O Brasil desidratado

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Eu não sei os demais, mas eu penso que a crise de água em SP é em tudo reveladora do Brasil, esse país ao mesmo tempo abundante e desidratado. Não exatamente por revelar o destrato com os recursos naturais, desmatamento desenfreado e todos esses fatos ambientais, mas por mostrar que o Brasil é um país de empatia seletiva.

Por quantos anos o sertão e até mesmo o sul do Brasil (minha cidade natal, Bagé, quase fronteira com o Uruguai, penou por uma estiagem de quase uma década que obrigou ao racionamento permanente) tiveram gravíssimos problemas de abastecimento, alguém lembra? É claro que as dimensões do drama paulista são imensas dadas as dimensões de São Paulo, mas essa crise ataca mesmo é aquela velha ideia de “coração do Brasil”.

Vê-se, agora, que é um coração bem dos recauchutados e muito, mas muito mais dependente dos outros órgãos do corpo do que imaginava ser. Aos sertanejos e nordestinos de um modo geral parece que seu destino humano seria o de viver com a escassez de água e com a aridez, mas isso já tinha deixado de ser preocupante há muito tempo, naturalizando-se a ideia de que isso era inevitável (como se o desmatamento massivo para o cultivo da cana em épocas passadas não estivesse por trás disso também) ou um desígnio divino.

Mentiras convenientes, como muitas que querem impingir ao povo brasileiro. Como as mais atuais, que informam que o único desenvolvimento econômico possível para o país consistiria em abusar sistemática e irresponsavelmente de modelos extrativistas, centrados na monocultura e numa balança comercial dependente da exportação de commodities.

De posso do novo e dilacerador Código Florestal e de políticos que não relacionam lucro ambiental e conservação, logo logo vai faltar água para o corpo todo..

Para um país que se imaginava dono do maior rio do mundo, do maior aquífero do planeta e outros delírios de grandeza, um pouquinho de humildade e reconhecimento não há de fazer mal algum. Talvez até ajude a resolver e prevenir muitos outros problemas com esse líquido tão pouco valorizado, dada a nova mania nacional de enxergar solução para tudo no pré-sal.

Que eu saiba, mesmo que um dia o retirem de lá, o que por si só é duvidoso, ainda não existe no mundo tecnologia disponível que transforme o líquido preto nesse outro, que finalmente passa a adquirir o devido valor.

O indispensável despreparo necessário à educação inclusiva

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Por muito tempo acreditei, ou quis acreditar, ou me fizeram crer (difícil saber ao certo) que os principais problemas da educação inclusiva no Brasil seriam o despreparo e a falta de experiência dos professores. Santa ingenuidade, Batman. Só hoje consigo compreender que o “preparo” e a “experiência” tanto podem representar pontes desejáveis quanto armadilhas quase irreconhecíveis nos caminhos tortuosos ou retilíneos da educação e do aprendizado dos alunos com deficiência, especialmente daqueles com deficiência intelectual.

É que o atributo da experiência, mesmo que para uns signifique aprendizado, para outros tantos significa apenas acúmulo. E o acúmulo de más experiências e baixas expectativas pode ter um resultado pior que a encomenda, ou seja, pode colaborar em compreensões e abordagens pré-estruturadas e negativas dos indivíduos, no caso os alunos.

Assim, não é incomum encontrar-se professores que alimentam a crença de que seus alunos podem ser tomados genericamente com base em um CID ou diagnóstico e que, portanto, basta replicar possíveis fórmulas de sucesso e evitar previsíveis receitas de fracasso para que as coisas aconteçam. Vã ilusão. Cada ser humano é inesperado e enquanto pensarmos que é possível encaixotá-los em categorias da “diversidade” não avançamos além da rotulagem mais do que imaginamos, quando não apenas se está a reforçar ainda mais, mesmo que de uma maneira aparentemente democrática, a bem conhecida estigmatização.

Por mais estranho que pareça, sempre tive melhor (no meu caso pessoalíssimo) sorte com professores despreparados. É sério, não é piada. Não faço piada sobre esse tipo de assunto porque realmente às vezes é difícil distingui-la de algumas coisas, novidades, cursos, eventos, publicações e teorias que parecem muito sérias, mas que na prática nem sempre são tão sérias e aproveitáveis assim. Não vou citar nomes aqui não por uma questão de respeito ou indulgência, mas porque há muitas sobre as quais ainda tenho muitas dúvidas e se encontram sob investigação.

Das muitas vantagens de um professor despreparado, eu citaria rapidamente a principal delas: um professor despreparado tem muito menos preconceitos e ideias errôneas em mente que aqueles que optaram por uma compreensão unidirecional dos processos de construção/aquisição/elaboração/ou seja lá o que for do conhecimento. Ele está aberto a surpresas enquanto o “preparado” predominantemente imagina que já sabe o que vai encontrar, carregando na sua compreensão e práticas muitas vezes mais os quilogramas de conceitos e preconceitos disponíveis no mercado de ideias que o mínimo indispensável ao ofício: amor e respeito às crianças pelo que elas são.

Essa vantagem poderia ser suficiente para encerrar minha argumentação, mas ainda há outras de que não posso esquecer. O professor “despreparado”, por exemplo, pode afeiçoar-se pelos alunos individualmente (ou seja, suas pessoinhas) enquanto os “preparados” lidarão sempre com categorias de alunos. Os “inexperientes” procurarão entender o percurso individual do aluno de uma forma natural, já o “experiente” poderá tentar empilhar o sujeito (ou sujeitinho) em alguma camada do seu know-how prévio. E, glória das glórias, o “experiente e preparado” poderá tentar repetir fórmulas indefinidamente, enquanto que o “despreparado” será sempre obrigado a procurar caminhos e alternativas, instigando-se a si mesmo, o que é uma característica das mais desejáveis para a profissão.

Então quero dizer com isso que não existe preparo adequado ou ganhos pela experiência que sejam possíveis? Claro que não quero dizer isso. Mas então.. eis a pergunta que não quer calar: como saber? Não sei. Realmente não sei. Se eu dissesse que sei então estaria incorrendo no mesmo erro que acabo de condenar, que tenho a fórmula, como se alguém pudesse ser ou portar-se como uma agência de certificação, não que algumas pessoas não tentem ser um tipo de oráculo educacional. Definitivamente, os há. E como! Demasiado até, no meu ponto de vista.

Quero dizer com isso que um professor despreparado fará melhor trabalho que um mais preparado? Também não sei. Não tenho como saber. Fazê-lo seria aplicar a mesma regra com que muitos professores empregam a seus alunos, encaixotando-os e rotulando-os. Não é disso que se trata. Estou pensando e falando sobre comportamento real, não sobre teoria ou literatura científica.

O que eu quero dizer essencialmente para pais como eu, de crianças pequenas que dependem muito de uma comunicação indireta ou mediada por profissionais externos para revelar seus problemas e progressos, é que encontrar um professor “despreparado”, mas realmente dedicado e interessado, pode ser em muitos casos a verdadeira sorte grande, com quem será possível aprender e compartilhar para um mútuo proveito.

E também que, infelizmente, encontrar um professor “preparado” e “experiente” ou tudo isso conjugado nem sempre é garantia de coisa alguma, não cabendo, ressalte-se, tomar isso como regra. É claro que a soma de boas experiências e boa fundamentação teórica é o substrato ideal para que um professor encare satisfatoriamente a sua tarefa, embora haja muitas coisas a considerar também, desde a questão salarial, suporte, recursos adequados e espaços reais de colaboração com as famílias, que são os interessados finais no processo todo, afinal de contas.

Longe de mim querer ser ou parecer ser o agente da “intranquilidade”, mas de certo modo é exatamente disso que se trata. É claro que as metodologias de ensino são importantes e tudo o mais, mas igualmente é necessário restabelecer um pouco de espanto, surpresa e curiosidade no processo educacional como um todo, sob pena de que ele resulte artificial e com pouquíssimos atrativos, especialmente em se tratando do público infantil.

A infância, como sabemos, é um momento único na vida. Para os pais e mães de crianças pequenas – e nesse ponto se são crianças com deficiência intelectual ou não isso pouco importa -, seus filhos não podem ser resumidos em oportunidades ou experiências de maior ou menor sucesso escolar, mas constituem e integram efetivamente suas famílias e, através da escola, eles esperam apenas que ela os ajude a pertencer dignamente à sociedade. Se o preparo e a experiência conspirarem a favor dos alunos, então está tudo ótimo e há pouco a melhorar. Caso contrário, talvez seja interessante convidar os educadores a restituírem pelo menos um pouco a importância da dúvida para a constituição do saber. E isso não requer tanto preparo quanto, talvez, um pouquinho mais de boa vontade.

Quarenta vezes Zero

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Uma das maiores injustiças que poderia acontecer no ano de 2014 seria passar batido o quadragésimo aniversário de um marco da literatura brasileira, o romance Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. É claro que nem a literatura nem a crítica deveriam passar muito tempo olhando para o passado, como se num lamento evocativo, mas são tantas e por vezes tão exageradas as homenagens a autores e obras que uma a mais não há de fazer diferença. Nesse caso, precisamente, eu penso que poderá fazer, mas por outras razões.

