Crítica A vida secreta das árvores

A vida secreta das árvores

Um dos livros mais vendidos de não-ficção do ano nos Estados Unidos e na Europa, A Vida Secreta das Árvores, do botânico alemão Peter Wohlleben, parece tratar de tudo, menos de árvores. Nele, clãs e famílias digladiam-se pela sobrevivência, criaturas solitárias enfrentam o cerco de inimigos, pedem socorro, socorrem-se, tornam-se amigas, realizam pactos, conversam entre si e até mesmo contra-atacam àqueles que agridem os membros destas curiosas sociedades de faias, freixos, carvalhos, bétulas, abetos, teixos e assim por diante.

Se quisesse, Wohlleben poderia ter escrito um épico que entremeasse as muitas desventuras arbóreas. O que acabou fazendo, entretanto, foi esclarecer uma dimensão inesperada e oculta da vida das árvores. E, nesse mundo quase imperceptível, o modo como estes seres sobrevivem e relacionam-se, mesmo quando costumam ser pouco notados e até certo ponto menosprezados no mundo da racionalidade. O inesperado maior é que ele faz isso quase literariamente, apesar de contar apenas com o instrumental da ciência, com uma impressionante capacidade observadora e uma narrativa até certo ponto afetiva a respeito dos enormes vegetais. É a maneira que encontrou para tornar acessível esse universo a qualquer leigo em botânica.

À leitura, é praticamente impossível não reconstituir-se imediatamente a imagem das árvores vivas da ficção fantástica de J. R. R. Tolkien: os ents e suas movimentações pelas florestas da Terra Média. É bom lembrar, porém, que não é apenas em Tolkien que a relação das árvores com a literatura acontece. Trata-se de um fenômeno universal, dado que a coexistência e dependência entre os diferentes tipos de seres acontece desde sempre, isto é, praticamente desde que os seres humanos desocuparam de seus galhos e postaram-se em dois pés, no solo. Assim que desde o Édem bíblico e de suas duas árvores seminais: a da vida e a do conhecimento, passando por tradições culturais tão diversas quanto a do extremo oriente e a dos povos do norte europeu, árvores e homens vêm dividindo espaço na geografia real e também na imaginação popular.

Primeiro, na mitologia mais arcaica em que dríades nasciam de dentro de carvalhos, ninfas eram transmutadas em loureiros, deuses africanos incorporavam em baobás gigantescos, teixos e salgueiros assombrosos protegiam residências e seus moradores de influências maléficas da natureza e outras inumeráveis possibilidades. Depois, na literatura, o aspecto mágico da relação também foi consolidando-se como dos mais duradouros. Um exemplo extremo dessa simbologia sobrenatural pode ser encontrado na literatura fantástica que tanto predominou na América espanhola no último século, quando eventualmente árvores e homens chegaram até mesmo a fundir-se, como no caso de José Arcadio Buendía, personagem de Gabriel Garcia Marques em Cem anos de solidão.

No Brasil, em específico, as árvores também costumam aparecer desde os mitos de formação, principalmente os de matriz indígena. Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, relata que mitos como o do caipora e o da mãe-das-seringueiras cumprem o papel de proteção das florestas, vivendo no interior dos troncos das árvores, surgindo para defender as matas de seus invasores externos. Na literatura, entre aparições incidentais, há um conto que facilmente poderia ser dado como precursor do realismo fantástico, de João Simões Lopes Neto, publicado na imprensa no começo do séc. XX, e que narra a história de certa figueira que teria absorvido características de muitas árvores cujas sementes depositaram-se acidentalmente próximo às suas raízes. O conto intitulado A figueira encontra-se no livro Casos do Romualdo, recompilado e republicado em 1954 pela editora Globo, de Porto Alegre.

Exemplos míticos e literários como os acima atestariam de certo modo que, a despeito da visível fixidez, as árvores ocupam diversos lugares na literatura, demonstrando que, pelo menos no imaginário, elas não são tão fixas assim. Não é difícil lembrar de árvores sábias e confidentes, como o pé de laranja-lima de José Mauro de Vasconcelos ou da presença ameaçadora e constante nos bosques de fábulas e contos infanto-juvenis de um tempo em que seres humanos e florestas tinham limites de não tão fácil transposição quanto há hoje. Movido talvez por isso, Wohlleben tenha apressado-se a narrar a história e a natureza dos fenômenos botânicos de modo a sensibilizar a razoabilidade presente em relação ao tema, tendo em vista a crescente dessensibilização do ser humano para com quaisquer elementos da natureza objetiva. E isto é visível sobretudo na constatação de que mitos e seres afins simplesmente deixaram de dar conta da tarefa de delimitar territórios de árvores e de homens, não que a exposição permanente de números de desmatamento venha tendo melhor sorte.

