode ser transcrita em uma partitura. Mesmo que os instrumentos percussivos pareçam ter a única função de sustentação rítmica, produzem sonoridades diversas que operam em uma frequência vibratória escalonável, razão pela qual podem ser “escritos” conforme a linguagem musical. Provavelmente os instrumentos percussivos foram os primeiros criados pelo homem, embora os vestígios de rudimentares instrumentos de sopro tenham sido também encontrados em diversos sítios arqueológicos. Boa parte dos instrumentos modernos, com exceção dos elétricos, derivam de certa maneira da atividade percussiva, mesmo que de forma indireta, como no caso do piano, cujas cordas são acionadas mecanicamente.

De toda maneira, a música é sempre o resultado da vibração das ondas sonoras e de sua harmonização (ou não, como querem os cacofônicos). Diferentes culturas têm características bem específicas em relação à composição musical e até mesmo sobre peculiaridades sonoras. Instrumentos exóticos como a cítara indiana e outros quase inconcebíveis são capazes de gerar sonoridades tonais fracionadas, os chamados semitons, que não podem sequer serem transcritos para escrita musical ocidental. Parece ser o mesmo tipo de frequência sonora que se encontra na música vocal tradicional de países do oriente médio, não por acaso hipnotizante.

Seja como fonte de enlevo, transe, euforia ou mero deleite, a música acompanha o homem desde eras remotas e é provável que acompanhe até o final de nossa experiência terrena. Diante de um predomínio tecnológico sem precedentes na história, é natural que ela cada vez mais receba daí um aporte relevante. Desde a década de 1960 isso vem acontecendo, na verdade. Que uns prefiram as guitarras e instrumentos eletrificados aos samplers digitais ou estes aos instrumentos acústicos mais tradicionais, tudo isso é bem compreensível.

O difícil de compreender continua sendo a misteriosa conexão que a música faz com o pensamento e com a sensorialidade humana, chegando a anular-se em alguns casos e, em outros, gerando elaborações de extrema complexidade, como a capacidade de improvisação jazzística, por exemplo, sem entrar no mérito de Beethoven e outros compositores e instrumentistas acometidos pela surdez. De qualquer forma, mesmo que se trate de capacidade desenvolvida através da aprendizagem, sempre soará como um tipo de magia ou, como bem afirmou Schopennhauer, um tipo especial de exercício inconsciente da metafísica, “no qual o espírito não sabe que está a fazer filosofia”.

A reabilitação do afeto por Andrew SolomonA reabilitação do afeto por Andrew Solomon

Capa de Longe da Árvore

O que podem ter em comum pessoas surdas, anãs, pessoas com síndrome de Down, pessoas com autismo, pessoas diagnosticas com esquizofrenia, com deficiências físicas, superdotados, crianças que nasceram a partir de violência sexual, transgêneros e outras que se tornaram criminosas? Talvez muito, mas este possível elo não é necessariamente o foco do novo livro de Andrew Solomon, Longe da árvore: Pais, filhos e a busca da identidade.

Colhidos em centenas de entrevistas e pensados na perspectiva de ampla leitura e bibliografia, os relatos de Solomon têm como principal ponto de contato a qualidade da diferença. De uma diferença estabelecida primeiramente dentro de casa, na própria família, na relação entre filhos e pais, sob a sombra da “copa da árvore” (o que ele chamou de identidade vertical). Depois disso, ele vai ainda mais além ao examinar os intrincados percursos sociais que as pessoas fazem ao longo da vida, sedimentando ou às vezes arruinando suas identidades pessoais (denominada como identidade horizontal, aquela baseada na interação social).

Mas o que ele deseja com esse mosaico, afinal?

Como o próprio título do livro diz, talvez demonstrar que mesmo aqueles mais próximos a nós – nossos descendentes – podem nascer ou vir a estar distantes de nossa própria identidade, do nosso tronco parental. Lá, longe da árvore, e expostos ao mundo tal como ele é, são pessoas cuja vulnerabilidade demonstra não necessariamente um destino marcado pela infelicidade pessoal, mas certo fracasso social (e também uma possibilidade de mudança), no sentido de que são pessoas portadoras de identidades desajustadas, mesmo que em grande parte devido a razões alheias à própria vontade.