É preciso dizer inicialmente que não há a possibilidade de aqui encontrar-se spoilers, a não ser para aqueles que ainda não tenham conhecido José (assim mesmo, sem sobrenome), personagem central de Zero. Sobre ele é o primeiro parágrafo do romance, em tudo revelador:

“José mata ratos num cinema poeira. É um homem comum, 28 anos, que come, dorme, mija, anda, corre, ri, chora, se diverte, se entristece, trepa, enxerga bem dos dois olhos, tem dor de cabeça de vez em quando, mas toma melhoral, lê regularmente livros e jornais, vai ao cinema sempre, não usa relógio nem sapato de amarrar, é solteiro e manca um pouco, quando tem emoção forte, boa ou ruim.”

Não. Não há spoilers aqui. Trata-se de um livro que sopra já quarenta velhinhas de idade e, mesmo assim, é muito difícil não surpreender-se ainda hoje com a dinâmica alucinante que acompanha o personagem José por uma paisagem tão precária como sua própria trajetória de vida, arrastada do subemprego e da marginalidade à luta armada. Então, por prudência e para preservar o direito à surpresa de todos aqueles que nunca o leram mas poderão ainda motivar-se a isto, não haverá aqui uma menção sequer ao enredo e desenredo do romance. A motivação oculta para isto é que, como aqueles que já o conhecem sabem muito bem, esta é uma tarefa praticamente impossível.

Publicado pela primeira vez na Itália, Zero não agradou inicialmente a nenhum editor brasileiro. Efetivamente, naquele ano publicá-lo seria razão certa para cefaleia posterior para qualquer editor. Ainda assim, um ano depois ele apareceu em terrae brasilis, para sumir das livrarias logo em seguida. Para isso, foi preciso que um abaixo-assinado reunindo centenas de intelectuais solicitasse esse favor à censura. Esse ciclo de aparição de Zero durou pelo menos mais uns cinco anos. Foi quando eu o conheci, perto de 1980, através de um furto qualificado que pratiquei contra meus irmãos mais velhos, orientados a manter o volume o mais distante possível dos meus olhos infantis. Não conseguiram evitar meu sucesso.

Como talvez nenhum outro romance da literatura brasileira, Zero foi e ainda é um livro altamente subversivo. À época de seu lançamento, uma subversão principalmente de cunho político. Mas, desde lá e ainda hoje, uma subversão estética e das tradições literárias e de todas as demais tradições e costumes evocáveis naquele longínquo 1974.

Ainda hoje eu guardo a impressão de que Ignácio escreveu todo o Zero e em seguida o picotou. Depois, na minha imaginação, teria colocado os picotes naqueles globos de sortear mega sena e foi tirando de lá e colando novamente no papel, até ganhar uma nova forma e coerência. E isso não deixa de ser um pouco a verdade, porque foi em Zero que pela primeira vez utilizou-se na literatura brasileira a técnica dos cut-ups, colagens que William Burroughs consagrou principalmente em Naked Lunch (Almoço Nu), publicado nos EUA em 1959.

O uso da técnica, todavia, não implica em dizer que é um livro escrito e pensado ao acaso. Seu protagonista, José, faz a trajetória do trágico circunscrito pelo real surreal. Para José, o cotidiano é de uma complexidade avassaladora, porque ele está imerso em uma sociedade decomposta, razão que pode explicar a opção de Ignácio em construir uma história absolutamente fragmentada.

Há quem atribua a Zero o qualificativo de “grotesco”, talvez pelo pleno uso do coloquial e do “baixo calão”. E o livro até poderia receber esse adjetivo, mas apenas caso se localize o grotesco pelo traço distorcido, pela pincelada excessiva, conforme é compreendido nas artes visuais. De outra forma, tomá-lo por bizarro seria uma tentativa de reduzir o impacto de um romance nascido de reportagens censuradas e situações absurdas, porém mais absurdas ainda pelo enorme realismo dos recortes e enquadramentos criados por Ignácio.

De certa forma, como Émile Zola já havia realizado na França, em fins do século XIX, com o monumental empreendimento de Les Rougon-Macquart, Zero consegue restaurar o vigor naturalista do que também poderia ser considerado um novo romance experimental. Ainda mais ao considerar-se que suas características formais tivessem mais por base a linguagem jornalística que qualquer outra tradição narrativa. A fluidez dos cut-ups, ilustrações e cortes abruptos, além do panorama multidimensional, transforma Zero em um romance com características inauditas e ao mesmo tempo inigualáveis, porque ocupa na história recente da literatura brasileira um lugar até então desocupado e, posteriormente, sem seguimento.

O Zero de Ignácio de Loyola Brandão ainda desafia os novos autores a tentar o caminho do imprevisível. Seja pelos personagens caóticos e psicologicamente complexos quanto pela falta aparente de estrutura, o romance é ao mesmo tempo referência e sombra que se projeta sobre a literatura posterior a ele. É referência por deslocar aos subúrbios e ao mundo da pobreza o foco literário sem nenhuma condescendência sociológica. E é sombra porque exige da inovação literária bem mais que a utilização de quebra de esquemas e desvios narrativos, senão uma corrida com a própria liberdade criativa, sensação muito presente e comum para autores e artistas formados na agitação dos anos sessenta, mas visivelmente uma relação que vem se deteriorando bastante desde então.

A passagem de quarenta anos poderia ter tornado Zero um livro velho, uma sucata. Pelo contrário, o tempo ainda o faz um romance revelador, tanto em aspectos formais quanto sobre seu conteúdo, principalmente para leitores que conhecem pouco ou começam a conhecer agora a literatura produzida no período em que o Brasil esteve privado da democracia e o estado de exceção e a censura naturalizados. Algumas pessoas afirmam que é nos períodos mais críticos da história que as grandes obras são criadas. Então, por consequência lógica, nós brasileiros devemos mesmo estar passando muito bem, porque não é nada fácil encontrar romances tão impactantes como Zero por aí.

Deseducar para incluir

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Nem todo o estranhamento é preconceito, mas a atitude defensiva de pais e mães de crianças com deficiência pode contribuir ainda mais para aumentar um e outro. O terreno é argiloso e movediço e sei que para entrar nele todo o cuidado é pouco, mas é um risco necessário. Além de ser o único modo de chegar ao outro lado da questão. Isso se houver um outro lado da questão. É o que vou tentar descobrir aqui.

De imediato eu poderia lançar mão em meia dúzia de teorias sobre o preconceito ou da bem difundida (mas será que executada na mesma medida?) “educação para a diversidade”, mas vou tentar outro caminho. Vou usar como exemplo duas situações que aconteceram comigo mesmo e meus filhos, em diferentes momentos da vida.

Nunca tivemos, em casa, nenhum tipo de atitude pedagógica sobre a deficiência com que meu filho mais novo nasceu (ele nasceu com a síndrome de Down). Nem com sua irmã mais velha, nem com parentes ou amigos. E não fizemos isso porque nunca sentimos necessidade. Nossa opção foi desde o seu primeiro dia de vida tratar a ele e sobre ele naturalmente. Nem sabíamos que tínhamos outra opção, inclusive.

Hoje sei que poderia ter colocado uma placa na porta de casa com instruções de relacionamento ou ter ido às ruas defendendo-o de qualquer olhar curioso, mas resolvemos não transformar nossa vida num campo de batalha. Aparentemente temos, pelo menos até agora, sido bem sucedidos. Não que isso evite o preconceito, porque normalmente este é um sentimento íntimo e velado, interditado pelas convenções sociais. Bom, também temos sido bem sucedidos em não nos tornarmos caçadores de preconceitos, tarefa das mais ingratas que um ser humano pode ter ou conclamar a si mesmo.

A primeira das situações aconteceu há alguns anos atrás. Estávamos num parque, sob as ávores, numa calorosa tarde de verão e de repente vimos aproximar-se uma família cuja uma de suas integrantes aparentava cerca de quarenta ou cinquenta anos. Uma senhora que também tinha a síndrome de Down, aqueles olhinhos pequenos não deixavam dúvidas. Eles sentaram-se relativamente próximos a nós. Mas ela, a senhora, praticamente não falava com nenhum dos demais. Ao contrário, saiu a caminhar por ali, para conhecer ou reconhecer o lugar.

As crianças que estavam por perto, meus filhos inclusive, logo perceberam sua presença e lembro que uma delas resolveu implicar com a senhora por alguma razão. Minha filha mais velha, que nessa época mal tinha noção de que o irmão também tinha a síndrome de Down (ela tinha no máximo seis anos de idade e ele 4), resolveu interceder. Lembro exatamente como se fosse hoje do que disse: “Deixa ela. Ela é assim.”

É claro que sua intervenção não foi resultado do empreendimento de uma campanha doméstica contra o preconceito que tenhamos feito. Ela, naturalmente, entendeu o que parece ser incompreensível para a maioria das pessoas, que é o fato de que as pessoas têm o direito de ser exatamente como são. Sem mais nem menos. Sem pôr nem tirar.