Em seu livro, ao invés de agir como biólogo ou guarda florestal, Wohlleben assume-se como um narrador de realidades tão pouco aparentes que chegam a parecer fantasia. Para ele, mesmo que tratando especialmente das florestas alemãs e europeias, importa mais que as pessoas reconsiderem o papel das árvores e florestas, que não as percebam como meros conversores de oxigênio, mas como seres dotados de uma dinâmica capaz de interferir decisivamente no mundo contemporâneo, quem sabe até mesmo pelos seus exemplos de comportamento social, mesmo que isso pareça estranho dizer.

O leitor que está limitado a uma visão utilitarista da natureza por certo irá aborrecer-se com a leitura de A vida secreta das árvores, mas não é o desejo de Wohlleben realizar a missão de convencimento ou pregação ambiental. Nada disso. Talvez o mais espantoso seja afinal que ele está a mostrar o que de outro modo parece incompreensível, ou seja, de que tanto as florestas quanto a vida não são inexpugnáveis e que se a literatura tem logrado sobreviver sem a necessidade das árvores, o mesmo não se pode dizer nem de autores, nem de leitores, nem de ninguém. Já é um motivo e tanto para, pelo menos, escrever-se um livro assim.

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Edição do AutorEdição do Autor

Não sei se consigo descrever a simpatia que me desperta/causa encontrar estas palavras na folha de rosto de um livro. Acho que tem algo de antiquado, para além do “marginal”, mas também de discrição. Coloque-se um livreto como esse que tenho em mãos ao lado de um calhamaço e parece que um faria imediatamente sombra no outro. Mas isso é totalmente ilusório ou, melhor, uma análise de invólucro ao invés da única que interessa à literatura: aquela que diz respeito ao conteúdo dos livros.

“Cipó” é o segundo livro de poesia que eu tenho do Vitor Simon. Já tinha antes o seu “Cata-vento imóvel”, também de poesia. Ambos são edições do autor, isto é, livros inteiramente produzidos e comercializados por ele próprio. Os seus livros de contos eu não tenho nem conheço.

É um livreto de pequenas dimensões, 15,5 x 10 cm, mas de uma poesia que a mim muito impactou. Gostei muito. Há um salto evolutivo visível entre um e outro dos seus livros e, nesse especificamente, um ganho de vitalidade muito significativo.

MÃE, p. 37

O pó vermelho impregnado
nas solas da alma.
A vogal estiraçada
no final das frases.
Cá estamos, de retorno,
e a criança agora és tu.
Circundando o leito,
tecemos para ti
uma colcha de retalhos
de nossa própria pele.

Quando se lê dois livros de um poeta, e se nesse meio tempo algo de significativo passou-se com ele, é muito difícil não se notar. Não é uma mudança que se dá na forma ou na técnica, mas na perspectiva. Uma inflexão na sensibilidade. Se o “Cata-vento imóvel” denunciava desde o título uma percepção muito auto centrada, com “Cipó” a poesia do Vitor parece ter ganho mobilidade em todos os sentidos. Seus poemas agora são menos especulativos e mais flexíveis. Debruçam-se no tempo histórico, alcançam-no e transferem-se com muito mais liberdade tanto em foco como em percepção.

Embora o nome “Cipó” também remeta a uma espécie de fixidez, seus poemas agora também são menos contemplativos do que no seu primeiro livro. Eles realmente falam do embaraço do poeta com a vida, não são especulações feitas à distância. Por isso, eu diria que é um livro mais sensível e afirmo isso tanto em relação ao seu livro anterior quanto também a uma certa frieza e distanciamento para mim muito presentes na poesia contemporânea de um modo geral. No caso de Vitor, ele parece ter vencido essa distância e os seus novos poemas são como frutos desse seu novo momento.

Não em todos, mas em muitos poetas que li e conheci, os mortos há muito e os que estão vivos agora e leio aqui, e apesar dos estilos muitas vezes diferentes, tenho uma sensação repetitiva de que são pessoas que desejariam por meio da escrita tocar a sensibilidade dos leitores. Alterá-la de alguma forma. O Vitor não me parece ser um poeta assim. Outros me passam a sensação de que desejam fazer como a imagem de Jesus e apontar o próprio coração, como uma espécie de auto devoção. Como se o sentimento do poeta pudesse providenciar significados aos sentimentos dos demais. Também dessa sensação o Vitor me livra, felizmente, e de doutrinações sentimentais.

Ainda que não visando necessariamente o imediato, escrever é sempre um esforço comunicativo. Por certo desembaraçamento da realidade imediata e pelo uso de metáforas mais ou menos adesivas, a poesia parece mesmo um discurso livre e por essa razão é sempre complexo apontar-se o valor disso e daquilo, especialmente porque a liberdade formal obtida no decorrer do séc. XX pressupõe inumeráveis e incomparáveis formas expressivas.