Solomon, entretanto, é otimista. Estas identidades horizontais (que bem podem ser chamadas de ortogonais), mesmo que definidoras de uma distinção à filiação idealmente desejada, aquela na qual o descendente perpetua e verticaliza as características e a história de vida dos seus progenitores, são entendidas como mera expressão da diversidade e, o amor, o único elemento de adesão possível entre as pessoas.

Que outros livros você lembra-se de ter recebido uma crítica como a feita pelo The Observer em relação ao livro? – “Fazendo uma matéria sobre o Google, descobri que uma das dez perguntas mais feitas no mecanismo de busca é ‘O que é o amor?’. No futuro, o Google fará bem se indicar o extraordinário livro de Andrew Solomon àqueles que digitarem essa recorrente questão.”

No entanto é disso mesmo que se trata. O próprio Solomon corrobora essa perspectiva ao dizer que “a predisposição para o amor dos pais prevalece na mais penosa das circunstâncias.”

Longe da árvore faz uma aposta em um futuro menos árido para pessoas com identidade horizontal, segundo os próprios termos do autor. Isso depende, entretanto, menos das próprias pessoas em anular ou mascarar suas características do que pela necessidade cada vez mais expressa de reconhecimento e aceitação.

Embora seja uma palavra de simples significado, a aceitação comporta em um gesto bastante complicado, principalmente quando relacionada a filhos que até bem pouco eram renegados ou segregados institucionalmente. Isso vale para pessoas com síndrome de Down, esquizofrênicos e com todas aquelas pessoas cujas vidas deveriam ocorrer a partir de uma dissociação social e, principalmente, afetiva. Vidas afastadas umas das outras, como um arquipélago desconectado. O livro de Andrew Solomon é também como um grande mapa sobre pessoas que, no mundo contemporâneo, passam a existir socialmente a partir do reestabelecimento das relações afetivas e do reconhecimento.

Antes de chegar à solução do amor e da aceitação, ele descortina as grandes dificuldades inerentes ao convívio humano, especialmente porque envolvendo pessoas cujas especificidades biológicas e/ou culturais destoam do que poderia ser chamado de eixo da normalidade. Frustrações, negações, rejeições e exclusões estão presentes no livro. Mas também o afeto, a aceitação, a reciprocidade e a inclusão.

Lançado ano passado nos Estados Unidos, o livro foi vencedor do National Book Critics Circle Award 2012 na categoria não ficção. No website promocional do livro e no do próprio autor, vídeos com a participação de muitas das pessoas entrevistadas para a construção do livro (sim, construção, trata-se de um livro de 1050 páginas) dão uma amostra do colossal empreendimento do escritor e jornalista que já havia trabalhado a fundo sob o tema da depressão, a qual acometeu a ele próprio, em O demônio do meio-dia, que lhe valeu o National Book Award em 2001 e em 2002 chegou a finalista do Pulitzer.

No TED, em abril deste ano, Solomon antecipara alguns elementos do novo livro e apresentou suas ideias centrais, equiparando identidades e reafirmando que a disposição em amar é universal e que as identidades com as quais trabalhou em Longe da árvore são algumas entre tantas. Ele crê que a diversidade configura uma nova maioria, a maioria das minorias. Uma imagem social bem mais ampla que a previsível no “eixo normal”. A grande aventura do livro, entretanto, é o empreendimento da desconstrução de conceitos que por muito tempo articularam a rejeição e exclusão das minorias. Convertendo em identidades conceitos como doença, condição, síndrome, defeito e outros, ele recupera a trajetória humana de indivíduos reais, identificando as diferentes expressões pelas quais os vínculos sociais se estabelecem.

