A estropiada identidade do gaúcho

Há no populário rio-grandense um termo que muitas vezes me parece em tudo resumitivo do que parece ser ainda hoje o grande drama identitário do povo gaúcho: trata-se da palavra “estropiado”. Primeiro, pelo seu cunho histórico, tendo em vista que o nascimento das primeiras povoações daqui parece ter ocorrido a partir das tropas empreendidas ao longo desta precursora das rodovias que até os dias atuais riscam o mapa físico do estado. Não das tropas de animais em si mesmo, mas do encontro interpessoal travado entre os nativos indígenas e colonizadores, principalmente paulistas comerciantes ou desertores militares. Deste encontro vis-à-vis ocorrido às margens e ao longo do Caminho das Tropas originaram-se, obviamente não de uma tacada apenas, as primeiras vilas e habitantes do estado. Também dessa época colonial ou pouco depois disso, o termo que deu origem ao nosso gentílico: o gaúcho.

Não parece ser um erro tão grosseiro apresentar a ideia de que tanto o gaúcho (o tipo humano, não o gentílico) quanto o Rio Grande do Sul tenham tido origem num projeto político quase imponderável: o da captura do gado alçado ou chimarrão, o comércio dos bens daí extraídos e a defesa da fronteira contra os insistentes espanhóis. Parecem ambos nascer, dentro dessa perspectiva, de uma necessidade pouco pacífica, de um ir e vir, e de um povo que, debalde isso tudo, foi fixando aqui e ali os limites primeiros do estado, depois autoproclamada república, logo a seguir estado novamente.

Este o sentido linguístico do termo estropiado, aquele que se desviou da tropa; tropa, a reunião de seres em marcha de um lugar a outro no espaço físico. Há alguns sentidos mais, porém, para o uso do termo: o de cunho militar, isto é, de um agrupamento de indivíduos em pé de guerra e constantemente em marcha, essencialmente belicoso; o de cunho literal, que diz daquele sujeito inutilizado, desfigurado, inválido; outro ainda de cunho figurado ou literário, de quem se aparta dos demais não voluntariamente, mas por cansaço, por machucados, por tácita impossibilidade. Já para as questões identitárias, a convergência de todos esses significados parece mesmo resultar no gaúcho conforme a acepção literária, ou seja, ao final de tudo há o errante e o espaço da errância, o gaúcho, o gaudério, o sem lugar.

No mundo, talvez não haja quem mais se debruce tanto sobre si mesmo, quanto nós, gaúchos. Esta preocupação para lá de antropológica, aliás, tem rendido ao longo dos anos muito bons resultados editoriais. Bastaria lembrar dos dois volumes de coletâneas “Nós, os gaúchos”, organizados pelos professores Sergius Gonzaga e Luis Augusto Fischer, editados pela Ed. da Universidade (UFRGS), ou de seus continuadores “Nós, os ítalo-gaúchos”, “Nós, os teuto-gaúchos” e “Nós, os afro-gaúchos”, publicados pela mesma editora em 1996. Mais recentemente, em realização conjunta da UFRGS com a Appoa e reunindo dezenas de conferências realizadas em 2015, publicou-se o volume “NósOutros gaúchos: as identidades dos gaúchos em debate interdisciplinar”. A bem da verdade, há uma ampla literatura a respeito de muitas questões sobre o secular problema identitário no Rio Grande do Sul, apenas que os citados resumem hipóteses que de certo modo atualizam os estudos anteriores, sejam literários, historiográficos ou culturais amplo senso. Isso tudo, todavia, parece sempre pouco guiar a quem se interessa e acaba fazendo esta pergunta ao mesmo tempo banal e cabal: quem afinal somos, os gaúchos?

A dificuldade principal em responder à indagação reside, talvez, em que ela honestamente poderia ser respondida somente por uma série de outras perguntas. Uma série interminável, contextual, que inviabilizaria até que, nesta tentativa, se pudesse chegar a um mínimo termo satisfatório. Sem dúvida, a qualquer um parece existir um apelo quase místico ao termo gaúcho. Se o gentílico por um lado denota um tipo humano indubitável, trajado em toda sua indumentária, por outro descaracteriza e enfumaça por completo todos aqueles não suportados nessa representação. A estes, gaúchos não-gaúchos, resta apenas uma como a daqueles gaúchos mais antigos, históricos e literários: são estropiados da representação, ocorrem fora da cultura, quase alijados de qualquer identidade.

Por outro lado, caso se respondesse ainda àquela mesma pergunta “quem somos?” com o que parece mais óbvio, a resposta correta deveria ser nada mais nada menos que “todos”, mesmo que com isso fosse criado o caldo de cultura para algo como uma nova conflagração. Nada do que não estejamos acostumados. E embora a reivindicação do termo, da palavra-chave, ocorra bem mais por quem esteja longe de sua paisagem original, a região da campanha rio-grandense, é possível ou pelo menos poético pensar que a ideação do gentílico de certo modo foi agindo através dos tempos como um tipo de tentativa inconsciente de auto-pacificação. Em que pese a caracterização estereotipada, desde que pelo menos nascidos aqui, todos gaúchos são. Resolve-se ao menos nominalmente a situação. Não obstante, é difícil imaginar que os interessados deem-se por satisfeitos. A generalização, como costuma ocorrer com todas elas, não pode atender a todas as particularidades e anseios e o que ocorre a partir disso é mais ou menos o que economista indiano Amartya Sen chamou, no seu “Identidade e violência”, de deturpação.

Mais aferrados que desunidos, é curioso notar que tem sido difícil para nós, gaúchos, abrirmos mão mais até do que do uso vocabular do gaúcho, mas de sua poderosa simbologia. Não estou pensando aqui na esterotipia da bravura e da valentia, mas apenas no que às vezes me parece ser uma espécie de desterro coletivo ao qual, curiosamente, nos apegamos sobremaneira. Como se não precisássemos ser de todo brasileiros, mas nem por hipótese gostaríamos de que nos associassem em definitivo aos hermanos castelhanos. Como se fosse mesmo rançoso e difícil responder às troças infinitas sobre a masculinidade e provincianismo (como se fossemos os únicos no mundo afetados por essa moléstia maligna) e quiséssemos acessar o cosmopolitismo bem como somos e com nossos muitos sotaques e modos de dizer.

Pois é bem essa disputa e dilema que viemos travando às vezes silenciosamente, às vezes mais ruidosamente. Em um de seus últimos trabalhos, o antropólogo norte-americano Clifford Geertz assinalava que “cosmopolitismo e provincianismo já não se opõe; ligam-se e se reforçam. À medida que aumenta um, aumenta o outro”. Nada disso, porém, nos acalma por completo. E ainda que se discuta, sobretudos no mês farroupilha, se somos mais silenciosos do que barulhentos, milongueiros ou fandangueiros, serranos ou fronteiriços, de chiripá, bombacha ou jeans, índio vago ou bochincheiro, se a pé ou a cavalo, china, prenda ou tão simplesmente mulher, interessa saber que, sendo tudo isso bom ou ruim, temos culpa no que somos, isto é, sem dúvida alguma fomos nós que nos fizemos assim. Temos, portanto, o dever de minimamente aturarmos uns aos outros. O estranho agradável de tudo o mais é que, embora ainda precisemos pensar um pouco antes de arriscar a dizer quem e como somos, de um modo ou de outro preferimos que, por via das dúvidas, essa dúvida permaneça exclusivamente nossa. E como diria não um intelectual, mas a voz do mais incauto pensador popular, o passofundense Teixeirinha, é não nos “pisar no pala” e estamos conversados.