Essa simplicidade de pensamento, tão comum nas crianças, eu fico pensando.. onde é que ela vai parar mais tarde? Se toda a sofisticação do pensamento culto consiste em atribuir um valor distintivo entre as pessoas, talvez seja por isso que tão facilmente abrimos mão de reconhecer a diferença no outro e interpusemos uma série de requisitos sociais, sem os quais parece não ser possível um convívio minimamente natural e civilizado.

Naquele momento, de forma absolutamente desimpedida, minha filha (sem ter a mínima ideia disso) mostrou-me que a aceitação e o reconhecimento não requerem esforço algum. E que, quando isso acontece de forma programada, pode ser que está a exercitar-se outras coisas que não a “inclusão”, talvez no máximo a tolerância e a compreensão. O que não é pouco nem pior, mas não é o mesmo. Tratar conceitos assim como se fossem o mesmo é uma confusão que acaba sempre por colocar um dos sujeitos no papel de alvo e o outro no de agente da “civilização”. Do outro lado desse comportamento “pedagógico”, nem todos parecem perceber o abismo que se cria entre as pessoas, mesmo quando os objetivos são efetivamente nobres e os gestos edulcorados.

Meu outro exemplo envolve meu filho e o seu próprio contato com a diferença.

Recentemente, no supermercado do bairro que frequentamos, uma funcionária anã passou a trabalhar ali. Ele, que só conhecia anões através de histórias e filmes infantis, ficou pasmo quando viu a nova funcionária. Também de forma natural, resolveu aproximar-se, mas ela, de sua parte, não gostou e logo foi dando um jeito de sair de perto. Ela não seria mesmo obrigada a ver-se no papel de atração infantil. Não a condeno por isso. Longe de mim. Se ela conversasse um pouquinho, talvez pudesse ajudar a desfazer a incompreensão, mas ninguém deve estar obrigado a isso. É seu direito e deve ser respeitado. Muitos pais e mães de crianças com deficiência agem da mesma forma, não que eu concorde com isso.

No mesmo instante, pensei em como explicar a ele a situação, dada sua dificuldade cognitiva. Não consegui. Nada do que pensava me ocorria ser uma explicação acessível e aceitável. Então a imagem da minha filha voltou a minha mente e simplesmente expliquei a ele que ela era assim. Ponto final. Não há nada que se possa fazer com a diferença alheia a não ser aceitá-la. Assim mesmo: tacitamente.

Se funcionou? Em grande parte sim, porque das outras vezes em que nos encontramos no supermercado ele não tentou ir brincar com ela ou ficar apontando com o dedo. Naturalizou sua presença. O convívio fez de uma maneira direta aquilo que o meu discurso certamente teria falhado em obter.

É claro que meus exemplos não são universais e nem poderiam ser. Há uma variedade infinita de emoções possíveis para mães, pais e crianças com deficiência que seria de uma arrogância impensável forjar um modo de agir, porque não existe um modo de agir certo que seja aplicável a toda e qualquer pessoa, a não ser numa mentalidade autoritária. E é uma incoerência tamanha reivindicar tratamento igualitário mediante a apresentação de um manual de instruções.

Evidentemente é necessário aprender a conviver com a diferença e com a deficiência, mas isso deve ser feito preferencialmente na prática, sob pena de que discursos pedagógicos e campanhas não surtam efeito algum, a não ser o de aumentar ainda mais o estranhamento ou emplacar-se a noção de que são pessoas de vidro, como tabus ambulantes, a quem se pode perguntar isso mas não aquilo. A quem é permitido conviver, mas sob determinadas condições.

Se do outro lado da questão do preconceito e da “educação para a diversidade” há um novo tipo de preconceito, talvez então seja o caso de deixar um pouco mais às crianças e pessoas com deficiência a árdua “tarefa” da convivência, com seus ônus e bônus. Pode ser surpreendente que novas dinâmicas sociais criem-se ao natural, sem a necessária presença de uma mediação ideológica de quem quer que seja.

Aniquilados pelas eleições

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Súbita, uma saudade do tempo em que a maior diferença de opiniões entre os amigos era sobre se o Toddy seria melhor que o Nescau ou vice-versa. Dúvida que, aliás, ainda persiste para mim e tantas outras pessoas que só não têm coragem de admitir publicamente o dilema. Na verdade, eu desconfio que nunca a humanidade chegará a algum consenso final sobre isso. Ou, talvez, sobre qualquer coisa.

Nessa mesma época da minha vida, longínqua e irresponsável, não lembro de uma vez sequer ter sido atacado na minha preferência por um outro entre os achocolatados, ainda mais pelos amigos e pessoas próximas. Muito menos de alguém ter-me dito que eu estava sendo estúpido por preferir um ao outro ou ver o rótulo do meu produto do coração achincalhado em montagens deturpadas, notícias frias ou coisas do gênero. Havia, provavelmente, uma noção de respeito pelo outro que o “amadurecimento” deu conta de aniquilar para o bem.., bem.., para o bem de alguma coisa que eu nem saberia dizer o que é.

Nos idos anos setenta, ainda não havia isso que hoje se entende por “memes” nem nada que se parecesse ao Twitter ou ao Facebook. A verdade era chapada e transmitida em preto e branco. E a política, bilateralmente dividida entre dois partidos, MDB e Arena. Mas meu mimimi histórico não tem a menor importância. O mundo parece mesmo que ficou mais complexo desde lá. Esse texto, até este ponto preciso, é apenas um subterfúgio para chegar a um assunto bem mais sério que a disputa entre o Nescau e o Toddy. Ou, pelo menos, deveria sê-lo. Nessa semana de eleições presidenciais há algum outro assunto, falando nisso? Não que eu saiba.

Salvo pelos mais interessados, a política é um assunto que não entusiasma muitas pessoas, ao contrário do que pode parecer, mesmo em épocas eleitorais. A algumas pessoas, é um assunto que chega mesmo a deprimir completamente. Mas eu ouso tentar dizer: não é a política, são as pessoas. A política, termo cunhado pelos gregos para designar a apropriação da polis pelos cidadãos, é um termo gasto e vulgarmente utilizado como xingamento até, o que é uma constatação das mais lamentáveis. Se é uma palavra que foi levada a esse tipo de significado por um mau uso, então nosso desafio é tão somente procurar fazer dela o melhor uso possível. Recuperá-la desse atoleiro. O quanto isso nos for possível, claro. Sem exageros, por favor.

Nessa época eleitoral, não são poucas nem raras as amizades estremecidas em razão de divergências políticas. Mas eu quero pensar que não é a política em si mesma que causa isso. São as divergências e as formas pelas quais as pessoas lidam com isso ou, em última análise, lidam consigo mesmo. São as próprias pessoas e suas qualidades não muito compartilhadas, mas ainda assim muito visíveis: a intolerância, o autoritarismo, a prepotência, o “seachismo” e etc. Etc. Etc.

Talvez seja exigir demais de relações que, cada vez mais mediadas pelo meio virtual, não comportam grande compromissos pessoais e às vezes as pessoas simplesmente abstraem de que estão falando entre si e não para consigo mesmo. Que suas opiniões chegam aos demais e que a forma pela qual chegam diz mais sobre quem as está emitindo que ao seu destino, que é sempre imponderável e pode ir parar sabe-se lá aonde depois da invenção da internet.

Se há mesmo uma tendência, criada sobretudo a partir da virtualização das relações humanas, à espetacularização das opiniões pessoais ou um tipo de egolatria decorrente de um eu que se afirma apenas sobre uma certa autoidealização e no precário reconhecimento do outro, então talvez seja mesmo inevitável que isso aconteça. Mas aqui também, mais uma vez, não cabe debitar essa dificuldade à tecnologia. Trata-se de uma dificuldade humana que a tecnologia apenas “ajuda” a evidenciar, exatamente pelo dinamismo das trocas conceituais e simbólicas que se faz nesse substrato digital. Mais uma vez, a culpa é das pessoas. Não é possível culpar a existência da internet sobre o que se comete através dela. Seria uma miopia total. Ou um tipo de fuga, talvez.

Há pessoas que percebem no mundo do novo milênio um mundo mais complexo, mais intrincado, repleto de relações de certo modo inapreensíveis. Tenho minhas dúvidas. Tenho a impressão que não mudamos tanto assim, assim como não devemos mudar de comportamento em relação aos demais simplesmente porque envelhecemos e nos arrabugentamos (do verbo arrabugentar, neologismo). Não deveríamos, nesse aspecto, muito antes pelo contrário, melhorar?

Nesse ponto, cabe pensar também que o formato contemporâneo de política representativa e o entendimento de democracia como o mero direito ao voto favorece absolutamente o individualismo, a atomização social. O voto secreto, ao passo em que consiste num momento mais ou menos mágico, não é senão uma forma de destituição da vontade política. O cidadão delega sua potência cidadã a um burocrata que supostamente o irá representar perante o sistema estatal. Esse extravio de potência, de tão violento que é, culmina numa dicotomia odiosa que, ao invés de unir as pessoas e os sentimentos sociais, as pulveriza. E então o que deveria ser a festa máxima da diversidade e da democracia torna-se apenas um festival de rancores e inimizades. Das diferenças no pior sentido do termo.