O máximo que como leitor de poesia me atrevo a dizer de um livro é “gostei”, ou seja, este livro parece ter me alcançado a sensibilidade e ganhado em mim um leitor, quer dizer, uma porção da minha atenção apta a concatenar-se ao escrito. Para os que acreditam que a poesia é essencialmente a linguagem do belo ou do espantoso, eu lamento, mas não concordo inteiramente. A poesia do Vitor, em “Cipó”, eu não sinto que queira me mostrar a beleza nem me assombrar, mas mostrar o poeta e a sua forma de perceber o mundo e a si mesmo.

Talvez eu tenha ou sinta um parentesco com a sua poesia, é bastante provável, mas seu livro é bom pelo seu próprio valor. Como disse, eu gostei e esse parece ser o limite do que posso dizer. Todavia não é o limite do que o livro pode dizer e dirá aos demais que o conhecerem.

O recluso Keaton HensonO recluso Keaton Henson

Por suas raríssimas aparições na mídia brasileira, é possível que poucas pessoas tenham sabido que, no último dia 25 de outubro, o cantor folk, poeta, artista plástico e compositor Keaton Henson lançou o sétimo álbum da sua resguardada carreira. Talvez seus seguidores brasileiros nas redes sociais tenham sabido, mas tampouco isso é suficiente para que seu nome se diferencie no limbo que a depauperada mídia musical nacional vem colocando compositores que não sabe classificar ou entender, porque habituada e constrangida sempre aos mesmos estilos, às mesmas pegadas, aos mesmos nomes, tudo o mesmo de sempre, como um moto-contínuo inescapável.

Com seu novo disco, Six lethargies, Keaton confirma o que se supunha desde 2014, quando lançou Romantic works: trata-se de alguém que sabe se expressar muito bem também na ausência de palavras. Acompanhado pela The Royal Liverpool Philharmonic Orchestra, Keaton vinha lançando amostras do seu mais recente trabalho em suas redes sociais, em gravações ao vivo. No Facebook, vídeos nos quais ele trabalhava suas composições ou as ensaiava foram vistos por milhares de pessoas. No trabalho a ansiedade se desfaz, segundo ele diz.

Keaton não vive dando as caras por aí. Longe disso. Se artistas “reclusos” vivem dando sopa na internet, ele parece fazer questão de dosar suas aparições. A explicação para o comportamento é sua agorafobia e dificuldade de exposição pública. Também suas repetitivas crises de ansiedade e pânico paralisantes, letárgicas. Daí, aliás, o título de seu trabalho sinfônico.

Este novo disco de Keaton não traz seu canto lamentoso nem as queixas de amor de Dear ou Five years. Sua matéria agora são transcriações que ele desejou fazer de seus estados mentais. Keaton não escreve ou lê a linguagem musical das partituras, é um compositor intuitivo cuja criação se inicia com a elaboração de mapas mentais ilustrados que mais tarde ele transforma em música. Ao longo dos três anos que usou para a elaboração de Six lethargies, Keaton afastou-se dos motivos folk e enveredou para uma música baseada em experiências neurocientíficas. Sua busca é, segundo ele mesmo diz, por “tentar comunicar algo mais complexo e abstrato, explorando a ansiedade, a depressão e a ausência de sentimentos”.

Não é que essa intenção seja uma novidade, afinal, mais do que as outras expressões artísticas, a música é capaz de reproduzir os sentimentos e sensações humanas que são essencialmente abstratos, indescritíveis. Compositores que em outros tempos e circunstâncias procuraram criar para causar emoções por sinal fazem quase a regra. Por outro lado, Keaton busca nas emoções a fonte direta para a criação e acredita que sua expressão pode contribuir na geração de empatia para com as questões que envolvem sofrimento mental. Para ele, “a música é uma ferramenta poderosa para criar empatia e comunicar sentimentos incrivelmente complexos de uma maneira que qualquer pessoa possa entender, sem nenhuma explicação”.

Se o resultado de seu trabalho remete muito ao minimalismo de Philip Glass, aos devaneios experimentais de Ólafur Arnalds ou ao neobarroco de Max Richter, Keaton é um músico de expressividade poderosa que a cada novo registro imprime um passo a mais no sentido de afirmar-se como um artista completo. Para ele, nada importa que se saiba de sua vida pessoal e é mais um a defender que um artista deve responder apenas a partir de sua obra. Seja como poeta, como pintor, cantor ou compositor, nunca se pode saber aonde o inglês recluso pode chegar, mas certo é que muitas vezes ele responde à música desde a poesia. Mas nada embaralha mais os sentidos de quem o escuta que a sinceridade de sua expressão.