Parece até mentira

Sei que muitos que me conhecem (ou julgam conhecer) me tomam por alarmista, talvez até um arauto preferencial de más notícias. É uma injustiça pensarem isso de mim. Sou um otimista quase doentio. E mesmo quando não há possibilidade alguma, eu luto talvez a luta mais infame de todas, que é a de mesmo na adversidade manter viva alguma esperança. Só o que não me permito é ser lunático, este é meu limite, especialmente quando estão em questão a vida e a realidade dos outros.

De vez em quando, entretanto, minha esperança recebe reforços. E embora eu procure tentar ser parcimonioso ao falar sobre mim, hoje me deu vontade de contar sobre um reforço desses, que se passou comigo mesmo, na realidade. Eu diria até que foi tão inédito e imprevisto que fiquei desarmado na situação, durante o dia inteiro, e só agora, com o dia já acabando, caiu a ficha do que me aconteceu e não sei se eu tanto havia esperado por ouvir uma coisa dessas, mas na hora a porção mais racional da minha mente computou a coisa toda como se fosse absolutamente lógica e natural. No fundo, inconscientemente, percebi que estivera esperando ouvir (trata-se de um diálogo que ouvi furtivamente) aquela conversa por anos a fio. Na verdade, parece até mentira, uma década já…

Imagem editada que mostra um soldado subindo a escada de um helicóptero sobre o mar do qual emerge uma baleia orca em sua direção. A imagem foi por muito tempo alvo de debate sobre edição de imagens e divulgação de imagens falsas na internet.

Tudo se passou hoje próximo ao meio-dia, pela manhã. Fui à escola dos meus filhos para resolver uma burocracia sobre matrículas e presenciei sem querer a conversa de uma família que visitava a escola para conhecê-la pessoalmente com a orientadora pedagógica, nos corredores que dão ao pátio interno. Este é um ritual que conheço bem e que, mesmo que somente nesse último ano tenha vivido relativos momentos de tranquilidade, duvido que as pessoas que não têm filhos com deficiência consigam imaginar em que tormento isso pode se tornar, quando deveria ser o mais trivial dos gestos para qualquer cidadão e sua família.

Bem, feito o esclarecimento, continuo meu relato. A conversa não me chamaria a atenção, provavelmente (não, eu não sou fuxiqueiro nem indiscreto), se no meio da charla eu não tivesse ouvido o nome do meu filho. Bem, não que ele me dê grandes problemas disciplinares (o meu anjinho…), mas os alertas paternais soaram instantaneamente, por via das dúvidas. O que diabos estaria fazendo o nome do meu filho naquela prosa tão animada?

Então foi que ouvi o que me pareceu por um instante ser mesmo o óbvio a ser dito, que foi mais ou menos assim: “Que ótimo saber disso! Nós queremos mesmo uma escola com inclusão! Com pessoas de todo jeito! É isso que queremos para o nosso filho, esse convívio, porque isso conta muito para nós! Deveriam todas ser assim!” Parece óbvio se você tem também um filho com deficiência, não é? Mas e se não tem? Pois este era justamente o caso! Eu estava ouvindo a conversa de uma família de um aluno sem deficiência que gostaria de matricular seu filho numa escola onde houvesse, naturalmente, crianças com deficiência. Não era uma realidade imprevista que lhes estava sendo apresentada, era o desejo deles, de sua livre e espontânea vontade. E eles declaravam que se importavam com isso, que isso pesaria na sua avaliação.

Nada mais natural, não é verdade? Deveria, mas, sendo realista, não mesmo. Aqui também, parece até mentira… Não sei porque não saí atrás da família e me abracei neles e lhes dei beijos e abraços, mas algo do meu temperamento me conteve e eu, ali, no calor do momento, não entendi tão bem quanto descrevo agora do que se tratava. A ficha custou a cair. Falta de hábito dá nisso, não é verdade?

Não que isso justifique um denuncismo quase obsessivo que se vê por toda a parte, sobretudo redes sociais, mas a verdade é que para a infelicidade de todos, não exclusivamente a minha, há um cenário que tem favorecido sobremaneira o surgimento abundante de más notícias a respeito de situações que se na lei estão resolvidas, na prática continuam boiando no amplo mar da precariedade. É com o que temos nos virado como sociedade.

Pois bem, diante de tudo isso não seria eu a menosprezar os sofrimentos autênticos de ninguém e, apesar de ser obrigado a concordar com a máxima que diz que o mal alheio pesa como um fio de cabelo, somente uma criatura sem alma usaria de seu direito de livre expressar para tripudiar do sofrimento alheio, embora um recente caso ocorrido na vizinha Argentina sobre o qual escrevi algumas poucas linhas me mostre que provavelmente, sim, existam bem mais de uma alma assim.

Não sei o porquê (isso é retórica, sei muito bem) mas sinto como agressões não apenas aquelas situações que ocorrem ao arrepio da lei, mas também as que ocorrem à revelia do mínimo senso de humanidade. A mim, particularmente, a indiferença aos problemas dos demais também me passa uma potentíssima sensação de agressão. Ainda que de um teor menos violento, trata-se de uma outra espécie de violência que, se no âmbito moral individual pode ser considerada inofensiva, institucionalmente ela costuma encobrir muitas vezes casos de covardia política ou até mesmo omissão criminosa. Não gosto nem um pouco, mas acontece, e em volume muito maior do que eu desejaria. E também não tenho admiração alguma por sentimentos de compadecimento e piedade; aliás, duvido muito de que alguém goste de ser objeto deles.

Enfim, entendo que às vezes não há para as pessoas soluções em vista e, assim, há que se ter bom senso para não julgar os demais desconsiderando o seu contexto particular. Embora isso não costume vir nos manuais de empatia, trata-se de não prejudicar os interessados da atenção que lhes alcança e muitas vezes é premente, fundamental. Às vezes, a única efetivamente possível. A isso se chama civilidade. Sou avesso, portanto, a qualquer comportamento à Maria Antonieta. Pelo menos no terreno inclusivo, sejamos honestos, não há tantos brioches assim a oferecer. Há que ser compreensivo com situações duras, excludentes e até mesmo ilegais, que ainda subsistem porque, afinal, o processo costuma seguir mais o percurso acidentado da realidade que o terreno argiloso da idealização.

O fato dentre os fatos é que, se dependemos muito mais dos outros do que dispomos muitas vezes de nossa própria força, acho justo que, ao lado de tantas denúncias, abusos e violências também se possa oferecer um pouco de reforço para quem porventura estiver precisando dele. Se me engrandeço por isso, por seu meu filho o exemplo? É claro que, por isso especificamente, não. E nem se trata disso. Para mim, pessoalmente, muitas vezes tem sido difícil romper essa contenção a que nos amarra a realidade social, e também a individual (acredito que como todo mundo), mas, como ouvi quase sem querer o que ouvi, apenas quis dar eco a esse empurrão que recebi sem nem entender direito a razão… Se alguém que tiver lido até aqui estivesse precisando ouvir isso também, saiba que é real, não é ficção. Como li há um tempo no blogue do Paratodos, em texto da Fabiana Ribeiro, é muito bom às vezes poder ouvir um “Vai, meteoro” desses. Em eventos inúmeros a que fui e em palestras, já ouvi coisas das mais fantásticas e singelas sobre inclusão, mas nunca como essa, que a gente recebe sem precisar nem pedir, por acaso, de graça, a troco de nada.