Ali, na seção eleitoral, com o dedo no botão “confirmar”, o que estaremos confirmado, afinal? A foto do(a) nosso(a) candidato(a)? Suas propostas? Suas ideias? As ideias de suas alianças políticas, nem sempre tão evidentes assim? Ou simplesmente nossa falta de opção, reduzidos que fomos ao consumo do marketing político? Seja como for, não votamos em consenso e as opções que temos não nos representam inteiramente, em todas as nossas preocupações individuais. É por isso que às vezes saímos insatisfeitos das seções eleitorais e das urnas. É que ali se processa uma tremenda aniquilação da nossa compreensão social e desejo político.

Algumas pessoas têm dito e defendido que é preciso, para ontem, uma reforma política. Que o sistema atual favorece disputas desiguais, aparelhamento econômico dos partidos, etc. Tudo isso é verdade, mas é também verdade que a nossa relação com a democracia está um pouco sucateada. E isso tem menos a ver com o voto em lista do que com a forma com que nos relacionamos com o poder político, cada vez mais centralizado e comandado por estruturas inacessíveis ao cidadão comum. Isso produz necessariamente um dissenso. Um descrédito com a democracia. E algum rancor pessoal, em muitos casos.

Aqueles que desejam reformar a democracia devem lembrar que a democracia não é uma instituição ou um mero canal de empregos. Ela é um bem. Devolver à democracia a condição de bem comum é o desafio oculto das eleições. Encontrar candidatos que preservem ou recuperem essa condição constitui o verdadeiro dever de votar. Pensar nos candidatos como crianças escolhem, no critério do maniqueísmo, entre o bem e o mal, como se entre o Toddy e o Nescau, ainda é o máximo que muitos conseguem e pode ser o caminho do engano que muitas vezes nos custa a admitir em nós mesmos, mas percebemos com intensa clareza nos demais.

Mas enquanto não chegamos a este e outros consensos, cada um deve respeitar a escolha do outro. Em caso contrário, de posse de nossos títulos eleitorais e das melhores intenções do mundo, como os fanáticos que condenamos em outros continentes, estaremos apenas pisoteando o cadáver do que se deveria chamar democracia. Se não fazíamos isso quando éramos crianças, porque então naturalizamos tanto assim a expressão do ódio político? Sem dúvida, há partidos que funcionam quase como religiões, abrigam pessoas que se orientam irracionalmente em dogmas alheios porque lhes falta muitas vezes uma independência crítica e é um caminho mais fácil descer as escadas firmes em um corrimão, como gostava de dizer a filósofa alemã Hannah Arendt.

Como acabamos sabendo mais cedo ou mais tarde, não há escolha certa entre o Nescau e o Toddy, há apenas uma preferência. Há apenas tentativas. Desde os gregos, a política não é o território das certezas, mas também não deve ser o território das guerras ou da eliminação do outro porque, nesse caso, teria se transformado no totalitarismo, mesmo que não usemos mais esse nome e que nossos artifícios de dominação sejam hoje mais sofisticados que espadas e lanças e se encontre mais no território das opiniões, das autoridades ou dos poderes simbólicos. Por isso, se a eleição está servindo a uma espécie de aniquilação do sentimento civil, há algo que está muito errado. Devem ser as pessoas, de novo. Mesmo assim, a democracia deve ser devolvida a elas. O quanto for possível. Não exclusivamente, mas inclusive nas eleições.

A realpolitik me faz votar em Marina

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Marina Silva em Xapuri, Acre. Foto: Wikipedia.

Minha candidata à presidência da república não deveria existir, pelo menos não nestas eleições. Ela nasceu e viveu boa parte da vida num lugar que dizem, como fosse piada, que também não existe, embora esteja contido no mapa desse imenso país, numa região estranhamente dominada pela natureza e pelas diferentes formas pelas quais a população encontra para viver com ela. Nela. Através dela. Pelo menos enquanto ela dure. Enquanto ela esteja ainda lá.

Até os dezesseis anos viveu, lá no Acre, na invisibilidade das letras sem sentido. No analfabetismo. Foi empregada doméstica. Eu nunca imaginei que teria um dia como candidata à presidente da República uma mulher que não procura falsear no seu curriculum vitae que foi empregada doméstica, muito menos inventar qualquer coisa ali, para parecer mais palatável a imensa massa de eleitores da classe média, extrato econômico da população que costuma decidir eleições conforme seus mais conscientes e inconscientes temores e anseios.

Minha candidata nasceu chamando-se Maria Osmarina Silva de Souza, mais conhecida pelo apelido de Marina, nome que registrou em 1986, quando se candidatou a deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores. Na mesma eleição, o líder e mentor Chico Mendes concorreu a deputado estadual e ambos não foram eleitos. Chico não sobreviveu, como se sabe, à violência que ainda hoje grassa no norte do país em disputas territoriais. Marina teve outra sorte e outro destino político, em uma trajetória muito bem conhecida.

Mas minha intenção aqui não é falar da trajetória política da candidata Marina Silva tanto quanto do porquê da minha guinada de opção eleitoral, mesmo que isso talvez não seja do interesse de muitas pessoas.

Pois então. Mais ou menos até ontem eu estava convencido a votar no candidato Eduardo Jorge, do PV, naquilo que seria uma espécie de jornada particular em torno de uma candidatura “pura”, movida ideologicamente ou, pelo menos, uma candidatura que agredisse menos que as demais as minhas próprias ideias. Até então, nem o apelo fácil ao voto útil era capaz de demover-me da intenção, mas aos poucos fui sendo tomado pelo fantasma irresistível do pragmatismo político, essa que parece ser a única forma aceitável de pensar e fazer política no Brasil contemporâneo.

Antes de assistir a forma radical com que Eduardo Jorge aniquilou os demais concorrentes nos debates a que assisti, pensei também em votar na candidata do PSOL, Luciana Genro, exatamente pelas mesmas razões. Como se fosse possível esboçar – pelo menos no interior da minha subjetividade – uma reação à disseminada realpolitik, que levou de roldão nos últimos anos os últimos vestígios de uma política realizada por princípios, talvez numa razão superior aos 95%, se consideradas todas as legendas partidárias e, ainda mais, a intrincada rede de coligações que amarra as intenções de uns nas mãos de outros.

Mas eu cedi à tentação de concordar com a tese bismarckiana de que a política é mesmo a arte do possível. E, mesmo que isso me traga mais desalento que esperança, por suplantar a emergência de um sentimento social autônomo e por estrangulá-lo no caminho estreito das seções eleitorais para respirar-se novamente apenas em novo período eleitoral, trata-se de uma tentação inelutável. Praticamente de um beco sem saída.

Se a ingenuidade não tem mesmo lugar na política, a mim só resta lamentar por isso. Num “outro mundo possível”, o candidato Eduardo Jorge seria um bom presidente para o Brasil. E isso menos pelo tom caricatural que configurou sua aparição nessa eleição e mais pelo necessário encontro entre um país amarrado a um modelo de economia centrada na exploração desenfreada dos recursos naturais e seu próprio futuro, no qual os dilemas que as novas gerações enfrentarão já despontam, como a poluição exagerada, cidades trancadas em si mesmas, carência de água, etc etc etc.

No mundo “possível” da política pragmática há, no entanto, apenas dois cenários em questão. E eles estão expressos nas candidaturas de Dilma e Marina.

Embora eu não creia tanto em que haja uma cisão ou uma ruptura de modelo em vista, pelo menos no plano simbólico Marina representa um pouco do Brasil que não se reconhece ainda como nação, mas precisa chegar a isto para ter um vir a ser a todos os seus cidadãos, já que todos são seus contribuintes. Vinda do Acre, o estado que “não existe” na piada, a candidatura de Marina diz respeito a uma parcela da população que tenta fixar-se no seu território ao invés de correr em busca de uma vida concretizável nas metrópoles e nas intensas relações de consumo necessárias para viver-se nos grandes centros urbanos.

Se a candidatura Dilma representa a ascensão da capacidade de consumo da população pobre, do IPI zero para aquisição de produtos da linha branca, automóveis a perder de vista nas ruas e necessidade brutal de fornecimento energético, Marina lembra mais os povos do Xingu, daquelas pessoas cuja existência em si mesma é um óbice a um projeto de desenvolvimento social que não se importa em conservar o habitat e o modo de vida e de geração de renda de milhares de pessoas que dependem de um ecossistema que, por outro lado, é por si só um entrave aos planos de geração de energia para uma “nova classe média” sedenta por consumo de eletrônicos, automóveis e bens de consumo com grande efeito gerador de CO2, tanto no uso final quanto em seu processo produtivo.

Na disputa entre Dilma e Marina há, portanto, um background bem mais significativo que as campanhas eleitorais podem revelar, porque centradas em objetivos eleitorais numéricos emergenciais no qual vale mais o embaraço ao outro do que os próprios programas de governo. A disputa entre um país do centro sul, para o qual o norte pouco existe e, quando existe, interessa apenas enquanto reservatório aparentemente inesgotável de recursos naturais e um país do centro norte, do qual tanto Marina quanto o ex-presidente Lula vieram, mas com destinos bem diferentes.

