Amour até o fim

Amour

Vencedor da Palma de Ouro de 2012 e indicado ao Oscar 2013 de melhor filme e melhor filme estrangeiro, Amour (Amor no Brasil) é um filme alucinante, tal como é por vezes a realidade. Amour dispensa maquiagem, música incidental e qualquer efeito decorativo para abordar um tema duro como a velhice. Indispensáveis ali só mesmo as atuações de seus protagonistas, Georges e Anne, interpretados por Jean-Louis Trintignat (Um Homem, Uma Mulher) e Emmanuelle Riva (Hiroshima Mon Amour). Amour concorre ainda ao Oscar de melhor diretor, melhor atriz e melhor roteiro original.

O filme, que já foi taxado de amargo e excessivamente duro, não faz concessões à trama proposta. Resiste ao choro fácil porque seus personagens não o permitem, nem por um segundo. Não são velhos acuados que permitiriam a violência, a piedade ou a omissão. Não resta dúvida que um filme como Amour não foi feito para o choro convulsivo. É mesmo um filme duro porque a velhice é uma realidade dura e atinente a um mundo obcecado por produtividade e jovialidade, para o qual a velhice não deixa de ser um tipo de estorvo, como a lembrança indesejável do futuro que sempre espreita o tempo presente e os habitantes do interminável agora.

Trata-se de um casal que resiste de dentro da palavra que nomeia o filme, cuja cumplicidade não visa agradar ao espectador, mas cumprir a função que ela própria exerce em suas vidas, a cada momento. Seus protagonistas atravessam o filme sem perder o prumo, na paisagem de um apartamento que é ao mesmo tempo seu desterro e único lar. Georges é suave e severo ao mesmo tempo. Não se enganará com falsas esperanças e falso conforto. Suas roupas são ásperas, como sua pele. Sua doçura não exala pela voz, apenas pelos gestos. Mesmo quando viver não fizer mais sentido, não sentirá desespero. Jamais deixará que Anne sofra, custe isso o que lhe custar. Anne tem um olhar fresco e amável. Está decidida a viver sem necessidade da compaixão. Dois derrames cerebrais irão paralisá-la e comprometê-la definitivamente, até que viva sem resquício de autonomia e dependa totalmente dos cuidados de terceiros. Nem por isso perderá a doçura. Através dela, Anne dará a perceber seus sentimentos. Por causa do nome do filme, Georges os poderá interpretar.

Os outros personagens são menos importantes. Aparecem e desaparecem sem interferir no rumo dos fatos. Mesmo a filha do casal, vivida por Isabelle Huppert, não chega a compartilhar de suas dificuldades. Limita-se a ser uma espectadora do drama dos pais. O zelador do prédio tem papel mais relevante e quase aparece mais vezes no filme que ela. Mesmo quando se torna mais complicado, depois do segundo acidente vascular, Georges parece não se incomodar com isso. A essa altura da vida, há pouco tempo a perder. Além disso, ele não está disposto a negociar sua dignidade. Se cuidar da esposa foi o pouco que lhe restou, ele o fará com toda a sua energia. Georges não abrirá mão de viver essa experiência. Seus passos às vezes claudicantes são de quem sabe o que é preciso fazer, mesmo quando afrontado em sua própria casa. É o que lhe acontece ao tratar com profissionais que deveriam cuidar de Anne mas são completamente incapazes do gesto de cuidar, agindo com violência e brutalidade. Muitas vezes a velhice está ao cuidado de mãos assim.

O que vem depois do final do filme não se pode saber ou sequer imaginar. Há a morte inevitável, que vem para todos. Antes disso, não se pode adivinhar a solidão que ele enfrentará. Ele vai embora, desaparece. Não espera que o encontrem ao lado de Anne, como um cão de guarda. Georges é um homem que encontrou na interpretação de Trintignat a exatidão do gesto e a precisão do olhar. O diretor austríaco Michael Haneke (de A Fita Branca), sabidamente um diretor cruel, encontrou um ator capaz de captar o tom de quem ama sem estardalhaço, capaz de fazer o impossível. Pensando bem, olhando nos olhos de Anne, quem não o faria?