Como assim celebrar a exclusão?

Vem da vizinha Argentina uma notícia forte candidata a ser, pelo menos no que toca ao direito fundamental à educação, campeoníssima no quesito crueldade do ano. Fartamente reproduzida nos periódicos de lá, foi o El Pais Brasil que a trouxe para cá ao contar em não muitas linhas a história de um aluno diagnosticado com a síndrome de Asperger que foi removido do convívio de seus colegas em decorrência de mobilização contrária a sua presença em sala de aula.

Sim, não há erro de leitura aqui: a mobilização reportada foi realmente empreendida por familiares desejosos da remoção da criança para outra sala de aula, uma que a mantivesse longe dos “nuestros“, que assim finalmente estariam “aliviados” daquele convívio.

Também não há erro de leitura algum nas comemorações dos familiares em sua campanha exitosa. Sim, há exclamações, euforia e muitos emojis esfuziantes pelo obtido em mensagens que foram trocadas em grupos de WhatsApp pelos sequiosos progenitores envolvidos, vazadas e tornadas públicas logo a seguir. Foi o bastante para o fato vir a tornar-se polêmica nacional e até mesmo a atravessar fronteiras, decerto por ser uma espécie de situação até certo ponto de conhecimento universal.

Alunos afastados, convidados a procurar outros estabelecimentos, encaminhados para tratamentos e instituições ou simplesmente expulsos não consistem novidade alguma por aqui, no Brasil. Bastaria lançar a pergunta em aberto “Quem já passou por isso ou semelhante?” e choveriam casos e mais casos escabrosos de ofensa aos direitos da criança, aos direitos humanos de um modo geral e até mesmo de violências mal reportadas, mal conduzidas e muitas vezes simplesmente deixadas por isso mesmo, tal o desamparo que costuma atingir quem atravessa a situação ou situações semelhantes. Isso no âmbito da educação pública e privada, frise-se bem. A novidade aqui, neste caso, é poder verificar-se sem sombra de dúvida que isso muitas vezes ocorre para o regozijo dos demais e isto é por si só bestificante, paralisante, demolidor.

É preciso aceitar, em face disso, que boa parte do esforço em prol de qualificar as relações humanas na escola tem sido literalmente em vão. E isso se uma pessoa apenas comemorasse a exclusão de um aluno com autismo ou outra deficiência qualquer. Quando isso atinge uma comunidade, é de pensar que muito mais vai mal, a começar pela noção de que se pode dispor dos direitos individuais em prol do suposto desejo da maioria. Conflito este que é absurdo e falacioso, vale dizer.

Não há um desejo democrático quando ele visa suprimir os direitos mesmo que sejam de uma pessoa apenas. Não há legitimidade alguma neste pleito de exclusão ou, pelo menos, se há, tem a mesma legitimidade do que o seu próprio direito à educação. Esta é a base do estabelecimento dos direitos humanos e a democracia moderna se adapta a isto, jamais o pode suprimir, porque então haveria um regresso a um justificado estado de supressão de direitos. Quantos outros anseios da maioria se justificariam da mesma forma partindo-se dessa conduta? Ou melhor, que qualidade de anseios? Que projeto de sociedade estaria sendo defendido e efetivado dentro desse leque de hipóteses educacionais e sociais?

Está muito certo que não se possa controlar o que move o desejo e a felicidade de ninguém. Não é um processo fácil mesmo a mudança de mentalidades, nunca foi. E o exemplo de tragédias antigas nunca brecou por si só o surgimento de outras mais novas, ou renovadas. É preciso, portanto, cuidar dos direitos humanos a fim de que mesmo por desejos rumorosos não se dê causa a qualquer tipo de violência, abuso ou ilegalidade.

Desde que ocorra sem prejuízo de nenhuma espécie a quem quer que seja, não deveria custar muito imaginar soluções de outra ordem tanto no âmbito educacional quanto legal quando se vai resolver conflitos e é bastante normal que situações assim confluam para os espaços públicos, como por exemplo a escola. É duro admitir que a opção mais fácil tem sido esta mesmo: dar oportunidade ao esvaziamento do conflito, ao seu apagamento mesmo que custe a exclusão de um ou outro aluno, afinal isolando-se um a um parecem mesmo que são pouco significativos, mas não são. Nem um é.

Neste caso dos “hermanos“, o que é entristecedor é que se percebe o quão poucos notam a dimensão da violência que perpetram. E que fiquem felizes e extasiados pelo sucesso da violência é quase um espancamento coletivo que fazem, ainda que invoquem a privacidade do diálogo e a casuística do fato em si. Que a educação (amplo senso) das crianças não vai bem não é exatamente uma novidade, mas ocasiões assim são esclarecedoras a respeito de pelo menos parte da origem do “problema”. Bem, pelo menos nesse caso pode-se admitir com boa dose de franqueza que a educação (amplo senso) dos pais também não está lá essas coisas.

Poesia, sua desgraçada

Para mim é triste lembrar isso, mas conheci o nome de Orides Fontela acho que em uma referência a ter sido “mais um poeta a morrer na pobreza”, não me lembro exatamente onde, pois é tema dos mais recorrentes. Embora muita gente pense nessa combinação com certa reverência, a mim sempre invade uma tristeza muito grande quando me deparo com essa associação. Mais ainda quando referida antes do que a qualidade de uma obra poética magistral como a de Orides.

Ela, que há alguns poucos anos (porém mais de uma década após a sua morte) recebeu da Ed. Hedra uma edição à altura da sua obra completa (org. por Luis Dolhnikoff), ganhou também um volume biográfico (por Gustavo de Castro) que, mesmo entrevendo a vida bastante dura que teve, o fez com muita delicadeza e competência. Além disso, acompanha o volume biográfico uma coleção de inéditos da poeta, o que é um deleite à parte, além do que parece ser sua única anotação filosófica a respeito da poesia, reproduzida bem ao final do volume.

Os poucos poemas dela que eu conhecia, publicados em meados dos anos 70, muito haviam me impressionado anteriormente, mas como só recentemente editoras têm voltado a realizar a compilação e publicação de obras completas de poetas (para a desgraça dos bibliófilos pobres como eu), pude colocá-la ao lado de outros poetas contemporâneos seus de quem gosto muito e, provavelmente por ignorância minha, só agora percebo a força e a imensidão de sua obra.

Que outros poetas por quaisquer outras razões não tenham precisado enfrentar suas mesmas condições de vida só me faz pensar que são exceções neste país que costuma remunerar muito melhor outras opções e vocações, além de práticas escusas, criminosas ou vexaminosas. Por alguma razão que não compreendo bem, isso em algum momento foi se tornando aceitável e naturalizando-se como incontornável, quando se trata em absoluto de uma opção consagrada pela classe política e avalizada periodicamente por toda a cidadania. Isso só torna, aliás, tudo ainda mais incrível e inacreditável.