Um dos argumentos que tem sido mais utilizados pela campanha dos militantes pró Dilma contra Marina na reta final do primeiro turno, principalmente nas redes sociais, reside em caracterizar a candidata do PSB como alguém que teria propostas vazias e inconsistentes, distantes do que seria necessário para a condução da economia brasileira, além de outras ameaças já desmentidas pela própria Marina, seja a respeito da flexibilização das leis trabalhistas ou o seu desejo de encerrar os programas de compensação social do governo, como o Bolsa Família, por exemplo. Dentro dessa visão rápida, Marina não teria condições de enfrentar a realpolitik, porque ela envolveria uma capacidade de articulação política ampla como a que, por exemplo, sustenta o governo atual.

Pois essa é justamente a razão principal pela qual mudei minha intenção de voto. Se é para ser pragmático e construir novas relações de força entre os partidos, Marina é uma opção pelo menos ainda inaudita, enquanto que o PT não propõe qualquer mudança nesse sentido, consolidando-se no núcleo duro dos partidos de centro no Brasil, junto ao seu principal aliado, o PMDB e até mesmo ao PP, que seria o braço mais à direita entre todos os partidos, sucessor direto do antigo PDS e da antiga ARENA. Se Marina irá manter a articulação nos mesmos moldes do governo atual, então não há tanto a temer em relação a alguma instabilidade política ou decomposição no Congresso. Se ela fizer diferente, talvez a distinção posterior entre os partidos identificados à direita e à esquerda mude bastante, forçando o PT a buscar uma nova composição na oposição. Talvez mais à esquerda ainda junto ao PSOL e PSTU ou, lamentavelmente para alguns, à direita, junto à gama de partidos cuja única vocação política parece ser o desejo de assentar-se no poder. Este seria o impasse por excelência para o PT caso Dilma perdesse as eleições, ou seja, onde e na companhia de quem locar-se para retornar ao cenário político como alternativa.

Para uma candidata que há pouco sequer existia, de um estado que é piada nacional, de uma região que é mais desconhecida para maioria das pessoas que o leste europeu, cuja aparência da população não nos deixa esquecer de que nossa identidade não é centrada exclusivamente nos habitantes do centro ou do sudeste, Marina é um fantasma e tanto para uma eleição que até poucos meses era dada como certa e definida de véspera. Não é mais.

Por redimensionar um jogo político dado como esgotado em si mesmo e por representar a possibilidade de alterar-se um cenário de pasmaceira centrífuga, vou precisar mudar de voto a menos de uma semana das eleições. Vou ter de deixar meu candidato preferido em nome de um pragmatismo mentecapto que significa que nossas opções políticas são imaturas demais para enfrentar os temas que Eduardo Jorge enfrentou de peito aberto, sobre energia sustentável, aborto, entre tantos outros. Em seu lugar, todas as mais sensatas pessoas clamam por que se faça o melhor possível. Para quem, como eu, não vê no atual governo o melhor possível sendo feito em muito setores e em muitos direitos fundamentais, Marina pode ser mesmo apenas uma aposta. Eu, pelo menos nessa eleição, vou preferir apostar no duvidoso que manter-me no marasmo que trabalha em comunhão aos setores mais conservadores da política brasileira. E vou sem medo algum. O máximo que pode acontecer é minha candidata perder a eleição, mas sua presença irá cada vez mais exigir que o Brasil assuma-se o país continental que é e responsabilize-se não por promover um aceleramento ao pós-capitalismo consumista, mas por conservar uma sociedade diversa e digna. Em todos as regiões e estados da federação. Inclusive no Acre.

Richard Dawkins e a ciência que dá conselhos

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Respeito muito, de verdade, meus “colegas” pais e mães de crianças com deficiência e, antes de mais nada, digo abertamente que não trocaria minha experiência pessoal com meu filho por nada nesse mundo. Não aconteceu na minha vida saber antes do parto de sua condição, por isso não me atrevo a tentar imaginar ou opinar sobre o que outros pais que se viram nessa situação pensaram e decidiram fazer de posse dessa informação durante a gestação. Também não tenho parâmetro algum para isso, que é algo que só importa à realidade de quem vive a situação. Mas garantidamente não condeno qualquer decisão pessoal que tenham tomado ou tomem, seja por ter o bebê ou interromper a gestação. Aliás, não me ocorre pensar em opinar sobre o uso da liberdade de ninguém.

É claro que, se me perguntarem como tem sido a vida com meu filho, eu posso ficar horas a fio falando dos momentos felizes e também das apreensões que vivi com ele, que nasceu com a síndrome de Down, e com sua mãe e sua irmã mais velha. Mas irei alertar ao meu interlocutor o mais breve possível, caso ele tenha esquecido, que a experiência humana nunca é transferível, mas apenas compartilhável. Quero dizer que, por mais que uma pessoa se esforce em crer que seu exemplo de vida é notável e tem validade universal, isso não pode ser real.

O que quero dizer é que a experiência feliz de uma família na qual veio ao mundo uma criança com síndrome de Down não representa garantia nenhuma de que isso possa repetir-se alhures. Portanto, não dou conselhos sobre isso, justamente porque é impossível para mim entender a dimensão total da experiência de cada um. Falta-me essa balança de precisão, assim como o mundo parece já não ter fita métrica em relação à moral que persegue – realidade que o comportamento social às vezes torna evidente.

Por isso não consigo entender o que tinha em mente o biólogo, etólogo, divulgador científico e escritor britânico Richard Dawkins ao atacar frontalmente o fundamento de incoercibilidade moral ao aconselhar em seu twitter, no último 20 de agosto, a uma pessoa que pediu sua opinião sobre o que fazer diante de uma gestação na qual o feto fosse diagnosticado com a síndrome de Down. Aborte e tente novamente, aconselhou Dawkins, pois segundo ele “seria imoral para trazê-lo para o mundo, se você tem a escolha”.

Desnecessário relatar que, mundo afora, um grande barulho se fez a partir da declaração – logo explicada (mas não relativizada) por ele mesmo, conforme texto publicado no The Guardian e em seu próprio website. E ruídos de toda espécie ressoaram web adentro. É que, antes disso, Dawkins tuitou que não daria o mesmo conselho sobre a questão do autismo, porque, segundo ele, seriam pessoas que poderiam contribuir socialmente, enquanto as pessoas com síndrome de Down estariam fadadas a não desenvolver-se e a ter no sofrimento sua única possibilidade de vida.

Além de ter descartado todo o esforço científico em torno da validade do aconselhamento genético, Dawkins falou como um autêntico oráculo. A questão é entender se cabe à ciência postular enunciados taxativos sobre situações genéticas complexas e ainda não compreendidas de todo ou se, pelo menos, o seu “aconselhamento” tem efetivo amparo e respaldo na comunidade científica. Talvez, inadvertidamente, ele tenha assumido a mesma postura de seus maiores detratores, a comunidade religiosa, confundindo questões filosóficas complexas, tendências tecnológicas e inclinações bioéticas para frutificar suas crenças morais, também intransferíveis.

Tenho a impressão de que a declaração de Dawkins retrocede a discussões até já ultrapassadas tanto no campo da ética quanto da bioética. Retrocede ao aderir sem maiores explicações ao conceito de wrongful life e ao imaginar inovador um pensamento já compreendido como de interesse ao assim chamado ableism, corrente de pensamento no qual desconsidera-se o reconhecimento da dignidade inata da pessoa com deficiência em detrimento de uma necessidade expressa de ajuste e enquadramento social. É lamentável que a polêmica tenha surgido menos de um ano após o falecimento de Adrienne Asch, filósofa e bioeticista que defendeu muitas e muitas vezes que as práticas do aborto seletivo afrontariam a noção social a respeito das deficiências, sedimentando práticas discriminatórias e consolidando-as como opções políticas. Em artigo traduzido pela antropóloga Débora Diniz, do Anis (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero), para a Physis – Revista de Saúde Coletiva, é possível conhecer melhor suas ideias e preocupações.

No texto de Dawkins, onde este defende-se das acusações de eugenismo, jamais fica claro o que ou de quem seriam, afinal, as vidas aceitáveis. Pelo contrário, tal decisão seria amparada no sentido de “evitar-se o sofrimento”. Trocando em miúdos, isso equivale a proteger a pessoa da condição de deficiência, como se isso fosse insuportável e realizável a partir do julgamento de um terceiro. Para não sofrer, nesse raciocino, seria melhor não existir. Em nenhum momento é dada ao indivíduos a possibilidade da consciência, como se se negasse que as pessoas com síndrome de Down pudessem ter uma. Essa não é uma “proteção” desejável, porque somente a existência pode indicar a consciência de existir. E também o sofrimento não é, obviamente, uma exclusividade das pessoas com síndrome de Down, bem como não se trata de uma condição determinada geneticamente. Por que ser tão restritivo, nesse caso?