Sem deixar de ser um livro jornalístico para se transformar em uma espécie de Sociologia da contemporaneidade, ele como que ultrapassa o sentido de identidade estabelecido no clássico de Erving Goffman, Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, no qual o indivíduo é sempre uma espécie de refém do social. Mesmo que não ultrapasse de todo, suas histórias de vida demonstram que já estamos ou podemos estar a caminho de um pacto social mais tolerante. Sua felicidade extrema foi ter reabilitado o sentido do amor como fundamento do humano e das relações sociais e afetivas.

Amour até o fimAmour até o fim

Amour

Vencedor da Palma de Ouro de 2012 e indicado ao Oscar 2013 de melhor filme e melhor filme estrangeiro, Amour (Amor no Brasil) é um filme alucinante, tal como é por vezes a realidade. Amour dispensa maquiagem, música incidental e qualquer efeito decorativo para abordar um tema duro como a velhice. Indispensáveis ali só mesmo as atuações de seus protagonistas, Georges e Anne, interpretados por Jean-Louis Trintignat (Um Homem, Uma Mulher) e Emmanuelle Riva (Hiroshima Mon Amour). Amour concorre ainda ao Oscar de melhor diretor, melhor atriz e melhor roteiro original.

O filme, que já foi taxado de amargo e excessivamente duro, não faz concessões à trama proposta. Resiste ao choro fácil porque seus personagens não o permitem, nem por um segundo. Não são velhos acuados que permitiriam a violência, a piedade ou a omissão. Não resta dúvida que um filme como Amour não foi feito para o choro convulsivo. É mesmo um filme duro porque a velhice é uma realidade dura e atinente a um mundo obcecado por produtividade e jovialidade, para o qual a velhice não deixa de ser um tipo de estorvo, como a lembrança indesejável do futuro que sempre espreita o tempo presente e os habitantes do interminável agora.

Trata-se de um casal que resiste de dentro da palavra que nomeia o filme, cuja cumplicidade não visa agradar ao espectador, mas cumprir a função que ela própria exerce em suas vidas, a cada momento. Seus protagonistas atravessam o filme sem perder o prumo, na paisagem de um apartamento que é ao mesmo tempo seu desterro e único lar. Georges é suave e severo ao mesmo tempo. Não se enganará com falsas esperanças e falso conforto. Suas roupas são ásperas, como sua pele. Sua doçura não exala pela voz, apenas pelos gestos. Mesmo quando viver não fizer mais sentido, não sentirá desespero. Jamais deixará que Anne sofra, custe isso o que lhe custar. Anne tem um olhar fresco e amável. Está decidida a viver sem necessidade da compaixão. Dois derrames cerebrais irão paralisá-la e comprometê-la definitivamente, até que viva sem resquício de autonomia e dependa totalmente dos cuidados de terceiros. Nem por isso perderá a doçura. Através dela, Anne dará a perceber seus sentimentos. Por causa do nome do filme, Georges os poderá interpretar.

Os outros personagens são menos importantes. Aparecem e desaparecem sem interferir no rumo dos fatos. Mesmo a filha do casal, vivida por Isabelle Huppert, não chega a compartilhar de suas dificuldades. Limita-se a ser uma espectadora do drama dos pais. O zelador do prédio tem papel mais relevante e quase aparece mais vezes no filme que ela. Mesmo quando se torna mais complicado, depois do segundo acidente vascular, Georges parece não se incomodar com isso. A essa altura da vida, há pouco tempo a perder. Além disso, ele não está disposto a negociar sua dignidade. Se cuidar da esposa foi o pouco que lhe restou, ele o fará com toda a sua energia. Georges não abrirá mão de viver essa experiência. Seus passos às vezes claudicantes são de quem sabe o que é preciso fazer, mesmo quando afrontado em sua própria casa. É o que lhe acontece ao tratar com profissionais que deveriam cuidar de Anne mas são completamente incapazes do gesto de cuidar, agindo com violência e brutalidade. Muitas vezes a velhice está ao cuidado de mãos assim.