Apenas que a mim há muito tempo soa insuportável a associação e uma certa mitologia a respeito da poesia e dos poetas com a vida desgraçada, com a pobreza, com o alcoolismo, com a drogadição, a loucura e assim por diante. Quando deixa de ser suficiente (ou sai de moda) o desregramento dos sentidos, começa-se a precisar então do desgraçamento biográfico, como se dele dependesse a qualificação da obra ou isto sempre a ela se antepusesse. Não fosse esse reconhecimento costumeiramente póstumo, bem como a atenção editorial, estaria tudo bem. Porém, antes que tudo isso aconteça, a desgraça precisa estar completa.

Esse é uma espécie de apreciação da poesia que eu considero um tanto quanto doentia. E eu até tento, mas não encontro outra palavra mais adequada. É como se, antes de conhecer a poesia e a própria pessoa, por alguma razão fosse fundamental certificar-se de que se trata de alguém desgraçado o bastante ou que isso fosse, sabe-se lá por que razão, relevante investigar.

Se não duvido nem um pouco que uma vida atribulada no plano psíquico ou material possa realmente conferir maior densidade existencial a um trabalho artístico, tal relação não pode ser arbitrária e nem muito menos constituinte do aspecto criativo/expressivo de quem quer que seja. Há sem dúvida um interesse quase místico nessa associação, mas o caso de Orides é revelador nesse sentido. Ao morrer, Orides era professora primária aposentada e isso, no Brasil, representa muito mais uma condenação às dificuldades financeiras do que propriamente a poesia conseguiria. Como se sabe bem, na história brasileira a poesia ocorreu também entre carreiras públicas menos desafortunadas, tais como a diplomacia, o ensino superior e outras mais. O mesmo vale para as atribulações da vida como, por exemplo, a dependência alcoólica. Entretanto nestes casos menos afetados pela pobreza, isso curiosamente é bem menos lembrado e evocado.

De minha parte, no caso de Orides, considero algo pusilânime associar-se às condições precárias da sua vida à poesia. Como qualquer um pode imaginar, não existe comprovada relação entre dinheiro e poesia, a não ser para quem pense sustentar-se justamente com os menos vendidos entre todos os livros. Mesmo que isso não fosse uma má ideia de todo, parece cada vez mais improvável que venha a acontecer algum dia de pelo menos um poeta sequer conseguir manter-se com o produto do seu trabalho. Como é típico nas culturas rudimentares, a poesia, mesmo que não seja literalmente punida como em Brodsky por Kruschev, inacreditavelmente ainda é associada à vadiagem. Daí que dizer que um poeta morrer pobre parece ter se tornado ao longo do tempo uma espécie macabra de tautologia. Mas será que não se percebe que isso compete em uma ainda maior desvalorização generalizada do fazer poético? E o que dizer da insinuação tácita de que a criação poética ocorre sob a desgraça, como se decorresse dela e não pudesse ser por si só um momento de realização ou felicidade?

Embora eu nunca tenha ouvido falar a respeito de algum poeta notável pela ambição financeira ou autodeclarado amante da acumulação, é possível, sim, que em algum lugar exista ou tenha existido. Quanto a Orides, importa saber que seu despojamento foi muito além das questões materiais. Seu interesse e filiação ao zen-budismo não comprova outra coisa que um desejo profundo por limpidez e desbastamento do desnecessário. Seus motivos silenciosos de quem vivera acostumada a longos períodos de solidão fizeram-na como um sopro de vento acontecendo lado a lado ao rumor de escolas, movimentos e tendências poéticas que se estabeleceram na história literária quase como fenômenos sociais autônomos.

Ao fim de tudo, restou a sua poesia mais que um manifesto ou mesmo uma declaração da poeta em prol de uma estética ou, vá lá, cosmogonia. A pobreza, e isso só pode acontecer mesmo é na poesia, é mero detalhe que nunca chegou perto do imenso tesouro de tenazes delicadezas que Orides criou e publicou ao longo de sua vida. Seus poemas, frutos talvez de sua intimidade para com a filosofia, têm uma simplicidade avassaladora e uma musicalidade interna à palavra, essencial, como se proveniente mais de seu miolo do que da casca externa das metáforas, hipérboles e demais figuras com que se costuma encobrir os significados poéticos.

Para quem a criação poética era mais fruto de uma opção do que uma intercorrência, Orides sabia melhor do que ninguém e porque a pobreza lhe acontecera. Disse ela em entrevista reproduzida no volume biográfico:

Uma mulher, professora primária, pobre, sem marido, poeta, neste país, não é possível. (…) Tive que escolher o menor dos males. O menor mal possível é ser pobre e sozinha. E o maior bem possível sempre foi a poesia.” (Castro, Gustavo de. O enigma Orides. São Paulo: Hedra, 2015. p. 47

Quem desejar confundir isso ao seu legado e fizer questão de erigir antes de qualquer outra essa memória, afinal só pode mesmo estar obcecado por entender a vida e a obra de um poeta como curiosidade de almanaque. A estes, eu apontaria sem grande dificuldade muitas outras situações onde a pobreza é responsável por obras tais como a violência, a miséria humana e horrores tais. E, aproveitando a ocasião, perguntaria por que tanta obsessão em imbricar poetas e a criação poética a uma ou muitas espécies de necessários destinos trágicos. Eu penso que não teria maiores dificuldades em apontar uma coisa de cada vez. Aqui, a poesia. Acolá, a pessoa. E o destino, ora, infelizmente o destino não existe. No mais das vezes e ainda que isso seja uma advertência das mais tardias, ele costuma ser a expressão do desejo ou de projeções alheias. Nada que efetivamente interesse à poesia, muito menos à límpida poesia que Orides Fontela nos deixou.

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Alguns dos poemas do livro.

ERRÂNCIA  – p. 223

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade.

O ANTI-CÉSAR – p. 246

Não vim.
Não vi.
Não havia guerra alguma.

GATHA – p. 255

O vento, a chuva, o Sol, o frio
tudo vai e vem, tudo vem e vai.
Tenho a ilusão de estar sonhando.
Tenho o manto de Buda, que é nenhum.

Myosen Xingue
(Meu nome como leiga zen-budista)

DRAGÃO – p. 274

Do amor sem
fundo
– do
___inominável –

o dragão: raio
__________densa
__________energia
__________ascende

e ao
sacro
ímpeto
que amor
resiste?

Rasgam-se os
véus
do inominado.

A vida secreta das árvores

Um dos livros mais vendidos de não-ficção do ano nos Estados Unidos e na Europa, A Vida Secreta das Árvores, do botânico alemão Peter Wohlleben, parece tratar de tudo, menos de árvores. Nele, clãs e famílias digladiam-se pela sobrevivência, criaturas solitárias enfrentam o cerco de inimigos, pedem socorro, socorrem-se, tornam-se amigas, realizam pactos, conversam entre si e até mesmo contra-atacam àqueles que agridem os membros destas curiosas sociedades de faias, freixos, carvalhos, bétulas, abetos, teixos e assim por diante.