Acostumado a polêmicas, mesmo assim custa-lhe um bom pedaço da argumentação a tentativa de descolar-se da acusação de pregação eugênica. Embora sua posição seja calcada pelo que ele chama de “opção da maioria”, não é compreensível que essa possa ser uma premissa de credibilidade. Ou, então, todas as “opções da maioria” seriam igualmente justificáveis. Outro argumento defendido é o de que a síndrome de Down não é uma condição hereditária, razão pela qual não poderia ser evitada precocemente. Não vejo sentido algum nessa afirmação, pois exames não invasivos para detecção precoce estão disponíveis há muitos anos na Europa e pelo menos há uns dois anos aqui mesmo, no Brasil.

Trata-se, portanto, de uma condição extinguível, e os números disponíveis indicam que a opção da maioria vai mesmo por esse caminho, especialmente em solo europeu. Mas duvido muito que isso aconteça para evitar-se o sofrimento de quem quer que seja. Estou mais de acordo com a tese habermasiana de que a natureza humana conforma-se cada vez mais pela regulação do mercado e, então, aos homens e suas escolhas morais recai totalmente o peso da decisão, cuja margem foi alargada inexoravelmente pelo acesso à tecnologia e pela propulsão do consumo.

Mas Dawkins parece estar historicamente ainda aquém das ideias que Habermas expressou em O futuro da natureza humana, porque centrado na ideia de seleção negativa, mais próximo das ideias nascidas em Francis Galton do que gostaria de perceber em si mesmo e mais distante das do primo daquele, Charles Darwin, sabidamente seu grande inspirador científico. É que embora se tenha muitas vezes atribuído a Darwin a origem de ideias de inspiração eugênica, um parágrafo apenas em A descendência do homem retira toda e qualquer dúvida:

A ajuda na qual somos impelidos a dar aos necessitados é principalmente um resultado incidental dos instintos de simpatia, que foi originado como parte dos instintos sociais, mas que foi subsequentemente aprimorado, como visto antes, a ser mais amigável e mais amplo. Jamais poderíamos abandonar a simpatia, mesmo aos maiores apelos da razão, sem deteriorar a parte mais nobre da nossa natureza. Um cirurgião pode hesitar enquanto perfaz uma operação, porque ele sabe que está agindo para o bem do seu paciente; mas se intencionalmente negligenciamos os fracos e necessitados, seria apenas por um beneficio contingente, junto com um enorme mal em troca.

Tudo que eu não quero crer nem consigo imaginar é que Dawkins queira remontar suas opiniões morais à Inglaterra vitoriana. Muitas voltas o mundo deu desde então e o horror surgido na esteira da Segunda Guerra Mundial e das experiências eugênicas concretizadas ali (e antes dali) não permite senão que se avance a uma compreensão humanizante do tema. Evidentemente que todo o conceito de diversidade humana e genética é posterior à criação da ONU, UNESCO e declarações de direitos, mas é compreensível que o assunto em si mesmo, tratado como se num ambiente de ensaio, perca nuances próprias do humano. Infelizmente, ainda há muita ciência feita e mantida nessa espécie de ambiente, sem contato com o real fora de abstracts e papers.

Achei graça de muitos pais convidando Dawkins para um “estágio imersivo” a fim de que ele redimensionasse seu conceito de sofrimento e refletisse, por um momento, sem o uso diametral da razão sobre o assunto. Para uma mentalidade crítica como a dele, acho que a ideia não causou muito impacto. Para mim, foi entusiasmante. Talvez assim ele entendesse que existe uma simetria possível entre pessoas com e sem a síndrome de Down e que a vida, nesses casos, não é apenas “compatível”, mas possível e desejável. É claro que qualquer comparação da síndrome de Down com outras condições incompatíveis com a vida está, nesse caso, inadequada. Porém, ele mesmo optou por seguir essa linha de raciocínio e situou a síndrome de Down no espectro do “imoral” e do “descartável”. Ora, eu quero entender é porque, afinal de contas, ele sentiu-se no dever de dar conselhos desta ordem. De um modo bem mais sutil, o mercado de saúde está dando conta do assunto e, se vivemos sob o seu imperativo, a ciência – por outro lado – não deveria estar no lugar de questioná-lo em detalhe e garantir que se observassem princípios éticos e universais, visando a preservação da dignidade humana?

Por isso a ideia do estágio in loco não me desagrada e, pela experiência vivida, as pessoas com síndrome de Down têm uma característica afetiva marcante, provavelmente determinadas por uma expressão demasiada do sistema límbico, responsável pelas emoções humanas e suas manifestações. Acho que o contato real seria benéfico para ele, assim como é para a sociedade como um todo. Ou acaso estamos dispensando o afeto das relações humanas em prol… em prol do que mesmo?

Há alguns anos atrás, conversando com um amigo envolvido na causa ambientalista, ele contou-me uma história muito tocante, que acredito aplicar-se neste caso também. Ele disse que desde o secundário – hoje ensino médio – sentia uma necessidade de engajar-se com as questões ambientais e de conservação, mas a vida foi dura com ele e, por razões de sobrevivência, ele só conseguiu ser um ambientalista técnico, ou seja, conhecia muito as razões do que defendia, mas muito pouco “o que” defendia. Entre os focos de sua atenção, no entanto, as baleias eram os seres que ele mais admirava. Sabia tudo sobre baleias, espécies e acredito que até a quantidade de cada uma delas no mar. Um dia, porém, convidaram-no a uma expedição em que encontrariam baleias de verdade, não sei de que espécie. E então ele pode mergulhar e ir encontrá-las como nós encontramos cães e gatos pelas ruas, de tão próximos. E então a mágica se deu. E não se daria se as baleias não estivessem mais ali.

A confluência poética de Jennifer Franklin

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Estou entre as pessoas que acredita que, acima de qualquer outra coisa, a literatura é uma forma de conhecimento. Penso que isso pode ser especialmente verdadeiro quando se trata de poesia. Em minha experiência (não seria tolo de falar por mais ninguém), a leitura da poesia funciona como tomar-se emprestados os olhos de outra pessoa, apropriar-se de seus sentimentos, sua capacidade perceptiva e sensibilidade. Dessa forma, a interpretação da poesia pode extrapolar em muito a análise de seus próprios aspectos formais, ainda que deles seja dependente em seu processo criativo.

Assumo a revivificação da ideia de Werner Jaeger de que a poesia é psicagogia, matriz de conversão espiritual imbuída de universalidade e vitalidade. Talvez seja por isso que custe tanto a entender como podemos prescindir, no Brasil, do conhecimento de poetas fundamentais até mesmo para a literatura do séc. XX e possamos permanecer aparentemente à margem não do universal, mas do universo propriamente dito. No caso da poesia norte-americana, estou falando de poetas premiados como Robert Lowell, Adrienne Rich, Anne Sexton, Robert Frost, entre muitos outros. Assim, é só por fatalidade que podemos antever a presença de uma nova geração de poetas e escritores, já que grande parte das editoras está atualmente empenhada em outra espécie de publicações.

Marcada desde meados do séc. XX pela dicotomia impessoal/confessional (principalmente na obra de T. S. Eliot e Wallace Stevens de um lado e Robert Lowell e Sylvia Plath, de outro) a poesia norte-americana contemporânea, assim como grande parte da poesia ocidental, chega ao séc. XXI de forma multiversa e simultânea. Os movimentos culturais posteriores ao modernismo não apenas multiplicam-se, mas ramificam-se e derivam para matizes muitas vezes indistinguíveis. Ao passo que a geração beat consolidou a libertação formal, nas universidades o estudo da poesia mantém vivo tanto o interesse nos clássicos como se relaciona mais abertamente com novas formas expressivas, como não poderia deixar de ser. Poeta ainda pouco conhecida no Brasil, Jennifer Franklin unifica formação clássica e expressividade intimista para dar voz a uma experiência de vida absolutamente pessoal: a experiência de uma maternidade impactada pela realidade do autismo.

Conheci a poesia e um pouco da biografia de Jennifer através do livro do jornalista norte-americano Andrew Solomon, Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade, publicado em 2013 no Brasil pela Companhia das Letras. A partir de um pequeno trecho de sua poesia, transcrito por Solomon em seu livro, busquei encontrá-la em outras fontes, até chegar ao seu chapbook Persephone’s Ransom, disponível – em inglês – na Amazon.com e na editora Finishing Line Press. O livro integra uma obra maior, ele seria a segunda parte de um conjunto mais amplo de poemas, ainda inédito, Daughter.

Persephone’s Ransom é um momento especial em que a autora faz confluir sua poética anterior, marcada pela influência de uma poesia mais estudada e da ekphrasis, com os momentos cruciais da descoberta e convivência com o autismo de sua filha. No livro, os arquétipos da mitologia grega criam uma espécie de relevo tátil através do qual Jennifer expressa seus sentimentos mais profundos e atravessa uma experiência de perda e recomposição, que ela compara ao mito do rapto de Perséfone e dos ciclos que ele impõe ao mundo.