Em um ano em que já fora lançado no Brasil o franco-alemão E Se Vivêssemos Todos Juntos?, a temática do envelhecimento no cinema volta a ganhar destaque com Amour, apontando para a realidade e as necessidades de uma faixa da população que não cessa de crescer. Estimativas da ONU indicam que, até 2050, a população de pessoas com mais de sessenta anos deve triplicar no mundo inteiro. Justamente quando vem a público uma declaração como a do ministro de finanças do Japão, de que os idosos deveriam “se apressar e morrer” para desonerar as finanças públicas, o cinema parece querer dar outro recado, de que se trata de pessoas dispostas a resistir e a não abrir mão nem de sua dignidade nem de seu estar-no-mundo. Por certo o ministro e os que reclamam da dureza de Amour ainda estão bem longe de enfrentar a dureza da velhice.

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Turismo para cegosTurismo para cegos

turismo

  • Revista Amálgama

A pior reação que um livro, seja de que gênero for, pode causar em uma pessoa é nenhuma. Ser uma leitura como a de uma bula de remédio ou do invólucro de uma pasta de dentes é, para os efeitos da leitura, o mais alto anticlímax que um livro pode obter. Do outro lado da moeda, há os livros que desde o primeiro parágrafo sacodem os nervos do leitor, desacomodando-o. Fazendo com que desperte do seu ensimesmamento. Aos livros que têm essa capacidade, para todos os efeitos, eu costumo dizer que são meus livros de boxe. São livros que não me espantaram pelo rigor formal ou por qualquer inovação estética, mas por terem sacudido, como em um ou mais golpes, os sentidos e o que vai por dentro deles, seja qual for o nome que se use para isso.

Turismo para cegos, romance de estreia de Tércia Montenegro, é um livro que se impôs muito sutilmente nessa classificação. Digo sutilmente porque é um romance permeado de nuances psicológicas e personagens apenas aparentemente delicados que se revelam mais humanos justamente na medida em que mais se pode percebê-los complexos e falíveis.

O livro conta o romance entre Laila e Pierre. Ela, uma estudante de artes visuais que vai se descobrindo cega em razão de uma doença degenerativa denominada retinose pigmentar. Ele é um funcionário público que se decide a ajudá-la nesse momento crucial da vida, mas com a perplexidade afetiva de quem se encontra, por sua vez, também desamparado e buscando conhecer-se melhor.

Na literatura brasileira, personagens cegos não são novidade, mas também não há muitos. No papel de protagonista, então, diminuem bastante. Via de regra, a deficiência sensorial costuma surgir como uma característica redentora da pessoa, como um poder especial ou uma dificuldade tornada artifício, assumindo como se uma forma de compensação. A Laila de Tércia Montenegro, contudo, passa muito longe do estereótipo. Ela é irresignada, em certa medida amargurada e nem um pouco interessada em transformar sua vida num transbordo de piedade e comiseração.

Talvez este confronto de Laila com um mundo que se dobra forçosamente à condição da deficiência e que é espontaneamente inadequado e inacessível, inclusive delimitando o discurso e o raio de ação dos demais personagens, possa criar ao leitor um ambiente desconfortável. Isso acontece porque Tércia não se ampara na hipótese da condescendência, nem a social nem a afetiva. O tom por vezes até agressivo de Laila para com Pierre, ou de sua recepção ao modo como ele presta cuidados, parece ser um reflexo da sua própria interlocução com o mundo, interrompida pela deficiência que lhe tomou justamente o que lhe era mais caro: a estética visual. No romance Laila é, além de estudante, também artista plástica. E Pierre é também o nome que ela dá ao cão-guia que irá ajudá-la em sua mobilidade.