Se quisesse, Wohlleben poderia ter escrito um épico que entremeasse as muitas desventuras arbóreas. O que acabou fazendo, entretanto, foi esclarecer uma dimensão inesperada e oculta da vida das árvores. E, nesse mundo quase imperceptível, o modo como estes seres sobrevivem e relacionam-se, mesmo quando costumam ser pouco notados e até certo ponto menosprezados no mundo da racionalidade. O inesperado maior é que ele faz isso quase literariamente, apesar de contar apenas com o instrumental da ciência, com uma impressionante capacidade observadora e uma narrativa até certo ponto afetiva a respeito dos enormes vegetais. É a maneira que encontrou para tornar acessível esse universo a qualquer leigo em botânica.

À leitura, é praticamente impossível não reconstituir-se imediatamente a imagem das árvores vivas da ficção fantástica de J. R. R. Tolkien: os ents e suas movimentações pelas florestas da Terra Média. É bom lembrar, porém, que não é apenas em Tolkien que a relação das árvores com a literatura acontece. Trata-se de um fenômeno universal, dado que a coexistência e dependência entre os diferentes tipos de seres acontece desde sempre, isto é, praticamente desde que os seres humanos desocuparam de seus galhos e postaram-se em dois pés, no solo. Assim que desde o Édem bíblico e de suas duas árvores seminais: a da vida e a do conhecimento, passando por tradições culturais tão diversas quanto a do extremo oriente e a dos povos do norte europeu, árvores e homens vêm dividindo espaço na geografia real e também na imaginação popular.

Primeiro, na mitologia mais arcaica em que dríades nasciam de dentro de carvalhos, ninfas eram transmutadas em loureiros, deuses africanos incorporavam em baobás gigantescos, teixos e salgueiros assombrosos protegiam residências e seus moradores de influências maléficas da natureza e outras inumeráveis possibilidades. Depois, na literatura, o aspecto mágico da relação também foi consolidando-se como dos mais duradouros. Um exemplo extremo dessa simbologia sobrenatural pode ser encontrado na literatura fantástica que tanto predominou na América espanhola no último século, quando eventualmente árvores e homens chegaram até mesmo a fundir-se, como no caso de José Arcadio Buendía, personagem de Gabriel Garcia Marques em Cem anos de solidão.

No Brasil, em específico, as árvores também costumam aparecer desde os mitos de formação, principalmente os de matriz indígena. Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, relata que mitos como o do caipora e o da mãe-das-seringueiras cumprem o papel de proteção das florestas, vivendo no interior dos troncos das árvores, surgindo para defender as matas de seus invasores externos. Na literatura, entre aparições incidentais, há um conto que facilmente poderia ser dado como precursor do realismo fantástico, de João Simões Lopes Neto, publicado na imprensa no começo do séc. XX, e que narra a história de certa figueira que teria absorvido características de muitas árvores cujas sementes depositaram-se acidentalmente próximo às suas raízes. O conto intitulado A figueira encontra-se no livro Casos do Romualdo, recompilado e republicado em 1954 pela editora Globo, de Porto Alegre.

Exemplos míticos e literários como os acima atestariam de certo modo que, a despeito da visível fixidez, as árvores ocupam diversos lugares na literatura, demonstrando que, pelo menos no imaginário, elas não são tão fixas assim. Não é difícil lembrar de árvores sábias e confidentes, como o pé de laranja-lima de José Mauro de Vasconcelos ou da presença ameaçadora e constante nos bosques de fábulas e contos infanto-juvenis de um tempo em que seres humanos e florestas tinham limites de não tão fácil transposição quanto há hoje. Movido talvez por isso, Wohlleben tenha apressado-se a narrar a história e a natureza dos fenômenos botânicos de modo a sensibilizar a razoabilidade presente em relação ao tema, tendo em vista a crescente dessensibilização do ser humano para com quaisquer elementos da natureza objetiva. E isto é visível sobretudo na constatação de que mitos e seres afins simplesmente deixaram de dar conta da tarefa de delimitar territórios de árvores e de homens, não que a exposição permanente de números de desmatamento venha tendo melhor sorte.

Em seu livro, ao invés de agir como biólogo ou guarda florestal, Wohlleben assume-se como um narrador de realidades tão pouco aparentes que chegam a parecer fantasia. Para ele, mesmo que tratando especialmente das florestas alemãs e europeias, importa mais que as pessoas reconsiderem o papel das árvores e florestas, que não as percebam como meros conversores de oxigênio, mas como seres dotados de uma dinâmica capaz de interferir decisivamente no mundo contemporâneo, quem sabe até mesmo pelos seus exemplos de comportamento social, mesmo que isso pareça estranho dizer.

O leitor que está limitado a uma visão utilitarista da natureza por certo irá aborrecer-se com a leitura de A vida secreta das árvores, mas não é o desejo de Wohlleben realizar a missão de convencimento ou pregação ambiental. Nada disso. Talvez o mais espantoso seja afinal que ele está a mostrar o que de outro modo parece incompreensível, ou seja, de que tanto as florestas quanto a vida não são inexpugnáveis e que se a literatura tem logrado sobreviver sem a necessidade das árvores, o mesmo não se pode dizer nem de autores, nem de leitores, nem de ninguém. Já é um motivo e tanto para, pelo menos, escrever-se um livro assim.

Heterogêneses de Björk

Dos músicos em geral é costume dizer que estão preparando novos discos, mesmo que em boa parte dos casos trate-se, a bem da verdade, em coleções de singles que nem sempre guardam entre si uma sonoridade comum ou identidade. Já quando se fala que é Björk quem está preparando algo novo, não se pode pensar apenas num disco, deve-se alargar de imediato a expectativa sobre esse “algo”, além de procurar-se não classificá-lo prematuramente. Pois Björk está lançando seu novo algo em forma de álbum: é o décimo primeiro de sua discografia. Mesmo sem contar ainda com nome ou capa, a islandesa o anunciou recentemente, no começo de agosto, em suas redes sociais.

Desde o último equinócio de setembro (21/09/2016), ao mesmo tempo em que se preparava para iniciar na Somerset House, em Londres, uma exposição imersiva em realidade virtual de parte do seu repertório, entre 1 e 23 de outubro, Björk subiu ao palco do Royal Albert Hall, também em Londres, para o que talvez fosse melhor chamado por “aparição”, ao invés de um show. Foi quando começaram a desenhar-se algumas das sonoridades que estão prestes a se materializar neste seu novo álbum, ainda inominado.

Ali, como uma sacerdotisa que há tempos logrou por meio dos seus experimentos conceituais unir a um tempo só a mais avançada tecnologia e a mais recôndita biologia, usando uma máscara luminosa e vestindo o que pareceu a Neil McCormick, do Telegraph, uma flor ou uma anêmona marinha, ela cantou músicas do seu mais recente disco, Vulnicura (2015) e também apresentou inéditas acompanhada apenas pela orquestra de cordas “Aurora”, sem mais artefatos tecnológicos. Em Vulnicura, disco no qual registrou os momentos derradeiros de seu relacionamento com o cineasta e artista plástico Matthew Barney, há quase uma liturgia sentimental dando conta de uma experiência demasiadamente humana que colocou em evidência, bem mais que nos trabalhos anteriores, a pessoalidade intrínseca da islandesa. É como se a experiência tivesse minado um pouco do apelo quase extraterreno da estética da cantora e de sua obra.