Correspondi-me com Jennifer muitas vezes na tentativa de traduzi-la para o português e também a fim de compreender melhor sua dicção e biografia. Apesar de ela ter iniciado a carreira literária antes mesmo de ser mãe (ela diz que ainda na adolescência, aos quinze), a realidade do autismo, diagnosticada aos dois anos de idade de sua única filha, impôs-se como temática visceral em sua produção. A maternidade e a relação com a filha não são seus únicos motivos, mas mola propulsora da poética que vem construindo em uma carreira que começou em 1996, na The Paris Review. Depois disso, passou por diversas revistas literárias como a Antioch Review, Gettysburg Review, Pequod, Southwest Review, Western Humanities Review, New England Review, The Nation, Salmagundi, Boston Review e Guernica; ela também chegou a ser finalista de diversos premiações nos Estados Unidos, tais como o Gerald Cable Book Award, o Autumn House Press Prize in Poetry e o ABZ Prize in Poetry.

Após alguns meses nos quais trocamos muitas impressões, nunca podemos chegar a um ponto de mútua satisfação para dar por encerradas as tentativas de tradução. Em dado momento, por uma leitura casual de Jorge Luis Borges, chegamos ambos à conclusão de que os poemas seriam melhor apresentados se mantidos no idioma original. No prólogo de Para Las Seis Cuerdas, Borges diz que “toda lectura implica una colaboración y casi una cumplicidad” e no de El Oro de Los Tigres que “para un verdadero poeta, cada momento de la vida, cada hecho, debería ser poético, ya que profundamente lo es.” Para ele, a poesia só é traduzível como recriação, jamais por dizer respeito a um sistema de códigos linguísticos. Trata-se de uma expressão enraizada na pessoa e realizada em sua língua materna. A um determinado ponto, ficou claro que traduzir os poemas de Jennifer implicaria em revivificar momentos cruciais e absolutamente pessoais de sua vida, coisa que é definitivamente impossível porque na experiência íntima não existe nunca um “como se”. De outra forma, seria inevitável esbarrar nos próprios limites da expressão quando fosse mais proveitoso ao leitor descobrir sua poesia conforme originalmente expressa.

Em My Herculaneum, publicado na Boston Review, que corresponde aos poemas de sua segunda fase, se encontram versos como estes: “When I arrived, I thought I knew how to live./I saw my future as clearly as new frescoes/On stone. What I didn’t have, I made do without -/Or invented: the trompe l’oeil mosaic in the summer/Triclinium for a real garden. (…)”, nos quais se pode perceber claramente a confluência do estilo descritivo no qual teve formação (nas Universidades de Brown e de Columbia, onde cursou Inglês e Escrita Criativa – Cum Laude, 1994) com alguns de seus principais interesses estéticos e culturais: a mitologia e história greco-romanas e a representação artística, unificados através da temática da maternidade e do conhecimento travado com o autismo da filha.wounded_amazon

Wounded amazon (integrante do chapbook  Persephone’s Ransom), segundo Jennifer, foi criado a partir da reação intensa que a filha, por volta dos dois anos de idade, manifestava em relação a Statue of a Wounded amazon, localizada na galeria de escultura greco-romana do Metropolitan Museum of Art, que mãe e filha frequentavam desde sua época de bebê, para as sessões de leitura e narração de histórias. Nele, pode-se ver a aproximação crescente entre a forma descritiva e o tom confessional, ainda mais marcante na última parte de Daughter: “With her serene, slanted face that will/Not betray pain, I can look at her again./You always loved her—the first work/Of art you knew by name. Each week/You brought me to her. Distracted/By joy at seeing her tall marble form,/I didn’t realize you were showing me/Whom I needed to become to protect/You from all you did not understand (…)”.

Nessa última parte de Daughter é onde está, talvez, o mais impactante entre todos os poemas que pude conhecer, sobretudo pela delicadeza e profundidade emocional. I would like my love to die, foi também publicado na Guernica Magazine, onde pode ser lido integralmente, representa um momento de purificação formal no trabalho de Jennifer, no qual ela se expressa em relação ao envolvimento com a filha de forma mais direta, sem motivos adjacentes e dando maior vazão aos próprio aspectos emocionais. O poema tem como base um verso de Samuel Beckett, “je voudrais que mon amour meure”, a partir de onde é desenvolvido: “I would like my love to die/Or at least that I didn’t love you/So much. If I could turn my heart/To winter, I wouldn’t need to do this/To the earth (…)”.

Seria absurdo pretender que, em uma apresentação rápida como esta, pudesse demonstrar muito mais do que está aqui. A ideia fundamental reside tão somente em desvendar a trajetória de uma poeta ao mesmo tempo delicada e vigorosa que, confrontada com uma realidade inesperada, exacerbou-a como significação poética de grande intensidade expressiva. Sua obra obteve um facho de luz através da monumental obra de Andrew Solomon sobre o amor e a condição humana. Talvez, por isso, seja possível compartilhar de sua aventura como quem pode prestar atenção na riqueza de sua experiência individual, como se através de seus próprios olhos, projetando-se com a potência dos mitos aos quais se remete para amplificar ainda mais nossa compreensão universal e atemporal do humano, tão embotada pela aridez a que, enquanto leitores, temos sido frequentemente expostos e/ou mantidos.

Mídia e deficiência: quando e como

Entre os próximos dias 13 e 15 de agosto, dentro da programação do VI Encontro Internacional de Tecnologia e Inovação para Pessoas com Deficiência, acontecerá uma série de mesas redondas destinadas a debater assuntos relacionados aos disability studies, ou estudos sobre a deficiência. A última delas, na tarde do dia 15, abordará os temas comunicação e deficiência.

Ao lado de Jairo Marques, jornalista que atua na Folha de São Paulo e de Lara Pozzobon, produtora do Festival Assim Vivemos e diretora da Lavoro Produções Artísticas, debateremos como esses dois assuntos relacionam-se entre si e também com outros assuntos, em suas diferenças e peculiaridades. Não são, infelizmente, tão comuns as iniciativas de debater as relações entre comunicação social e o tema deficiência e, por isso mesmo, há uma gama bastante grande de temas a abordar.

Desde que, em 2003, a ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância e a Fundação Banco do Brasil trabalharam em uma pesquisa quantiqualitativa sobre a emergência das temáticas da deficiência nos meios de comunicação, provavelmente nenhum trabalho tão abrangente e sistematizado foi realizado nesse sentido. Isso não significa que trabalhos pontuais, entre institucionais e acadêmicos, não tenham sido realizados no período, embora o âmbito predominante dos estudos sobre deficiência venha se configurando mais em outros campos do conhecimento, especialmente nas ciências da saúde e ciências sociais. O que se verifica, em decorrência disso, é a existência de lacunas consideráveis a respeito do conhecimento que se dispõe sobre a relação entre as duas temáticas.

Seria improdutivo procurar recuperar todo o apanhado e os achados daquela pesquisa sem que se pudesse atualizá-los efetivamente para, a partir daí, cotejá-los, embora esta seja uma demanda interessante a muitos atores sociais, como governos, movimentos sociais, associativos, etc. Por outro lado, os dados que procuramos levantar são bem menos específicos e realizados em uma metodologia diversa, tendo em vista a disponibilidade presente de novos recursos de tratamento e recuperação de informações, especialmente daquelas publicadas em meio digital no ambiente internet. Já do ponto de vista conceitual, as diferenças são menores, a não ser aqueles conceitos e realidades sociais que, no espaço de uma década, foram substancialmente modificados, como conceitos educacionais, dispositivos legais e outros.

Dessa forma, antes de partir a uma pormenorização maior, é preciso comentar que os dados obtidos tem caráter predominantemente quantitativo. Ainda que sua expressão permita algumas especulações de natureza qualitativa, isso apenas ocorre pela sua natureza de macroindicadores. Trata-se, portanto, não de um ponto de chegada de uma pesquisa extensiva, como a realizada pela ANDI em 2013, mas de um corte específico em uma realidade específica, talvez ponto de partida para análises e estudos mais detalhados e cuidadosos.

De um modo bastante geral, a relação entre meios de comunicação e as temáticas relacionadas à deficiência poderiam ser analisadas sob diversos critérios como, por exemplo, a forma, o conteúdo, abordagens, predominâncias conceituais e outros. No caso dos dados que queremos apresentar, nos fixaremos basicamente no tipo de ocorrência temática nos meios de comunicação e seus números no espaço preciso de tempo correspondente a um ano, considerando as informações disponíveis e indexadas pelas ferramentas de busca disponíveis atualmente e exclusivamente em informações da espécie “notícia” e “reportagem” e desconsiderando, para todos os efeitos, aquelas informações e conteúdos cujos proprietários reservam-se ao direito de organizar e disponibilizar por meios próprios.

Os dados exibidos no gráfico a seguir mostram exclusivamente a predominância temática de conteúdo jornalístico em relação aos temas transversais à questão da deficiência obtidos no período de tempo correspondente a junho de 2013 e junho de 2014, ou seja, são números absolutos de ocorrência obtidos em séries de recombinação pesquisados através do mecanismo Google News ©.