O que vem depois do final do filme não se pode saber ou sequer imaginar. Há a morte inevitável, que vem para todos. Antes disso, não se pode adivinhar a solidão que ele enfrentará. Ele vai embora, desaparece. Não espera que o encontrem ao lado de Anne, como um cão de guarda. Georges é um homem que encontrou na interpretação de Trintignat a exatidão do gesto e a precisão do olhar. O diretor austríaco Michael Haneke (de A Fita Branca), sabidamente um diretor cruel, encontrou um ator capaz de captar o tom de quem ama sem estardalhaço, capaz de fazer o impossível. Pensando bem, olhando nos olhos de Anne, quem não o faria?

Em um ano em que já fora lançado no Brasil o franco-alemão E Se Vivêssemos Todos Juntos?, a temática do envelhecimento no cinema volta a ganhar destaque com Amour, apontando para a realidade e as necessidades de uma faixa da população que não cessa de crescer. Estimativas da ONU indicam que, até 2050, a população de pessoas com mais de sessenta anos deve triplicar no mundo inteiro. Justamente quando vem a público uma declaração como a do ministro de finanças do Japão, de que os idosos deveriam “se apressar e morrer” para desonerar as finanças públicas, o cinema parece querer dar outro recado, de que se trata de pessoas dispostas a resistir e a não abrir mão nem de sua dignidade nem de seu estar-no-mundo. Por certo o ministro e os que reclamam da dureza de Amour ainda estão bem longe de enfrentar a dureza da velhice.

Prepare-se para cairPrepare-se para cair

Eu não sabia que Diogo Mainardi escrevia sobre capoeira, até que terminei, em cerca de 120 minutos, de ler A queda. É uma novidade que me faz olhar mais uma vez para a capa do livro como quem olha para um pedestal, já que o seu efeito imediato não é outro que o de uma rasteira, de uma rasteira de só quem frequentou muito o chão sabe desferir. Minha dificuldade no momento é me recompor da minha própria queda, providenciada pela leitura do livro, mas é daqui mesmo, do chão, que posso avaliar melhor o estado de coisas antes e depois da leitura porque, por minha própria experiência, atesto que estar em pé é uma transição permanente, um tipo de concessão da gravidade ou, como para muitas pessoas, um desafio da vontade, uma experiência cuja compreensão requer boa parte da energia de viver.

A queda é um livro econômico. As frases são objetivas. Os trechos são curtos como comunicados, o que dificulta um pouco a tarefa de classificá-lo em algum dos gêneros literários disponíveis. Em determinados momentos, lembra um caderno de notas ou um tipo de blog impresso. É dentro dessa forma imprecisa que nasce a tensão do livro, suplantando a própria necessidade de classificá-lo, por mostrar um Mainardi tal como ele é, pelo caráter confessional e autobiográfico que reconstrói em 424 passos uma trajetória na qual ergue-se e pode caminhar com o filho Tito, seu pequeno búlgaro, e onde enfim pode tombar o próprio Diogo.

Não faz muito tempo que os pais, os homens, frequentam o chão. Antes dos hippies, a masculinidade vivia como numa clausura, na imagem de um eterno galanteio como os atores de Hollywood ajudaram a fixar. De terno e gravata ninguém vai ao chão. E a própria noção do chão enquanto espaço infantil é igualmente recente. Foi a médica e pedagoga italiana Maria Montessori uma das primeiras pessoas a considerar o ângulo próprio da infância, de quem vê de baixo um mundo gigantesco. Para ela, que inclusive chegou a conceber espaços pedagógicos miniaturizados, são as crianças que gestam o homem, e não se pode pretender mudar este último sem valorizar a experiência daquelas. Nada como uma criança, como um filho com deficiência, para deitar ao chão a inutilidade da formalidade, para sujar a alvura do distanciamento, para valorizar o que efetivamente importa, para reduzir a nada as imagens cristalizadas. Como se pode saber em A queda, foi Tito quem acostumou Mainardi ao chão, para que ele pudesse ver-se livre inclusive da imagem que se colou a ele ao longo da última década, quando Mainardi encarnou um tipo de personagem de si mesmo, angariando tanto a devoção de alguns quanto o ódio de seus detratores.