Neste novo disco, por declarações em entrevistas e em suas redes sociais, Björk parece que investirá em sonoridades mais amenas e introspectivas, reflexo direto do seu novo momento de vida. Ainda assim, ela tem dito que seu processo criativo continua basicamente o mesmo, nascendo de longas caminhadas que empreende nas montanhas da Islândia, sua terra natal. Certo que, por isso mesmo, é possível contar-se desde já com melodias decompostas e tão estranhamente eficazes quanto as de seus discos anteriores. Também não se deve imaginar que ela repetirá no registro de estúdio a fórmula acústica de suas aparições ao vivo. É dessa síntese ambiciosa, aliás, entre a natureza mais intratável e a tecnologia mais virtual, que ela consolidou ao longo das últimas décadas a sua peculiar sonoridade: insuportável para muitos e objeto de veneração para outros tantos.

Não é nenhuma novidade para seus admiradores diletos encontrar na paisagem sonora proposta por Björk argumentos comunicativos ao mesmo tempo áridos e biológicos. Eles estão presentes desde seus tempos mais ligados ao acid e ao trip-hop da banda Sugarcubes e que vão se encontrar, mais tarde, com o que se pode chamar de reestreia da cantora. É com Vespertine (2001) que ela finalmente consolida o casamento entre a sonoridade esdrúxula dos cânticos viscerais do folclore nórdico e as vertentes tecnológicas da música eletrônica no nascente século XXI, emplacando singles (e escândalos) com os clipes de Cocoon e Pagan Poetry (em função de cenas de nudez e de uma possível conotação sexual). Neste mesmo ano, ela e Matthew tiveram a filha Isadora, cuja guarda vem sendo disputada pelo ex-casal desde a separação, em 2013.

Por outro lado, entre seus muitos detratores, há quem acuse a cantora de estar sempre buscando os holofotes da mídia. Isso principalmente desde que, na premiação do Oscar em 2001, surgiu no tapete vermelho trajando um vestido que mimetizava um cisne cujo longo pescoço enlaçava o seu. Também o uso de uma panaceia eletrônica de seus áudios e vídeos é motivo de recorrente simplificação, debitando-se a isso o que poderia ser uma clausura de estilo. Talvez por isso mesmo, para contrariar seus críticos, ela eventualmente lance-se em aparições inteiramente acústicas, como esta recente no Royal Albert Hall. Se há, de fato, uma fetichização do tecnológico em Björk, também é inegável que seu uso não é casual, mas cumpre diversos objetivos estéticos como a fuga ao simples e a constituição de uma performance contínua na qual às vezes ela consegue situar-se no futuro insondável, ao invés de simplesmente adotar a repetição de motivos desgastados e bem conhecidos pelo pop.

Nessa cruzada, muitas tecnologias passaram pelo seu olhar e pela sua manipulação. Desde filmagens obtidas no interior do seu corpo, como em Mouth Mantra, até a extensa materialização espacial de Oceania sempre com o apoio de referências experimentais, como a poesia do norte-americano E. E. Cummings ou músicos da vanguarda hi-tech, ela agora parece querer ir desaguar seu arsenal criativo no terreno da realidade virtual. Na sua exposição, atualmente em Londres e que deve percorrer cidades da Europa e de outras partes do mundo, óculos de VR são distribuídos aos visitantes que são convidados a imergir hipersensorialmente no seu universo criativo. E, para além disso tudo, há sempre a sua musicalidade inconfundível.

Ao contrário de um tempo em que o avanço tecnológico é um tanto temido por ainda inconcebíveis que pareçam suas possibilidades, o gesto de atirar-se a ele sem freios vem mesmo conferindo cada vez mais a Björk o status de sacerdotisa da tekhnè. Como ela não o recusa, pelo contrário, consegue sempre renascer e ressurgir dentro dessa perspectiva, é como se ela concretizasse o que Pierre Levy chamou no seu Cibercultura de “heterogênese virtual”.

Como poucos outros artistas parecem conseguir, ela vem mantendo em paralelo as duas vidas, como se pertencendo a dois mundos, e conseguindo trazer ao insípido mundo dos bits tantos as dores humanas de uma separação quanto a certeza de que continuaremos sendo sempre seres biológicos. Este talvez seja o grande casamento que ela tem celebrado ao longo de sua prolífica e premiada carreira (além de inúmeros prêmios musicais, ela levou a Palma de Ouro de melhor atriz no ano de 2000, por sua atuação no filme Dançando no Escuro, de Lars Von Trier): o de uma natureza incorrigível e o de uma tecnologia sempre insatisfatória, daí sua permanente renovação.

Ainda que Björk não possa ser ela mesma a síntese dessa união, e é provável que nunca ninguém venha a conseguir isso de forma completa, ela deverá ser ainda por muito tempo o seu maior ícone. É de conferir o que seu próximo disco tem a dizer sobre isso. Como emissária de um tempo ainda mal compreendido e sem contornos precisos, não é necessário a ninguém ser um seu acólito para entender a relevância do seu trabalho para a cultura da virada do milênio, afinal poucos (enquanto muitos entraram em loop) como ela paginaram tão decisivamente a inflexão que a tecnologia vem determinando ao mundo contemporâneo e, mesmo que pareça paradoxal, de forma cada vez mais indelével.

Agua escondida

Agua Escondida, sem acento, é o nome de um distrito da província de Mendoza, norte da Argentina, quase fronteira com o Chile, beirando o leste da Cordilheira dos Andes. É também o nome de uma zamba composta por uma mulher, Antonieta Paula Pepin Fitzpatrick, a Nenette, esposa do compositor Héctor Roberto Chavero Aranburu, mais conhecido pelo pseudônimo Atahualpa Yupanqui.

Numa época em que a presença feminina na música argentina, especialmente a de cunho folclórico, era impensável, a pianista e compositora Paula Pepin dividiu com o marido inúmeras composições que foram celebrizadas através de suas gravações e interpretações, além de seus muitos outros intérpretes. Luna tucumana, Chacarera de las piedras, El alazán, Guitarra dímelo tú entre outras zambas, vidalas e chacareras são obras de ambos, criadas a quatro mãos.

Paula Pepin, todavia, por vezes compôs sozinha também. Assinando sob o pseudônimo Pablo del Cerro (Cerro Colorado é o local onde viveram e hoje encontra-se a Fundación Atahualpa Yupanqui – o pseudônimo alude ao lugar), ela criou algumas composições que o marido gravou também, entre elas esta Agua escondida, zamba especialmente delicada, como costumam ser as zambas, em que é notável como o andamento e a harmonia parecem dar a entender a presença de uma melodia subjacente, exatamente como água escondida.

Originalmente, as zambas são ritmos de acompanhamento à dança folclórica e seu nome deriva do quéchua zamacueca. No Chile, o nome do estilo que permaneceu foi a cueca enquanto que norte argentino consolidou-se a zamba. Outra possibilidade de explicação para o nome estaria em que as composições eram dirigidas às mulheres do norte argentino, cuja pele matizada pela cor indígena remeteria ao jambo. As zambas poderiam ser, nesse caso, corruptelas do termo.