Além dos dados acima, obtivemos outros por cruzamentos que serão apresentados durante a mesa redonda, mas que necessitam ainda de alguma depuração, apesar de representarem algumas situações de forma bem clara, principalmente no que diz respeito ao conhecimento acerca da legislação interessante ao tema, educação e outros.

Em muitas análises jornalísticas e estudos acadêmicos sobre a relação entre os assuntos deficiência e comunicação social, é bastante presente a concepção de que o tema e subtemas são veiculados especialmente em datas comemorativas ou em função de outras variáveis menos conhecidas. Isso não explica, por exemplo, como o maior avanço legal obtido pelo movimento social das pessoas com deficiência, a aprovação com efeito constitucional da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, continue subalternizado em relevância e ocorrências a temas secundários. Caso compare-se os dados com outros temas – como saúde e educação, por exemplo – as diferenças fazem-se gritantes.

O que desejamos pensar a respeito disso sempre será menos importante que a realidade presente. Se os meios de comunicação produzem a informação ou, mais simplesmente, repercutem-na, isso ocorre a partir de uma determinada realidade social. O que os dados obtidos talvez nos indiquem seja onde a sociedade e o Estado poderiam atuar mais para concretizar um ambiente acessível e inclusivo. Mesmo que o tema venha continuar a ser, de certo modo, objeto de interesse mais ou menos restrito a instituições e agentes sociais envolvidos diretamente com as pessoas com deficiência, é preciso considerar que há mudanças em curso que são tanto resultado de políticas públicas governamentais como da ação social e civil propriamente ditas. Caso o conteúdo dos meios de comunicação sejam pensados como reflexo dos movimentos que acontecem internamente à sociedade então a própria deve ser capaz de provocá-los a ponto de refletir uma democracia e um estado de direito para todos, o que parece ser o desejo central de todos agentes sociais interessados às temáticas da deficiência.

Um capítulo a parte mereceriam as formas, terminologias, conceitos e preconceitos ainda elaborados e redigidos pelo jornalismo a respeito das situações de deficiência. Esse tipo de análise, contudo, já é bem mais presente graças ao envolvimento de entidades de defesa de direitos e do interesse do campo jurídico e de ciências sociais. Mas, diferente do aqui cogitado, esse é um tema que trata do “como” ao invés do “quando” e do “quanto”, não que tenha menor relevância, já que dá conta do imaginário, das narrativas e da representação real e simbólica das pessoas. Um capítulo a parte que merece ser tratado com mais cuidado que o disponível neste momento e que faz fronteira aos limites da linguagem e de como dispomos dela para considerarmos uns aos outros.

Luto pelo Brasil

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Não sou adepto do luto, nunca fui, não consigo. Não costumo lamentar-me se as coisas não dão certo ou se acabam. Se não dão certo, não deram. Se acabou, já era. Ponto final. Mas há poucos dias percebi como eu estava gravemente errado e percebi da falta verdadeira que o luto faz. Que essa mania de hiper ou autorresolução pode ser falaciosa e, mais que isso, perniciosa.

Toda essa reviravolta se deu comigo após assistir a um filme de animação japonês chamado “O Túmulo dos Vagalumes”. Os traços delicados de Isao Takahata ao desenhar os personagens do filme, produzido pelo Studio Ghibli em 1988, a princípio até pareciam que poderiam minimizar o impacto do enredo, mas não puderam. No Japão, o filme foi motivo de intensa comoção nacional na época de seu lançamento. É claro que seria, pois ainda estão vivas as pessoas que passaram pelos bombardeios norte-americanos durante a Segunda Guerra mundial e o filme mostra o que sabemos, mas às vezes parece que desejamos esquecer, porque o passado não é sepulto jamais na memória. Ali ele permanece vivo, mas ainda assim portando consigo a oportunidade de ser elaborado, reescrito e ressignificado. Em caso contrário, ele costuma permanecer no seu estado original, sempre muito ameaçador e doloroso.

Sobre o enredo do filme não há muito a contar, exceto de que seu final é trágico, porque as guerras e as respectivas mortes e descaminhos indevidos são as maiores tragédias que os seres humanos já conseguiram causar aos seus semelhantes. É que, ao envolver crianças, as tragédias sempre ficam mais evidentes e comoventes. É como se através delas fossem extirpadas possibilidades do futuro, como se arrancadas para sempre do tempo, inexoravelmente.

Eu penso que, se do ponto de vista pessoal, o luto é uma necessária etapa da compreensão que precisamos para seguir adiante, socialmente ele também deveria ter esse efeito. Mas, ironicamente, parece que “o social” não gosta muito de encarar perdas. É natural. Isso exige o enfrentamento de problemas reis e não seu mascaramento ou ocultamento. Quando isso acontece com os outros, então, mal merece um complacente resmungo, que dirá um luto verdadeiramente sentido.

Nesses termos, qualquer um pode concluir que o Brasil – talvez por ter incorporado muito fortemente a crença de que é um país feliz, do carnaval, etc. – é mesmo um lugar sui generis. Aqui conseguimos lamentar mais o fracasso da seleção de futebol na Copa do Mundo que o horror mascarado (ou nem tão mascarado) na escrita da história desta peculiar localidade geográfica.

Assim, caso alguém pense em questionar com seriedade o impacto histórico de fatos como escravidão ou do (ainda presente) genocídio indígena, por exemplo, logo é desacreditado como revanchista, antiprogressista ou adjetivos correlatos. Isso acontece tanto para feridas antigas como para recentes, como os escândalos de corrupção e a respectiva impunidade, devastação ambiental e violências de toda a espécie, que em seu conjunto conformam uma cartografia indesejável, mas também inocultável de todo.

Há mais de um ano já, em junho de 2013, muito mais que algumas pessoas mascaradas interessadas em ir à desforra de algo aparentemente ainda impreciso (isso mesmo passado mais de doze meses) foram às ruas em protestos que aconteceram em muitos lugares do país, das grandes cidades ao pacato interior. Não havia exatamente um tom de revolta popular, mas o início do que talvez poderia ser um movimento de luto autêntico e inédito, ainda que não de luta social declarada. Então, interrompido por pressões políticas diversas e narrativas esdrúxulas que implicaram em sentidos artificiais e impositivos, o cortejo desfez-se. Mas bem mais cedo do que deveria, isso pelo menos na minha opinião pessoal.

É por essa razão que o lamento da população negra a respeito da chaga mal resolvida da escravidão continua a ecoar nas periferias, onde – não curiosamente – vive a maioria dos descendentes daqueles que foram, por 388 anos, pessoas escravas e que hoje, 126 anos depois, continuam ocupando a área de serviço da sociedade, como demonstra recente pesquisa do Istituto Ethos e reportagem da Folha de São Paulo. É a mesma coisa com a população indígena, que continua sendo furtada e violentada em seus direitos fundamentais com a complacência e até mesmo conivência institucional e governamental. E é também, inclusive, o silêncio da torcida da seleção de futebol, que viu frustrada a promessa da sua grande festa, no hexa “que já estava vindo”. E o da população em geral que, diante de um período eleitoral que avança irrefreavelmente, ensaia um apoio tímido a candidatos políticos que insistem em perpetuar um tom político de progresso ufanista ou de revanchismo barato, mantendo as mesmas concessões de sempre, seja à hegemonia dos partidos de centro ou às agendas mais conservadoras de setores com promissores redutos eleitorais, como o dos setores religiosos, por exemplo.

É provável que o dissenso que foi às ruas em 2013 não retorne em 2014, como alguns esperaram que acontecesse antes da Copa do Mundo, ainda mais depois de que legislação repressiva foi instituída no âmbito do legislativo e os poucos remanescentes dos manifestantes perseguidos a exaustão e criminalizados. É que o dissenso foi se tornando motivo de outro dissenso e assim por diante, até sua dispersão final, como se uma ideia política pudesse esfarelar-se em meio gás lacrimogêneo das ruas e ao cotidiano da vida das cidades e tornar-se um tipo de desolação social ressentida. E assim deram-se e dão-se os fatos. Suspendemos a luta incipiente pela ausência de luto e pela falta de expressão das verdadeiras causas do incômodo social que continua a assolar a nação. No final, melancólico como os finais de qualquer coisa, vemos as imagens do nosso próprio futuro desperdiçadas em cartas bem conhecidas do jogo político.

Pelo que vai acima, eu quero acreditar que o luto que dava amostras de enfim transparecer no rosto de milhares de pessoas bem poderia ser retomado (afinal, o que mudou de lá para cá?), ainda que não retorne a luta (pelo menos naquele modelo de lutas) que se viu em junho de 2013 e que acabou por interromper um processo histórico com o qual a sociedade brasileira parece nunca querer encontrar-se, que é justamente o de reparar os próprios erros a partir de um esforço de compreensão (e não alienação) social. Ou então, pelo menos, que sua presença, a desse luto coletivo ou social, seja incorporada na escrita dos períodos históricos que há entre uma e outra copa de mundo de futebol e, claro, carnavais anuais e eleições periódicas. Quero dizer, um pouco de luto no flow do país do futebol e do carnaval não há de matar ninguém, não é mesmo? Quem sabe até pode evitar outras tantas perdas e tragédias.