Mas a mim parece apenas que ao ler um livro de contos ou de poemas, estou lendo um dos ruins quando ao ler um já vi todos – e um dos bons quando li todos, mas ainda nem um.
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Pragmatismo poético #10
#10
Outra finalidade da poesia talvez seja gerar uma espécie de amnésia no leitor, isso tanto para as boas quanto para as más impressões.
A urna – 97
Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol
Foste embora e, ao mesmo tempo, não…
És tão distante (e nunca tão presente)!
Em meu olhar, tu choras de solidão
sempre que de mim te vês ausente.
Bastava-me saber por onde tens ido…
As portas, as árvores do outono, o jeito
que tinhas de perguntar, sobre o meu peito,
e eu sustaria outra vez o teu gemido.
Aonde poderás ir que eu não te deixe?
Onde que eu não te veja, e eu não me queixe?
Se ao teu lado eu talvez te esquecesse,
pois sempre estou com o que está distante
(tu sabes bem: a juventude envelhece),
eu sempre estou com o que está distante…
Uma epígrafe japonesa
A dor comum
Miguel de Unamuno (1864 – 1936)
trad. do espanhol
Cala-te meu coração, os teus pesares
são dos que não se devem dizer, deixa
que se acabem num sonho; tua queixa
é só tua, e quando a proclamares
cuida de aos demais não importunares
com demasiado grito. O teu lamento,
sendo só teu, é um sentimento
de tua mera vaidade. Nunca separes
a tua dor da dor comum e humana,
e busca o íntimo em que habita
a humanidade que aos demais te irmana,
é o que engrandece a mente e não
a estreita; somente o que pode amar
nos comunica, o resto é a solidão.
Na Revista 7Faces
Na edição 13 da Revista 7Faces, quatro poemas que escrevi, em edição que homenageia Ana Cristina César.
Inclusão em pauta
Inclusão em pauta: debates sobre mídia, bioética, educação, políticas públicas e comportamento é uma coleção de artigos, ensaios curtos e crônicas sobre a temática da inclusão social, seus protagonistas e muitas interfaces.
Publicado na forma de e-book em 2015, o livro foi agora revisado e ampliado com artigos mais recentes e novas crônicas e poderá desde agora ser adquirido também na forma impressa.
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A urna – 2
Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol
Era ódio: já não é. Agora já não existe
mais esta febre da carne viva.
Para quando eu vier a morrer não resista
sombra de orgulho, nem raiva altiva.
Antes eu era todo um tormento,
contradição, luta, mentira;
esticava meu olhar turbulento
no arco da ira.
Em forças desajustadas me dividia
e hoje conto apenas com uma energia
suprema, que alimenta o gesto eterno:
um amor pensativo e doloroso.
Por ele sou como um lago silencioso
entre imensas montanhas. O inverno…
O ódio
Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol
Brilhando por inteiro ao sinuoso
passo vai o tigre, suave como um verso,
e a ferocidade lustra qual terso
topázio o olho seco e vigoroso.
Estirando o músculo em desuso
dos flancos, lânguido e perverso,
encosta-se lentamente no disperso
outono das folhagens. O repouso…
O repouso na selva silenciosa.
A fronte plana dorme entre as finas garras
e o olhar fixo, sem gáudio,
espia, enquanto abafa com a nervosa
cauda todas as outras feras,
como em esgueira… Este é o meu ódio.
Um sussurro
Blanca Varela (1926 – 2009)
trad. do espanhol
há beleza na lentidão
eu copio estas linhas estranhas
respiro
aceito a luz
sob o ar rarefeito de novembro
sob a grama
incolor
sob o céu descascado
e triste
eu aceito o luto e a celebração
mas eu não vim
não virei jamais
no centro de tudo
está o poema intacto
o sol inescapável
a noite sem voltar a cabeça
vagando sua luz
sua sombra animalesca
de palavras
farejando o seu esplendor
seus vestígios
e restos mortais
tudo para dizer
que sempre
tive um cuidado
desarmado
apenas quase
na morte
quase no fogo