De um ou outro modo, o ritmo é um dos mais populares da Argentina. Yupanqui, sendo um dos principais recompiladores das tradições populares, teria em suas viagens pelo interior encontrado diversas delas cantadas popularmente. Além de recompilá-las, Yupanqui também criou outras tantas, contribuindo assim para imortalizar as tradições populares locais, como era seu objetivo.

Uma confusão bastante comum que se faz a respeito das zambas é traduzi-las como se fossem o samba argentino. Exceto pela popularidade, os ritmos são muito diferentes entre si. O que pode ser apontado de comum entre uma forma e outra talvez seja a delicadeza harmônica, os arpejos alongados e contrapontos silenciosos. Mas a semelhança, neste caso, é mais perceptível com o choro do que com o samba propriamente dito. Além do mais, o acento hispânico está muito marcado no estilo, assim como em todos os demais ritmos argentinos, gatos, malambos, estilos, milongas, habaneras… Ainda que um pouco menos que nas vidalas, mesmo assim é notável o silêncio entoado da música indígena, mal soprada em queñas ou cantadas quase a boca fechada.

As zambas, portanto, estabelecem uma espécie de confluência entre a música dos gauchos do pampa e a dos indígenas e seus descendentes moradores dos desertos de Tucumán, Santiago del Estero e Cachamarca, províncias onde o ritmo prolifera abundantemente. E também importa dizer que não são uma criação de Yupanqui, já que, além dele, inúmeros instrumentistas celebrizaram o estilo em solo argentino e mundo afora, notadamente com Abel Fleury, Roberto Lara, Tito Francia, Eduardo Falu, Cacho Tirao, entre tantos outros.

Sobre Paula Pepin, ou “Pablo del Cerro”, tudo indica que não compunha ao violão, mas ao piano. Sua formação, iniciada na França e completada na Argentina, aconteceu justamente em meio a uma época de florescimento da música folclórica, do qual o futuro marido viria a ser o principal expositor.

Ela mesma, sendo um tipo de “agua escondida” sob um nome masculino, criou por si própria músicas que viriam a fixar-se mais tarde como clássicos da música popular argentina. Esta Agua escondida, nesse caso, oculta-se entre suas muitas composições; embora, em minha opinião, é a mais notável delas, tanto se executada ao piano (neste link com Hilda Herrera) ou “a las seis cuerdas“, como se pode ver na execução do violonista Carlos Roldan.

2

Pelo menos aparentemente, não há muitos pontos de contato entre as influências e matizes musicais dos dois países, Brasil e Argentina. Os gêneros pelos quais são mais conhecidos, por exemplo, não poderiam ser mais distantes e antagônicos. O samba, no caso brasileiro e o tango, do lado de lá do Rio da Prata, são quase como água e azeite. É quase impossível encontrar-se algum registro que unifique os estilos.

O baiano Caetano Veloso bem que tentou, em O samba e o tango, mas não chegou a deslocar-se do ritmo brasileiro e o resultado, se não foi completamente infeliz quanto seria una pareja de Maradona com Pelé, por exemplo, não chega a ser emocionante, apesar de ser uma bela homenagem.

Então talvez fosse melhor, desde já, impetrar uma divisória cultural arbitrária entre os dois países, da mesma forma pela qual a geográfica foi imposta através de tratados forjados em guerras de fronteira. Acontece que essa tentativa também seria arbitrária e impediria de antemão que se pudesse perceber alguns elementos coincidentes na música de lá e de cá.

No Rio Grande do Sul, pelo menos, a influência mútua dos países ocorreu de forma bem mais natural do que em estados mais acima, como seria previsível. Mesmo considerando que a faixa de fronteira é pequena, há um Uruguai entre ambos os paises que, ao mesmo tempo, unifica paisagem e cultura locais. Trata-se do pampa, a planura que se estende das encostas do planalto médio que divide o Rio Grande do Sul praticamente ao meio e vai até quase ao centro da Argentina, onde começa a apontar, mais ao sul, a Patagônia.

A fronteira do Brasil com a Argentina, portanto, se delimita ao norte do Rio Grande do Sul, no contato que se dá entre o estado e as províncias de Corrientes e Misiones. E a música, nesta região específica, tem outros matizes diferentes da música do pampa, remetendo mais às influências guaraníticas comuns também a um terceiro país que está mais ou menos nas mesmas latitudes, o Paraguai. A música do Paraná e do Mato Grosso, especialmente, guarda bem mais em comum com as guaranias e chamamés dos correntinos e paraguaios que a feita no Rio Grande do Sul.

Quando conheceu a Argentina, o multinstrumentista Hermeto Paschoal declarou que se tratava de um dos únicos países com tantas variedades e estilos musicais capaz de disputar quantitativamente com o Brasil. Evidentemente, a formação étnica de ambos os países é distinta e, ao passo em que o Brasil absorveu a intensa musicalidade da herança africana matizada com a música europeia, os argentinos obtiveram dos espanhóis e dos povos indígenas locais o fermento para a sua expressividade sonora, já que a presença africana por lá sempre foi reduzida, comparando-se ao Brasil.

Assim, de forma muito elementar, é possível dizer que é por essa razão, por essa influência diversa, que mesmo a música contemporânea dos dois países não costuma encontrar-se com frequência. Com exceção de alguns nomes internacionais como Fito Paez, Charly Garcia ou Pedro Aznar (ou de Mercedes Sosa, que gravou o repertório de muitos compositores da música popular brasileira nas décadas de 1970 e 1980 e tornou-se uma espécie de ícone continental), não é tarefa das mais fáceis constatar essa aproximação.

3

Acompanhante preferencial da música popular, o violão conta, tanto lá quanto aqui, com excepcionais expositores e isso no que diz respeito tanto ao que se refere à execução como à composição, evidentemente que mantidas as diferenças estilísticas de cada um.

Se no Brasil foram o samba e o choro que notabilizaram o virtuosismo de gênios das seis cordas como Dilermando Reis, Baden Powell, Raphael Rabello e tantos outros, a guitarra criolla alcançou sua máxima expressividade, sobretudo nos gêneros folclóricos que, a partir da década de 1940, foram objeto de intenso trabalho de recompilação histórica. Isso aconteceu não somente na Argentina, mas também no Chile e Uruguai, chegando ao sul do Brasil mais ou menos na mesma época, mas não necessariamente com as mesmas influências.

A profusão de estilos folclóricos e as características geográficas e humanas argentinas fazem do país um imenso universo musical, apesar de que o tango portenho tenha sido alçado como exemplo por excelência de sua musicalidade. Acontece que mesmo o tango tem origem nos arrabaldes de Buenos Aires (e de Montevideo também), para onde foram viver pessoas do interior do país, trazendo seus sotaques, motivos e sonoridades. A milonga, gênero tipicamente pampeano, pode-se até dizer que contribuiu em cerca de 70% na formação do tango. Os outros 30% talvez digam mais respeito à influência europeia, sobretudo a italiana, além das próprias transformações que o estilo sofreu ao transformar-se em símbolo internacional, principalmente pela voz e imagem de Carlos Gardel.