No novo mundo de Laila, não cabem eufemismos politicamente corretos nem uma jornada pela superação, como é presente em muitas narrativas sobre deficiências, mas o enfrentamento da realidade social e individual, mesmo que ao custo do endurecimento afetivo e de muitos desencontros interpessoais. De certo modo, muito do que se depreende da personalidade de Laila é predominantemente dado pelo que é narrado de sua voz interna, uma vez que sua ação delimita-se pela relação de dependência com Pierre, que é ao mesmo tempo asfixiante. Imbuída de um temperamento instável, a Laila de Tércia vai tentar romper no plano real com as amarrações que a deficiência lhe impõe, exigindo uma dose considerável de coragem para conduzir-se com coerência e veracidade. Coragem e alguma temeridade, portanto, são as apostas de Tércia tanto para sua protagonista quanto para o enredo proposto.

Coincidentemente ou não, Turismo para cegos é também um livro bastante visual. Mesmo quando Tércia internaliza a narrativa, ela o faz como se procurasse demonstrar a eficácia da palavra em transmitir as impressões sensoriais e em fixar o mundo de forma objetiva. Em muitos momentos da narrativa, quando a ação é suspensa e a introspecção toma corpo, torna-se muito fácil entender as reações psicológicas de Laila, justamente porque são descritas com o rigor e a vontade de quem procura não deixar dúvidas sobre os sentimentos, mesmo em suas repercussões mais veladas, já que em última análise é deles que provêm a força narrativa do romance.

É esta coragem precisamente que, para mim, o faz com que o coloque junto ao que chamo de “livros de boxe”, porque é um romance que se realiza através de um esforço que luta contra os desfechos previsíveis e personagens caricaturais, quando só aparentemente a deficiência poderia impor soluções fáceis ou cartadas certeiras. Em Turismo para cegos, se a inocência não resiste a um round inteiro, tampouco os leitores serão conduzidos através de um cenário plenamente sólido. A consistência do romance de estreia de Tércia talvez encontre-se justamente na impossibilidade de antecipar-se o comportamento humano, mesmo diante do abismo imposto pela deficiência visual.

Mesmo que a autora pinte com nitidez o ambiente psicológico de seus personagens, seu livro fixa-se mais por tornar evidentes as incertezas inerentes à vida e seus efeitos nas decisões dos personagens do que por traçar-lhes um destino inescapável, dado ou não pela condição da deficiência. Neste caso, por irascível que possa parecer à primeira vista, sua Laila tem a inconformidade necessária a quem deseja, a despeito de tudo, permanecer em combate e não se dar por vencida. Se um livro “de boxe” precisa de um lutador, o certo é que Turismo para cegos conta com um deles.

One Mile UpstreamOne Mile Upstream

Nem parece que foi há dez anos que ouvi pela primeira vez a lindíssima voz de Flo Morrissey. Na época, uma garota que compôs um dos discos que eu mais ouvi nestes dez últimos anos, Tomorrow Will Be Beautiful.

Nesse meio tempo, Florence gravou um disco excelente com Matthew E. White e casou-se com o espantoso cantor e compositor Benjamin Clementine, com quem teve um filho e uma filha.

Não poderia saber o que esperar do seu novo disco, mas é certo que vou me ocupar dele por um longo tempo pela frente.

Florence Clementine, como se chama agora, tem um timbre de voz muito peculiar, e neste disco em que vai um pouco mais ao blue do que ao folk, me remeteu ainda mais à sonoridade de Billie Holiday e Karen Dalton.

Eu não diria que é um som retrô, mas uma continuidade de uma tradição folk com a qual ela sempre esteve identificada.

Com arranjos e produção de Benjamin, o disco é uma grande jornada em torno das suas raízes musicais e do intervalo que ela fez na carreira de compositora nos primeiros anos dos filhos.