Como ele mesmo diz, o livro o deixou nu. Parece impossível, aliás, que um homem trate da paternidade sem que fique nu, para o bem ou para o mal. Mainardi não foi o primeiro pai a escrever sobre a vida com um filho com deficiência, mas foi o primeiro a abordar a paternidade a partir do seu efetivo exercício. A queda é autobiografia em estado puro. Não há personagens ali. Não há trama. Não há cenário senão uma colagem de referências que arquitetam e refazem lugares, trajetos e situações que fazem todo o sentido para o livro, justamente porque fazem parte da vida do autor. Não há uma construção, mas um tipo de descolamento que deixa ver um pai e um filho através de pequenas confissões capazes de destruir a imagem de um pai poderoso e recolocar em seu lugar um pai como qualquer outro, nem sombra de um pai “especial” ou “escolhido”. Como bom capoeirista, ele derruba num golpe só a fantasia heroica e o abandono depressivo, deitando ao chão quem sabe e não sabe cair, levando de roldão o desamor que tem se fixado junto à literatura sobre filhos com deficiência.

Repetindo, A queda é autobiografia em estado puro. Ali estão um pai, um filho, uma mãe, um irmão e outras pessoas, não personagens, que marcaram suas vidas indelevelmente. Não há espaços vazios, silêncios, fantasmas do filho desejado ou laivos de rancor e decepção. Mainardi ama seu filho como ele é e faz de seu livro um tipo de ode à paralisia cerebral, sem envergonhar-se disso. A queda consegue a façanha de colocar “felicidade” e “deficiência” numa mesma frase, sem efeito algum a não ser o da própria realidade. Talvez Diogo não saiba quanta felicidade isso pode causar principalmente aos pais de outros filhos com alguma deficiência, porque a um tempo só torna possível abandonar o tom trágico que cerca o tema e abraçar a realidade da vida como a vida pode ser, com ou sem paralisia cerebral, com ou sem alguma deficiência. O testemunho dos 424 passos de Tito não permite saber aonde ele vai, mas permite saber que ele logrou sua ida e que há um pai que o permitiu, que há uma paternidade para este filho que passa a viver, ao cabo da leitura, livre da contabilidade de seu sucesso ou fracasso, mas cada vez mais dono de sua própria vida.

O radinho da Simone: espalhado Brasil adentroO radinho da Simone: espalhado Brasil adentro

Assim como há música que são como calçadas, espalhadas Brasil adentro, onde se encontra de tudo – e isso é uma benção de poucos lugares – há músicas que parecem que encontramos nas ruas, como um vizinho antigo, uma fachada intacta ou lugares que mudaram, aqueles que nos últimos tempos puderam mudar pra melhor.

Assim é o radinho da Simone, que encontrei quase sem querer pipocando de lá pra cá, nessa chapa quente que é a internet. A Simone de quem falo é a Simone Guimarães, a cantora que tem a voz do Brasil de dentro por dentro de si e que, quando bota isso pra fora, faz a gente sair procurando onde está o Brasil dentro de nós. E ela nos diz (sem mesmo saber) que ele está onde esteve sempre esteve, lá, ali, aqui, um pouco aos nossos pés, um pouco oculto e inacessível, mas ainda assim inteiramente nosso.

No radinho da Simone há coisas gravadas há bastante tempo, desde os tempos miraculosos de Piracema até os trabalhos mais recentes, não menos miraculosos, de Casa de Oceano ou Flor de Pão, registrados pela Biscoito Fino. Há também coisas pra descobrir: letras antigas de um Cacaso, canções plantadas no leito de um rio, na borda de uma janela em flor ou noutras jóias e pepitas desse pequeno grande tesouro esperando ser descoberto…

Sempre resta uma dúvida ao escutar a Simone: é preciso decidir rapidamente se as suas escolhas foram feitas pensando em sua voz ou se sua voz é que foi forjada por suas escolhas. Como a resposta não está escrita em lugar nenhum, o jeito é botar o radinho pra tocar mais uma vez. E tentar decidir jamais.
Com licença, por obséquio, que eu preciso ouvir esse radinho aqui um pouco mais.