No tango, porém, a guitarra criolla é praticamente secundária, quando não ausente. Foram o bandoneon, o piano e até o violino que acabaram por definir sua entonação mais conhecida; principalmente o bandoneon, marca evidente da influência europeia, que universalizou-se em um segundo momento através da obra magistral de Astor Piazzolla. Apesar disso, em muitas composições, é o violão o instrumento de composição, principalmente naqueles tangos compostos popularmente.

Encontrar choros igualmente delicados como a zamba de Paula Pepin, Agua Escondida, também é tarefa de relativa simplicidade. Talvez o próprio Delicado, de Waldir Azevedo, seja o exemplo perfeito para isso, mas este foi criado para cavaquinho. Mas é facílimo lembrar também dos clássicos choros de Ernesto Nazareth, João Pernambuco, Garoto, Pixinguinha e a lista interminável de compositores do ritmo brasileiro. Mesmo que sejam ambas tradições musicais que se mantém através de novos instrumentistas, não são muitas as novas gravações, principalmente no caso do choro brasileiro.

Coincidentemente, é um gaúcho, o violonista Yamandu Costa, que vem fazendo a seu modo a ponte entre os estilos, mesclando tanto as influências platinas quanto o samba e o choro. O resultado nem sempre é suave e delicado, pois como se sabe, Yamandu é um instrumentista vigoroso. O que importa saber é que um violonista do seu porte está fazendo justamente o que me propunha a fazer pelas palavras, ou seja, a aproximação entre duas tradições musicais tão distintas quanto identificadas com as seis cordas.

No disco Mafuá, na faixa título, Yamandu mostra a exuberância de sua técnica em um choro desgovernado. Em outro mais recente, Continente, há inclusive uma homenagem a Atahualpa, na faixa Don Atahaulpa. Além de evidenciar uma influência já sabida, é um momento em que se pode perceber de onde vem a suavidade que há, também um pouco escondida, no violão de Yamandu. É quando ele deixa de ser um pouco violão e soa, talvez, um pouco mais como guitarra.

Não costumo fazer disputa entre minhas preferências musicais, como se gostasse “mais” disso que daquilo. Para mim, a graça da música é justamente a diversidade estilística e a proliferação de melodias e harmonias encontradas pela expressividade de compositores e instrumentistas. Resumir essa riqueza como se a uma disputa de seleções, mesmo que entre Brasil e Argentina, é o mesmo que fechar os olhos para a evidência de que tanto os hermanos compõem com delicadeza quanto os brasileiros exageram, às vezes, no riscado.

Só não deixa de ser curioso que a zamba Agua Escondida tenha sido composta por uma mulher que precisou inclusive ocultar-se em meio a uma cultura eminentemente masculina para divulgar seu trabalho. Evidentemente, não é essa a razão de sua preciosidade, mas isso serve, de certo modo, para demonstrar que, mesmo sob culturas dominantes, criam-se preciosidades. O violão ou a guitarra criolla, lá ou aqui, por ser o instrumento popular por excelência, parece mesmo talhado a entoar o inaudito e o secreto entre o intenso e inevitável ruído ao redor.

Ex libris

Finalmente, graças ao belo trabalho do Paulo Pedott, da Exlibris Bookstamps, tenho meu Ex libris personalizado.

A frase é de Lúcio Aneu Sêneca e quer dizer “somente a sabedoria é liberdade”. A ilustração é a representação da sapientia entre as sete virtudes cardinais, esculpida na tumba do Papa Clemente II na Catedral de Bamberg, em 1047.

Não somos deuses (Lúcio Cardoso)

Hoje recebi pelos correios um livro em que revivi uma das primeiras leituras de poesia que fiz na minha vida, sabendo que se tratava de poesia. O livro era de um amigo que brincava pelo fato de que tínhamos praticamente o mesmo nome (até Lúcio Car) e não sossegou até que eu o lesse. Eu não imaginava que me ocorreria um tipo de experiência ali, naquele instante, porque nunca tinha reparado que se podia utilizar as palavras para escrever coisas como aquela, e daquela forma, mas ocorreu. Logo depois deste poema, que transcrevo abaixo, digitado por mim mesmo (sem Ctrl C + Ctrl V), nunca mais parei de ler poesia nem de comprar livros de poesia. Estas “Poesias Completas” do Lúcio Cardoso eu não tinha, mas é um livro maravilhoso. Nem é tão caro que pareça um investimento, mas é, de fato, um investimento. Lúcio Cardoso, este meu quase xará, nunca imaginaria que com sua poesia lírica e metafísica me comprometeria tanto até hoje de uma forma que eu na época não poderia imaginar. Reler um poema lindo e absoluto como este, hoje, depois de tantos anos, não é uma experiência como aquela, mas me explica a mim mesmo o que me causou ser o que sou.

[Não somos deuses,]
Lúcio Cardoso, Poesia Completa, EDUSP, 2011, p. 462-464

Não somos deuses,
nem criamos terras para o esquecimento
ou para a luz do sentimento.
Somos frágeis demais para não morrermos
desta grande aspiração de luto e ousadia
que é a nossa existência.

Não somos deuses
porque não somos puros como as plantas
nem nos damos ao vento como as flores,
nem somos música, como as águas.
Ai de nós, somos homens. Somos homens
na febre com que um dia pedimos ao amor
que nos desse um motivo para a luta.

Somos homens apenas,
e não morremos como os galhos esgotados
e renascemos outros, assim que o outono passa.
Não somos como os peixes e as estrelas,
não somos como as catedrais e o firmamento,
é a vertigem que nos mata.

Quando o dia nasce
o tempo aviva em nossos olhos a esperança
e amamos as formas pelo que elas são
como promessas à nossa fome.
Em nossas mãos o amor é como a vida,
e sabemos que em cada movimento
traçamos a história e o desejo,
alma secreta e longe que fitamos sempre
quando o infinito se abre
– azul sem terno ou céu sem nome.

E não poderíamos ter sido outros,
pois o que se misturou à nossa carne
foi a noite, o barro e o desespero.
Sabemos que a aventura é um caminho
– se voar é possível, só o sono
nos entrega à cantiga nua das estradas.

O sonho é possível – mas sonhos
de homens, de carne dilacerada e fria,
pensando a informe aspiração do vago.
E quanto sangue apunhalado e quente,
não jorra nestas searas de ousadia,
quando ousamos fugir?

Sim, não somos deuses,
nem criamos terras para o esquecimento.
Somos pequenos e tristes, somos
como os animais que fitam o mar iluminado,
sem compreender. Pagamos a nossa dívida
minuto por minuto – mas os deuses
já não sofrem senão com a paixão,
ai deles, que é humana.

E não somos então um pouco como deuses,
quando, por loucura, atiramos nesta febre
o que em nós resiste, o que de puro
constrói em nós a alma permanente?
Somos um pouco como deuses, talvez
sejamos deuses simplesmente, se com virtude
desvendamos a estrada.

Agora fica, inspiração: o nome que te dou
não é em vão que não possa recriá-lo.
Só eu te sei a flor informe e lenta
deste desespero – eco, sombra e murmúrio
da luta que me ergue sozinho neste céu,
corpo de pedra – e já me faz pensar um Deus.
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Lúcio Cardoso, Poesia Completa, EDUSP, 2011, p. 462-464