Eu não preciso de muito mais que um pouco de vinho e deste novo disco de Florence. Por mim, o ano já pode acabar. <3

Joyce Carol Oates e a reivindicação do malJoyce Carol Oates e a reivindicação do mal

Depois que li “Levo você até lá”, romance de formação semiautobiográfico de Joyce Carol Oates, fui tomado por uma febre oatesiana. O que me passava pela frente com o seu nome eu fui lendo, inclusive alguns livros que ela tinha assinado apenas a introdução, como o Jane Eyre de Charlotte Bronte e os poemas de “American melancholy” que não sei porque não temos uma edição traduzida no Brasil.

Sempre que eu mesmo me vejo na situação de apensar “escritor” ao meu nome eu lembro-me dela e dou uma vacilada. Oates tem uma produção impressionante. Há anos em que ela publicou três livros, entre novelas e contos de sua autoria ou de seus dois pseudônimos. Livros que são calhamaços, de 500 páginas para fora. Não sei quantos livros seus foram traduzidos e publicados no Brasil, mas me parece que quase duas dezenas de uma obra com mais de 120 títulos.

De longe, “A fêmea da espécie” é o livro com a capa mais repulsiva que tenho por aqui. Se a ideia era transmitir uma figura feminina pérfida, no entanto, tenho que admitir que ela é perfeita. A diagramação também é estranha, espremida em margens de, no máximo, 1 cm. Em cada conto, uma pequena ilustração em preto e branco meio borrada. Parecem imagens de carimbo mal carimbado, com tinta sobrando ou faltando.

Eu não tenho os demais livros da “Coleção Negra”, pela qual saiu o livro em 2008 (nos EUA saiu em 2005). São livros noir e hoje, em face da questão étnica, duvido que a Record usasse o termo traduzido. E o livro mesmo traz uma abordagem pouco convencional do feminino que é mais publicado contemporaneamente. Não é um libelo, é um livro de contos e neles as mulheres surgem quase sempre num papel ativamente maligno, amoral ou tendendo ao criminoso.

Não sei exatamente que programa tinha Oates nesse livro, se desejava combater ideias ou, enfim, situações comportamentais que vivia nos EUA na época em que os contos foram escritos, mas é um livro muito ousado e inquietante. Feminista? Me parece que sim, principalmente por assumir a integralidade do caráter humano das personagens femininas, com as violências recebidas e também as praticadas. Ou o que impediria as mulheres de se tornarem tão pérfidas quanto os piores exemplares masculinos? Para Oates, como se vê em seu livro, nada absolutamente.

Nesse livro, nada disso de um desfile de boas condutas e práticas exemplares. O que se encontra são mulheres, às vezes meninas, envolvidas em ardis, desejos mórbidos, impulsos e condutas psíquicas que Oates, uma autora que costuma enfrentar o psiquismo de seus personagens de forma desarmada, não faz questão de dissimular. Mesmo no limiar da contravenção e do crime, nos contos do livro as personagens são exploradas de forma que não se apele à simpatia do leitor, mas se respeite suas personalidades, por mais repulsivas que possam nos parecer.

Em alguma medida, o livro é mesmo uma coleção de alegorias do mal pelo mal, do mal sem necessidade nem atrelamento causal. É como se a expressão “mal necessário” em seus contos encontrasse uma extensão diacrítica e o mal, desnecessário, ainda assim pulsasse e justamente na “fêmea da espécie”. É uma radicalização extrema do desejo de igualdade muito menos maniqueísta e esquemático que os livros-denúncia que tem fartados as prateleiras das livrarias nessa época em que estranhamente a qualidade da leitura determina a qualidade da escrita.

Livro de outro tempo, esse, no qual os lugares sociais estão embaçados de forma muito realista. A argentina Ariana Harwicz (da “trilogia do amor”) deve ter devorado o livro muitas vezes. A capa é mesmo horrorosa, dela eu ainda prefiro “A filha do coveiro” e “Levo você até lá”, mas é um belo livro. Que não se julgue-o pela capa.